As vésperas da revolução, os monarcas
Luis XVI (fig.02.1 em um quadro de S.J. Duplessis)
e Maria Antonieta (fig.02.2: pintura de L.L. Périn Salbreux_ -
parecem governar alegremente. Seu reinado é o Louvre
(fig.02.3: "Vista da Place Luis XV" de L. N. de Lespinasse)
e, em volta dele, estende-se a cidade que, no século 18,
é, sem dúvida a mais bela da Europa: Paris
(fig.02.4: vista de Paris em uma
 ilustração de 1789 de L. N. de Lespinasse).

 

 


 


Fig.02.3


Fig.02.1
 
Fig.02.2

de sucessão para o trono, as propriedades de seus súditos, por exemplo, estão fora de sua área de influência. E é bom lembrar que os reis de França não alicerçaram seu poder nas ruínas da sociedade tradicional mas, ao contrário, o construíram pagando o preço de uma série de conflitos e transações exatamente como aquela sociedade que, ao final, se viu impregnada de múltiplas ligações no novo Estado. Tudo isso tem a motivação ideológica, que vem do fato de que a monarquia francesa não rompeu completamente com a velha tradição patrimonial do poder: o rei de França continua o senhor dos senhores, enquanto se transforma, ao mesmo tempo, no chefe dos departamentos burocráticos de Versalhes.

 

Versalhes. Mas, o fenômeno tem também razões fiscais: para encontrar meios de sustentar a interminável guerra de supremacia contra os  Habsburgos, os Bourbons - e antes deles os Valois - transformam tudo em dinheiro, sobretudo os privilégios e as "liberdades" do corpo social. O privilégio é o direito perene do grupo, em relação ao poder central: é a imunidade de uma cidade, as regras de recrutamento de uma corporação, a isenção fiscal de tal ou qual comunidade. Suas origens são variadas e se perdem na imensidão dos tempos, mas já consagradas pela tradição. O rei não elimina, mas mercadeja com seus titulares - ou herdeiros - contra moeda sonante. Premido pela

 

necessidade ele multiplica, vendendo ate uma parte do poder publico a particulares, com o nome de "cartórios". A instituição é antiga, mas a propriedade hereditária de um cargo público data somente do início do século 17 e a partir desse momento a venda dos "cartórios" prolifera, devido à necessidade de dinheiro por parte do rei, durante a Guerra dos Trinta Anos (1618 a 1648). Ao lado do intendente, funcionário nomeado e substituível, Luís XIII e Luís XIV criaram, assim, um corpo de servidores do Estado proprietários do próprio cargo. É uma arma de dois gumes, porque se a venda maciça dos cargos

 

possibilita a volta aos cofres reais do dinheiro dos ricos, burgueses e nobres, ao mesmo tempo em que lega ao Estado um novo e potente grupo de beneficiários liderados pelos membros das cortes soberanas, também reforça a independência da propriedade privada. Luís XV não cessará de opor-se a isso. Mas, premido pela própria necessidade e preso à palavra de seus antecessores, pelo fato de se manterem as mesmas condições não conseguirá suprimir o perigo.

A instabilidade da Monarquia Absoluta

   A Monarquia chamada "absoluta", não é, pois, mais do que um compromisso

 

instável, entre a criação de um Estado moderno e a sustentação de uma sociedade ainda ligada ao feudalismo. Um regime misto, entre patrimonial, tradicional e burocrático, segundo a expressão do sociólogo Max Weber, que tece uma ininterrupta teia de subversões no corpo social. Durante a metade do século 13, o rápido aumento dos impostos - aqueles impostos diretos dos quais a nobreza, o clero e muitos cidadãos estão mais ou menos isentos - provocou revolta no mundo agrícola, apoiada pelos nobres tradicionais, que não conseguem êxito e terminam por submeter-se ao Estado e aos poderosos. O que é então, mais grave para o ancien régime,

do povo contra os poderosos. É, ao mesmo tempo o batismo da nação moderna e a origem da França contemporânea. Entre o ancien régime e o novo, ela é o elemento de união, um povo e um estado que o ancien régime contrapunha como forças hostis e antinaturais.

O Luís XVI:
símbolo do poder

Concordemos, pois, em partir da filosofia revolucionária, de que o ancien régime era ao mesmo tempo, um estado despótico e uma sociedade de privilégios. E o que é tido como despótico na França, no fim de 1700, é "o próprio progresso da monarquia". Desde o fim da Idade Média, através

da guerra externa e da criação do imposto permanente, os reis da França consolidaram em um único Estado os vários territórios pacientemente reunidos por seus antecessores. Para conseguir isso, tiveram que combater forças locais, dominar os poderes locais especialmente dos grandes senhores e criar uma burocracia de servidores do poder central. Luis XIV é o símbolo clássico do triunfo do poder da realeza na França: sob seu reinado, o intendente, que representa a burocracia e tem delegada a autoridade do soberano, sufoca nas províncias o poder tradicional da Municipalidade   ou  das    grandes famílias. Sob sua autoridade a nobreza é controlada mediante os cerimoniais da corte

 confinada à atividade militar ou arrolada na administração estatal. A "monarquia absoluta" não é outra coisa senão essa vitória do poder central sobre a tradicional autoridade dos senhores e das comunidades locais.

Cartórios:
prêmios dos nobres

Mas essa vitória é um compromisso. A monarquia francesa é "absoluta" no sentido moderno do termo, que implica num poder totalitário. Especialmente porque se baseia na "leis fundamentais" do reino, que nenhum  soberano  tem o  poder  de mudar as regras


Fig.02.4
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