Projeto de Pesquisa:  "Brazil" a Geopolítica da Corrupção
                                                      Bibliografia fichada

 

WEIL, Pierre.
A Consciência Cósmica,
Introdução à Psicologia Transpessoal.

Petrópolis: Editora Vozes LTDA. 1978. 

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Capítulo - 1.

A Psicologia Transpessoal

 Histórico
Ao longo de toda a história da humanidade, têm surgido certas pessoas, mais particularmente sábios e santos, que declaram ter tido contato direto com a Verdade, ter tido uma intuição muito forte e indescritível de uma dimensão diferente daquela vivida pelo comum dos mortais. As escrituras sagradas de todas as religiões narram tais casos, tanto na antiguidade quanto na época moderna.
            Muitas dessas pessoas são por demais conhecidas como Krishna, Gautama o Buda, Moisés, Ezequiel, Ramakrishna, Rama Maharishi, Teresa d’Avila, João da Cruz e são representativos de correntes filosóficos ou religiosas; outros, no entanto, são desconhecidos e fazem parte do comum dos mortais; em geral guardam este tipo de experiência para si, seja por considera-la assunto demasiado íntimo, seja por medo de não serem compreendidos ou tachados de louco. De vez em quando, homens de ciência são sujeitos a ela, a às vezes a tornam pública em caráter póstumo como foi por exemplo o caso Jung.
            Vários nomes foram dados a este tipo de experiência, tais como: êxtase místico, experiência mística, experiência cósmica, experiência oceânica, experiência transcendental, Nirvana, Samadhi, Satori, Reino do Céu, Sétimo Céu, etc.
            Métodos e técnicas bastante antigos foram elaborados para se chegar a obter os seus resultados... os diferentes métodos de Ioga, O Sufismo, o Zan-zen, o Tai-Chi, diferentes técnicas de meditação, a Teosofia, o Rosa-Cruzismo, a Cabala Judaica, a Maçonaria, a Alquimia, os exercícios de Inácio de Loiola. A história e antropologia da Religião, mais particularmente Mircea Eliade,

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tem demonstrado haver bastante semelhança e convergência entre todos estes modos. René Guénon insiste mesmo na existência de um tronco comum que ele chama de “a Tradição”. 
            Nestes quinze últimos anos, tem-se notado, particularmente nos Estados Unidos, um aumento de interesse em torno deste tipo de experiência, mas desta vez nos meios científicos. Vários fatores têm contribuído para isto. Em Psiquiatria, o uso de drogas psicodélicas, mais particularmente o ácido lisérgico LSD, colocou em relevo a existência de uma entrada em outra dimensão e de um alargamento do campo da consciência, provocando a chamada experiência cósmica ou ASC (Altered State of Consciousness). Os trabalhos de Einstein e dos Físicos modernos colocaram em evidência a existência de dimensões fora do tempo e do espaço, de antimatéria e mesmo de antiuniversos.  As viagens espaciais por sua vez parecem também excitar a imaginação do público sobre estes assuntos, provocando indagações sobre a posição do homem no cosmo. A facilidade das comunicações aproximou o Oriente do Ocidente e inúmeras pesquisas psicofisiológicas colocaram em destaque modificações somáticas mais particularmente bioelétricas de grandes místicos em estado de êxtase. Em psicoterapia, por sua vez, tem-se notado a influência terapêutica de certos tipos de experiência culminante (Peak-Experience de Maslow) com modificação de sistemas de valores.
        Todos estes fatos têm contribuído para que surja um novo ramo da Psicologia, a Psicologia Transpessoal que passamos a definir agora.



Definição da Psicologia Transpessoal

A Psicologia Transpessoal é um termo que parece ter sido usado pela primeira vez por Roberto Assagioli, o criador da Psicossíntese, e também por Jung.

            Em 1969 surge nos Estados Unidos a primeira Associação de Psicologia Transpessoal que publica uma revista de Psicologia Transpessoal, tendo como editores entre outros Anthony Sutich, Michael Murphy e James Fadiman. Entre seus membros, figuram nomes tais como: Charlotte Buhler,


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Abraham Maslow, Allan Watts, Arthur Koestler, Viktor Frankl.

            Convém lembrar que já em 1966 surgia no Canadá uma revista consagrada ao estudo da consciência cósmica, sob a direção do psiquiatra Raymond Prince.
            A Psicologia Transpessoal é um ramo da Psicologia especializada no estudo dos estados de consciência; ela lida mais especialmente com a “experiência cósmica” ou os estados ditos “superiores” ou ampliados da consciência.
            Estes estados consistem na entrada em uma dimensão fora do espaço-tempo tal como costuma ser percebida pelos nossos cinco sentidos. É uma ampliação da consciência comum com visão direta de uma realidade que se aproxima muito dos conceitos da física moderna.
 
 

Metodologia da Psicologia Transpessoal 

Pelos artigos e livros que estão saindo numa progressão geométrica, pode-se delinear um conjunto de tendências metodológicas. De um lado, reconhece-se facilmente a influência direta ou indireta dos diferentes ramos de psicologia ocidental: experimental, fisiológica, patológica, clínica, evolutiva, behaviorista, gestaltista, psicanalítica, existencial, humanista.
            De outro lado, pode-se diagnosticar uma forte influência dos métodos orientais tais como o Ioga, o Zen e o Sufismo seja como objeto de estudo, seja como fonte de inspiração.
            Além disso a Psicologia Transpessoal lança mão de outras ciências tais como: a Física, Biofísica, Genética, Farmacologia, Hipnologia, Neurologia, Psiquiatria, Sociologia, Antropologia, entre outras.
        Convém dar um destaque à Parapsicologia. Esta ciência tem, como se sabe, o objetivo de estudar certos poderes chamados “paranormais”, usando mais especialmente métodos psicométricos tradicionais. Tudo indica que estes poderes são concomitantes com os estados especiais de consciência abordados pela Psicologia Transpessoal, havendo por conseguinte uma relação íntima entre duas especialidades.

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             A Psicologia Transpessoal, lançando mão de todas estas disciplinas científicas, está caminhando, assim se espera, para uma síntese progressiva dos dados, síntese esta que talvez conseguirá jogar luz cada vez mais intensa sobre o tão complexo assunto da experiência transcendental.
 
 

Resumo das Primeiras Hipóteses e Descobertas 

Ainda é muito cedo para se chegar a um corpo de doutrina solidamente estabelecido; pode-se, no entanto, dar uma vista panorâmica dos primeiros resultados colhidos, seja através de estudos experimentais com controle das variáveis, seja em estudos clínicos, seja ainda sob forma de análises especulativas.
            Um esforço muito grande tem sido feito para definir operacionalmente a Experiência cósmica a fim de que qualquer pessoa possa reconhecê-la e distingui-la de outros estados de consciência.
            Entre as características isoladas por diversos autores, podemos citar estas:
 

Unidade: é o desaparecimento da percepção dual Eu-Mundo.
Inefabilidade: a experiência não pode ser descrita com a semântica usual.
Caráter noético: um senso absoluto de que o que é vivido é real, às vezes muito mais real do que a vivência cotidiana comum.
Transcendência do tempo-espaço: as pessoas entram numa oura dimensão; o tempo não existe mais e o espaço tridimensional desaparece.
Sentido de sagrado: o senso de algo grande, respeitável e sagrado está acontecendo.
Desaparecimento do medo da morte: a vida é percebida como eterna, mesmo se a existência física é transitória.
Mudança de sistema de valores e de comportamento: muitas pessoas mudam seus valores no sentido dos valores B de Maslow (Beleza, Verdade, Bondade, etc.). Há uma subestimação progressiva dos valores morais ditos materiais e do apego ao dinheiro. O “Ser” substitui o “Ter”. 
 

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  Outras características têm sido assinaladas, mas não são comuns a todas as experiências, como por exemplo: Visão de luz deslumbrante, aparição de seres benéficos e as vezes maléficos, a concomitância de poderes parapsicológicos e outras ainda.
            A realidade desta experiência tem sido comprovada através de controles eletrocardiográficos e eletroencefalográficos; embora haja ainda dúvidas quanto à especificidade destas reações, elas indicam que algo diferente se passa na fisiologia nervosa dos indivíduos em estado de êxtase,  a tal ponto que se pode acompanhar, através do ritmo alfa, o início e o término da experiência; é verdade que o seu conteúdo escapa totalmente a este tipo de medida.
            Estudos de biofeedback colocaram em relevo a eventual natureza operante do condicionamento por eletroencefalograma; através da retroalimentação, seria possível obter estados artificiais de êxtase; o problema é justamente o da comparação dos conteúdos ou das vivências entre estes estados condicionados por sons e o verdadeiro êxtase místico.  Ainda não se tem resposta a isto.
            É possível, tal como em psicometria, criar testes, questionários e inventários e submetê-los a análises estatísticas.
Algumas experiências já apareceram e têm sido isolados fatores específicos através da análise fatorial.
            A Psicanálise, já no tempo de Freud, emitia a hipótese de que estes estados – ou “experiência oceânica”, como a intitulava talvez com certa ironia o próprio Freud – seriam regressão ao seio materno. Inúmeras hipóteses têm sido examinadas em torno desta tese regressiva; tudo indica que existem estados místicos de pseudofusão regressiva nos níveis pós-uterino, intra-uterino e pré-uterino; as provas da existência e memória celular (ADN,ARN) e de continuidade de vida orgânica e inorgânica, levam a pensar que a experiência seria na realidade uma regressão ao nível de potencialização da energia. Os inúmeros trabalhos sobre o LSD fazem pensar numa tese desta natureza.
            Outros estimam que, ao contrário de uma regressão, a experiência cósmica seria um estágio superior da evolução. Esforços estão sendo feitos atualmente para traçar mapas evolutivos e discriminar os estágios de acesso a esse tipo de experiência. Os mapas de cinco ou sete fases são os mais frequentes, influenciados sem dúvida pelos diferentes tipos de Ioga.

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            Ao nosso ver, não há nenhuma contradição entre a tese regressiva e a evolutiva, já que se trata de uma experiência fora da nossa dimensão espaço-temporal, onde ir para frente ou para trás não faz mais sentido.
            A hipnologia tem também sua palavra a dizer. Estudos comparativos estão sendo publicados, visando confrontar estados hipnóticos nas suas diversas profundidades com a experiência cósmica; a tese da regressão prevalece aqui também, embora tudo indique igualmente que ela se situa nível de sono profundo.
            Como se sabe, a abstinência sexual é assinalada por inúmeros autores como sendo um fator importante neste tipo de experiência; o êxtase sexual seria substituído pelo êxtase cósmico, havendo uma transmutação da energia sexual. O orgasmo individual é confrontado com um tipo de orgasmo chamado pelos autores de “orgasmo cósmico”.
           Sem dúvida há relações entre regressão, sono (natural ou hipnótico), orgasmo e experiência cósmica; que tipo de relação é este, resta ainda por determinar.
         A Psicossociologia tem, com certeza, a sua palavra a dizer; porque em certos estados místicos aparecem conteúdos mentais (Cristo ou Buda por exemplo), ligados diretamente a certas culturas religiosas. Este problema está diretamente relacionado com a hipótese de Jung segundo a qual o arquétipo seria uma forma em potencial energético sobre o qual fatores culturais vêm se enxertar. É uma hipótese que é preciso cercar de perto do ponto de vista experimental.
        Falamos nos arquétipos junguianos. A psicogenética tem com certeza a sua palavra a dizer neste assunto bem complexo.
           As experiências com mescalina e LSD, desde Huxley até Leary, levantam problemas que merecem análises acuradas, pois estão aí as questões das relações entre droga e experiência mística e também entre o que é alucinação e realidade.
         Se aceitarmos atese de Leary, temos em nós toda uma aparelhagem que nos permite penetrar diretamente sem passar pelos canais da ciência, em todos os domínios científicos, humanos, animais, celulares, atômicos e mesmo no “vazio”.

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            Segundo tradição muito antiga, esta aparelhagem seria localizada na glândula pineal, chamada de terceiro olho pelos fisiologistas dos batracianos. Recente simpósio sobre esta glândula destacou a existência de células fotossensíveis, fonossensíveis e de secreção de um hormônio inibidor das glândulas sexuais. Talvez tenhamos aí um aparelho de TV multidimensional.
 

Importância da Psicologia Transpessoal no Mundo Moderno

           Se confrontarmos os esforços imensos desenvolvidos pela ciência ocidental no sentido de se aproximar cada vez mais da Realidade e se, de outro lado, pensarmos na existência de uma possibilidade de controle da mente no sentido de uma visão direta desta realidade, de uma percepção instantânea, temos de reconhecer que vale a pena investir esforços e energia numa investigação imparcial e “objetiva”  de tal possibilidade, mesmo correndo o risco, próprio a toda ciência, de ter emitido uma hipótese sem fundamento.
Mas a Psicologia Transpessoal levanta muitos outros problemas cruciais para a humanidade.
            Por exemplo, não sabemos até hoje muito bem o que significa uma percepção “normal”, ou mais ainda o que é ser “normal”; o conceito de normalidade varia conforme as épocas e conforme as sociedades e culturas. A Psicologia Transpessoal está a colocar em questão a própria legitimidade da nossa percepção dos cinco sentidos e do nosso racionalismo cartesiano, fruto de automatismos e condicionamentos adquiridos através desses mesmos sentidos.
            Está também colocada em questão o processo tradicional de classificar como doente mental toda e qualquer pessoa que tem percepções inusitadas e provindo de áreas fora dos cinco sentidos ou da lógica tradicional. Até que ponto grande proporção de pessoas internadas como psicopatas nos hospitais psiquiátricos não são, na realidade, pessoas normais que estavam a caminho de uma ampliação do seu campo de consciência? Há aí um problema grave que a psiquiatria terá que enfrentar um dia.
 
 

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            A Psicologia Transpessoal tem também sua palavra no fenômeno mundial do uso de drogas, mais particularmente as chamadas “Psicodélicas”; tudo indica que os chamados “viciados” encontram verdades ou estão à procura delas. Uma ajuda mais eficiente poderá ser dada quando as autoridades repressoras forem melhor esclarecidas sobre a natureza das experiências psicodélicas e os que estão à procura das verdades eternas poderão ser esclarecidos quanto a caminhos menos danosos ou mesmo inteiramente seguros.
        As fronteiras da própria Psicologia estão sendo rasgadas com o advento da Psicologia Transpessoal; o objetivo e o subjetivo, ao se fundirem dentro da Realidade total, constituem uma síntese desafiadora para o Psicólogo do futuro.
      Como diz Carl Rogers: “Talvez na próxima geração de psicólogos mais jovens, esperançosamente desembaraçados das proibições e resistências universitárias, haja alguns que ousarão investigar a possibilidade de haver uma realidade licita, que não está exposta aos cinco sentidos, uma realidade na qual o presente, o passado e o futuro estão interligados, uma realidade que pode ser percebida e conhecida somente quando somos passivamente receptivos, em vez de ativamente inclinados a conhecer. É um dos desafios mais excitantes postos à Psicologia”.
        Estas palavras de Rogers, pronunciadas em 1972, projetam para um futuro longínquo algo que já está acontecendo estes últimos anos. Psicólogos, nem sempre muito jovens, estão atacando o problema com todos os meios ao seu alcance, acompanhados nesta tarefa por psiquiatras, sociólogos, antropólogos, lamas tibetanos, swamis hinduístas e grandes místicos da civilização judeu-cristã.
       São estes trabalhos que iremos agora expor de maneira mais detalhada, começando pelo problema da definição e descrição da experiência cósmica.
      Ao fazê-lo queremos ainda deixar bem claro algumas posições que assumimos nesta explanação:

 Algumas Observações Importantes

1) Adotamos uma abordagem tipicamente científica no sentido ocidental do termo, isto é, colocamo-nos num ponto de vista

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descritivo, "neutro", procurando citar trabalhos d observação ou, quando possível, de experimentação com controle rigoroso das variáveis em jogo. Pois como eu já o expus no meu livro sobre a Esfinge, estou convencido de que se pode abordar estes problemas dentro de uma linha behaviorista, incluindo neste termo o comportamento verbal através do qual podemos atingir os estados ditos "interiores".

2) O fato de abordarmos e descrevermos vários métodos de indução da consciência cósmica integrante de correntes ideológicas diversas não significa nenhuma adesão ou recomendação de qualquer uma destas, embora, eu pessoalmente, tenha experimentado algumas delas.

3)  Ao fazê-lo, me coloquei num ponto de vista experiencial no sentido de Laing. Sei hoje que é possível ter experiências interiores fora do pensamento lógico e que este último pode ser utilizado depois da experiência. O confronto de vários depoimentos ou análises permite aos poucos colocar em relevo o que há de comum entre as experiências de diversas pessoas. (negrito original do autor)

4) Mais especificamente, no que se refere ao espinhoso assunto das drogas, como a maconha e o LSD, quero também frisar que:
      O fato de eu citar trabalhos experimentais em nível universitário não significa que eu esteja recomendando o uso indiscriminado de drogas psicodélicas, uso que está conduzindo muitos jovens a estados descontrolados de psicose.

5) Exposições como esta que estamos apresentando podem levar muitas pessoas a uma procura desesperada de estado permanente e utópico de "Nirvana", levando-as a querer viver fora da realidade quotidiana. Quero lembrar aqui que os grandes místicos que eu vi em Ashrams indianos ou mosteiros tibetanos também cuidam de assuntos administrativos, de detalhes de construção, de assinar cheque e de buscar o leite na hora certa. No entanto a maneira de executar estas tarefas terrenas é impregnada de uma consciência ampla e de um controle da mente nas suas ações quotidianas.

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6) Dificuldades semânticas devidas a imprecisões e pobreza do vocabulário ocidental nos forçarão, às vezes, a usar termos sânscritos, tibetanos ou hebraicos, pois estas línguas são muito mais desenvolvidas neste terreno. Daremos o seu significado na hora oportuna.

Mais especificamente no que se refere ao termo "Consciência Cósmica", o usamos, mesmo a título provisório; se de vez em quando aparecem outros termos como Estágios superiores de Consciência, ASC, Experiência Mística, isto é devido ao fato de que há ainda uma certa indeterminação de termos na nossa civilização ocidental.

 

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