Watts A.W.
Psicoterapia Oriental & Ocidental

 
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VI – Convite à dança

            O preceito “por seus frutos os conhecereis” é geralmente tomado como significando que os homens serão finalmente julgados por seu comportamento moral, e as filosofias da vida por suas consequências morais. Mas a única definição de moral que pode reunir aprovação geral é: conduta que promova a sobrevivência da sociedade. Entendemos os frutos do pensamento e da ação por sua utilidade nutritiva; que os frutos possam ser bons de gosto e textura é puramente incidental. A questão é saber se eles contêm as vitaminas convenientes, e o gosto só é importante na medida em que facilite a digestibilidade. Nessa moral a função lúcida é fazer o trabalho tolerável, e o trabalho é um peso, não porque requeira mais esforço do que ação lúcida, mas porque é uma contenda com a morte. O trabalho como o conhecemos está contaminado com o medo da morte, porque o trabalho é o que precisa ser feito para sobreviver, e sobreviver, continuar, é a necessidade última e irredutível. Por que não é óbvio que fazer da sobrevivência uma necessidade é fazer dela um peso? A vida é acima de tudo um processo espontâneo e, como vimos, exigir espontaneidade, dizer que uma pessoa precisa viver, é a contradição básica que impõe a prisão dupla a todos nós.

            Tomar partido é sempre o primeiro passo em um jogo, e escolher a vida contra a morte, o ser contra o não-ser,

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 é apenas pretender que eles são separáveis. No entanto, esta nos é apresentada como a escolha mais séria. Os protótipos de ser e não ser são sem dúvida matéria e espaço, forma e vazio, e era talvez inevitável que pensássemos em matéria como gozando de uma existência precária e transitória no meio do nada infinito e eterno. Mas parece quase certo que a astronomia e a cosmologia modernas estão se aproximando de uma visão do universo na qual o espaço não é mais o inerte continente das galáxias, mas parte integrante da forma delas. Forma encerra espaço tanto quanto espaço encerra forma. Falando metaforicamente é como se espaço e forma existissem juntos na superfície de uma esfera de maneira tal que a escolha quanto a qual dos dois é figura e qual é fundo é uma escolha arbitrária. A vida, ou processo formativo, não está portanto acontecendo dentro de algum contínuo estranho que não é vida.

            No sono do “ignoramento”, da atenção estreita que não vê as coisas na sua totalidade, nosso olhar é captado pela figura conveniente e não por seu fundo, ou contrafigura. O despertar da liberação é compreender que toda a escolha entre “opósitos” é a separação de inseparáveis. Nas palavras do mestre zen Seng-ts’na:

             O caminho perfeito (Tao) não tem dificuldade.
            Salvo que evita selecionar e escolher...
            Se queres chegar à verdade clara,
            Não te preocupes com o certo e com o errado.
            O conflito entre o certo e o errado
            É a doença da mente.

O caso não é que deixa de escolher, mas que se escolhe sabendo que na verdade não há escolha. A filosofia oriental está cheia desses aparentes paradoxos – agir sem ação, pensar sem pensamento, amar sem apego. O que há é simplesmente que em um universo de relatividade toda escolha, toda tomada de partido, é uma brincadeira, um jogo. Não é que não se sinta urgência. Conhecer a relatividade de luz e sombra não é poder olhar para o sol sem piscar; conhecer a relatividade de alto e baixo não é poder cair para cima. Sentir urgência sem compulsão é a maneira aparentemente paradoxal de descrever o que é um sentimento surgir espontaneamente sem estar acontecendo a um sentidor.

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            Que são então os frutos da libertação se ela livra a pessoa da moral da sobrevivência e fuga da morte? É natural que fiquemos perturbados com o pensamento de que em nosso meio vivam pessoas que não levam o jogo social a sério. Como se comportarão elas se não acreditam nas nossas regras? A pergunta se aplica também à psicoterapia, e tem sido feita repetidamente desde que Freud relacionou neurose com repressão. Freud e os psicanalistas não enfrentaram a pergunta porque nunca pensaram seriamente em acabar com a repressão. De um modo geral, eles tomaram o partido do princípio da realidade, do superego e do ego contra o id. Mas ao mesmo tempo amaciaram o conflito e o efeito social da doutrina de Freud tem sido imenso não apenas no estabelecimento de um grau maior de liberdade sexual, mas também na modificação de nossas ideias e responsabilidade individual. O reconhecimento de que os desviados, os delinquentes, os criminosos são doentes e não pecadores, e necessitam de psicoterapia e não de castigo, decorre diretamente de Freud e tornou-se característico de toda reforma social liberal e “progressista”. Não obstante, há quem receie que a ética freudiana esteja solapando seriamente nossa sociedade, pois em consequência dela aumenta o número de pessoas que não aceitam plena responsabilidade pelos seus atos. A culpa da conduta de uma pessoa pode ser transferida indefinidamente, e sem um bom sentimento antiquado de culpa poderemos perder não apenas um bom freio para o mal, mas também o senso de dignidade humana.

            Devemos lembrar que Freud permaneceu dualista em seu conceito da natureza humana, e enquanto houver, como parece, uma incompatibilidade básica entre instinto e razão, Eros e civilização, deve restar um insolúvel problema real – para o qual a repressão apenas parece uma solução. Definindo o problema da educação, Freud disse:

             A criança precisa aprender a controlar seus instintos. Dar-lhe completa liberdade, para que ela obedeça a todos os seus impulsos sem qualquer restrição, é impossível. Seria uma experiência muito instrutiva para os psicólogos de crianças, mas tornaria impossível a vida para os pais e causaria sério danos às próprias crianças...

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             Pode ser necessário dividir a criança contra ela mesma para o fim de aprender certos padrões de comportamento social, mas se a criança não descobrir mais adiante que a vida que essa divisão foi um truque, como o mito de Papai Noel, ela se converterá em uma personalidade permanentemente alienada. Quando essas personalidades educarem  filhos, elas vão impor a eles a divisão sem saber que é um truque... quando a criança é recalcitrante, o adulto auto alienado fica furioso; ele não compreende que educar crianças é jogar um jogo com elas.

            O problema prático da repressão como doença humana não requer, portanto, que paremos de disciplinar nossas crianças. É mais simplesmente uma questão de compreender que, quando as ensinamos a pensar nelas mesmas como uma dualidade de ego e instinto, de controlador e controlado, isso não é nada mais que estratégia... não há nenhum sentido em vestir os nus, alimentar os famintos e curar os doentes se eles vão continuar vivendo para serem novamente nus, famintos e doentes, ou apenas para poderem fazer o mesmo com os outros. A moralidade prática, seja judaica ou cristã, capitalista ou comunista, é provisão para um futuro – uma perpétua renúncia ou adiamento. É um futuro que ninguém vai poder aproveitar porque, quando chegar, todos já perderam a capacidade de viver no presente. Assim, o teste da libertação não é se ela traz boas obras; o teste das boas obras é se elas trazem libertação – na capacidade de ser tudo que a pessoa é sem repressão ou alienação. No princípio de que “o sabá é feito para o homem e não o homem para o sabá”, a função do comportamento moral é sempre secundária e subordinada.

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             Mas subordinada a quê? Tem-se a impressão de que os caminhos de libertação, como o cristianismo católico, concebem o summum bonum, o  verdadeiro fim do homem, como sendo a contemplação e o gozo eternos da Divindade incorpórea e espiritual em uma vida futura para além da morte. Mas, quando os caminhos orientais são entendidos mais a fundo, parece que o nirvana não está depois, além nem afastado da sequência nascimento-e-morte (samsara), mas que, na palavras do mestre zen Hakuin:

                  Esta terra mesma é a Lotulândia da pureza,
                   E este corpo mesmo o corpo de Buda.

 Eternidade é agora, e à luz da visão irreprimida o organismo físico e o mundo físico vêm a ser o mundo divino. Mas, enquanto vida for trabalho-contra-a-morte, isso não pode ser visto. Como diz Brown:

          A incapacidade de morrer, paradoxalmente mas inevitavelmente lança a humanidade para fora da realidade de viver, que para todo animal normal é (a realidade de viver!) ao  mesmo tempo morrer; o resultado é a negação da vida. A guerra contra a morte toma forma de preocupação com o passado e com o futuro, e o tempo presente, que é o tempo da vida,  fica perdido.

             Por aí se vê que a mecânica da vida é guiada pela repetição-compulsão neurótica, pelo anseio de sobrevivência, pela busca de mais e mais tempo no qual esperamos, por algum milagre, agarrar o que sempre nos ilude no presente. É assim que, partindo de Freud, Brown chega à mesma conclusão de Hakuin:

Se ligarmos – o que Freud não fez – a repetição compulsão ao reiterado teorema de Freud de que os processos instintais do id são intemporais, então somente a vida irreprimida está no tempo, e a vida irreprimida  seria intemporal ou na eternidade. Assim ainda a psicanálise, levada à sua conclusão lógica e transformada em teoria da história, chama a si aspirações religiosas sem idade. O Sabá da Eternidade, aquele

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tempo em que o tempo não é mais, é uma imagem daquele estado que é o objetivo último da repetição-compulsão no id intemporal... A psicanálise chega a nos advertir de que somos corpos, que a repressão é do corpo, e que a perfeição seria o reino do Corpo Absoluto; eternidade é o modo de corpos irreprimidos.

O objetivo derradeiro da psicanálise deve, portanto, ser uma verdadeira Ressureição do corpo, diferente de alguma futura reanimação do cadáver.

                O objetivo da psicanálise – ainda não alcançado, e ainda apenas semiconsciente – é devolver nossas almas a nossos corpos, devolver-nos a nós (mesmos), e assim vencer o estado humano de auto alienação... O que a psicanálise ortodoxa tem feito é reintroduzir o dualismo alma-corpo em seu novo dialeto, pela hipnotização do ego em uma essência substancial que, por meio de “mecanismos de defesa”, continua a travar batalha com o “id”. A sublimação é descartada com a etiqueta do mecanismo de defesa “eficaz”. Ao substancializar o ego, a psicanálise ortodoxa acompanha a autoridade de Freud, que comparava a relação do ego com o id à do cavaleiro com o cavalo – metáfora que remonta ao Fedro de Platão e perpetua o dualismo platônico.

A psicanálise ortodoxa se aliou assim com o princípio de realidade e com a ética de sobrevivência. Seu caso não é “uma união com outros e com o mundo que nos cerca, baseada não na angustia e na agressão, mas no narcisismo e na exuberância erótica” (150); é o baque pífio, o anticlímax anêmico do “homem psicológico” de Philip Rieff. 

            O ideal psicológico de normalidade tem um aspecto um tanto anti-heroico. Imaginemos toda uma sociedade dominada por ideais psicoterapêuticos. Considerada não do ponto de vista do indivíduo, mas do ponto de vista sociológico, a psicanálise é expressão de uma tirania popular como nem Tocqueville imaginou adequadamente.

... Na emergente democracia do enfermo, qualquer um pode brincar de médico com os outros, e ninguém tem o direito à temeridade de afirmar que pode curar ou ser curado definitivamente. O hospital está substituindo a igreja e o parlamento como instituição arquetipal da cultura ocidental.

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Esta é a mansa e insípida consequência de um caminho médio no qual os opostos não são transcendidos mas conciliados, no qual não há mais do que um tratado cauteloso entre cavaleiro e cavalo, a alma e o corpo, o ego e o id.

            Como vimos o malogro da psicanálise ortodoxa é resultado do dualismo de Freud, e portanto do medo de que o corpo humano irreprimido venha a ser um animal selvagem urrando e rosnando na sujeira de seu próprio excremento. Biológica e morfologicamente o homem pode ser um animal, mas não é um cavalo, um tigre, um babuíno. A estrutura ímpar de seu organismo e cérebro permite-lhe disciplinar-se, mas que esse autocontrole se baseie em um dualismo de alma e corpo, ego e id, é simples presunção. A presunção pode ser útil como recurso temporário, como expediente pedagógico; mas quando fica sendo molde permanente do sentimento humano, então não é mais do que o prolongamento artificial da tutela da infância, uma recusa de crescer que frustra todas as disciplinas de cultura. Quando a presunção permanece inconsciente e é tomada como real, a alma assim abstraída do corpo é abstraída do órgão de prazer. Ela contrai um medo crônico de ser física e de participar completamente da espontaneidade física. Em consequência, o homem identificado com a alma é sempre frustrado e sempre precisa de mais tempo. Por saber que o corpo morre, sua forma corruptível torna-se sua (da alma!) inimiga. As disciplinas de arte e ciência são por conseguinte metidas no serviço da guerra contra a morte, contra o corpo, e contra a espontaneidade. A moralidade também se torna serva da alma desencarnada. (????????!!!!!!)

            Mas tudo que luta contra o corpo e a morte torna-se morte, isto é torna-se incapaz de espontaneidade e portanto de prazer genuíno. A busca de satisfação futura é consequentemente um circulo vicioso, e o progresso cultural fica sendo o curso de tentativas cada vez mais frenéticas de solucionar o problema autocontraditório. Abandonar as disciplinas de arte, ciência e cultura no atual estilo do beat-ism não é solução. O problema real é por essas disciplinas  à disposição da espontaneidade. Quando temos Eros dominado pela razão em vez de Eros expressando-se com a razão, criamos uma cultura que é simplesmente contra vida, na qual o organismo humano tem que submeter-se cada vez mais

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a necessidades de organização mecânica, protelar o prazer em nome de uma utilidade cada vez mais fútil.

            Quando as disciplinas culturais estão a serviço de Eros, a ética é transformada de regras de repressão em técnica de expressão, e moral fica sendo estética de comportamento.

            A disciplina da estética instala a ordem do sensorial contra a ordem da razão. Introduzida na filosofia da cultura, essa noção objetiva uma libertação dos sentidos que, longe de destruir a civilização, lhe dará uma base mais firme e fomentará grandemente suas potencialidades. Funcionando por meio de um impulso básico – o impulso de brincar – a função estética “abolirá a compulsão e colocará o homem moral e fisicamente em liberdade.” Ela har4monizará sentimentos e afetos com ideias de razão, retirará às “leis da razão sua compulsão moral”, e “as reconciliará com os interesses dos sentidos.”

Marcuse, aqui citando Schiller, parece estar reerguendo o “desacreditado” idealismo dos românticos do Século XVIII, o otimismo naturalista que as duas guerras mundiais teriam demonstrado ser falsa filosofia. Mas em nenhum sentido as guerras e revoluções dos tempos modernos são exemplos do que acontece quando a repressão civilizada é retirada. Elas são explosões de ira sádica que a civilização da repressão precisa sempre alimentar; são o seu preço; mas uma civilização tecnológica não pode mais pagar esse preço... ela não precisa paga-lo... a tecnologia não pode abolir o labor porque

o trabalho árduo tornou-se uma virtude, em vez de maldição, como sempre foi apresentado por nossos antepassados remotos... a necessidade de trabalhar é um sintoma neurótico. É uma muleta. É uma tentativa de fazer uma pessoa sentir-se útil mesmo quando não exista necessidade especial para seu trabalho.

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Quando a tecnologia é empregada – e absurdamente – para aumentar o emprego e não para acabar com ele, o trabalho torna-se “ocupação” – criação artificial de rotinas mais sem sentido ainda, uma produção interminável de coisas que são menos objetos de luxo para satisfação física do que lixo pretensioso. A tecnologia então trabalha contra Eros, e em consequência o labor fica mais alienado e a necessidade de explosões violentas aumenta. Como diz Marcuse, “ligar façanhas em linhas de montagem, em escritórios e oficinas, com necessidades instintuais é glorificar a desumanização como prazer”. O tipo de ser humano que se submete a essa cultura é, quase literalmente, um zumbi, um morto-vivo. É dócil e “amadurecido” no estilo de nossa opaca e lúgubre burguesia; é incapaz de alegria ou exuberância; pensa que está dançando quando está arrastando os pés no salão; pensa que está se divertindo quando está passivamente olhando dois sujeitos musculosos engalfinhados num tablado; pensa que está sendo erudito e intelectual quando está aprendendo a falar com modéstia “e as reservas necessárias” sobre algum teatrólogo elisabeteano menor; pior ainda, pensa que está se rebelando contra tudo isso quando deixa crescer a barba e arranja uma cama imunda em um cortiço. Esse é o único grande movimento de dissidência atualmente em curso nos Estados unidos, excetuando o protesto contra a segregação racial.

            Naturalmente esta não é uma opinião equilibrada e ponderada; é uma expressão de sentimento, mas não sem bases muito evidentes. A tragédia é que tanto os caminhos de libertação no Oriente quanto a psicoterapia no Ocidente têm-se, em grande medida, desviado para guerra contra morte e portanto para a alienação em relação ao corpo e à espontaneidade. Enquanto o suami e o monge são envenenados pelo vício de seu próprio remédio, e por força de uma falsa humildade simplesmente não se arriscam a se libertar, o “homem psicológico” – seja terapista ou paciente graduado – move-se com solene equilíbrio em sua corda bamba entre excesso de Logos e excesso de Eros.

         Sendo essencialmente negativa, a normalidade é um ideal que cada vez se afasta mais. Para busca-lo é necessária uma atitude de calma estoica. Ninguém alcança o normal; cada um deve agir como se pudesse alcança-lo.

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Nem pode o homem psicológico esquecer-se na busca do normal, pois sua normalidade consiste em uma espécie de autoconsciência.

Como o iogue da safra normal está permanentemente a caminho da libertação, assim também o analista e o analisando costumam estar permanentemente “grilados”, sempre desconfiados de si mesmos, e assim evitam qualquer comportamento – fora do gabinete de consulta – que possa ter tomado como inconsciente. A falta de espontaneidade em quase toda reunião de psicoterapistas é dos quadros mais tristes do mundo.

            A questão de saber como seria uma sociedade de pessoas libertadas talvez seja acadêmica. Que aconteceria se todo mundo em Manhattan resolvesse pegar o mesmo trem para New Haven? Em todo caso, como as ideias de Freud, por mais deturpadas, têm tido enorme influência social, não é impossível que ideias derivadas dos caminhos de libertação e de intérpretes revolucionários da psicanálise como Norman Brown possam provocar algo bem mais perturbador, enérgico e exuberante do que a Geração Beat. Algumas de suas perversões populares vão ser devastadores mas, mesmo assim, preferíveis a tudo o que foi antecipado no Admirável Mundo Novo de Huxley, ao 1984 de Orwell, e até a muita da insípida sobriedade que já nos cerca. Nem de longe ainda é certo, como pretendem Richard LaPiere e outros, que a ética freudiana já aumentou a irresponsabilidade social, pois nunca houve um moralista em nenhuma época que não estivesse convencido que as coisas iam de mal a pior.

         A delinquência existe desde o tempo em que o homem começou a querer civilizar-se criando certos códigos sociais de conduta. John Locke, o grande educador inglês, há trezentos anos deplorava a delinquência no mesmo tom que usamos hoje. Há seis mil anos, um sacerdote egípcio gravou em uma pedra: “nossa terra está degenerada... As crianças não obedecem mais aos pais.”

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             Se a ética freudiana é desmoralizante, não é por ter revelado as molas inconscientes de ação que existem para além do controle do ego; é porque ela conservou o ego como experiente subjetivo e fantoche dos instintos e do condicionamento social, e isso aumentou o isolamento do homem-como-ego em relação a sua vida orgânica de um lado e a seus semelhantes do outro.

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             Quase sempre tem sido costume do homem recorrer à autoridade para padrões éticos fora da ética, às leis da natureza ou às leis de Deus. Nunca nos sentimos completamente livres para fundar nossos princípios éticos simplesmente no que gostaríamos de fazer e que nos fosse feito, por medo de que essa conduta experimental nos prejudique de alguma maneira imprevista. Até certo ponto há lógica em nos apegarmos ao que já deu resultado no passado (se é que deu mesmo), mas é igualmente ilógico atribuir formulações do passado a um saber maior que o nosso. É muito bom acreditar que “mamãe tem sempre razão” até a pessoa ser mãe também, mas a atribuição constante de uma sabedoria misteriosa à antiguidade está ligada ao nosso malogro em nos recuperarmos de termos sido crianças. Esquecemos que estamos sendo desnecessariamente impressionados por ancestrais que também malogravam em se recuperar da infância...

            Não obstante, tradição em ética tem a mesma importância de tradição em linguagem: é simplesmente a maneira pela qual as pessoas ficam sabendo quais são as leis. Deve-se, portanto, respeitar a tradição ética da mesma maneira que se deve respeitar a tradição linguística ou artística: não por ser sacrossanta, mas por ser a única maneira de se estar em comunicação com os outros. Se eu quero fazer uma inovação aceitável em linguística, preciso mostrar seu sentido nos termos e no contexto da linguagem existente, pois uma mudança abrupta não será entendida. 

Na cultura ocidental, por exemplo, as regras da pintura e da música têm mudado muito mais depressa do que as regras do discurso, e frequentemente o público é escandalizado por pinturas e composições que parecem incompreensíveis. As primeiras sinfonias de Beethoven provocaram tanto susto quando ouvidas pela primeira vez quanto a obra de qualquer dos grandes modernos, e a primeira reação a essas comunicações não é geralmente que sejam difíceis, mas que são ruins. O público acha que o artista perdeu o domínio de sua técnica. Mas depois, se procurarmos entender o que ele está fazendo, verificamos que ele enriqueceu grandemente a nossa experiência. O problema do artista é evitar mudar as regras tão radicalmente a ponto de não restar ponte pela qual o público possa acompanha-lo.

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            Sempre há puristas e conservadores defendendo padrões absolutos de falar correto e de técnica estética. Eles sustentam... que o ouvido tem uma estrutura fixa à qual só convém um conjunto de regras musicais, e quem disser que gosta de música composta segundo outras regras é acusado de possuir ouvido pervertido, ou de estar-se iludindo.
...
            Nossa cultura herdou de Jerusalém e de Roma uma filosofia ética análoga mais à lei codificada do que à lei consuetudinária. Sempre que perguntamos o que devemos fazer, e buscamos autoridade para padrões éticos seja na vontade de Deus ou nas leis da natureza, supomos um padrão preexistente, como um código legal ou como estradas e trilhos, com o qual se acredita que o comportamento humano se conforma.
...
            Se a libertação acarreta a subordinação da razão a Eros, diferentemente da subordinação de Eros à razão, ela é evidentemente aliada da lei consuetudinária e não da lei codificada. Então a autoridade de última instância para o comportamento não está em nenhuma formulação verbal do que é permitido e do que não é permitido; está na ordem organismo/ambiente, ordem que nunca pode ser formulada completamente e de uma vez por todas em nenhuma lei estabelecida pela natureza. 

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Esperar que a definição científica descubra o padrão ao qual a natureza se conforma é supor que a lei, ou formulação verbal, precede o comportamento físico – seguindo a antiga noção de que Deus ordenou ao universo o que fazer. Mas se entendermos que a natureza, em vez de se conformar a um padrão é um padrão, podemo-nos livrar de um passo redundante e desconcertante em nosso pensamento. Dizer que a razão é subordinada a Eros é simplesmente dizer que ela é feedback, que serve Eros devolvendo-lhe uma descrição de ação espontânea. Exatamente da mesma maneira a descrição científica segue o padrão da natureza. Ela não lança, como trilhos, as regras que a natureza deve seguir, pois o próprio padrão está se desenvolvendo livremente. O feedback, a descrição, apenas ajuda o padrão humano a se desenvolver de forma mais ordenada. O que a razão e a ciência estão assim servindo, e o que portanto sempre fica como autoridade para a ação, é o corpo; e a ordem do corpo não é mecânica, mas orgânica.
              Vimos que a lei consuetudinária repousa em ultima instância no sentimento intuitivo da equidade do juiz. Cada caso é impar, e nenhum código ou conjunto de princípios fixos pode cobrir todas as eventualidades. O fator decisivo é portanto alguma coisa muito mais sutil e complexa do que qualquer formulação de regras possa ser – o cérebro do juiz, assistido por precedentes e regras. A lei codificada, como ética autoritária e tradicionalista, subverte a hierarquia da natureza. Deposita maior confiança e autoridade na estrutura relativamente crua e rígida de regras verbais do que na estrutura infinitamente mais fluida e complexa do cérebro, do organismo, e do campo ao qual vivem. A libertação nos devolve à hierarquia natural, e digo “hierarquia” porque é um padrão no qual razão e regras verbais são subordinadas mas não obliteradas.

            Há então duas razões principais para comparar ética com linguagem e arte. A primeira e destacar o caráter estético delas, dizer que elas precisam trabalhar como uma técnica de expressar Eros ou o que Marcuse chama “a ordem do sensorialismo”, e assim pô-las em lugar próprio na hierarquia. Ética é então

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 subordinada a espontaneidade como na descrição que Lao-tzu faz dos níveis ascendentes da ordem natural:

 O modelo (ou lei) do homem é a terra;
O modelo da terra é o céu;
O modelo do Céu é o Tao;
O modelo do Tao é espontaneidade.

 Disso decorre segunda razão: mostrar que a função da ética não é diretiva mas consultiva e sugestiva. Seu uso criativo não pode ser prescrito, como não podemos redigir instruções simples para fazer obras-primas de poesia ou pintura. Mas, da mesma forma que o uso inspirado da linguagem é impossível sem o conhecimento da linguagem, não pode haver expressão ética de Eros para uma reprimida sociedade sem tato, isto é, sem familiaridade com as convenções da sociedade, com os canais abertos à comunicação e os blocos em seu caminho.

            A tarefa agradável que espera uma ética de espontaneidade, por mais difícil que seja, é literalmente atrair pessoas para fora de suas conchas armadas. Mas onde, seja no Oriente ou no Ocidente, isso foi seriamente proposto? As forças que trabalham por mudanças sociais nunca se parecem lembrar de convocar Eros em seu auxílio. A tirania do masoquismo civilizado (do qual os próprios exploradores são vítimas) não pode, como supõe o comunismo, ser derrubada com revolução armada. O que é ganho pela força precisa ser mantido pela força, e por isso a cultura comunista é ainda mais contra a vida do que a capitalista, e ainda mais comprometida com a ética de sobrevivência. Por outro lado, o idealismo social de Gandhi ou dos quacres é também um caminho de violência, de violência espiritual contra o corpo, dirigindo seu apelo ao masoquismo do “auto-sacrifício”. Por mais admiráveis, dedicados e sinceros que sejam seus adeptos, o amor que eles expressam é uma mistura de dever e piedade, um amor-alma sem calor erótico ou alegria, e portanto não expressa o homem inteiro. Os idealismos que a civilização produz são esperneios da alma alienada contra a morte, e como seu apelo é dirigido à hostilidade, ao medo, à piedade (que também é medo), ou ao dever, eles nunca podem inflamar a energia da vida mesma – Eros – a única que tem o poder de por a razão em prática.

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             Se há alguma coisa a ser aprendida com a história é que descomposturas, advertências e sermões são um completo malogro ético. Podem servir como parte da palhaçada com a qual as crianças são levadas a aprender as convenções dos adultos, mas como meio de induzir mudanças sociais eles apenas confirmam e reforçam as atitudes que nos mantêm em guerra. A psicanálise no Ocidente e os caminhos de libertação no Oriente devem-nos possibilitar ver que o único caminho eficaz é apelar para Eros, sem o qual o Logos – o senso do dever e da razão não tem vida. O problema é que o homem civilizado aprendeu a ter tanto medo de Eros que se arrepia ante toda sugestão de que o amor social precisa ser erótico; essas sugestões convocam imagens de coisas viscosas, lascívias, faunescas e obscenas que ele quer esmagar como a um inseto nojento. Como vimos, isso em parte acontece porque o erótico que ele conhece está restrito aos órgãos genitais e não irradia todo o campo sensorial, e assim ele imagina que a associação erótica com outros seria uma orgia sexual coletiva. Em um nível mais profundo, o medo erótico é o ressentimento que a alma dissociada tem de seu corpo mortal – não vendo que a morte é problema não para o organismo mas para alma. Por isso é que grande parte do comportamento espontâneo do organismo é vergonhoso: nega a pretensão do ego de ser o dono.

            Mas para apelar para Eros a psicanálise precisa vencer os restos de antagonismo em sua própria atitude com a cultura, e o emprego de um jargão que ainda carrega a implicação de que o erótico é repugnante. A interpretação psicanalista de cultura frequentemente soa mais como ataque. Eala encontra simbolismo erótico em todas as criações de arte, ciência e religião, como se dissesse, “que animais imundos vocês são afinal!” Mas a descoberta por Freud do erótico em tudo que é supostamente espiritual e sublime foi uma revelação maravilhosa. Ela mostra que, por mais que tentemos, a espontaneidade não pode ser impedida, e o fato de que o homem é um organismo vivo não pode ser abafado. Não há motivo para vergonha em reconhecer que nossas imagens e concepções mais altas tem um simbolismo erótico. A psicoterapia e a libertação ficam terminadas no momento em que vergonha e culpa caem, quando o organismo, e quando o indivíduo está pronto para entrar na posse de seu comportamento inconsciente. Mas na prática a psicanálise não deixa claro que o erótico é

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 mais profundo do que o genital. Além da ação do pênis na vagina está a ação do organismo em seu ambiente – o erotismo polimorfo do corpo original do homem quando sai do útero.

“Erotismo polimorfo” não é absolutamente eufemismo para hedonismo, a mera busca de prazer em todas as frentes. Como disse Coomaraswamy, espontaneidade (sahaja) é “uma senda de não busca”, enquanto que a busca do prazer implica no assalto do organismo ao seu ambiente para “tirar alguma coisa dele”, como se o ambiente não fizesse parte do organismo. Como o orgasmo sexual completo, o gozo desse erotismo deve vir sem ser forçado. Não há exercício autoconsciente em relaxar ou abrir deliberadamente os sentidos que possam proporciona-lo, salvo como upaya, uma técnica para mostrar que ele não pode ser comandado. O erotismo polimorfo não pode ser cultivado nem transformado em culto; só pode surgir por si mesmo quando a alma foi devolvida ao corpo e o indivíduo não está mais identificado com o ego. É assim que o adulto recupera o que no zen é chamado do “dom natural” que ele teve quando criança, e é por isso que os taoístas vêem no corpo da criança um modelo para o corpo do sábio. Nas palavras de Chuang-tzu:

         Podes ser como uma criança recém-nascida? A criança chora o dia inteiro e sua voz nunca fica rouca; isso é porque ela não perdeu a harmonia da natureza... A criança olha as coisas o dia inteiro sem pestanejar; isso é porque seus olhos não estão focados em nenhum objeto em particular.  A criança vai sem saber para onde está indo, e para sem saber o que está fazendo. Ela se funde com o ambiente e se desloca com ele. Esses são os princípios da higiene mental.

            É o “narcisismo primevo” de Freud; e como diz Norman Brown:

         Freud diz não apenas que o sentimento-ego humano outrora abarcou o mundo todo, mas também que Eros impulsiona o ego a recuperar aquele sentimento: “O desenvolvimento do ego consiste em um afastamento em relação ao narcisismo primevo e resulta em uma tentativa vigorosa de recupera-lo.” No narcisismo primevo o ser é uno com um mundo de amor e prazer; daí decorre que o objetivo último do ego humano é restaurar o que Freud chama de “narcisismo ilimitado” e se ver uma vez mais uno com o mundo todo em amor e prazer.

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A versão adulta ou madura do narcisismo primevo é naturalmente a “consciência cósmica”, ou passagem da consciência egocêntrica para o sentimento de que a identidade da pessoa é todo o campo do organismo em seu ambiente. Mas para que isso não fique sendo um estado puramente contemplativo, em outras palavras, para que o homem libertado volte para o mundo como Bodhisattva, ele vai procurar os meios de expressar seu sentimento de ser “uno com o mundo todo em amor e prazer.” Por serem os meios estéticos, sua abordagem do mundo é, como acha Marcuse, a de Orfeu, “o sacerdote, o porta-voz dos deuses”, que amansa homens e animais pela atração e magia de sua lira. Seu método não é o do pregador ou do político, mas, em seu sentido mais amplo, o do artista. Porque no sistema de valores da civilização, de sobrevivência compulsiva, o artista é irrelevante. Ele é encarado como mero decorador que nos entretém enquanto trabalhamos. Como o menestrel itinerante, ator, palhaço ou poeta, ele pode ir a toda parte porque ninguém o leva a sério. “Sua linguagem,” diz Marcuse, “é cantiga, e seu trabalho é brinquedo.”

            Mas os estados totalitários sabem o perigo do artista. Corretamente – se bem que por motivos errados – eles sabem que toda arte é propaganda, e que arte que não apoia o sistema deve ser contra eles. Eles sabem intuitivamente que o artista não é um excêntrico inofensivo, mas uma pessoa que sob o disfarce da irrelevância cria e revela uma nova realidade. Se não quer então ser esfacelado como Orfeu na lenda, o artista libertador deve poder jogar o contrajogo e mantê-lo tão escondido como o judô do taoísmo e do zen. Ele deve poder ser “todas as coisas para todos os homens”, porque como vemos pela história do zen qualquer disciplina pode ser utilizada como caminho de libertação – fazer panelas, projetar jardins, arrumar flores, construir casas, servir chá, até manejar a espada; ninguém precisa anunciar-se como psicoterapista ou guru. Ele é artista em tudo que fizer, não apenas no sentido de faze-lo bonito, mas no sentido de interpretar um papel. Na linguagem expressiva do mundo do jazz o artista faz seja qual for a cena. Faça o que fizer, ele dança o que faz – como um engraxate negro quando engraxa. Ele jinga.

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            Não é por acaso que a esse respeito se pensa no negro americano, em sua música e sua linguagem. Ele retém vestígios de uma cultura verdadeiramente erótica, e é isso, mais do que sua cor e feições, que a subcultura anglo-saxônica tanto ressente. É até miraculoso ouvir um pastor negro e uma congregação negra converterem a mais insossa religião bíblica do sul em uma dança jingada de soberbo ilogismo. É como uma objeção ao ponto de vista de Jacob Boehme de que

nenhum povo compreende mais a linguagem sensual, e os pássaros no ar e os animais na mata a compreendem segundo suas espécies. O homem pode então avaliar o que lhe foi roubado, e o que ele precisa recuperar no segundo nascimento (a descoberta e o contato com seu EU verdadeiro, o Purucha por de trás dos múltiplos egos, artefatos sociais-MAO). Porque na linguagem sensual todos os espíritos falam entre si, não precisam de outra linguagem, pois é a linguagem da natureza.

Não estou idealizando o negro porque, nas circunstâncias, sua cultura não é mais do que um vasto lampejo do que estou querendo mostrar, e sobrevive em espantosa pobreza e miséria. O que estou dizendo é que é possível deixar de levar o universo e a vida humana a sério dizendo-lhes que eles precisam representar, como se estivessem a caminho de algum ideal futuro que precisam alcançar a todo custo. Sentir-se assim é, para empregar mais uma vez a linguagem do jazz, “uma cena muito remota” – um estado de alienação tão intenso  que a recuperação seria um contraste impressionante.

            Os caminhos de libertação deixam bem claro que a vida não está indo para lugar nenhum porque já chegou. Noutras palavras, ela está encenando, e os que não encenam com ela simplesmente não entenderam. Como disse Lewis Mumford:

            A beleza, por exemplo, tem desempenhado papel tão grande na evolução quanto o uso, e não pode ser explicada, como quis Darwin, como mero recurso prático de namoro e fertilização. Em suma, tanto se pode conceber a natureza mitologicamente como poeta, trabalhando com metáforas e rimas, como se pode pensar nela como um mecanismo esperto que está sempre procurando economizar material, equilibrar receita com despesa, fazer o trabalho com eficiência e economia.

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 Ambas as opiniões podem ser igualmente permitidas no sentido de que não há motivo para não encenarmos qualquer delas, se bem que representar que não estamos representando leve aos círculos viciosos, às frustrações e contradições da prisão dupla – e este jogo não compensa. É na medida que as crianças brincam de não estarem brincando que suas brincadeiras de bandido produzem galos na cabeça e arranhões nos sentimentos, o que acaba com o brinquedo. Música, dança, ritmo são formas de arte que não tem objetivos fora delas mesmas, e participar delas completamente é por de lado qualquer pensamento sobre um futuro necessário; dar ordem ao ritmo é mata-lo instantaneamente. No momento em que fica ansioso por tocar a nota correta o músico se bloqueia. Ele só pode aperfeiçoar sua arte continuando a tocar, praticando sem tentar até chegar o momento em que achar o ritmo correto sairá por si mesmo.

 REPRESENTAR QUE NÃO ESTAMOS REPRESENTANDO  ≡≡ PRISÃO DUPLA

Todo resultado perfeito em arte ou na vida é acompanhado pela curiosa sensação de que está acontecendo por si – que não é forçado, estudado nem provocado. Isso não quer dizer que tudo o que parece acontecer por si é um resultado perfeito; o maravilhoso na espontaneidade humana é que ela criou meios de autodisciplina – que só se tornam repressivos quando sentem que o agente controlador está separado da ação. A sensação de que a ação está acontecendo por si, que não vem de um agente nem vai para uma testemunha, é a sensação autêntica da vida como processo puro no qual não há agente nem paciente. Processo sem fonte nem destinação, verbo sem sujeito nem objeto – não se trata de privação, como sugere a palavra “sem”, mas da sensação “musical” de chegar a cada momento em que melodia e ritmo de abrem.

            A música é a representação mais aproximada da “linguagem sensual” de Boehme porque, ao contrário da linguagem comum, ele não se refere a nada para além de si mesma, e apesar de possuir frases e padrões, nãos possui sentenças que separam sujeito de objeto, e partes de discurso que separam coisas de acontecimentos. “Abstratas” como possam parecer à primeira vista, a música e a matemática pura estão mais perto da vida do que estão as línguas úteis que indicam significados para além delas mesmas.

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A linguagem comum refere-se à vida, mas a música vive. A vida mesma é levada a se comportar como linguagem comum quando é vivida para um propósito para além de si mesma, quando o presente serve ao futuro, ou quando o corpo é explorado para os objetivos da alma. Uma tal maneira de vida é por conseguinte “fora de si” – insana – e por estar sendo levada a se comportar como linguagem e palavras, ela se torna vazia como “meras palavras”. Ela não tem outro recurso a não ser prosseguir para o futuro ao qual o presente aparentemente se refere – para descobrir lá que o significado está além.

            O artista libertador representa o papel de Orfeu vivendo no modo da música em vez de no modo da linguagem. Toda sua atividade é dança, ritmo pelo ritmo, e assim ele se torna um vórtice que puxa outros. Ele atrai a atenção dos outros do depois para o agora, absorvendo-os em um ritmo no qual sobrevivência deixa de ser critério de valor. É por essa atração, e não por direção ou comando, que ele é procurado como mestre de libertação. É fácil tornar-se mártir lançando desafios e críticas ao mundo. É muito simples gozar a sensação de estar certo, exibindo a falta de inibição e escandalizando uma sociedade reprimida. Mas a grande arte, o upaya de um verdadeiro Bodhisattva, só é possível para quem transcendeu qualquer necessidade de auto justificação, pois enquanto houver alguma coisa a provar, alguma sardinha a assar, não há dança.

            Do ponto de vista da libertação legitima não existe gente inferior. Como o ego não existe, os que estão mais cativados pela ilusão do ego ainda estão representando. Que eles levem o jogo a sério e não saibam que estão representando, é considerado pelo Bodhisattva um jogo abandonado e muito arriscado. Se o mundo é jogo, não há maneira de se ir contra ele. As mais flagrantes contradições, as mais firmes asserções de que o jogo é sério, as mais absurdas tentativas de ordenar espontaneidade,  e os mais complicados círculos viciosos nunca podem ser nada além de formas de jogo extremamente remotas. Quando chega a vez dela, a repressão civilizada simplesmente acumula a força de Eros, como a água se acumulando em uma represa. O jogo de esconde-esconde continua porque Eros continua escondendo-se e mostrando-se em cada racionalização nas imagens mais intencionalmente espirituais e transcendentais.

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Vendo isso, o Bodhisattva nunca pode sentir que está sendo condescendente, ou que sua libertação, seu conhecimento de que o mundo é jogo, o faz superior aos outros. Se ele trabalha pela libertação dos outros é porque tem pena de vê-los no sofrimento que sentem quando o jogo é inconsciente, quando a seriedade está sendo representada ao extremo. O gerador da pena não é tanto o Bodhisattva, mas o ponto extremo da situação, pois a treva mais escura é em si a semente da luz, e toda guerra explícita é amor implícito.

I - Psicoterapia e libertação II - Sociedade e Sanidade III - Os Caminhos da libertação IV - Um Espelho Escuro V - O Contrajogo VI - Convite à Dança