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constituído por Luís XIV, é
que o novo poder do Estado, agora em seu apogeu, não consegue
mais encontrar um princípio de legitimidade que una as classes
dirigentes da sociedade. A unificação do mercado nacional,
racionalizando a produção, a fragmentação das antigas
comunidades agrárias, baseadas na autarquia econômica e na
proteção dos patrões, pesam mais que as tradicionais diferenças
sociais.
Como exemplo, são publicados vários éditos de reforma da
nobreza, cassando vários títulos para sujeitar novamente os
falsos nobres aos impostos, e negociando com eles depois, a
reintegração. Isso provavelmente bloqueia um mecanismo de
ascensão social que, mediante a compra de títulos ou cargos,
provoca, a partir do século 15, uma constante e profunda
renovação da nobreza francesa. Sobre Luís XIV, a nobreza
francesa vai se tornar mais rígida em suas prerrogativas, na
medida que vai perdendo suas funções e, como consequência,
seus |
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princípios. Porque, se o
sangue azul não é mais importante agora, mais facilmente se
consegue chegar até a nobreza graças ao dinheiro que ela
necessita. Por isso, o ancien régime é muito arcaico pelo
que tem em si de moderno, e muito moderno pelo que tem em si de
arcaico. É exatamente esta contradição fundamental que se
caracteriza durante o século 18, depois da morte de Luís XIV. Os
dois polos opostos, Estado e sociedade, são cada vez menos
compatíveis.
O século 18,
uma época feliz
O
século 18 é uma época relativamente feliz: menos guerras, menos
crises, menos carestia. A população, atingida fundamentalmente
pela crise da segunda metade do reinado de Luís XIV, entra
primeiro numa fase de recuperação e depois numa fase de
crescimento, passando de 20 a 27 milhões de habitantes, entre o
período de Vaubin e o de Necker. Esse
multiplicar de homens na falta de |
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uma decisiva transformação
da produtividade do trabalho, provavelmente anula parte dos
benefícios do progresso. Isso quer dizer que esse progresso é
somente em parte devido à expansão da economia. Somente a
Inglaterra experimenta, neste período, uma revolução das
técnicas de produção. A França permanece ligada à velha economia
agrária, cujos rendimentos crescem, embora muito lentamente,
graças aos efeitos de uma série de progressos menores.
Mas há um outro segredo nessa relativa prosperidade: a
modernização do Estado. No século 18, a Monarquia francesa não é
apenas um precário instrumento da mobilização dos recursos
nacionais em função de uma guerra quase permanente contra os
Habsburgos. É herdeira dos progressos conseguidos sob Luís XIV e
não de suas limitações, voluntárias ou não. Graças também
ao espírito dos tempos, há mais dinheiro e mais atenção
dedicadas aos grandes
objetivos da |
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modernização: o urbanismo, a
saúde pública, o desenvolvimento agrícola e comercial, a
unificação do mercado, a educação. O intendente ocupa agora, uma
função bem precisa, acima da autoridade tradicional local e com
jurisdição sobre tudo. está no centro de um imenso esforço de
conhecimento e reforma administrativa, que multiplica as
pesquisas econômicas e demográficas, enquanto sua ação é
orientada pelas primeiras estatísticas sociais da história
francesa. Absorve quase todas as funções do clero e da nobreza.
Até o ensino elementar, velho privilégio da Igreja, passa, em
medida sempre crescente, para a proteção do Estado e ali recebe
um impulso realmente decisivo. Bem longe de ser reacionário ou
prisioneiro de interesses egoístas, o estado monárquico do
século 18 é um dos grandes agentes da transformação e do
progresso geral, uma forja permanente da reforma "iluminada". O
problema é este: há o compromisso social elaborado no |