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Não
significa isso que formas de arte do Zen sejam deixadas ao mero acaso,
como, por
exemplo, se uma pessoa mergulhasse uma cobra dentro de tinta,
deixando-a depois
contorcer-se à vontade sobre uma folha de papel. Significa
antes
que, para o
Zen, não há
As
formas de arte do mundo ocidental nascem de
tradições
filosóficas e espirituais
em que o espírito está dividido da natureza, e
desce do
céu para trabalhar,
como uma energia inteligente sobre uma matéria inerte e
recalcitrante. É assim
que Malraux fala constantemente do artista
“conquistando” o
seu meio de
expressão, tal como os nossos exploradores e cientistas
falam
também em
conquistar montanhas ou o espaço. Para
ouvidos chineses e japoneses essas expressões são
grotescas. Porque, quando
a subimos, é tanto
a montanha como as nossas próprias
pernas que nos leva
para cima, e quando pintamos são tanto o pincel, a tinta e o
papel que
determinam o resultado, como a nossa própria mão.
O
Taoismo, o Confucionismo e o Zen, são expressões
de uma
mentalidade que se
sente perfeitamente em sua casa neste universo, e encara o homem como
parte
integrante do que o rodeia. A inteligência humana
não
é um espírito de outras
regiões que tenha sido aprisionado, mas um aspecto de todo o
organismo, intrincadamente
equilibrado, do mundo natural, cujos princípios foram pela
primeira vez
explorados no Livro
das Modificações.
O Céu e a Terra são, ambos do mesmo modo, membros
deste
organismo, e a natureza
é tanto nosso pai como nossa mãe, visto que o
Tao, pelo
qual funciona, se
manifesta originalmente no yang
e no
Yin – os princípios masculino e feminino, positivo
e
negativo, que, em
equilíbrio dinâmico, mantêm a ordem no
mundo. A
percepção que está na base
da cultura do Extremo Oriente é a de que os opostos
são
relativos e, portanto
fundamentalmente harmoniosos. O
conflito é sempre
comparativamente
superficial, pois não pode haver conflito extremo quando os
pares de opostos
são mutuamente interdependentes. Assim, as nossas
rígidas
divisões de espírito
e natureza, sujeito e objeto, bem e mal, artista e meio, são
perfeitamente
estranhas a essa cultura. Pg.211 Dado que o mundo
não vai para lado
nenhum, não há
pressa. Podemos perfeitamente “ter calma” como a
própria natureza, e na língua
chinesa as “modificações” da
natureza e
“calma” são a mesma palavra, i.
Este
é o primeiro
princípio para o estudo do zen
e
de qualquer arte do Extremo Oriente: a pressa, e tudo que ela envolve,
é fatal. Porque não
há alvo a ser
atingido. A partir do momento
em que se concebe um alvo torna-se impossível praticar a
disciplina da arte,
dominar o próprio rigor da sua técnica. Sob o
olhar
atento e crítico de um
mestre, podemos praticar a escrita de caracteres chineses durante dias
e dias,
meses e meses. Mas ele observa como um jardineiro pode observar o
crescimento
de uma árvore, e pretende que seu discípulo tenha
a
atitude da árvore – a atitude de crescer sem
propósito, um
crescimento que não há atalhos porque cada fase
do
caminho é, a um tempo,
princípio e fim. É
por isso que o maior dos mestres
não se congratula a si
próprio por ter “chegado” antes que o
principiante
cheio de hesitações.
Por
muito paradoxal que possa parecer, a vida cheia de propósito
não tem conteúdo
nem significado. Apressa-se para diante e tudo deixa escapar. Não
se
apressando, a vida sem propósito nada deixa escapar, porque
é apenas quando não
há alvo nem pressa que os sentidos humanos se abrem
completamente para receber
o mundo. A ausência de
pressa implica também uma certa
falta de interferência
no curso natural dos acontecimentos...como já vimos, a
mentalidade Taoista nada
faz, ou força, mas “cria” tudo. Quando
se compreende
que a razão humana é uma
expressão do mesmo equilíbrio
espontâneo de yang
e de yin
o universo natural, a ação
do homem sobre o que o rodeia é sentida como um conflito,
como uma
ação a partir do
exterior... A dificuldade para descrever essas coisas a ouvidos
ocidentais está
em que as pessoas apressadas não podem sentir...Embora possa
parecer que as
artes do Zen se confinam às mais requintadas
expressões
de cultura, devemos
recordar que quase todas as profissões e ofícios
são conhecidos, no Japão, como
um do,
isto é, um Tao ou caminho, aproximadamente o que no
Ocidente,
era conhecido por
um “mister”...
Após
a perseguição ao Budismo chinês em 845,
o Zen foi,
durante algum tempo, não só
a forma dominante do Budismo, mas também a mais poderosa
influência espiritual
no crescimento da cultura chinesa... durante esse tempo os mosteiros
Zen
tornaram-se os centros principais da erudição
chinesa.
Eruditos laicos, tanto
Confucionistas como Taoistas, os visitavam para períodos de
estudo, e os monges
Zen, por sua vez, familiarizavam-se com Pg.213 Pg.214
Os
mestres Sung eram predominantemente pintores paisagistas, criadores de
uma tradição
de “pintura da natureza” que mal conseguiu ser
ultrapassada
em qualquer parte
do mundo, porque ela nos mostra vida da natureza – de
montanhas,
rios,
nevoeiros, rochedos, árvores e pássaros
– tal como
são sentidos no Taoismo e
pelo zen. É um mundo onde o homem pertence mas que
não
domina; é suficiente
para si próprio, pois não foi “feito
para”
ninguém e não tem qualquer propósito
próprio. Pg.215 Pg.216
O
olhar do ocidental é imediatamente surpreendido pela
ausência de simetria
destas pinturas, pelo evitar constante de formas regulares e
geométricas, que
direitas quer curvas. Porque o traço
característico do
pincel é desigual,
torcido, irregularmente ondulado, salpicante ou cheio –
sempre
mais espontâneo
que predizível.
Mu-ch’i
e Liang-k’ai, usaram muitas vezes, como tema para seus
quadros,
Patriarcas e
mestres Zen, que, na maior parte dos casos, representam como
despreocupados
lunáticos, carrancudos, gritando, mandriando, ou rindo a
bandeiras despregadas
perante folhas levadas na corrente. Pg.217
Adotaram...
seus temas favoritos, como figuras representativas do Zen, os dois
eremitas
loucos, Han-shan e Shih-te, e o deus da tradição
popular
Pu-tai, de enorme
rutundidade, completando assim a enorme coleção
de
felizes miseráveis e vadios,
destinada a exemplificar o esplêndido absurdo e vazio da vida
no
Zen. O Zen e –
até certo ponto – o Taoismo parecem ser as
únicas
tradições espirituais que se
sentem suficientemente seguras para se satirizarem a si
próprias, ou
suficientemente não-autoconscientes para rirem
não
só da
sua religião mas no
próprio seio dela. Nestas figuras de lunáticos,
os
artistas Zen retratam algo,
muito pouco, mais que uma paródia ao seu próprio wu-shin
“ou desinteressado” modo de vida,
pois tal como “o gênio é
parente próximo da loucura” há
também o
sugestivo paralelismo entre o balbuciar
sem sentido do lunático feliz e a vida sem
propósito do
sábio Zen. Segundo as
palavras de um poema Zenrin:
Assim,
a
vida sem um fim em vista é o tema
constante da arte Zen em todos os seus gêneros, exprimindo o
próprio estado
interior do artista de não ir para parte alguma num momento
sem
tempo.
Todos os homens têm, ocasionalmente, tais momentos, e
é
precisamente então que
aprendem essas vivas imagens do mundo... o cheiro de folhas queimadas,
na névoa
de uma manhã de outono; um bando de pombos, iluminados pelo
sol,
voando contra
o fundo negro de uma trovoada; o de uma cascata a cair...
Quando
a disposição do momento é de
solidão e
silêncio, chama-se sabi.
Quando o artista se
sente deprimido ou triste e, nesse
peculiar vazio de sentimento, tem um vislumbre Pg.218
Desde
os primeiros tempos que os mestres Zen mostram um acentuado pendor para
poemas
curtos, liliputianos – a um temo lacônicos e
diretos, como
as suas próprias
respostas às perguntas sobre Budismo. Muitos deles... que
extraímos do Zenrin
Kushu, continham claras
referências ao Zen e a seus princípios. Pg.225 |
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