WATTS, Allan.
Psicoterapia Oriental & Ocidental

Rio de Janeiro: Editora Record, 1973. 

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IV – Um Espelho Escuro

É perfeitamente natural que o homem seja a parte mais ininteligível do universo. A imagem que seu organismo apresenta a um observador de fora, um neurocirurgião, por exemplo, é bem diferente da que é sentida de dentro. O quadro do comportamento humano descrito pelo biólogo ou pelo sociólogo é ... diferente do que é visto pela pessoa comum... Mas a disparidade não é diferente em princípio do espanto de ouvirmos pela primeira vez uma gravação de nossa própria voz, e de ouvirmos uma descrição franca de nosso caráter feita por um observador agudo. Essas descrições, como todo o mundo externo mesmo, parecem tão estranhas, tão outras. Mas chegará o tempo em que o espanto da estranheza dará lugar ao espanto do reconhecimento, quando olhando o mundo externo como um espelho exclamaremos admirados, “mas é eu!”

Coletivamente estamos ainda longe desse reconhecimento. O mundo para além de nós é um estranho e imensurável desconhecido, e olhamos em seu espelho muito sombreamento, sentindo como se a ele não pertencêssemos.

I, a stranger, and afraid,
In a world I never made.

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Só lentamente é que vamos percebendo o erro fundamental desse sentimento; a simples lógica, quando menos, nos força a ver que, por maior que seja a separação entre o ser e o outro, não existe ser sem esse outro. Mas o caminho desse reconhecimento está bloqueado pelo medo de descobrir que o mundo exterior pode ser apenas o nosso ser, e que a resposta a nossa voz é apenas uma repetição infinita de ecos.

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Temos visto que a ciência ocidental começou procurando alcançar a maior objetividade, a maior isenção entre observador e observado, mas quanto mais ela insiste nesse isolamento, mais descobre que ele é impossível. Da física à psicologia, cada departamento da ciência está descobrindo cada vez mais que observar o mundo é participar dele e que, apesar de parecer frustrante à primeira vista, esta é a pista mais importante para se chegar a novos conhecimentos... existe uma falta cada vez maior de comunicação entre o especialista científico e o público leigo... outro aspecto dessa falta de comunicação é que o mundo que estamos conhecendo teoricamente apresenta pouca semelhança com o mundo que sentimos: temos personalidades do século XVI no mundo de conceitos do século XX porque as convenções sociais não acompanham o voo do conhecimento teórico.

Poderá a ciência tornar-se o caminho de libertação do homem ocidental? Essa ideia é das mais repugnantes à maioria dos expoentes dos caminhos orientais tradicionais, que tendem a considerar a ciência como nadir do materialismo ocidental. Assim escreve René Genón, um dos mais competentes interpretes do vedanta:

O domínio da toda ciência depende sempre da experimentação, em uma ou outra de suas várias modalidades, enquanto o domínio da metafísica (isto é, da libertação) é essencialmente constituído pelo que não permite investigação externa: estando “além da física” estamos também, por isso mesmo, além da experimentação.

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Consequentemente, o campo de qualquer ciência pode, se ela tiver capacidade para isso, ser estendido indefinidamente sem encontrar nunca o mais leve ponto de contato com a esfera metafísica. (Guénon R.)

Mas, como a Terra, o mundo do conhecimento pode ser redondo – de modo que uma imersão em particulares materiais pode inesperadamente levar de volta ao universal e ao transcendente. A ideia de Blake de que “o idiota que persistir em sua idiotice acabará sábio” é a mesma de Spinoza – “quanto mais sabemos do particular, mais sabemos de Deus”. E essa, como vimos é a técnica essencial da libertação: animar o discípulo a explorar coerentemente suas falsas premissas – até o fim. Infelizmente muitos adeptos dos caminhos orientais, no Ocidente pouco ou nada sabem do que aconteceu na ciência nos últimos cinquenta anos, e ainda pensam nela como a redução do mundo aos “objetos” da mecânica de Newton.

É verdade que as origens históricas da ciência aplicada estão no exagerado sentimento ocidental de afastamento do homem em relação à natureza, e em muitos aspectos a tecnologia ocidental ainda é um ataque ao mundo. Carradas de psicanalistas têm mostrado o grau a que o espírito objetivo, rigoroso, analítico e parcimonioso da ciência é uma expressão de hostilidade, uma tentativa de tornar o mundo físico perfeitamente estéril. Ninguém aqui a não ser nós objetos! Tudo é escovado de mistério até perder a vida, e o universo é explicado como “nada além de” mecanismo e arranjos fortuitos de energia cega. Mas não se pode persistir nessa hostilidade sem descobrir que alguma coisa está errada, da mesma forma que um grupo social não pode eliminar seu inimigo sem descobrir que perdeu um amigo.
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... o historiador de ciência Gaston Bachelard, de orientação psicanalítica, numa passagem... interpreta... a revolução ocorrida na descrição científica no século XX:

Parece mesmo que com o século XX começa um pensamento científico em oposição aos sentidos, e que é necessário formular uma teoria da objetividade em oposição ao objeto... Segue-se que toda a utilização cérebro está sendo posta em questão. A partir de agora o cérebro não mais é adequado como instrumento de pensamento científico; em outras palavras, o cérebro é o obstáculo ao pensamento científico... no sentido de ser o centro coordenador dos apetites humanos. É necessário pensar em oposição ao cérebro.

Numa época em que o computador eletrônico está retirando tanto peso do pensamento, e quando, como vimos, modelos físicos do universo parecem sensorialmente inconcebíveis, as palavras de Bachelard são convincentes – tanto mais quando o resultado prático da vida moderna poderá ser a destruição da vida nesse planeta. Mas Bachelard não vê que o que a ciência está agora suplantando é um tipo de percepção sensorial e toda uma imagem do mundo que estava em oposição aos sentidos e ao organismo. O universo mecânico de Newton era muito mais desumano do que o universo relativo de Einstein. A firme dicotomia cartesiana de sujeito e objeto, ego e mundo, era muito mais antiorgânica que a moderna teoria dos campos. E que dizer das concepções ainda mais antigas do corpo e do mundo físico como domínios de corrupção e do mal? Com efeito, quando olhamos no microscópio, como quando olhamos a arte de Picasso, Klee, ou Pollok, o corpo 0humano não aparece em sua forma familiar.
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Mas isso não é necessariamente, na frase de Berdyaev, “a destruição da imagem humana.” Certamente não é

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a imagem do homem vista por pintores da Renascença, e muito menos pela art officiel do Século XIX. Porque essa era uma imagem que destacava sobretudo a separação do homem de seu meio, uma arte em que o homem era definido e limitado por sua pele, e em perspectiva convencional destacava a distância entre o assunto e o objeto...

Olhamos um pouco mais as fotografias de Palomar e notamos – talvez de repente – que a configuração do cosmos tem a forma do homem; e tem lógica. Mas essa forma não será a forma do ego, do homem abstrato e conceitual fechado dentro de sua pele.

Poderíamos dizer que quanto menos familiar, quanto mais outra for a forma pela qual o homem aprende a se reconhecer, mais profundo será o seu conhecimento de si mesmo... então o homem vai redescobrir sua imagem nos mundos macroscópico e microscópico que a ciência revela, esta será a “própria imagem” na qual se diz Deus criou o homem – isto é, o homem universal, o Adão-Kadmon, o Filho do Homem, ou o universo considerado como o corpo de Buda (Buddha-kaya). São símbolos mitológicos estes, e, por mais poéticos e antropomórficos que possam parecer, o significado deles é o fato no qual a ciência exata acabou tropeçando: que a parte e o todo, o indivíduo e o cosmos, são o que somente em relação um ao outro. A forma do homem até então inconsciente ou socialmente ignorada é a forma do mundo. Como diz Whitehead,

As aparências são finalmente controladas pelas atividades do organismo animal. Essas atividades e os acontecimentos que ocorrem dentro das regiões contemporâneas (isto é, dos ambientes do corpo) são derivados de um passado comum, altamente relevante a ambos. Por isso, cabe perguntar se o corpo animal e as regiões externas não estão sintonizados de maneira a que em condições normais as aparências correspondem a naturezas dentro das regiões. Alcançar tal concordância seria parte da perfeição da natureza nas formas mais altas de vida animal... Temos de perguntar se a natureza não traz em seu seio a tendência a estar sintonizada, um Eros ansiando pela perfeição.

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Não estará apelo menos o começo de uma resposta à esperança que Freud formula no fim de Civilização e Insatisfação?

Os homens levaram seus poderes de subjugar as forças da natureza a tal ponto que, empregando-as, eles podem facilmente exterminar-se até o último homem. Eles sabem disso – daí se origina grande parte de seu desassossego atual, de sua tristeza, de seu estado de apreensão. E agora se pode esperar que a outra das duas “forças celestiais”, o Eros eterno, mostre seu poder para se manter ao lado de seu adversário igualmente imortal.

“E”, acrescenta Norman Brown, “talvez nossos filhos alcancem viver uma vida plena, e possam ver o que Freud não pode ver no velho adversário (Tanatos) um amigo.

Mas para que a ciência chegue mesmo a ser o nosso caminho de libertação é preciso que o seu conceito teórico seja traduzido em sentimento, não apenas para leigos mas também para cientistas... Eu estava perguntando, em outras palavras, se a ciência não devia abranger uma yogauma disciplina para compreender sua visão equivalente ao que os psicólogos chamam de percepção, além e acima do entendimento verbal. Afinal, quando nos é mostrado que a figura bidimensional abaixo um cubo, sentimos que é mesmo.

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Mas é extremamente difícil mostrar percepções que vão contra o bom senso e as normas sociais de sanidade, como é difícil para a convenção da perspectiva indicar profundidade a pessoa de uma cultura na qual ela não é utilizada. Por que esforço podemos ver em um relance que a figura acima são dois cubos, um dos quais tem o quadrado de cantos a na frente, sendo o outro de cantos b? Podemos ver dois fatos diferentes como sendo um? (L. Wittgenstein) Para ser realmente libertadora a ciência ocidental precisa ter sua yoga; e o candidato natural a esse papel é alguma ramificação da psicoterapia. A questão é saber se a psicoterapia que conhecemos está em condições de preencher essa função, mesmo para pequena minoria que a procura.

Convém dizer que a ciência e a psicoterapia já têm exercido o papel libertador no sentido estrito de mostrar o caráter contraditório ou fictício de certas instituições sociais... Não é que a ciência tenha desmentido com provas a existência de Deus Pai, Céu e Inferno, hostes de anjos, e a ressureição do corpo. Por um lado, os conhecimentos modernos de astronomia, física e biologia simplesmente tornam essa cosmologia inaplicável. (????)

Comparada com a nova imagem do universo, a imagem cristã tradicional é ingênua, e os teólogos só podem salva-la por verdadeiras ginásticas de sofisticação. Por outro lado, a pesquisa histórica mostra que as origens da cosmologia cristã (só a cristã??) nada tem de revelação divina. O conceito de Deus Pai foi, como disse Whitehead, “uma sublimação de sua origem bárbara. Ele estava para o Mundo como os antigos reis egípcios ou mesopotâmicos estavam para suas populações. Também os caracteres morais eram bem análogos”.

A ciência e a psicoterapia já fizeram muito também para nos libertar da prisão que nos isolava da natureza, prisão na qual tínhamos que renunciar a Eros, desprezar o organismo físico e depositar nossas esperanças em um mundo sobrenatural – que viria depois. Mas a prova de que essa libertação está longe de ser completa é o fato de ter o naturalismo do século XX sido a base de um assalto à natureza sem precedentes na história. Em outras palavras, essa libertação é assunto muito particular mesmo para pequena minoria que a compreendeu plenamente e aceitou.

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Ela ainda nos deixa como estranhos no cosmos – sem o julgamento de Deus mas sem seu amor, sem os pavores do inferno mas sem a esperança do Céu, sem muitos dos sofrimentos físicos dos tempos pré-científicos mas sem o sentimento de que a vida humana tem sentido. O cosmos cristão desapareceu, mas o ego cristão permanece – sem outro recurso a não ser o de tentar esquecer sua solidão em alguma forma de coletivismo, todos se encostando uns nos outros no escuro...

a relativamente nova escola existencialista vai ao ponto de dizer que angústia e culpa são inseparáveis da vida humana; ser, conscientemente, é saber que é relativo a não ser, e que a possibilidade de deixar de ser está presente em todo momento e é certa no fim. Aí esta a raiz do angst, a angústia básica de estar vivo, que é aproximadamente o duhkha budista, o sofrimento crônico do qual Buda propôs libertação. Ser ou não ser não é a questão; ser é não ser...

Não estou certo se a aceitação completa do angst pelos existencialistas não visa indiretamente a anulá-lo – suplantando-o pelo processo de deixar que ele se manifeste. Rollo May diz que o objetivo da terapia existencial é permitir que o paciente experimente sua própria existência, seu estar-no-mundo, de maneira plena e autêntica. Quando a existência de alguém não se defronta com a constante possibilidade de não-existência, ela é creditada – isto é, não é levada a sério. Não é esse o princípio cristão de “viver cada dia como se fosse o último”? Mas isso ainda é diferente da serenidade do “já morto”, daquele que está completamente disposto a não ser.

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A contraparte lógica de que fuga não é solução é a aceitação de toda “realidade psicológica” pelo terapista, e a seguir pelo paciente, seja ela estética ou moralmente objecionável ou contrária às ideias sãs do que é realidade. Talvez isso tenha sido muito eloquentemente explicado por Jung ao falar a um grupo de ministros religiosos em 1932:

Nada podemos mudar se não o aceitamos. Condenação não liberta, oprime, ... Se um médico quer tratar um ser humano, precisa aceita-lo como é. E só pode fazer isso quando já viu a si mesmo e se aceitou. Isso pode parecer simples, mas o simples é sempre o mais difícil. Na vida real é preciso muita arte para ser simples, por isso a aceitação de si mesmo é a essência do problema moral e a prova real da vida de uma pessoa. Que eu dê comida a um mendigo, que perdoe uma ofensa, que ame meu inimigo em nome de Cristo – tudo isso são, sem dúvida, grandes virtudes. O que eu fizer ao mais ínfimo dos meus semelhantes estarei fazendo a Cristo. Mas e se eu descobrir que o mais ínfimo de meus semelhantes, o mais pobre dos mendigos, o mais atrevido de todos os ofensores, o próprio demônio estão todos dentro de mim, e que eu mesmo preciso das esmolas de minha bondade, que eu mesmo sou o inimigo que precisa ser amadoque acontecerá então? ... Fosse o próprio Deus que se tivesse chegado a nós nessa forma desprezível, nós o teríamos negado mil vezes antes que um único galo cantasse.

Ver a aceitar a si mesmo parece ser então aquela qualidade essencial da personalidade que, no dizer de Mora, é mais importante para o terapista que sua teoria ou escola. Apesar de parecer simples, e não muito heroico, suas implicações são intensas e suas dificuldades formidáveis – pois quem é “eu mesmo” e quem é que me aceita? Não se trata simplesmente de fazer a reconciliação entre o ego e uma séria de experiências reprimidas, vergonhosas ou dolorosas mas sempre incluídas na subjetividade de cada um. É o problema muito mais amplo de consertar a cisão que ocorreu entre o indivíduo e o mundo; e como vimos, isto tem pouco a ver com o ajustamento do indivíduo à sociedade.

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Falando de um modo geral, este é o ponto em que a psicoterapia chega a ser um caminho de libertação, mesmo quando se reconhece que terapia é muito mais do que ajustamento. A fraqueza está não tanto nas diferenças e confusões teóricas das várias escolas; está mais em certos acordos tácitos – particularmente na continuada aceitação do ponto de vista dualista do homem; ego e inconsciente, psique e soma, sujeito e objeto, razão e instinto. Terapia é cura, é saúde, e qualquer sistema que deixe o indivíduo em uma ponta do dilema dualista é, quando muito, o resultado de um arrojado desespero. Foi justamente a esse ponto que chegou Freud; seus últimos escritos refletem o profundo pessimismo de um homem corajoso, pois ele sentiu que o conflito entre o princípio do prazer, Eros e os reclamos do princípio da realidade, das necessidades da civilização, era irreconciliável. para sobreviver, Eros deve ser regulado, civilizado e reprimido; mas

o instinto reprimido nunca para de lutar pela satisfação completa, que consistiria na repetição de uma experiência primária de satisfação. Nenhum substituto ou formação reativa, e nenhuma sublimação, bastam para anular a tensão persistente do instinto reprimido. (Freud S.)

À medida que as obrigações sociais do indivíduo aumentam e a vida civilizada requer mais disciplina, a situação se agrava.

Se a civilização é um desenvolvimento inevitável do grupo da família para o grupo da humanidade em geral, uma intensificação do sentimento de culpa... está inextricavelmente ligado a ela, talvez até que o sentimento de culpa atinja magnitudes que o indivíduo não possa suportar. (Freud S.)

Mas o problema é insolúvel devido à maneira pela qual é colocado. Os grandes e irreconciliáveis, princípio do prazer e princípio da realidade, Eros e Tanatos, repousam na dualidade mais profunda de conhecedor e conhecido, dualidade que Freud aceitou sem exame porque era a premissa primária de sua culturamesmo depois de ver tão claramente que o ego não é dono de sua casa. Ele viu que o ego surge da tensão entre libido e cultura; em outras

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palavras, ele sabia que o ego é um artefato social. Mas considerava-o essencial á consciência; não podia haver conhecimento, nem controle dos assuntos humanos, nem ciência ou arte sem oposição do conhecedor ao conhecido – isto é, da ordem civilizada à natureza, e do ego à consciência. Assim, tudo que é distintivamente humano é contra a natureza, mesmo se - e aqui está o conflito – inseparável dela. Eros não pode ser derrubado, mas precisa ser. A natureza é lascívia e rapacidade sem limites, e o homem saiu dela pela luta selvagem da seleção natural. Apesar de a biologia mostrar que a consciência nasceu do inconsciente, o ego do id, isso deve ser considerado um acidente natural. Deixada a si mesma a evolução inconsciente do ego não podia ter ido mais longe porque a natureza é inerentemente obtusa. O homem, acidente da natureza, precisa ser salvo da dissolução inevitável que o espera se continuar agindo como se a razão estivesse em oposição à natureza. Na prática, então, considerar o homem um acidente natural, cuja sobrevivência é daqui por diante incoerente com a natureza, equivale a considera-lo uma inteligência fora da natureza. Foi por isso que o naturalismo (positivismo?) do Século XIX, cujas premissas Freud aceitava, simplesmente intensificou a cisão tradicional entre espírito e natureza.

Mas L.L. Whyte mostrou em sua Crítica de Freud que tudo isso é má biologia.

Em desenvolvimento biológico, dualismo ou conflito é sempre sobreposto a uma unidade anterior. A existência de um organismo capaz de sobrevivência implica em integração; portanto, unidade é sempre anterior a conflito íntimo. Pode surgir conflito em consequência de uma adaptação imprópria, e esse conflito pode ser fatal ou pode ser superado. Mas a recuperação da saúde orgânica nunca envolve a síntese de princípios fundamentalmente opostos, pois eles não podem coexistir em um organismo. (????) Pode haver a aparência de síntese porque a condição real do organismo foi mal interpretada pelo emprego de uma linguagem dualística. O processo histórico não envolve a síntese de opostos lógicos preexistentes, embora possa parecer na linguagem confusa e teorias dialéticas imaturas. (crítica à Marx!!)

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Noutras palavras, Freud não viu que o ego era uma adaptação imprópria. Ele viu que, como convenção social, o ego era autocontraditório, mas não viu que era desnecessário. Ele não podia conceber consciência sem a dualidade do sujeito e objeto.

Com todo seu conhecimento de filosofia oriental, Jung não parece em melhor posição.

Mas a mente oriental não tem dificuldade de conceber uma consciência sem ego. A consciência é tida como capaz de transcender sua condição de ego; com efeito, em suas formas “superiores” o ego desaparece de todo. Uma tal condição mental sem ego só pode ser inconsciente para nós, pela não simples de não haver ninguém para presenciá-la. ... Não posso imaginar um estado mental consciente que não se refira a um sujeito, isto é, a um ego. O ego pode ser despotenciado – destituído, por exemplo de sua consciência do corpo – mas enquanto houver consciência de alguma coisa, é preciso haver alguém que tenha consciência.(Jung C.)

Eis uma mera convenção sintática, a de que o verbo precisa ter um sujeito, impondo-se à percepção e parecendo ser a lógica da realidade! Nessas circunstâncias, o entendimento de Jung do estado de consciência “sem ego” encontrado nos textos orientais deixa muito a desejar. Em resumo, ele acha que esse estado não é “sem ego”. Apenas o ego foi temporariamente esquecido ao descer a um nível mais primitivo de consciência, à consciência indiscriminada que se supõe ter sido característica da mentalidade do homem pré-civilizado – a participation mystique de Lévy-Bruhl.

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Mas ele não a confunde com uma reversão real ao primitivismo. Sua opinião é que membros das antigas culturas orientais podem suportar essa recaída à consciência indiscriminada justamente por causa de sua maturidade, justamente porque suas culturas lhes deram estruturas de ego muito fortes e ao mesmo tempo providenciaram o atendimento ordenado de todos os seus anseios instintivos. (Wilhelm R. e Jung C.) É por isso que ele desaconselha o emprego de técnicas orientais, como a yoga, por ocidentais. Para nós existe o perigo de “inflação”, de sermos engolidos e possuídos pelo inconsciente porque nós o reprimimos com muita força e ainda não entramos em acordo com nossos instintos menos respeitáveis. O ocidental que baixa o nível de consciência e afrouxa a vigilância do ego sem as salvaguardas da situação analítica corre o risco de perder o controle de si mesmo na avalanche de forças reprimidas. Pensa-se imediatamente na variedade beat do zen na boêmia americana, e nas ilusões de grandeza espiritual e ocultista dos que adotam a teosofia ou o vedanta.

São tantos os pontos sobre os quais Jung tem julgamento intuitivo excelente que não tenho nenhum gosto em criticar suas premissas. No Oriente e no Ocidente há sempre perigo de desordem quando instituições sociais são postas em questão, seja a instituição o ego ou a subjugação das mulheres. Quando é contestada em um ponto a autoridade costuma ficar instável em outros. Oriente e Ocidente promoveram o ego a uma instituição assim, se bem que com ideias diferentes quanto aos seus papeis e aos seus deveres. Se as culturas orientais fossem menos ego conscientes do que as ocidentais, os textos budistas e taoistas seriam relativamente omissos quanto à natureza ilusória do ego. Jung está portanto certo em soar um alarme – mas por outro motivo. Ele acha que uma forte estrutura de ego, uma luta contra a natureza, é a condição necessária da civilização, e nisso corre o perigo de chegar ao mesmo desespero de Freud. Mas uma coisa é notar que a civilização que conhecemos dependeu do conceito do ego; outra é dizer que ela precisa depender, como se essa convenção estivesse na natureza das coisas. Freud e Jung perceberam perfeitamente a interdependência dos grandes opostos da vida, mas para ambos esses opostos constituem um problema no fim insolúvel.

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Os problemas sérios da vida, no entanto, nunca são completamente solucionados. Se por uma vez parecer que são, isso é sinal de que alguma coisa se perdeu. O sentido e o delineamento de um problema parecem estar não em sua solução, mas em nossa dedicação incessante a ele. Só isso nos preserva da estupidez e da petrificação. (Jung C.)

Não é essa afinal, a voz da consciência protestante? O homem é inerentemente preguiçoso; por natureza, por pecado original, ele sempre regride para a dissolução se não houver alguma coisa para espicaça-lo...

Maslow reuniu uma séria impressionante de citações de psicólogos americanos, todos afirmando a identidade entre solução de problemas e saúde mental...

A cultura ocidental geralmente repousa (escreve Maslow) na teologia judaico-cristã. Os Estados Unidos são dominadores pelo espírito puritano e pragmático, que prega o trabalho, a luta, a sobriedade e a dedicação, e acima de tudo a determinação. Como qualquer outra instituição social, a ciência não está isenta desse clima cultural e desses efeitos atmosféricos. A psicologia americana, por participação, é superpragmática, superpuritana e superdeterminada. ... Nenhum compêndio tem capítulos sobre graça e alegria, sobre lazer e meditação, sobre ócio e inércia, sobre atividade inútil e sem propósito... A psicologia americana está se ocupando muito apenas com metade da vida e negligenciando a outra – talvez a mais importante. (Maslow A.)

Em todas as direções utilizamos os meios da vida para justificar os fins: lemos ou vamos a concertos para melhorar nosso espírito; descansamos para melhorar nosso trabalho; adoramos a Deus para melhorar nossa moral; até nos embebedamos para esquecer nossas preocupações. Tudo que é feito de brincadeira, sem motivo ulterior e segunda intenção, nos traz sentimento de culpa, e são muitos os que acham que ação imotivada é impossível. Precisamos ter um motivo para o que fazemos! Isso parece mais ordem do que observação

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Logo que o ego é separado do mundo, como efeito sem causa, ele fica parecendo fantoche de motivações que não são mais do que partes relegadas de nós mesmos. Se pudéssemos ver-nos inteiros, como posições diferentes no campo unificado do mundo, veríamos que somos imotivadosporque o todo flutua livremente e não repousa em algo para além dele.

Jung e seus discípulos mostraram tanto interesse pela filosofia e pela mitologia asiáticas que seu entendimento defeituoso da libertação não pode passar sem maior exame. Eles chegam tão perto do ponto, e no entanto não o veem – e nisso deve haver alguma coisa que seja sintomática de toda a situação da psicoterapia ocidental vis-à-vis dos caminhos orientais. A dificuldade parece nascer de três fatores interligados: (1) a visão cristã e mais particularmente protestante do homem; (2) teorias antropológicas do século XIX; e (3) “psicologismo”.

Como vimos, nossas instituições ocidentais e cristãs definem o homem de maneira não apenas paradoxal mas também autocontraditória. O homem é visto como um conflito incorporado entre razão e instinto, espírito e natureza, de tal maneira que para ser saudável ou ser salvo ele precisa desconfiar sempre de si mesmo. Em Jung essa contradição não é tão aguda como em Freud porque Jung sustenta que o inconsciente é criador e inteligente em sua raiz, e por isso em última instância merecedor de confiança. As mitologias, sonhos e fantasias que representam atividade inconsciente são considerados como fontes de cura e saber, e comparáveis aos processos de crescimento e homeostase no organismo físico. Não obstante, a obra de Jung é rica em passagens como esta tirada de M.E. Harding:

Por trás da fachada decente da consciência com sua ordem moral disciplinada e suas boas intenções, estão as cruas forças instintivas da vida, como monstros das profundezas – devorando, tramando, guerreando incessantemente. Elas são na maioria invisíveis, e no entanto, de seu anseio e energia, a própria vida depende; sem elas os seres humanos seriam inertes como pedras. Mas, se se deixasse que elas funcionassem sem freios, a vida perderia o sentido e se reduziria uma vez mais a mero nascimento e morte, como no mundo pululante dos pântanos primordiais. (Harding M.)

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A filosofia junguiana nunca nos deixa esquecer que não apenas a consciência (é precária!) mas também a integração psíquica, o objetivo da terapia, é precária. Ela ecoa a advertência bíblica, “irmãos, sede sóbrios, sede vigilantes, pois vosso adversário o Diabo ronda como um leão, procurando a quem devorar!”. Parece que o inconsciente só pode ser criador se habilmente pacificado pelo consciente, que deve atuar todo o tempo como diligente domesticador de leão. A menos que o leão seja domesticado primeiro, a “invasão” do consciente por elementos inconscientes, que dizem ocorrer na experiência mística, solta demônios ao invés de deuses.

A concepção do homem como um anjo montado em um animal selvagem é também básica às teorias antropológicas que nasceram da doutrina darwiniana de evolução por seleção natural. A consciência e a razão são precárias porque são “epifenômenos” do cego e bestial processo de evolução física. São produtos aberrantes do famoso “pântano primordial”, tão aberrantes que não existe medida comum entre os dois. Fora da pele do homem não há mesmo nada correspondente à inteligência que está dentro. Nossa sobrevivência tem portanto que ser a exploração cautelosa e rigidamente controlada de um acaso natural. Ao mesmo tempo os antropólogos fizeram uma equação entre o homem primordial e quase animal de um lado, com a criança e o primitivo do outro. Terá sido por puro acaso que como “primitivos” aparecem justamente aqueles povos aos quais os europeus ocidentais queriam conferir os benefícios de sua civilização mais “evoluída”?

No Século XIX nossa informação real sobre o homem primitivo era mínima; a situação é muito melhor hoje. Mas, de modos diferentes, Freud e Jung armaram uma teoria de homem primitivo destituída de prova histórica. Suas premissas são: (1) que a inteligência repousa precariamente em uma base biológica e instintiva que é “animal” no pior sentido; (2) que as culturas existentes, diferentes das nossas por não terem desenvolvido certas capacidades científicas e literárias, são sobrevivências do homem primordial, e por isso são chamadas de “primitivas”; e (3) que, por analogia com a repetição de mudanças evolutivas no desenvolvimento do feto humano, os primeiros anos da infância ensaiam a mentalidade primordial do homem. (Jung C.)

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Pesando essas premissas com o fato de que a psicoterapia a princípio se preocupou com o estudo de personalidades perturbadas, que acontece? Supõe-se que o comportamento irracional é regressão histórica, que o indivíduo perturbado está tendo dificuldade em lidar com traços que herdou do pântano primordial. Em outras palavras, o que é reprimido no inconsciente é o passado histórico e pré-histórico, e consequentemente a psicanálise fica sendo um instrumento de investigação da história primitiva do homem. À falta de provas reais sobre o homem primordial, essa teoria pode apenas ser autovalidante.

Tudo isso já foi dito por outros. Estou-me referindo ao assunto porque ele é a base da teoria de Jung da evolução da consciência e do ego. Ela o leva a considerar o modo egocêntrico da consciência como passo universal e historicamente necessário no desenvolvimento da humanidade. É o mecanismo problemático mas essencial à regulação dos instintos primordiais do pântano e da caverna, ao soerguimento da humanidade do nível puramente animal. Mas há outra alternativa a considerar: a de que a bestialidade peculiar do homem pouco tem a ver com as bestas; que suas irracionalidades, seus apetites desordenados, os histerismos de massa, os espetáculos de chocante violência e crueldade não são historicamente regressivos; são protestos contra justamente esse modo de consciência, contra a prisão dupla de uma instituição social autocontraditória... O indivíduo perturbado não é tanto a regressão histórica que não conseguiu desenvolver suficiente força de ego; ele é mais a vítima de excesso de ego, de excesso de isolamento individual. Além disso, não se deve supor que o desenvolvimento do ego é a base universalmente necessária da consciência e da inteligência. As estruturas neurais daquele “tear encantado”, o cérebro, das quais depende a inteligência, não são por certo criações propositais de um ego consciente, e não se dissolvem em pasta quando o ego se revela fictício – por um ato de inteligência. Segue-se então que, quando o ego é afastado não ocorre uma invasão da consciência por elementos primordiais do pântano e do jângal. O que ocorre é percepção: percepção de todo um padrão novo de relações comparável a uma descoberta científica ou artística.

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Jung tem sido acusado de “psicologismo”, mas eu não estou, como Buber, empregando o termo para criticar seu desinteresse pelos fundamentos metafísicos ou sobrenaturais da experiência espiritual. O que há é que seu conceito de “inconsciente” de um lado, e do conteúdo da experiência de libertação de outro, é extremamente psicológico. É claro que se pode dizer que toda experiência é uma experiência psicológica porque se passa na psique... Como vimos, o inconsciente que precisa ser examinado para a libertação do homem abrange relações físicas, biológicas e sociais que são reprimidas não tanto por um “órgão psicológico” como o ego, mas por comunicação e linguagem defeituosas. Nem é o conteúdo da experiência de libertação – satori, nirvana, consciência cósmica etc. – psicológico no sentido de lampejo de luz subjetiva. Seu conteúdo é o mundo físico visto de maneira nova.

Enquanto Rikko, alto funcionário da dinastia T’ang, conversava com seu mestre zen Nansen, o funcionário citou um ditado de Sojo, famoso monge doutor de uma dinastia anterior:

Céu e terra e eu na mesma raiz,

Dez mil coisas e eu na mesma substância,

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O acontecimento de ver o mundo de uma maneira nova é talvez psicológico por ser um acontecimento de percepção e de inteligência. Mas seu conteúdo não é psicológico no sentido de um “arquétipo” ou forma visionária vista em um sonho ou transe. Quando Nansen mostrou as flores, ele não as utilizava como símbolo de alguma coisa psicológica. Ele estava apontando para longe do psicológico, do mundo particular e fechado do “sujeito”. Estava apontando para as flores.

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Considerando a característica geral das ideias ocidentais sobre budismo e taoísmo – segundo as quais se trata de religiões – Jung não tem culpa de uma classificação errada do domínio em que suas experiências ocorrem. Pensamos em experiências religiosas e espirituais como episódios da “vida interior” mas isso acontece devido a falsa separação sujeito e objeto. Os caminhos orientais levam seus discípulos a “olhar dentro”, a descobrir o ser, apenas para descartar a ilusão de que ele está dentro em contraposição a fora. Como disse o mestre zen chinês Lin-chi, “Não se iluda: nada existe fora, e, igualmente, nada existe dentro que se possa discernir”.

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Os psicoterapistas costumam-se surpreender quando descobrem que os caminhos de libertação parecem quase inteiramente desinteressados dos sonhos e isso acontece justamente porque a orientação desses caminhos não é exatamente psicológica em nosso sentido... Minha hipótese é que a análise de sonho é um “truque” (upaya) útil em terapia, mas não essencial. Associação livre, ou comunicação desobstruída, é mais fundamental...

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A teoria de que sonhos são importantes segue pari passou a ideia de que o inconsciente é antes de tudo psicológico e subjetivo, e nesse caso os sonhos parecem a estrada real para a descoberta do que se passa na “vida noturna oculta” do paciente. Não é preciso dizer que a psicanálise tem sido muito criticada por sua tendência em falar do inconsciente como se fosse um órgão psicológico dotado de mente própria. O valor permanente da hipótese de Freud está na maneira pela qual ela chamou atenção para a inconsciência, pelo fato de não vermos como somos condicionados a pensar e agir como fazemos.

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L.L. Whyte sugere (numa comunicação pessoal) que seria muito mais correto falar da vida humana como “processo inconsciente com aspectos conscientes”, e é evidente que “processo inconsciente” nesse sentido transcende o domínio psicológico. “Inconsciência” corresponderia exatamente ao termo budista avydia (ignoramento), mas não existe equivalente de “o inconsciente” em termos indianos nem chineses.

Até certo ponto os postulados da análise existencial são mais coerentes com os caminhos de libertação do que os Freud e Jung. Rollo May explica que esse movimento surgiu da insatisfação de muitos psiquiatras com conceitos tradicionais como os de libido, censor, inconsciente, e mesmo com a teoria psicológica do homem. Ludwig Binswanger, um dos principais expoentes do movimento, ataca “o cancro de toda psicologia até agora... o cancro da doutrina da cisão do mundo em sujeito-objeto”. O homem é um “eu sou” não como um ego destacado, mas como estando-no-mundo, com ênfase no caráter dinâmico, processual de ser, e no fato de que esse ser está necessariamente em relação com o mundo. O mundo com o qual o sujeito está polarizado é um mundo triplo: o Umwelt de nossos fundamentos biológicos e físicos; o Mitwelt de relações sociais; e Eigenwelt da vida interior e da autoconsciência de cada um. Nenhuma terapia adequada pode deixar de levar em conta esses três campos de relação. May nota que a semelhança entra análise existencial e filosofias orientais como o taoísmo e o zen vai

muito mais fundo do que a semelhança casual de palavras. Ambas se interessam pela ontologia, o estudo do ser. Ambas buscam uma relação com a realidade que corte abaixo da cisão entre sujeito e objeto. Ambas insistem em que a absorção ocidental de conquistar e adquirir poder sobre a natureza resultou não apenas no afastamento de homem em si mesmo. A razão básica dessas similitudes é que a filosofia oriental nunca sofreu cisão radical entre sujeito e objeto que tem caracterizado a filosofia ocidental, e essa dicotomia é exatamente o que o existencialismo procura superar.

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Até aí muito bem. Mas vimos que a escola existencial torna a angustia, o angst de Kierkgaard, e sua culpa concomitante, como inseparável do ato de ser, desde que “ser” implica em “não ser”, e desde que saber completamente que se existe envolve necessariamente a ameaça de não existir. Isto talvez seja uma estratagema terapêutico, pois as pessoas ficam menos angustiadas se se sentirem perfeitamente livres para se angustiarem, o mesmo podendo-se dizer do sentimento de culpa. Ou pode ser que não exista alegria de viver exceto em relação com a aterradora perspectiva de morte. No entanto, os existencialistas dão mais a impressão de que viver sem angustia é viver sem seriedade. Ser e não ser são menos uma polaridade do que uma “dialética de crise”, uma oscilação, um vacilar na orla, precisamente o “medo e o tremor” de Kierkgaard. Não ser assim angustiado, não levar a sério o nosso estar-no-mundo, nem o dos outros, é desprezar a dignidade de ser pessoa, fracassar em ser plenamente humano.

Aqui entramos de frente em uma antiga disputa entre Oriente e Ocidente, pois o Oriente sempre alegou que o Ocidente não leva a personalidade humana a sério. Escravidão, submissão da mulher, fome, um milhão de mortos de cólera – assim é a vida! Não é esta a formula budista sarva samskara dunhkha, sarva samskara anatma, sarva samskara anitya, todos os componentes (gente inclusive) estão angustiados, todos os componentes estão sem o ser, todos os componentes são impermanentes? Se isso é verdade, a libertação não fica sendo a arte de aprender a não ligar? As atitudes estereotipadas de uma cultura sempre são naturalmente paródias das percepções de seus membros mais bem dotados. Não ligar é paródia de serenidade, como aflição é paródia de preocupação.

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Ganharemos melhor entendimento se compararmos Oriente e Ocidente em nível mais alto... em soberbas obras de arte... comparamos os rostos de Cristo e da Madona da Pietá... na Catedral de São Pedro, em Roma, com a ... estátua do Buda-a-Vir, Maitrya... em Nara, que descobrimos? Aflição? Angústia? Pelo contrário, em todos os três rostos vê-se uma incrível mistura de ternura, sábia tristeza, serena – e também profundamente confiante – resignação, tudo com uma leve sugestão de sorriso. Cada rosto é jovem e liso, e no entanto imensuravelmente velho – no sentido de que são rostos de arquétipos imortais que viram tudo, compreenderam tudo e sofreram tudo sem a menor amargura em um extremo, ou sentimentalismo no outro. Nenhum é destituído de preocupação ou tristeza, mas não há o mais leve traço de culpa ou apreensão.

São humanamente possíveis as atitudes expressas nesses rostos divinos? Este é o rosto que muita gente mostra na morte e que explica a extraordinária nobreza de tantas máscaras mortuárias. Aqui... estamos pisando no ar, e nada existe em matéria de estatística ou informação científica para nos apoiar. Mas penso poder arriscar a teoria de que no momento da morte muita gente experimenta a curiosa sensação não apenas de aceitar mas de ter desejado tudo que lhes aconteceu... a descoberta inesperada (???) de uma identidade entre o querido e o inevitável.

É a isto que o reconhecimento da inseparabilidade de ser e não ser nos deve levar. (ser ou não ser NÃO é a questão!!) Aí está todo o sentido de polaridade de vida implicando em morte, do sujeito implicando em objeto, de homem implicando em mudo, de Sim implicando em Não. Os caminhos de libertação propõem que o que muitos descobrem na morte pode também ser descoberto no meio da vida. Da mesma forma que a libertação envolve o conhecimento de si mesmo no que uma pessoa tem de mais outro, envolve o reconhecimento da vida na morte – e é por isso que tantos ritos de iniciação conduzem o neófito por uma morte simbólica. Ele aceita tão completamente a certeza da morte que, efetivamente, já está morto – e por isso além da angustia. Nas palavras do mestre zen Bunan:

Enquanto viveres, sê morto, completamente morto;

O que fizeres então, como quiseres, será sempre bom.

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É aí que Freud e Jung parecem em certo aspecto mais sábios que os existencialistas : eles veem que a morte é o objetivo da vida. Não ser preenche o ser; não nega o ser, da mesma forma que espaço não nega o que é sólido. Cada um é condição para a realidade do outro... Norman Brown está tão certo ao dizer que é justamente a morte que dá ao organismo sua disparidade individual.

A preciosa disparidade ontológica que o indivíduo humano reivindica lhe é conferida não pela posse de uma alma imortal, mas pela posse de um corpo mortal... No nível orgânico mais simples, qualquer animal ou planta possui disparidade e individualidade porque vive sua própria e não outra – isto é, porque morre... Se a morte dá individualidade à vida, e se o homem é o organismo que reprime a morte, então o homem é o organismo que reprime sua própria individualidade. Assim o nosso altíssimo conceito de humanidade como espécie dominante de uma individualidade negada à animais inferiores está errado. Os lírios do campo têm a individualidade de não pensar no amanhã, e nós não. Organismos inferiores vivem a vida própria de suas espécies; sua individualidade consiste em serem eles expressões concretas da essência de sua espécie em uma vida particular que acaba em morte. (N.O. Brown, Life Against Death: The Psychoanalytical Meaning of History, Wesleyan University, 1959. Pgs.170-171)

Assim, os existencialistas estão certos em dizer que não ser e morte dão ao ser, a um ser, sua autenticidade. Mas angústia é a repressão da morte, porque o que é reprimido não desaparece da vida; esconde-se no canto do olho e fica perturbando perpetuamente, e o centro de visão e atenção tremem porque não podem desviar a vista completamente. Se no nível popular parodiado o Oriente não se preocupa com a pessoa, não é por causa da libertação; é por causa da doutrina popular da reencarnação, que implica na impossibilidade de morte do indivíduo, do ego (o Purusha qualificado?!!). Ser libertado da reencarnação é poder morrer, e assim poder viver.

O princípio do Nirvana (diz Norman Brown, empregando o termo diferentemente de Freud, em seu sentido próprio) regula uma vida individual que goza de plena satisfação e exprime concretamente toda a essência da espécie, e na qual vida e morte são simultaneamente afirmadas porque vida e morte juntas constituem individualidade, e o amadurecimento é tudo.

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O que no existencialismo equivale a uma indenização da angústia não é por certo mais que uma sobrevivência da noção protestante de que é bom sentir-se culpado, angustiado, sério. Isto é muito diferente de admitir honestamente que é assim que a pessoa que a pessoa se sente, com isso quebrando o círculo vicioso da angústia pelo processo de deixar de se angustiar com ela. Angústia permitida deixa de ser angústia, pois angústia é por natureza um círculo vicioso. É a frustração de não poder viver sem morrer, isto é, de não poder solucionar um problema sem sentido. Como Freud percebeu, o ego é constituído pela repressão de Eros e Tanatos, da vida e da morte, e por isso é uma paródia da individualidade autêntica. E, como mostra Norman Brown, Tanatos reprimido volta-se para fora como desejo de matar, como agressão; e, por outro lado, Eros reprimido torna-se uma fixação ao passado, à busca de satisfação na repetição de alguma experiência primária de satisfação.

Sob condições de repressão, a repetição-compulsão estabelece uma fixação ao passado, que aliena o neurótico do presente e o prende à busca inconsciente do passado no futuro. (N.Brown)

Assim é que o equivalente ocidental da reencarnação é nossa obsessão com história, “uma recherche du temps perdu que se desloca para frente” (N.Brown), uma tentativa infrutífera de avançar até um futuro satisfatório pela lógica de um passado desperdiçado. História é um registro de frustração, e suas fontes primeiras são os monumentos nos quais os homens começaram, na fase de Unamuno, a guardar seus mortos. (essa é de matar!!!) História é a recusa em “deixar os mortos cuidar dos mortos.” História, ou melhor, historicismo, é o crônico enfurnar de bagatelas na esperança de que algum dia tenham utilidade. É um estado de espírito em que o assentamento do que foi feito fica mais importante do que o que é feito, estado no qual existe cada vez menos espaço para ação porque os resultados vão tomando cada vez mais espaço. É por isso que o BhagavadGita define libertação como ação sem apego aos frutos da ação, pois quando vida e morte são vividas completamente elas continuam sem marca num presente eterno.

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A vida é renovada pela morte porque é frequentemente libertada daquilo que de outra forma ficaria sendo uma carga insuportável de recordações e monotonia. A reencarnação genuína está em que quando nasce uma criança, um “eu” – ou consciência humana – surge novamente no mundo com memória novinha e o prodígio da vida restaurado. Aniquilação eterna é tão absurdo como individualidade eterna. (!!???) E quem pode duvidar de que, se a vida humana surgiu nesta área diminuta de uma galáxia imensa, ela deve estar acontecendo repetidamente, com base em pura probabilidade , em toda a imensidão de nébulas que os rodeiam. Onde o organismo é inteligente, o meio também deve ser inteligente.

Como muito de nossa psicoterapia, o existencialismo não leva a morte em plena conta. Em toda a literatura da psicoterapia pouco encontramos referente ao tratamento adequado do paciente que espera a morte, e isso não decorre, creio, do reconhecimento de que o problema da morte não é um problema. Decorre mais do sentimento de se tratar de um problema insolúvel, um fato duro e inevitável, que apenas podemos lamentar. Mas aí também o existencialismo está no caminho certo. Se a morte dá autenticidade ao indivíduo, a psicoterapia autêntica será a primeira a se atrapalhar com a morte. Quando um paciente está para morrer, ou é atingido no meio da vida pelo medo da morte, esse não é o momento de lhe passar as ministração consoladoras de algum fantasista religioso que procura explicar a morte. Ninguém, creio, fez ainda um estudo sério e rigoroso do grau em que o medo da morte aparece em psicoses e neuroses. Ignora-la ou explica-la é perder a grande oportunidade da psicoterapia, pois o que a morte nega não é o indivíduo, não é a relação organismo/ambiente, mas o ego, e assim a libertação em relação ao ego é sinônimo da aceitação total da morte. O ego não é uma função vital do organismo; é extraído de memórias por influência social; é a substância hipotética sobre a qual a memórias é registrada, a constante que se mantém em todas as mudanças de experiência. Identificar-se com o ego é confundir o organismo com sua história, fazer de seu princípio orientador um registro limitadamente selecionado e incompleto do que ele foi ou fez. Essa abstração tirada da memória parece, no entanto, ser um agente concreto e eficaz. Mas é justamente isso que se perde na morte. O ser como história chega ao fim, o que mostra o ego é, em todos os sentidos, uma história.

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Deixando de parte o existencialismo... as linhas iniciadas por H.S.Sullivan e Frieda Fromm-Reich-mann... é nelas que o contexto social de personalidade começa a ser encarado com plena seriedade e, como diz o próprio Sullivan, o ser-sistema (ego) como o conhecemos hoje é “o principal entrave a mudanças favoráveis na personalidade”.

A ciência geral da psiquiatria me parece cobrir o mesmo campo estudado pela psicologia social, porque a psiquiatria científica tem de ser definida como estudo de relações interpessoais, e isso no fim requer o emprego da estrutura conceitual que hoje chamamos de teoria do campo. Desse ponto de vista personalidade é considerada hipótese. O que pode ser estudado é o padrão de processos que caracteriza a interação de personalidades em situações recorrentes particulares ou campos que “incluem” o observador.

De um lado essa linha de pensamento espalhou-se por todo o trabalho da Escola de Washington com seu interesse altamente inteligente pelos caminhos da libertação; e de outro, ao estudo da psicoterapia como problema de comunicação... essa última abertura parece estar obtendo reconhecimento muito lento, principalmente na Europa, devido a falsa impressão que representa a completa desumanização da psiquiatria por ser o homem estudado por analogia com computadores eletrônicos e sistemas de lógica matemática. No entanto, é justamente daí que conseguimos conceitos como e de prisão dupla que, de parte os seus méritos na identificação das causas da esquizofrenia, poderá vir s ser uma das grandes ideias em toda a história da psicologia.

Afinal, se o pensamento matemático nos deu um entendimento profundo da física e da astronomia sem nada destruir da glória das estrelas, por que não poderá um dia mostrar-se igualmente útil ao entendimento de nós mesmos sem nada destruir da

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dignidade do homem? Seja como for, a matemática há muito deixou de ser mera mecânica; e o que se receia é que uma descrição matemática do comportamento humano reduza o homem a uma máquina sem poesia. É grave erro por opor poesia a matemática, como carne viva a ossos secos.

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Levado ao máximo da suas possibilidades, o pensamento matemático pode mostrar que o mundo físico é qualquer coisa semelhante a música.

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Perder a realidade do ego isolado não é, como receia Erich Fromm, perder a integridade do indivíduo(*). Descobrir que o organismo é inseparável do ambiente não é perder a clareza de sua forma nem a singularidade de sua posição. Afastar o tipo particular de repressão que a consciência do ego envolve não é escancarar os portões à rapacidade incontida do id. Não é o ego que faz o homem diferente de serpentes, leões, tubarões, macacos; é sua estrutura orgânica, e o tipo de ambiente em que essa estrutura pode aparecer. Não é romântico e sentimental culpar as instituições sociais – e não a natureza – pela violência e pela crueldade peculiares ao homem. É verdade que os homens inventaram essas instituições – mas não é óbvio que o que começa como um erro pequeno e despercebido pode atingir proporções de catástrofe, como uma pedrinha que rola pode acarretar uma avalanche? Quem podia saber que o erro de considerar os homens como egos separados ia ter consequências tão desastrosas? Mas é fácil ser sábio sem retrospecto.

(*) As divergências de Fromm com Sullivam quanto à realidade do “ser” por certo se baseiam na confusão semântica pela qual os termos “eu”, “ego”, “ser”, “pessoa”, “indivíduo”, etc., são empregados indiscriminada e revezadamente.

Como os taoístas chineses perceberam, não há como não confiar na natureza humana. Isso não é sentimentalismo, nem querer transformar desejo em realidade. É a mais prática das políticas práticas. Porque todo o sistema de desconfiança e controle autoritário é também humano. A vontade do candidato a santo pode ser tão corrupta como suas paixões, e o intelecto pode ser tão desorientado como os instintos. A autoridade e a eficácia da polícia são tão sadias como o moral público. Quando a confiança em nossa natureza funciona apenas cinquenta e um por cento do tempo, ela já funciona.

 

I - Psicoterapia e libertação II - Sociedade e Sanidade III - Os Caminhos da libertação
IV - Um Espelho Escuro V - O Contrajogo VI - Convite à Dança