WATTS, Allan.
Psicoterapia Oriental & Ocidental

Rio de Janeiro: Editora Record, 1973. 

 

Pg.35

II – Sociedade e Sanidade

             Não se pode demonstrar ainda que a sociedade é um organismo de pessoas da mesma forma que o homem é um organismo de células; mas é evidente que qualquer grupo social é algo mais que a soma de seus componentes...Uma sociedade são pessoas vivendo juntas em um certo padrão de comportamento – padrão que produz traços físicos como estradas e cidades, códigos de leis e linguagem, ferramentas e artefatos, tudo isso criando “canais” que determinam o comportamento futuro do grupo. Uma sociedade não é formada de pessoas no sentido que uma casa é formada de tijolos, ou mesmo no sentido em que um exército é constituído mediante recrutamento. No sentido estrito, sociedade é menos coisa e mais um processo de ação indistinguível de seres humanos e animais, e da vida mesma. O fato de não existir organismo humano sem pais de dois sexos já é sociedade (por outro lado o casamento gay com pais do mesmo sexo e filhos de sexos diversificados tornou-se no Brasil um Fato Social na estrita definição de Weber).

            Como padrão de comportamento, sociedade é acima de tudo um sistema de pessoas em comunicação mantida por ação coerente. Para manter o sistema o que é feito deve ser coerente com o que já foi feito. O padrão é reconhecível com tal porque

 Pg.36

 progride em referência ao seu passado; é justamente isso que estabelece o que chamamos de ordem e identidade, uma situação na qual as árvores não se transformam repentinamente em coelhos e um homem não se comporta (não deve se comportar!) repentinamente como outro de maneira a não sabermos quem ele é. “Quem” é comportamento coerente. Sistema , padrão, coerência, ordem, acordo, identidade, são mais ou menos sinônimos. Mas em um padrão tão móvel e volátil como a sociedade humana, manter coerência de ação e comunicação não é fácil, requer os mais complicados acordos sobre o que é o padrão – em outras palavras, sobre quais são as regras, as coerências do sistema. Sem acordo quanto ao emprego das palavras, sinais e gestos não pode haver comunicação.

            A manutenção da sociedade seria simples se os seres humanos se contentassem apenas com a sobrevivência...Se para sobreviver é preciso trabalhar, parece que a principla preocupação dos seres humanos é brincar, mas ao mesmo tempo fingindo que a maior parte deste brinquedo é trabalho. Pensando bem, a fronteira entre trabalho e brinquedo é vaga e mutável. Ambos são trabalho no sentido que despendem energia; mas se trabalho é o que precisamos fazer para sobreviver, não caberia perguntar se é necessário mesmo sobreviver? Sobrevivência – continuação do padrão coerente do organismo – não será uma forma de brinquedo? Precisamos desconfiar do antropomorfismo que afirma que os animais caçam e comem para sobreviver, ou que o girassol gira para conservar sua face voltada para o sol. Não há motivo científico para supor que existam instintos de sobrevivência e de prazer (será ???). Quando dizemos que o organismo gosta de continuar vivendo, ou que continua vivendo por que gosta, que provas temos deste “gostar” exceto o fato do organismo continuar vivendo – até deixar de viver? Da mesma forma, dizer que sempre escolhemos o que preferimos não é mais que dizer que sempre escolhemos o que escolhemos. Se existe um anseio básico de viver, deve existir também, como pensava Freud, um anseio básico de morrer. Mas a linguagem e o pensamento são mais limpos sem esses instintos, anseios e necessidades espectrais. Como disse Wittgenstein, “a necessidade de que

 Pg.37

 uma coisa aconteça porque outra aconteceu não existe. Existe apenas uma necessidade lógica” (10)

            Organismo durável é simplesmente organismo coerente com o seu meio. O clima e a nutrição concordam com ele; o padrão os assimila, eliminando o que não concorda, esse movimento coerente, essa transformação de alimento e ar em padrão do organismo é o que chamamos a sua existência. Não há necessidade misteriosa que isso continue ou cesse... Dizer que ele morre quando não encontra alimento é apenas outra forma de dizer que a sua morte é a mesma coisa que a cessação de sua coerência com o ambiente...

            Organismos mais complexos, como os seres humanos são coerências mais complexas, transformações mais complexas do ambiente.. Além de serem padrões de  transformação de alimentos, sua concordância ou coerência com o ambiente transforma vibrações nucleares em som e luz, peso e cor, gosto e cheiro, temperatura e tessitura, até que finalmente eles geram padrões complicados de sinais e símbolos de grande coerência interior. Quando esses sinais e símbolos se misturam com o ambiente, pode-se descrever o mundo em termos de padrões de signos. O mundo é assim transformado em pensamento da mesma forma que o alimento foi transformado em organismo. A concordância ou coerência do padrão orgânico ou do padrão de pensamento com o padrão do mundo continua enquanto continuar. Dizer por que ela começa ou para é apenas descrever coerências ou incoerências particulares.

            Dizer que as coisas não tem necessidade de acontecer como acontecem é talvez outra maneira de dizer que o mundo é lúdico. Mas essa idéia é afrontosa ao bom senso porque a regra básica das sociedades humanas é que precisamos ser coerentes.  Se alguem quer pertencer a nossa sociedade precisa jogar o nosso jogo...

 Pag.38

             As crianças teimam em sair do padrão de comportamento que procuramos impor-lhes, e por essas e outras razões semelhantes nossas convenções sociais precisam ser mantidas pela força. Em outras palavras, a primeira regra do jogo é que o jogo precisa continuar, que a sobrevivência da sociedade é necessária. Mas é preciso não esquecer que as coerências ou regularidades da natureza são padrões que ocorrem, não que precisem ocorrer. Acontecimentos naturais não obedecem a comandos da mesma forma que os seres humanos obedecem às leis.

            ... a primeira regra do jogo é que este jogo é sério, quer dizer, não é um jogo. Podemos chamar isso de “repressão” primordial. Não quero dizer que se trata de um acontecimento nos primórdios temporais da vida humana, mas sim que pode ser nossa atitude social mais arraigada. Mas tão logo percebemos que certas coisas, como a sobrevivência, são necessidades sérias, a vida torna-se problemática em um sentido muito especial, diferente, digamos, dos problemas do xadrez ou da ciência. Vida e problema ficam sendo a mesma coisa; a situação humana tornou-se uma crise para qual não existe solução. O homem então se comporta como organismo auto frustrante, comportamento que pode ser visto sob muitas formas. Por exemplo, um dos nossos maiores trunfos para sobrevivência é o sentido do tempo, aquela memória de maravilhosa sensibilidade que nos permite prever o futuro com base no passado. Mas o sentido do tempo deixa de ser um trunfo quando a preocupação com o futuro torna quase impossível viver plenamente no presente, ou quando o conhecimento do futuro traz a certeza de que, para além de uma faixa estreita, não temos futuro... se as instituições sociais se destinarem  cada vez mais a promover a unicidade da pessoa, estaremos em grande perigo de superpopulação...

 Pg.39

 confiando e concentrando-nos no homem em sua forma mais vulnerável e impermanente. (2) Isso talvez se compare a uma mudança de focalização para observar os componentes individuais de uma colônia de microorganismos em vez de observar o comportamento geral da colônia. (nota de rodapé).

            Essa atividade auto frustrante é o samsara, o círculo vicioso do qual os caminhos de libertação propõem saída. A saída depende de se adquirir consciência daquela repressão primordial responsável pela sensação de que vida é um problema, que o problema é sério, que ele precisa continuar. É preciso ver que o problema que estamos querendo solucionar é absurdo. Mas isso é mito mais do que mera resignação ao destino, muito mais que o mero desespero estóico de reconhecer que a vida humana é uma batalha perdida contra o caos da natureza. Isso corresponde apenas a ver que o problema NÃO TEM SOLUÇÃO (grifo nosso), que ele é tão absurdo que não precisamos encara-lo como um problema. A solução do problema da vida está no desaparecimento desse problema(12).

...

           Indagado por um psiquiatra como tratava os neuróticos um mestre zen respondeu: “Eu os prendo”. “E como os prende?” Eu os levo para onde eles não podem fazer mais perguntas”.

           Mas a idéia de que a vida humana não precisa ser encarada como problema é tão pouco familiar, e aparentemente tão

 Pg.40

 implausível que precisamos penetrar mais nas origens sociais do sentimento problemático. Em primeiro lugar, a oposição da ordem humana ao caos natural é falsa.(!!?) Dizer que não existe necessidade natural não é negar a existência de ordem natural, de padrão de coerência no mundo físico. Afinal o homem mesmo é parte do mundo físico, como também a lógica humana... Poderíamos dizer que a ordem da probabilidade defino o mundo melhor do que a ordem da causalidade. Isso é uma verdade semelhante a de dizer que um homem com uma serra corta madeira melhor do que um homem com um machado de pedra...

...A verdade é que o mundo não tem ordem fixa. Poderíamos quase dizer que o mundo está se ordenando de maneira cada vez mais sutil tanto por meio dos organismos vivos como com os comportamentos de organismos vivos.

            Vimos que os organismo primitivos são coerentes com seus ambientes pela transformação de alimentos, etc.., em seus padrões orgânicos. Isso pode ser expresso de maneira invertida dizendo que os ambientes são coerentes com os organismos por terem uma natureza que permite essa coerência. Os ecólogos falam da evolução do ambiente e da evolução do organismo. Como Dewey e Bentle (13), Angyal(14), Brunnswik (15) e muitos outros alvitraram, organismo/ambiente é um padrão unificado de comportamento mais ou menos como um campo (elétrico, magnético, eletromagnético, social...nuclear...)  em física não uma interação mas uma transação (Gardner Murphy).

             Não podemos definir a situação operacionalmente, exceto em relação ao organismo específico em causa; não podemos definir o organismo operacionalmente... exceto em referência à situção. Um serve para definir o outro. (Gardner Murphy 16)

 Pg. 41

             Definir operacionalmente e dizer o que acontece, descrever comportamento – e, logo que fazemos isso, percebemos que estamos falando de transações. Não podemos descrever movimento sem falar na área ou espaço em que eles ocorrem; não poderíamos saber se uma estrala ou galáxia está em movimento se não comparássemos sua posição umas com a de outras.
...
            O comportamento humano, que chamamos de percepção, pensamento, discurso, ação, é uma coerência do organismo e ambiente da mesma forma que a função comer. Que acontece quando tocamos ou sentimos uma pedra? Falando muito sumariamente, a pedra entra em contato com uma multidão de de terminais nervosos em nossos dedos, e cda nervo em todo o padrão de terminais que toca a pedra se “acende”... a sensação de “pedra” é o que acontece no painel do sistema nervoso quando ele traduz o contato um contato com a pedra. Mas temos a nossa disposição "painés” muito mais complexos que esse (o da pedra) – não apenas óticos e auditivos, mas também lingüisticos e matemáticos. Esses são padrões que traduzem o mundo da mesma forma que a pedra é traduzida em padrões nervosos. Um painel assim é o sistema de coordenadas, três de espaço e uma de tempo, no qual sentimos que o mundo está acontecendo, mesmo não havendo linhas reais de altura, largura e profundidade enchendo todo o espaço, e mesmo a terra não fazendo barulho em sua revolução...
...

Pg.42

 ...o caso da maioria dos raciocínios matemáticos. O matemático não indaga se suas construções são aplicáveis, se correspondem a construções do mundo natural; ele vai inventando fórmulas matemáticas, pedindo (fazendo com que) apenas que sejam coerentes com elas mesmas (as formulas matemáticas), com seus próprios postulados;  mas freqüentemente se verifica depois que essas fórmulas podem ser correlacionadas, como relógios, com outros processos naturais.    

            O que intriga é que alguns “painéis” (transdutores biológicos) que inventamos funcionam, e outros não. Do mesmo modo, alguns comportamentos animais parecem ajustar-se ao ambiente e outros não. O (comportamento) da formiga, por exemplo, são os mesmos Há milhões de anos;  mas as enormes presas dos tigres dente de sabre, o volume enorme dos sáurios, os grandes chifres nasais dos titanotérios... foram experiências que fracassaram. Talvez fossa mais exato dizer que estas experiências deram resultado durante algum tempo, mas não tanto quanto as de outras espécies. O que parece ocorrer na maioria desses casos é que a relação organismo/ambiente se “sinde” (se rompe); o ataque do organismo ao ambiente, ou sua defesa contra ele, torna-se tão forte que acaba isolando-o de sua fonte vital. Ou pode ser que o organismo seja muito conservador para um ambiente em rápida mutação, o que dá no mesmo; o padrão é muito rígido, muito preocupado com a sobrevivência, e acaba isolado. Ou pode ser que o organismo, considerado como um campo, esteja em auto contradição: o peso do

 Pg.43

 chifre nasal era muito grande para os músculos. Voltando-nos para a espécie humana, podemos indagar se uma tal cisão não estará ocorrendo na consciência super isolada do indivíduo.

            Se for o caso, precisamo-nos armar contra um passo em falso no raciocínio. É preciso NÃO dizer ao indivíduo: “Cuidado! Se quer sobreviver, você precisa fazer alguma coisa!” Qualquer gesto nesse sentido, só servirá para piorar a situação; terá simplesmente como resultado confirmar o indivíduo em seu sentimento de separação. Esse gesto ficará sendo como o chifre nasal, um mecanismo de sobrevivência frustrando a sobrevivência. Mas se não cabe ao indivíduo fazer alguma coisa, o que então deve ser dito ou feito, e por quem e para quem?

            Será errado dizer que a situação poderá corrigir-se sozinha, que o “padrão-campo” homem/universo pode ter inteligência suficiente para conseguir isso? Se isso acontecer, ou estiver acontecendo, parecerá a princípio que os indivíduos estejam iniciando as mudanças eles mesmos. Mas, à medida que as mudanças necessárias forem ocorrendo, os indivíduos envolvidos sofrerão simultaneamente uma mudança de consciência que revelará a ilusão do seu isolamento. Não será mais ou menos isso o que acontece quando um pesquisador pensando que fez uma descoberta independente, descobre que várias outras pessoas fizeram a mesma descoberta mais ou menos ao mesmo tempo? Como dizem os cientistas então, o campo da pesquisa desenvolveu-se ao ponto em que a descoberta podia ocorrer naturalmente em vários lugares.

            Passando à instituição social da linguagem, ou “painel de palavras”, podemos facilmente ver como ela pode estar separando organismo de ambiente, e separando aspectos ambientais uns dos outros. Línguas que categorizam palavras em substantivos e verbos obviamente traduzem o que está acontecendo no mundo em coisas particulares (substantivos) e acontecimentos (verbos), e esses por sua vez “possuem” propriedades (adjetivos e advérbios) mais ou menos separáveis deles. Todas essas línguas representam o mundo como se fosse uma montagem de pedaços e partículas distintas. O defeito desses painéis é

 Pg.44

 que eles deixam de fora, ou desprezam (ou reprimem) as inter-relações. Eis porque é tão difícil encontrar palavras para descrever campos como o do organismo/ambiente. Assim, quando o corpo humano é analisado e seus órgãos referidos a substantivos, caímos imediatamente no perigo da medicina e cirurgia mecânica super especializada que interferem em um ponto sem levarem em conta um desequilíbrio que podem trazer efeitos imprevistos para todo o organismo. O que mais precisa fazer o cirurgião quando tem que extirpar uma tireóide cancerosa? Perigos semelhantes surgem em quase todas as esferas da atividade humana.

            Suponhamos que o grupo social A tem um grupo inimigo B. O fato de B periodicamente atacar A mantém os membros de A em guarda e “poda” sua população. Mas o grupo A considera bom o seu lado e mau o lado B; e como o bom e o mau são irreconciliáveis, o serviço que B presta a A é ignorado. Chega o tempo em que A mobiliza forças e aniquila B ou o deixa em situação de não poder mais atacar. A fica então em perigo de aumentar sua população até estourar, ou de se debilitar por falta de “tonus”.

...

Ao mesmo tempo, uma disputa entre vício e virtude pode ser tão importante como a disputa entre o grupo A e o grupo B...perceber isso é compreender que a disputa é um jogo.

            Toda classificação parece pedir uma divisão do mundo. Existindo uma classe, existe o que está dentro e o que está fora dela. Dentro e fora, sim e não, excluem explicitamente um ao outro. São formalmente opostos, como o grupo A e o grupo B seu inimigo, o bom e o mau, virtude e vício. A separação

 Pg.45

 entre eles parece tão nítida como a separação entre um sólido e um espaço, uma figura e o fundo que a destaca. Por conseguinte a separação, a diferença, é o que notamos; ela preenche a notação de linguagem e que, sendo implícito e não notado, é inconsciente e reprimido. É que o dentro e o fora da classe existem juntos, e um não pode passar sem o outro. “Ser e não ser acontecem mutuamente.”... cada pressão de dentro é ao mesmo tempo uma retração de fora, cada explosão uma implosão, cada concavidade uma convexão, surgindo mútua e simultaneamente de maneira a não se poder dizer de que lado de uma fronteira começa o movimento. O indivíduo não atua sobre o mundo mais do que o mundo atua sobre o indivíduo. Causa e efeito ficam sendo partes integrantes do mesmo acontecimento.

...

            A dificuldade maior não está em descobrir a língua (entender o funcionamento de um idioma), mas em vencer a resistência social. Adiantaria descobrir que o nosso jogo não é sério, que inimigos são amigos, e que o bem se aproveita do mal? A nossa sociedade parece uma conspiração tática para manter essas verdades abafadas por medo de que a

Pg.46

disputa cesse se forem divulgadas. Se esses opostos não forem mantidos separados e em antagonismo, que motivação haverá para a luta criadora entre eles? Se o homem não se sentir em guerra com a natureza, haverá ainda ímpeto no progresso tecnológico? Como reagiria a consciência cristã à idéia de que Deus e o Diabo seriam amigos íntimos atrás do pano, mas se colocaram em campos diferentes para encenarem um grande jogo cósmico? Pois essa era mais ou menos a situação quando foi escrito o Livro de Jó, no qual Satanás é simplesmente advogado de acusação na corte celeste, tão fiel à corte como o advogado do Diabo no Vaticano. (4) Acho também difícil ler os relatos da Última Ceia sem ficar com a impressão de que Jesus ordenou a Judas que o traísse.

            O Problema é que se os homens são  padrões de ação e não agentes, e se o indivíduo e o mundo atuam juntos, mutuamente, de modo que a ação não se origina de nenhuma deles quem é o culpado quando ocorre pane (pergunta feita ao site budista...não respondida)?

            Pode a polícia chegar perguntando quem é o responsável? A convenção de que o indivíduo é o agente responsável está na base de quase todas as nossas estruturas sociais e jurídicas. Aceitar esse papel é critério numero um de sanidade, e achamos que se alguém é reduzível a ações e comportamentos que não são praticados por ninguém, esse alguém não é mais que um mecanismo sem alma. Como efeito, à primeira vista existe um elemento de terror nesse universo de atividade pura; parece não haver um ponto onde se possa tomar uma decisão, começar qualquer coisa. Não é nada improvável que um resvalo nesse modo de sentir possa às vezes deflagrar um estado psicótico, pois o indivíduo poderia sentir que perdeu o controle de tudo e não pode confiar nem em si nem nos outros para um comportamento coerente. Mas, supondo que uma pessoa compreenda de início que esta é mesmo a situação, a experiência seria bem menos enervante. Na prática acontece que, logo que uma pessoa se habitua com este sentimento e não o teme, é possível continuar comportando-se racionalmente – porém com enorme sensação de leveza.

            Deixando de lado por enquanto as implicações morais e éticas desse conceito do homem, ele parece ter a mesma vantagem sobre o conceito comum que o sistema cósmico de Copérnico teve sobre o de Ptolomeu. É tão mais simples, mesmo que signifique perder a posição central da Terra. E é também uma

Pg.47

daquelas simplicidades que enriquecem em vez de diminuir: conduz a novas possibilidades de jogo, maior variedade de articulação. Por outro lado, o conceito convencional parece fracassar cada dia mais na consecução de seus objetivos.

            Um dos melhores relatos das características sociais e convencionais do ego está na obra de George Herbert Meade (19). Mostra ele que a diferença entre as teorias sociais e biológicas da origem da autoconsciência individual corresponde à diferença entre a teoria evolucionista e a contratual da origem do estado. Na última, desacreditada, a comunidade social seria formada por contrato entre pessoas autoconscientes. Mas Mead pondera que o indivíduo não pode tornar-se objeto de si mesmo por si mesmo, e de qualquer forma indivíduos animados não existem e nunca existiram por si mesmos.

  O conceito de que o espírito (isto é o ego) é um dote biológico congênito do organismo individual não permite explicar a sua natureza: nem explicar que     dote biológico é esse, nem como os organismos o adquirem em determinada etapa da evolução.(20)

            Em seguida ele demonstra que o “eu”, o indivíduo biológico, só se pode tornar cônscio de si mesmo em termos reflexos de “mim”, mas que este é um conceito de si mesmo dado ao indivíduo por outras pessoas.

  Se o espírito é socialmente constituído, o campo ou locus de determinado espírito individual deve chegar até onde chega a atividade social ou aparato de relações sociais

 Pg.48

que o constituem; daí não poder esse campo ser limitado pela pele do organismo individual a que ele pertence. (22)

             E aí está o paradoxo da situação: a sociedade nos dá a idéia de que o espírito ou ego(5)  está dentro da pele e atua por conta própria desligado da sociedade.

            Eis aí uma contradição importante nas regras do jogo social. Os participantes do jogo devem joga-lo como se fossem agentes independentes, mas não devem saber que existe este artifício. Está explícito nas regras que o indivíduo é autodeterminativo, mas implícito que ele só é autodeterminativo em virtude das regras. Além disso, mesmo sendo definido como agente independente, ele não deve ser tão independente a ponto de não se submeter às regras que o definem. Ele é definido como agente para poder ser responsável por “suas” ações perante o grupo. As regras do jogo conferem independência e a tomam ao mesmo tempo, sem revelar a contradição.

            Essa é exatamente a situação que Gregory Bateson (23) chama de prisão dupla, na qual o indivíduo é solicitado a seguir dois cursos mutuamente exclusivos e ao mesmo tempo é impedido de comentar o paradoxo. Ele é condenado se fizer, e condenado se não fizer, e não pode ver isso (comentar isso). Bateson diz que o indivíduo apanhado em uma situação doméstica que lhe impõe a prisão dupla em forma aguda é candidato à esquizofrenia.(6). Se ele não pode comentar a contradição, o único caminho é retirar-se do campo. Mas a sociedade não permitr retirada; o indivíduo tem que jogar. Como disse Thoreau, sempre que procuramos solidão, outros nos arrancam dela “e nos obrigam a entrar para companhia desesperada da qual fazem parte”. Assim, para poder retirar-se o indivíduo precisa fazer crer que não é ele que se esta retirando, que a retirada está

Pg.49

acontecendo e que ele nada pode fazer. Em outras palavras, ele precisa “perder o juízo” e ficar insano.

            Mas, como “gênio e louco são aliados”, a retirada esquizofrênica é uma caricatura de libertação, incluindo até a “lamaseria” do asilo de insanos oua situação peculiarmente isenta do antigo bobo da aldeia. Como sugere a terminologia do Zen-budismo, o homem libertado também é um “sem–espírito” (wu-shin) (ou sem ego?!)e não se sente um agente, um participante de ações.
...

Mas na Libertação isso se passa não por um meio de uma compulsão inconsciente, e sim por uma intuição, pelo entendimento e rompimento da prisão dupla que a sociedade impõe. A pessoa não chega à situação de não poder jogar; pode jogar até melhor por ver que se trata de um jogo.

            A retirada esquizofrênica afeta uma minoria, e ocorre em circunstâncias em que a prisão dupla imposta pela sociedade em geral é um composto de tipos especiais de prisão dupla peculiares a uma situação familiar especial. O resto de nós vive em graus diferentes de neuroses, toleráveis na medida em que conseguimos “esquecer a nós mesmos” absorvendo-nos em hobbies, novelas policiais, serviço social, televisão, negócios e guerras. Assim, é difícil evitar a conclusão de estarmos aceitando uma definição insana de sanidade e de que, em conseqüência, nossos problemas humanos comuns são tão persistentemente insolúveis que se somam à perene e universal “crise do homem”, atribuída à natureza, ao Demônio, ou ao próprio Deus.

            Se o que ficou dito até agora foi inteligível, o foi só em parte; do contrário, o leitor ficaria libertado imediatamente!

Pg.50

Como eu disse, existem dificuldades verbais inevitáveis até em descrever o paradoxo em que vivemos, para não falar na descrição do padrão de campo em que se desenvolve a vida humana. O problema é que estamos descrevendo a dificuldade com a mesma estrutura lingüística que nos leva a ela. A estrutura lingüística diz  “(nós) estamos descrevendo” e “nos leva a ela”, confirmando a cada passo a realidade do agente-entidade que se presume por trás da atividade, ou sofrendo-a quando se supõe que ela vem de outra fonte. O Bom senso recua diante da idéia da ação sem agente, como recua ante a idéia de padrão sem substância, seja material ou mental. Mas 1 + 2 = 3 e x – y  =  0 são enunciados inteligíveis aqui, porque como disse William James “a palavra eu é antes de tudo um substantivo de posição, como este e aqui” (25). Se são observáveis estão sujeitas á comentário, e é a possibilidade de comentá-la que rompe a prisão dupla. Por um lado instituições sociais como o painel da linguagem criam, ou melhor, traduzem o mundo em seus termos, de modo que o mundo – a vida mesma – parece contraditório se os termos são auto contraditórios. Por outro lado, instituições sociais não criam o mundo ex nihilo. Elas estão no padrão da natureza que elas representam correta ou incorretamente, e pertencem a ele.

            O padrão da natureza só pode ser enunciado em termos de uma linguagem; mas pode ser mostrado em termos, digamos, de percepções sensoriais. Para uma sociedade cujo sistema numérico é apenas “1, 2, 3, muito”, não pode ser um fato que tenhamos 10 dedos; e no entanto todos os dedos são visíveis.

...

...Se eu sei que a Terra é chata, navegando sempre na mesma direção acabarei caindo pela borda da Terra. Da mesma forma se você sabe que é agente independente, faça alguma coisa independente, seja espontâneo, mostre-me esse agente.      

Pg.51

...quando empregamos instituições em cujos termos não podemos agir coerentemente, podemos ter certeza ou de que são autocontraditórias ou de que não se encaixam no padrão da natureza. Autocontradições que não são observadas e padrões da natureza que a linguagem não exprime são, em termos psicológicos, inconscientes e reprimidos. As instituições sociais estão, pois, em conflito com o padrão homem-no-mundo, e isso aparece como angústia no organismo humano, que não pode ser incoerente consigo mesmo ou com a natureza sem deixar de existir. Freud estava certo ao atribuir a neurose ao conflito entre o sentimento sexual e os costumes sexuais peculiares às culturas ocidentais. Mas ele estava apenas arranhando o problema, entre outros motivos porque o seu conceito de “instinto” sexual estava estava apenas condicionado por estes mesmos costumes. Como disse Philip Rieff,

  Freud não apenas empregou a sexualidade para esvaziar o orgulho do homem civilizado; ela ainda a definiu pejorativamente por aquelas qualidades que fazem o instinto sexual intratável para uma sensibilidade civilizada(26)...

 ...a interpretação freudiana do id e sua libido como impulsos cegos e grosseiros era simplesmente um reflexo da filosofia então corrente de que o mundo é basicamente “mera” energia, espécie de cru estofo volátil, e não um padrão orgânico – o que afinal é outro nome para inteligência.

            Ma o que nossas instituições reprimem não é apenas o amor sexual, a mutualidade,  entre homem e mulher – mas também o amor mais profundo entre organismo e ambiente, entre Sim e Não, e entre todos aqueles chamados opostos

 Pg.52

 representados no símbolo taoísta de yang-yin, os peixes preto e branco em eterno intercâmbio. Não é força de expressão usar a palavra “amor” para relações íntimas além das de organismos humanos...

 O novo conceito físico não decorre do postulado de um “espaço em si”, nem de “matéria” nem de “força em si” – ele não mais reconhece espaço, força e matéria como objetos físicos separados um do outro, mas... apenas a unidade de certas relações funcionais, designadas diferentemente segundo o sistema de referência no qual expressamos.(27)

          Convém não exagerar nas analogias entre física e comportamento humano, mas sem dúvida, deve haver princípios gerais comuns entre uma e outro. Comparemos Cassirer com Gardner Murphy:

  Há muito tempo acredito que a natureza humana é uma reciprocidade entre o quer está dentro da pele e o queestá fora; que ela não está “enrolada dentro de nós”, mas cosntitui nossa maneira de sermos unos com nossos semelhantes e com o nosso mundo. Chamo esse campo de teoria. (28).

Pg.53

            Os caminhos da libertação se preocupam naturalmente em fazer dessa chamada consciência mística a consciência normal cotidiana. Mas cada vez mais me convenço de que o que se passa nas disciplinas desses caminhos, a despeito da linguagem com que é descrito, não é sobrenatural nem metafísico no sentido usual, nada tem a ver com a percepção de algo mais do que o mundo físico; pelo contrário, é a percepção clara deste mundo como campo, percepção que não é apenas teórica mas também sentida claramente como sentimos, por exemplo, que “eu” sou um ser pensante por trás e independente de meus pensamentos, ou que as estrelas estão separadas do espaço e uma das outras. Nesse conceito, as diferenças do mundo não são objetos isolados encontrando um com o outro em conflito, mas expressões de polaridade. Opostos e diferenças têm alguma coisa entre eles como as duas faces de uma moeda; eles não se encontram como estranhos completos. Quando essa relatividade das coisas é vista com forte clareza, a relação apropriada é amor, e não ódio ou medo.

            Por certo, esta é a maneira de ver as coisas requerida por uma psicoterapia eficaz. Indivíduos perturbados são, por assim dizer, pontos do campo social em que irrompem as contradições do campo. Não adianta em nada confirmar as contradições que os estão fazendo sofrer, não adianta o psiquiatra ser o representante oficial de um sistema doentio de instituições. A sociedade de homens com homens e a sociedade ecológica mais ampla de homens com a natureza, por mais explícita que seja  a contenda, é implicitamente um campo – uma acordo, uma relatividade, um jogo. As regras do jogo são convenções que também significam acordos. É muito bom para nós concordar que somos diferentes um de outro, contanto que não ignoremos que concordamos em diferir. Não diferimos em concordar, em criar a sociedade mediante contrato consciente entre partes originalmente diferentes. Além do mais, mesmo se deve haver uma batalha, deve haver um campo de batalha; quando os contendores perceberem isso, haverá uma dança de guerra em vez de uma guerra.     

 

I - Psicoterapia e libertação II - Sociedade e Sanidade III - Os Caminhos da libertação
IV - Um Espelho Escuro V - O Contrajogo VI - Convite à Dança