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Capítulo -
2.
A Consciência Cósmica
Sendo a consciência cósmica objeto essencial da Psicologia Transpessoal, é
bastante lógico que se comece por definir o que se quer expressar quando se usa
este termo, o que ele representa, qual o significado deste significante.
Esta definição ajudará muito os que
lidam com tal tipo de experiência, pois será o primeiro meio ao seu alcance para
diagnosticar o que é experiência cósmica e o que faz parte de outros tipos de
níveis de consciência.
Com efeito, só poderemos definir este
tipo de consciência ou experiência, mediante critérios que permitam
reconhecê-lo. Mas, antes de descrever estes critérios, esbarramos numa primeira
dificuldade.
O Problema dos Sinônimos
Uma primeira
dificuldade surge aqui: a existência de outros termos que tem sido usados como
designando este tipo de experiência, indicado por certos autores como sendo
sinônimos, por outros como expressando, em certos casos, níveis diferentes de
consciência.
Quais as semelhanças e diferenças
entre os seguintes termos?
| - Experiência Cósmica |
- Nirvana |
| - Experiência Mística |
- Estado de Buda |
| - Realização Suprema |
- Experiência Transcendental
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| - Reino dos Céus |
- Consciência Objetiva |
| - Sétimo Céu |
- Iluminação |
| - Êxtase Místico |
- Estado de Graça |
| - União Estática |
- Estado de Beatitude |
| - Samadhi |
- Estado de Contemplação |
| -ASC (Altered
State of Consciousness de Tart) |
- Casamento espiritual |
-
Peak-Exeperience ou Experiência Culminante
(de Maslow) |
- HSC (Higher State of
Consciousness) |
| - Experiência
de Plateau (de Maslow) |
- Experiência Oceânica
(de Freud) |
| - Satori |
- ESP (Extrasensorial
Perception) ou PES (Percepção Extra-sensorial) (de Rhine). |
| - Experiência
Psicodélica |
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| - União
transformante |
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Pg.18
A diversidade de termos, além de diferenças culturais e religiosas, é devida
também ao fato de se tratar de experiência eminentemente subjetiva e
dificilmente comunicável, quando não incomunicável.
Só existe uma certa coerência entre vários termos dentro de
um sistema filosófico ou religioso. Mas sabemos muito pouco quanto às
correspondências entre estados de cons ciência obtidos em diversas culturas ou
sistemas místicos diferentes, como por exemplo, a mística cristã, hinduísta,
budista ou, ainda, o sufismo.
Por exemplo, na Mística Cristã, existe a distinção entre
vários estados de contemplação:
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- A quietude árida ou "noite dos
sentidos"
- A quietude suave
- A união plena
- A união estática suave
- O êxtase árido ou "noite do espírito"
- A união transformante ou casamento espiritual
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Estas classificações ou degraus,
inspirados em S. Teresa d´Ávila e João da Cruz (Tanquery, A. e
Gauthier, J.1927), poderiam ser colocados em paralelo com os estágios dos sufis:
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- "Qurb" ou sentimento de proximidade de Deus obtido pela concentração.
- "Mahabba" ou perda de si mesmo na contemplação.
- "Fana" onde se forma a unidade entre a lembrança, (Zikr),
o sujeito da lembrança (Zakir) e o objeto da lembrança, o UM (ou Mazkur).
- "Baga" que Idries Shah classifica como "Consciência Objetiva" (Goleman 1972).
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Mesmo no caso já bem conhecido Samadhi do Ioga de Patanjali, que nós incluímos
na primeira lista, o estudioso encontrará na realidade, vários graus (ver, por
exemplo, Sivananda, 1972).
Pg.19
Estamos mostrando estes diferentes degraus apenas para
colocar em evidência que a escolha que fizemos do nome de consciência cósmica é
num certo sentido arbitrário e poderia ter sido qualquer um dos termos da
primeira lista; o escolhemos por ser mais genérico, embora seja possível que um
outro surja no futuro, como por exemplo a Experiência Transpessoal; o escolhemos
também por fazer parte da história da Psiquiatria.
O termo "consciência cósmica" foi escolhido pelo psiquiatra
canadense Richard Maurice Bucke (1901), para designar um estado de consciência
que se situa acima da simples consciência comum ao homem e uma parte dos
animais, ou mesmo da consciência em si mesmo.
Descrição Sumária e Exemplos
O termo traduz
uma experiência em que determinadas pessoas percebem a unidade do Cosmos, se
percebem dentro dela (e não fora, como muitos poderiam imaginar); a experiência
é acompanhada de sentimentos de profunda paz, plenitude, amor a todos os seres.
Compreende-se de um relance o funcionamento e a razão de ser dos universos, a
relatividade das três dimensões do tempo e do espaço, a insignificância e ilusão
do mundo em que vivemos, os erros monumentais cometidos
por muitos seres humanos; uma iluminação acompanha muitas destas
percepções. A morte é vista apenas como uma passagem para outra espécie de
existência e o medo desaparece totalmente. Ela pode ser e é, em geral, o
resultado de uma longa e lenta evolução; às vezes, no entanto, ela constitui o
inicio de uma profunda transformação no sentido de valores mais elevados da
humanidade; nesse último caso ela acontece em momento inesperado.
Apresento aqui alguns testemunhos, a título de exemplo que se
entende por experiência mística.
Escolhi, em primeiro lugar, o de Jung, por se tratar de um
discípulo de Freud, cujo valor científico é indiscutível; trata-se de uma
publicação intencionalmente póstuma, o que aumenta, ainda mais, o valor deste
documento.
Pg.20
O segundo é de
João da Cruz, que era um místico da Igreja Católica e reconhecido como tal. O
terceiro e o quarto são de amigos meus. Uma pesquisa que se realiza na
Universidade Federal vai nos mostrar, com fundamentos estatísticos — assim como
Maslow já havia feito — que numa população escolhida por acaso há uma certa
porcentagem de pessoas que viveram esta experiência. Poder-se-ia multiplicar os
exemplos; outros o fizeram, como Bucke (1901), por exemplo, que analisou 43
casos e fez uma estatística da Idade do Iluminismo. Entre outros, cita: Moisés,
Gedeão, Isaías, Gautama, Sócrates, Jesus, Plotino, Dante, Bacon, Pascal,
Spinoza, Swedenborg, Gardiner, Blake, Balzac. Recomendamos aos leitores estas
obras.
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C. G. JUNG:
Minha Vida,
Gallimard-Paris, 1966, p.338-9
“Nunca poderia
pensar que se pudesse viver um tal episódio, que, de uma forma
geral, uma beatitude continua fosse possível. Estas visões e estes
acontecimentos eram perfeitamente reais; não há nada de forçado
artificialmente, ao contrário, tudo era da maior objetividade.
Recuamos
diante da palavra “eterno”; no entanto, não posso descrever o
que vivi, senão como a
beatitude de um estado intemporal, no qual passado, presente e
futuro se fundem num só. Tudo o que se produz no tempo estava
concentrado, aí, numa totalidade objetiva. Nada mais estava separado
no tempo e nem podia ser medido por conceitos temporais. Poderíamos,
de preferência, evocar esta vivência como um estado, um estado
afetivo que, no entanto, não se pode imaginar. Como posso me
representar se, simultaneamente, vivo antes-de-ontem, hoje e
depois-de-amanhã?
Haveria o que ainda não
começou, o que seria o presente mais claro e que já teria terminado
e, no entanto, tudo isso seria um só. O sentido não poderia
apreender senão uma soma, uma brilhante totalidade, na qual está
contida a espera do que vai começar, assim como a surpresa do que
acaba de se produzir e a satisfação ou decepção quanto ao resultado
do que se passou. Um todo indescritível, no qual se está fundido c
que, no entanto, se percebe com uma total objetividade.
Diante de uma tal totalidade, fica-se mudo porque é algo apenas
concebível. A objetividade, vivida neste sonho e nestas visões, diz
respeito à individualização
completa”.
NOTA: Jung se refere,
aqui, a uma «viagem» extraterrena e extra-espacial feita em estado
de agonia, na qual viu a terra «azul», predisse a morte de seu
médico e descreveu as visões extraordinárias que o leitor poderá
consultar em sua obra citada. |
Pg.21
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JOAO DA CRUZ:
Obras Completas,
Desclée de Brouwer
Paris, 1958, p.916-7
"Estava a tal ponto impregnado, absorvido,
fora de mim, que permanecia em todos os meus sentidos desprovido de
qualquer sentir, enquanto que o espírito recebeu, como dom, poder
ouvir sem ouvir, transcendendo toda ciência.
Aquele que atinge verdadeiramente
este ponto se vê enfraquecer em si. Tudo que conheci antes
parece-lhe tão baixo e cresce Imito nele a ciência que fica sem mais
nada saber, transcendendo toda ciência.
Este saber, originado de não-saber, encerra um poder tão alto, que
os sábios e seus argumentos não podem vencê-lo; porque o poder deles
não saberia atingir o não-ouvir,
ouvindo, transcendendo toda ciência”.
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PADRE JOSÉ INÁCIO FARAH
(Testemunho recolhido pelo autor, pessoalmente,
Í7
de outubro de 197'0
“Dia 9 de novembro de 1961, entre dez e onze horas da manhã, no
momento cm que se prepara meu
enterro; três médicos cardiologistas do Prontocor que trabalhavam na
Avenida Barbacena estavam em torno de mim e cuidavam de meus últimos
momentos. Minha enfermeira particular, Srta. Zeni Mendonça,
ajoelhada ao meu lado, recitava a Litania da Santa Virgem. Um dos
médicos chorava.
Quando se
recitava a invocação “Salus infirmorum”,
senti-me carregado e um outro mundo todo feito de luz e de uma
alegria Indizivel se abriu diante de mim. Sentia-me feliz, tão feliz
que não via mais nada do que se passava em torno de mim. Não sentia
mais UH dores do meu coração (tivera um enfarte);
—
chorava de alegria; sentia-me
realizado.
De repente, um velho capuchinho se
aproxima de mim, barba longa, vem em minha direção e se curva; senti
sua barba roçar meu rosto, um perfume desconhecido na terra exalava
de toda a sua pessoa; olha-me, abraça-me e diz:
“Sou Frei Leopoldo; venho te trazer uma mensagem, meu irmão;
teu exílio ainda não acabou;
viverás ainda o suficiente para continuar minha obra na terra; mas
sofrerás suficientemente na terra; tem confiança e
coragem”. Beija-me
de novo e desaparece como que evaporando-se. Neste momento, abro os
olhos e vejo a triste cena, emocionante, descrita acima.
Senti-me triste, porque vi escapar a felicidade que tanto desejei em
minha vida; senti a presença de Cristo na luz fulgurante que me
contornava. Tinha a impressão de possuí-lo, e que ele preenchia tolo
o meu ser.
De volta à realidade terrestre, senti de novo o vazio e a primeira
palavra que pronunciei, decepcionado pela dura realidade: "O que é
que há? Por que choram? Tenho fome, dêem-me algo a
comer”.
À minha volta, a alegria era
geral; em mim, era a tristeza e eu o deixo
adivinhar por quê...”
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Pg.22
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J. S. —
Médico
“Estava assentado em minha cama, quando, subitamente, vi-me
no meio dos trilhos de um trem e, à medida que percorria esses
trilhos, via a cidade à direita.
De repente, meu pé direito sai
do trilho e bate no solo e olho meu pé para ver o que se passava;
quando olho minha perna direita, atraído por não sei o que,
encontro-me, subitamente, diante de uma cena dantesca: uma floresta
extraordinária, na qual os entidos do homem não tinham mais
razão de ser: a lógica se tornava ilógica. Assim, sem que fosse
necessário olhar, via tudo quase passar em torno de mim abaixo e
acima; via as folhas no chão; sentia-as ceder, mas não havia nenhum
som; sentia os galhos das árvores, infinitamente elevados,
balançando ao vento; pressentia-os mas não os sentia; a copa das
árvores se confundia com o horizonte; o silêncio era absoluto.
A uma certa distância, vi, a
milhares de quilômetros, um homem e uma mulher, assentados, de
costas para mim; tive o pressentimento de que me viam, assim como
pressentia que estava lá para ser apresentado a alguém. Subitamente,
vi-me nos trilhos; eram duas dimensões diferentes; uma caracterizada
pela cidade; a outra dimensão caracterizada por esta visão e, agora,
reunida na minha visão como se fosse uma só realidade.
Senti-me assentado, de novo, na cama, vestido, como se nada tivesse
se passado. Eram três horas da tarde. A experiência durou apenas
alguns segundos;
mas tenho a impressão de que vários séculos se passaram.
Durante todo o dia, senti uma paz indescritível e um amor infinito
por todas
as coisas e pessoas. Esta é a descrição de minha primeira
experiência.
Nunca falei disso a ninguém porque, na minha lógica pessoal, não
encontrei
nenhuma explicação para essa experiência de cuja certeza não tinha
nenhuma
dúvida; tratava-se de algo superior à vida de todos os dias; tinha
medo que
pensassem que se tratava de produto de uma imaginação muito fértil.
A partir desta experiência, comecei a diagnosticar as doenças à
distância, a
ter intuições quanto a medicamentos que minha formação médica não
podia aceitar
e que salvaram várias vidas; previ, contra toda lógica, várias
mortes que não pude
evitar apesar da intervenção de colegas. Não são acontecimentos
quotidianos; mas
quando
acontecem nunca erram”.
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O nosso
problema, em Psicologia Transpessoal, é de investigar com os
métodos da ciência tradicional, cujo paradigma (Tart,
1971) é todo ele baseado nos cinco sentidos, um fenômeno que
não somente parece se situar numa área fora deles, mas ainda parece
pressupor o seu desligamento.
Pg.23
As
investigações feitas até agora mostram que até um certo ponto uma abordagem
clássica é possível. Iremos descrever com detalhe os métodos e técnicas
utilizados assim como os
resultados
alcançados até agora, começando pela “Análise de Conteúdo”.
Análise de
Conteúdo
É, sobretudo, a partir das descrições de
experiências da consciência cósmica que se pode ter uma idéia do que se trata.
Confrontando estas experiências, consegue-se aos poucos formar uma imagem
sincrética da experiência, embora cm linguagem que nem sempre traduz
inteiramente a natureza e a intensidade do fenômeno.
A história
procede da mesma forma quando estuda as descrições de personagens contemporâneos
a uma certa época c procura ver o que há de comum entre estes testemunhos. Se eu
quero saber como é a lua e não tenho os meios de ir até lá, só me resta o
recurso de comparar as descrições de vários astronautas e procurar quais os
pontos comuns destas descrições embora eu saiba que nunca poderei sentir e viver
o que eles viveram; uma “análise de conteúdo” permitirá aproximar-me o mais
possível do que eles perceberam na lua. Poderei, depois, comparar esta análise
de conteúdo com fotografias, registro de temperatura, de medida de campo
eletromagnético etc. etc. Mas nada substituirá o registro pessoal de impressões
como a de se sentir muito leve, mais livre e feliz, ou ainda a presença ou
ausência de saudade da terra.
Em Psicologia
já estamos muito acostumados a comparar dados subjetivos entre si e
transformá-los em algo “medível”. A classificação dos conteúdos num teste de
Horschach, num Thematic Aperception Test ou ainda num teste de reação à
frustração de Rozenzweig é um exemplo disto; o teste MM de Helena Antipoff, que
consiste em descrever as próprias mãos, se aproxima ainda mais do que nós
queremos dizer; nenhuma redação é semelhante; no entanto é possível classificar
os conteúdos em certas categorias comuns permitindo assim
tirar todo um diagnóstico da personalidade.
O primeiro a aplicar um método desta natureza foi Bucke (1901), embora sem o
rigor que a Psicometria clássica
Pg.24
exigiria hoje. Ele analisou 43 casos de consciência cósmica; além de descobrir
que quase todos tiveram a sua revelação em tomo dos 30 a 35 anos, observou 11
características comuns às descrições colhidas, a saber:
01. Uma luz
subjetiva.
02. A elevação moral.
03. A iluminação intelectual.
04. O senso de imortalidade.
05. A perda do medo da morte.
06. . A perda do senso de pecado.
07.
O caráter súbito,
instantâneo do acordar.
08.
As
características preliminares da personalidade intelectual, moral e fisica.
09. A
idade da
iluminação.
10.
O encanto
adicional a esta personalidade, que faz com que homens
e mulheres sejam sempre (?) atraídos por esta
pessoa.
11.
A transfiguração
observada por outrem no sujeito quando a
consciência cósmica está realmente presente.
Quando digo que Bucke foi o
primeiro a efetuar tal classificação de critérios, refiro-me a uma tentativa de
análise feita por um homem com formação científica. Isto não invalida os
esforços feitos por teólogos como por exemplo Tanquerey e Gauthier (1927), que
fizeram o esforço de estudar mais de 250 místicos da Igreja Católica. Grande
parte do seu tratado é consagrado a definir a experiência mística e a
diferenciá-la do falso misticismo e dos fenômenos psicopatológicos. Ao fazer
este imenso esforço, os autores chegaram a uma perfeita descrição que merece uma
análise acurada e deveria, sem dúvida, servir de pontç de confronto com análises
científicas feitas mais recentemente.
Depois da análise de Bucke, passaram-se quase sessenta anos de silêncio nos
meios psicológicos, cada vez mais impregnados de Behaviorismo e preocupados com
os aspectos e
manifestações exteriores do comportamento. A vida interior praticamente caiu no
esquecimento a tal ponto que, no
Vocabulaire de la Psychologie
de um dos meus mestres, Henri Piéron,
não se encontra a simples palavra “psiquismo”... Quanto a “consciência”, ela é
definida da seguinte forma: “Além do seu sentido moral, a consciência, como o
observa Hamilton, não é suscetível de definição, já que designa o aspecto
subjetivo e incomunicável da atividade psíquica, da qual, fora de si mesmo, não
se pode conhecer nada,
Pg.25
a não ser as
manifestações de comportamento”. E’ este lipo de definição que fez com que toda
uma geração de psicólogos, ditos “científicos”, quase esquecessem da existência
da consciência. Eu me incluo entre eles. . .. Esqueceram
que a própria Ciência é o produto direto
de um fenômeno de CONSCIÊNCIA...
Ainda
atualmente, alguns behavioristas só se interessam pelo “input” e “output”, sem
preocupação nenhuma pela “caixa preta”. E’ contra estes extremos, em parte
justificáveis do ponto de vista metodológico, que surgiu a grande reação da
Psicologia Humanística, com Maslow, A. Watts, Laing entre outros; é deste
movimento que nasceu a Psicologia Transpessoal, onde o Behaviorismo ocupa o seu
devido lugar, voltando de modo inesperado em muitos métodos, mais
particularmente o de Biofeedback, como o veremos mais adiante.
A Psicologia Transpessoal retomou a classificação de Bucke, e encontramos vários
autores preocupados em dotar os seus especialistas de critérios que lhes
permitam discriminar a verdadeira experiência cósmica de manifestações
psicopatológicas ou simplesmente de fraudes. Através destes critérios é que pode
também surgir uma definição da consciência cósmica.
Vamos, a seguir, dar uma descrição sucinta destes critérios.
Os Critérios da Consciência Cósmica
Arlhur Deikmann (1966) enumera e descreve uma série de
características
da experiência mística. Estas características são, segundo ele, as seguintes:
Realidade
Percepções não usuais
Unidade
Inefabilidade
Fenômenos transensoriais
Ch. Prince e Savage (1966), num estudo
sobre as relações da experiência mística e a regressão do ponto de vista
psicanalítico, distinguem cinco características diferentes:
- Renúncia aos
interesses terrenos
- Inefabilidade
- Qualidade noética (sentido de realidade)
- Êxtase
- Experiência fusional
Pg.26
Walter H. Pahnke
(1966), inspirado em W. T. Stace, distingue nove categorias que constituem o que
ele chama de tipologia do fenômeno místico, tipologia que ele considera como
sendo universal, independente de qualquer religião ou cultura. Eis as nove
categorias da sua tipologia:
I,
Unidade
II,
Transcendência do tempo e espaço
III,
Estado de
humor sentido como profundamente positivo
IV,
Senso do
sagrado
V,
Objetividade e realidade
VI,
Caráter
Paradoxal
VII,
Pretensa
inefabilidade
VIII,
Transitoriedade da experiência
IX,
Mudanças
positivas e contínuas nas atitudes e comportamento
W. H. Pahnke é o primeiro autor a
submeter estes critérios a um controle experimental bastante rigoroso. Fez com
que um grupo de estudantes de teologia ingerisse uma cápsula, durante uma
cerimônia religiosa, ao som de música e sob orientação de monitores treinados em
controlar os efeitos da droga. Dez estudantes ingeriram psilocibina na cápsula e
a outra metade um placebo de 200 mg de ácido nicotínico o qual provoca sensações
de calor e de vibração cerebral, chegando o efeito sugestivo ao máximo. Os dois
grupos foram submetidos a um questionário de 147 itens. Eis as diferenças
encontradas entre os dois grupos quanto às nove categorias:
|
Grupo Experimental |
Grupo |
|
Placebo |
P. |
|
1. Unidade |
62 |
7 |
.001 |
|
A, Interna
|
70 |
8 |
.001 |
B. Externa 38 2 .008
2. Transcendência do
Tempo e Espaço
3. Estado de humor
prof. positivo
A,
Alegria, graça
e paz |
84 |
6 |
.001 |
|
57 |
23 |
.020 |
|
51 |
13 |
.020 |
|
B, Amor
|
57 |
33 |
.055 |
4. Senso do sagrado 53 28 .020
5. Objetividade e realidade
63 18 .011
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