I –
Psicoterapia e Libertação
Pg.17
PREFÁCIO
O
assunto deste livro está “no ar” pelo
menos
há trinta anos, e durante esse
tempo tem havido crescente discussão de um ou outro paralelo
entre a
psicoterapia ocidental e a filosofia oriental. Mas até agora
não houve um
esforço amplo para se descobrir
um traço
básico comum aos métodos e
objetivos
da psicoterapia e das
disciplinas do budismo, do vedanta, da ioga, do taoísmo, que
não são
psicoterapias, no sentido rigoroso do termo, mas que apresentam
semelhanças que
justificam uma comparação...
...
Por mais
admiráveis que sejam,
não acho que as
disciplinas orientais sejam a última palavra em saber
sacrossanto e imemorial,
e que o mundo deva
sentar-se
humildemente diante dos mestres orientais... não acho que
exista
um evangelho
segundo Freud ou segundo Jung, no qual as grandes verdades da
psicologia
estejam fixadas para sempre. O objetivo desse livro não
é
dar a última palavra
sobre o assunto, mas
provocar reflexões
e experimentos...
A abordagem que escolhi tem
a desvantagem de
não
permitir referência satisfatória a todos os que
influenciam o meu pensamento,
nem render homenagem suficiente a todos os que contribuíram
para
o debate.
Pg.19
Conversas antigas, e livros
lidos há
muito tempo
incorporam-se à corrente do nosso pensamento a ponto de
não podermos às vezes
separar as ideias que são nossas das que foram recebidas de
outros...
Mas
o leitor reconhecerá prontamente na filosofia do Universo
como
sistema orgânico
e transacional subjacente neste livro a minha dívida para
com...
e os
psicólogos gestaltianos...
... o leitor
notará que dou mais
ênfase à conexão
das disciplinas orientais com formas de psicoterapia cuja filosofia
seja social,
interpessoal e comunicacional, de
preferência às que
insistem no
“inconsciente” e suas imagens arquetipais...
apesar de
a discussão deste
intercâmbio entre Oriente e Ocidente ter sido conduzida mais
pelos que seguem
essa esacola... a da filosofia do “inconsciente”,
não posso deixar de sentir
que ela vai se tornando cada vez mais um remanso no desenvolvimento da
psiquiatria ocidental...
Pg.20
Além
das influências referidas acima, o preparo deste livro foi
precedido de larga
dose de discussão com pessoas empenhadas ativamente em
psicoterapia...
pg
21
I – Psicoterapia
e Libertação
Se olharmos em profundidade
os estilos de vida do Budismo
e do Taoísmo, do vedanta e da ioga, não
encontraremos
neles nem filosofia nem
religião segundo os conceitos do Ocidente. O que vamos
encontrar
será mais
parecido cm psicoterapia. Isso pode parecer surpreendente porque, para
nós,
psicoterapia é uma forma de ciência,
prática e
materialista em atitude,
enquanto aquelas disciplinas (ainda para nós) são
religiões extremamente
esotéricas, voltadas para regiões do
espírito
situadas quase inteiramente fora
deste mundo. Isso ocorre porque a nossa infamiliaridade com as culturas
orientais, combinada com a sofisticação dessas
culturas,
dá-lhes um halo de
mistério no qual projetamos fantasias de nossa
invenção. No entanto, o
objetivo básico
desses estilos de vida é qualquer
coisa de impressionante simplicidade, e ao lado desse objetivo
básico todas as
complicações de
reencarnação e poderes
psíquicos , de mahatmas sobre-humanos,
de escolas de tecnologia ocultista são uma cortina de
fumaça na qual o
inquiridor crédulo pode perder-se indefinidamente. É
de justiça
dizer que o inquiridor crédulo tanto pode ser
asiático
como ocidental, se bem
que o primeiro nem sempre tenha a credibilidade intelectualizada do
adepto
ocidental do esoterismo. A fumaça começa a se
dissipar,
mas durante muito tempo
a sua densidade escondeu as contribuições
importantes que
a mente oriental pode
trazer ao estudo da psicologia.
Pg.22
A principal
semelhança entre esses estilos orientais de
vida e a psicoterapia ocidental está na
preocupação de uns e de outra em
provocar mudanças de consciência,
mudanças em nossa
maneira de sentir a nossa
própria existência e em nosso relacionamento com a
sociedade humana e com o
mundo natural. O psicoterapista tem-se interessado mais por mudar a
consciência
de pessoas perturbadas. Por
sua parte,
as disciplinas do budismo e do taoismo têm-se preocupado em
mudar
a consciência
de pessoas normais, socialmente ajustadas. Mas
os psicoterapistas
estão
percebendo cada vez mais que o
estado normal da consciência
em nossa cultura
é ao mesmo tempo contexto gerador de doença mental.
Um complexo de
sociedades de vasta riqueza
material voltadas para a destruição
mútua
está longe de ser condição de
saúde
social...
...
Historicamente a
psicologia
ocidental orientou-se para o estudo da psique ou da mente com entidade
clínica,
enquanto que as culturas
orientais não categorizam mente e
matéria, alma e
corpo, da mesma maneira que no Ocidente.
...
Não
é
que possamos substituir a
entidade “mente” pela entidade “sistema
nervoso”... a psicologia não pode ficar
indiferente à revolução que tornou
obsoletas
concepções de entidades e
“elementos”, sejam mentais ou materiais. Seja
descrevendo
mutações químicas ou
formas biológicas, estruturas nucleares ou comportamento
humano,
a linguagem da
ciência moderna está interessada simplesmente em
padrões mutáveis de relacionamento.
É
possível que essa revolução tenha
afetado a física e a
biologia muito mais que a psicologia, mas as ideias teóricas
da
psicanálise
continuam intocadas. A linguagem comum e senso comum até da
sociedade educada
tem sido tão pouco afetados que é
difícil
transmitir numa linguagem não
matemática o que tem acontecido. Parece afrontoso ao bom
senso
podermos definir
o mundo com padrões de relacionamento sem precisar perguntar
de
que “elementos”
esses padrões são
“constituídos”.
Pg.23
Porque, quando o
cientista
investiga matéria ou elemento, ele descreve o que encontra
em
termos de padrão
estruturado. Quando pensamos nisso, que outros termos podemos usar? A
ideia do
elemento só surge quando nos confrontamos com
padrões
tão confusos ou de
textura tão compacta que não podemos defini-los.
A olho
nu, uma galáxia
distante parece uma estrela, e um pedaço de aço
parece
uma massa de matéria
contínua e impenetrável. Mas, quando magnificamos
a
visão, a galáxia assume a
estrutura de uma nebulosa em espiral, e o pedaço de
aço
passa a ser um sistema
de impulsos elétricos girando em espaços
relativamente
vastos.
A ideia de
elemento não expressa mais não expressa mais do
que a
sensação de quem chegou ao limite no qual os
sentidos ou
os instrumentos
disponíveis não são suficientes para
revelar o
contexto.
Algo parecido ocorre quando o
cientista investiga
qualquer unidade de contexto tão visível a olho
nu que
pode ser considerado uma
entidade separada. O cientista descobre que, quanto mais meticulosas
forem a
observação e a descrição, mais
ele
estará descrevendo também
o ambiente em que
a entidade se movimenta e outros contextos com os quais ela parece
inseparavelmente relacionada.
Como disse Teilhard de Chardin muito
bem, o
isolamento dos contextos individuais, atômicos,
“é
puro artifício do espírito”
...
Em vez da coesão
inarticulada da simples textura
encontramos a coesão articulada de padrões
ligados
inseparavelmente.
O efeito disso no
comportamento humano é que fica
impossível separar padrões
psicológicos de
padrões sociológicos, biológicos ou
ecológicos. Setores de conhecimento baseados no que hoje
parecem
divisões
brutas e primitivas da natureza começam a se coligar em
híbridos de nomes
esquisitos como neuropsiquiatria, sociobiologia, biofísica e
geopolítica.
Pg.24
...
As antigas culturas da
Ásia nunca atingiram o
conhecimento físico rigorosamente exato atingido pelo
Ocidente
moderno, mas
alcançaram a princípio muitas coisas que somente
agora
nos estão ocorrendo. É
impossível classificar o hinduísmo e o budismo
como
religiões, filosofias,
ciências ou mesmo mitologias, ou como amalgama de
todas as quatro porque a departamentalização
é
estranha aos orientais,
até
mesmo em uma forma
básica como a separação
entre espírito e matéria.
O
hinduísmo, como o islamismo e o judaísmo,
é na
verdade toda uma cultura, se bem
que não se possa
dizer o mesmo do budismo. O
budismo
– e o mesmo se pode
dizer de certos aspectos do hinduísmo como o vedanta e a
ioga, e
do taoísmo na
China – não
é uma cultura, mas uma crítica de cultura e uma
permanente revolução não violenta ou
“oposição leal” à
cultura à
qual está
ligado. Isso
dá a esses caminhos de
libertação alguma coisa em comum
com a psicoterapia além do interesse em mudar estados de
consciência, pois a
função do psicoterapista é provocar a
reconciliação entre sentimento individual
e normas sociais sem no entanto sacrificar a integridade do
indivíduo. O
psicoterapista ajuda o indivíduo a ser ele mesmo e a viver a
sua
vida sem
causar ofensa desnecessária à comunidade, a viver
no
mundo (da convenção
social) e não contra ele. Um texto budista chinês
define o
sábio em palavras
que lembram muito a personalidade “orientada para
dentro”
de Riesman e a
“auto-atualizante” de Maslow:
Ele anda sempre
sozinho, sai sempre sozinho;
Quem é perfeito
percorre
sempre a mesma passagem do nirvana;
Seu tom é
clássico,
seu espírito é transparente, seu ar é
naturalmente
elevado,
Seu rosto é magro,
os
ossos firmes, ele não dá
atenção aos outros.
Pg.25
Desde Freud a psicoterapia
tem-se ocupado da violência
causada
ao organismo humano e a suas funções pela
repressão social. Sempre que o
terapista se coloca a favor da sociedade, ele interpreta o seu trabalho
como
sendo ajustar o indivíduo e encaminhar os seus
“impulsos
inconscientes” para a
respeitabilidade social. Mas essa “psicoterapia
oficial”
carece de integridade
e se transforma em instrumento obediente de exércitos,
burocracias, igrejas,
empresas e toda instituição que exija lavagem
cerebral
dos indivíduos. Por
outro lado, o terapista interessado em ajudar o indivíduo
é forçado à crítica
social. Isso não quer dizer
que
ele tenha que se empenhar
diretamente em revolução
política; significa que ele
tem que
ajudar o
indivíduo a se libertar de várias formas de
condicionamento social,
libertá-lo inclusive do ódio contra esse
condicionamento
– pois odiar é uma forma
de se escravizar ao objeto odiado. Mas desse ponto de vista os
problemas e sintomas
dos quais o paciente
procura-se libertar, e os fatores
inconscientes que
estão por
trás deles, deixam
de ser meramente
psicológicos. Eles
fazem
parte de toda a tessitura de suas relações com
outras
pessoas e, mais
particularmente, das instituições sociais que
regem essas
relações,
ou
seja, as normas de comunicação empregadas pela
cultura ou
grupo. Essas
normas incluem as convenções de
linguagem e de leis, de ética e de estética, de
posição, função e
identidade,
de cosmologia, filosofia e religião. Todo
esse complexo
social é que
a dá ao indivíduo a
concepção de
si mesmo, seu estado de consciência, o sentimento mesmo de
existência...
Ciente disso, o terapista
deve compreender que a sua
ciência, ou arte, tem nome impróprio, pois ele
trata de
algo muito mais extenso
do que uma psique com seus problemas particulares. É
justamente
isso que tantos
psicoterapistas estão reconhecendo... o que ao mesmo tempo
faz
os caminhos
orientais de libertação tão
pertinentes a seu
trabalho. É que eles tratam com
pessoas cujos problemas emanam daquilo que pode ser chamado de maya,
para empregar a palavra
hindu-budista cujo significado exato não é apenas
“ilusão”
mas toda a
concepção do mundo de uma cultura,
considerada como ilusão no
sentido etimológico de uma peça teatral (do latim
ludere).
O objetivo de um caminho de
libertação não
é
destruir
o
maya,
mas
vê-lo pelo que ele é, ou ver
através dele. Uma
peça de
teatro não é para ser tomada a sério...
Pg.26
... as ideias do mundo e da pessoa que
são
convenções e instituições
sociais não devem
ser confundidas com a realidade.
As normas de
comunicação não são
necessariamente as
normas do universo, e o homem não é a
função ou a identidade que a sociedade lhe
impõe. Quando
um homem deixa de se confundir com a definição
que outros
deram de si mesmo,
ele passa a ser ao mesmo tempo universal e ímpar. É
universal em virtude
da inseparabilidade entre seu organismo e o cosmos.
É
ímpar no sentido
que é apenas este
organismo e não
qualquer estereótipo de
função,
classe ou identidade assumido
por conveniência de
comunicação social.
Confundir esse maya
social com a realidade, causa angustia por várias
razões.
Há
conflito direto entre o que o organismo individual é e o que
os
outros dizem
que ele é e esperam ele seja. As
normas de
comunicação social muitas
vezes encerram contradições que levam a dilemas
insolúveis em pensamento,
sentimento e ação. Ou pode ser que
uma pessoa, se se confundir com uma opinião restritiva e
empobrecida de sua
função ou identidade, crie sentimentos de
isolamento,
solidão e alienação. A
variedade de diferenças entre indivíduos e seus
contextos
sociais conduz a
igual variedade de meios de se escapar desses conflitos. Alguns
procuram
escapar pelas psicoses e neuroses que levam a tratamento
psiquiátrico, mas na
maioria dos casos a libertação
é buscada nas
orgias socialmente permissíveis
do entretenimento em massa, do fanatismo religioso, da
excitação sexual
crônica, do alcoolismo, da guerra
– a longa lista
melancólica das fugas
tediosas e bárbaras.
É natural
então que se diga que a necessidade de
psicoterapia abrange muito mais do que os casos das pessoas
clinicamente
psicóticas ou neuróticas, e há muito
tempo vem
aumentando o número de pessoas
que antigamente buscavam os conselhos da religião ou de um
amigo
compreensivo e
que agora recebem psicoterapia. Mas
ninguém descobriu ainda a maneira de aplicar a psicoterapia
em
bases maciças...
as técnicas de
psicoterapia são caras e demoradas.
Sua crescente
popularidade é devida em grande parte ao
prestígio da
ciência... do terapista
como cientista e não como religioso... No entanto... a
profissão que exercem está
longe de ser uma ciência. Para começar,
não existe
uma teoria geralmente
aceita, nem mesmo uma terminologia geralmente aceita: o que
há
é uma
multiplicidade de teorias em choque e de técnicas
divergentes.
Pg.27
Pouco
conhecemos da neurologia,
que poderá até vir a ser a base da psiquiatria.
Para
agravar ainda mais o
quadro, ainda não existem provas claras de que a
psicoterapia
não seja mais que
um placebo cego, e, salvo nos caso dos sintomas psicóticos
que
podem ser
controlados por certas drogas, não existe maneira segura de
distinguir entre “curas”
e cessação espontânea.
...
Precisamos
então indagar para
que outro meio de nossa sociedade devemo-nos voltar a fim de fazer
alguma coisa
para solucionar a angustia do indivíduo em seu conflito com
instituições
sociais autocontraditórias, obsoletas ou desnecessariamente
limitativas –
inclusive, é preciso repetir, a noção
dominante do próprio indivíduo, do ego fechado em
sua
pele.
Se muita gente hoje consulta
o psicoterapista e não o
padre ou pastor, não
é simplesmente porque a
ciência tenha mais prestígio
que a religião... a
religião está tão
liberalizada que em todas as zonas
metropolitanas e em muitas zonas rurais não é
preciso
andar muito para se
encontrar um ministro disposto a ouvir a
exposição de um
problema individual
com a máxima simpatia e generosidade, e muitas vezes com
considerável
inteligência. Mas o que entorpece o ministro na
solução dos conflitos entre o
indivíduo e as instituições sociais
é
justamente a sua
própria função.
Ele
representa uma igreja, uma comunidade, e
quase sem exceção as comunidades religiosas
trabalham
pelas instituições
sociais, e não procuram ver além delas...
grupos
religiosos se opõem até
vigorosamente a algumas instituições sociais, mas
ao
mesmo tempo inculcam
outras
sem
compreender sua natureza
convencional.
Pg.28
Para
as que inculcam, eles
reivindicam a autoridade de Deus ou das leis da natureza, com isso
impedindo ou
dificultando que seus membros compreendam que as instituições
sociais são meras normas de
comunicação,
destituídas de
qualquer validez universal, como digamos – as regras de uma
gramática.
...
O conceito judaico e
cristão de salvação
significa
justamente pertencer a uma comunidade, a Comunhão dos
Santos.
Ideal e
teoricamente, a igreja como Corpo de Cristo é todo o
universo, e
como em Cristo
“não há grego nem judeu, escravo nem
livre”, pertencer
a Cristo pode
significar libertar-se do maya
e de
suas categorias. Isso pode
significar que a definição
e classificação
convencional de uma pessoa não é a pessoa real,
que
“vivo, mas não mais como
eu; mas Cristo vive em mim”. Mas
na prática não
quer dizer nada disso, e até
pouco ouvimos da teoria. Na
prática significa aceitar
a religião ou ligamento do subgrupo cristão e
receber o
seu
sistema particular de convenções e
definições como as mais sérias das
realidades.
Uma das mais importantes
convenções cristãs
é o conceito do homem como
aquilo que chamei de “ego fechado em sua pele”,
a alma e seu
veículo material formando uma
personalidade ímpar e
valiosa diante de Deus. Esse
conceito é sem dúvida a
base histórica do
estilo ocidental de individualidade, que nos
dá a
sensação de nós mesmos
como ilhas de consciência em confronto com
experiências que
constituem
entidades “outras”.
Desenvolvemos essa
sensação a um grau particularmente
agudo. Mas o sistema
de convenções que
inculca essa sensação requer também
desse ego definidamente isolado
a atuação como
membro de um organismo e
a submissão sem reservas ao padrão social da
igreja.
A tensão assim gerada,
por mais interessante que seja por vezes, no fim resulta tão
inoperante como
qualquer outra autocontradição pura e simples. É
um contexto ideal para a
geração de psicose...
seria também... um
contexto ideal para a terapia se
os líderes religiosos responsáveis tivessem
consciência da contradição e
não a
levassem a sério... o ministro (religioso) poderia ser um
elemento
extraordinariamente valioso se pudesse ver além de sua
religião. Mas a sua
formação e a sua situação
econômica
não o animam a isso, e por isso o
psicoterapista fica em posição mais vantajosa.
Pg.29
Até agora,
então, vimos que a psicoterapia e os
caminhos
de libertação têm dois interesses em
comum:
primeiro, a transformação da
consciência, o sentimento íntimo da
existência de
cada um; e, segundo o
desligamento do indivíduo de formas de condicionamento
impostas
pelas
instituições sociais... o conhecimento, mesmo
teórico, de outras culturas nos
ajuda a compreender a nossa; comparando as nossas
instituições sociais com
outras podemos atingir certo grau de clareza e objetividade em
relação às
nossas. Isso nos ajuda a distinguir entre ficções
sociais
de um lado e padrões
e relações naturais de outro. Se houver
então em
outras culturas disciplinas
que apresentem alguns pontos em comum com a psicoterapia, o estudo
teórico de
seus métodos, objetivos e princípios pode dar ao
psicoterapista uma perspectiva
melhor daquilo que ele está fazendo.
E ele precisa
disso com urgência. Vimos que a psicologia e a psiquiatria
estão em grande
confusão teórica... os fatores inconscientes que
atuam na
psicoterapia vão
muito além dos traumas de infância e das
repressões
impostas à raiva e à
sexualidade.
... o
psicoterapista faz o seu
trabalho com um “inconsciente
filosófico” quase
completamente sem exame. Em
razão de sua formação altamente
especializada, ele
pode ignorar não apenas a
filosofia contemporânea da ciência, mas
também as
premissas metafísicas
subjacentes em todas as formas
principais de teoria
psicológica. Metafísica inconsciente
costuma ser má
metafísica. E
se as pressuposições
metafísicas da psicanálise forem invalidadas,
ou se sua teoria depender de desacreditadas ideias
antropológicas do século
passado? A cada passo em sua
obra Jung insiste em dizer que fala
como
cientista e médico e não como
metafísico. “Nossa
psicologia”, escreve ele, “é... uma
ciência de
meros fenômenos, sem quaisquer
implicações metafísicas.”
Ela
“trata toda pretensão e assertiva
metafísica
como fenômeno mental, e considera-a como
manifestação sobre a mente e sua
estrutura, e derivada em última análise de certas
disposições inconscientes”.
Pg.30
Mas isso é
em si mesmo uma
vasta proposição metafísica. A
dificuldade
é que o homem quase não pode
pensar nem agir sem alguma premissa metafísica,
sem algum
axioma básico que
ele não pode verificar nem definir inteiramente. Tais
axiomas
são como regras
de jogos: umas permitem jogos interessantes e proveitosos outras
não; mas é
sempre importante conhecer mais ou menos bem as regras. As regras do
jogo-da-velha não são tão proveitosas
como as do
xadrez, e não
sabemos a
qual desses dois jogos se assemelham os axiomas da
psicanálise...
Entre os fatores
inconscientes da psicoterapia estão
também os contextos sociais e ecológicos do
paciente e do
terapista, contextos
que costumam ser ignorados quando duas pessoas estão
encerradas
juntas em
ambiente privado. Como disse Normam O. Brown.
Há uma certa
perda de percepção na tendência que tem
a
psicanálise de isolar o indivíduo da
cultura. Quando reconhecemos as limitações da
conversa no
divã... quando
reconhecemos que a conversa no divã ainda é uma
atividade
de cultura, fica
evidente que nada há para o psicanalista analisar exceto
essas
projeções
culturais... assim a psicanálise só se realiza
quando se
torna análise
histórica e cultural.
Não é
isso uma maneira de dizer que o que precisa
ser
analisado ou esclarecido no comportamento de um indivíduo
é a maneira pela qual
esse comportamento reflete as contradições e
confusões da cultura?
Somente na medida em que
pudermos nos colocar fora dos
sistemas culturais e metafísicos nos quais estamos
envolvidos,
comparando-os
com outros, é que os padrões culturais
vêm à
luz e as premissas metafísicas
ocultas se esclarecem. Há
quem diga que
isso é simplesmente impossível, que nossas
impressões de outras culturas são
sempre irremediavelmente deformadas pelo nosso condicionamento...
Como premissa
metafísica não há
como destruí-la, porém ela nada oferece para um
desenvolvimento proveitoso.
Pg.31
O
aspecto positivo da libertação como é
entendida nos
caminhos de libertação do Oriente é
precisamente a
liberdade de procedimento.
...O nirvana
budista é definido é definido como recurso contra
o samsara,
literalmente o ciclo de vida e
morte, isto é, da
vida vivida em um
círculo vicioso, como tentativa eternamente repetida de
solucionar um falso
problema. O samsara
é, portanto,
comparável às tentativas de quadrar o
círculo, de
trissecar o ângulo ou de
construir um mecanismo dotado de movimento perpétuo. Um
problema que não
comporta solução força a pessoa a
passa-lo e
repassa-lo até perceber que a
questão proposta não tem sentido.
É por isso
que a pessoa neurótica vai
repetindo seus padrões de comportamento – sempre
sem
êxito porque o neurótico
está querendo solucionar um falso problema, extrair sentido
de
uma
autocontradição. Se
ele não consegue perceber
que o problema em si é um
absurdo, pode cair na psicose, na paralise de não mais poder
agir.
Alternativamente, a “explosão
psicótica” pode
ser também uma manifestação
repentina e ilegítima de procedimento livre nascida de puro
desespero, sem a
pessoa compreender que o problema
é
impossível não por ser extremamente
difícil, mas
por ser absurdo.
Para que haja um
desenvolvimento proveitoso na ciência da
psicoterapia, como também na vida daqueles a quem ela se
propõe ajudar, é
preciso então que ela se liberte dos blocos inconscientes,
das
premissas não
examinadas e dos absurdos problemas não percebidos que
existem
em seu contexto
social... um
dos instrumentos mais
poderosos é a comparação intercultural,
principalmente com culturas
altamente complexas como a chinesa e a indiana, que s desenvolvem
relativamente
isoladas da nossa, e principalmente também com tentativas
feitas
nessas
culturas para se libertarem de seus próprios
padrões...
o psicoterapista...
precisa vencer
a noção habitual de que nada tem a aprender de
disciplinas
“pré-científicas”...
não
se trata de adotarmos as práticas
budistas ou taoístas como quem se converte a uma
religião.
Para o ocidental
compreender e empregar os caminhos
Pg.32
orientais
de libertação, é de máxima
importância que ele não perca contato com seus
recursos
científicos, porque a
fumação do romantismo esotérico
está sempre
pronta a envolver o incauto...
Pg.33
Se, além do mais,
procurarmos compreender tudo o que
pudermos sobre personalidade, precisamos entender o significado de
despersonalização, aquelas
experiências
nas quais a autoconsciência individual é revogada
e o
individuo se dissolve em
uma consciência que não se ancora mais na
individualidade.
Essas
experiências são descritas pelo
indivíduo em termos
da unificação
final do indivíduo com
o atman,
entidade cósmica super-individual transcende a
individualidade e
a
materialidade... Algumas
pessoas desejam essas experiências
outras as
temem. Nosso problema aqui não é a desejabilidade
das
experiências, mas a luz
que elas lançam sobre a relatividade de nossa atual
psicologia
da
personalidade, na qual a auto consciência é menos
destacada, ou mesmo ausente,
pode ser a regra geral (ou fundamental).
É
um erro comum achar que a mudança da consciência
pessoal
efetuada nos
caminhos orientais de libertação seja a
“despersonalização” no
sentido da
regressão a algum tipo primitivo ou infantil de
consciência. É verdade que
Freud designou o desejo de regresso à consciência
oceânica do útero por
princípio-nirvana, e seus discípulos
têm
persistentemente confundido todas as
ideias de transcendência do ego com a mera perda da
“força do ego”. Essa
atitude talvez decorra do imperialismo da Europa ocidental do
século passado,
quando era conveniente considerar indianos e chineses como hereges
atrasados e
ignorantes, necessitados dos benefícios da
colonização.
Nunca será demais
insistir em que
libertação não envolve
a perda ou destruição de conceitos convencionais
como o
do ego; significa ver
além deles – da mesma forma que podemos utilizar a
concepção do equador sem
confundi-la com o um risco na superfície da terra. Em vez de
ficar abaixo do
ego, a libertação o transpõe.
Pg.34
Nosso erro foi supor que o
indivíduo é valorizado
e que
sua unicidade se acentua quando ele é separado do mundo que
o
cerca, ou quando
se acentua a eterna diferença em essência entre
ele e seu
criador. Como se pode
valorizar a mão cortando-a do braço?... Ao
definir o
objetivo da terapia como
individuação (Jung),
auto-atualização
(Maslow), autonomia funcional (Allport)
ou individualidade criadora (Adler), o terapista está em
perfeita concordância
com os caminhos de libertação; mas para dar
frutos toda
planta precisa estar
fincada no solo...
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