As confrontações políticas, de forma rapidíssima,
vão sobrepujando os homens, os comandos. É todo um país
que parece tomado de uma grande paixão política.
As idéias se encontram e se chocam: desde a Sociedade dos Amigos
da Constituição - que forma o núcleo central dos que serão os jacobinos
(fig.16.1: reunião do clube dos jacobinos), aos conselheiros e às reuniões
políticas das mulheres (fig.16.2: guache de P. E. Le Sueur), à proliferação
da imprensa (fig.16.3: três jornais da época) é tudo uma animação,
um discutir, um novo viver político. Mas isso não implica ainda em
ruptura dramática. Ao contrário, acredita-se numa espécie de
união nacional, que, concentrando-se ainda no rei,
encontre seu verdadeiro e novo significado
na liberdade que terá sua mais completa
expressão a 15 de julho de 1790, por ocasião
das celebrações do primeiro aniversário
da tomada da Bastilha (fig.16.4)


 
Fig.16.1



Fig.16.4

Fig.16.2

esteve tão ativa e brilhante como nesses anos de 1790 e 1791. Salões, clubes, jornais são pontos e instrumentos de discussões: aparece um mundo aberto e maravilhosamente novo, a política absorve todas as inteligências e indica as possibilidades da civilização iluminista. Em dezembro de 1789 toma forma a Sociedade dos Amigos da Constituição, com sede na rua Saint-Honoré, no antigo convento dos jacobinos, dos quais conservou o nome. A elite da burguesia parisiense, que exclui os pobres

 

cobrando uma pesada mensalidade, adquire o hábito de discutir os grandes problemas debatidos na Assembleia; em menos de dois anos chega a controlar cerca de uma centena de sociedades provinciais, criando uma espécie de teia revolucionária em torno do grupo dos jacobinos.
No verão de 1789, os deputados patriotas sabem perfeitamente que não serão nada sem o apoio da nação e sobretudo sem o apoio de Paris. E não o esquecem.
 

 

Em Paris existem agora três poderes: a Municipalidade, a Guarda Nacional e as seções. Os primeiros dois, eleitos ou criados como base no censo, são sempre o ponto de equilíbrio da ordem da grande cidade. Mas as 48 seções - que substituíram em 1790 os 60 distritos - tem também um papel importante: com suas assembleias primárias, com seus comitês que englobam também o poder de polícia, com suas ordens, suas petições, manifestam-se como expressão direta da soberania

Fig.16.3
 


popular. No inverno de 1789-90 um violento conflito eclode no distrito dos franciscanos, liderado por Danton, no Chatelett de Paris, que procura inutilmente prender Marat por seus artigos incendiários. Assim, toda a democracia parisiense se educa numa sucessão de lances revolucionários e no zeloso controle de seus mandamentos.

O aniversário da
queda da Bastilha

O vazio criado com a queda do antigo Estado e do isolamento do poder executivo está cheio da exaltação coletiva da unidade nacional, em contraposição a todos os particularismos do ancien régime. No verão de 1789, as federações entre a cidade e as províncias têm como primeiro objetivo a segurança; mas a ideologia se ressalta ainda mais, graças a afirmação geral de que nasceu uma nação que baseia sua unidade na própria liberdade. A história da França não cessará jamais de ser marcada por essa ideologia. Para o primeiro aniversário da Queda da Bastilha, a Assembleia organiza, no Campo de Marte, a grandiosa festa da Federação, na qual Paris e as províncias celebram sua comunhão na religião da unidade revolucionária. Na presença da família real e à frente  de  todas
 
 

 


 as delegações e do povo parisiense, o bispo de Autun, Tayllerand, celebra missa solene. Ali, no mesmo altar, Lafayette jura fidelidade à nação, à lei e ao rei. “Os espectadores estavam inebriados” – dirá mais tarde madame de Staël – “pois naquele momento o rei e a liberdade pareciam completamente unidos. Uma Monarquia limitada sempre foi o verdadeiro ideal da França e o último ato de um entusiasmo verdadeiramente nacional manifestou-se nessa federação de 1790”.
A alegria da celebração parece, realmente, confirmar uma espécie de reconciliação e um novo equilíbrio político e social; nessa primeira metade de 1790, quando a popularidade de Lafayette está em seu ápice, pode parecer realmente que a nobreza liberal e a burguesia moderada estão a ponto de fundar aquele regime de notáveis iluminados com que o século sonhava. Mas primeiro é necessário que o compromisso político  e social  que a Assembleia elaborou seja aceito e ratificado de forma tão absoluta que possa anular as ruínas da tempestade de 1789.
Nesse momento, não é o caso: a nova   França   é   uma   França

 


burguesa. Uma única frase da Declaração contém quase tudo: “Os franceses nascem e vivem livres e iguais em seus direitos.” Frase que não indica apenas a negação do poder arbitrário, o habeas corpus  inglês, a liberdade de consciência e de opinião, mas garante também a igualdade de oportunidades, que é a grande reivindicação do antigo Terceiro Estado.

Um novo homem
o cidadão francês

A esse respeito o momento decisivo foi o 4 de agosto, que aboliu os privilégios pessoais, ou de coletividades, e a desigualdade das própria terras; os títulos de nobreza são abolidos um pouco mais tarde, a 16 de junho de 1790. Assim se estabeleceram as bases da formação de uma sociedade igualitária , na qual os homens não são considerados segundo seu nascimento ou sua religião, nem protegidos de seu ambiente secular, mas livres para o seu futuro individual. O reino de França se transforma numa sociedade de indivíduos de direitos iguais. É esse o significado exato do termo cidadão, do  qual a  revolução faz  grande   uso,   como  para

 

 

 

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