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Mas, nenhuma destas três evoluções foi possível. A primeira, um sonho ultrapassado, era sem e a Monarquia francesa não escolheu nem mesmo apoiou qualquer das outras. A segunda se mostrou muito oligárquica, numa sociedade civil em rápida expansão, onde os altos postos eram muito importantes, para serem destinados apenas para os bem-nascidos. Quanto à terceira, os reis de França nunca chegaram a examiná-la, pelo menos até 1787. Por seu lado, a nobreza nunca aceitou o preço a pagar, que seria a perda dos privilégios fiscais e a constituição de uma classe dominante, baseada na riqueza: aquela Monarquia de proprietários, por um momento delineada por Turgot (1690-1751). |
![]() Fig.4.1 Alegoria da opressão ao Terceiro Estado, por parte das duas classes privilegiadas |
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Essa é a crise do século 18, na França. Nem o rei de França, nem a nobreza souberam praticar uma política ou firmar instituições que pudessem integrar Estado e sociedade num mínimo de acordo. Na falta disso, a ação real oscila entre o despotismo e a capitulação diante do problema central dos impostos e à nobreza resta um único caminho de reunificação; a hostilidade ao Estado, em nome de uma identidade social, da qual, da qual ela própria perdera o segredo e não conseguirá jamais ressuscitar. Por isso, não é de surpreender que o mecanismo da revolução viesse trazido pela própria nobreza. Quando em fevereiro de 1787, o controlador geral das finanças, Calonne, sem mais recursos, decide convocar uma assembleia dos "notáveis" do reino, pensa desfechar um ataque generalizado contra o Estado. Sobrevém, contudo, a crise econômica. O povo então se precipita pela brecha que lhe é aberta, e isso muda as dimensões dos acontecimentos. |
A CRISE DO
Em 1787 a crise financeira do Estado, latente há um século assume tais proporções que não pode mais ser enfrentada com as medidas normais. Os maiores ministros de Luís XV e Luís XVI, Machault d'Arnouville, Terray, Tourgot, Necker todos falharam nas tentativas de racionalizar a aplicação de impostos, em face da resistência da sociedade civil e dos velhos privilégios fiscais da sociedade clássica. Calonne, controlador geral das finanças desde 1783, desenvolve uma política econômica de expansão, sem querer tocar no problema social dos impostos. No começo de 1787, vê-se diante de uma crise inevitável e, para enfrenta-la, tenta conquistar a simpatia da opinião pública, reunindo uma assembleia consultiva dos "notáveis" do reino, em fevereiro. Com essa convocação, a monarquia francesa é integrada num mecanismo de consulta, no qual um poder forte e uma política definida poderiam encontrar apoio, mas um |
poder débil e indeciso arrisca-se a revelar o próprio isolamento e enfrentar a própria queda: uma única brecha no muro e será o caos. O pequeno golpe de habilidade de Calonne dá assim, oportunidade a um dos maiores desastres da História, assinala a mudança que é um dos significados da palavra revolução. O candidato de
Tudo nasce, portanto, daquela nobreza: porque aqueles notáveis, descontando alguns bispos, parlamentares e representantes do Terceiro Estado, eram, na grande maioria nobres. É que aquela pequena assembleia foi investida de repente de um papel muito grande para as suas forças: o de representar a nação É um curioso espetáculo, o que oferece esse controlador geral que reúne os maiores acionistas de uma sociedade, para pedir-lhes a supressão do lucro. Mas, Calonne conta com o masoquismo de seus interlocutores. Adulada pela opinião pública parisiense se alvoroça facilmente, enquanto
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os projetos de Calonne ameaçam de modo concreto a tradição: e ela não faz outra coisa que ser empurrada pela correnteza até transformar o homem que procurava garantias num bode expiatório. Este é o sentimento geral da grande cidade, muito presente e ainda nostágilca do bom Necker. Calonne se transforma na encarnação do déficit e de uma ação financeira desajuizada. Os 113 milhões que ele constatou de déficit são atribuídos somente à sua gestão. Em abril o rei cede à pressão dos notáveis e substitui Calonne por um dos mais ardentes dentre eles, candidato de Maria Antonieta, o arcebispo de Toulouse, Loménie de Brienne. Prelado ambicioso e filósofo, o arcebispo arregaça as mangas. Toma medidas liberais, como o reconhecimento dos direitos civis dos protestantes - o que escandaliza o clero. Presta contas aos membros daquela assembleia de notáveis, sobre a situação das finanças. Mas, mesmo assim, precisava voltar-se ao essencial: encontrar dinheiro, descobrir recursos. |
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