Entre uma Monarquia solitária e desacreditada, que não tem outra coisa a oferecer que a própria veleidade; e a palavra de ordem libertadora dos Estados Gerais, que unifica todas as ambições sociais, a opinião pública não hesita.
Essa atmosfera se faz sentir também no resto do país. Os outros magistrados acorrem em ajuda dos colegas parisienses, apoiados pelo mesmo calor na luta pelas liberdades.

 
Fig.1 Assembleia consultiva de "notáveis" a 22 de fevereiro de 1787
 

A crise se manifestará primeiro pelas dificuldades financeiras, que obrigam o soberano a convocar
uma assembleia consultiva de "notáveis"
a  22 de fevereiro de 1787 (Fig.1). Mas esta,
por seu caráter consultivo,
nada pode fazer de concreto e eficaz.
E, também, não se trata somente disso:
por sua própria origem nobre,
a Assembleia não pode dar o conselho que encerraria
uma solução, mesmo parcial, da crise financeira
que toma conta do país. Nem o retorno de Necker às Finanças (Fig.2) pode resolver o problema, que é estrutural e não depende apenas da maior ou menor habilidade de um homem.
A situação parece não ter outro caminho
senão a convocação dos Estados Gerais:
estes são de fato convocados a
8 de agosto de 1788 para 1 de maio de 1789 (Fig.3).

 

 


Fig.3 A convocação dos Estados Gerais

      Realmente, nas províncias onde as duas ordens do reino têm maior ação é mais encarniçada a oposição ao rei e aos decretos de Lamoignon.
São aqueles que têm os Estados provinciais ou que se recordam de tê-los tido e os reclamam de volta. A revolta se estende a todas as cidades-sede de Parlamentos e se apresenta mais violenta onde o conflito entre a chancelaria e a coroa é mais antigo e esteve latente por todo um século: em Béarn, na Bretanha e no Delfinato. Em Rennes, onde a nobreza se solidariza com o Parlamento, gentil-homens, advogados e estudantes, se manifestam a 9 de maio. No dia seguinte, os representantes do rei são perseguidos pela multidão e obrigados a se refugiar no palácio do governador. Em Grenoble, o Parlamento rebelde é condenado ao exílio pelo duque de Clermont-Tonerre, que governa a província. O dia marcado para a partida dos magistrados é o 7 de junho. É dia de mercado e a cidade está repleta. Os sinos repicam em alarma e os soldados de Clermont-Tonerre são atacados de todos os lados, inclusive do alto dos telhados, de onde são lançados paus e pedaços de telha. As forças são obrigadas a ceder, o duque se rende e consente que o Parlamento reinicie suas

 

atividades. Mas a revolta provocou o nascimento também de uma instituição revolucionária: um Comitê-central, dirigido por advogados como Mounier e Barnave que, por iniciativa própria, convoca, ao fim de julho, os Estados Provinciais. No grande castelo do rico comerciante Périer, onde se reúnem as três ordens, a Assembleia de Vizzile anuncia os novos tempos. Contrariamente ao que sucede em Pau e em Rennes, aqui os homens do Terceiro Estado têm número e autoridade suficientes, não se limitam a retomar as antigas franquias provinciais, mas forçam a nobreza a se colocar no quadro nacional. Aos apelos de Mounier deliberam que "as três ordens da província concederão o imposto como dom gratuito ou outra forma, somente quando seus representantes o tenham decidido nos Estados Gerais do reino". Assim, num só gesto, são superados Parlamentos e particularidades: através do antiabsolutismo, já se vão delineando as ambições da burguesia.

A convocação dos Estados Gerais

Luís XVI nada mais pode fazer que seguir a corrente: a 8 de agosto, os Estados Gerais são convocados para 1 de maio de 1789. No dia 15, o Estado suspende seus pagamentos. No dia 24, Brienne é destituído. Necker se transforma no homem da providência, o homem inevitável:  seu  nome 

 

retarda  a bancarrota e anula as tentativas de Lamoignon. Mas, a avalancha que o leva ao poder é muito impetuosa para ser controlada. Nesse momento, nada é realmente válido na França, a não ser a próxima reunião dos Estados Gerais.
É nesse preciso instante que a história mostra aos contemporâneos, o seu significado essencial: de repente se rasga o cenário e a realidade dos bastidores se mostra. Mas o que acontece? Nobreza e Parlamento não desejam mudar nada quanto ao tradicional procedimento de designação e votação dos três estados: um terço de representantes para cada ordem e o voto por ordem, o que conferia automaticamente maioria aos privilegiados. Mas, o Terceiro Estado opõe resistência, a exemplo do que sucedera em Vizille, onde sua representação era o dobro. É como confessar que quer os meios para dominar a próxima Assembleia, pois confia que haverá aliança com a nobreza e o baixo clero. Nesse sentido, alguma coisa já se conseguiu, pois o partido nacional - que se intitula já a essa altura patriota - que sustenta a campanha da duplicação, já consegue o apoio de burgueses esclarecidos e de um certo número de nobres liberais. A onda de esperança é, assim, tão forte que, para muitas imaginações, chega a delinear um ideal mais avançado do que os limites sociais: e muitos anteveem até uma nação
unida e feliz de 25 milhões de  cidadãos. Se os  mais  destacados   do  Terceiro

 

Terceiro Estado constituem na capital do reino, o centro desse imenso movimento de opinião, todavia não lhe detém o monopólio: conta com um Comitê dos Trinta, mas há as múltiplas alianças pessoais, consequência tanto da cultura do século, como do novo senso de valores. A multiplicação de universidades provinciais e de sociedades franco-maçônicas, anuncia um mundo novo, no qual todos se confraternizam. Assim, juntamente com Brisset, Mounier e Barnave,     estão      Lafayette,
"o americano". O duque de La Rochefoucauld, sempre hostil aos costumes da corte, seu primo Liancourt, o agrônomo-filantropo, o duque de Aiguillon, um dos mais ricos proprietários de França, que também predizem o fim dos privilégios. Entretanto, esses grandes senhores liberais mantêm o senso da distância e consideram sua própria ação como uma adaptação indispensável da nobreza aos tempos modernos: é preciso que tudo se modifique para que tudo se conserve. A revolução burguesa está mais próxima, no entanto, para alguns desertores dessa nobreza, como o abade Sieyès, o visconde de Mirabeau, que emergem da da própria lista dos liberais.
Realmente, é daí que parte em fins de 1788, a ideia revolucionária por excelência: além da unanimidade liberal, a reivindicação igualitária. A luta contra o absolutismo já é vitoriosa, e há mais tempo do que pensavam os contemporâneos.

 
Fig.2 O retorno de Necker às Finanças

A reação da nobreza do século 18 revela imprevistamente suas ruínas psicológicas e políticas: "a honra burguesa rechaçada s transforma na igualdade". A questão é clara: a aliança entre as classes privilegiadas é muito difícil, enquanto, ao contrário, todo o Terceiro Estado se identifica nas ambições burguesas.
Necker, o chanceler apoiado pela rainha, furiosa pela queda de Brienne, e pelo rei, irritado com a rebelião de "sua" nobreza, começa a vencer a resitência dos privilegiados: em 27 de dezembro, uma decisão do conselho concede o direito de duplicar o número de representantes do Terceiro Estado. A vitória, pois, permanece incerta.
Mas, parece que até o céu é revolucionário: primeiro, as chuvas e inundações tremendas de 1787, depois a estiagem, e finalmente o granizo de 13 de julho de 1788, que atinge todo o oeste da França. Tudo contribui para piorar a situação. Na área econômica, também contribui um tratado franco-inglês, que reduz as taxas de entrada de produtos ingleses na França, especialmente para a industria têxtil, o que a torna mais vulnerável. Assim, em 1789 há 12 mil desempregados em Abbeville e 20 mil em Lion. Há um assustador aumento da mendicância e da vadiagem.

 

 

 

 

 

Em Paris, o pão custa mais do que o ganho médio diário de cada cidadão. Da miséria nasce a violência. No campo, o trabalhador que vive do produto de um pequeno pedaço de terra, não consegue mais sustentar a família e pagar aos senhores. Na cidade, os humildes pedem trabalho para poder comprar pão, e não conseguem. A fome aperta no inverno de 1788-89, que se apresenta especialmente rigoroso: a violência eclode com assaltos aos celeiros, de Provence à Borgonha, da Bretanha à Alsácia. Os senhores reclamam dos operários o que lhes é devido, e os intendentes querem os impostos. Em Paris, uma multidão saqueia a fábrica de tapetes de um senhor Réveillon, antes de ser massacrada pelas tropas. É o caos econômico.

A revolta da fome e a fermentação política

O movimento ganha corpo noutra direção, que não é mais a discussão formal de normas de comportamento da realeza, em face dos direitos da burguesia, do Terceiro Estado. A revolta pela subsistência coincide com a fermentação política: a rebelião dos miseráveis dá à consciência burguesa a sensação de força, para encaminhar um problema que lhe parece particularmente presente.

 

 

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