O preceito “por
seus frutos os
conhecereis” é geralmente tomado como significando
que os
homens serão
finalmente julgados por seu comportamento moral, e as filosofias da
vida por
suas consequências morais. Mas a única
definição de moral que pode reunir
aprovação geral é: conduta que
promova a
sobrevivência da sociedade.
Entendemos os frutos do
pensamento e da ação
por sua utilidade nutritiva; que
os frutos possam ser bons de gosto
e
textura é puramente incidental. A questão
é saber
se eles contêm as vitaminas
convenientes, e o gosto só é importante na medida
em que
facilite a
digestibilidade. Nessa moral a função
lúcida
é fazer o trabalho tolerável, e o
trabalho é um peso, não porque requeira mais
esforço do que ação lúcida,
mas
porque é uma contenda com a morte. O trabalho como o
conhecemos
está
contaminado com o medo da morte, porque o trabalho é o que precisa ser
feito para sobreviver, e sobreviver,
continuar, é a
necessidade última e irredutível. Por que
não
é óbvio que fazer da
sobrevivência uma necessidade é fazer dela um
peso? A vida
é acima de tudo um
processo espontâneo e, como vimos, exigir espontaneidade, dizer que uma
pessoa precisa
viver, é a
contradição
básica que impõe a prisão dupla a
todos nós.
Tomar partido é
sempre o primeiro
passo em um jogo, e escolher a vida contra a morte, o ser contra o
não-ser,
Pg.147
é
apenas
pretender que eles são separáveis. No
entanto, esta nos é apresentada como a escolha mais
séria. Os protótipos de ser
e não ser são sem dúvida
matéria e
espaço, forma e vazio, e era talvez
inevitável que pensássemos em matéria
como gozando
de uma existência precária e
transitória no meio do nada infinito e eterno. Mas parece
quase
certo que a
astronomia e a cosmologia modernas estão se aproximando de
uma
visão do
universo na qual o espaço não é mais o
inerte
continente das galáxias, mas
parte integrante da forma delas. Forma encerra espaço tanto
quanto espaço
encerra forma. Falando metaforicamente é como
se espaço e
forma
existissem juntos na superfície de uma esfera de maneira tal
que
a escolha
quanto a qual dos dois é figura e qual é fundo
é
uma escolha arbitrária. A
vida, ou processo formativo, não está portanto
acontecendo dentro de algum
contínuo estranho que não é vida.
No sono do
“ignoramento”, da atenção
estreita que não vê as coisas na sua totalidade,
nosso
olhar é captado pela
figura conveniente e não por seu fundo, ou contrafigura. O
despertar da
liberação é compreender que toda a
escolha entre
“opósitos” é a
separação de
inseparáveis. Nas palavras do mestre zen
Seng-ts’na:
Salvo que evita selecionar e
escolher...
Se queres chegar à
verdade clara,
Não te preocupes
com o certo e com o
errado.
O conflito entre o certo e o
errado
É a
doença da mente.
O
caso não é que deixa de escolher, mas que se
escolhe sabendo que na verdade não
há escolha. A filosofia oriental está cheia
desses aparentes paradoxos – agir
sem ação, pensar sem pensamento, amar sem apego.
O que há é simplesmente que em
um universo de relatividade toda escolha, toda tomada de partido,
é uma
brincadeira, um jogo. Não é que não se
sinta urgência. Conhecer
a
relatividade de luz e sombra não é poder olhar
para o sol sem piscar;
conhecer a relatividade de alto e baixo não é
poder cair para cima. Sentir
urgência sem compulsão é a maneira
aparentemente paradoxal de descrever o que é um sentimento
surgir
espontaneamente sem estar acontecendo a um sentidor.
Que são então os frutos da
libertação se ela livra a pessoa da moral da
sobrevivência e fuga da morte? É
natural que fiquemos perturbados com o pensamento de que em nosso meio
vivam
pessoas que não levam o jogo social a sério. Como se
comportarão elas se não
acreditam nas nossas regras? A pergunta se aplica também
à psicoterapia, e tem
sido feita repetidamente desde que Freud relacionou neurose com
repressão.
Freud e os psicanalistas não enfrentaram a pergunta porque nunca
pensaram
seriamente em acabar com a repressão. De um modo geral, eles
tomaram o partido
do princípio da realidade, do superego e do ego contra o id. Mas
ao mesmo tempo
amaciaram o conflito e o efeito social da doutrina de Freud tem sido
imenso não
apenas no estabelecimento de um grau maior de liberdade sexual, mas
também na
modificação de nossas ideias e responsabilidade
individual. O reconhecimento de
que os desviados, os delinquentes, os criminosos são doentes e
não pecadores, e
necessitam de psicoterapia e não de castigo, decorre diretamente
de Freud e
tornou-se característico de toda reforma social liberal e
“progressista”. Não
obstante, há quem receie que a ética
freudiana esteja solapando seriamente nossa sociedade, pois em
consequência
dela aumenta o número de pessoas que não aceitam plena
responsabilidade pelos
seus atos. A culpa da conduta de uma pessoa pode ser
transferida
indefinidamente, e sem um bom sentimento antiquado de culpa poderemos
perder
não apenas um bom freio para o mal, mas também o senso de
dignidade humana.
Devemos lembrar que Freud permaneceu
dualista em seu conceito da natureza humana, e enquanto houver, como
parece,
uma incompatibilidade básica entre instinto e razão, Eros
e civilização, deve
restar um insolúvel problema real – para o qual a
repressão apenas parece
uma solução. Definindo o problema da
educação, Freud disse:
O problema prático da repressão como
doença humana não requer, portanto, que paremos de
disciplinar nossas crianças.
É mais simplesmente uma questão de compreender que,
quando as ensinamos a
pensar nelas mesmas como uma dualidade de ego e instinto, de
controlador e
controlado, isso não é nada mais que estratégia...
não há nenhum sentido em vestir
os nus, alimentar os famintos e curar os doentes se eles vão
continuar vivendo
para serem novamente nus, famintos e doentes, ou apenas para poderem
fazer o
mesmo com os outros. A moralidade prática, seja judaica ou
cristã,
capitalista ou comunista, é provisão para um futuro
– uma perpétua renúncia ou
adiamento. É um futuro que ninguém vai poder
aproveitar porque, quando
chegar, todos já perderam a capacidade de viver no presente.
Assim, o teste
da libertação não é se ela traz boas obras;
o teste das boas obras é se elas trazem
libertação – na capacidade de
ser tudo que a pessoa é sem repressão ou
alienação. No princípio de que “o
sabá
é feito para o homem e não o homem para o
sabá”, a função do comportamento
moral é sempre secundária e subordinada.
E este
corpo mesmo o corpo de Buda.
Se
ligarmos – o que Freud não fez – a
repetição compulsão ao reiterado teorema de
Freud de que os processos
instintais do id são intemporais, então somente a vida
irreprimida está no
tempo, e a vida irreprimida seria
intemporal ou na eternidade. Assim ainda a
psicanálise, levada à
sua conclusão lógica e transformada em teoria da
história, chama a si
aspirações religiosas sem idade. O Sabá da
Eternidade, aquele
O
objetivo derradeiro da psicanálise deve, portanto, ser uma
verdadeira Ressureição do corpo, diferente
de alguma
futura reanimação do cadáver.
O objetivo da psicanálise –
ainda não alcançado, e ainda apenas semiconsciente
– é devolver nossas almas a
nossos corpos, devolver-nos a nós (mesmos),
e assim vencer o estado humano de auto alienação... O que
a psicanálise
ortodoxa tem feito é reintroduzir o dualismo alma-corpo em seu
novo dialeto,
pela hipnotização do ego em uma essência
substancial que, por meio de
“mecanismos de defesa”, continua a travar batalha com o
“id”. A sublimação é
descartada com a etiqueta do mecanismo de defesa “eficaz”.
Ao substancializar o
ego, a psicanálise ortodoxa acompanha a autoridade de Freud,
que comparava a
relação do ego com o id à do cavaleiro com o
cavalo – metáfora que remonta ao Fedro de
Platão e perpetua o dualismo
platônico.
A
psicanálise ortodoxa se aliou assim com o princípio de
realidade e com a ética
de sobrevivência. Seu caso não é “uma
união com outros e com o mundo que nos
cerca, baseada não na angustia e na agressão, mas no
narcisismo e na
exuberância erótica” (150); é o baque
pífio, o anticlímax anêmico do “homem
psicológico” de Philip Rieff.
O
ideal psicológico de normalidade tem um aspecto um tanto
anti-heroico. Imaginemos toda uma sociedade dominada por
ideais psicoterapêuticos. Considerada não do ponto
de vista do
indivíduo, mas do ponto de vista sociológico, a
psicanálise é expressão de uma
tirania popular como nem Tocqueville imaginou adequadamente.
...
Na
emergente democracia do enfermo, qualquer um pode brincar de
médico com os
outros, e ninguém tem o direito à temeridade de afirmar
que pode curar ou ser
curado definitivamente. O hospital está substituindo a
igreja e o parlamento
como instituição arquetipal da cultura ocidental.
Pg.152
Esta
é a mansa e insípida consequência de um caminho
médio no qual os opostos não
são transcendidos mas conciliados, no qual não há
mais do que um tratado
cauteloso entre cavaleiro e cavalo, a alma e o corpo, o ego e o id.
Como vimos o malogro da psicanálise ortodoxa
é resultado do dualismo de Freud,
e portanto do medo de que o corpo humano irreprimido venha a ser um
animal
selvagem urrando e rosnando na sujeira de seu próprio excremento.
Biológica
e morfologicamente o homem pode ser um animal, mas não é
um cavalo, um tigre,
um babuíno. A estrutura ímpar de seu organismo e
cérebro permite-lhe
disciplinar-se, mas que esse autocontrole se baseie em um dualismo
de alma e
corpo, ego e id, é
simples
presunção. A
presunção pode
ser útil como recurso temporário, como
expediente pedagógico; mas quando fica sendo molde
permanente do sentimento
humano, então não é mais do que o prolongamento
artificial da tutela da
infância, uma recusa de crescer que frustra todas as disciplinas
de cultura.
Quando a presunção permanece inconsciente e é
tomada como real, a alma assim
abstraída do corpo é abstraída do
órgão de prazer. Ela contrai um medo crônico
de ser física e de participar completamente da espontaneidade
física. Em
consequência, o homem identificado com a alma é
sempre frustrado e sempre precisa de mais tempo. Por saber que o corpo
morre,
sua forma corruptível torna-se sua (da alma!) inimiga. As
disciplinas de arte e ciência são por conseguinte metidas
no serviço da guerra
contra a morte, contra o corpo, e contra a espontaneidade. A moralidade também se torna
serva da alma
desencarnada. (????????!!!!!!)
Mas
tudo que luta contra o corpo e a morte torna-se morte, isto
é torna-se
incapaz de espontaneidade e portanto de prazer genuíno. A busca de
satisfação futura é consequentemente um circulo
vicioso,
e o progresso cultural fica sendo o curso de tentativas cada vez mais
frenéticas de solucionar o problema autocontraditório. Abandonar
as
disciplinas de arte, ciência e cultura no atual estilo do beat-ism não é solução. O
problema real é por essas disciplinas à
disposição da espontaneidade. Quando temos
Eros dominado pela razão em vez de Eros expressando-se com a
razão, criamos uma
cultura que é simplesmente contra vida, na qual o organismo
humano tem que
submeter-se cada vez mais
a
necessidades de organização mecânica, protelar o
prazer em nome de uma
utilidade cada vez mais fútil.
Quando
as disciplinas culturais estão a serviço de Eros, a
ética é transformada de
regras de repressão em técnica de expressão, e
moral fica sendo estética de
comportamento.
A disciplina da
estética instala a ordem do sensorial contra a ordem da razão. Introduzida na filosofia
da cultura, essa noção objetiva uma
libertação dos sentidos que, longe de
destruir a civilização, lhe dará uma base mais
firme e fomentará grandemente
suas potencialidades. Funcionando por meio de um impulso básico
– o impulso de
brincar – a função estética
“abolirá a compulsão e colocará o homem
moral e
fisicamente em liberdade.” Ela har4monizará sentimentos e
afetos com ideias de
razão, retirará às “leis da razão sua
compulsão moral”, e “as reconciliará com
os interesses dos sentidos.”
Marcuse,
aqui citando Schiller, parece estar reerguendo o
“desacreditado” idealismo dos
românticos do Século XVIII, o otimismo naturalista que as
duas guerras mundiais
teriam demonstrado ser falsa filosofia. Mas em nenhum sentido as
guerras e
revoluções dos tempos modernos são exemplos do que
acontece quando a repressão
civilizada é retirada. Elas são explosões de ira
sádica que a civilização da
repressão precisa sempre alimentar; são o seu
preço; mas uma civilização
tecnológica não pode mais pagar esse preço... ela
não precisa paga-lo... a
tecnologia não pode abolir o labor porque
o trabalho árduo tornou-se uma
virtude, em vez de
maldição, como sempre foi apresentado por nossos
antepassados remotos... a
necessidade de trabalhar é um sintoma neurótico. É
uma muleta. É uma tentativa
de fazer uma pessoa sentir-se útil mesmo quando não
exista necessidade especial
para seu trabalho.
Pg.154
Quando
a tecnologia é empregada – e absurdamente – para
aumentar o emprego e não para
acabar com ele, o trabalho torna-se
“ocupação” – criação
artificial de rotinas
mais sem sentido ainda, uma produção interminável
de coisas que são menos
objetos de luxo para satisfação física do que lixo
pretensioso. A tecnologia
então trabalha contra Eros, e em consequência o labor
fica mais alienado e
a necessidade de explosões violentas aumenta. Como diz Marcuse, “ligar façanhas em linhas de montagem, em
escritórios e oficinas, com necessidades instintuais é
glorificar a
desumanização como prazer”. O tipo de ser
humano que se submete a essa
cultura é, quase literalmente, um zumbi, um morto-vivo. É
dócil e “amadurecido”
no estilo de nossa opaca e lúgubre burguesia; é incapaz
de alegria ou
exuberância; pensa que está dançando quando
está arrastando os pés no salão;
pensa que está se divertindo quando está passivamente
olhando dois sujeitos
musculosos engalfinhados num tablado; pensa que está sendo
erudito e
intelectual quando está aprendendo a falar com modéstia
“e as reservas
necessárias” sobre algum teatrólogo elisabeteano
menor; pior ainda, pensa
que está se rebelando contra tudo isso quando deixa crescer a
barba e arranja
uma cama imunda em um cortiço. Esse
é o único grande movimento de
dissidência atualmente em curso nos Estados unidos, excetuando o
protesto
contra a segregação racial.
Naturalmente esta não é uma opinião
equilibrada e ponderada; é uma expressão de sentimento,
mas não sem bases muito
evidentes. A tragédia é que tanto os caminhos de
libertação no Oriente
quanto a psicoterapia no Ocidente têm-se, em grande medida,
desviado para
guerra contra morte e portanto para a alienação em
relação ao corpo e à espontaneidade.
Enquanto o suami e o monge são envenenados pelo vício de
seu próprio remédio, e
por força de uma falsa humildade simplesmente não se
arriscam a se libertar, o
“homem psicológico” – seja terapista ou
paciente graduado – move-se com solene
equilíbrio em sua corda bamba entre excesso de Logos e excesso
de Eros.
Sendo
essencialmente negativa, a normalidade é um ideal que cada vez
se afasta mais.
Para busca-lo é necessária uma atitude de calma estoica.
Ninguém alcança o
normal; cada um deve agir como se pudesse alcança-lo.
Pg.155
Nem pode o homem psicológico
esquecer-se na busca do
normal, pois sua normalidade consiste em uma espécie de
autoconsciência.
Como
o iogue da safra normal está permanentemente a caminho
da libertação, assim também o analista e o
analisando
costumam estar permanentemente “grilados”, sempre
desconfiados de si mesmos, e
assim evitam qualquer comportamento – fora do gabinete de
consulta – que possa
ter tomado como inconsciente.
A falta de espontaneidade em quase toda
reunião de psicoterapistas é dos quadros mais tristes do
mundo.
A
questão de saber como seria uma sociedade de pessoas
libertadas talvez seja acadêmica. Que
aconteceria se todo mundo em Manhattan resolvesse pegar o mesmo
trem para New Haven? Em todo caso, como as ideias de Freud, por
mais
deturpadas, têm tido enorme influência social, não
é impossível que ideias
derivadas dos caminhos de libertação e de
intérpretes revolucionários da
psicanálise como Norman Brown possam provocar algo bem mais
perturbador,
enérgico e exuberante do que a Geração Beat.
Algumas de suas perversões
populares vão ser devastadores mas, mesmo assim,
preferíveis a tudo o que foi
antecipado no Admirável Mundo Novo de
Huxley, ao 1984 de Orwell, e até a
muita da insípida sobriedade que já nos cerca. Nem de
longe ainda é certo, como
pretendem Richard LaPiere e outros, que a ética freudiana
já aumentou a
irresponsabilidade social, pois nunca houve um moralista em nenhuma
época que
não estivesse convencido que as coisas iam de mal a pior.
A delinquência
existe desde o tempo em que o homem
começou a querer civilizar-se criando certos códigos
sociais de conduta. John
Locke, o grande educador inglês, há trezentos
anos deplorava a delinquência no mesmo tom que usamos hoje.
Há seis mil anos,
um sacerdote egípcio gravou em uma pedra: “nossa terra
está degenerada... As
crianças não obedecem mais aos pais.”
Não obstante, tradição em ética tem a mesma importância de tradição em linguagem: é simplesmente a maneira pela qual as pessoas ficam sabendo quais são as leis. Deve-se, portanto, respeitar a tradição ética da mesma maneira que se deve respeitar a tradição linguística ou artística: não por ser sacrossanta, mas por ser a única maneira de se estar em comunicação com os outros. Se eu quero fazer uma inovação aceitável em linguística, preciso mostrar seu sentido nos termos e no contexto da linguagem existente, pois uma mudança abrupta não será entendida.
Na
cultura ocidental, por exemplo, as regras da pintura e da música
têm mudado
muito mais depressa do que as regras do discurso, e frequentemente o
público é
escandalizado por pinturas e composições que parecem
incompreensíveis. As
primeiras sinfonias de Beethoven provocaram tanto susto quando ouvidas
pela
primeira vez quanto a obra de qualquer dos grandes modernos, e a
primeira
reação a essas comunicações não
é geralmente que sejam difíceis, mas que são ruins. O público acha que o artista perdeu
o domínio de sua técnica. Mas depois, se procurarmos
entender o que ele está
fazendo, verificamos que ele enriqueceu grandemente a nossa
experiência. O
problema do artista é evitar mudar as regras tão
radicalmente a ponto de não
restar ponte pela qual o público possa acompanha-lo.
Pg.158
Sempre
há puristas e conservadores defendendo padrões absolutos
de falar correto e de
técnica estética. Eles sustentam... que o ouvido
tem uma estrutura fixa
à qual só convém um conjunto de regras musicais, e
quem disser que gosta de
música composta segundo outras regras é acusado de
possuir ouvido pervertido,
ou de estar-se iludindo.
...
Nossa cultura herdou de Jerusalém e
de Roma uma filosofia ética análoga mais à lei
codificada do que à lei consuetudinária.
Sempre que perguntamos o que devemos
fazer, e buscamos autoridade para padrões éticos seja na
vontade de Deus ou nas
leis da natureza, supomos um padrão preexistente, como um
código legal ou como
estradas e trilhos, com o qual se acredita que o comportamento humano
se
conforma.
...
Se a
libertação acarreta a subordinação da
razão a Eros,
diferentemente da subordinação de Eros à
razão, ela é evidentemente aliada da
lei consuetudinária e não da lei codificada.
Então a autoridade de última instância
para o comportamento não está
em nenhuma formulação verbal do que é permitido e
do que não é permitido; está na
ordem organismo/ambiente, ordem
que nunca pode ser formulada completamente e de uma vez por todas em
nenhuma lei
estabelecida pela natureza.
Pg.159
(ATENÇÃO
AQUI!!!)
Esperar que a definição
científica
descubra o padrão ao qual a natureza se conforma é supor
que a lei, ou
formulação verbal, precede o comportamento físico
– seguindo a antiga noção de
que Deus ordenou ao universo o que
fazer. Mas se entendermos
que a
natureza, em vez de se conformar a um
padrão é um padrão, podemo-nos
livrar
de um passo redundante e desconcertante em nosso pensamento. Dizer que
a razão
é subordinada a Eros é simplesmente dizer que ela
é feedback, que serve Eros devolvendo-lhe uma
descrição de ação
espontânea. Exatamente da mesma maneira a
descrição científica segue o padrão
da natureza. Ela não lança, como trilhos, as regras que a
natureza deve seguir,
pois o próprio padrão está se desenvolvendo
livremente. O feedback, a descrição,
apenas ajuda o padrão
humano a se desenvolver de forma mais ordenada. O que a razão e
a ciência estão
assim servindo, e o que portanto sempre fica como autoridade para a
ação, é o
corpo; e a ordem do corpo não é mecânica, mas
orgânica.
Vimos
que a lei consuetudinária repousa em ultima instância no
sentimento intuitivo
da equidade do juiz. Cada caso é impar, e nenhum código
ou conjunto de
princípios fixos pode cobrir todas as eventualidades. O fator
decisivo é
portanto alguma coisa muito mais sutil e complexa do que qualquer
formulação de
regras possa ser – o cérebro do juiz, assistido
por precedentes e regras. A lei codificada, como ética
autoritária e
tradicionalista, subverte a hierarquia da natureza. Deposita maior
confiança e
autoridade na estrutura relativamente crua e rígida de regras
verbais do que na
estrutura infinitamente mais fluida e complexa do cérebro, do
organismo, e do campo ao qual vivem. A
libertação nos devolve à hierarquia natural, e
digo “hierarquia” porque é um
padrão no qual razão e regras verbais são
subordinadas mas não obliteradas.
Há então duas razões principais para
comparar ética com linguagem e arte. A primeira e destacar o
caráter estético
delas, dizer que elas precisam trabalhar como uma técnica de
expressar Eros ou
o que Marcuse chama “a ordem do sensorialismo”, e assim
pô-las em lugar próprio
na hierarquia. Ética é então
O modelo da terra é o céu;
O modelo do Céu é o Tao;
O modelo do Tao é espontaneidade.
A
tarefa agradável que espera uma ética de espontaneidade,
por mais difícil que
seja, é literalmente atrair pessoas para fora de suas conchas
armadas. Mas
onde, seja no Oriente ou no Ocidente, isso foi seriamente
proposto? As forças que trabalham
por mudanças sociais nunca se parecem lembrar de convocar Eros
em seu auxílio. A tirania do masoquismo civilizado (do qual os próprios
exploradores são
vítimas) não
pode, como supõe o comunismo, ser
derrubada
com revolução armada. O que é ganho pela
força precisa ser mantido pela força,
e por isso a cultura comunista é ainda mais contra a vida do
que a
capitalista, e ainda mais comprometida com a ética de
sobrevivência. Por
outro lado, o idealismo social de Gandhi
ou dos quacres é também
um
caminho de violência, de violência espiritual contra o
corpo, dirigindo seu apelo ao masoquismo do
“auto-sacrifício”.
Por mais admiráveis, dedicados e sinceros que sejam seus
adeptos, o amor
que eles expressam é uma mistura de dever e piedade, um
amor-alma sem calor
erótico ou alegria, e portanto não expressa o homem
inteiro. Os
idealismos que a civilização produz são esperneios
da alma alienada contra a
morte, e como seu apelo é dirigido à hostilidade, ao
medo, à piedade (que
também é medo), ou ao dever, eles nunca podem inflamar a energia da vida mesma – Eros – a única
que tem o poder de por a
razão em prática.
Mas para apelar para Eros a
psicanálise precisa vencer os restos de antagonismo em sua
própria atitude com
a cultura, e o emprego de um jargão que ainda carrega a
implicação de que o
erótico é repugnante. A interpretação
psicanalista de cultura frequentemente
soa mais como ataque. Eala encontra simbolismo erótico em todas
as criações de
arte, ciência e religião, como se dissesse, “que
animais imundos vocês são afinal!” Mas a descoberta por Freud do
erótico em tudo que é supostamente espiritual e sublime
foi uma revelação
maravilhosa. Ela mostra que, por mais que tentemos, a
espontaneidade não pode ser impedida, e o fato de que o homem
é um organismo
vivo não pode ser abafado. Não há motivo para
vergonha em reconhecer que
nossas imagens e concepções mais altas tem um simbolismo
erótico. A psicoterapia e a
libertação ficam
terminadas no momento em que vergonha e culpa caem, quando o organismo,
e
quando o indivíduo está pronto para entrar na posse de
seu comportamento
inconsciente. Mas na prática a psicanálise
não deixa claro que o
erótico é
“Erotismo polimorfo” não é absolutamente eufemismo
para hedonismo, a mera
busca de prazer em todas as frentes. Como disse Coomaraswamy, espontaneidade (sahaja)
é “uma senda de não busca”, enquanto que a busca
do prazer implica no assalto do organismo ao seu ambiente para
“tirar alguma
coisa dele”, como se o
ambiente não fizesse parte do organismo. Como o orgasmo
sexual completo, o
gozo desse erotismo deve vir sem ser forçado. Não
há exercício autoconsciente
em relaxar ou abrir deliberadamente os sentidos que possam
proporciona-lo,
salvo como upaya, uma técnica para
mostrar que ele não pode ser comandado. O erotismo
polimorfo não pode ser cultivado nem transformado em
culto; só pode
surgir por si mesmo quando a alma foi devolvida ao corpo e o
indivíduo não está
mais identificado com o ego. É assim que o adulto recupera o
que no zen é
chamado do “dom natural” que ele teve quando
criança, e é por isso que os
taoístas vêem no corpo da criança um modelo para o
corpo do sábio. Nas palavras
de Chuang-tzu:
Podes ser como uma
criança recém-nascida? A criança
chora o dia inteiro e sua voz nunca fica rouca; isso é porque
ela não perdeu a
harmonia da natureza... A criança olha as coisas o dia inteiro
sem pestanejar;
isso é porque seus olhos não estão focados em
nenhum objeto em particular. A
criança vai sem saber para onde está indo,
e para sem saber o que está fazendo. Ela se funde
com o ambiente e se desloca com ele. Esses
são os princípios da higiene mental.
É o “narcisismo primevo” de Freud; e
como diz Norman Brown:
Freud diz não
apenas que o sentimento-ego humano
outrora abarcou o mundo todo, mas também que Eros impulsiona o
ego a recuperar
aquele sentimento: “O desenvolvimento do ego consiste em um
afastamento em
relação ao narcisismo primevo e resulta em uma tentativa
vigorosa de
recupera-lo.” No narcisismo primevo o ser é uno com um
mundo de amor e prazer;
daí decorre que o objetivo último do ego humano é
restaurar o que Freud chama
de “narcisismo ilimitado” e se ver uma vez mais uno com o
mundo todo em amor e
prazer.
Pg.163
A
versão adulta ou madura do narcisismo primevo é
naturalmente a “consciência
cósmica”,
ou passagem da consciência
egocêntrica
para o sentimento de que a identidade da pessoa é todo o campo
do organismo em
seu ambiente. Mas para que isso não fique sendo um
estado puramente
contemplativo, em outras palavras, para que o homem libertado volte
para o
mundo como Bodhisattva, ele vai procurar os meios de expressar seu
sentimento
de ser “uno com o mundo todo em amor e prazer.” Por
serem os meios estéticos, sua abordagem do mundo
é, como
acha Marcuse, a de Orfeu, “o sacerdote, o porta-voz dos
deuses”, que amansa
homens e animais pela atração e magia de sua lira.
Seu método não é o do
pregador ou do político, mas, em seu sentido mais amplo, o do
artista. Porque
no sistema de valores da civilização, de
sobrevivência compulsiva, o artista é
irrelevante. Ele é encarado como mero decorador que nos
entretém enquanto
trabalhamos. Como o menestrel itinerante, ator, palhaço ou
poeta, ele pode ir a
toda parte porque ninguém o leva a sério. “Sua
linguagem,” diz Marcuse, “é cantiga,
e seu trabalho é brinquedo.”
Mas os estados totalitários sabem
o perigo do artista. Corretamente – se bem que por motivos
errados – eles sabem
que toda arte é propaganda, e que arte que não apoia o
sistema deve ser contra
eles. Eles sabem intuitivamente que o artista não é
um excêntrico
inofensivo, mas uma pessoa que sob o disfarce da irrelevância
cria e revela uma
nova realidade. Se não quer então ser esfacelado como
Orfeu na lenda, o artista
libertador deve poder jogar o contrajogo e mantê-lo tão
escondido como o judô
do taoísmo e do zen. Ele deve poder ser “todas as coisas
para todos os homens”,
porque como vemos pela
história do zen
qualquer disciplina pode ser utilizada como caminho de
libertação
– fazer panelas, projetar jardins, arrumar flores, construir
casas, servir chá,
até manejar a espada; ninguém precisa anunciar-se como
psicoterapista ou guru. Ele é artista em tudo
que fizer,
não apenas no sentido de faze-lo bonito, mas no sentido de
interpretar um papel.
Na linguagem expressiva do mundo do jazz
o artista faz seja qual for a cena.
Faça o que fizer, ele dança o que faz
– como um engraxate negro quando engraxa. Ele
jinga.
Pg.
164
Não é por acaso que a esse respeito
se pensa no negro americano, em sua música e sua linguagem. Ele retém vestígios de uma cultura
verdadeiramente erótica, e é isso, mais do que
sua cor e feições,
que a subcultura anglo-saxônica tanto ressente. É
até miraculoso ouvir um
pastor negro e uma congregação negra converterem a mais
insossa religião bíblica
do sul em uma dança jingada de soberbo ilogismo. É como
uma objeção ao ponto de
vista de Jacob Boehme de que
nenhum povo compreende mais a linguagem
sensual, e os
pássaros no ar e os animais na mata a compreendem segundo suas
espécies. O
homem pode então avaliar o que lhe foi roubado,
e o que ele precisa recuperar no
segundo nascimento (a
descoberta e o contato com seu EU verdadeiro, o Purucha
por de trás dos múltiplos egos,
artefatos sociais-MAO). Porque na linguagem sensual
todos os espíritos
falam entre si, não precisam de outra linguagem, pois é a
linguagem da natureza.
Não
estou idealizando o negro porque, nas circunstâncias, sua cultura
não é mais do
que um vasto lampejo do que estou querendo mostrar, e sobrevive em
espantosa
pobreza e miséria. O que estou dizendo é que é
possível deixar de levar o universo e a vida humana a
sério
dizendo-lhes que eles precisam representar,
como se estivessem a caminho de algum ideal futuro que precisam
alcançar a todo
custo. Sentir-se assim é, para empregar mais uma vez a
linguagem do jazz, “uma cena muito remota”
– um estado
de alienação tão intenso que
a
recuperação seria um contraste impressionante.
Os caminhos de libertação deixam
bem claro que a vida não está indo para lugar nenhum
porque já chegou. Noutras
palavras, ela está encenando, e os que não encenam com
ela simplesmente
não entenderam.
Como disse Lewis
Mumford:
Pg.165
A música é a representação mais
aproximada da “linguagem sensual” de Boehme porque, ao
contrário da linguagem
comum, ele não se refere a nada para além de si mesma, e
apesar de possuir
frases e padrões, nãos possui sentenças que
separam sujeito de objeto, e partes
de discurso que separam coisas de acontecimentos. “Abstratas”
como possam parecer à primeira vista, a música e a
matemática pura estão mais perto da vida do que
estão as línguas úteis que
indicam significados para além delas mesmas.
A
linguagem comum refere-se à vida, mas a música vive. A vida mesma é levada a se comportar
como linguagem
comum quando é vivida para um propósito para além
de si mesma, quando o
presente serve ao futuro, ou quando o corpo é explorado para os
objetivos da
alma. Uma tal
maneira de vida é
por conseguinte “fora de si” – insana – e por
estar sendo levada a se comportar
como linguagem e palavras, ela se torna vazia como “meras
palavras”. Ela
não tem outro
recurso a não ser prosseguir para o futuro ao qual o presente
aparentemente se
refere – para descobrir lá que o
significado está além.
O artista libertador representa o
papel de Orfeu vivendo no modo da música em vez de no modo da
linguagem. Toda
sua atividade é dança, ritmo pelo ritmo, e assim ele se
torna um vórtice que
puxa outros. Ele atrai a atenção dos
outros do depois para o agora, absorvendo-os
em um ritmo no qual sobrevivência deixa de ser critério de
valor. É por
essa atração, e não por
direção ou
comando, que ele é procurado como
mestre de libertação.
É fácil
tornar-se mártir lançando desafios e críticas ao
mundo. É muito
simples gozar a sensação de estar certo, exibindo a falta
de inibição e
escandalizando uma sociedade reprimida. Mas a grande arte, o upaya de um verdadeiro Bodhisattva, só é
possível para quem transcendeu qualquer necessidade de auto
justificação, pois
enquanto houver alguma coisa a provar, alguma sardinha a assar, não há dança.
Do ponto de vista da libertação legitima
não existe gente inferior. Como o ego não existe, os que
estão mais cativados
pela ilusão do ego ainda estão representando. Que eles
levem o jogo a sério e
não saibam que estão representando, é
considerado pelo Bodhisattva um jogo
abandonado e muito arriscado. Se o mundo é
jogo, não há maneira de se ir contra ele. As mais
flagrantes
contradições, as mais firmes asserções de
que o jogo é sério, as mais absurdas
tentativas de ordenar espontaneidade, e
os mais complicados círculos viciosos nunca podem ser nada
além de formas de
jogo extremamente remotas. Quando chega a vez dela, a repressão
civilizada
simplesmente acumula a força de Eros, como a água se
acumulando em uma represa.
O jogo de esconde-esconde continua porque Eros continua escondendo-se e
mostrando-se em cada racionalização nas imagens mais
intencionalmente
espirituais e transcendentais.
Pg.167
Vendo
isso, o Bodhisattva nunca pode sentir que está sendo
condescendente, ou que sua
libertação, seu conhecimento de que o mundo é
jogo, o faz superior aos outros.
Se ele trabalha pela libertação dos outros é
porque tem pena de vê-los no
sofrimento que sentem quando o jogo é inconsciente, quando a
seriedade está
sendo representada ao extremo. O gerador da pena não é
tanto o Bodhisattva, mas
o ponto extremo da situação, pois a treva mais escura
é em si a semente da luz,
e toda guerra explícita é amor implícito.
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