que era possível, ei-lo prisioneiro e, bem cedo, vítima. Mas, por não terem a coragem de mudar a dinastia, como os ingleses em 1688, os burgueses moderados e os nobre liberais se condenam pelas próprias mãos.

 Chegou a hora
da democracia

  Todo o edifício que construiram está arruinado e só uma coisa é certa: chegou o momento da democracia: a tomada das Tulherias e a queda do rei não se limitam a indicar, como a 4 de agosto de 1789, uma revolução social. Deste ponto de vista, o verão de 1789 uda a fica como acontecimento fundamental da história contemporânea francesa.
O que muda a 10 de agosto são os grupos dirigentes da revolução:geralmente recrutados nas camadas mais modestas da burguesia, a maior parte dos democratas não são mais os homens daquela sociedade de elite formada no século 18. Herdaram o respeito pelo direito da propriedade, mas não o desprezo pelo povo: de resto, contribuindo para lançar a revolução no continente europeu, viram-se obrigados a recorrer ao concurso popular.
     O patriotismo revolucionário assumiu o aspecto de uma religião que se permitia o direito de exigir todo o sacrifício em troca da promessa de uma sociedade mais igualitária e menos dura para os pobres. Todo o problema, porém, está em saber quais as concessões que os novos dirigentes da revolução estão dispostos a fazer para manter a aliança de 10 de agosto frente à Europa dos reis.

 
Fig.25.1


A GIRONDA
E A GUERRA

Antes de 10 de agosto, os girondinos hesitaram. Se, de um lado, a tomada das Tulherias libera a guerra do ônus real, do outro faz pesar sobre sua política o elemento popular. À espera que se reúna a Convenção, os amigos de Brissot, que continuam a dominar a moribunda Assembleia, são obrigados a fazer acordos com Paris vencedora. Permitem que a comuna insurrecional, com Robespierre, exerça uma ditadura urbana que prenuncia a política do Terror de 1793.
Enquanto Luís XVI é recolhido com a família à prisão de Temple, os comitês de vigilância das seções interrogam os culpados  e os suspeitos de tendência monarquistas. Humilhada, a Assembleia legaliza o que não pode impedir: nomeia um conselho executivo de seis membros,

 

no qual, ao lado dos velhos ministros girondinos, populares; institui um tribunal extraordinário; autoriza a requisição do trigo; aumenta as penas previstas para os padres rebeldes; suprime as Ordens dos educadores e as hospitalares; vota a laicização do estado civil e a instituição do divórcio. Não obstante tudo isso, sua presença dá segurança a uma província onde ainda permanecem vivas algumas municipalidades fueldenses.

A Europa dos reis
ameaça a França

A Assembleia também faz algumas concessões aos camponeses: as propriedades dos emigrantes são colocadas à venda em pequenos lotes, em troca de uma renda anual, e a necessidade do resgate dos cânones aristocratas desaparece, exceção feita aos casos em que podem ser apresentados os documentos originais.

 

As consequências de 4 de agosto vêm precipitar e consolidar a aliança revolucionária entre a cidade e o campo. Mas este período provisório, em que bem ou mal coexistem dois poderes antagônicos, é dominado sobretudo pela invasão. Depois de toda a lentidão e as dissensões que fazem retardar a entrada na guerra, as fronteiras francesas são invadidas em meados de agosto pelos austríacos ao norte e alemães a leste. A 20 de agosto, sob uma chuva incessante que constituirá precioso aliado para a revolução; o duque de Brunswick bombardeia Longwy, que capitula no dia 23; Verdun, assediada no dia 29, rende-se a 2 de setembro. Diante dos 80 mil homens de Brunswick, Dumouriez, sucessor de Lafayette, não dispõe de mais que 30 mil.
Será o início do movimento militar frequentemente prenunciado pelos emigrados franceses?


 
A guerra, agora, assume um novo aspecto. Não é mais a velha guerra tradicional entre Exércitos reais, mas uma guerra nacional. A 11 de
julho de 1792, a Assembleia declara "a pátria em perigo"
(fig.25.1: celebrações, em Paris a 22 de julho, por ocasião do
acontecimento); a nação inteira é mobilizada; de todas as cidades
francesas convergem a Paris batalhões de voluntários, entre os quais
os famosos Marselheses com seu hino (fig.25.2), e - coisa mais grave - agora se fala abertamente em República. E se fala dela mais
abertamente ainda depois de 1 de agosto, quando o duque de
Brunswick, comandante das tropas inimigas, declara-se
a favor da família real francesa.
 

 

 

 

 

 

 

As notícias de Paris resultam imediatamente em duas respostas - do governo e popular. Frente ao perigo, Danton mostra-se como o verdadeiro chefe do Executivo. Este advogado de modos antiquados, notório entre os democratas parisienses até fins de 1789, é uma grande personalidade   política,  plena
 
 

de energia espiritual e de decisão, mas contaminada pelas fraquezas do prazer e do ceticismo.
Os adversários já o chamam O Mirabeau do povo, mas ele é sobretudo o Mirabeau do verão de 1792, que sabe aproveitar o momento de sua vida. O sectarismo da comuna e  os   medos   da  Gironda   lhe   são
 

Fig.25.2

 

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