pg.
54
III – Os Caminhos da libertaçãoSe é verdade que a psicoterapia não tem sido vista com clareza em seu contexto social, isso também se aplica aos caminhos orientais de libertação como eles têm sido estudados e explicados no Ocidente. Quase toda literatura moderna sobre o budismo, vedanta e taoismo trata esses assuntos em um vácuo, com um mínimo de referência ao quadro mais vasto da cultura indiana ou chinesa. Fica-se com a impressão de que essas disciplinas são unidades exportáveis como sacos de arroz ou chá, que o budismo pode ser “adotado” em qualquer parte e em qualquer tempo , como o basebol. Também tem parecido ao ocidente que o cristianismo pode ser exportado da mesma maneira, que ele pode “pegar” em qualquer cultura e, se não, pior para essa cultura. Ao mesmo tempo é preciso dizer que, pelo menos nas civilizações mais avançadas não existem culturas “puras”, isentas de influências exóticas. O budismo viajou da Índia para as culturas bem diferentes da China, Tibet, Tailãndia e Japão de uma maneira que o hinduísmo, com cultura total, nunca poderia ter viajado. ... Pg.55 Uma das vantagens da comunicação fácil entra as grandes culturas é que o partidarismo em religião e filosofia está perdendo respeitabilidade intelectual. Religião pura é rara como cultura pura, e é mentalmente entorpecedor pensa que deve haver um número de corpos físicos de doutrina entre os quais devemos escolher, e que escolha significa aceitar o sistema in totum. Religiões altamente organizadas sempre procuram forçar essa escolha porque precisam de adeptos dedicados para sua continuação. ... O ocidente mal informado fica supondo que o budismo poderia ser uma alternativa do cristianismo: um corpo de doutrina metafísica, cosmológica, psicológica e moral para ser aceito e simplesmente substituir a crença anterior. Parece também que a prática desses caminhos de libertação é assunto quase exclusivo da vida íntima de cada um... se a função primeira de um caminho de libertação é libertar o indivíduo da “hipnose” exercida sobre ele por certas instituições sociais, o que é necessário na Califórnia não o será em Bengala, pois as instituições diferem... doenças diferentes exigem remédios diferentes. No entanto, pouquíssimas autoridades modernas em budismo e vedanta parecem compreender que as instituições sociais são o maya, a ilusão da qual esses caminhos oferecem libertação. Supõe-se invariavelmente que o nirvana ou o moksha significam libertação em relação ao organismo físico e ao universo físico, um feito que envolvem poderes da mente sobre a matéria que dariam a seu possuidor a onipotência de um deus... Pg.56 Com exceção de alguma percepção extra-sensorial e da utilização as vezes imaginosa da hipnose, tais poderes nunca foram demonstrados... Algumas discussões do assunto sugerem tratar-se não tanto da libertação objetiva em relação ao mundo físico, mas subjetiva. Em outras palavras, supõe-se que nossa percepção normal do mundo espacial e temporalmente extenso, e dos orgãos sensoriais que tratam com ele, é um tipo de ilusão hipnótica, e que quem atinge a concentração perfeita pode ver por si mesmo que o mundo espaço temporal não passa de imaginação. De tudo que sabemos do estado hipnótico e de sua indução por concentração é fácil adquirir essa impressão. Se o operador pode tornar-se invisível ao sujeito, porque não pode tornar invisível todo o universo? Mas não creio que os caminhos de libertação sejam coisa tão trivial como a substituição de um estado hipnótico por outro. Sabemos que nossa percepção do mundo é relativa a nossa estrutura neurológica e às maneiras de ver que nos foram dadas pelo condicionamento social. Como esse condicionamento pode até certo ponto ser mudado, é alguma coisa dizer que ele é imaginário, mas será imaginária a estrutura do organismo? Ninguém pode provar que sim, a menos que consiga demonstrar que ela é passível de mudança radical sem recurso à cirurgia.
Pelo que sei das pessoas que
adquiriram proficiência nos caminhos da
libertação, não há neles
feitos de mágica ou de neurotecnologia. ...
Não
está nos objetivos deste livro apresentar documentadamente o
argumento de que a libertação será em
relação ao maya
das instituições sociais e não ao
mundo físico. Darei algumas provas, mas devo dizer que
não cheguei a essa ideia por um exame rigoroso de
documentos; é simplesmente uma hipótese que para
mim esclarece melhor o budismo e o Vedanta, a ioga e o Taoismo, de
qualquer outra interpretação. Pg.57 Documentos são
geralmente ambíguos, pois o nosso conceito de mundo real ou
físico é obviamente determinado pelas
instituições sociais. Quando um texto budista diz
que todas as coisas (dharma)
são falsamente imaginadas e sem realidade própria
(svabhava),
isso pode significar (a) que o universo físico concreto
não existe, ou (b) que tudo é relativo, as coisas
não tem existência própria porque uma
coisa não pode ser designada sem
relação com outras, e ainda porque
“coisa” é uma unidade de
descrição – não uma entidade
natural. Se a primeira interpretação for a
correta, o nirvana
budista
será um estado de consciência completamente vazio;
se a segunda, será uma visão transformada do
mundo físico, vendo-o em sua plena relatividade. Pode haver
qualquer dúvida razoável de que a
última a que se pretende?
Se então o maya
ou irrealidade não está no mundo
físico, mas nos conceitos ou formas de pensamento com os
quais é descrito, é claro que maya
se refere á instituições sociais
– a linguagem, a lógica e a suas
construções – e à maneira
pela qual elas modificam nossa sensação do mundo.
Isso
fica ainda mais claro quando vemos a relação dos
caminhos indianos de libertação com a estrutura
social e a cosmologia popular da antiga cultura ariana. A comunidade
é dividida em quatro castas básicas –
brâmane (sacerdotal), xátria (militar), vaicia
(mercantil) e sudra (braçal) – em cujos termos o
papel e a identidade de cada indivíduo são
definidos. O indivíduo fora
de casta não tem identidade legal, e é
considerado mais como um animal humano do que como pessoa.
Além disso, as quatro classes são a
classificação geral de
funções assumidas temporariamente por alguma
coisa além do homem e, na verdade para além de
toda a classificação: é Brama, ou
Divindade, que é uno com o Atman e também o
Atman, o Ser essencial que desempenha cada papel individual. Nessa
antiga cosmologia indiana a criação do mundo
é assim uma manifestação
dramática. A Divindade faz de conta que é finita;
o Uno faz de conta que são muitos, mas nisso, ao assumir
cada papel individual, Ele por assim dizer esqueceu-Se, e com isso Se
envolveu na inconsciência ou ignorância (avidya).
Enquanto prevalece essa
ignorância, a forma individualizada da Divindade, a alma ou jivatman
renasce constantemente no mundo, subindo ou decaindo em fortuna e
posição segundo seus feitos e as
consequência deles (karma).
Há vários níveis acima e abaixo do
humano pelos quais pode passar a alma individual em suas
reencarnações – o angélico,
o titânico, o animal, os purgatórios e a zona dos
fantasmas frustrados. Enquanto
não despertar para o pleno autoconhecimento, a alma
individual pode experimentar reencarnações
durante períodos espantosamente longos, conhecendo as mais
altas possibilidades de prazer e os mais fundos níveis da
dor, girando na roda do Samsara
por milhares de milhões de anos.
Se nos remontarmos em
imaginação a uma India completamente isenta da
influência de ideias ocidentais, principalmente as da
ciência ocidental, é fácil ver que essa
cosmologia era muito mais uma crença; devia ser um fato que
todo mundo sabia que era verdadeiro. Era aceito como
truísmo, e também garantido pela autoridade dos
homens mais doutos do tempo, autoridade tão alta
então como é hoje a da ciência... Todos os caminhos de
libertação oferecem escape do
interminável ciclo de reencarnação
– o vedanta e a yoga pelo despertar do Ser verdadeiro, o
budismo pela descoberta de que o processo da vida não
está acontecendo a nenhum sujeito, de modo que
não há mais ninguém a ser reencarnado.
Em outras palavras, eles concordam em que a alma individual, com sua
continuada reencarnação de vida a vida e mesmo de
momento, é maya,
uma ilusão brejeira... todas as
exposições populares dessas doutrinas, no
ocidente e na asia, dizem que enquanto o indivíduo
não se liberta ele continua a se reencarnar. A
despeito da doutrina budista do anatman,
ou irrealidade do ego substancial, o Millindapanha registra
os esforços complicados de Nagasena para convencer o rei
grego Menandro da possibilidade de reencarnação
sem existência da alma até atingir o nirvana.
A vasta maioria dos hindus e budistas asiáticos continua a
acreditar na reencarnação, e muitos ocidentais
que adotam o vedanta ou o budismo adotam ao mesmo tempo a
crença na reencarnação. Os budistas
ocidentais até consideram essa crença
consoladora, em flagrante contradição com o
objetivo confessado de se libertar do renascimento. Mas é uma
consequência lógica acreditar na
reencarnação quando se acredita que o maya
é o mundo físico distinto das idéias sobre
o mundo físico. Em
outras palavras,
continua-se a acreditar nessa cosmologia indiana até que se
compreenda que ela é uma instituição
social. Por isso, vou apresentar uma tese que a muitos estudiosos
dessas doutrinas pode parecer escandalosa: a de que os budistas e
vedantistas que conhecem sua doutrina profundamente, os que
estão de fato libertados, não acreditam em
reencarnação em nenhum sentido literal. Sua
libertação acarretou, entre outras coisas, a
descoberta de que a cosmologia hindu era um mito e não um
fato. Foi, e continua sendo, uma libertação da
possibilidade de ser apanhado pelas instituições
sociais; não é libertação
da condição de vivo. O
fato de na Índia a libertação ocorrer
de mão dadas com a renúncia da casta é
coerente com essa tese; o indivíduo deixa de se identificar
com sua identidade social definida, com o seu papel. ... Se essa tese é verdadeira, porque não foi exposta claramente, e porque deixou que a maioria dos budistas e vedantistas continuassem aceitando como fato a cosmologia da reencarnação? Por dois motivos. Primeiro, porque libertação não é revolução. Não é a pessoa sair do seu caminho para perturbar a ordem social lançando dúvida nas ideias convencionais que mantém o povo unido. Além disso, a sociedade é sempre insegura e por isso hostil a todos os que desafiam suas convenções diretamente. Livrar-se uma pessoa de mitologias aceitas sem cair vítimas das angustias de outros requer muito tato. O segundo motivo é que a técnica da libertação requer que o indivíduo encontre a verdade por si mesmo. Ouvi-la de outro não é convincente. O indivíduo precisa experimentar, agir coerentemente com teses que ele acha verdadeiras até descobrir o contrário. O Guru ou Mestre de libertação precisa empregar toda a sua habilidade para convencer o discípulo a agir em função de suas próprias ilusões, pois o discípulo sempre resiste a qualquer solapamento das muletas de sua segurança. O mestre ensina não por explanação, mas mostrando novas maneiras de agir de acordo com as falsas premissas do discípulo até o discípulo se convencer que são falsas.
Ai está a meu ver
a explicação do esoterismo dos caminhos de
libertação. O iniciado sabe que certas
instituições sociais são
autocontraditórias ou estão em conflito, com a
forma da natureza.
Não há então maneira de livrar o sofredor diretamente, dizendo-lhe que sua preciosa doença é uma doença. Para ser ajudado, ele precisa ser ilaqueado. Se vou ajudar alguém a ver que um falso problema é falso, devo fingir que estou levando o problema a sério. O que estarei levando a sério é o sofrimento da pessoa, mas é preciso que ela seja levada a acreditar que é seu suposto problema.
Eles se reconhecem sem
vacilação.
Uma vez uma aldeia costeira
japonesa foi ameaçada por uma tempestade marinha, mas a
tempestade foi avistada quando ainda longe por um homem que trabalhava
em uma plantação de arroz em uma encosta acima da
aldeia. Imediatamente ele ateou fogo à
plantação e os aldeões que correram
para salvar o seu arroz foram salvos da
inundação. O crime de incendiarismo desse homem é
como o estratagema do guru,
do médico ou do psicoterapista,
quando procuram persuadir uma
pessoa solucionar um falso problema mediante uma
ação coerente com as falsas premissas do problema. Essa exposição aparentemente inortodoxa do método básico dos caminhos de libertação é necessária, creio, para explicar certos problemas. Por mais variadas que sejam as doutrinas desses caminhos, e por mais diferentes suas técnicas formais, todas parecem culminar no mesmo estado de consciência em que a dualidade de ego e mundo é superada. Chamemos isso de “consciência cósmica”, ou “experiência mística”, ou o que quisermos, parece-me que é a descoberta sentida do mundo físico como campo. Pg.63 Mas por ser a linguagem divisiva e não relacional, não apenas é o sentimento difícil de descrever, mas também nossas tentativas de descrição podem parecer opostas. O budismo ressalta a irrealidade do ego, enquanto o vedanta ressalta a unidade do campo. Assim, ao descrever a libertação, o budismo parece estar simplesmente dizendo que a visão egocêntrica se evapora, e o vedanta dizendo que descobrimos que o nosso verdadeiro ser é o Ser do universo. Por mais que os autores discutam as filigranas, tudo vem a dar no mesmo na experiência prática. Nada há então de oculto ou sobrenatural nesse estado de consciência, não obstante serem complexos, divergentes, obscuros e na maioria extremamente árduos os métodos tradicionais de atingi-lo. Diante deste emaranhado perguntamos o que existe de comum a esses métodos, qual é o ingrediente essencial deles, e se o descobrirmos o resultado será uma simplificação prática e teórica de todo o problema. Para isso precisamos procurar uma maneira simplificada mas adequada de descrever o que acontece entre o guru ou mestre zen e o discípulo no contexto social da transação de um com o outro. O que vamos encontrar é muito parecido com uma luta de judô: o mestre não ataca; ele espera o ataque, deixa o discípulo colocar o problema. Quando vem o ataque, o mestre não se opõe a ele; rola com ele e o leva a sua conclusão lógica, que é a queda da falsa premissa social do problema do discípulo. Admite-se que existam muitos gurus que não compreendem inteiramente que é isto que fazem... As teorias e métodos diferem e divergem, mas deve haver algum fator essencial comum escondido. Existe boa razão para acreditar que alguns mestres do caminho de libertação sabem muito bem o que estão fazendo, que tem plena consciência do estratagema piedoso que empregam e também do fato de que a libertação não é alcançada em relação à reencarnação física, mas em relação a pensamentos e sentimentos confusos. Pg.64
Todavia, para termos certeza
de que a psicoterapia e os caminhos de libertação
têm um terreno comum, precisamos apresentar algumas provas de
apoio desse ponto de vista. Devemos partir do fato amplamente conhecido
de que todos os caminhos de libertação, o
budismo, o vedanta, a yoga e o taoísmo, afirmam que nossa
consciência egocêntrica ordinária
é uma consciência limitada e precária,
sem fundamento na “realidade”. Resta saber se a base
dela é física ou social, biológica ou
cultural, mas não há dúvida de que o
objetivo de todos os quatro caminhos é libertar o
indivíduo dessa limitação particular. Em
cada caso o método implica
meditação, que
pode tomar a forma de atenção concentrada em
algum objeto, problema ou aspecto particular da consciência,
ou simplesmente pela observação
descontraída e descuidada do que vier a mente(meditação
budista tibetana).
Pode tomar a
forma de supressão de todo o pensamento verbal, ou
a forma de uma dialética
na qual, o raciocínio mais rigoroso é levado as
suas conclusões. Pode
ser uma tentativa de tomar consciência direta da
percepção do ser, ou pode seguir a ideia de que o
ser não é nada que possa ser conhecido,
não
é corpo, não são as
sensações, não são os
pensamentos, nem mesmo a consciência. Em
alguns casos o estudante é solicitado a descobrir, de
maneira completa e exaustiva, por que
ele quer ser libertado, ou quem
é que quer ser libertado. Os
métodos variam não apenas de escola para escola e
de mestre para mestre, mas também de acordo com as
necessidades e o temperamento dos discípulos.
Para algumas escolas,
é essencial que a libertação seja
conduzida por um guru libertado; outras acham que isto apenas facilita
o processo, mas que não é impossível o
estudante se libertar sozinho. (Divisão semelhante ocorre
também em psicoterapia.) Mas há sempre algum no
papel de guru,
mesmo que seja o amigo que deu a ideia, ou um livro que a pessoa leu. A prisão
que se origina de uma relação social tem que ser
aberta por meio de relação social.
Ambas são funções de
relação como a própria vida.
Será que na Ásia se
compreende que a libertação se dá
é em relação a
condições sociais, e não
físicas ou metafísicas?
As perguntas que fiz a mestres zen-budistas a esse respeito,
não deixam dúvida. Não encontrei
nenhum só que acreditasse na Pg.65 reencarnação
como fato físico, muito menos encontrei um que alegasse
possuir qualquer poder literalmente milagroso sobre o mundo
físico... ... Mme. Alexandra
David-Neel, brilhante francesa que escreveu um livro igualmente
brilhante para explicar o máximo possível da
doutrina fundamental de seus mestres. Escreve ela:
Essa
“multidão de outros” inclui os elementos
materiais – o terreno, pode-se dizer – que ele deve
a sua hereditariedade, o seu atavismo, depois aqueles elementos que ele
ingeriu, que inalou desde antes do seu nascimento, com cujo
auxílio seu corpo foi formado, e que, assimilados a ele, se
tornaram, com as forças complexas inerentes a eles, partes
constitutivas do ser.
No plano mental, essa
“multidão de outros” inclui muitos seres
que são seus contemporâneos: pessoas a quem ele se
liga, com quem ele conversa, pessoas cujos atos ele observa... essas
energias incongruentes, instalando-se no que ele considera o seu
“eu”, formam aí uma multidão. Pg.66 ...o tema do entendimento
simbólico e não físico da
reencarnação... tem a sua importância
para se compreender que o maya
está na esfera social de descrição e
pensamento, e
não na esfera mais vasta das relações
naturais e físicas.
Não obstante, alguma coisa deve ser dita sobre a
atitude do próprio Buda
em relação ao problema... ele nega a realidade de
qualquer ego substancial, mas não nega nem afirma a
possibilidade de vidas passadas ou .Na doutrina original do
Buda, toda especulação metafísica e
todo o interesse por controles miraculosos do mundo físico
são considerados não apenas irrelevantes como
também entraves à
libertação. Deve-se acrescentar que a ideia de
reencarnação física não faz
parte do taoísmo, e que, segundo A.K. Coomaraswany, a
interpretação certa do vedanta é que
“o único transmigrante” é o
Supremo Ser, o Ataman-Brama, jamais uma alma individual. Com
essa luz toda a cosmologia de reencarnação da
Índia antiga dissolveu-se em mito ou em mera possibilidade
com a qual ninguém mais precisa preocupar-se.
O pesadelo de
um mesmo indivíduo sofrendo repetidamente pobreza,
doença e morte por tempo indefinido, ou prisão
por séculos em câmaras de tortura de
demônios, terminou
quando se descobriu que não
existe ninguém para sofrê-lo .
O verdadeiro guru
utiliza essa situação não para iludir
seus discípulos mas para aumentar o empenho deles em dominar
o mundo físico ou seus próprios sentimentos, em
agir coerentemente com
a falsa premissa de que existe
uma contenda entre o
ego e sua experiência.
Essas situações são simplesmente exemplos
especiais da prisão dupla que a sociedade impõe
ao indivíduo: ele sabe
que existem coisas e acontecimentos separados, e que ele
e outros são agentes independentes,
da mesma forma que sabe
que os ditos casuais do cômico são muito
engraçados... no budismo a
libertação é chamada de despertar (bodhi)
justamente porque acorda a pessoa da hipnose social.
Ser hipnotizado é fingir inconscientemente que o
hipnotizador é invisível, ou, comparativamente,
que um jogo é sério ou que “eu”
estou dentro de
minha pele e que meu campo de visão está fora
dela. Mas atribuir a um agente
único tudo o que acontece é invocar a ideia de agência e ao
mesmo tempo modificar a consciência de si mesmo.
Ignorar o contexto de
acontecimentos é justamente o avidya
budista (ignorância) que a libertação
descarta, ou “ignoramento”. De certa forma as
experiências repetíveis da ciência se
baseiam no “ignoramento”, porque são
feitas em campos artificialmente fechados. Mas essas
experiências se somam ao nosso conhecimento porque o
cientista sabe
que está ignorando. Com o isolamento rigoroso do campo, ele
obtém um conhecimento cada vez mais detalhado da maneira
pela qual os campos são na prática relacionados
uns com os outros. Ele não ignora o ignoramento. Da
mesma forma, a
disciplina budista supera a ignorância
inconsciente – os atos
seletivos
habituais da consciência que filtra de seu contexto as coisas
“separadas”
– mediante intensa concentração. É
o judô aplicado ao ignoramento. A
ficção do ego
agente é descartada
pela mais íntima percepção do que de
fato acontece em intenção,
opção, decisão, ou comportamento
espontâneo. Assim se
chega a compreender que consciência, ou
atenção, é ignoramento
e não pode ser
outra coisa. Agora já
se sabe, e assim o
siddhi
da onisciência não é saber tudo, mas
compreender o processo de saber,
perceber que todos os “saberes” são
diferenciados por ignoramento. Quando o ignoramento é
inconsciente, tomamos seus isolados por realidades,
O pricípio budista
de que “a
forma é vazia”
(sunya)
não significa portanto que não existe forma;
significa que as formas são inseparáveis de seus
contextos – que
a forma de uma figura (“objeto”)
é também a forma do espaço que a
contém, que a forma
de um contorno é determinada tanto pelo que está
fora como pelo que está dentro.
A doutrina do sunyata,
ou vazio, dia apenas que não
existem formas pré-existentes,
pois quanto mais nos concentramos em qualquer coisa individual, mais
ela mostra envolver todo o universo. A
visão budista do mundo como
dharmadhatu
– aproximadamente traduzido por “campo de
funções relacionadas” –
não é muito diferente da cosmovisão da
ciência ocidental, exceto que a visão é
mais experiencial do que teórica no budismo. Poeticamente
é simbolizada como vasta rede de joias, como bolinhas de
orvalho em uma teia de aranha multidimensional. Olhando qualquer joia
de perto e separadamente, veem-se nela os reflexos das outras. A
relação entre as joias é chamada
tecnicamente “coisa/coisa sem
obstáculos” (shih
shih wu ai), o que importa em
dizer que qualquer
das formas é inseparável das outras.
Sua
posição é então a mesma do
Atman-Brama no vedanta, a do Ser
inclassificável que faz todos os papéis no drama
cósmico e social.
Como, em um nível mais baixo, nunca se sabe ao certo quem
é um ator, porque
ele pode estar representando mesmo fora de cena,
assim também o Bodhisattva não tem
identidade que possa ser
caracterizada.
“Sua porta está sempre fechada, e os
sábios não o conhecem.. Sua vida interior
é oculta, ele se movimenta fora dos sulcos das virtudes
reconhecidas”.
Não é o
Tao Absoluto;
Os nomes que podem ser dados
Não são
nomes Absolutos.
O Anônimo
é a origem do Céu e da Terra;
O Nomeado é a
Mãe de Todas as Coisas. Porque as coisas, como
vimos, são unidades de descrição, e
nomear e descrever é portanto o que faz a natureza parecer
formada de unidades separadas. Mas
Quando se começa a
dar nomes, deve-se também saber onde parar.
Quem sabe onde parar pode
ficar imperecível. ...Falar e pensar
são acontecimentos no e do mundo físico, mas se
desenvolvem como
se fora dele, como se fossem um
metro independente e fixo para comparar a vida. Daí a ideia
de que o ego
pode interferir com o mundo partindo de fora, e também
separar coisas e eventos como aparentemente se pode separar
“direito” (shih)
de “torto” (fei).
Diz Chuang-tzu:
... a vida emana da morte, e
vice-versa. Possibilidade emana de impossibilidade, e vice-versa. Sendo
assim, o
verdadeiro sábio rejeita toda
distinção e busca refúgio no
Céu (isto é, na unidade básica do
mundo).
O Taoísmo,
especialmente na filosofia de Chuang-tzu, zomba constantemente da solenidade confuciana,
da seriedade com pg 74 que ela supõe
que o direito e o torto possam ser definidos e a sociedade
posta permanentemente em ordem. Chuang-tzu relata a seguinte entrevista
(apócrifa) entre Lao-tzu e Confúcio: “Confúcio
começou a expor as doutrinas dos doze cânones a
fim de convencer Lao-tzu. – Isso tudo
é bobagem – interrompeu-o Lao-tzu, –
Diga-me quais são os seus critérios. – Caridade
– respondeu Confúcio – e deveres para
com os semelhantes. ... – Diga-me em
que
consistem caridade e deveres para com os semelhantes – pediu
Lao-tzu. – Consistem
– respondeu Confúcio – na capacidade de
se alegrar com todas as coisas; no amor universal
sem o elemento do ser.
São essas as características de caridade e
deveres para com os semelhantes. – Que
absurdo!
– exclamou Lao-tzu. – O amor universal
não se contradiz? A eliminação do ser
não é uma manifestação
positiva do ser? Para não fazer o império perder
sua fonte de nutrição – aí
está o universo, sua regularidade é incessante;
aí estão o sol e a lua, seu brilho é
incessante; aí estão as estrelas, seus
grupamentos nunca mudam; os pássaros e os animais, eles
formam bandos invariáveis; as árvores e arbustos,
eles crescem para cima sem exceção. Seja
como eles; siga o Tao, e
será perfeito. Por
que então essas lutas vãs pela caridade e pelo
dever para com os seesemesemelhantes, como quem bate tambor
à procura de um fugitivo (que assim ouvirá e
fugirá para mais longe)? Ah, senhor! Quanta
confusão o
senhor lançou na mente do homem!” perigoso de que as pessoas devem-se aceitar como são. Isso é muito menos perturbador que as pessoas se esbandalharem na
busca de ideais impossíveis.
Essa conversa de caridade
e
deveres para com os semelhantes me deixa quase louco. Senhor,
empenhe-se em conservar o mundo em sua simplicidade original. E assim como o vento
sopra onde quer, deixe também a virtude se estabelecer.
... A garça é branca sem tomar banho todo dia. O
corvo é negro sem se pintar todo dia. Pg.75 A
natureza humana merece suficiente confiança para agir
sozinha porque sente que ela está incluída no Tao, e se sente que o Tao por sua vez
é uma ordem da natureza perfeitamente autocoerente, que se
manifesta na polaridade yang
(positivo) e yin
(negativo). Essa relação de polaridade torna
impossível um existir sem o outro, e assim não
há motivo para ser
pelo yang
e contra o yin.
Se, por outro lado, os
homens não confiam em sua própria natureza nem no
universo da qual ela é parte, como podem confiar em sua
desconfiança.
Indo mais fundo, que significa confiar ou desconfiar, aceitar ou
rejeitar a si mesmo, se ninguém
se pode situar fora de si, como,
digamos, pensador e pensamentos? Pode
o pensador corrigir pensamentos errados? E se o pensador
tiver que corrigir o
pensador? Não
é mais simples supor que os pensamentos podem corrigir a si
mesmos?(5)
Pg.76 O que estamos dizendo na verdade
é que a
inteligência soluciona problemas procurando a maior
simplicidade e o menor dispêndio de esforço,
é assim que o taoísmo acabou por inspirar os
japoneses a inventarem a técnica do judô
– o fácil ou suave Tao (do).
Aqui há um
paralelo óbvio com a terapia não-diretiva de Carl
Rogers, na qual o terapista simplesmente tira as conclusões
lógicas do pensar e do sentir do cliente, não
fazendo mais do que reformulá-los de maneira aparentemente
mais clara. As reações do terapista limitam-se a
expressões de entendimento do que o cliente está
dizendo. Ele confia no acerto do “potencial de
desenvolvimento positivo” de todo ser humano de chegar
à solução do problema se o problema
for enunciado com clareza e coerência. O terapista
é então “estúpido”
e “passivo” como um taoísta no sentido
de não ter uma teoria sobre o mal do cliente ou sobre o que
ele deve-se tornar a fim de ser curado. Se o cliente acha
que tem um problema,
então tem. Se acha que não tem, deixa de aparecer
para a terapia. E o terapista
se contenta em pensar que se
o problema não
foi solucionado, o cliente acabará voltando.
Esta é exatamente a
atitude de um sábio taoísta com qualquer
candidato a discípulo,
mas o sucesso dela depende de o terapista estar aplicando uma
técnica mecânica ou se sentindo realmente em paz
consigo mesmo.
A
posição taoísta, como a de
Wittgenstein, é que embora
possa haver problemas lógicos não
há problemas naturais, físicos; a natureza, ou o
Tao, não busca nenhum objetivo, portanto não
encontra nenhuma dificuldade. Não
é porque o Tao seja inerentemente misterioso, mas porque os problemas da
sociedade humana são artificiais.
Quando o grande Tao
é perdido, brotam benevolência e
retidão.
Quando saber e sagacidade
surgem, aparecem grandes hipócritas.
Quando
relações domésticas deixam de ser
harmoniosas, temos filhos amorosos e pais dedicados.
Quando uma
nação está na confusão e na
desordem, os patriotas são reconhecidos. Chuang-tzu compara
então o homem libertado
com os “puros homens antigos” que supostamente
viveram antes da
invenção dos objetivos artificiais da sociedade.
Os puros homens antigos
agiam sem cálculo, não procuravam garantir
resultados. Eles não faziam planos. Portanto, se falhavam,
não tinham motivo para a tristeza; se acertavam,
não tinham motivos para felicitações.
Por isso podiam escalar alturas sem medo.
... Eles não
sabiam o que é amar a vida e detestar a morte.
Não se alegravam com nascimentos, nem se
esforçavam para adiar a dissolução.
Chegar depressa, ir depressa; – não mais. ... Isso
é o que se chama não desviar o
coração do Tao, nem deixar o humano querer
suplementar o divino.
Pode-se pensar que os
taoístas advogavam um primitivismo romântico, como
a idealização do Nobre Selvagem da Europa do
século XVIII. Esta será uma conclusão
natural se as passagens citadas forem isoladas de seu contexto
social... o confucionismo, a despeito de seus métodos
inegáveis, era
uma concepção escolástica,
ritualística e puramente teórica da ordem social,
sem o mais leve interesse na ordem da natureza.
Toda a literatura do
taoísmo mostra profundo e inteligente interesse pelos
padrões e processos do mundo natural e o desejo de modelara
vida humana pelos princípios observáveis da
natureza e não pelos princípios
arbitrários de uma ordem social apoiada na
violência. Pg.78
Um vento violento
não dura toda manhã; uma chuva não
dura o dia inteiro. Quem faz a chuva e o vento senão o
céu e a terra? Se o céu e a terra não
podem sustentar uma tal atividade, como poderia o homem? Em outras palavras, as
convenções sociais
em direta contradição com padrões
físicos não podem suportar uma sociedade
duradoura. Se isso é
primitivismo romântico, a psicoterapia não o
é menos em nossa época ao advogar estilos de vida
coerentes com a biologia humana em vez com a
tradição social. No confucionismo a fonte de
autoridade era uma literatura tradicional; no taoísmo era a
observação do universo natural...
Em quaisquer
condições civilizadas é naturalmente
impossível agir sem fazer planos, ou recusar-se
absolutamente a participar de uma economia de desperdício e
violência, seja ela patrocinada ideologicamente pelo
comunismo ou pelo capitalismo. Mas
é também possível ver que essa
competição violenta e insensata não
precisa ser levada a sério, ou melhor, que se vamos persistir nela
precisamos não
levá-la a sério,
do contrário os “colapsos nervosos”
serão tão comum como os resfriados.
Convém ter em mente que as descrições
de Chuang-tzu dos puros homens antigos e da vida de
não-interferência são sempre um tanto
exageradas; são humorísticas, como as pinturas de
Liang K’ai de mestres Zen (52).
O homem de
caráter vive à vontade sem exercitar a mente e
pratica atos sem preocupação... Parecendo
estúpido, ele anda como alguém que perdeu o
caminho. Ele tem muito dinheiro para gastar, mas não sabe de
onde o dinheiro vem. Assim como wu-wei
não significa literalmente fazer nada, libertação
não significa literalmente deixar o jogo social, mas
tratá-lo como o velho trata a catarata nesta anedota: Pg.79
Confúcio olhava a
catarata de Luliang. Ela caía de uma altura de setenta
metros, e sua espuma alcançava dez quilômetros.
Nenhum bicho de escama ou de nadadeira poderia entrar nela. Mas
Confúcio viu um velho entrar, e pensando que ele sofresse de
alguma mal e desejasse acabar com a vida, pediu a um
discípulo que corresse por um lado da catarata e tentasse
salvar o velho. O velho emergiu uns cem passos adiante com os cabelos
esvoaçando e subiu o barranco cantando. Confúcio
alcançou-o e disse:
Pensei que o senhor fosse um
espírito, mas vejo que é um homem. Diga-me por
favor, existe uma maneira especial de tratar assim a água? –
Não – respondeu o velho. –
Não tenho maneira... Entrando com o redemoinho, saio com o
redemoinho. Eu me acomodo à água, e
não a água à mim. Assim posso
tratá-la dessa maneira.
Entre os anos 400 e 900 de
nossa era surgiu do intercurso do taoísmo como o budismo
mahayana a escola ch’an ou zen, com sua prodigiosa
técnica (da qual trataremos mais adiante) de ensinar
a libertação
por “indicação direta” e
não por discussão.
A posição
fundamental do zen é que ele nada tem a dizer,
ou – ainda – que
a natureza não é um problema.
As serranias azuis
são simplesmente serranias Aí está todo o zen, e
quando o discípulo procura o mestre com uma pergunta
artificial como: “Que devo fazer para entrar no caminho da
libertação”, o mestre responde:
“Está ouvindo o riacho?”
“Estou.” “Aquele é o
caminho.” Ou, mais simples ainda, se o discípulo
pergunta qual o significado do budismo, o mestre responde:
“Três quilos de linho.” A
dificuldade do zen é o problema quase
insuportável de fazer uma pessoa ver que vida-e-morte não
é
problema.O mestre zen enfrenta
isso pedindo ao discípulo que descubra para quem
o mundo é um problema, para quem o prazer é
desejável e a dor indesejável, com isso fazendo a
consciência recuar para descobrir o ego.
Pg.80 Mas o que se verifica é
que esse “eu” mítico que parece
defrontar-se com a experiência ou estar cercado no mundo
não é encontrado em parte alguma...
Com seus métodos
diferentes o vedanta, o budismo e o taoismo buscam compreender que a
vida deixa de ser problemática quando se percebe
que o
ego é uma ficção social.
A doença e a morte
podem ser dolorosas, mas o que as faz problemáticas
é serem vergonhosas ao ego.
É a mesma vergonha que sentimos quando apanhados
fora do nosso papel, como
quando um bispo é surpreendido com o dedo no nariz, ou um
policial é surpreendido chorando. Porque
o ego é o papel, o “ato” segundo o qual
o ser mais recôndito de uma pessoa é permanente,
está no comando do organismo, e mesmo tendo
experiências, não se envolve nelas.
Dor e morte destroem essa pretensão, e é por isso
que o
sofrimento é quase sempre acompanhado de uma
sensação de culpa,
sensação tanto mas difícil de explicar quanto
a pretensão é inconsciente. Daí o
sentimento obscuro
mas poderoso de
que a pessoa não deve sofrer nem morrer. ... Pg.81
O estado de
consciência que vem depois da
libertação do ego é facilmente
inteligível em termos de psiquiatria. Um dos
importantes fatos físicos
que a socialização reprime é que todas
as nossas experiências sensoriais são estados
do sistema nervoso. O
campo de
visão que tomamos como estando fora do organismo, em
realidade está dentro
porque é uma tradução do mundo
exterior na forma do olho e dos nervos ópticos. O que vemos
é portanto um estado do organismo, um estado de
nós mesmos. Mas
dizer mesmo isso é dizer demais. Não
existe o mundo externo,
portanto não
existe o estado do sistema nervoso,
portanto não
existe uma coisa que veja esse estado.
O ver é precisamente aquele
estado particular do sistema nervoso,
estado que nesse momento é
parte
integrante do organismo. Da
mesma forma não se
houve um som. O
som é o
ouvir;
fora disso, fica sendo simplesmente uma vibração
no ar. Os
estados do sistema nervoso não precisam, como supomos, ser
vigiados por alguma coisa mais, por um homenzinho situado
dentro
da cabeça e que os registra. Não
precisaria esse homenzinho de ter outro sistema nervoso, e outro
homenzinho na cabeça, e assim ad infinitum?
Quando temos uma
regressão infinita dessa espécie, devemos sempre
suspeitar que demos um passo desnecessário em nosso
raciocínio...
Assim também,
quando o que corresponde a um segundo sistema nervoso observando o
primeiro, estamos voltando o sistema nervoso sobre si mesmo, e com isso
nossos pensamentos oscilam. Nós
nos tornamos uma série infinita de ecos, de seres
atrás de seres atrás de seres.
Mesmo em certo sentido o
córtex é mesmo um segundo sistema nervoso
além e acima do sistema primário do
tálamo. Simplificando
bastante, podemos dizer que o córtex funciona como um
complicado sistema feedback
para o tálamo, por intermédio do qual o organismo
pode ter alguma consciência de si mesmo. Devido ao
córtex, o sistema
nervoso pode saber que sabe, pode registrar e conhecer seus
próprios estados. Mas
isso é apenas um “eco”, não
uma série infinita. O
córtex é apenas outro padrão neural,
seus estados são padrões neurais; não
é mais do que padrão neural como se
supõe que o ego seja, agente
no
organismo mas não do
organismo.
Como pode o
córtex observar e controlar o córtex?
Talvez chegue o dia em que o cérebro humano se dobre sobre
si mesmo novamente e crie um córtex superior, mas
até lá o
único feedback
que o córtex tem de seus próprios estados vem por
intermédio de outras pessoas.
(Estou falando aqui do córtex todo. É claro que
uma pessoa pode recordar e recordar.) Assim, o ego que observa e
controla o córtex é um complexo de
informação social devolvida ao córtex
– o outro generalizado de Mead. Mas isso é falsa
informação
social quando faz parecer que a informação da
qual o ego consiste é algo diferente dos estados do
próprio córtex,
e por conseguinte deve estar controlando o córtex.
O ego é a
pretensão
inconsciente de que o organismo contenha um sistema mais elevado que o
córtex; é a confusão
de um
sistema de informação interpessoal com uma nova e
imaginária dobra no cérebro – ou com algo
diferente de um padrão neural, um cérebro, alma,
ou ser. Quando sinto que “eu”
estou ciente de mim ou me controlando – controlando meu
córtex – devo reconhecer que na verdade estou
sendo controlado por palavras e gestos
de outras pessoas mascarados de meu ser interior.
Não ver isso traz grande confusão, como quando
procuro forçar-me a sentir de maneiras socialmente
condenáveis. Se
tudo isso é verdade, fica evidente que o sentimento do ego
é pura hipnose.
A sociedade esta convencendo o indivíduo a fazer o que ela
quer mediante
o recurso de faze-lo crer que as ordens dela são ordens do
ser interior do indivíduo.
O que queremos é o que você quer. Isso
é uma prisão dupla,
como quando a mãe diz ao filho
que está querendo brincar numa poça de lama:
“Ora, querido, você não vai querer
entrar nessa lama!” Isso
é falsa informação,
e esta é a “Grande
Mentira Social”.
Suponhamos
então que o falso reflexo de “eu vendo minhas
visões” ou “eu sentindo meus
sentimentos” seja detido
por métodos
como os empregados em
caminhos da libertação. Não fica
então claro que todas as nossas
percepções do mundo externo são
estados do organismo? A divisão entre
“eu” e “minhas
visões” é projetada para fora na
nítida divisão entre organismo e o que ele
vê. Uma
mudança de percepção dessa ordem
explicaria o sentimento, tão comum no momento da
libertação (satori),
de que o mundo externo é o ser da pessoa e as
ações externas são obras da pessoa. A
percepção então será
conhecida pelo que Pg.83 é, um campo de
relações distinto de um encontro. Não
é demais dizer que tal mudança de
percepção daria muito melhor terreno para
solidariedade social do que o truque da falsa
informação e da hipnose.
Há ainda uma
questão que deve ser tratada nesta altura,
questão que surge repetidamente em qualquer
discussão sobre a utilidade dos caminhos a
libertação para o psicoterapista, Apesar da
pudícia de Freud, toda a história de psicoterapia
está ligada a um movimento pela liberdade sexual na cultura
ocidental. Isso parece em
flagrante conflito com o fato de os caminhos da
libertação imporem o celibato e a vida
monástica ou eremítica a seus praticantes. Podem
ser citados muitos textos para mostrar que a
paixão
sexual é considerada obstáculo maior à
libertação.
Para compreender isso,
precisamos remontar ao contexto social da Índia antiga. Normalmente ninguém se dedicava a
essas disciplina enquanto não atingisse a última
fase da vida. Nos
vários ashramas
ou estágios da vida, o estágio liberativo de
“habitante da floresta” (vanaprastha)
só vinha depois de completado o estágio de
“cidadão” (grihastha).
Ninguém devia buscar libertação
enquanto não tivesse criado uma família e passado
suas obrigações aos filhos. A
libertação era considerada não apenas
emancipação em relação
às convenções sociais, mas
também em relação às
responsabilidades sociais. O
budismo mahayana modificou radicalmente essa
ideia, e vamos ver que a resposta ao nosso problema está
aqui, e não nas disciplinas que continuam
inseparáveis da cultura hindu – vedanta e yoga.
Mas é significativo que Jung também considere o
processo de individualização de sua psicoterapia
um empreendimento para a segunda metade da vida, como
preparação para a morte. Pg.84
Em todas as sociedades
pré-anticoncepcionais antigas, a atividade sexual
é obviamente inseparável da
procriação, e assim, de muitos pontos de vista,
parecia impróprio a um homem no estágio de vanaprastha
gerar filhos. Numa época em que a expectativa de vida era
bem mais baixa do que a nossa, havia pouca probabilidade de esse homem
educar os filhos até a maturidade. Além disso,
havia o conflito potencial entre o dever de educar os filhos e o
trabalho de libertar-se. Deve-se lembrar também que a fisiologia primitiva associa a
emissão seminal a uma “perda” de fluido
vital comparável a uma perda de sangue, confundindo a
relaxação da desintumescência com baixa
de vitalidade. Daí a generalizada mas enganosa
noção de que “todo animal fica triste
após o coito” (omne animal triste post coitum).
Mas, de parte dessas
considerações, o motivo principal da
insistência ao desejo sexual er que a repressão
oferecia forte repto à realidade do ego, como se dissesse,
“se você pode resistir a sua natureza
biológica, você existe”. Pg.85 ... há certa
contradição em dizer “eu estou
libertado” quando o ego é irreal. Mas
há também a falsa modéstia de exagerar
na imitação da humildade a ponto de ficar mais
importante ser humilde que ser libertado. Grilhões
de ouro prendem tanto
quanto grilhões de ferro.
Existem também praticantes que se conservam
anônimos e desorganizados – taoistas, por exemplo,
que simplesmente cuidam de sua vida e não pretendem nada,
salvo, com cero humor, a estupidez). Mas o desânimo geral
é devido ao que podemos chamar de excesso de
reverência. Sempre que uma tradição
adquire venerabilidade com a passagem do tempo, os velhos mestres e
sábios ganham pedestais de santidade e de saber que os
elevam bem acima do nível humano. O
caminho de libertação confunde-se com um culto
popular; os velhos mestres ficam sendo deuses e super-homens, e com
isso o ideal de libertação vai ficando cada vez
mais remoto. Ninguém acredita que ele possa ser
alcançado a não ser pelos excepcionalmente dotados.
Consequentemente,
o remédio da disciplina torna-se uma dieta, a cura um
hábito e a jangada uma casa flutuante.
Assim, um caminho de libertação fica sendo mais
uma instituição social e morre de
respeitabilidade.
Fora da esfera de
influência do budismo mahayana isso tem acontecido tanto que
estar no caminho da libertação é o
máximo que s pode esperar. Os poucos libertados conhecidos
são aberrações da natureza... ou
homens muito velhos... Nessas circunstâncias, o
esforço de reprimir a sexualidade, que era conhecido como
remédio de ação rápida,
torna-se pudicícia crônica; e se esquece, ou
simplesmente se murmura, que o
Bodhisattva não precisa ser celibatário.
Nem, por outro lado,
será ele um libertino,
pois ele
não precisa da válvula sexual para fugir do
“problema” da vida.
É importante lembrar também que fora da
disciplina de libertação – supostamente
temporária
– os costumes sexuais
das culturas asiáticas são em muitos aspectos
muito mais liberais que os nossos, sendo rara a
associação da sexualidade com o pecado.
Assim, a expressão sexual do Bodhisattva é
limitada pelo seu próprio senso de bom gosto e pelos
costumes da sociedade secular em que ele vive. O
“graduado” de uma comunidade zen pode
então casar e continuar na comunidade, ou simplesmente
voltar a vida leiga... Pg.86 Os textos dizem a cada passo que o
Bodhisattva pode entrar na relação de amor porque
não se liga, Isso não significa que ele entre
mecanicamente, com frieza de sentimentos... essa
sexualidade é genuína e espontânea (sahaja);
seu prazer é desligado no sentido de não ser
buscado compulsivamente para aliviar angustia, mostrar virilidade ou
servir de substituto à libertação... ... uma doutrina do Tao, um caminho
de
não buscar. Aquilo
que for melhor para nós, virá a nós;
se corrermos para alcança-lo, ele nos escapará
perpetuamente. |
| I - Psicoterapia e libertação | II - Sociedade e Sanidade | III - Os Caminhos da libertação |
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