Pg.35II
– Sociedade e
Sanidade
Como
padrão de comportamento, sociedade é acima de
tudo um sistema de pessoas em
comunicação mantida por
ação coerente.
Para manter o sistema o que é feito deve ser coerente com o
que já foi feito. O
padrão é reconhecível com tal porque
A
manutenção da sociedade seria simples se os seres
humanos se contentassem
apenas com a sobrevivência...Se para sobreviver é
preciso trabalhar, parece que
a principla preocupação dos seres humanos é
brincar, mas ao mesmo tempo
fingindo que a maior parte deste brinquedo é
trabalho. Pensando bem, a fronteira entre trabalho e brinquedo
é vaga e
mutável. Ambos são trabalho no sentido que
despendem energia; mas se trabalho é
o que precisamos fazer para sobreviver, não caberia
perguntar se é necessário
mesmo sobreviver? Sobrevivência –
continuação do padrão coerente do
organismo –
não será uma forma de brinquedo? Precisamos
desconfiar do antropomorfismo que afirma que os animais
caçam e comem para
sobreviver, ou que o girassol gira para conservar sua face voltada para
o sol. Não
há motivo científico para supor que existam
instintos de
sobrevivência e de prazer (será
???). Quando dizemos que o organismo
gosta
de continuar vivendo, ou que
continua vivendo por que gosta, que provas temos deste
“gostar” exceto o fato
do organismo continuar vivendo – até deixar de
viver? Da mesma forma, dizer que
sempre escolhemos o que preferimos não é mais que
dizer que sempre escolhemos o
que escolhemos. Se existe um anseio básico de viver, deve
existir também, como
pensava Freud, um anseio básico de morrer. Mas a linguagem e
o pensamento são
mais limpos sem esses instintos, anseios e necessidades espectrais.
Como disse
Wittgenstein, “a necessidade de que
Organismo
durável
é simplesmente organismo
coerente com o seu meio.
O
clima e a nutrição concordam com ele; o
padrão os assimila, eliminando o que
não concorda, esse movimento coerente, essa
transformação de alimento e ar em
padrão do organismo é o que chamamos a sua
existência. Não
há necessidade misteriosa que isso continue ou cesse...
Dizer
que ele morre quando não encontra alimento é
apenas outra forma de dizer que a
sua morte é a mesma coisa que a
cessação de sua coerência com o
ambiente...
Organismos
mais complexos, como os seres humanos são
coerências mais complexas,
transformações mais complexas do ambiente..
Além de serem padrões de transformação
de alimentos, sua concordância
ou coerência com o ambiente transforma
vibrações nucleares em som e luz, peso e
cor, gosto e cheiro, temperatura e tessitura, até que
finalmente eles geram
padrões complicados de sinais e símbolos de
grande coerência interior. Quando
esses sinais e símbolos se misturam com o ambiente, pode-se
descrever o mundo
em termos de padrões de signos. O mundo é assim
transformado em pensamento da mesma forma
que o alimento foi transformado em organismo.
A concordância ou
coerência do padrão orgânico ou do
padrão de pensamento com o padrão do mundo
continua enquanto continuar. Dizer por
que ela começa ou
para é apenas descrever coerências ou
incoerências
particulares.
Dizer que as coisas não tem
necessidade de
acontecer como acontecem é talvez outra maneira de dizer que
o mundo é lúdico.
Mas essa
idéia é afrontosa ao bom senso
porque a regra básica das sociedades humanas é
que precisamos ser coerentes. Se
alguem quer pertencer a nossa sociedade
precisa jogar o nosso jogo...
... a primeira regra do jogo é
que este
jogo é sério,
quer dizer, não
é um jogo. Podemos
chamar isso de “repressão” primordial.
Não quero dizer
que se trata de um acontecimento nos primórdios temporais da
vida humana, mas
sim que pode ser nossa atitude social mais arraigada.
Mas tão logo
percebemos que certas coisas, como a sobrevivência,
são necessidades sérias, a
vida torna-se problemática em um sentido muito especial,
diferente, digamos,
dos problemas do xadrez ou da ciência. Vida e problema ficam sendo a
mesma coisa; a situação humana
tornou-se uma crise para qual não existe
solução. O
homem então se
comporta como organismo auto frustrante,
comportamento que pode
ser visto sob muitas formas. Por exemplo, um
dos nossos maiores trunfos para
sobrevivência é o sentido do tempo,
aquela memória de
maravilhosa sensibilidade
que nos permite prever o futuro
com base no passado. Mas o
sentido do
tempo deixa de ser um trunfo quando a preocupação
com o futuro torna quase
impossível viver plenamente no presente,
ou quando o conhecimento do
futuro traz a certeza de que, para além de uma faixa
estreita, não temos
futuro... se as instituições sociais se destinarem cada
vez mais a promover a unicidade da
pessoa, estaremos em grande perigo de
superpopulação...
Essa
atividade auto frustrante é o samsara,
o círculo vicioso do qual os caminhos de
libertação propõem saída. A
saída
depende de se adquirir consciência daquela repressão
primordial responsável pela sensação
de
que vida é um problema,
que o
problema é sério, que ele precisa continuar. É preciso ver que o
problema que estamos querendo solucionar é
absurdo. Mas
isso é mito mais do que mera
resignação ao destino, muito mais que o mero
desespero estóico de reconhecer
que a vida humana é uma batalha perdida contra o caos da
natureza.
Isso
corresponde
apenas a ver que o problema
NÃO TEM SOLUÇÃO
(grifo nosso), que ele
é
tão absurdo que não
precisamos
encara-lo como um problema.
A solução do problema
da vida está no
desaparecimento desse problema(12). ...
Indagado
por um psiquiatra como tratava os neuróticos um mestre zen
respondeu: “Eu os
prendo”. “E como os prende?” Eu os levo
para onde eles não podem fazer mais
perguntas”.
Mas a
idéia de que a vida humana não precisa ser
encarada como problema é tão pouco familiar,
e aparentemente tão ...A
verdade é que o mundo não tem ordem fixa.
Poderíamos
quase dizer que o mundo está se ordenando de maneira cada
vez mais sutil tanto
por meio dos organismos vivos como com os comportamentos de organismos
vivos.
Vimos que
os organismo primitivos são coerentes com seus ambientes
pela transformação de
alimentos, etc.., em seus padrões orgânicos. Isso
pode ser expresso de maneira
invertida dizendo que os ambientes são coerentes com os
organismos por terem
uma natureza que permite essa coerência. Os
ecólogos falam da evolução do
ambiente e da evolução do organismo. Como Dewey e
Bentle (13), Angyal(14),
Brunnswik (15) e muitos outros alvitraram, organismo/ambiente
é um padrão
unificado de comportamento
mais
ou menos como um campo
(elétrico,
magnético,
eletromagnético, social...nuclear...)
em física –
“não
uma interação
mas uma transação”
(Gardner Murphy).
Pg.42
O que
intriga é que alguns
“painéis” (transdutores
biológicos)
que inventamos
funcionam, e outros não. Do mesmo modo, alguns
comportamentos animais parecem
ajustar-se ao ambiente e outros não. O (comportamento) da
formiga, por exemplo,
são os mesmos Há milhões de anos;
mas
as
enormes presas dos tigres dente de sabre, o volume enorme dos
sáurios, os
grandes chifres nasais dos titanotérios... foram
experiências que fracassaram.
Talvez fossa mais exato dizer que estas experiências deram
resultado durante
algum tempo, mas não tanto quanto as de outras
espécies. O que parece ocorrer
na maioria desses casos é que a
relação organismo/ambiente se
“sinde” (se
rompe); o ataque do organismo ao ambiente, ou sua defesa contra ele,
torna-se tão
forte que acaba isolando-o de sua fonte vital. Ou pode ser que o
organismo seja
muito conservador para um ambiente em rápida
mutação, o que dá no mesmo; o
padrão é muito rígido, muito
preocupado com a sobrevivência, e acaba isolado. Ou
pode ser que o organismo, considerado
como um campo, esteja em auto contradição:
o peso do
Se for o
caso, precisamo-nos armar contra um passo em falso no
raciocínio.
É preciso NÃO
dizer ao indivíduo:
“Cuidado! Se quer sobreviver, você precisa fazer
alguma coisa!” Qualquer gesto
nesse sentido, só servirá para piorar a
situação; terá simplesmente como
resultado confirmar o indivíduo em seu sentimento de
separação. Esse gesto
ficará sendo como o chifre nasal, um mecanismo de
sobrevivência frustrando a
sobrevivência. Mas
se não cabe ao
indivíduo fazer alguma coisa, o que então deve
ser dito ou feito, e por quem e
para quem?
Será
errado dizer que a situação poderá
corrigir-se sozinha, que o
“padrão-campo”
homem/universo pode ter inteligência suficiente para
conseguir isso? Se isso
acontecer, ou estiver acontecendo, parecerá a
princípio que os indivíduos
estejam iniciando as mudanças eles mesmos. Mas, à
medida que as mudanças
necessárias forem ocorrendo, os indivíduos
envolvidos sofrerão simultaneamente
uma mudança de consciência que revelará
a ilusão do seu isolamento. Não será
mais ou menos isso o que acontece
quando
um pesquisador pensando que fez uma descoberta independente, descobre
que
várias outras pessoas fizeram a mesma descoberta mais ou
menos ao mesmo tempo?
Como dizem os cientistas então, o campo
da pesquisa desenvolveu-se ao ponto em que a descoberta podia ocorrer
naturalmente em vários lugares.
Passando
à instituição social da linguagem, ou
“painel de palavras”, podemos facilmente ver como
ela pode estar separando
organismo de ambiente, e separando aspectos ambientais uns dos outros.
Línguas
que categorizam palavras em substantivos e verbos obviamente traduzem o
que
está acontecendo no mundo em coisas particulares
(substantivos) e
acontecimentos (verbos), e esses por sua vez
“possuem” propriedades (adjetivos
e advérbios) mais ou menos separáveis deles.
Todas essas línguas representam o
mundo como se fosse uma montagem de pedaços e
partículas distintas. O defeito
desses painéis é
Suponhamos
que o grupo social A tem um grupo inimigo B. O fato de B periodicamente
atacar
A mantém os membros de A em guarda e
“poda” sua população. Mas o
grupo A
considera bom o seu lado e mau o lado B; e como o bom e o mau
são
irreconciliáveis, o serviço que B presta a A
é ignorado. Chega o tempo em que A
mobiliza forças e aniquila B ou o deixa em
situação de não poder mais atacar. A
fica então em perigo de aumentar sua
população até estourar, ou de se
debilitar
por falta de “tonus”. ... Ao
mesmo tempo, uma disputa entre vício e virtude pode ser
tão importante como a disputa entre o grupo A e o grupo
B...perceber isso é
compreender que a disputa é um jogo.
Toda
classificação parece pedir uma divisão
do mundo. Existindo uma classe, existe o
que está dentro e o que está fora dela. Dentro e
fora, sim e não, excluem
explicitamente um ao outro. São formalmente opostos, como o
grupo A e o grupo B
seu inimigo, o bom e o mau, virtude e vício. A
separação ...
A
dificuldade maior não está em descobrir a
língua (entender o
funcionamento de um
idioma),
mas em vencer a
resistência social.
Adiantaria descobrir que o nosso jogo não é
sério, que inimigos são amigos, e
que o bem se aproveita do mal? A nossa sociedade parece uma
conspiração tática
para manter essas verdades abafadas por medo de que a Pg.46 disputa
cesse se forem divulgadas. Se esses opostos não
forem mantidos separados e em antagonismo, que
motivação haverá para a luta
criadora entre eles? Se o homem não se sentir em guerra com
a natureza, haverá
ainda ímpeto no progresso tecnológico? Como
reagiria a consciência cristã à
idéia de que Deus e o Diabo seriam amigos íntimos
atrás do pano, mas se
colocaram em campos diferentes para encenarem um grande jogo
cósmico? Pois essa
era mais ou menos a situação quando foi escrito o
Livro de Jó, no qual Satanás
é simplesmente advogado de acusação na
corte celeste, tão fiel à corte como o
advogado do Diabo no Vaticano. (4) Acho
também
difícil ler os relatos da Última Ceia sem ficar
com a impressão de que Jesus
ordenou a Judas que o traísse.
O
Problema é que se os homens são padrões
de ação e não agentes, e se o
indivíduo e o mundo atuam juntos, mutuamente, de
modo que a ação não se origina de
nenhuma deles quem é o culpado quando ocorre
pane (pergunta
feita ao site
budista...não
respondida)?
Pode a
polícia chegar perguntando quem é o
responsável? A
convenção de que o indivíduo
é o agente responsável está na base de
quase todas as nossas estruturas sociais e jurídicas. Aceitar esse papel é
critério numero um de sanidade,
e achamos que se
alguém
é reduzível a ações e
comportamentos que não são
praticados por ninguém, esse alguém
não é mais que um mecanismo sem alma.
Como efeito, à primeira vista existe um elemento de terror
nesse universo de
atividade pura; parece não haver um ponto onde se possa
tomar uma decisão,
começar qualquer coisa. Não é nada
improvável que um resvalo nesse modo de
sentir possa às vezes deflagrar um estado
psicótico, pois o indivíduo poderia
sentir que perdeu o controle de tudo e não pode confiar nem
em si nem nos
outros para um comportamento coerente. Mas,
supondo que uma pessoa
compreenda de início que esta é mesmo a
situação, a experiência seria bem menos
enervante. Na prática acontece que, logo que uma pessoa se
habitua com este
sentimento e não o teme, é possível
continuar comportando-se racionalmente –
porém com enorme sensação de leveza.
Deixando
de lado por enquanto as implicações morais e
éticas desse conceito do homem,
ele parece ter a mesma vantagem sobre o conceito comum que o sistema
cósmico de
Copérnico teve sobre o de Ptolomeu. É
tão mais simples, mesmo que signifique
perder a posição central da Terra. E é
também uma Pg.47
Um dos
melhores relatos das características sociais e convencionais
do ego está na
obra de George Herbert Meade (19). Mostra ele que a
diferença entre as teorias
sociais e biológicas da origem da autoconsciência
individual corresponde à diferença entre
a teoria
evolucionista e a contratual
da origem do estado. Na
última, desacreditada,
a comunidade social seria formada por contrato entre pessoas
autoconscientes.
Mas Mead pondera que o indivíduo não pode
tornar-se objeto de si mesmo por si
mesmo, e de qualquer forma indivíduos animados
não existem e nunca existiram
por si mesmos.
O conceito de
que o espírito (isto é o ego) é um
dote
biológico congênito do organismo individual
não permite explicar a sua
natureza: nem explicar que dote
biológico é esse,
nem como os organismos o
adquirem em determinada etapa da evolução.(20)
Em
seguida ele demonstra que o “eu”, o
indivíduo biológico, só se pode tornar
cônscio de si mesmo em termos reflexos de
“mim”, mas que este é um conceito de
si mesmo dado ao indivíduo por outras pessoas.
Se o
espírito é socialmente constituído, o
campo ou locus
de determinado espírito individual
deve chegar até onde chega a atividade social ou aparato de
relações sociais que
o constituem; daí não poder esse campo ser
limitado pela pele do organismo
individual a que ele pertence. (22)
Eis aí
uma contradição importante nas regras do jogo
social. Os participantes do jogo
devem joga-lo como se
fossem agentes independentes, mas não devem saber
que existe este artifício. Está
explícito nas regras que o indivíduo é
autodeterminativo, mas implícito que ele só
é autodeterminativo em virtude das
regras. Além disso, mesmo sendo definido como agente
independente, ele não deve
ser tão independente a ponto de não se submeter
às regras que o definem. Ele é
definido como agente para poder ser responsável por
“suas” ações perante o
grupo. As regras do jogo conferem independência e a tomam ao
mesmo tempo, sem
revelar a contradição.
Essa é
exatamente a situação que Gregory Bateson (23)
chama de prisão dupla, na qual o
indivíduo é solicitado a seguir dois cursos
mutuamente exclusivos e ao mesmo
tempo é impedido de comentar o paradoxo. Ele é
condenado se fizer, e condenado
se não fizer, e não pode ver isso (comentar isso).
Bateson diz que o indivíduo apanhado em uma
situação doméstica que lhe
impõe a
prisão dupla em forma aguda é candidato
à esquizofrenia.(6). Se
ele não pode
comentar a contradição, o único
caminho é retirar-se do campo. Mas a sociedade
não
permitr retirada; o indivíduo tem que jogar.
Como
disse Thoreau,
sempre que
procuramos solidão, outros nos arrancam dela “e
nos obrigam a entrar para
companhia desesperada da qual fazem parte”. Assim, para poder
retirar-se o
indivíduo precisa fazer crer que não é
ele que se esta retirando, que a
retirada está
acontecendo
e que ele nada pode
fazer.
Em
outras palavras, ele precisa “perder o
juízo” e ficar insano.
Mas, como
“gênio e louco são aliados”, a
retirada esquizofrênica é uma caricatura de
libertação, incluindo até a
“lamaseria” do asilo de insanos oua
situação
peculiarmente isenta do antigo bobo da aldeia. Como sugere a
terminologia do
Zen-budismo, o homem libertado também é um
“sem–espírito” (wu-shin)
(ou sem ego?!)e
não se sente um agente, um participante de
ações. Mas
na Libertação isso se passa não por um
meio de uma
compulsão inconsciente, e sim por uma
intuição, pelo entendimento e rompimento
da prisão dupla que a sociedade impõe. A pessoa
não chega à situação de
não
poder jogar; pode jogar até melhor por ver que se trata de
um jogo.
A retirada
esquizofrênica afeta uma minoria, e ocorre em
circunstâncias em que a prisão
dupla imposta pela sociedade em geral é um composto de tipos
especiais de
prisão dupla peculiares a uma situação
familiar especial.
O resto de
nós vive em graus diferentes de neuroses,
toleráveis na medida em que
conseguimos “esquecer a nós mesmos”
absorvendo-nos em hobbies,
novelas policiais, serviço social, televisão,
negócios e
guerras. Assim,
é difícil evitar a conclusão de
estarmos aceitando uma definição insana de
sanidade e de que, em conseqüência, nossos
problemas humanos comuns são tão
persistentemente insolúveis que se somam à perene
e universal “crise do homem”,
atribuída à natureza, ao Demônio, ou ao
próprio Deus.
Se o que
ficou dito até agora foi inteligível, o foi
só em parte; do contrário, o leitor
ficaria libertado imediatamente! Pg.50 Como
eu disse, existem dificuldades verbais inevitáveis
até em descrever o paradoxo em que vivemos, para
não falar na descrição do
padrão de campo em que se desenvolve a vida humana.
O problema é que
estamos descrevendo a dificuldade com a mesma estrutura
lingüística que nos
leva a ela. A
estrutura lingüística diz
“(nós)
estamos descrevendo” e
“nos
leva a ela”, confirmando
a
cada passo a realidade do agente-entidade que se presume por
trás da atividade,
ou sofrendo-a quando se supõe que ela vem de outra fonte. O
Bom senso recua
diante da idéia da ação sem agente,
como recua ante a idéia de padrão sem
substância, seja material ou mental.
Mas 1 + 2 = 3 e x – y
= 0
são enunciados inteligíveis aqui,
porque como disse William James “a palavra eu
é antes de tudo um substantivo de
posição, como este
e aqui”
(25). Se são
observáveis estão sujeitas á
comentário, e é a possibilidade de
comentá-la que
rompe a prisão dupla. Por um lado
instituições sociais como o painel da
linguagem criam, ou melhor, traduzem o mundo em seus termos, de modo
que o
mundo – a vida mesma – parece
contraditório se os termos são auto
contraditórios. Por outro lado,
instituições sociais não criam o mundo
ex nihilo.
Elas estão no padrão da
natureza que elas representam correta ou incorretamente, e pertencem a
ele.
O
padrão
da natureza só pode ser enunciado
em
termos de uma linguagem; mas pode ser mostrado em termos, digamos, de
percepções sensoriais. Para uma sociedade cujo
sistema numérico é apenas “1, 2,
3, muito”, não pode ser um fato que tenhamos 10
dedos; e no entanto todos os
dedos são visíveis. ... ...Se
eu sei que a Terra é chata, navegando sempre na
mesma direção acabarei caindo pela borda da
Terra. Da mesma forma se você sabe
que é agente independente, faça alguma coisa
independente, seja espontâneo,
mostre-me esse agente.
Pg.51 ...quando
empregamos instituições em cujos termos
não podemos
agir coerentemente, podemos ter certeza ou de que são
autocontraditórias ou de
que não se encaixam no padrão da natureza.
Autocontradições que não
são
observadas e padrões da natureza que a linguagem
não exprime são, em termos
psicológicos, inconscientes e reprimidos. As
instituições sociais estão, pois, em
conflito com o padrão homem-no-mundo, e
isso aparece como angústia no organismo humano, que
não pode ser incoerente
consigo mesmo ou com a natureza sem deixar de existir. Freud estava
certo ao atribuir
a neurose ao conflito entre o sentimento sexual e os costumes sexuais
peculiares às culturas ocidentais. Mas
ele estava apenas arranhando o
problema, entre outros motivos porque o seu conceito de
“instinto” sexual
estava estava apenas condicionado por estes mesmos costumes. Como disse
Philip
Rieff, Freud
não
apenas
empregou a
sexualidade para esvaziar o orgulho do homem civilizado; ela ainda a
definiu
pejorativamente por aquelas qualidades que fazem o instinto sexual
intratável
para uma sensibilidade civilizada(26)...
Ma o que
nossas instituições reprimem não
é apenas o amor sexual, a mutualidade, entre
homem e mulher – mas também o amor mais
profundo entre organismo e ambiente, entre Sim e Não, e
entre todos aqueles
chamados opostos Há muito
tempo
acredito que
a natureza humana é uma reciprocidade entre o quer
está dentro da pele e o queestá
fora; que
ela não está “enrolada dentro de
nós”, mas cosntitui nossa maneira de sermos unos
com nossos semelhantes e com o
nosso mundo. Chamo esse campo de teoria. (28). Pg.53
Os
caminhos da libertação se preocupam naturalmente
em fazer dessa chamada
consciência mística a consciência normal
cotidiana. Mas cada vez mais
me
convenço de que o que se passa nas disciplinas desses
caminhos, a despeito da
linguagem com que é descrito, não
é
sobrenatural nem metafísico no sentido
usual, nada tem a ver
com a percepção de algo
mais do que o mundo físico; pelo
contrário, é a percepção
clara deste mundo como campo,
percepção que
não é
apenas teórica mas também sentida claramente como
sentimos, por exemplo, que
“eu” sou um ser pensante por trás e
independente de meus pensamentos, ou que as
estrelas estão separadas do espaço e uma das
outras. Nesse conceito, as
diferenças do mundo não são objetos
isolados encontrando um com o outro em
conflito, mas expressões de polaridade. Opostos e
diferenças têm alguma coisa
entre eles como as duas faces de uma moeda; eles não se
encontram como
estranhos completos. Quando essa relatividade das coisas é
vista com forte
clareza, a relação apropriada é amor,
e não ódio ou medo. Por certo, esta é a maneira de ver as coisas requerida por uma psicoterapia eficaz. Indivíduos perturbados são, por assim dizer, pontos do campo social em que irrompem as contradições do campo. Não adianta em nada confirmar as contradições que os estão fazendo sofrer, não adianta o psiquiatra ser o representante oficial de um sistema doentio de instituições. A sociedade de homens com homens e a sociedade ecológica mais ampla de homens com a natureza, por mais explícita que seja a contenda, é implicitamente um campo – uma acordo, uma relatividade, um jogo. As regras do jogo são convenções que também significam acordos. É muito bom para nós concordar que somos diferentes um de outro, contanto que não ignoremos que concordamos em diferir. Não diferimos em concordar, em criar a sociedade mediante contrato consciente entre partes originalmente diferentes. Além do mais, mesmo se deve haver uma batalha, deve haver um campo de batalha; quando os contendores perceberem isso, haverá uma dança de guerra em vez de uma guerra.
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| I - Psicoterapia e libertação | II - Sociedade e Sanidade | III - Os Caminhos da libertação |
| IV - Um Espelho Escuro | V - O Contrajogo | VI - Convite à Dança |