A tomada da Bastilha que, numa perspectiva histórica,
parece um momento determinante, não foi mais que um
começo: outras conquistas viriam: a 4 de agosto
suprimem-se os últimos privilégios feudais (fig.1:
abolição dos privilégios, numa gravura de Helman de um
desenho de Monet); depois vem a sanção definitiva dos
Direitos do Homem e do Cidadão.
A revolução se espalhará como uma mancha de óleo:
de Paris e das cidades atinge o campo.
O ódio camponês, reprimido por séculos, explode com
violência: os castelos, símbolo do velho regime,
são assaltados, saqueados, incendiados (fig.2: nobres fogem do castelo, assaltado por camponeses). A supressão
dos direitos feudais é uma vitória fundamental (fig.3:
clero e nobreza carregando o Terceiro Estado.
Os animais mortos representam o direito à caça,
adquirido também no processo revolucionário pelo
camponês, que carrega um dístico "paz e concórdia").

assim, cancelado. Às 3 da manhã, para liga-lo solenemente ao nascimento do novo mundo, a Assembleia proclama Luis XVI "restaurador da liberdade francesa".
Os debates prosseguem, até o dia 11, para redigir, na forma desejada, as exaltadas decisões da grande noite. O decreto final diz que "a Assembleia Nacional destrói inteiramente o regime feudal". Em resumo, isso consagra o fim dos privilégios pessoais, o livre acesso aos empregos, a Justiça igual e gratuita para todos, a abolição

 

da sobrevivência de toda a servidão pessoal e a supressão, sem direito a ressarcimento, da décima eclesiástica que gravava sobre os camponeses. Também é declarada resgatável a maior parte dos foros senhoriais e os cargos de juiz: a Assembleia quis manter todas as propriedades, embora integrando-as no novo direito.
Pouco importa, no momento, que ninguém no reino queira resgatar seus foros seculares: o país não se lembra nada de 4 de agosto, a não ser da abolição do regime feudal. A massa camponesa dá-se por satisfeita,   somente  porque  se


 
 

italianos de Savóia no Delfinado, os ingleses na Bretanha. De vila em vila a falsa notícia se propaga e cresce, enriquecendo-se de lenda e emoções. E domina toda a área camponesa. Os camponeses vigiam e se armam como podem. Pode-se, assim, seguir dia a dia, de região em região, o desenvolvimento do "'medo", com suas ramificações. A miséria mais profunda, mais atávica, ergue a cabeça somente diante do pânico e da ameaça.
Em Versalhes, os deputados descobrem, com surpresa, a fragilidade social de uma civilização aparentemente brilhante. Burgueses ou nobres, todos têm razão de crer que a revolta camponesa investirá contra o próprio fundamento da sociedade: o direito da propriedade. A maior parte da Assembleia encontra-se, assim, diante de uma decisão difícil: restabelecer a ordem com a

 

a força (mas isso significaria desprezar a fonte comum do 14 de julho), somar as novas milícias burguesas com os mercenários reais contra a população dos campos, e se colocar a serviço do rei.
Ou extinguir o fogo, concedendo-lhe o espaço que lhe cabe, mas do modo mais rápido e mais completo de quantos já tenham sido previstos: não bastará a igualdade fiscal, nem bastará abandonar, em França, tudo o que resta da antiga servidão pessoal. É o todo, o regime de postulados senhoriais e eclesiásticos, que é posto em discussão. Depois de estar, por um momento, inclinada à repressão,a maioria se decide pela outra estratégia: na noite de 3 para 4 de agosto, uma centena de deputados, reunida no clube bretão, num café de Versalhes, decide romper a indecisão    geral,   tomando  a

 

iniciativa no sentido das concessões inevitáveis. Na noite do 4, a nobreza liberal mostra o caminho: é através das vozes de um filho mais novo de uma família pobre, o visconde de Noailles e de um dos mais ricos senhores do reino, o duque de Aguillon, que o grande clamor camponês força as portas da Assembleia. É o que origina a atmosfera filantrópica da famosa noite de 4 de agosto, o que não exclui o cálculo político: Aguillon consegue obter a igualdade fiscal, a abolição pura e simples dos corvées, e da servidão pessoal e a diminuição dos outros direitos feudais para até 3,3 por cento. Essa taxa de juros muito baixa dá uma clara demonstração de que os senhores tiveram muito cuidado ao avaliar ao máximo o capital que deve ser resgatado. Trata-se de converter    o   velho    direito senhorial e o bom dinheiro  burguês. Os nobres assim salvam

 

o essencial, enquanto os proprietários do Terceiro Estado têm tudo a ganhar da proclamada igualdade entre a terra nobre e a terra plebeia.

O Luís XVI, restaurador das liberdades francesas

Mas o abandono do princípio feudal torna-se tão importante, que uma ânsia de renovação toma conta da Assembleia: há uma disputa para ver quem, da tribuna, abandona mais velozmente os privilégios do mundo antigo, em meio a ovações gerais. A mais célebre noite parlamentar da história da França consagra o fim da venalidade dos cargos e a possibilidade a todos de chegar, da mesma forma, a todos os empregos, o abandono de todos os privilégios provinciais ou locais, e o triunfo do espírito "nacional". Os velhos Parlamentos já esquecidos. já superados seguem a sorte comum.    O    ancién   regime é,

    sente vitoriosa sobre os senhores.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

Como se desenrolam rapidamente os acontecimento! Logo após haver sistematizado, com calor, o problema senhorial, a Assembleia empreende a discussão sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que deve transformar-se no preâmbulo da nova constituição. Votado a 20 de agosto, o grande texto consagra os valores da nova ordem - liberdade, igualdade, soberania nacional - impostos pela consciência dos burgueses e pela impaciência popular.
Mas, Luis XVI não concorda em sancionar nem os decretos de 4 a 11 de agosto nem Declaração. O problema dos dois poderes se reproduz, então, nos mesmos termos de 1 de julho: o rei teria autoridade de veto sobre a Assembleia?

 

Os mais moderados dos revolucionários estão prontos a concedê-la. Porque, alguns dentre os que levaram os Estados Gerais à revolta, alguns que emprestaram o próprio aplauso ao 14 de julho, se preocupam em estancar aquele mecanismo que eles mesmos tinham posto em movimento e que então se paralisava. Esta, nos fins de agosto, é a primeira cisão no campo revolucionário que, em seguida deveria enfrentar muitas outras. Para estabilizar a revolução, Mounier e seus amigos monárquicos, sustentados por Necker, contam com o veto real e com um senado hereditário, do tipo inglês, dando assim aos rancores aristocráticos, o apoio da primeira moderação burguesa.
A Assembleia não concorda com eles, nem sobre o veto real, nem sobre o estabelecimento de uma segunda Câmara.

 

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