WATTS, Allan.
Psicoterapia Oriental & Ocidental

Rio de Janeiro: Editora Record, 1973. 

 

I – Psicoterapia e Libertação

Pg.17

 PREFÁCIO

             O assunto deste livro está “no ar” pelo menos há trinta anos, e durante esse tempo tem havido crescente discussão de um ou outro paralelo entre a psicoterapia ocidental e a filosofia oriental. Mas até agora não houve um esforço amplo para se descobrir um traço básico comum aos métodos e objetivos  da psicoterapia e das disciplinas do budismo, do vedanta, da ioga, do taoísmo, que não são psicoterapias, no sentido rigoroso do termo, mas que apresentam semelhanças que justificam uma comparação...

...

Por mais admiráveis que sejam, não acho que as disciplinas orientais sejam a última palavra em saber sacrossanto e imemorial, e que o mundo deva  sentar-se humildemente diante dos mestres orientais... não acho que exista um evangelho segundo Freud ou segundo Jung, no qual as grandes verdades da psicologia estejam fixadas para sempre. O objetivo desse livro não é dar a última palavra sobre o assunto, mas provocar reflexões e experimentos...

A abordagem que escolhi tem a desvantagem de não permitir referência satisfatória a todos os que influenciam o meu pensamento, nem render homenagem suficiente a todos os que contribuíram para o debate.

Pg.19

Conversas antigas, e livros lidos há muito tempo incorporam-se à corrente do nosso pensamento a ponto de não podermos às vezes separar as ideias que são nossas das que foram recebidas de outros...

            Mas o leitor reconhecerá prontamente na filosofia do Universo como sistema orgânico e transacional subjacente neste livro a minha dívida para com... e os psicólogos gestaltianos...

... o leitor notará que dou mais ênfase à conexão das disciplinas orientais com formas de psicoterapia cuja filosofia seja social, interpessoal e comunicacional, de preferência às que insistem no “inconsciente” e suas imagens arquetipais... apesar de a discussão deste intercâmbio entre Oriente e Ocidente ter sido conduzida mais pelos que seguem essa esacola... a da filosofia do “inconsciente”, não posso deixar de sentir que ela vai se tornando cada vez mais um remanso no desenvolvimento da psiquiatria ocidental...

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            Além das influências referidas acima, o preparo deste livro foi precedido de larga dose de discussão com pessoas empenhadas ativamente em psicoterapia...

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I – Psicoterapia e Libertação

            Se olharmos em profundidade os estilos de vida do Budismo e do Taoísmo, do vedanta e da ioga, não encontraremos neles nem filosofia nem religião segundo os conceitos do Ocidente. O que vamos encontrar será mais parecido cm psicoterapia. Isso pode parecer surpreendente porque, para nós, psicoterapia é uma forma de ciência, prática e materialista em atitude, enquanto aquelas disciplinas (ainda para nós) são religiões extremamente esotéricas, voltadas para regiões do espírito situadas quase inteiramente fora deste mundo. Isso ocorre porque a nossa infamiliaridade com as culturas orientais, combinada com a sofisticação dessas culturas, dá-lhes um halo de mistério no qual projetamos fantasias de nossa invenção. No entanto, o objetivo básico desses estilos de vida é qualquer coisa de impressionante simplicidade, e ao lado desse objetivo básico todas as complicações de reencarnação e poderes psíquicos , de mahatmas sobre-humanos, de escolas de tecnologia ocultista são uma cortina de fumaça na qual o inquiridor crédulo pode perder-se indefinidamente. É de justiça dizer que o inquiridor crédulo tanto pode ser asiático como ocidental, se bem que o primeiro nem sempre tenha a credibilidade intelectualizada do adepto ocidental do esoterismo. A fumaça começa a se dissipar, mas durante muito tempo a sua densidade escondeu as contribuições importantes que a mente oriental pode trazer ao estudo da psicologia.

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            A principal semelhança entre esses estilos orientais de vida e a psicoterapia ocidental está na preocupação de uns e de outra em provocar mudanças de consciência, mudanças em nossa maneira de sentir a nossa própria existência e em nosso relacionamento com a sociedade humana e com o mundo natural. O psicoterapista tem-se interessado mais por mudar a consciência de pessoas perturbadas. Por sua parte, as disciplinas do budismo e do taoismo têm-se preocupado em mudar a consciência de pessoas normais, socialmente ajustadas. Mas os psicoterapistas estão percebendo cada vez mais que o estado normal da consciência em nossa cultura é ao mesmo tempo contexto gerador de doença mental. Um complexo de sociedades de vasta riqueza material voltadas para a destruição mútua está longe de ser condição de saúde social...

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Historicamente a psicologia ocidental orientou-se para o estudo da psique ou da mente com entidade clínica, enquanto que as culturas orientais não categorizam mente e matéria, alma e corpo, da mesma maneira que no Ocidente.

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Não é que possamos substituir a entidade “mente” pela entidade “sistema nervoso”... a psicologia não pode ficar indiferente à revolução que tornou obsoletas concepções de entidades e “elementos”, sejam mentais ou materiais. Seja descrevendo mutações químicas ou formas biológicas, estruturas nucleares ou comportamento humano, a linguagem da ciência moderna está interessada simplesmente em padrões mutáveis de relacionamento.

            É possível que essa revolução tenha afetado a física e a biologia muito mais que a psicologia, mas as ideias teóricas da psicanálise continuam intocadas. A linguagem comum e senso comum até da sociedade educada tem sido tão pouco afetados que é difícil transmitir numa linguagem não matemática o que tem acontecido. Parece afrontoso ao bom senso podermos definir o mundo com padrões de relacionamento sem precisar perguntar de que “elementos” esses padrões são “constituídos”.

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Porque, quando o cientista investiga matéria ou elemento, ele descreve o que encontra em termos de padrão estruturado. Quando pensamos nisso, que outros termos podemos usar? A ideia do elemento só surge quando nos confrontamos com padrões tão confusos ou de textura tão compacta que não podemos defini-los. A olho nu, uma galáxia distante parece uma estrela, e um pedaço de aço parece uma massa de matéria contínua e impenetrável. Mas, quando magnificamos a visão, a galáxia assume a estrutura de uma nebulosa em espiral, e o pedaço de aço passa a ser um sistema de impulsos elétricos girando em espaços relativamente vastos. A ideia de elemento não expressa mais não expressa mais do que a sensação de quem chegou ao limite no qual os sentidos ou os instrumentos disponíveis não são suficientes para revelar o contexto.

            Algo parecido ocorre quando o cientista investiga qualquer unidade de contexto tão visível a olho nu que pode ser considerado uma entidade separada. O cientista descobre que, quanto mais meticulosas forem a observação e a descrição, mais ele estará descrevendo também o ambiente em que a entidade se movimenta e outros contextos com os quais ela parece inseparavelmente relacionada. Como disse Teilhard de Chardin muito bem, o isolamento dos contextos individuais, atômicos, “é puro artifício do espírito

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            Em vez da coesão inarticulada da simples textura encontramos a coesão articulada de padrões ligados inseparavelmente.

            O efeito disso no comportamento humano é que fica impossível separar padrões psicológicos de padrões sociológicos, biológicos ou ecológicos. Setores de conhecimento baseados no que hoje parecem divisões brutas e primitivas da natureza começam a se coligar em híbridos de nomes esquisitos como neuropsiquiatria, sociobiologia, biofísica e geopolítica.

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            As antigas culturas da Ásia nunca atingiram o conhecimento físico rigorosamente exato atingido pelo Ocidente moderno, mas alcançaram a princípio muitas coisas que somente agora nos estão ocorrendo. É impossível classificar o hinduísmo e o budismo como religiões, filosofias, ciências ou mesmo mitologias, ou como amalgama de todas as quatro porque a departamentalização é estranha aos orientais, até mesmo em uma forma básica como a separação entre espírito e matéria. O hinduísmo, como o islamismo e o judaísmo, é na verdade toda uma cultura, se bem que não se possa dizer o mesmo do budismo. O budismo – e o mesmo se pode dizer de certos aspectos do hinduísmo como o vedanta e a ioga, e do taoísmo na China – não é uma cultura, mas uma crítica de cultura e uma permanente revolução não violenta ou “oposição leal” à cultura à qual está ligado. Isso dá a esses caminhos de libertação alguma coisa em comum com a psicoterapia além do interesse em mudar estados de consciência, pois a função do psicoterapista é provocar a reconciliação entre sentimento individual e normas sociais sem no entanto sacrificar a integridade do indivíduo. O psicoterapista ajuda o indivíduo a ser ele mesmo e a viver a sua vida sem causar ofensa desnecessária à comunidade, a viver no mundo (da convenção social) e não contra ele. Um texto budista chinês define o sábio em palavras que lembram muito a personalidade “orientada para dentro” de Riesman e a “auto-atualizante” de Maslow:

 
           
Ele anda sempre sozinho, sai sempre sozinho;
            Quem é perfeito percorre sempre a mesma passagem do nirvana;
            Seu tom é clássico, seu espírito é transparente, seu ar é naturalmente elevado,
            Seu rosto é magro, os ossos firmes, ele não dá atenção aos outros.

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             Desde Freud a psicoterapia tem-se ocupado da violência causada ao organismo humano e a suas funções pela repressão social. Sempre que o terapista se coloca a favor da sociedade, ele interpreta o seu trabalho como sendo ajustar o indivíduo e encaminhar os seus “impulsos inconscientes” para a respeitabilidade social. Mas essa “psicoterapia oficial” carece de integridade e se transforma em instrumento obediente de exércitos, burocracias, igrejas, empresas e toda instituição que exija lavagem cerebral dos indivíduos. Por outro lado, o terapista interessado em ajudar o indivíduo é forçado à crítica social. Isso não quer dizer que ele tenha que se empenhar diretamente em revolução política; significa que ele tem que ajudar o indivíduo a se libertar de várias formas de condicionamento social, libertá-lo inclusive do ódio contra esse condicionamento – pois odiar é uma forma de se escravizar ao objeto odiado. Mas desse ponto de vista os problemas e sintomas dos quais o paciente procura-se libertar, e os fatores inconscientes que estão por trás deles, deixam de ser meramente psicológicos. Eles fazem parte de toda a tessitura de suas relações com outras pessoas e, mais particularmente, das instituições sociais que regem essas relações, ou seja, as normas de comunicação empregadas pela cultura ou grupo. Essas normas incluem as convenções de linguagem e de leis, de ética e de estética, de posição, função e identidade, de cosmologia, filosofia e religião. Todo esse complexo social é que a dá ao indivíduo a concepção de si mesmo, seu estado de consciência, o sentimento mesmo de existência...

             Ciente disso, o terapista deve compreender que a sua ciência, ou arte, tem nome impróprio, pois ele trata de algo muito mais extenso do que uma psique com seus problemas particulares. É justamente isso que tantos psicoterapistas estão reconhecendo... o que ao mesmo tempo faz os caminhos orientais de libertação tão pertinentes a seu trabalho. É que eles tratam com pessoas cujos problemas emanam daquilo que pode ser chamado de maya, para empregar a palavra hindu-budista cujo significado exato não é apenas  “ilusão” mas toda a concepção do mundo de uma cultura, considerada como ilusão no sentido etimológico de uma peça teatral (do latim ludere). O objetivo de um caminho de libertação não é destruir o maya, mas vê-lo pelo que ele é, ou ver através dele. Uma peça de teatro não é para ser tomada a sério...     

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 ... as ideias do mundo e da pessoa que são convenções e instituições sociais não devem ser confundidas com a realidade. As normas de comunicação não são necessariamente as normas do universo, e o homem não é a função ou a identidade que a sociedade lhe impõe. Quando um homem deixa de se confundir com a definição que outros deram de si mesmo, ele passa a ser ao mesmo tempo universal e ímpar. É universal em virtude da inseparabilidade entre seu organismo e o cosmos. É ímpar no sentido que é apenas este organismo e não qualquer estereótipo de função, classe ou identidade assumido por conveniência de comunicação social.

            Confundir esse maya social com a realidade, causa angustia por várias razões. Há conflito direto entre o que o organismo individual é e o que os outros dizem que ele é e esperam ele seja. As normas de comunicação social muitas vezes encerram contradições que levam a dilemas insolúveis em pensamento, sentimento e ação. Ou pode ser que uma pessoa, se se confundir com uma opinião restritiva e empobrecida de sua função ou identidade, crie sentimentos de isolamento, solidão e alienação. A variedade de diferenças entre indivíduos e seus contextos sociais conduz a igual variedade de meios de se escapar desses conflitos. Alguns procuram escapar pelas psicoses e neuroses que levam a tratamento psiquiátrico, mas na maioria dos casos a libertação é buscada nas orgias socialmente permissíveis do entretenimento em massa, do fanatismo religioso, da excitação sexual crônica, do alcoolismo, da guerra – a longa lista melancólica das fugas tediosas e bárbaras.

            É natural então que se diga que a necessidade de psicoterapia abrange muito mais do que os casos das pessoas clinicamente psicóticas ou neuróticas, e há muito tempo vem aumentando o número de pessoas que antigamente buscavam os conselhos da religião ou de um amigo compreensivo e que agora recebem psicoterapia. Mas ninguém descobriu ainda a maneira de aplicar a psicoterapia em bases maciças... as técnicas de psicoterapia são caras e demoradas. Sua crescente popularidade é devida em grande parte ao prestígio da ciência... do terapista como cientista e não como religioso... No entanto... a profissão que exercem está longe de ser uma ciência. Para começar, não existe uma teoria geralmente aceita, nem mesmo uma terminologia geralmente aceita: o que há é uma multiplicidade de teorias em choque e de técnicas divergentes.

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 Pouco conhecemos da neurologia, que poderá até vir a ser a base da psiquiatria. Para agravar ainda mais o quadro, ainda não existem provas claras de que a psicoterapia não seja mais que um placebo cego, e, salvo nos caso dos sintomas psicóticos que podem ser controlados por certas drogas, não existe maneira segura de distinguir entre “curas” e cessação espontânea.

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Precisamos então indagar para que outro meio de nossa sociedade devemo-nos voltar a fim de fazer alguma coisa para solucionar a angustia do indivíduo em seu conflito com instituições sociais autocontraditórias, obsoletas ou desnecessariamente limitativas – inclusive, é preciso repetir, a noção dominante do próprio indivíduo, do ego fechado em sua pele.

            Se muita gente hoje consulta o psicoterapista e não o padre ou pastor, não é simplesmente porque a ciência tenha mais prestígio que a religião... a religião está tão liberalizada que em todas as zonas metropolitanas e em muitas zonas rurais não é preciso andar muito para se encontrar um ministro disposto a ouvir a exposição de um problema individual com a máxima simpatia e generosidade, e muitas vezes com considerável inteligência. Mas o que entorpece o ministro na solução dos conflitos entre o indivíduo e as instituições sociais é justamente a sua própria função. Ele representa uma igreja, uma comunidade, e quase sem exceção as comunidades religiosas trabalham pelas instituições sociais, e não procuram ver além delas... grupos religiosos se opõem até vigorosamente a algumas instituições sociais, mas ao mesmo tempo inculcam outras sem compreender sua natureza convencional.   

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 Para as que inculcam, eles reivindicam a autoridade de Deus ou das leis da natureza, com isso impedindo ou dificultando que seus membros compreendam que as instituições sociais são meras normas de comunicação, destituídas de qualquer validez universal, como digamos – as regras de uma gramática.
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            O conceito judaico e cristão de salvação significa justamente pertencer a uma comunidade, a Comunhão dos Santos. Ideal e teoricamente, a igreja como Corpo de Cristo é todo o universo, e como em Cristo “não há grego nem judeu, escravo nem livre”, pertencer a Cristo pode significar libertar-se do maya e de suas categorias. Isso pode significar que a definição e classificação convencional de uma pessoa não é a pessoa real, que “vivo, mas não mais como eu; mas Cristo vive em mim”. Mas na prática não quer dizer nada disso, e até pouco ouvimos da teoria. Na prática significa aceitar a religião ou ligamento do subgrupo cristão e receber o seu sistema particular de convenções e definições como as mais sérias das realidades. Uma das mais importantes convenções cristãs é o conceito do homem como aquilo que chamei de “ego fechado em sua pele”, a alma e seu veículo material formando uma personalidade ímpar e valiosa diante de Deus. Esse conceito é sem dúvida a base histórica do estilo ocidental de individualidade, que nos dá a sensação de nós mesmos como ilhas de consciência em confronto com experiências que constituem entidades “outras”. Desenvolvemos essa sensação a um grau particularmente agudo. Mas o sistema de convenções que inculca essa sensação requer também desse ego definidamente isolado a atuação como membro de um organismo e a submissão sem reservas ao padrão social da igreja. A tensão assim gerada, por mais interessante que seja por vezes, no fim resulta tão inoperante como qualquer outra autocontradição pura e simples. É um contexto ideal para a geração de psicose... seria também... um contexto ideal para a terapia se os líderes religiosos responsáveis tivessem consciência da contradição e não a levassem a sério... o ministro (religioso) poderia ser um elemento extraordinariamente valioso se pudesse ver além de sua religião. Mas a sua formação e a sua situação econômica não o animam a isso, e por isso o psicoterapista fica em posição mais vantajosa.

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             Até agora, então, vimos que a psicoterapia e os caminhos de libertação têm dois interesses em comum: primeiro, a transformação da consciência, o sentimento íntimo da existência de cada um; e, segundo o desligamento do indivíduo de formas de condicionamento impostas pelas instituições sociais... o conhecimento, mesmo teórico, de outras culturas nos ajuda a compreender a nossa; comparando as nossas instituições sociais com outras podemos atingir certo grau de clareza e objetividade em relação às nossas. Isso nos ajuda a distinguir entre ficções sociais de um lado e padrões e relações naturais de outro. Se houver então em outras culturas disciplinas que apresentem alguns pontos em comum com a psicoterapia, o estudo teórico de seus métodos, objetivos e princípios pode dar ao psicoterapista uma perspectiva melhor daquilo que ele está fazendo.

            E ele precisa disso com urgência. Vimos que a psicologia e a psiquiatria estão em grande confusão teórica... os fatores inconscientes que atuam na psicoterapia vão muito além dos traumas de infância e das repressões impostas à raiva e à sexualidade.

... o psicoterapista faz o seu trabalho com um “inconsciente filosófico” quase completamente sem exame. Em razão de sua formação altamente especializada, ele pode ignorar não apenas a filosofia contemporânea da ciência, mas também as premissas metafísicas subjacentes em todas as formas principais de teoria psicológica. Metafísica inconsciente costuma ser má metafísica. E se as pressuposições metafísicas da psicanálise forem invalidadas, ou se sua teoria depender de desacreditadas ideias antropológicas do século passado? A cada passo em sua obra Jung insiste em dizer que fala como cientista e médico e não como metafísico. “Nossa psicologia”, escreve ele, “é... uma ciência de meros fenômenos, sem quaisquer implicações metafísicas.” Ela “trata toda pretensão e assertiva metafísica como fenômeno mental, e considera-a como manifestação sobre a mente e sua estrutura, e derivada em última análise de certas disposições inconscientes”.    

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Mas isso é em si mesmo uma vasta proposição metafísica. A dificuldade é que o homem quase não pode pensar nem agir sem alguma premissa metafísica, sem algum axioma básico que ele não pode verificar nem definir inteiramente. Tais axiomas são como regras de jogos: umas permitem jogos interessantes e proveitosos outras não; mas é sempre importante conhecer mais ou menos bem as regras. As regras do jogo-da-velha não são tão proveitosas como as do xadrez, e não sabemos a qual desses dois jogos se assemelham os axiomas da psicanálise...

            Entre os fatores inconscientes da psicoterapia estão também os contextos sociais e ecológicos do paciente e do terapista, contextos que costumam ser ignorados quando duas pessoas estão encerradas juntas em ambiente privado. Como disse Normam O. Brown.

     Há uma certa perda de percepção na tendência que tem a psicanálise de isolar o indivíduo da cultura. Quando reconhecemos as limitações da conversa no divã... quando reconhecemos que a conversa no divã ainda é uma atividade de cultura, fica evidente que nada há para o psicanalista analisar exceto essas projeções culturais... assim a psicanálise só se realiza quando se torna análise histórica e cultural.

            Não é isso uma maneira de dizer que o que precisa ser analisado ou esclarecido no comportamento de um indivíduo é a maneira pela qual esse comportamento reflete as contradições e confusões da cultura?

            Somente na medida em que pudermos nos colocar fora dos sistemas culturais e metafísicos nos quais estamos envolvidos, comparando-os com outros, é que os padrões culturais vêm à luz e as premissas metafísicas ocultas se esclarecem. Há quem diga que isso é simplesmente impossível, que nossas impressões de outras culturas são sempre irremediavelmente deformadas pelo nosso condicionamento...

Como premissa metafísica não há como destruí-la, porém ela nada oferece para um desenvolvimento proveitoso.

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            O aspecto positivo da libertação como é entendida nos caminhos de libertação do Oriente é precisamente a liberdade de procedimento.

...O nirvana budista é definido é definido como recurso contra o samsara, literalmente o ciclo de vida e morte, isto é, da vida vivida em um círculo vicioso, como tentativa eternamente repetida de solucionar um falso problema. O samsara é, portanto, comparável às tentativas de quadrar o círculo, de trissecar o ângulo ou de construir um mecanismo dotado de movimento perpétuo. Um problema que não comporta solução força a pessoa a passa-lo e repassa-lo até perceber que a questão proposta não tem sentido. É por isso que a pessoa neurótica vai repetindo seus padrões de comportamento – sempre sem êxito porque o neurótico está querendo solucionar um falso problema, extrair sentido de uma autocontradição. Se ele não consegue perceber que o problema em si é um absurdo, pode cair na psicose, na paralise de não mais poder agir. Alternativamente, a “explosão psicótica” pode ser também uma manifestação repentina e ilegítima de procedimento livre nascida de puro desespero, sem a pessoa compreender que o problema é impossível não por ser extremamente difícil, mas por ser absurdo.

            Para que haja um desenvolvimento proveitoso na ciência da psicoterapia, como também na vida daqueles a quem ela se propõe ajudar, é preciso então que ela se liberte dos blocos inconscientes, das premissas não examinadas e dos absurdos problemas não percebidos que existem em seu contexto social... um dos instrumentos mais poderosos é a comparação intercultural, principalmente com culturas altamente complexas como a chinesa e a indiana, que s desenvolvem relativamente isoladas da nossa, e principalmente também com tentativas feitas nessas culturas para se libertarem de seus próprios padrões...

o psicoterapista... precisa vencer a noção habitual de que nada tem a aprender de disciplinas “pré-científicas”... não se trata de adotarmos as práticas budistas ou taoístas como quem se converte a uma religião. Para o ocidental compreender e empregar os caminhos

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 orientais de libertação, é de máxima importância que ele não perca contato com seus recursos científicos, porque a fumação do romantismo esotérico está sempre pronta a envolver o incauto...

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            Se, além do mais, procurarmos compreender tudo o que pudermos sobre personalidade, precisamos entender o significado de despersonalização, aquelas experiências nas quais a autoconsciência individual é revogada e o individuo se dissolve em uma consciência que não se ancora mais na individualidade. Essas experiências são descritas pelo indivíduo em termos da unificação final do indivíduo com o atman, entidade cósmica super-individual transcende a individualidade e a materialidade... Algumas pessoas desejam essas experiências outras as temem. Nosso problema aqui não é a desejabilidade das experiências, mas a luz que elas lançam sobre a relatividade de nossa atual psicologia da personalidade, na qual a auto consciência é menos destacada, ou mesmo ausente, pode ser a regra geral (ou fundamental).

É um erro comum achar que a mudança da consciência pessoal efetuada nos caminhos orientais de libertação seja a “despersonalização” no sentido da regressão a algum tipo primitivo ou infantil de consciência. É verdade que Freud designou o desejo de regresso à consciência oceânica do útero por princípio-nirvana, e seus discípulos têm persistentemente confundido todas as ideias de transcendência do ego com a mera perda da “força do ego”. Essa atitude talvez decorra do imperialismo da Europa ocidental do século passado, quando era conveniente considerar indianos e chineses como hereges atrasados e ignorantes, necessitados dos benefícios da colonização.

            Nunca será demais insistir em que libertação não envolve a perda ou destruição de conceitos convencionais como o do ego; significa ver além deles – da mesma forma que podemos utilizar a concepção do equador sem confundi-la com o um risco na superfície da terra. Em vez de ficar abaixo do ego, a libertação o transpõe.

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            Nosso erro foi supor que o indivíduo é valorizado e que sua unicidade se acentua quando ele é separado do mundo que o cerca, ou quando se acentua a eterna diferença em essência entre ele e seu criador. Como se pode valorizar a mão cortando-a do braço?... Ao definir o objetivo da terapia como individuação (Jung), auto-atualização (Maslow), autonomia funcional (Allport) ou individualidade criadora (Adler), o terapista está em perfeita concordância com os caminhos de libertação; mas para dar frutos toda planta precisa estar fincada no solo...

 

I - Psicoterapia e libertação II - Sociedade e Sanidade III - Os Caminhos da libertação
IV - Um Espelho Escuro V - O Contrajogo VI - Convite à Dança