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A
ilusória divisão resulta da tentativa da mente
para
ser, ao mesmo tempo, ela própria e a sua idéia
dela própria, de uma fatal
confusão entre fato e símbolo.
Para por fim a
ilusão, a
mente deve parar de tentar agir sobre
si própria, sobre a corrente de suas experiências,
baseada na idéia de si
própria que chamamos o ego.
Outro poema Zenrin
exprime isso como
Na
ênfase que põe na naturalidade, o Zen é
obviamente
o herdeiro do Taoismo, e o seu encarar a ação
espontânea como “maravilhosa
atividade” (miao-yung)
é precisamente
o que os Taoistas significavam pela palavra te
– “virtude” como uma
ressonância de poder mágico.
Mas, nem no Taoismo nem
no Zen, tem isto seja o que for a ver com o mágico no
sentido meramente
sensacional de realizar “milagres” sobre-humanos. A
qualidade “mágica” ou
“maravilhosa” da ação
espontânea reside, pelo contrário, em ser
perfeitamente
humana e, contudo, não mostrar qualquer sinal de ser
planejada. nas palavras de
Yü–men: “Ao
andar, anda apenas. Ao sentares-te, senta-se apenas. Acima de tudo
não te
disperses” Porque a qualidade essencial da naturalidade
é a sinceridade da
mente não dividida, que não hesita entre
alternativas... Há uma total
contradição em
“naturalidade planejada” e “sinceridade
intencional”. Isso é tapar, e não
descobrir, a “mente original”. Do mesmo modo,
tentar ser natural é uma
afetação. Como diz um poema Zenrin:
Não
o podes alcançar pelo uso do pensamento.
É, evidentemente,
parte do próprio gênio da mente humana
o poder, como pode, afastar-se da vida e refletir sobre ela, ter
consciência da
sua própria existência, e ser capaz de criticar os
seus próprios processos. Na
verdade, a mente possui algo semelhante a um sistema de
“feed-back”...um dos
princípios básicos da
“automação”, ou seja, de
possibilitar as máquinas de se
controlarem...
dá a uma
máquina a
capacidade de estar informada sobre os efeitos da sua
própria ação, de modo a
poder corrigi-la. O exemplo mais familiar talvez seja o do termostato
elétrico,
regulando o aquecimento de uma casa...O termostato fornece à
caldeira uma
espécie de órgão sensitivo –
análogo, de modo extremamente rudimentar, à
autoconsciência humana.
O ajustamento exato de um
sistema de “feed-back”
constitui sempre um complexo problema mecânico, pois a
máquina original,
digamos a caldeira, é ajustada pelo sistema de
“feed-back”, mas este sistema
necessita, por sua vez, ajustamento. Portanto, a
produção de
Mas o sistema
poderá ser paralisado ainda de outro modo. Todo
o sistema de “feed-back” necessita
uma margem de erro. Se tentarmos
produzir um
termostato de precisão absoluta – isto
é, se trazemos os níveis superior e
inferior até quase o mesmo nível, numa
tentativa de manter a temperatura
constante, a 70º F.
por exemplo – todo o
sistema de avaria. Porque
se os limites superior e inferior coincidem, os sinais para ligar e
desligar
coincidirão também!... A partir daqui o mecanismo
entrará em
“oscilação”,
ligando e desligando, ligando e desligando, até s desfazer
em pedaços. O
sistema é demasiado sensível
e
apresenta sintomas espantosamente
semelhantes à ansiedade humana. Porque quando o ser
humano é tão
autoconsciente, tão autocontrolado, que não
consegue libertar-se a si próprio,
hesita ou cambaleia entre opostos.
É isto precisamente o que, no Zen, se entende por
andar constantemente de
roda no “círculo de nascimento-e-morte”,
pois samsara Budista
é o protótipo de todos os círculos
viciosos. Pg.170 As memórias
organizem-se em
termos de imagens mais ou menos abstratas – palavras, sinais,
formas
simplificadas, e outros símbolos que podem ser revistos
muito rapidamente, uns
após outros. De
tais memórias, reflexões
e símbolos, a mente constrói a sua ideia de si
própria. Corresponde isto ao
termostato – a fonte de informação
sobre a sua própria ação passada,
através da
qual o sistema corrige a si próprio. Evidentemente
que a mente-corpo deve
confiar nessa informação a fim de agir, pois a paralisia em breve
resultará de uma
tentativa para recordar se nos recordamos
de tudo acuradamente.
Eis porque, tantas vezes, o
Zen parece tomar o partido de
ação, como oposta à
reflexão, e porque se descreve a si próprio como
“não-mente” (wu-hsin)
ou
“não-pensamento” (wu-nien),
e ainda
porque demonstram
os mestres o Zen por
meio de respostas, instantâneas e não
premeditadas, às perguntas que lhes são
dirigidas. Quando perguntaram a
Yün-men qual era o segredo essencial do
Budismo, replicou: “Pudim de
maçã!” Segundo as palavras do mestre
japonês
Takuan:
O mesmo é
verdadeiro no que se refere à relação
entre
sentir e ação. Porque o sentir bloqueia a
ação, e a si próprio como forma de
ação, quando é apanhado por essa mesma
tendência para se observar ou sentir a
si próprio por um tempo indeterminado – como
quando, precisamente quando me
estou a divertir, me examino a fim de verificar se eu estou a
aproveitar o mais
possível da situação. Não
contente
com sentir-me feliz, quero sentir-me a mim próprio
sentindo-me feliz – como
para estar certo de nada perder.
Quer se trate de confiar na
memória, quer na mente, para
agirem por si próprias, chegamos ao mesmo resultado: em
última instância
temos de pensar e agir, viver e morrer, a partir de
uma fonte que está para além do
“nosso” conhecimento e controle. Mas essa fonte
somos nós próprios e, quando compreendemos isto,
deixa de se erguer contra nós
como um objeto ameaçador.
Não há
cuidado e hesitação, não há
introspecção e busca das nossas
motivações, que tragam qualquer definitiva
diferença ao fato de a mente ser Mas as nossas
decisões quanto
ao plano convencional devem ser apoiadas na
convicção de que, seja o que for
que façamos, e seja o que for que nos
“aconteça”, está, em
última análise,
“certo”. Por outras palavras, devemos
entregar-nos à ação sem
“segundos pensamentos”, sem o arrière-pensée
de arrependimento, hesitação, dúvida
ou auto
recriminação. ...
Mas agir sem
“segundos pensamentos”, sem duplicidade na mente,
não é de modo algum mero preceito que devemos
imitar. A verdade é
que
não
podemos entender esse tipo de ação até
ser claro, para lá de qualquer sombra de
dúvida, que é realmente impossível
agir de qualquer outro modo. Como diz Huang-po:
Os homens temem esquecer as suas
próprias mentes, receando cair através
do através do vácuo sem nada a que se agarrarem.
Desconhecem que o vácuo não é
realmente o vácuo mas sim a verdadeira região do
Dharma... Não é procurada,
compreendida por sabedoria ou conhecimento, explicada por palavras, contactada
materialmente (isto
é, objetivamente),
ou alcançada através de atos meritórios.
Ora esta impossibilidade de
“agarrar a mente com a mente”
é, quando bem entendida, a
não ação “wu-wei”,
o “calmamente sentado nada fazendo”
graças ao qual “a primavera vem, e a
erva cresce por si própria”. Não
é necessário que a mente tente libertar-se a
si própria. Ou que tente
não tentar. Isto vem
introduzir novos artificialismos.
Segundo a doutrina do mestre japonês Bankei (1622-1693), a
mente que não se
pode agarrar a si própria é chamada
“não nascido” (fusho),
a mente que não surge ou aparece no plano do conhecimento
simbólico.
Um laico disse,
“Aprecio muito a
tua instrução acerca do não-nascido
mas, por força do hábito, continua a haver
uma tendência para surgirem segundos pensamentos (nien)
e, na confusão por eles provocada, é
difícil estar em
perfeito acordo com o Não-nascido. Como poderei confiar
inteiramente nele?” Pg.174
Bankei disse, “Se
tentas
fazer parar os segundos pensamentos que surgem, então a
mente que faz parar e a
mente que é parada dividem-se e não há
possibilidade de paz para a mente.
Assim, o melhor para ti é pensares que, originalmente,
não há segundos
pensamentos. É
certo que, por afinidade karmica, através do que
vês e do que ouves tais
pensamentos surgem e desvanecem-se temporariamente, mas não
tem qualquer
substância.”
“Tentar sacudir os
pensamentos que surgem é como lavar sangue com sangue.
Continuamos impuros
porque nos lavamos com sangue, mesmo quando já desapareceu o
sangue que
anteriormente havia – e se continuarmos a agir desse modo,
nunca nos
libertaremos da impureza. Isto acontece pela
ignorância da natureza não nascida,
não-evanescente, e não confusa da mente. Se
tomarmos efetivamente o segundo pensamento
como
realidade, continuamos a andar de roda no circulo de
nascimento-e-morte. Deverás
compreender que tal
pensamento
é apenas uma construção mental
temporária,
e não tentares mantê-la ou rejeita-la. Deixe-a em
paz, tanto quando ocorre como
quando cessa.
É como
uma imagem refletida num espelho. O espelho é
límpido e reflete tudo que esteja em frente dele, e no
entanto nenhuma imagem
se prende ao espelho.
A
mente Buda (isto é, a mente real, não nascida)
é dez mil vezes mais límpida que
um espelho e mais inexprimivelmente maravilhosa.
Na sua luz, todos
esses pensamentos desaparecem
sem deixar rasto.
Se
puseres a tua fé neste modo de compreender, por mais
fortemente que surjam,
esses pensamentos são inofensivos.”
Mantendo isto em mente,
poderemos observar a liberdade e
naturalidade do Zen sem qualquer perda de perspectiva. É
como se alguém
me tivesse
dado um remédio, avisando-me que não resultaria
se eu, ao toma-lo, pensasse
num macaco.
Enquanto me
lembrar de
esquecer
o macaco, estou
numa situação de “entre a espada e a
parede” em que “fazer” é
“não fazer”, e
vice-versa. “Sim” implica
“não”, e
“começa” implica
“para”. Neste ponto o Zen
vem e pergunta-me, “Se não consegues deixar de
recordar o macaco, estás a
fazê-lo de propósito?” por outras
palavras, tenho a intenção de ser
intencional, o propósito de ser propositado? Subitamente
compreendo que o meu
próprio pretender é espontâneo, ou que
meu próprio controlador – o ego – nasce
do meu Próprio não-controlado ou natural. Nesse
momento, todas as maquinações
do ego ficam em nada; é aniquilado em sua própria
armadilha. Verifico que é
realmente impossível não ser
espontâneo. Porque aquilo que não posso eixar de
fazer, faço expontanemente, mas se, ao mesmo tempo, estou a
tentar controla-lo,
interpreto-o como uma compulsão...
É esta a altura em
que a qualidade da consciência é
inteiramente modificada, e me sinto num mundo novo onde, é,
contudo, óbvio que
sempre vivi. Assim que
reconheço que minha ação
voluntária é propositada,
acontece espontaneamente “por si
própria”, tal como respirar, ouvir e sentir, estou
finalmente livre da
contradição de
tentar ser espontâneo. Não há
verdadeira contradição porque
“tentar” é
“espontaneidade”... Não resta
qualquer obstáculo à
espontaneidade quando se verifica que tentar é
desnecessário. Como vimos, a
descoberta de que tanto o aspecto voluntário como o
involuntário da mente são
de igual modo, espontâneos, põe um fim imediato ao
dualismo estabelecido entre
a mente e o mundo, entre o conhecedor e o conhecido. O mundo novo em
que me
encontro tem uma extraordinária transparência ou
ausência de barreiras,
Aqui
reside, pois, o sentido da asserção, tantas vezes
repetida, segundo a qual “todos os seres
estão em nirvana”
“logo
desde o início”,
“todo
dualismo é falsamente imaginado”,
“a
mente comum é o Tao”
e não há
qualquer sentido em tentar chegar a acordo com ele. Segundo as palavras
do
Cheng-tao ke:
Tal como o céu vazio,
não tem ele fronteiras,
Foi ao compreender isto que,
no momento de seu satori,
Hakuin bradou, “Oh maravilha! Oh
maravilha! Não há nascimento-e-morte a que
escapar, nem qualquer
supremo conhecimento que nos
tenhamos de
esforçar por conseguir!”. Ou, segundo as palavras
de Hsiang-yen:
Portanto, vendo que
não há possibilidade de nos
afastarnos do Tao, somos como o homem “descuidado”
de Hsüan-chüe, que
Ele nem evita os
falsos
pensamentos nem busca a
verdade,
Deixamos de tentar ser
espontâneos por vermos que é
desnecessário tentar, e aí e então (o
satori) pode acontecer. Os
mestres Zen provocam muitas vezes este estado
por meio de um estratagema.
Iludem uma pergunta e, quando quem os interroga
se volta para partir, chamam-nos subitamente pelo nome. O
discípulo responde,
muito naturalmente, “sim?” e então o
mestre exclama, “Aí está!”
Para o leitor ocidental, tudo
isto poderá parecer uma
espécie de panteísmo, uma tentativa de varrer os
conflitos de que “tudo é
Deus”. Mas,
segundo o ponto de vista do
Zen, isto está muito longe da verdadeira naturalidade,
pois engloba a
utilização do conceito artificial –
“tudo é Deus” ou “tudo
é o Tao”. O
Zen anula este conceito, demonstrando que
é tão desnecessário como qualquer
outro. Não
se consegue a vida
espontânea, dependendo da repetição de
pensamentos ou postulados.
Para o lógico
parecerá, é claro, que o ponto a que
chegamos é pura insensatez – o que de certo modo
é verdade. Segundo o ponto de
vista do Budismo, a
própria realidade
Pg.179 não
tem sentido, visto que
não é um sinal apontando para algo que fique
além dela...além de karma,
além da
ação dedutiva... vida absolutamente desprovida de
finalidade... tanto para o
Zen quanto para o Taoismo, essa é precisamente a vida do
universo, que é
completa em cada momento e não necessita justificar-se a s
própria, pretendendo
algo que fique mais além.
Para a mentalidade Taoista, a
vida vazia e sem finalidade
nada sugere de deprimete. Pelo contrario, sugere-se a liberdade das
nuvens e
dos rios das montanhas, indo sem destino, e flores em desfiladeiros
inacessíveis, belas para que ninguém as veja, e
da ressaca do mar para sempre
lavando a areia, sem nenhum propósito.
Além disso, a
experiência do Zen é mais uma conclusão
que uma premissa. Nunca
é utilizada
como primeiro elo num encadeado de argumentação
ética ou metafísica, porque as
conclusões conduzem a ela em vez dela partirem.
Dizer que
“tudo é o Tao” é
quase apanhar a ideia mas, no preciso momento em que a vamos apanhar,
as
palavras perdem por completo o sentido. Porque, aqui, as palavras
deixam de ter
valor porque implicam sempre um significado para além delas
– e, aqui, não
existe qualquer significado para além.
O Zen
não
comete o erro de usar a experiência de que
“todas as coisas são de um único
Tal-qual (ismo)” como premissa para uma ética
de fraternidade universal. Pelo
contrário, Yüan-wu diz:
Se és um
verdadeiro homem,
podes perfeitamente levar (roubar)
o boi do agricultor, ou arrancar a
comida a um esfomeado. Isto
significa apenas que o Zen está para além de um
ponto de vista ético, cujas
sanções se encontram, não na
própria realidade, mas no consenso mútuo dos
seres humanos.
Quando
tentamos universaliza-lo
ou absolutizá-lo, o
ponto de vista ético
torna a existência impossível, pois não
podemos viver um dia sequer sem
destruir a vida de qualquer outra criatura. Se
o Zen é
encarado como tendo as mesmas funções que uma
religião no Ocidente, é natural
que queiramos encontrar alguma ligação
lógica entre a sua experiência fulcral e
a melhoria das elações humanas. Mas isso, na
verdade, é por o carro diante dos
bois. A questão
está antes em que uma experiência ou caminho de
vida como
este é o objeto de relações humanas
melhoradas. Na cultura do Extremo Oriente, os
problemas
das relações humanas são
mais da alçada do Confucionismo que do Zen,
mas, desde a dinastia Sung
(959-1278) o Zen tem constantemente favorecido o confucionismo, e
constitui a
principal via para introdução dos seus
princípios no Japão. Isto porque viu a sua
importância
para a
criação do tipo de matriz cultural em que o Zen
se poderia Pg.181 desenvolver
sem entrar em conflito com a
ordem social, pois a ética
Confucionista é confessadamente humana e relativa.
Não divina e absoluta.
Embora profundamente
“inconsequente”, a experiência do
Zen tem consequências no sentido de poder ser aplicada em
qualquer forma, em
qualquer atividade humana concebível, e de, onde quer que
seja aplicada,
emprestar a essa atividade uma qualidade inconfundível. As
notas
características da vida espontânea são mo
chih ch’u ou
“continuar em frente sem
hesitação”, wu-wei,
que poderemos entender aqui por “ausência de
propósito”, e wu-shih,
simplicidade ou ausência de
afetação.
Visto que a
experiência do Zen não implica qualquer linha
de ação específica, dado que
não tem propósito ou
motivação, volta-se sem
hesitar para qualquer coisa que se apresente para fazer. Mo-chih
ch’u
é a mente funcionando sem estorvos, sem se
“dispersar”
entre alternativas, e uma grande parte do treino Zen consiste em
confrontar o
estudante com dilemas que ele deverá resolver, sem parar
para deliberar e
“escolher”. A reação
à situação deverá surgir
tão imediatamente como o som que
sai das mãos quando se batem palmas... O estudante
não habituado a
esse tipo de reação ficará
inicialmente confuso mas, a medida que vai
adquirindo confiança na sua mente
“original” ou espontânea, não
só reagirá com
facilidade, como as próprias reações
irão adquirindo uma extraordinária
congruência... Pg.182
Susuki traduziu uma longa
carta Zen takuan, sobre a
relação do Zen com a arte da esgrima, e
é este sem dúvida o melhor exemplo
literário do que o Zen entende por mo-chih
ch’u, por
“ir a direito para frente, sem hesitar”. Tanto
Takuan como Bankei salientaram o fato
de a mente “original” ou
“não-nascida” estar constantemente a
operar milagres, mesmo na mais comum das pessoas.
Tanto
Takuan como Bankei
salientaram o fato de a mente “original” ou
“não nascida” estar constantemente
a operar milagres, mesmo na mais comum das pessoas. Ao ser
constantemente
interrompido por um agressivo monge... que continuava a insistir que
não
compreendia uma palavra, Bankei pediu-lhe que se aproximasse. O monge
deu Pg.183 um passo a frente.
“Mais perto
ainda”, disse Bankei. O monge avançou de novo.
“Que bem”, disse Bankei, “que me
compreendes!”. Por outras palavras, o nosso organismo natural
executa as
atividades mais maravilhosamente complexas, sem a menor
hesitação ou
deliberação.
O Zen não é
meramente o culto da ação impulsiva.
A intenção de mo chih ch’u não é eliminar
o pensamento reflexivo, mas sim eliminar o
“bloqueio” tanto na ação como
no
pensamento, de modo que a
reação seja sempre com uma bola num rio da
montanha
– “um pensamento após outro sem
hesitação”. Pg.184 Trata-se, claro, do
mesmo
princípio segundo o qual nos libertamos da
contradição de “tentar ser
espontâneo”... se diz, por exemplo, que um Buda
está livre do apego às coisas
do mundo. Não significa isto que ele seja um “Buda
de pedra” sem sentimentos
nem emoções, e sem
sensações de fome ou dor. Significa, antes, que
nada o
bloqueia. É por isso típico do Zen que seu estilo
de ação tenha o mais forte
sentimento de entrega, de “persistência”.
A tudo se lança completa e
livremente, sem a necessidade de tomar conta de si próprio. Não confunde espiritualidade com
o pensar
em Deus enquanto está descascar batatas. A espiritualidade
do Zen é
precisamente descascar batatas. Segundo as palavras
de
Lin-chi:
Quando chega a altura de
te vestires, enverga as tuas roupas. Quando tiveres que andar,
então anda.
Quando tiveres que te sentar então senta-te. Não
mantenhas na tua mente um
único pensamento relativo à busca do estado de
Buda... Tu falas em ser
perfeitamente disciplinado nos teus seis sentidos e em todas as suas
ações mas,
tal como eu o vejo, tudo isso é produzir karma.
Procurar o Buda
(natureza de) e procurar
o Dharma é produzir, imediatamente, karma
que conduz aos infernos... Budas
e Patriarcas são pessoas sem tais
artificialismos. Pg.185
Esta é a qualidade
de Wu-shih,
da naturalidade sem quaisquer estratagemas ou meios para ser natural,
tais como
pensamentos sobre o Zen, o Tao ou o Buda. Não é
que se expulsem tais
pensamentos; desaparecem simplesmente quando se torna evidente
não serem
necessários... .
Estar consciente da mente original, da
natureza original –
Ao entrar na
floresta não agita uma erva;
Ninguém repara
nele porque ele não repara em si próprio.
Muitas vezes se tem dito que estar agarrado a si
próprio
e como ter um espinho na carne,
e
que o Budismo é um segundo espinho para extrair o primeiro.
Quando esse sai, Pg.186 lançam-se
fora ambos os
espinhos. Mas no momento em que o Budismo, como filosofia ou
religião, se torna
outra forma de nos agarrarmos a nós próprios por
um desejo de segurança
espiritual, os dois espinhos transformam-se num só
– e como poderá este ser
extraído? Isso é como disse Bankei,
“lavar sangue com sangue”. Portanto no Zen
não
há Próprio nem Buda a que nos
agarremos,
não há
bem a alcançar nem mal a ser evitado, não
há pensamentos a extirpar
nem mente a ser pacificada, não há corpo
perecível nem alma a ser salva.
De um só golpe, fica reduzida a estilhaços toda
esta moldura de abstrações.
Se um homem cultiva o Tao, o
Tao não agirá – em todo o
lado erguerão as cabeças, competindo entre si, as
condições do mal. Mas quando
a espada da sabedoria (prajana)
é
desembainhada, nada resta.
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