Fig.46.1

votos haviam favorecido... os jacobinos. A saída era novo golpe de Estado possível com a popularidade de Bonaparte. Entretanto, Napoleão não tencionava vir a se constituir numa solução para o Diretório, e muito menos para Sieyès. Seu procedimento político, desde a campanha da Itália, mostrava apenas um compromisso: consigo próprio. E o desejo de vir a ser um novo Henrique IV de tempos democratizados, como único árbitro da paz civil na França e, talvez, em toda a Europa. Aceita um acordo com Sieyès apenas porque os momentos decisivos chegaram. Seus associados são agora secundários, apenas servirão para que ele chegue ao poder, sem meios para detê-lo, mesmo que queiram. Ele, Napoleão, é que é a bandeira no pantanal da França, é o soldado na opinião dos políticos é o povo na imaginação dos dirigentes. É a ideia monarquista, sinal dos tempos, que retorna para agrado da direita moderada. É a encarnação revolucionária aos olhos agradecidos dos comandados e do povo. É a segurança e a tranquilidade que a burguesia e os termidorianos tanto procuravam. É a síntese.
A 18-brumário ocorre o golpe que substituiria o Diretório pelo Consulado onde Bonaparte conseguiria completa hegemonia sobre os outro cônsules, Sieyès e Duclos. No dia imediato, ao enfrentar os jacobinos dos quinhentos, Bonaparte é ferido na 

 

testa, seu irmão Lucianochama os granadeiros em seu auxílio. o incidente serve para denunciar uma pretensa conspiração jacobina, ocultando por algum tempo o verdadeiro caráter do golpe de Estado até que a situação se esclarecesse. E as consequências foram o rápido alargamento das bases do poder. O rei da revolução, obstáculo intransponível para os bourbonistas exaltados, cativara os monarquistas moderados. O general, mão forte contra os remanescentes do igualitarismo sans-culotte, aparecia como consolidador da revolução aos olhos de boa parte do povo. Na sua quedas, os termidorianos chegavam aos seus objetivos: não haveria restauração. E a revolução terminara.

O significado
final da revolução

 Após o Brumário, pode-se perguntar pelo significado histórico da revolução francesa. O que se quis salvar, a todo custo, contra a ameaça reacionária de retorno do ancien règime? Sobretudo a igualdade, tal como esse termo era concebido após os dez anos de revolução.
A igualdade fora conquistada com muita luta frente à antiga sociedade nobiliárquica, caracterizada pelos privilégios de nascimento. Os dcretos de 4 a 11 de agosto de 1789, a abolição dos títulos de nobreza e a torrente de igualitarismo dos anos 92/93, haviam derrubado uma hierarquia social fundada nos direitos do sangue. Sob muitos aspectos, a extraordunária

 

Os ecos das dificuldades francesas no Egito ressuscitam a resistência dos
soberanos europeus contra a República francesa, que atravessa um momento perigoso. mas, os Exércitos republicanos recompuseram-se
e a vitória de Masséna em Zurique (fig.46.1) e de Brune na Holanda,
restabelecem a situação. Bonaparte, em seu retorno, não possui nenhum crédito nas novas vitórias francesas: a campanha do Egito não tivera
sucesso, e não lhe resta senão a glória - imensa é verdade - das
campanhas na Itália em 1796/97. Mas, Sieyès, que no momento controla
o Diretório, necessita uma espada, e acredita em Bonaparte. A 10 de
novembro de 1799, o Diretório é dissolvido, e seu lugar ocupado por
três cônsules (fig.46.3: posse do Conselho de Estado no palácio do Petit
Luxemburg, pintura de Couder; fig46.2:
Bonaparte, Primeiro Consul,
pintura de J. L. David, iniciada em 1799, e que permaneceu inacabada).


Fig.46.2


Fig.46.3

violência das reivindicações igualitárias entre 1789 e 1794, se explica por se constituírem no oposto dos preceitos das sociedades aristocráticas, na subversão sempre radical à ordem que precede um progresso revolucionário. A negação dos direitos do nascimento atinge seu apogeu sob o Terror com a santificação dos sans-culotte, antes a ralé mais espúria. Quando a onda popular, ao fim do terror, decresce de intensidade, o igualitarismo mantendo-se como ideologia revolucionária, muda no entanto de significado. Não é mais igualdade social, mas igual oportunidade a todos para que os mais aptos possam ascender numa sociedade que permanece diferenciada. Esse conceito, um dos fundamentos das sociedades contemporâneas, representou uma profunda modificação na mentalidade europeia.

 

 

De imediato, a revolução francesa mostrou-se como uma revolução nos empregos. Igualmente significou livre acesso de todos os cidadãos a todos os ofícios, que antes fossem reservados aos nobres, como o oficialato militar, quer a plebeus, como os monopólios das corporações de comércio ou de artesanato. Mas essa abertura dos empregos aos homens de talento representou menos o nascimento da livre empresa e mais o desenvolvimento do funcionalismo público e da burguesia estatal.
De fato, a livre empresa já era, no século 18, muito mais difundida do que se pensa, e as medidas revolucionárias que estabeleceram em definitivo as condições jurídicas de uma economia liberal, muito em breve tiveram efeitos desastrosos sobre a economia e a produção francesa. Por ouro lado

 

 a abertura dos empregos à livre competição só pôde concretizar-se com a criação de novos cargos, dada a massa ociosa que povoara a França do ancien règime. E tais cargos teriam que surgir à sombra da máquina governamental ou através da carreira militar. As intermináveis guerras exteriores, assim, constituíam-se para a França menos um ônus do que uma solução.

O despotismo
esclarecido

Dez anos haviam se passado, desde Sieyès e a Monarquia liberal de 1789, até Sieyès e a introdução ao império revolucionário, no 18-brumário. Na busca da igualdade, haviam se empenhado girondinos, jacobinos, sans-culottes. Em nome dela, a nação conhecera a revolução, levantes, Terror, golpes  de  Estado,  guerras  e  o Exército

 

missionário da nova França. Vários modelos de Estado foram propostos e experimentados, enquanto emergiam e se debatiam todas as correntes e contradições sociais da velha França.
Então, de repente, por mais uma ironia da História, a revolução se resolvia, não num de seus modelos, não numa filosofia política que lhe fosse própria, mas na revivescência de um eljo sonho de Voltaire e do século 18: o despotismo esclarecido.
Extinguiram-se os laços com o passado feudal, a aristocracia de sangue abandonava o poder e seus privilégios. Encerrava-se a revolução, a burguesia assumia a hegemonia, cumpria-se a História. Definia-se a igualdade, como sendo de oportunidades. A cada um de acordo com os seus próprios méritos. E ao de mérito maior, Napoleão Bonaparte, a própria frança submissa e agradecida.
 

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