A reunião dos Estados Gerais é realizada a 1 de maio (fig.1). A situação do país, nesse meio tempo, se agravou: para isso contribuiu uma crise breve, mas de extrema violência.
A surpresa é que, em contraposição ao bloco
compacto e homogêneo, constituído
pelos representantes do Terceiro Estado, os outros dois grupos
- nobreza e clero - não se apresentam com igual união,
e, de fato, alguns de seus membros aderem ao Terceiro Estado. É isso que possibilita aos Estados Gerais
assumir, em 17 de junho, a denominação
de Assembleia Nacional, delineando a vontade de representar não apenas três classes mas a unidade da nação (mesmo que, a bem dizer, nessa representação esteja completamente excluída
a popular: entre os membros de Terceiro Estado, realmente não havia um só operário, um só artesão, um só camponês).
Impelido pelos acontecimentos,
o rei resiste e anuncia para 23 de junho uma mensagem
aos Estados Gerais. Os membros da Assembleia Geral,
 convocados a 20 de junho para uma reunião,
encontrando fechada a sala que deveriam
utilizar, decidem reunir-se assim mesmo,
num grande salão destinado ao jogo de pela.
A reunião se faz ali mesmo (fig.2: "Juramento da pela",
estudo de J.L. David), e se transformará
em uma nova prova de firmeza do
Terceiro Estado e de quantos, então,
se alinharam em suas posições.

 
 

durante o período que precede as eleições para os Estados gerais, os milhares de panfletos dirigidos à nação adquirem tom cada vez mais violento. Até que surge o famoso folheto de autoria de Sieyés  , com o título O que é o Terceiro Estado? Ali, numa frase só, está toda a ideia latente no movimento geral: "A nobreza é claramente estranha à nação, por causa do seu ócio."
Documentos importantes são, sem dúvida, os famosos Cahiers de Doléances, editados pelas Assembleias locais das três ordens. É verdade que, neles, não há a contribuição nem do camponês, nem do operário desempregado, que nãosabem ler e que os homens de letras atenuam o impacto das expressões verbais: mas é fora de dúvida que ali se podem encontrar ecos da situação reinante. São documentos aos quais pode recorrer o pesquisador da história moderna, para retratar a realidade de então. Os Estados Gerais tornam-se assim completamente diferentes do que inicialmente se previa, isto  é,    

 

um  instrumento   para enfrentar somente o problema financeiro. São investidos da missão de "regenerar" o reino, com uma constituição descentralizadora e liberal, que garanta para sempre os direitos naturais do indivíduo, direitos que se expressam na filosofia do século: liberdade individual, propriedade, tolerância intelectual e religiosa, votação obrigatória dos impostos pelos estados gerais, em reuniões periódicas.

Os documentos
do conflito

Ao rei, já afastado da nefasta influência de sua entourage, resta atuar como suprema garantia desses benefícios. Além dessa aparente unanimidade nacional - que é, em si, uma revolução - há os múltiplos conflitos da França antiga: a sociedade dos estados e das classes sociais vive conflitos infindáveis, como por exemplo, camponeses pobres contra agricultores ricos, a respeito da divisão dos bens comuns, negociantes e mestres de obra sobre a liberdade de trabalho,

 

bispos e padres sobre a liberdade da igreja, nobreza e clero sobre a liberdade de imprensa, tudo retratado nos textos dos Cahiers, na sua linguagem cautelosa, mas clara. Mas, a diferença substancial é, sempre, aquela que separa os privilegiados do resto da nação. Isso porque o Terceiro Estado não reclama apenas o voto por cabeça para estabelecer a preponderância política. Nem apenas a igualdade fiscal, que os Cahiers da nobreza terminam por conseguir amplamente: reivindica a plena igualdade de direitos acesso a todos os empregados públicos e escalões militares, a abolição dos direitos senhoriais - enfim, o fim da sociedade de ordens, de escalões. Não se trata, então de uma nova forma de governar do Estado, mas sim de uma nova sociedade, e or isso os privilegiados se opõem a essa revolução suplementar de igualdade. E isso é mostrado claramente na maior parte dos Chahiers.

  A conjuntura econômica acelera o movimento de decomposição da hierarquia tradicional. Se o rei desejar, como no passado, retomar sua autoridade diante da divisão dos súditos, esse é o momento oportuno. Os deputados dos Estados Geraislse dirigem à Paris nos fins de abril: a sessão de abertura está marcada para 5 de maio, em Versalhes.

A QUEDA DO
"ANCIEN RÉGIME"

Entre maio e outubro de 1789 todo o ancien régime é abalado. Em cinco meses, pouco mais de uma estação, no mais extraordinário verão da história da França, a desintegração da velha estrutura abre caminho para as forças anárquicas e para as forças de reconstrução do reino. A mudança de ritmo é muito rápida para não marcar, de modo profundo e duradouro, toda a consciência nacional, que até hoje guarda traços evidentes disso tudo. O culto e o horror pela revolução.

 

Página 01 Página 02 Página 03 Página 04 Página 05
Página 06 Página 07 Página 08 Página 09 Página 10