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IV – Um Espelho
Escuro
É
perfeitamente natural que o homem seja a parte mais
ininteligível do universo. A imagem que seu organismo
apresenta
a um observador de fora, um neurocirurgião, por exemplo,
é bem diferente da que é sentida de dentro. O
quadro do
comportamento humano descrito pelo biólogo ou pelo
sociólogo é
... diferente
do que é visto pela pessoa
comum... Mas a disparidade não é diferente em
princípio do espanto de ouvirmos pela primeira vez uma
gravação de nossa própria voz, e de
ouvirmos uma
descrição franca de nosso
caráter feita por um observador agudo.
Essas
descrições, como todo o mundo externo mesmo,
parecem
tão estranhas, tão outras.
Mas
chegará o tempo em que o espanto da estranheza
dará lugar
ao espanto do reconhecimento, quando
olhando o mundo externo como um espelho exclamaremos admirados,
“mas é eu!” Coletivamente
estamos
ainda longe desse reconhecimento. O mundo para além de
nós é um estranho e imensurável
desconhecido, e
olhamos em seu espelho muito sombreamento, sentindo como
se a ele não pertencêssemos.
I, a
stranger, and afraid, Pg. 88 Só
lentamente
é que vamos percebendo o erro fundamental desse sentimento;
a
simples lógica, quando menos, nos força a ver
que, por
maior que seja a separação entre o ser e o outro,
não existe ser sem esse outro. Mas o caminho desse
reconhecimento está bloqueado pelo medo de descobrir que o
mundo
exterior pode ser apenas
o nosso ser, e que a resposta
a nossa voz é apenas uma repetição
infinita de
ecos. ... Temos
visto que a
ciência ocidental começou procurando
alcançar a
maior objetividade, a maior isenção entre
observador e
observado, mas quanto mais ela insiste nesse isolamento, mais descobre
que ele é impossível. Da física
à
psicologia, cada departamento da ciência está
descobrindo
cada vez mais que observar o mundo é participar dele e que,
apesar de parecer frustrante à primeira vista, esta
é a
pista mais importante para se chegar a novos conhecimentos... existe
uma falta cada vez maior de
comunicação entre o especialista
científico e o
público leigo... outro
aspecto dessa
falta de comunicação é que o mundo que estamos
conhecendo
teoricamente apresenta pouca semelhança com o mundo que
sentimos: temos personalidades do século XVI no mundo de
conceitos do século XX porque as
convenções
sociais não acompanham o voo do conhecimento
teórico.
Poderá
a
ciência tornar-se o caminho de
libertação do homem
ocidental? Essa ideia é das mais repugnantes à
maioria
dos expoentes dos caminhos orientais tradicionais, que tendem a considerar a ciência como nadir do
materialismo
ocidental. Assim escreve
René Genón,
um dos
mais competentes interpretes
do vedanta:
O domínio da toda
ciência
depende sempre da experimentação, em uma ou outra
de suas
várias modalidades, enquanto o domínio da
metafísica (isto é, da
libertação) é
essencialmente constituído pelo que não permite
investigação externa: estando
“além da
física” estamos também, por isso mesmo,
além
da experimentação. Pg.89
Consequentemente, o campo de
qualquer
ciência pode, se ela tiver capacidade para isso, ser
estendido indefinidamente sem encontrar nunca
o mais leve ponto de contato com a esfera metafísica. (Guénon
R.) Mas, como a Terra, o mundo
do conhecimento
pode ser redondo – de modo que uma imersão em
particulares
materiais pode inesperadamente levar de volta ao universal e ao
transcendente. A ideia de Blake de que “o idiota que
persistir em
sua idiotice acabará sábio”
é a mesma de
Spinoza – “quanto mais sabemos do particular, mais
sabemos
de Deus”. E
essa,
como vimos
é a técnica essencial da
libertação: animar
o discípulo a explorar coerentemente suas falsas premissas
– até o fim.
Infelizmente muitos adeptos dos
caminhos orientais, no Ocidente pouco ou nada sabem do que aconteceu na
ciência nos últimos cinquenta anos, e ainda pensam
nela
como a
redução do mundo aos
“objetos” da mecânica de Newton. É
verdade que
as origens históricas da ciência aplicada
estão no
exagerado sentimento ocidental de afastamento do homem em
relação à natureza, e em muitos
aspectos a
tecnologia ocidental ainda é um ataque ao mundo. Carradas de
psicanalistas têm mostrado o grau a que o espírito
objetivo, rigoroso, analítico e parcimonioso da
ciência
é uma expressão de hostilidade, uma tentativa de
tornar o
mundo físico perfeitamente estéril. Ninguém
aqui a não ser
nós objetos!
Tudo é escovado de
mistério até perder a vida,
e o universo é explicado como “nada
além de”
mecanismo e arranjos fortuitos de energia cega. Mas não se
pode
persistir nessa hostilidade sem descobrir que alguma coisa
está
errada, da mesma forma que um grupo social não pode eliminar
seu
inimigo sem descobrir que perdeu um amigo. Pg.90 ... o
historiador
de ciência Gaston Bachelard,
de
orientação psicanalítica, numa
passagem... interpreta...
a
revolução ocorrida na
descrição
científica no século XX:
Parece mesmo que com o
século XX
começa um pensamento científico em
oposição
aos sentidos, e que é necessário formular uma
teoria da
objetividade em
oposição
ao objeto...
Segue-se que toda a utilização cérebro
está
sendo posta em questão. A partir de agora o
cérebro
não mais é adequado como instrumento de
pensamento
científico; em outras palavras, o cérebro
é o obstáculo
ao pensamento científico... no
sentido de ser o centro coordenador dos
apetites humanos. É necessário pensar em
oposição ao cérebro. Numa
época em
que o computador eletrônico está retirando tanto
peso do
pensamento, e quando, como vimos, modelos físicos do
universo parecem
sensorialmente inconcebíveis,
as palavras
de Bachelard
são convincentes
– tanto mais quando
o resultado prático da
vida moderna poderá ser a destruição
da vida nesse
planeta. Mas Bachelard
não
vê que o que a ciência está agora
suplantando é
um tipo de percepção sensorial e toda uma imagem
do mundo
que estava em
oposição aos sentidos e ao
organismo. O
universo mecânico de Newton era muito mais desumano
do que o universo relativo de Einstein.
A firme dicotomia
cartesiana de sujeito e objeto, ego e mundo, era muito mais antiorgânica
que a moderna teoria dos
campos. E que dizer das concepções ainda mais
antigas do
corpo e do mundo físico como domínios de
corrupção e do mal? Com efeito, quando olhamos no
microscópio, como quando olhamos a arte de Picasso, Klee,
ou Pollok,
o
corpo 0humano não aparece em sua forma familiar. Mas
isso não
é necessariamente, na frase de Berdyaev,
“a destruição da imagem
humana.” Certamente
não é Pg.91
a
imagem do homem vista por pintores da Renascença, e muito
menos
pela art officiel
do Século XIX. Porque essa
era uma imagem que destacava sobretudo
a
separação do homem de seu meio, uma arte em que o
homem
era definido e limitado por sua pele, e em perspectiva convencional
destacava a distância entre o assunto e o objeto... Olhamos um pouco mais as
fotografias de
Palomar e notamos – talvez de repente – que a
configuração do cosmos tem a forma do homem; e
tem
lógica. Mas essa forma não será a
forma do ego, do
homem abstrato e conceitual fechado dentro de sua pele. Poderíamos
dizer que quanto menos familiar, quanto mais outra
for
a
forma pela qual o homem aprende a se
reconhecer, mais profundo será o seu conhecimento de si
mesmo...
então
o homem vai redescobrir sua
imagem nos mundos macroscópico e microscópico que
a
ciência revela, esta será a
“própria
imagem” na qual se diz Deus criou o homem – isto
é,
o homem universal, o Adão-Kadmon,
o
Filho do Homem, ou o universo considerado como o corpo de Buda (Buddha-kaya).
São
símbolos mitológicos estes, e, por mais
poéticos e
antropomórficos que possam parecer, o significado deles
é
o fato no qual a ciência exata acabou tropeçando: que a parte e o todo, o indivíduo
e o cosmos,
são o que somente em relação um ao
outro. A
forma do homem até então inconsciente ou
socialmente
ignorada é a forma do mundo. Como
diz Whitehead,
As aparências
são finalmente
controladas pelas atividades do organismo animal. Essas atividades e os
acontecimentos que ocorrem dentro das regiões
contemporâneas (isto é, dos ambientes do corpo)
são
derivados de um passado comum, altamente
relevante a
ambos. Por isso, cabe perguntar
se o corpo animal e as
regiões externas não estão
sintonizados de maneira
a que em condições normais as
aparências
correspondem a naturezas dentro
das regiões. Alcançar
tal concordância seria parte da
perfeição da
natureza nas formas mais altas de vida animal...
Temos de perguntar
se a natureza não traz em seu seio a tendência a
estar sintonizada,
um Eros ansiando pela
perfeição. Pg.92 Não
estará apelo menos o
começo de uma resposta à esperança que
Freud
formula no fim de Civilização
e
Insatisfação? Os homens levaram
seus poderes de subjugar as forças da natureza a tal ponto
que,
empregando-as, eles podem facilmente exterminar-se até o
último homem. Eles sabem disso – daí se
origina
grande parte de seu desassossego atual, de sua tristeza, de seu estado
de apreensão. E agora se pode esperar que a outra
das duas “forças celestiais”, o Eros
eterno, mostre
seu poder para se manter
ao lado de seu
adversário igualmente imortal. Mas
para que a
ciência chegue mesmo a ser o nosso caminho de
libertação é preciso que o seu
conceito
teórico seja traduzido em sentimento, não apenas
para
leigos
mas também para
cientistas...
Eu estava perguntando, em outras palavras, se a
ciência não devia abranger uma yoga
– uma disciplina para
compreender sua visão equivalente ao que os
psicólogos
chamam de percepção,
além
e acima do entendimento verbal.
Afinal,
quando nos é mostrado que a figura bidimensional abaixo um
cubo,
sentimos que é mesmo. Pg.93 ![]() Mas
é
extremamente difícil mostrar
percepções que
vão contra o bom senso e as normas sociais de sanidade, como
é
difícil para a convenção da
perspectiva indicar profundidade a pessoa de uma cultura na qual ela
não é utilizada.
Por que esforço
podemos ver
em um relance que a figura acima
são dois cubos, um dos quais tem o quadrado de cantos a na
frente, sendo o outro de cantos b?
Podemos ver
dois fatos diferentes como sendo um?
(L.
Wittgenstein) Para ser
realmente libertadora
a ciência ocidental precisa ter sua yoga;
e o
candidato natural a esse papel é alguma
ramificação da psicoterapia.
A questão
é saber se a psicoterapia que conhecemos está em
condições de preencher essa
função, mesmo
para pequena minoria que a procura. Convém
dizer
que a ciência e
a psicoterapia já têm exercido o papel libertador
no
sentido estrito de mostrar o caráter
contraditório ou
fictício de certas instituições sociais...
Não é que a ciência tenha desmentido
com provas a
existência de Deus Pai, Céu e Inferno, hostes de
anjos, e
a ressureição do corpo. Por um lado, os
conhecimentos
modernos de astronomia, física e biologia simplesmente
tornam
essa cosmologia inaplicável. (????)
Comparada com a nova imagem
do universo, a
imagem cristã tradicional é ingênua, e
os teólogos só podem salva-la por verdadeiras
ginásticas de sofisticação.
Por outro lado, a
pesquisa histórica mostra que as origens da
cosmologia cristã (só
a cristã??)
nada tem de
revelação divina.
O conceito de Deus
Pai foi,
como disse Whitehead,
“uma
sublimação de sua origem bárbara.
Ele
estava para o Mundo como os antigos reis egípcios ou
mesopotâmicos estavam para suas
populações.
Também os caracteres morais eram bem análogos”.
A
ciência e a
psicoterapia já fizeram
muito
também para nos libertar da prisão que nos
isolava da
natureza, prisão na qual tínhamos que renunciar a
Eros,
desprezar o organismo
físico e depositar nossas
esperanças em um mundo sobrenatural – que viria
depois.
Mas a prova de que essa
libertação
está longe de
ser completa é o fato de ter o naturalismo do
século XX
sido a
base de um assalto à natureza
sem precedentes na história. Em outras palavras, essa
libertação é assunto muito particular
mesmo para
pequena minoria que a compreendeu plenamente e aceitou. Pg.94
Ela ainda
nos deixa como
estranhos no cosmos
– sem o julgamento de Deus mas
sem seu
amor, sem os pavores
do inferno mas sem a
esperança do
Céu, sem muitos dos sofrimentos físicos dos
tempos
pré-científicos mas sem o sentimento de que a
vida humana
tem sentido. O cosmos cristão desapareceu,
mas o ego
cristão permanece – sem outro recurso a
não ser o
de tentar esquecer sua solidão em alguma forma de
coletivismo,
todos se encostando uns nos outros no escuro... a
relativamente nova escola existencialista vai ao ponto de dizer que
angústia e culpa são inseparáveis da
vida humana;
ser, conscientemente, é saber que é relativo a
não
ser, e que a possibilidade de deixar de ser está presente em
todo momento e é certa no fim. Aí
esta a raiz do angst,
a angústia
básica de estar vivo, que é aproximadamente o duhkha
budista, o
sofrimento crônico do qual Buda propôs
libertação. Ser
ou não ser não
é a
questão; ser
é
não
ser... Não estou certo
se a
aceitação completa do angst
pelos existencialistas não visa indiretamente a
anulá-lo
– suplantando-o pelo processo de deixar
que ele
se manifeste. Rollo May diz que o objetivo da terapia existencial
é permitir que o paciente experimente
sua própria existência, seu estar-no-mundo, de
maneira
plena e autêntica. Quando a
existência de
alguém
não se defronta com a constante possibilidade de não-existência,
ela é
creditada – isto é, não é
levada a
sério. Não é esse o
princípio
cristão de “viver cada dia como se fosse o
último”? Mas isso ainda
é diferente da
serenidade
do “já morto”, daquele que
está completamente
disposto a não ser. Pg.95
Nada podemos mudar se
não o aceitamos.
Condenação não
liberta, oprime,
... Se um médico
quer tratar um ser humano, precisa aceita-lo como é. E
só
pode fazer isso quando já viu a si mesmo e se aceitou. Isso
pode
parecer simples, mas o simples é sempre o mais
difícil. Na
vida real
é preciso muita arte para ser simples, por isso a
aceitação de si mesmo é a
essência do
problema moral e a prova real da vida de uma pessoa.
Que
eu dê comida a um mendigo, que perdoe uma ofensa, que ame meu
inimigo em nome de Cristo – tudo isso são, sem
dúvida, grandes virtudes. O que eu fizer ao
mais ínfimo dos meus semelhantes estarei
fazendo a
Cristo. Mas e se eu descobrir que o mais ínfimo de meus
semelhantes, o mais pobre dos mendigos, o mais atrevido de todos os
ofensores, o próprio demônio estão
todos dentro de
mim, e que eu mesmo preciso das esmolas de minha bondade, que eu mesmo
sou o inimigo que precisa ser amado – que
acontecerá então? ...
Fosse o próprio Deus que
se tivesse
chegado a nós nessa forma
desprezível, nós o teríamos negado mil
vezes antes
que um único galo cantasse. Ver
a aceitar a si
mesmo parece ser então aquela qualidade essencial da
personalidade que, no dizer de Mora, é mais importante para
o terapista
que sua teoria ou escola. Apesar de
parecer simples, e não muito heroico, suas
implicações são intensas e suas
dificuldades
formidáveis – pois quem é “eu
mesmo” e quem é que me aceita?
Não se trata
simplesmente de fazer a reconciliação entre o ego
e uma
séria de experiências reprimidas, vergonhosas ou
dolorosas
mas sempre
incluídas na subjetividade de
cada um. É o problema muito mais amplo de
consertar
a cisão que ocorreu entre o indivíduo e
o mundo;
e como vimos,
isto tem pouco
a
ver com o ajustamento do indivíduo à sociedade. Pg.96 Falando
de um modo
geral, este é o ponto em que a psicoterapia chega a ser um
caminho de libertação, mesmo quando se reconhece
que
terapia é muito mais do que ajustamento. A fraqueza
está não
tanto nas diferenças e
confusões teóricas das várias escolas;
está
mais em certos
acordos tácitos
–
particularmente na continuada
aceitação do
ponto de vista dualista do homem;
ego e
inconsciente,
psique e soma,
sujeito e objeto, razão e instinto.
Terapia
é cura, é saúde, e qualquer sistema
que deixe o
indivíduo em uma ponta do dilema dualista é,
quando
muito, o resultado de um arrojado desespero. Foi justamente a esse
ponto que chegou Freud; seus últimos escritos refletem o
profundo pessimismo de um homem corajoso, pois ele sentiu que o
conflito entre o princípio do prazer, Eros e os reclamos do
princípio da realidade, das necessidades da
civilização, era irreconciliável. para
sobreviver, Eros deve ser regulado,
civilizado e reprimido; mas o instinto reprimido
nunca
para de lutar pela
satisfação completa, que consistiria na
repetição de uma experiência
primária de
satisfação. Nenhum substituto ou
formação
reativa, e nenhuma sublimação, bastam para anular
a
tensão persistente do instinto reprimido. (Freud S.) À medida que as
obrigações sociais do indivíduo
aumentam e a vida
civilizada requer mais disciplina, a situação se
agrava. Se a
civilização é um desenvolvimento
inevitável
do grupo da família para o grupo da humanidade em geral, uma
intensificação do sentimento de culpa... está
inextricavelmente ligado a ela,
talvez até que o sentimento de culpa atinja magnitudes que o
indivíduo não possa suportar. (Freud S.) Mas o
problema é insolúvel devido à maneira
pela qual
é colocado. Os grandes e
irreconciliáveis, princípio
do prazer e
princípio da realidade, Eros e Tanatos,
repousam na dualidade mais profunda de conhecedor e conhecido,
dualidade que
Freud aceitou sem exame porque era a premissa
primária de sua cultura – mesmo depois
de ver
tão claramente que o ego
não
é dono de sua casa.
Ele viu que o
ego surge da tensão entre libido e cultura;
em outras
Pg.97 Mas
L.L. Whyte
mostrou em sua Crítica de Freud que
tudo isso é má biologia.
Em desenvolvimento
biológico, dualismo
ou conflito é sempre sobreposto a uma unidade anterior. A existência de
um organismo
capaz de sobrevivência implica em
integração;
portanto, unidade é sempre anterior a conflito
íntimo.
Pode surgir conflito em
consequência de uma
adaptação imprópria,
e esse
conflito pode ser fatal ou pode ser superado.
Mas a
recuperação da saúde
orgânica nunca envolve
a síntese de princípios fundamentalmente opostos,
pois
eles não podem coexistir em um organismo.
(????)
Pode
haver a aparência de síntese porque a
condição real do organismo foi mal interpretada
pelo
emprego de uma linguagem dualística. O
processo
histórico não envolve a síntese de
opostos
lógicos preexistentes, embora possa parecer na linguagem
confusa
e teorias dialéticas imaturas.
(crítica
à Marx!!) Pg.98 Noutras palavras, Freud
não viu que o ego era uma adaptação
imprópria. Ele viu que, como
convenção social, o ego era
autocontraditório, mas
não viu que era desnecessário.
Ele não
podia conceber
consciência sem a dualidade do sujeito e objeto. Com
todo seu
conhecimento de filosofia oriental, Jung não parece em
melhor
posição.
Mas a
mente oriental
não tem
dificuldade de conceber uma consciência sem ego. A
consciência é tida como capaz de transcender sua
condição de ego; com efeito, em suas
formas
“superiores” o ego desaparece de todo. Uma
tal
condição mental sem ego
só pode ser inconsciente para nós, pela
não
simples de não haver ninguém para
presenciá-la.
... Não posso imaginar um estado mental consciente que
não se refira a um sujeito, isto é, a um ego. O
ego pode
ser despotenciado
–
destituído, por
exemplo de sua
consciência do corpo –
mas enquanto houver
consciência de alguma coisa, é preciso haver
alguém
que tenha consciência.(Jung C.)
Eis uma mera
convenção
sintática, a de que o verbo precisa ter um sujeito,
impondo-se
à percepção e parecendo ser a
lógica da
realidade! Nessas
circunstâncias, o
entendimento de Jung do
estado de consciência “sem ego”
encontrado nos textos
orientais deixa
muito a desejar.
Em resumo, ele acha que esse estado
não é “sem ego”. Apenas o
ego foi
temporariamente esquecido ao descer a um nível mais
primitivo de
consciência, à consciência
indiscriminada que se
supõe ter sido característica da mentalidade do
homem pré-civilizado
– a participation mystique
de Lévy-Bruhl.
Pg.99 Mas ele
não a confunde com uma
reversão real ao primitivismo.
Sua opinião é
que membros das antigas
culturas orientais podem suportar essa
recaída à consciência indiscriminada
justamente por
causa de sua maturidade, justamente porque suas culturas lhes deram
estruturas de ego muito fortes
e
ao mesmo tempo providenciaram o
atendimento ordenado de todos os seus
anseios instintivos. (Wilhelm R.
e Jung C.)
É por isso que ele desaconselha
o emprego de
técnicas orientais, como a yoga,
por ocidentais.
Para nós existe o perigo de
“inflação”, de sermos
engolidos e
possuídos pelo inconsciente porque nós o
reprimimos com
muita força e ainda não entramos em acordo com
nossos
instintos menos respeitáveis. O ocidental que baixa o
nível de consciência e afrouxa a
vigilância do ego
sem as salvaguardas da situação
analítica corre o
risco de perder o controle de
si mesmo na avalanche de
forças reprimidas. Pensa-se
imediatamente
na variedade beat
do zen na boêmia americana,
e nas ilusões de grandeza espiritual e ocultista dos que
adotam
a teosofia ou o vedanta. São
tantos os
pontos sobre os quais Jung tem julgamento intuitivo excelente que
não tenho nenhum gosto em criticar suas premissas. No
Oriente e no Ocidente há sempre perigo de desordem quando
instituições sociais são postas em
questão,
seja a instituição o ego ou a
subjugação
das mulheres. Quando
é contestada em um ponto a
autoridade costuma ficar instável em outros. Oriente e Ocidente
promoveram o ego a uma
instituição assim,
se
bem que com ideias diferentes quanto aos seus papeis e aos seus
deveres. Se as culturas
orientais fossem menos ego
conscientes do que as
ocidentais, os textos budistas e taoistas
seriam relativamente omissos quanto
à natureza ilusória do ego.
Jung está
portanto certo em soar um
alarme – mas por
outro motivo. Ele acha que uma
forte estrutura de ego, uma luta
contra a natureza, é a condição
necessária
da civilização, e
nisso corre o perigo de chegar ao
mesmo desespero de Freud. Mas uma coisa é
notar que a
civilização que conhecemos dependeu
do
conceito do ego; outra
é dizer que ela precisa
depender, como
se essa convenção estivesse
na natureza das coisas. Freud
e Jung perceberam perfeitamente a
interdependência dos grandes opostos da vida, mas para ambos
esses opostos constituem um problema no fim insolúvel.
Pg.100
Os problemas
sérios da vida, no
entanto, nunca são completamente solucionados. Se por uma
vez
parecer que são, isso é sinal de que alguma coisa
se
perdeu. O sentido e o
delineamento de um problema parecem estar
não em sua solução, mas em nossa
dedicação incessante a ele.
Só isso nos
preserva da estupidez e da petrificação. (Jung C.) Não
é
essa afinal, a voz da consciência protestante? O homem
é
inerentemente preguiçoso; por natureza, por pecado original,
ele
sempre regride para a dissolução se
não houver
alguma coisa para espicaça-lo... Maslow
reuniu uma
séria impressionante de citações de
psicólogos americanos,
todos afirmando a identidade
entre
solução de problemas e saúde mental...
A cultura ocidental
geralmente repousa
(escreve Maslow) na teologia judaico-cristã. Os Estados
Unidos
são dominadores pelo espírito puritano e
pragmático, que prega o trabalho, a luta, a sobriedade e a
dedicação, e acima de tudo a
determinação. Como
qualquer outra instituição social, a
ciência
não está isenta desse clima cultural e desses
efeitos
atmosféricos. A
psicologia americana, por
participação, é superpragmática,
superpuritana
e superdeterminada.
... Nenhum compêndio tem capítulos sobre
graça e
alegria, sobre lazer e meditação, sobre
ócio e
inércia, sobre atividade inútil e sem
propósito...
A psicologia americana está se ocupando muito apenas com
metade
da vida e negligenciando a outra – talvez a mais importante.
(Maslow A.) Em todas as
direções utilizamos
os meios da vida para justificar os fins: lemos ou vamos a concertos
para melhorar nosso espírito; descansamos para melhorar
nosso
trabalho; adoramos a Deus para
melhorar nossa moral; até
nos
embebedamos para esquecer nossas preocupações.
Tudo
que é feito de brincadeira, sem motivo ulterior e segunda
intenção, nos traz sentimento de culpa, e são
muitos os que acham que ação imotivada
é
impossível. Precisamos ter um motivo para o
que fazemos!
Isso parece mais ordem do que observação.
Pg.101 Logo que o ego
é separado do mundo,
como efeito sem causa, ele fica parecendo
fantoche de
motivações que
não são mais do que partes relegadas de
nós mesmos. Se
pudéssemos
ver-nos inteiros, como
posições diferentes no campo unificado do mundo,
veríamos que somos imotivados
– porque
o
todo flutua livremente e não repousa em algo para
além
dele.
Jung
e seus
discípulos mostraram tanto interesse pela filosofia e pela
mitologia asiáticas que seu entendimento defeituoso da
libertação não pode passar sem maior
exame.
Eles chegam tão perto do ponto, e no entanto
não o veem – e nisso deve haver alguma coisa que
seja
sintomática de toda a situação da
psicoterapia
ocidental vis-à-vis
dos caminhos orientais. A
dificuldade parece nascer de três fatores interligados: (1) a
visão cristã e mais particularmente protestante
do homem;
(2) teorias antropológicas do século XIX; e (3)
“psicologismo”. Como
vimos, nossas
instituições ocidentais e cristãs
definem o homem
de maneira não apenas paradoxal mas
também autocontraditória.
O
homem é visto como
um conflito
incorporado entre
razão e instinto, espírito e natureza,
de tal maneira
que para ser saudável ou ser salvo ele precisa desconfiar
sempre
de si mesmo. Em Jung essa contradição
não é
tão aguda como em Freud porque Jung sustenta que o
inconsciente é criador e inteligente em sua raiz, e por isso
em última
instância merecedor de
confiança. As
mitologias, sonhos e fantasias que representam
atividade inconsciente são considerados como fontes de cura
e
saber, e comparáveis aos processos de crescimento e
homeostase
no organismo físico. Não obstante, a obra de Jung
é rica em passagens como esta tirada de M.E. Harding:
Por trás da
fachada decente da
consciência com sua ordem moral disciplinada e suas boas
intenções, estão as cruas
forças
instintivas da vida, como monstros das profundezas –
devorando,
tramando, guerreando incessantemente. Elas são na maioria
invisíveis, e
no entanto, de seu
anseio e energia, a própria vida depende; sem elas os seres
humanos seriam inertes como pedras. Mas, se se deixasse que elas
funcionassem sem freios, a vida perderia o sentido e se reduziria uma
vez mais a
mero nascimento e morte, como
no
mundo pululante dos pântanos primordiais. (Harding
M.) Pg.102 A filosofia junguiana
nunca nos deixa esquecer que não apenas a
consciência (é
precária!) mas
também a
integração psíquica, o objetivo da
terapia,
é precária.
Ela ecoa
a advertência bíblica,
“irmãos,
sede sóbrios, sede vigilantes, pois vosso
adversário o
Diabo ronda como um leão, procurando a quem
devorar!”. Parece que o
inconsciente
só pode ser criador se habilmente pacificado pelo consciente,
que deve atuar todo o tempo
como diligente domesticador de
leão. A menos que o
leão seja domesticado primeiro, a
“invasão” do consciente por elementos
inconscientes,
que dizem ocorrer na
experiência mística,
solta
demônios ao invés de deuses. A
concepção do homem como um anjo montado em um
animal
selvagem é
também básica às teorias
antropológicas que nasceram da doutrina darwiniana de
evolução por seleção
natural. A
consciência e a razão são
precárias porque
são “epifenômenos” do
cego e bestial processo de
evolução física. São
produtos aberrantes do famoso
“pântano primordial”, tão
aberrantes que
não existe medida comum entre os dois. Fora da pele do homem
não há mesmo nada correspondente à
inteligência que está dentro. Nossa
sobrevivência tem portanto
que ser a
exploração cautelosa e rigidamente controlada de
um acaso
natural. Ao mesmo tempo os
antropólogos fizeram uma
equação entre o homem primordial e quase animal
de um
lado, com a criança e o primitivo do outro. Terá
sido por
puro acaso que como “primitivos” aparecem
justamente aqueles
povos aos quais os europeus ocidentais
queriam conferir os benefícios de sua
civilização
mais “evoluída”? No Século XIX nossa informação real sobre o homem primitivo era mínima; a situação é muito melhor hoje. Mas, de modos diferentes, Freud e Jung armaram uma teoria de homem primitivo destituída de prova histórica. Suas premissas são: (1) que a inteligência repousa precariamente em uma base biológica e instintiva que é “animal” no pior sentido; (2) que as culturas existentes, diferentes das nossas por não terem desenvolvido certas capacidades científicas e literárias, são sobrevivências do homem primordial, e por isso são chamadas de “primitivas”; e (3) que, por analogia com a repetição de mudanças evolutivas no desenvolvimento do feto humano, os primeiros anos da infância ensaiam a mentalidade primordial do homem. (Jung C.) Pg.103
Pesando
essas premissas com o fato de que a psicoterapia a
princípio se preocupou com o estudo de personalidades
perturbadas, que acontece? Supõe-se
que o comportamento
irracional é regressão histórica,
que o indivíduo perturbado está tendo dificuldade
em
lidar com traços que herdou do pântano primordial.
Em
outras palavras, o que é reprimido no inconsciente
é o
passado histórico e pré-histórico, e
consequentemente a
psicanálise fica sendo um
instrumento de investigação da
história primitiva
do homem. À falta de provas reais sobre o homem primordial,
essa
teoria pode apenas ser autovalidante. Tudo
isso já
foi dito por outros. Estou-me referindo ao assunto porque ele
é a
base da teoria de Jung da
evolução da consciência e do ego. Ela o
leva a
considerar o modo egocêntrico da consciência como
passo
universal e historicamente necessário no desenvolvimento da
humanidade. É o
mecanismo problemático mas
essencial à regulação
dos instintos primordiais do pântano e da caverna, ao
soerguimento da humanidade do nível puramente animal.
Mas
há outra
alternativa a considerar: a
de que a bestialidade peculiar do homem pouco tem a ver com as bestas;
que suas irracionalidades, seus apetites desordenados, os histerismos
de massa, os espetáculos de chocante violência e
crueldade
não
são historicamente regressivos; são
protestos contra justamente esse modo de consciência, contra
a prisão dupla de uma instituição
social
autocontraditória... O
indivíduo perturbado
não é tanto a regressão
histórica que
não conseguiu desenvolver suficiente força de
ego; ele
é mais a vítima de excesso de ego, de
excesso de isolamento individual.
Além
disso, não se
deve supor que o
desenvolvimento do ego é a base universalmente
necessária
da consciência e da inteligência. As
estruturas neurais daquele “tear encantado”, o
cérebro, das quais depende a inteligência,
não
são por certo criações
propositais de um ego consciente, e não se dissolvem em
pasta
quando o ego se revela fictício – por um ato de
inteligência. Segue-se
então que, quando o
ego
é afastado não ocorre uma invasão da
consciência por elementos primordiais do pântano e
do
jângal. O
que ocorre é percepção:
percepção de
todo um padrão novo de relações
comparável
a uma descoberta científica ou artística. Pg.104 Jung
tem sido acusado
de “psicologismo”, mas eu não estou,
como Buber,
empregando o termo para criticar seu
desinteresse pelos fundamentos metafísicos ou sobrenaturais
da
experiência espiritual. O que há é que
seu conceito
de “inconsciente” de um lado, e do
conteúdo da
experiência de libertação de outro,
é
extremamente psicológico. É claro que se pode
dizer que
toda experiência é uma experiência
psicológica porque se passa na psique... Como vimos, o
inconsciente que precisa ser examinado para a
libertação
do homem abrange relações físicas,
biológicas e sociais que são reprimidas
não tanto
por um “órgão
psicológico” como o ego,
mas por comunicação e linguagem defeituosas. Nem
é
o conteúdo da experiência de
libertação
– satori, nirvana,
consciência cósmica
etc. –
psicológico no sentido de lampejo de luz
subjetiva. Seu
conteúdo é o mundo
físico visto de maneira nova.
Enquanto
Rikko,
alto funcionário da dinastia
T’ang,
conversava com seu mestre zen Nansen,
o funcionário citou um ditado de Sojo,
famoso monge doutor de
uma dinastia anterior:
Céu
e terra e
eu na mesma raiz,
Dez
mil coisas e eu
na mesma substância, ... O
acontecimento de
ver o mundo de uma maneira nova é talvez
psicológico por
ser um acontecimento de percepção e de
inteligência. Mas seu conteúdo não
é
psicológico no sentido de um
“arquétipo” ou
forma visionária vista em um sonho ou transe. Quando Nansen
mostrou as flores, ele não as
utilizava como símbolo de alguma coisa
psicológica. Ele
estava apontando para longe do psicológico, do mundo
particular
e fechado do “sujeito”. Estava
apontando para as flores. Pg.105 Considerando
a
característica geral das ideias ocidentais sobre budismo e
taoísmo – segundo as quais se trata de
religiões
– Jung não tem culpa de uma
classificação
errada do domínio em que suas experiências
ocorrem. Pensamos
em experiências religiosas e espirituais como
episódios da
“vida interior” mas
isso
acontece devido a falsa separação
sujeito e objeto. Os
caminhos orientais levam seus
discípulos a “olhar dentro”, a descobrir
o ser, apenas para descartar a ilusão de
que ele está
dentro em contraposição a fora.
Como disse o mestre
zen chinês Lin-chi,
“Não se iluda: nada existe fora, e, igualmente,
nada
existe dentro que se possa discernir”. ... Os psicoterapistas
costumam-se surpreender quando descobrem que os caminhos de
libertação parecem quase inteiramente desinteressados
dos sonhos – e
isso acontece justamente
porque a orientação desses caminhos
não é
exatamente psicológica em nosso sentido... Minha
hipótese
é que a análise de sonho é um
“truque”
(upaya)
útil em
terapia, mas não essencial. Associação
livre, ou
comunicação desobstruída, é
mais
fundamental... ... A
teoria de que
sonhos são importantes segue pari passou
a
ideia de que o inconsciente é antes de tudo
psicológico e
subjetivo, e nesse caso os sonhos parecem
a
estrada real para a descoberta do que se passa na “vida
noturna
oculta” do paciente. Não
é preciso dizer que a
psicanálise tem sido muito criticada por sua
tendência em
falar do inconsciente como se fosse um órgão
psicológico dotado de mente própria.
O valor
permanente da
hipótese de Freud está na
maneira pela qual ela chamou atenção para a
inconsciência, pelo fato
de não vermos
como somos condicionados a pensar e agir como
fazemos. Pg.106 L.L. Whyte
sugere (numa
comunicação pessoal) que
seria muito mais
correto falar da vida humana como “processo
inconsciente com aspectos conscientes”,
e é
evidente que “processo
inconsciente” nesse sentido
transcende o
domínio psicológico. “Inconsciência”
corresponderia exatamente ao termo budista avydia
(ignoramento),
mas não existe equivalente de “o
inconsciente” em
termos indianos nem chineses. Até
certo
ponto os postulados da análise existencial são
mais
coerentes com os caminhos de libertação do que os
Freud e
Jung. Rollo May explica que esse movimento surgiu da
insatisfação de muitos psiquiatras com conceitos
tradicionais como os de libido, censor, inconsciente, e mesmo com a
teoria psicológica do homem. Ludwig Binswanger,
um dos principais expoentes do movimento, ataca “o cancro de
toda
psicologia até agora... o cancro da doutrina da
cisão do
mundo em sujeito-objeto”. O homem é
um “eu
sou” não como um ego destacado, mas como estando-no-mundo,
com
ênfase no caráter dinâmico,
processual de ser,
e no fato de que esse ser
está necessariamente em relação
com o mundo. O mundo com o qual
o sujeito está polarizado
é um mundo triplo: o Umwelt
de nossos fundamentos biológicos e físicos; o Mitwelt
de
relações sociais; e
Eigenwelt
da vida interior
e da autoconsciência de cada um. Nenhuma terapia adequada
pode
deixar de levar em conta esses três campos de
relação. May nota que a semelhança
entra
análise existencial e filosofias orientais como o
taoísmo
e o zen vai muito mais fundo do que a
semelhança casual
de palavras. Ambas se interessam pela ontologia, o estudo do ser. Ambas
buscam uma relação com a realidade que corte
abaixo da
cisão entre sujeito e objeto. Ambas insistem em que a
absorção ocidental de conquistar e adquirir poder
sobre a
natureza resultou não apenas no afastamento de homem em si
mesmo. A razão básica dessas similitudes
é que a
filosofia oriental nunca sofreu cisão radical entre sujeito
e objeto
que tem caracterizado a filosofia ocidental, e
essa dicotomia é
exatamente o que o existencialismo
procura superar. Pg.107 Até
aí
muito bem. Mas vimos que a escola existencial torna a angustia, o angst
de Kierkgaard,
e sua culpa concomitante, como inseparável do ato de ser,
desde
que “ser” implica em “não
ser”, e desde
que saber completamente que se existe envolve necessariamente a
ameaça de não existir. Isto talvez seja uma estratagema
terapêutico, pois as
pessoas ficam menos angustiadas se se sentirem
perfeitamente livres para se angustiarem,
o mesmo podendo-se dizer
do sentimento de culpa. Ou
pode ser que não exista alegria
de viver exceto em relação com a aterradora
perspectiva
de morte. No entanto, os
existencialistas dão mais a
impressão de que viver sem angustia é viver sem
seriedade. Ser e não ser são
menos uma polaridade do que uma “dialética de
crise”, uma oscilação, um vacilar na
orla,
precisamente o “medo e o tremor” de Kierkgaard.
Não ser assim
angustiado, não levar a sério o
nosso estar-no-mundo, nem o dos outros, é desprezar a
dignidade
de ser pessoa, fracassar em ser plenamente humano.
Aqui
entramos de
frente em uma antiga disputa entre Oriente e Ocidente, pois o Oriente
sempre alegou que o Ocidente não leva a personalidade humana
a
sério. Escravidão, submissão da
mulher, fome, um
milhão de mortos de cólera – assim
é a vida!
Não é esta a formula budista sarva samskara
dunhkha,
sarva
samskara
anatma,
sarva
samskara
anitya,
todos os componentes (gente
inclusive) estão angustiados, todos os componentes
estão
sem o ser, todos os componentes são impermanentes? Se isso
é verdade, a libertação não
fica sendo a
arte de aprender a não ligar? As atitudes estereotipadas de
uma
cultura sempre são naturalmente paródias das
percepções de seus membros mais bem dotados.
Não
ligar é paródia de serenidade, como
aflição
é paródia de preocupação. Pg.108 Ganharemos melhor
entendimento se compararmos
Oriente e Ocidente em nível mais alto... em
soberbas obras de arte... comparamos
os
rostos de Cristo e da Madona da Pietá... na
Catedral de São Pedro, em Roma, com a ... estátua
do Buda-a-Vir, Maitrya...
em
Nara, que descobrimos? Aflição?
Angústia? Pelo
contrário, em todos os
três rostos vê-se uma incrível mistura
de ternura,
sábia tristeza, serena – e também
profundamente
confiante – resignação, tudo com uma
leve
sugestão de sorriso. Cada rosto é jovem e liso, e no entanto
imensuravelmente velho
– no
sentido de que são
rostos de arquétipos
imortais que viram tudo,
compreenderam tudo e sofreram tudo sem a
menor amargura em um extremo, ou sentimentalismo no outro. Nenhum
é destituído de preocupação
ou tristeza,
mas não há o mais leve traço de culpa
ou
apreensão. São
humanamente possíveis as atitudes expressas nesses rostos
divinos? Este é o rosto que muita gente mostra na morte e
que
explica a extraordinária nobreza de tantas
máscaras
mortuárias. Aqui... estamos
pisando
no ar, e nada existe em matéria de estatística ou
informação científica para nos apoiar.
Mas penso
poder arriscar a teoria de que no momento da morte muita gente
experimenta a curiosa sensação não
apenas de
aceitar
mas de ter desejado tudo que
lhes
aconteceu... a
descoberta inesperada
(???) de
uma identidade entre o querido e o inevitável. É
a isto que o reconhecimento da inseparabilidade de ser e não
ser
nos deve levar. (ser ou
não ser NÃO é a questão!!)
Aí está todo o sentido de polaridade de vida
implicando
em morte, do sujeito implicando
em objeto, de homem implicando em
mudo, de Sim implicando em Não. Os
caminhos de
libertação propõem que o que muitos
descobrem na
morte pode também ser descoberto no meio da vida.
Da mesma
forma que a libertação envolve o conhecimento de
si mesmo
no que uma pessoa tem de mais outro, envolve o
reconhecimento da vida na morte
– e é
por isso que tantos ritos de iniciação conduzem o
neófito por uma morte simbólica. Ele aceita
tão completamente a certeza da morte que, efetivamente,
já está morto – e por isso
além da angustia.
Nas
palavras do mestre zen Bunan: Enquanto viveres,
sê morto,
completamente morto; O
que fizeres
então, como quiseres, será sempre bom. Pg.109 É aí
que Freud e Jung parecem
em certo aspecto mais sábios que os existencialistas
: eles veem que a morte
é o objetivo da vida. Não
ser preenche o ser; não nega o ser, da mesma forma que
espaço não nega o que é
sólido. Cada um
é condição para a realidade do
outro... Norman
Brown está
tão certo ao dizer que
é justamente a morte que dá ao organismo sua
disparidade
individual.
A preciosa disparidade
ontológica que
o indivíduo humano reivindica lhe é conferida
não
pela posse de uma alma imortal, mas pela posse de um corpo mortal... No
nível orgânico mais simples, qualquer animal ou
planta
possui disparidade e individualidade porque vive sua própria
e
não outra – isto é, porque morre... Se
a morte dá individualidade à vida, e se o homem
é
o organismo que reprime a morte, então o homem é
o
organismo que reprime sua própria individualidade.
Assim
o nosso altíssimo conceito de humanidade como
espécie
dominante de uma individualidade negada à
animais inferiores está
errado. Os lírios
do campo têm a
individualidade de não pensar no amanhã, e
nós
não.
Organismos inferiores vivem a vida
própria de suas espécies; sua individualidade
consiste em
serem eles expressões concretas da essência de sua
espécie em uma vida particular que acaba em morte.
(N.O.
Brown, Life Against
Death: The Psychoanalytical Meaning of
History, Wesleyan University,
1959. Pgs.170-171) Assim, os existencialistas
estão
certos em dizer que não
ser e morte dão ao
ser, a um
ser,
sua autenticidade. Mas
angústia é a repressão da morte,
porque o que
é reprimido não desaparece da vida; esconde-se no
canto
do olho e fica perturbando perpetuamente, e o centro de
visão e
atenção tremem
porque
não podem desviar a vista completamente.
Se no
nível popular parodiado o Oriente não se preocupa
com a
pessoa, não
é por causa da libertação;
é por causa da
doutrina popular da reencarnação, que implica na impossibilidade
de morte do indivíduo, do ego
(o Purusha
qualificado?!!).
Ser libertado da
reencarnação é poder morrer, e assim
poder viver.
O princípio do
Nirvana (diz Norman
Brown, empregando o termo diferentemente de Freud, em seu sentido
próprio) regula uma vida individual que goza de plena
satisfação e exprime concretamente toda a
essência
da espécie, e na qual vida e morte são
simultaneamente
afirmadas porque vida e morte
juntas constituem
individualidade, e o amadurecimento é tudo. Pg. 110 O que no existencialismo
equivale a uma
indenização da angústia não
é por
certo mais que uma sobrevivência
da
noção protestante
de que é bom
sentir-se culpado, angustiado, sério. Isto é
muito
diferente de admitir honestamente que é assim que a pessoa
que a
pessoa se sente, com isso quebrando o círculo vicioso da
angústia pelo processo de deixar de se angustiar com ela. Angústia permitida deixa de ser
angústia, pois
angústia é
por natureza um
círculo vicioso. É
a frustração de
não poder viver sem morrer, isto é, de
não poder
solucionar um problema sem sentido.
Como Freud percebeu, o
ego é constituído pela repressão de
Eros e Tanatos,
da vida e da morte, e por
isso é uma paródia da individualidade
autêntica. E,
como mostra Norman Brown, Tanatos
reprimido volta-se para fora como desejo de matar, como
agressão;
e, por outro lado, Eros
reprimido torna-se uma
fixação ao passado,
à
busca de
satisfação na repetição de
alguma
experiência primária de
satisfação. Sob
condições de
repressão, a
repetição-compulsão estabelece
uma fixação ao passado, que aliena o
neurótico do
presente e o prende à busca inconsciente do passado no
futuro. (N.Brown) Assim
é que o
equivalente ocidental da reencarnação
é nossa
obsessão com história, “uma recherche du
temps
perdu
que se desloca para frente” (N.Brown),
uma tentativa
infrutífera de avançar até um futuro
satisfatório pela lógica de um passado
desperdiçado. História
é um registro de
frustração, e
suas fontes primeiras são os
monumentos nos quais os homens começaram, na fase de Unamuno, a
guardar seus mortos.
(essa é de matar!!!)
História
é a recusa em “deixar os mortos cuidar dos
mortos.”
História, ou melhor,
historicismo, é o crônico
enfurnar de bagatelas na esperança de que algum dia tenham
utilidade. É um
estado de espírito em que o
assentamento do que foi feito fica mais importante do que o que
é feito, estado no qual existe cada vez menos
espaço para
ação porque os resultados vão tomando
cada vez
mais espaço. É por isso que o BhagavadGita
define
libertação como ação sem
apego aos frutos
da ação, pois quando vida e morte são
vividas
completamente elas continuam sem marca num presente eterno. Pg.111 A
vida
é renovada pela morte
porque é frequentemente
libertada daquilo que de outra forma ficaria sendo uma carga
insuportável de recordações e
monotonia. A
reencarnação genuína está
em que quando
nasce uma criança, um “eu” –
ou
consciência humana – surge novamente no mundo com
memória novinha e o prodígio da vida restaurado. Aniquilação
eterna é tão absurdo
como
individualidade eterna.
(!!???)
E quem pode duvidar de que, se a vida humana surgiu nesta
área
diminuta de uma galáxia imensa, ela deve estar acontecendo
repetidamente, com base em pura probabilidade , em toda a
imensidão de nébulas que os
rodeiam. Onde
o organismo é inteligente, o meio também
deve ser
inteligente. Como
muito de nossa
psicoterapia, o existencialismo não leva a morte em plena
conta.
Em toda a literatura da
psicoterapia pouco
encontramos referente ao
tratamento adequado do paciente que
espera a morte, e isso
não decorre, creio, do reconhecimento
de que o problema da morte não é um problema.
Decorre
mais do sentimento de se tratar de um problema insolúvel, um
fato duro e inevitável, que apenas podemos lamentar. Mas
aí também o existencialismo está no
caminho certo.
Se a morte dá
autenticidade ao indivíduo, a
psicoterapia autêntica será a primeira a se
atrapalhar com
a morte. Quando um paciente
está para morrer, ou é
atingido no meio da vida pelo medo da morte, esse
não é o momento de lhe
passar as ministração consoladoras
de
algum fantasista religioso que procura explicar a morte.
Ninguém, creio, fez ainda um estudo sério e
rigoroso do
grau em que o medo da morte aparece em psicoses e neuroses. Ignora-la
ou explica-la
é perder a grande oportunidade da
psicoterapia, pois o que a morte nega não é o
indivíduo, não é a
relação
organismo/ambiente, mas
o ego, e assim a
libertação em relação ao
ego é
sinônimo da aceitação total da morte. O ego não
é uma
função vital do organismo; é
extraído de
memórias por influência social; é a
substância hipotética sobre a qual a
memórias
é registrada, a constante que se mantém em todas
as
mudanças de experiência. Identificar-se
com o ego
é confundir o organismo com sua história,
fazer de
seu princípio orientador um registro limitadamente
selecionado e
incompleto do que ele foi ou fez. Essa
abstração tirada
da memória parece, no entanto, ser um agente concreto e
eficaz.
Mas é justamente isso que se perde na morte.
O
ser como história chega ao fim, o que mostra o ego
é, em
todos os sentidos, uma história. Pg.112 Deixando
de parte o
existencialismo... as
linhas iniciadas por H.S.Sullivan
e Frieda
Fromm-Reich-mann...
é
nelas que o contexto social de personalidade começa a ser
encarado com plena seriedade e, como diz o próprio Sullivan,
o ser-sistema
(ego) como
o conhecemos hoje é “o principal entrave a
mudanças
favoráveis na personalidade”.
A ciência geral da
psiquiatria me
parece cobrir o mesmo campo estudado pela psicologia social, porque a
psiquiatria científica tem de ser definida como estudo de
relações interpessoais, e isso no fim requer o
emprego da
estrutura conceitual que hoje chamamos de teoria do campo.
Desse ponto de vista personalidade
é considerada
hipótese. O que pode
ser estudado é o
padrão de processos que caracteriza a
interação de
personalidades em situações recorrentes
particulares ou
campos que “incluem” o observador. De um lado essa linha de
pensamento
espalhou-se por todo o trabalho da Escola de Washington com seu
interesse altamente inteligente pelos caminhos da
libertação; e de outro, ao estudo da psicoterapia
como
problema de comunicação... essa
última abertura parece estar obtendo reconhecimento muito
lento,
principalmente na Europa, devido a falsa impressão que
representa a completa desumanização da
psiquiatria por
ser o homem estudado por analogia com computadores
eletrônicos e
sistemas de lógica matemática. No entanto,
é
justamente daí que conseguimos conceitos como e de
prisão
dupla que, de parte os seus méritos na
identificação das causas da esquizofrenia,
poderá
vir s ser uma das grandes ideias em toda a história da
psicologia. Afinal,
se o
pensamento matemático nos deu um entendimento profundo da
física e da astronomia sem nada destruir da
glória das
estrelas, por que não poderá um dia mostrar-se
igualmente
útil ao entendimento de nós mesmos sem nada
destruir da Pg.113
dignidade do homem? Seja como for, a
matemática
há muito deixou de ser mera mecânica; e o que se
receia
é que uma descrição
matemática do
comportamento humano reduza o homem a uma máquina sem
poesia. É
grave erro por opor poesia a
matemática, como carne viva a ossos secos. ... Levado ao máximo
da suas
possibilidades, o pensamento matemático pode mostrar que o
mundo
físico é qualquer coisa semelhante a
música. Pg.114 Perder
a realidade do
ego isolado não é, como receia Erich Fromm,
perder a
integridade do indivíduo(*).
Descobrir que o organismo é inseparável do
ambiente
não é perder a clareza de sua forma nem a
singularidade
de sua posição. Afastar o tipo particular de
repressão que a consciência do ego envolve
não
é escancarar os portões à rapacidade
incontida do
id. Não
é o ego que faz o homem diferente de
serpentes, leões, tubarões, macacos; é
sua
estrutura orgânica, e o tipo de ambiente em que essa
estrutura
pode aparecer. Não
é romântico e sentimental
culpar as instituições
sociais
– e não a natureza – pela
violência e pela
crueldade peculiares ao homem. É verdade que os
homens inventaram essas instituições – mas
não é óbvio que o que
começa como um erro
pequeno e despercebido pode atingir proporções de
catástrofe, como uma pedrinha que rola pode acarretar uma
avalanche? Quem
podia saber que o erro de considerar os homens como egos separados ia
ter consequências tão desastrosas?
Mas
é fácil ser sábio sem retrospecto. (*) As
divergências de Fromm com Sullivam
quanto à realidade do
“ser” por certo se baseiam na confusão
semântica
pela qual os termos “eu”,
“ego”, “ser”,
“pessoa”,
“indivíduo”, etc., são
empregados
indiscriminada e revezadamente.
Como os taoístas
chineses perceberam, não há como não
confiar na
natureza humana. Isso
não é sentimentalismo,
nem
querer transformar desejo em realidade. É a mais
prática
das políticas práticas. Porque todo o sistema de
desconfiança e controle autoritário é também
humano. A vontade do candidato a santo
pode ser tão corrupta como suas paixões, e o
intelecto
pode ser tão desorientado como os instintos. A autoridade e
a
eficácia da polícia são tão
sadias como o
moral público. Quando a confiança em nossa
natureza
funciona apenas cinquenta
e um por cento do
tempo, ela já funciona.
|
| I - Psicoterapia e libertação | II - Sociedade e Sanidade | III - Os Caminhos da libertação |
| IV - Um Espelho Escuro | V - O Contrajogo | VI - Convite à Dança |