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Vimos que o jogo social se
baseia em
regras convencionais, e que essas regras definem as áreas
significativas a
serem observadas e as maneiras pelas quais a origem da
ação deve ser
atribuída a um lado ou a
outro do contorno. Todo
jogo social considera a
fronteira
entre organismo e ambiente, a
epiderme,
como significativa, e quase todos consideram o lado de
dentro da fronteira como força independente de
ação. Eles
costumam ignorar que os movimentos
da fronteira podem também ser atribuídos ao
ambiente, mas
esse “ignoramento” é
uma das regras do jogo. Mas quando o filósofo, o
psicólogo ou o psiquiatra
começa a observar o comportamento humano mais de perto,
passa a
desconfiar das
regras e a notar as discrepâncias entre
definições
sócias e acontecimentos
físicos. Citemos Bateson mais uma vez:
Quem não quer
seguir esse caminho? A
libertação começa no ponto em que a
angústia ou culpa se torna insuportável, em
que o indivíduo sente que não pode mais Pg.117 tolerar
sua situação de ego em
oposição a uma
sociedade estranha, a um universo em que
a dor e a morte o negam, ou a emoções negativas
que o
afogam. Ordinariamente
ele não percebe que sua angústia nasce da
contradição das regras do jogo
social. Ele
culpa Deus, ou outras
pessoas, ou a si mesmo – mas nenhum desses é
responsável. O que
simplesmente foi um erro cujas consequências
ninguém
poderia prever – um passo
errado na adaptação biológica que,
presumivelmente, pareceria a princípio ser
muito promissor. L.L. Whyte (120), em
sua excelente
exposição da maneira
pela qual na dualidade do sistema nervoso humanos passou a ser o
dualismo
conflitante de razão contra instinto,
escreve:
É
assim
então que o ego é separado
como entidade estática responsável pela
ação, e desse engano nasce o problema.
Procurando libertar-se desse
problema, o indivíduo vai então ao guru
ou ao psicoterapista com perguntas assim: “Como posso escapar
do samsara
(nascimento-e-morte)?” “Que devo
fazer para me salvar?” “Como posso sair dessas
depressões extremas?” “Como
posso deixar de beber tanto?” “Tenho pavor de
apanhar
câncer, que devo fazer
para perder o medo?” Todas essas peguntas tomam como real a
ilusão mesma que
constitui o problema, mas o que pode o guru
ou o terapista fazer? Ele não pode dizer “deixe de
se
preocupar”, porque o ego
não está no comando, e esse justamente parece ser
o
problema. Ele não pode
dizer, “aceite seus pavores”, sem dar a entender
que o
ego é uma agente
eficaz que pode aceitar ativamente.(?!) ... O
jogo termina com a descoberta de que o paciente não podia
ganhar
porque as
premissas do jogo eram absurdas; ele estava querendo fazer o sujeito
ganhar do
objeto, o
organismo ganhar do ambiente, ele
ganhar de si mesmo. Ele não tinha percebido que toda dualidade
explícita
é uma unidade implícita. Haley
chegou a esse esclarecimento ao procurar ver se a
psicanálise
poderia ser
entendida melhor mediante o
A primeira vista, a
hipótese de
Haley parece um exagero de simplificação
– e eu me
senti inclinado a aceita-la
até que comecei a experimenta-la no que conheço
dos
caminhos de libertação: e
descobri que era uma simplificação capaz de
expressões de complexidade quase
infinita. O caminho de libertação ao qual o
conceito de
Haley é mais claramente
aplicável é o zen-budismo, que, como o humor
taoísta, é considerado por seus
próprios mestres uma espécie de esperteza...
são
exatamente o que os velhos
mestres chamam de seus “velhos truques”, sua
“armadilhas” para discípulos
incautos ou, em outras palavras o upaya
– os “meios ardilosos” que o piedoso
Bodhisattva
emprega para conseguir a
libertação de
outros. A posição fundamental do mestre zen
é que
ele nada tem a ensinar –
nenhuma doutrina, nenhum método, nenhum sucesso ou
percepção. Em palavras
atribuídas ao
próprio Buda, “não obtive
absolutamente nada com o incomparável, o completo
despertar”;
e
justamente por isso que ele é “o
incomparável, o
completo despertar”. (122). Uma
vez um mestre zen subiu à cátedra e fez uma
conferência que consistiu em total
silêncio. Indagado do significado, ele respondeu:
“As
escrituras são explicadas
pelos pregadores, os comentários pelos
comentadores.” O que é então que
um
mestre zen explica? Nada
há a dizer porque não
existe problema. Diz-se que tudo
o que existe no zen é
perfeitamente óbvio
desde o começo, e se existe alguma coisa a dizer
é apenas
que a “água corre
azul e as montanhas sobem verdes.” Não se trata de
“bonito” misticismo
bucólico. Perguntando “o que é o
Buda?” outro
mestre respondeu: “Esterco seco”.
Também não é panteísmo;
não é
nenhum “ismo”, nenhuma doutrina. Perguntando o
“qual é o Caminho (Tao)?” Nansen
respondeu:
“Sua mente de cada dia é o
Caminho”. “Como então se entra em acordo
com
ele?” “Quem
procura acordo, se desvia.”
Ele está dizendo que a vida não é um
problema por que então pedir uma
solução?
Não obstante, zen
é uma disciplina,
e uma disciplina dura. Apesar de nada haver para ensinar, seus mestres
aceitam
discípulos e fundam seminários para ensina-los.
Mas tudo
isso, diz Lin-chi, “é
como utilizar uma mão vazia ou folhas amarelas para iludir ...
Mas isso não
é tudo. Entre as
entrevistas com o mestre o discípulo zen passa muitas horas
em
meditação,
sentado de pernas cruzadas na companhia de seus colegas no zendo
ou sala de meditação, observado por monges
atentos
munidos de
“varas de advertência” com as quais batem
nas costas
dos que dormem ou caem em
transe. No zen a meditação é primeiro
um
esforço para atingir a perfeita
concentração e perfeito controle do pensamento
contando a
respiração; e
segundo, um período reservado para se dedicar total
atenção ao koan
a ser respondido. Os
estudantes são
aconselhados a dedicar o espírito exclusivamente ao koan,
mantendo a pergunta em foco com toda a energia, porém mais
olhando para ela do que pensando nela, pois a
solução
não será encontrada numa
resposta intelectual.
Examinando isso “de
fora”, podemos
ver que o mestre “tapeou” o discípulo e
levou-o a se
colocar voluntariamente
numa absoluta prisão dupla. Em
primeiro lugar, pediu a
ele que mostrasse
o seu ego nu e genuíno a uma pessoas que representa a
autoridade
total da
cultura, e é considerada o mais hábil julgador de
caráter. Em segundo
lugar,
pediu que ele fosse espontâneo em circunstância em
que ele
pode ser tudo menos
espontâneo. Em
terceiro lugar, pediu que ele se
concentrasse numa coisa
sem pensar nela. Em quarto
lugar, ele não pode
comentar
sobre a prisão,
não somente porque pensar no koan não
é a resposta, como também porque o mestre vai
rejeitar
quaisquer comentários
verbais. Em quinto lugar,
não se deixa que o
discípulo fuja do dilema
entrando em transe. Tudo isso exige do discípulo a mais
poderosa
aplicação da
vontade ou ego, apesar de estar livre para deixar o campo a qualquer
momento.
De maneira muito bem
disfarçada o
mestre levou o discípulo a se comprometer com a
solução de um problema
autocontraditório. (Exemplo: o koan
“qual é o ruído de uma
mão?”) O
discípulo é levado a sentir que precisa
achar a resposta, mas ao mesmo
tempo é levado a compreender que não
há maneira de
encontrar a resposta –
porque tudo o que ele
faz, agindo no
seu entender como um ego, é rejeitado como errado.
Mas convém lembrar
que o problema
auto contraditório para o qual são canalizadas
todas as
energias do discípulo é
o mesmo
problema que ele mesmo levou
ao mestre, problema que ele se deu ao trabalho de inventar: como pode
meu ego
libertar-se? Ao fazer essa pergunta o discípulo se empenha
em um
jogo com o
mestre, jogo que o discípulo jamais poderá
vencer; ele
não pode dar quinau no
mestre porque não pode dar quinau em si mesmo. Uma
mão
sozinha não pode bater palma.
O indivíduo
empenhou-se em uma luta
intensa na qual sua energia – tomada erradamente como sendo
força de ego – foi derrotada.
Parece que nada que ele fizer é certo, espontâneo
ou
genuíno; ele não pode agir
nem independentemente (com todo o ego) nem desinteressadamente. Mas no
momento
da derrota ele percebe o que isso significa: que
ele, o
agente, não pode agir, não age, nunca agiu.
Só
existe
ação – Tao. Ela está
acontecendo, mas
não a ninguém, nem em ninguém.
Imediatamente ele deixa de bloquear a ação procurando
faze-la (não existe o
ego) acontecer-se,
forçar-se a ser espontânea, ou
certa, ou desinteressada.
Porque agora ele nada tem a provar e nada a perder; pode voltar ao
mestre e
pagar o blefe.
Mas
o ego é um hábito de sentir muito arraigado, e
essas
percepções (satori),
por intensas e
convincentes que
possam ser no momento, costumam-se gastar.
Sabendo disso, o mestre
tem muitos
outros truques preparados, e diz: “Você
alcançou um
entendimento muito
importante, mas por enquanto apenas passou do portal. Para chegar ao
verdadeiro
entendimento você precisa praticar com maior
diligência
ainda.” Isto é
naturalmente uma “isca” para testar o
discípulo e
ver se ele cai, como cairá
se houver ainda o mais
leve traço de
noção que existe alguma coisa a ser obtida do
zen. Por
outro lado, o
discípulo pode ir-se embora, achando que não
precisa de
mais estudo. Mas, tendo
o mestre semeado uma dúvida na mente do
discípulo, ele
pode não demorar muito a
voltar pedindo desculpas, pois enquanto houver qualquer
dúvida a
ser explorada
o trabalho não estará terminado. Assim o jogo
prossegue, play
a play,
até o
discípulo alcançar finalmente a mesma
posição inexpugnável do mestre. O
mestre
não
Deve este ser tomado como o
retrato verdadeiro
da relação do mestre com a vida e não
apenas o
jogo particular do zen, pouco
lhe importando mesmo que ele viva ou morra? De
certa forma o
retrato é
verdadeiro, mas somente porque ele não tem o menor interesse
em
ser corajoso,
por isso não opõe resistência aos seus
procedimentos naturais. Ele
não cria
angustia tentando dar quinau na angústia. Nenhum aspecto de
experiência, de
emoção ou de sentimento permanece alheio
– nem ele
exibe essa situação a si
mesmo como um ideal. Ele viu claramente que a ideia de um agente
controlador por
trás dos atos, pensador
por trás dos
pensamentos, sentidor por trás dos sentimentos é
ilusão. (!?)
Mais
corretamente,
isto é visto não por ele, mas no
agir, no
pensar e no
sentir.
Um dos problemas mais comuns
em
psicoterapia é o “bloqueio” do livre curso do pensamento ou da
ação de
um paciente. No zen isso
é chamado de
“dúvida” ou
“hesitação”, e
considerado o principal sintoma do ego, em contraste com “ir
diretamente em frente”
(mochih
ch’u). Bloqueio
não é a
eliminação de um problema do pensamento;
é parar
de pensar – uma espécie de vazio angustiado
causado pela
ânsia de ganhar ou
pelo medo de perder. O
Bloqueio é a resposta típica a
uma prisão dupla, e na
vida comum é a breve hesitação antes
do pensamento
ou da ação, e que
confundimos
com a
sensação de ego.
É
o processo de feedback,
digamos, o córtex, querendo obter feedback
sobre si mesmo e entrando no vazio por não conseguir.
Parte do jogo do
mestre zen é fazer tudo para levar o discípulo ao
bloqueio até ele não se
preocupar mais se está ou não bloqueado. Isto
está bem ilustrado no incidente
seguinte:
Os ocidentais costumam
perguntar se
é absolutamente necessário passar por essa moenda
disciplinar do zen a fim de
alcançar a libertação, ou se
não existe alguma meio meio mais eficiente e menos
árduo. A pergunta responde a si mesma: quanto mais se pensar
que a libertação é
uma coisa que se pode obter, mais arduamente se terá que
trabalhar. A
libertação é atraente na medida em que
o ego de uma pessoa parece constituir
problema.
Outro exemplo importante do
contra
jogo é a própria dialética do Buda de
“caminho médio”, esclarecida
recentemente
por A. J. Bham. Parece que no tempo do Buda, e na região da
índia em que ele
viveu, o caminho de
libertação era muito confundido com uma tentativa
de
destruir o ego e seus apetites por meio de medidas extremas
de ascetismo,
que o Buda mesmo experimentou e achou inúteis. Então
ele
proclamou um caminho médio entre ascetismo e hedonismo,
mas isso
era muito mais que um conselho de moderação. O
caminho médio é no fim a unidade
implícita dos contrários, mais ou menos como o
“princípio de
reconciliação” de
Jung.
Como sempre, o problema
é posto pelo aspirante, e aqui
é o desejo de se livrar da angústia (duhkha).
O contrário do Buda é que o desejo (trishna)
é a causa da angústia, e assim continua a
dialética:
A: Então como me
livro do desejo?
Mas a
intenção do madhyamika não
é
criar um sistema infalível de ganhar discussão.
É positivamente uma terapia, um
contrajogo libertador, sendo um dos antecedentes históricos
da técnica do zen.
Como o terapista ou o mestre zen, o dialeta madhyamika não
faz
proposição nem levanta problema.
Ele espera que lhe seja
proposto um problema, e naturalmente o
problema proposto pode à primeira
vista não se parecer em nada com uma
proposição metafísica.
Mas o sistema
supõe que quase todo mundo, por mais ignorante, tem alguma
premissa metafísica,
alguma opinião
geralmente inconsciente a que ele se agarra fortemente, e que
está na raiz de sua segurança
psicológica. Mediante
um interrogatório
meticuloso o dialeta descobre que opinião é essa,
e repta o discípulo a
propô-la e defende-la. É claro que a defesa
fracassa e, na medida em que o
discípulo está nas dependência
emocional de sua opinião, ele começa a se sentir
inseguro não apenas intelectualmente, mas psicologicamente e
até fisicamente.
Então ele procura alguma
Outra
forma de contra jogo,
muito empregada na ioga e da qual existe uma
explicação exaustiva em conexão com o
sábio taoísta Lieh-tzu, centraliza-se no
esforço de se
obter
perfeito controle da mente. O
guru
leva o discípulo a compreender que seu problema
não está no mundo externo mas
em seus próprios pensamentos, sentimentos e
motivações.
Dor e morte se
encarregaram de si mesmas se
o discípulo se encarregar de sua própria mente
– e por
isso ele é estimulado a bloquear completamente sua atividade
mental. Ao
mesmo tempo ele recebe a impressão que o guru
pode ler sua mente, não havendo portanto possibilidade de
esconder suas
divagações do mestre sempre atento.
Trata-se
evidentemente de uma
prisão dupla,
não
só porque
a mente que precisa ser
controlada é a mesma que está querendo
controla-lo, mas
também porque o
discípulo está “grilado” e
alertado por saber que está sendo observado. A
desvantagem desse método, e que explica o
fato de ser a yoga muitas vezes um beco sem saída,
é que ele pode degenerar
facilmente em nada mais do que um profundo transe hipnótico.
É por isso que os
primeiros
textos zen, desaconselham repetidamente as tentativas de
bloquear completamente a atividade mental,
dizendo que se
isso é
libertação , blocos de madeira e pedras
já são Budas.
Mas o guru
habilidoso sempre conduzirá as
tentativas de controle da mente pelo discípulo a um
círculo vicioso,
advertindo-o, por exemplo, de que ele não se está
concentrando, mas pensando em
se concentrar, ou mesmo levando-o a se concentrar na
concentração, a ter consciência
de estar consciente, ou insistindo para que ele
se
concentre em algum objeto sem antes, ou
subconscientemente pretender
faze-lo.
Uma técnica
comparável é estimular o
discípulo a não deixar que sua mente vagueie e
concentrar o pensamento apenas
nos acontecimentos do presente imediato.
O pensamento parece se
alhear de vez em quanto porque imagens de
recordações nos permitem rever acontecimentos
em sucessão e projetar seu curso futuro. Devido
a essa aparente capacidade
de olhar ora o presente, ora o passado, ora o futuro, a
sensação de existir um
pensador constante, separado do fluxo dos acontecimentos é
mais plausível ainda.
O objetivo comum de todos
esses
métodos fica então claro: eles reptam o
discípulo a demonstrar a força e a
independência de seu ego presumido, e na medida em que
acredita que isso é
possível ele cai numa armadilha. Quando a armadilha se
fecha, sua sensação de
desamparo torna-se mais crítica justamente porque sua
sensação habitual de
poder agir partindo de seu próprio centro foi completamente
contestada.
Enquanto restar a mínima identificação
com o ego observador, ele parece estar
sendo reduzido, cada vez mais a uma testemunha inerte e passiva. Seus
pensamentos, sentimentos e experiências parecem uma
série mutuamente condicionante
de acontecimentos nos quais ele não pode interferir,
uma vez que
verifica sempre que a interferência foi motivada
não pelo
ego, mas por um ou mais dos acontecimentos observados.
Pensamentos e
sentimentos são condicionados por outros pensamentos e
sentimentos, e o ego
fica reduzido a um observador mudo. Finalmente, como no
exercício de se
concentrar somente no presente...
Na linguagem da psicoterapia,
o que
temos aqui é o fim
da alienação,
tanto a do indivíduo em relação a si
mesmo como em relação à natureza. O
novo estado de coisas pode também ser definido como auto
aceitação ou como
integração psicológica...
era sem
dúvida isso que Jung tinha em mente como resultado final da
terapia. ...
o conflito entre o organismo e seu meio é biologicamente
anterior ao
desenvolvimento mútuo dos dois, e no estágio atual de
nossos conhecimentos isso
simplesmente não pode ser afirmado. Ao discutir “os
primeiros encontros (do
homem) com seu passado confiável” na infância, mesmo
um analista tão
ego-orientado como Erik Erikson pode dizer:
Finalmente
o espelho mostra o próprio ser puro, o
cerne não nascido da criação, o
centro – por assim dizer – preparental
onde Deus é puro nada: ein
lauter Nicht, nas palavras de Angelus Silesious. Deus
é assim designado de muitas formas no
misticismo oriental. Este puro ser é o ser não mais
doente de um conflito
entre o certo e o errado, não dependente de provedores e
não dependente de
guias para a razão e a realidade... Mas precisamos chamar a
isso regressão
se o homem busca de novo os primeiros encontros com seu passado
confiável em
seus esforços para alcançar um futuro esperado e
eterno?... Se isso é regressão parcial,
é uma
regressão que, ao refazer com firmeza caminhos já
trilhados, volta ao presente
ampliado e clarificado. Mas
eu tenho procurado mostrar que tudo o
que há de ascético, espiritual e transcendental nos
caminhos de libertação é um
desafio ao ego – uma chamada ao judô
incitando o discípulo a provar que o seu eu central é uma
alma-agente
independente que pode dar quinau no mundo. Pg.134
A árdua
disciplina dos caminhos é a derrota total dessa
ambição, levando a uma
nova identificação da
vida e do ser da pessoa não com o “eu” envolto na
pele, mas com o campo
organismo/ambiente. A
hostilidade essencial do ego ao organismo e ao mundo físico
é dissolvida por
uma reductio ad absurdum na qual são
empegados os meios mais hábeis para induzir a consciência
egocêntrica a uma
ação coerente baseada em suas próprias premissas.
Até que ponto então estão
as várias formas de psicoterapia fazem o mesmo, por mais que que
seus objetivos
confessados visem a outra coisa?
Creio que a hipótese de Haley pode
ser utilizada para mostrar que muitas formas de psicoterapia de amplas diferenças teóricas estão
empregando a mesma linha de estratégia que é empregada
entre o guru e seu discípulo...
Haley começa com a premissa de que
os sintomas psicopatológicos devem ser estudados à luz de
sua função em
qualquer contexto social. Como... sintomas aparentemente
involuntários... de
angustia, enxaqueca , depressão, alcoolismo, fobia, ou letargia,
permitem que
suas vítimas se relacionem com outras pessoas? Ele acha que
esses sintomas são
estratégicos: permitem à pessoa controlar outras sem
aceitar responsabilidade
por isso, como quando uma mãe impede o casamento de uma filha
tornando-se
inteiramente dependente dela por uma qualquer espécie de
invalidez. Pg.135 ...
Convém aqui uma parada para examinar
um nível ainda mais profundo de paradoxo. Que é que
pretendemos quando pedimos
para ser amados voluntariamente? Não estamos
pedindo para sermos amados por força de um sentimento de dever... Pag.136 Amor
desejado, ou forçado – o ego querendo dominar a
emoção – é precisamente o que
não queremos. Por certo o que estamos pedindo é que a
outra pessoa nos ame por
não deixar de nos amar, que ela ame involuntariamente,
mas que o ego não resista à emoção.
Queremos que a pessoa goste de seu
sentimento involuntário por nós. A confusão seria
evitada chamando esse amor
não de voluntário, mas de espontâneo. Espontâneo
é o que acontece por si, o tzu-jan
taoísta, ou “de si assim”, o que acontece sem
esforço dirigido. Espontaneidade
não é absolutamente uma ação do ego,
é ação que o mecanismo de controle social do
ego não bloqueia. Se alguém diz, “eu te amo de todo
o coração”, não é o ego
quem fala. A pessoa está dizendo que é bom amar
espontaneamente sem
bloqueio nem conflito da parte de noções socialmente
implantadas do papel,
identidade e dever da pessoa...
Nisso está a profunda confusão de
tantas de nossas convenções éticas e conjugais. A
sociedade pode estar no
seu direito de exigir controles da expressão de espontaneidade,
de dizer, “em tais condições e em tais
maneiras você
precisa não ser espontâneo.” Mas
dizer, “você precisa ser
espontâneo” é a
contradição
flagrante que está na base de toda prisão dupla... como
Haley supõe, o
trabalho do terapista é quebrar as prisões duplas
impostas ao paciente, e assim
impedir que ele as imponha a outros, seu objetivo básico deve
ser fazer o
paciente ver o ilogismo de exigir espontaneidade. Para esse fim ele,
sabendo ou
não, pega o paciente em uma prisão dupla
terapêutica. É terapêutica porque o
terapista não quer dominar o paciente para seus próprios
fins, e porque ela vai
ser dirigida de maneira a revelar sua própria
contradição. Pg.137
Suponhamos
agora que o método do terapista seja uma das formas de
psicanálise. Então ele
sugere que a dificuldade tem razões inconscientes. Pouco importa
que essas
razões sejam definidas como traumas de infância reprimidos
ou fatores ocultos
de relações interpessoais. O caso é dizer, ou
“você está em dificuldade
porque não se compreende”, ou “na verdade você
não quer controlar seus sintomas”.
Em qualquer caso, a competência do ego é
desafiada, mas em um nível novo e mais alto, pois apesar
de o terapista
ter concordado em que o ego não está no controle, ele
mostrou dúvida sobre se
ele “realmente” quer estar no controle, ou se definiu o
problema corretamente.
O paciente pode aceitar ou rejeitar a sugestão; se rejeitar, o
terapista não
discutirá: apenas perguntará, “por que será
que você tem tanto empenho em negar
em negar essa possibilidade?” Ele dará a entender
então que o paciente está
resistindo ao tratamento reforçando indiretamente a
sugestão de que ele
“realmente” não quer ficar bom. Mais
indiretamente ainda, ele pode sugerir que o desejo do paciente reter
seus
sintomas é inconsciente, ou que “o inconsciente” os
está produzindo, atuando
como uma espécie de segundo ego, mais poderoso que o ego mesmo.
A ideia de “o inconsciente” permite
que o paciente se expresse e fale sobre si mesmo sem assumir a
responsabilidade
pelo que diz. Esse padrão de comunicação é
naturalmente a
Haley acha que, como o paciente
esteve na verdade oferecendo seus sintomas por orientação
do terapista, ele
só pode escapar da prisão terapêutica, do controle
do terapista, perdendo o
interesse por seus sintomas e deixando de oferecê-los. Ou
pode reconhecer que
esteve tentando sem resultado controlar o terapista – e outras
pessoas também –
oferecendo esses sintomas; mas nesse caso ele tem de reivindica-los
como seu
comportamento próprio, tem que aceitar responsabilidade por
eles... Durante
todo esse tempo o terapista esteve
testando duas premissas que o paciente adotou desde o início. A
primeira é que alguns atos são dele mesmo, e
decorrem
livremente do seu ego. A segunda é que alguns
de seus atos não são dele, e acontecem espontaneamente
contra a sua vontade.
Nesse ponto o paciente
simplesmente para de fingir. Ele não aprende a “ser
ele mesmo” como se isso
fosse uma coisa que se pode fazer; o
que ele aprende é que nada pode fazer
para não ser ele mesmo. Mas isso é apenas
outra maneira de dizer que ele deixou de se identificar com seu ego,
com a
imagem de si mesmo que a sociedade lhe impôs. Pg.141 Em
consequência do desafio do terapista a sua duas premissas, o comportamento voluntário e o comportamento
involuntário do paciente
se juntam em um, e ele descobre que seu comportamento total, seu
organismo,
são ambos e nenhum: é
espontâneo. Pode-se chamar isso de integração da “personalidade”,
positivação
do ser, ou mesmo desenvolvimento de uma
nova “estrutura de ego”; mas a
situação não corresponde ao senso normal
do ego ou ser como agente diretor situado atrás da
ação.
Não tem sentido definir uma pessoa que
respira sem ar,
uma pessoa que caminha sem gravidade, uma pessoa irascível sem
obstáculos, e
assim por diante para cada função
animal. A
definição de um organismo é a
definição de um campo organismo/ambiente; e a fronteira-contato é por assim dizer o
órgão específico de consciência
da nova situação no campo... No caso de uma planta
estacionária... a membrana osmótica é
o órgão da interação
do organismo com
o meio, ambos sendo obviamente partes ativas. No caso de um animal
móvel
complicado dá-se o mesmo, mas certas ilusões de
percepção dificultam mais a
concepção. A ilusões, para repeti-las, são
simplesmente que o móvel ganha
atenção sobre o fundo estacionário, e o mais
complicado intimamente ganha
atenção sobre o relativamente mais simples. Mas na fronteira a interação procede de ambas as
partes. Pode-se
preferir a “transação” de Bentley a
“interação”; mas, exceto isso, trata-se de
uma descrição perfeita do fator criador de ilusão
do budista avidya – “ignoramento”. Pg.142 O
trabalho teórico desses autores é magnífico, mas
quando chega à terapia a
técnica repousa muito em procurar deliberadamente sentir
relacionamento. O
desafio experimental das ilusões de separação
é muito mais convincente porque a
experiência final do campo organismo/ambiente é uma
revelação e não uma criação
artificial...
Se então a técnica essencial da
terapia é desafiar as suposições falsas e
neuróticas do paciente de maneira
que, quanto mais ele se apegar a elas, mais se encontrará em uma
prisão dupla,
parece fazer pouca diferença que a teoria seja freudiana,
junguiana, rogeriana,
existencial, interpessoal ou simplesmente eclética... Uma vez
que duas pessoas
entram em relacionamento, é simplesmente impossível a uma
delas, ao terapista,
ser tão passiva a ponto de não servir mais do que como um
espelho ao paciente. Como
diz Haley, apenas aceitar o que o paciente diz ou faz já
é permitir seu
comportamento, e assim tomar o controle dele.
Seja o que for que o
terapista disser ou não disser em
resposta a um paciente, circunscreve o
comportamento do paciente. Mesmo se o terapista disser,
“não lhe vou dizer
o que fazer” quando o paciente pedir orientação,
ele ainda estará dirigindo o
paciente para não lhe perguntar o que fazer. Se um paciente se
queixa a um
terapista e o terapista fica calado, esse silêncio é
inevitavelmente um
comentário ao comportamento do paciente. Existe
então prisão dupla mais completa do que uma
situação na qual o terapista está
dirigindo o paciente mediante o recurso de ser completamente não
diretivo? Pg.143 Vimos
que os caminhos de libertação empregam muito os
discípulos. O relato de sonhos,
a produção de fantasias ou associações
livres, e a discussão de seu simbolismo,
a meu ver é upaya. É mágica
necessária e terapêutica, e compreender isso seria de
grande valia para o
terapista. A dificuldade dos sistemas teóricos como os de
Freud e Jung é que
os pacientes saem da terapia acreditando neles como em
religiões. “Receber
religião” pode um dia ser terapia eficaz, senão
mesmo libertação; mas quando a
atenção dos terapistas fica voltada exclusivamente para,
digamos, o simbolismo
dos sonhos, eles perdem de vista não apenas a técnica
essencial da terapia, mas
também o contexto social da psicopatologia.
Naturalmente isso não é dizer que os
sistemas teóricos de Freud e Jung são pura
mágica sem o menor valor científico. Hipóteses que
tiveram valor científico no
passado podem ter menor valor hoje; mas o ponto é que, em grande
medida, essas
teorias funcionam como mágica em
terapia. Vimos, por exemplo, que dizer a um paciente que ele tem
uma “mente
inconsciente” permite-lhe comunicar-se com o terapista
indiretamente, sem ter
que sentir-se responsável pelo que diz: é o inconsciente
que está dizendo.
Isto pode não ser aceitável para os freudianos e
junguianos puros, mas se esses
querem apesentar-se como cientistas, nada mais impróprio que uma
rígida posição
teórica. É grande desvantagem para qualquer terapista...
um interesse pessoal em
ganhar o contrajogo com o paciente. Vimos, em referência ao
mestre zen, que
ele pode jogar o jogo com eficácia justamente porque ganhar ou
perder não faz
diferença para ele. Pg.144
Todo esse conceito de psicoterapia
retém certos elementos dessas teorias clássicas. Ainda
parece apropriado definir o ego como construção
do
princípio da realidade (convenção social)
exercendo repressão sobre
processos vitais que com isso se tornam mais ou menos inconscientes.
Ainda
parece válido supor que na formação
do
sentimento de ego os efeitos da educação na primeira e
segunda infância são de
enorme importância, mesmo se não for necessário
evoca-los na terapia... Ainda
parece ser verdade que, pelo menos nas
culturas ocidentais, a repressão da sexualidade é uma
fonte maior de
comportamento psicopatológico... a constante
insistência de Jung na terapia
como conciliação de opostos e na aceitação da
assimilação da sombra, o
aspecto escuro e reprimido da natureza da pessoa, é ponto
central nesse
conceito de libertação. O problema é
sempre que a aceitação de si mesmo jamais poderá
ser um ato deliberado; é
tão paradoxal como uma pessoa beijar seus próprios
lábios... podemos ver também
uma nova significação na atribuição
freudiana de um caráter sexual à motivação
inconsciente...
Em qualquer cultura sexualmente melindrosa, a sugestão de que
as motivações
reais de uma pessoa são sexuais é um desafio
particularmente eficaz ao ego...
a cultura (ocidental)
considera a sexualidade um mal, ou
manifestação degradante, a
insinuação implica em que as motivações
reais da pessoa são o opósito da
intenção consciente e, assim,
que o ego não está no comando. Quando o
indivíduo está fortemente identificado com seu ego, uma
sugestão dessas é
imediatamente resistida, e o terapista só tem então que o
paciente não teria
motivo para negar a sugestão com tanta veemência se ela
não fosse verdadeira.
Com isso
ele é posto na posição de negar seu ego com o
próprio ato de afirmá-lo, e a prisão
dupla assim imposta é mais eficaz ainda... Pg.145 ...
a imposição dessa prisão particular simplesmente
expõe a prisão que a sociedade
já havia imposto ao paciente. Ele jamais cairia na
“armadilha” do terapista
se não tivesse antes caído na armadilha de negar a si
mesmo e a seus
sentimentos aceitando a ficção de que ele
é seu ego ou sua alma, e não seu organismo inteiro.
Para escapulir da armadilha do
terapista, o paciente só pode parar de defender-se a si mesmo, e
ao baixar essa
defesa ele para ao mesmo tempo de se identificar com o ego... Mas isso significa que o terapista representa uma filosofia diferente da filosofia da sociedade, e que ele, por assim dizer, toma o partido da autoridade da natureza e não da autoridade dos homens. Mas aquela só fica sendo a autoridade superior se for mostrado que a autoridadesocial contém uma autocontradição tão básica que sua perpetuação destrói a sociedade e leva gente a loucura. |
| I - Psicoterapia e libertação | II - Sociedade e Sanidade | III - Os Caminhos da libertação |
| IV - Um Espelho Escuro | V - O Contrajogo | VI - Convite à Dança |