Fig.40.1

Entre os homens que
agora detêm o poder,
há as mais diversas tendências
políticas: desde os velhos
girondinos, marginalizados
após os primeiros eventos
revolucionários, aos
jacobinos arrependidos,
e até alguns servidores do
Comitê de Salvação Pública -
como Napoleão, que estivera
no assédio de Toulon em
outubro de 1793 (fig.40.1)
Sieyès (fig.40.2), Hoche,
Barras, Bewbell (fig.40.3),
Revellière-Lepaux,
e Tallien (fig.40.4). Mas
todos agora identificam-se
pelo fato essencial de
representarem a
burguesia no poder.

déficit do Estado e não no investimento industrial; como os duques e barões, preferem a suntuosa prodigalidade ao paciente acúmulo de capital. Num protocolo renovado onde os jantares públicos substituíram a corte, as mulheres encontram seu primado mundano, gozando até - entre os limites da religião e do código civil - de uma excepcional liberdade. por esse motivo, os emigrados que retornam, como madame de Staël em 1795, ou Talleyrand um pouco mais tarde reencontram seu próprio mundo que, no entanto, para eles, aparece como um mundo equívoco. O Terceiro Estado não apenas conquistara o poder, mas também o completo acesso às mulheres bonitas e à alegria. E se atira com tamanha sofreguidão ao prazer, não é só para exorcizar as frustrações dos anos terríveis, mas também para arrancar da aristocracia os mais caros e reservados privilégios. É esse clima de avanço social que anima a paixão de Bonaparte por Josefina.
Mas não basta a festa parisiense para definir a sociedade pós-revolucionária, que conheceu mudanças mais profundas, como por exemplo, a acentuada baixa nas taxas de natalidade. Embora não haja muitos dados disponíveis, parece claro que o malthusianismo demográfico que caracterizou a França burguesa, manifesta-se ainda no século 18.

 

 

O fim das
grandes famílias

Em Crulai, vizinha a Laigle, na Normandia, os registros paroquiais pacientemente pesquisados por Louis Henry, demonstram que a queda da natalidade, o fim da grande família de ancien régime, coincide com os anos 90. O mesmo fenômeno ocorre em três regiões da Ile de France, e se confirma como uma análise dos dados globais sobre o conjunto dos habitantes. Claro que, em termos de população ativa, as repercussões não serão imediatas, e nem os Exércitos revolucionários, nem as forças imperiais, virão a se ressentir da falta de jovens para o recrutamento. mesmo mais tarde, sendo a França o mais populoso país da Europa, a diminuição da natalidade não chega a afetar a relação de forças no continente.
Entretanto, por outro lado, o fenômeno indica uma mudança de mentalidade. A diminuição na taxa de nascimento, persistente, regular e muito    acentuada,   para que   se possa explicar apenas pela presença do grande grupo de homens em armas, é, antes de tudo, consequência de um comportamento sexual mais controlado e de uma rápida difusão dos anticoncepcionais nos ambientes populares, o que sem dúvida se relaciona com o caráter laico da revolução.

 
Fig.40.2

Fig.40.3

Rompendo as ligações com Deus, um grande número de franceses - não só aristocratas e burgueses como na época das luzes - assume um novo comportamento. Produto da revolução industrial, as teses de Malthus acabam sendo praticadas (sem nenhum conhecimento teórico) pelos camponeses da França. Ao invés da Inglaterra fabril, é a França agrícola que dá guarida ao malthusianismo, mostrando que, no continente, a evolução social acabou por preceder, de muito, o desenvolvimento econômico. Sem relação com o industrialismo, a redução da natalidade na França encontra-se ligada à transformação do regime de propriedade do solo. as terras do Estado (bens confiscados à nobreza e ao clero) foram, conforme a legislação revolucionária, revendidas aos interessados, em pequenos lotes. Embora a burguesia tenha sido a grande beneficiária da medida, muitos

 

camponeses  sem  terras puderam também tornar-se proprietários (no norte, de 30 mil cidadãos que adquiriram bens nacionais, cerca de um terço nada possuía antes de 1789). A ascensão social adquirida com a propriedade é lenta e metódica, e os senhores rurais desenvolvem em comum a ambição de continuar a progredir, legando a seus filhos uma posição privilegiada. Para assegurar aos descendentes as melhores possibilidades de sucesso, tornava-se imprescindível uma prole pouco numerosa, sem o que a divisão da herança implicaria o empobrecimento geral. O romance de Padre Grandet é, nesse momento, uma aventura nacional.    Nas cidades,     as mudanças sociais desses anos permanecem muito pouco conhecidas, ma seu significado é certo: toda uma pequena burguesia de mercadores e artesãos alimenta-se da penúria e da inflação, armazenando e

 

 

antecipando a alta dos preços. ao mesmo tempo, a Declaração dos Direitos e o fim da transmissão hereditária de cargos haviam aberto o acesso aos empregos públicos. Durante a fase jacobina, a revolução ameaçada multiplicara o número de funcionários, muito deles de origem modesta. Assim, a cidade francesa transformou-se: o nobre fugira do seu palácio, o advogado dispunha de menor riqueza que sob Luís XVI, os que viviam de rendas haviam perdido o capital e a segurança. A França burguesa começava a assumir seu aspecto moderno privilegiando o dinheiro e o poder, vale dizer, os mercadores e deputados, exemplos vivos do sucesso, a estimular a imaginação dos mais ambiciosos entre    os     comerciantes    e empregados. A Chaussée d'Antin substituiu o Fauborg Saint-Germain  nos sonhos dos jovens.
Liberta das restrições e dos direitos hereditários, a sociedade igualitária   se  abandonou    ao

   

 

lema de cada um segundo o seu talento.

As últimas
lutas populares

Mas é uma sociedade ainda muito recente para que se possa constituir facilmente um sólido ponto de apoio político. Muito recente, e sob a pressão de uma pesada herança, a inflação desordenada, agravando-se com o abandono da planificação econômica, vai juntar-se às fracas colheitas de 1794/95 para ampliar a miséria. Já na primavera de 1795, a penúria desperta a memória popular e terrorista. O Terror? A Convenção acreditava haver banido para sempre tal fantasma ao prevenir os jacobinos, condenando o mais comprometido dentre eles, Carrier, o afogador de Nantes. Entretanto, precisou ainda quebrar as últimas insurreições dos subúrbios de Paris, onde os mendigos em coro bradavam por pão... e pela Constituição


Fig.40.4

 

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