Fig. 1
 

A vida é agradável nesta cidade, ao menos para os que podem - e são em menor número - aproveitar desde os espetáculos nas Tulherias (fig.1: água-forte de G. de Saint-Aubin, 1760), às reuniões nas Orangeries (fig.3: desenho de G. de Saint-Aubin), até os passeios nos boulevards,  (fig.2: vista dos boulevards da porta Saint-Antoine, numa gravura da época).
Mas, trata-se apenas de uma aparência: o sistema está minado em profundidade.


Fig.2

Aquilo que, em 1789, pode parecer a eclosão de uma revolução, não é mais do que a última manifestação de uma crise que durava por muito tempo. É toda uma classe - a nobreza - que se tornou completamente estranha, alheia à realidade do país, e que se vê envolvida na crise, pela qual nem é responsável, nem sabe fornecer qualquer solução

 

século precedente e, ao mesmo tempo, o respeito sempre maior por aquela sociedade de classes, paralelo a uma ação que a destrói. Essa sociedade vai se pulverizando sob a pressão conjunta dos maiores benefícios econômicos, da multiplicação da iniciativa e dos desejos individuais, da difusão da cultura. A revolução da procura antecipa a oferta de bens, e se debate com as rígidas estruturas que regulam, com conta-gotas, a ascensão social.  O dinheiro e o mérito se  chocam  com os  direitos do nascimento.
Concedendo títulos de nobreza, o Estado continua a manter

 

num segundo plano do reino os plebeus, que o serviram melhor, sobretudo aqueles que ganharam mais dinheiro: mas, fazendo isso, sacrifica sobretudo aqueles que ganharam mais dinheiro: mas, fazendo isso, sacrifica sobretudo as aparências. Na verdade, a velha nobreza, muito menos rica que a nova, torna-se    ressentida;   a  nova pensa somente em reforçar  ao   redor  de  si  a barreira    que    acabou    de  ultrapassar; e, em ambos os casos, o mecanismo é muito rigoroso para uma sociedade em expansão. A Monarquia colhe apenas um  resultado:      o     de    assegurar

 

somente para si a "sua" nobreza sem se constituir, no entanto, em classe dirigente.
Tudo testemunha essa crise da nobreza francesa no século 18, ma não no sentido em que habitualmente ela é entendida. A nobreza não é, realmente, nem uma classe nem um grupo em decadência. Nunca se mostrou tão brilhante e nenhuma   civilização   foi  tão aristocrática quanto a nobreza francesa do século 18. Adaptando a autoridade às necessidades da economia de mercado,  beneficiando-se  do  aumento da renda   fundiária, que era a base dos grandes negócios comerciais e industriais, a nobreza

     
 

constituído por Luís XIV, é que o novo poder do Estado, agora em seu apogeu, não consegue mais encontrar um princípio de legitimidade que una as classes dirigentes da sociedade. A unificação do mercado nacional, racionalizando a produção, a fragmentação das antigas comunidades agrárias, baseadas na autarquia econômica e na proteção dos patrões, pesam mais que as tradicionais diferenças sociais.
Como exemplo, são publicados vários éditos de reforma da nobreza, cassando vários títulos para sujeitar novamente os falsos nobres aos impostos, e negociando com eles depois, a reintegração. Isso provavelmente bloqueia um mecanismo de ascensão social que, mediante a compra de títulos ou cargos, provoca, a partir do século 15, uma constante e profunda renovação da nobreza francesa. Sobre Luís XIV, a nobreza francesa vai se tornar mais rígida em suas prerrogativas, na medida que vai perdendo suas  funções e, como consequência, seus

 

princípios. Porque, se o sangue azul não é mais importante agora, mais facilmente se consegue chegar até a nobreza graças ao dinheiro que ela necessita. Por isso, o ancien régime é muito arcaico pelo que tem em si de moderno, e muito moderno pelo que tem em si de arcaico. É exatamente esta contradição fundamental que se caracteriza durante o século 18, depois da morte de Luís XIV. Os dois polos opostos, Estado e sociedade, são cada vez menos compatíveis.

O século 18,
uma época feliz

O século 18 é uma época relativamente feliz: menos guerras, menos crises, menos carestia. A população, atingida fundamentalmente pela crise da segunda metade do reinado de Luís XIV, entra primeiro numa fase de recuperação e depois numa fase de crescimento, passando de 20 a 27 milhões de habitantes, entre o período de Vaubin e o de Necker. Esse multiplicar de homens na falta de

 

uma decisiva transformação da produtividade do trabalho, provavelmente anula parte dos benefícios do progresso. Isso quer dizer que esse progresso é somente em parte devido à expansão da economia. Somente a Inglaterra experimenta, neste período, uma revolução das técnicas de produção. A França permanece ligada à velha economia agrária, cujos rendimentos crescem, embora muito lentamente, graças aos efeitos de uma série de progressos menores.
Mas há um outro segredo nessa relativa prosperidade: a modernização do Estado. No século 18, a Monarquia francesa não é apenas um precário instrumento da mobilização dos recursos nacionais em função de uma guerra quase permanente contra os Habsburgos. É herdeira dos progressos conseguidos sob Luís XIV e não de suas limitações, voluntárias ou não. Graças também ao espírito dos tempos, há mais dinheiro e mais atenção dedicadas aos      grandes      objetivos     da 

 

modernização: o urbanismo, a saúde pública, o desenvolvimento agrícola e comercial, a unificação do mercado, a educação. O intendente ocupa agora, uma função bem precisa, acima da autoridade tradicional local e com jurisdição sobre tudo. está no centro de um imenso esforço de conhecimento e reforma administrativa, que multiplica as pesquisas econômicas e demográficas, enquanto sua ação é orientada pelas primeiras estatísticas sociais da história francesa. Absorve quase todas as funções do clero e da nobreza. Até o ensino elementar, velho privilégio da Igreja, passa, em medida sempre crescente, para a proteção do Estado e ali recebe um impulso realmente decisivo. Bem longe de ser reacionário ou prisioneiro de interesses egoístas, o estado monárquico do século 18 é um dos grandes agentes da transformação e do progresso geral, uma forja permanente da reforma "iluminada". O problema é este: há o compromisso social elaborado no


Fig.3
 

se apropria de uma larga parcela de prosperidade da época. Mas, depois de se libertar da tirania de Luís XIV, não se dispõe mais a sistematizar suas relações com o Estado. Justamente com seus poderes tradicionais, perdeu a parte essencial de sua razão de ser, e não consegue mais definir-se nos seus objetivos políticos. Para explicar melhor basta dizer que Luís XIV deixou, uma oposta à outra, pelo menos três diferentes tipos de nobreza: uma "à polonesa", isto é hostil ao Estado, nostálgica de seu antigo predomínio local, pronta a reconquistar um passado que imagina ideal; uma "à prussiana", que sonha, ao invés disso, utilizar em seu próprio benefício a modernização do Estado, monopolizando os empregos, sobretudo nos escalões militares transformando o militarismo em sua razão de ser; e uma nobreza "à inglesa", sustentáculo de uma monarquia constitucional, uma aristocracia parlamentar dos novos tempos.
 

 

 

 

 

 

 

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