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Pg.
143
1 –
Vazio e Maravilhoso
As primeiras palavras do
mais antigo
dos poemas Zen dizem que
O perfeito Caminho (Tao) é sem dificuldade
Salvo
no
evitar colher e escolher.gostar e
aborrecer
Será
tudo
claramente entendido.
Uma
diferença da espessura de um
cabelo
E
eis
separados o céu e a terra!
Se queres
alcançar a verdade nua e crua,
Não
te preocupes com o certo e o errado
O conflito entre o certo e o
errado
É a
doença da mente.(Seng-ts’an,
em Hsin-hsin Ming)
A questão está em não
fazer um esforço para silenciar os sentimentos,
em
cultivar uma branda indiferença.
Estar em ver
para além da ilusão
de que o
que é agradável ou
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ou
bom pode
ser separado do que doloroso ou mau. No Taoismo, um dos
primeiros
princípios ... é ver
que bem sem mal é como alto sem baixo, e que fazer da
persecução do bem um
ideal é como tentar
libertar-se da esquerda, voltando
constantemente à
direita, o que nos compeliria a andar em círculos.(ou a saltar/cair para cima em
direção aos limites da esfera universal; como uma galáxia em espiral!)
A
lógica disto
é tão simples que nos sentimos
tentados
a encara-la como demasiado
simplista. Essa tentação é tanto mais
forte quanto
o que foi dito vem contrariar
a ilusão mais cara a
mente
humana, a de que, com o decorrer do tempo, tudo irá se
tornando
cada vez
melhor. Mais ainda porque, segundo a opinião geral, a
não
ser isso possível
faltaria à vida do homem todo sentido e incentivo.
A
única alternativa que
se considera possível para uma vida de constante progresso,
é um mero existir,
estático e morto, tão inútil e falho
de alegria
que mais valeria ao indivíduo
suicidar-se. A própria noção desta
única
“única alternativa” mostra quão
firmemente está a mente ligada a um
padrão dualista, quão dificil se torna pensar em
termos
diferentes de bom ou
mau, ou um lamacenta mistura de ambos.
... o Zen é uma
libertação
desse padrão, e o seu ponto de partida, aparentemente
sombrio,
é compreender o
absurdo de escolher, da geral sensação segundo a
qual
pg.
145
a vida pode ser simplesmente
melhorada por
uma
constante seleção do “bom”.
Devemos
começar
por “apanhar o
tom” da
realidade, e por saber que a vida não é uma
situação de onde haja algo a ser
apanhado ou ganho – como se fosse qualquer coisa que nos
aproximamos a partir
do exterior, como um bolo ou um barril de cerveja... Comer é
sobreviver para
ter fome.
A
ilusão da melhoria significativa surge
em momentos de contraste,
como quando nos viramos a esquerda
para
direita numa cama dura. A posição é
“melhor” enquanto o contraste se mantém,
mas em breve começará a segunda
posição a
assemelhar-se a primeira. Assim,
compra-se uma cama confortável e, durante algum tempo,
dorme-se
em paz. Mas a
solução do problema deixa-nos na
consciência de um
estranho vácuo, um vácuo em
breve preenchido pela sensação de outro
intolerável contraste, que até aí
não
havíamos notado, e tão urgente, tão
frustrante,
como o problema da cama dura (o jeito de dormir!).
O
vácuo surge porque a sensação de
conforto
só pode ser mantida em
relação a sensação de
desconforto, tal como
uma imagem só é visível para os
olhos em função de um fundo contrastante. O bom e
o mau,
o agradável e o
doloroso são tão inseparáveis,
tão
idênticos na sua diferença – como os
dois
lados de uma moeda...
Pg.146
Deixarmos
de nos iludir com
a persecução do bom não
implica o mal da estagnação como sua alternativa
necessária, pois a situação
humana é semelhante à de “pulgas numa
grelha
quente”. Nenhuma das alternativas
oferece solução, porque a pulga que cai tem que
saltar, e
a pulga que salta tem
que cair. Escolher é absurdo porque não
há escolha.
Para
o modo de pensar dualista, concluir-se-á daqui que o ponto
de
vista do Zen é o
do fatalismo como oposto ao livre arbítrio...
Pg.147
Mas
o modo de ver não é fatalista. Não se
trata da
simples submissão à
inevitabilidade de suar quando faz calor, tremer quando faz frio, comer
quando
se tem fome e dormir quando se está cansado. A
submissão
ao fatal implica
alguém que se submete, alguém que é o
indefeso
joguete das circunstâncias, e
para o Zen não existe esse alguém. A dualidade do
sujeito
e do objeto, do
conhecedor e o conhecido, é encarada como sendo relativa,
tão mútua, tão
inseparável, como qualquer outra. Não suamos
porque faz
calor, suar é o
calor... o ponto de vista não nos é familiar,
é
por ser nossa convenção assente
pensar que o calor vem primeiro e depois, por causalidade, o corpo sua.
Afirmar
a inversa é sobressaltante, como dizer “manteiga
com
pão” em vez de “pão com
manteiga”. Assim diz o Zenrin Kushu:
O
fogo não espera pelo sol para ser quente,
Nem
o vento pela lua, para ser frio
Esta
chocante, e aparentemente ilógica, inversão do
senso
comum poderá ser aclarada
graças à imagem favorita do Zen, “a lua
na
água”. O
fenômeno lua-na-água
assemelha-se à experiência humana. A
água
é o
sujeito e a lua o objeto. Quando
não há água,
não há lua-na-água, e o mesmo
sucede quando não há lua. Mas quando a lua nasce,
a
água não hesita antes de
receber, e mesmo quando a mais ínfima gota se lhe depara, a
lua
não hesita
antes de se refletir, e não é propositadamente (com
algum, propósito!!)
que
a
água
lhe recebe a imagem. O acontecimento é provocado tanto pela
água quanto pela
lua e, tal como a água manifesta o brilho da lua, assim
também a lua manifesta
a pureza da água.
Pg.148
Para
o exprimirmos menos poeticamente – a experiência
humana
é tão determinada pela
natureza da mente e pela estrutura dos seus sentidos, como pelos
objetos
externos cuja presença a mente revela. Os
homens sentem-se vítimas ou joguetes de sua
experiência
porque se separam “a
eles próprios” de suas mentes, pensando que a
natureza do
corpo mente-corpo é
algo que “lhes” foi involuntariamente imposto.
Pensam
que não pediram para nascer, que não pediram que
lhes
fosse “dado” um organismo
sensível para ser frustrado por prazer e dor alternantes.
Mas o
Zen quer que
descubramos “quem” é que
“tem” esta
mente, e “quem” foi que não pediu para
nascer antes que pai e mãe nos concebessem.
Daí transparece
que todo o pensamento
de isolamento subjetivo, de ser
aquele a quem foi “dada” uma mente e a quem a
experiência acontece,
é uma
ilusão de má semântica – a
hipnótica
sugestão de uma repetida forma errada de
pensar. Porque não
existe qualquer “eu
próprio” estranho à mente corpo que
dê estrutura à minha experiência
é igualmente
ridículo falar desta mente-corpo
como algo que passiva e involuntariamente,
“recebeu” uma
determinada estrutura (
o ego!).
A mente-corpo é esta estrutura e, antes que a estrutura
surgisse, não havia
mente-corpo.
O nosso problema
está em que
o poder do pensamento nos dá a capacidade de construir
símbolos de coisas,
estranhas às próprias coisas, incluindo a de
fazer um
símbolo, uma ideia de nós
próprios, estranha a nós próprios. Porque
a ideia é muito mais apreensível que a
realidade, o símbolo
muito mais estável que o fato,
aprendemos a identificar-nos
com a nossa
ideia de nós próprios. Dai
o
sentimento subjetivo
de um “ego” que “tem” uma
mente, de um sujeito,
interiormente isolado a quem
sucedem involuntárias experiências. Com a
característica ênfase que põe no
concreto, o
Zen indica que o nosso precisoso “ego” é
Pg.149
apenas
uma ideia, bastante útil e legítima se for tomada
pelo
que é, mas desastrosa se
identificada com a nossa verdadeira natureza.
Pg.149
A
inépcia, não natural, de um certo tipo de
consciência de si próprio nasce quando estamos cientes do
conflito, ou contraste, entre a ideia de nós
próprios,
por um lado, e o
sentimento concreto imediato, de nós próprios,
por um
lado, e o sentimento
concreto imediato, de nós próprios, por outro.
Quando nos
não identificamos já com a ideia de
nós
próprios,
toda a relação
entre sujeito e objeto, conhecedor e conhecido, sofre uma
súbita
e
revolucionária modificação. Torna-se
uma relação
real, uma mutualidade em que o sujeito cria o objeto precisamente tanto
quanto
o objeto cria o sujeito.
O conhecedor
já não se
sente como independente do conhecido,
o que
experimenta já não se sente estranho à
experiência.
Consequentemente, a
inteira
noção de tirar
qualquer coisa “da” vida,
de conseguir algo
“através da” experiência, se
torna absurda. Por outras
palavras, torna-se vivamente claro que,
em fatos
concretos, não
tenho outro ego para além da totalidade das coisas de que
estou
ciente.
Esta é a doutrina Hua-yen (Kegon) da teia de cristais, de shih shih wu ai
(japonês, ji
ji mu ge), em que cada cristal
contém o reflexo
de todos os outros.
O
sentimento do isolamento objetivo baseia-se também numa
incapacidade para ver a
realidade de acontecimentos voluntários e
involuntários.
Essa relatividade é
facilmente apreendida observando a nossa
respiração pois,
graças
a uma leve mudança de ponto de
vista, é tão fácil sentir que
“Eu respiro” como que “(Isto)
respira-me”.
Sentimos que nossas ações
são voluntárias quando se seguem a uma
decisão, e
involuntárias quando sucedem
sem decisão. Mas para que a própria
decisão fosse
voluntária, seria necessário
que cada decisão fosse precedida por uma decisão
de
decidir – uma infinita
regressão que, afortunadamente não acontece. Por
estranho
que pareça, Se
tivéssemos que decidir
decidir,
não
seríamos livres
de decidir. Somos
livres de decidir porque a decisão
“acontece”.
Limitamo-nos a decidir sem
termos a menor compreensão de como o fazemos. De fato, a
decisão não é
voluntária nem involuntária. “Apanhar o
tom”
desta relatividade é encontrar
outra extraordinária transformação da
totalidade
da nossa experiência, que pode
Pg.150
ser
descrita de duas maneiras
diferentes. Sinto que
estou a decidir tudo o que acontece, ou, sinto que tudo, incluindo
minhas
decisões, está apenas a acontecer
espontaneamente. Porque
uma decisão – a mais
livre das minhas ações – apenas
acontece como
soluços dentro de mim ou um
pássaro cantando fora de mim.
Este
modo de ver as coisas é objetivamente descrito por um mestre
Zen, o falecido
Sokei-an Sasaki:
Um dia,
limpei da minha mente todas as noções. Abandonei
todo o
desejo. Expulsei todas
as palavras com que pensava, e repousei na tranquilidade. Senti-me um
pouco
estranho – como se tivesse sido transportado para dentro de
qualquer coisa, ou
como se estivesse prestes a tocar algum poder desconhecido para mim...
e Ztt! Entrei. Perdi as amarras do meu corpo físico. Estava
dentro da minha
pele, claro, mas sentia-me como se estivesse no centro do cosmos.
Falei, mas as
minhas palavras tinham perdido o seu significado. Vi gente caminhar em
direção
a mim, mas todos eram o mesmo homem. Todos eram eu próprio!
Nunca, até
aí, eu
conhecera o mundo. Acreditara ter sido criado, mas agora devo mudar de
opinião:
nunca fui criado; eu era o cosmos; nunca existiu qualquer individual
Sr. Sasaki.
Dir-se-ia,
pois, que libertar-se da
distinção subjetiva entre
“eu” e “minha
experiência” – vendo que a minha ideia
de mim próprio não é eu
próprio –
é descobrir a verdadeira relação entre
mim e
o mundo “exterior”.
O indivíduo, por um
lado, e o mundo, por outro, sã
simplesmente os
limites ou termos
abstratos de uma realidade concreta que está
“entre”
eles,
tal como a
moeda concreta está “entre” as
superfícies
abstratas, euclidianas, dos seus
dois lados. Similarmente, a realidade de todos os
“inseparáveis opostos” – vida
e morte, bem e mal, prazer e dor, ganho e perda –
é esse
“entre” para o qual
não temos palavras.
Pg.151
A
identificação do homem com a
sua ideia de si
próprio dá-lhe um especioso e precário
sentimento
de permanência. Porque essa
ideia, sendo baseada em memórias do seu passado
cuidadosamente
selecionadas,
memórias que têm caráter preservado e
fixo,
é relativamente fixa. A convenção
social encoraja
a fixidez da ideia porque a própria utilidade dos
símbolos depende de sua
estabilidade. A convenção encoraja pois o homem a
associar a sua ideia de si
próprio com funções
simbólicas e
estereótipos igualmente abstratos dado que
estes o ajudam a formar de si próprio uma ideia definida e
inteligível. Mas, tanto
quanto se identifica a
si próprio
com a ideia fixa, começa a reparar na
“vida” como
algo que passa ao redor dele
e o deixa para trás – cada vez mais depressa
à
medida que envelhece, que as
suas ideias se tornam mais rígidas, mais atalhufadas de
memórias. Quanto
mais ele tenta agarrar o mundo, tanto mais o sente como um processo em
marcha...
Se
observarmos a costa enquanto viajamos de barco, sentimos que a costa se
move.
Mas se olharmos para junto do próprio barco, sabemos
então ser o barco que se
move. Quando olhamos o universo em
Pg.152
confusão de
corpo e mente,
recebemos muitas vezes a enganadora noção de que
a nossa
mente é constante. Mas
se realmente praticarmos (Zen) e voltamos a nós
próprios,
vemos que isso estava
errado.
Quando
a lenha se torna cinzas, nunca volta a ser lenha. Mas não
devemos pensar que o
que é agora cinzas, foi anteriormente lenha. O
que devemos
compreender é
que, de acordo com a doutrina do Budismo, a lenha se mantém
na
posição de
lenha... Há fases
anteriores
e posteriores,
mas essas fases
são
claramente distintas.
O
mesmo sucede com a vida e a morte. Por isso dizemos no Budismo que o
Não–nascido
é também o Não-mortal. A vida
é uma
posição de tempo. A morte é uma
posição de
tempo. Elas são como o inverno e primavera e, no Budismo,
não consideramos que
o inverno se
torna
primavera,
ou que a primavera se
torna
verão.
Dogen
tenta aqui exprimir a estranha sensação de
momentos sem
tempo que aparece
quando se deixa de tentar resistir a corrente dos acontecimentos, a
peculiar
calma e autossuficiência dos sucessivos instantes, quando a
mente
vai seguindo
com eles e não tenta prendê-los. Um modo de ver
semelhante
é expresso por
Ma-tsu, deste modo:
Um sutra diz,
“É apenas um grupo de
elementos que se juntam para formar este corpo”. Quando ele
surge, apenas
surgem esses elementos. Quando ele cessa, apenas cessam esses
elementos. Mas
quando esses elementos surgem, não digas, “Eis que
surjo”, e quando cessam, não
digas, “Eis que cesso”. Assim acontece
também com
nossos pensamentos anteriores,
os nossos pensamentos posteriores e os intermediários (ou
experiências): os
pensamentos
seguem-se uns aos outros, sem estarem ligados entre si.
Cada
um é
absolutamente tranquilo.
O
Budismo tem comparado frequentemente o decorrer do tempo ao
aparente
movimento de uma vaga, em que a água apenas se move para
cima e
para baixo,
criando
Pg.153
a ilusão de um
“bocado” de
água deslocando-se sobre
a superfície.
É semelhante a
ilusão de que existe um “ego” constante,
movendo-se
através de sucessivas
experiências, constituindo um elo entre elas
de
tal modo que o
jovem se torna o homem que se torna o velho que se torna o
cadáver.
Assim,
pois, ligada à persecução do bom
está a
persecução
do futuro, a ilusão através da qual somos
incapazes de
ser felizes sem um
“prometedor futuro” para o ego simbólico. O
progresso em direção ao
bom é portanto
medido em termos de prolongamento da vida humana,
esquecendo que
nada é
mais relativo que o nosso sentido da dimensão temporal...
Subjetivamente,
por certo que um mosquito considera que os seus poucos dias representam
um
tempo de vida razoavelmente longo. Uma tartaruga, com uma vida de
várias
centenas de anos, sentiria subjetivamente o mesmo que o mosquito. Ainda
não há
muito que o tempo médio de vida de um homem era cerca de
quarenta e cinco anos.
Hoje, é entre sessenta e cinco e setenta anos, mas, subjetivamente,
os anos correm
mais
depressa e a morte, quando chega, vem sempre cedo demais...
Isto
é perfeitamente natural, perfeitamente humano, e
não
há puxar e esticar o tempo
que lhe de remédio.
Pelo
contrário, o medir do valor e do êxito em termos
de tempo,
e a insistente
urgência de ter como certo um futuro prometedor, tornam
impossível viver
livremente tanto no presente como no “prometedor”
futuro,
quando este chega.
Porque nada há jamais senão o presente, e se
não
podemos viver nele, não
podemos viver em lado algum. O Shobogenzo
diz:
Quando
um peixe nada, nada mais e mais, e não tem fim a
água.
Quando um pássaro voa,
voa mais e mais, e não tem fim o céu. Desde os
tempos
mais remotos nunca houve
um peixe que nadasse fora de água, ou um passo que voasse
fora
do céu. Mas quando
o peixe apenas necessita um pouco de água, usa um pouco
apenas;
e quando
necessita muita, usa muita. E o mesmo sucede com o pássaro
em
relação ao céu.
Assim, a extremidade das suas cabeças está sempre
no
limite exterior (do seu
espaço). Se alguma vez o pássaro voa para
além
desse limite, morre, e o mesmo
acontece com o peixe. Da
água faz o peixe a sua vida, e do
céu, o pássaro.
Mas esta vida e feita pelo pássaro e pelo peixe. E, ao mesmo
tempo, o pássaro e
o peixe são feitos pela vida. Assim, há
o peixe a água e a vida, e todos três se criam uns
aos
outros.
Porém,
se houvesse um pássaro que quisesse examinar primeiro o
tamanho
do céu, ou um
peixe que quisesse examinar primeiro a extensão da
água
– e tentar depois voar
ou nadar, nunca encontrariam o seu caminho no céu ou na
água.
Não
se trata aqui de uma filosofia do não olhar para onde vai;
é, sim, uma
filosofia de não dar tanta importância ao
sítio
para onde se vai, relativamente
ao sítio onde se está, que deixe de haver
razão
para ir.
A
vida do Zen começa, pois, numa desilusão perante
a
persecução de fins que não
existem realmente – o bom sem mau, a
satisfação de
um ego que não é mais que
uma idéia, e o amanhã que nunca chega.
Porque
todas essas coisas são uma ilusão de
símbolos
pretendendo ser realidades, e
tentar alcança-los é como enfiar por uma parede
onde
algum pintor, graças à
convenção da perspectiva, tenha sugerido uma
passagem
aberta... o Zen começa
no ponto em que
já nada existe
para tentar alcançar, nenhum ganho a haver. Muito
enfaticamente, o Zen
não deve ser encarado como um sistema de
aperfeiçoamento
pessoal, ou um modo de
se tornar um Buda.
Pg.155
Segundo
as palavras
deLin-chi, “Se o homem busca o
Buda, esse homem perde o Buda”.
Porque todas
as
ideias de aperfeiçoamento pessoal e de se tornar ou
alcançar algo no futuro, se
relacionam apenas com a nossa abstrata imagem de nós
próprios. Segui-las
é dar ainda maior realidade a essa imagem. Por outro lado, o nosso ser
verdadeiro, não conceitual, é
já o buda, e não necessita
aperfeiçoamento.
Um poema Zenrin
diz:
Na paisagem primaveril não
há alto nem
baixo:
Os ramos floridos
crescem naturalmente, uns longos,
[outros
curtos.
Quando
perguntaram a Ts’ui-wei o significado do Budismo, ele
respondeu:
“Espera até
que não esteja aqui mais ninguém, e
dir-te-ei.”
Algum tempo mais tarde, o monge
aproximou-se de novo dele, dizendo: “Já aqui
não
está ninguém. Por favor,
responde-me.” Ts’ui-wei conduziu-o ao jardim e
dirigiu-se
para o canavial de
bambus, sem dizer uma palavra. O monge não tinha ainda
compreendido, de modo
que, finalmente, Ts’ui-we disse: “Eis um bambu
alto; eis um
curto!” Ou, como o
exprime outro poema Zenrin:
Algo longo é o
longo Corpo de Buda;
Algo curto é o
curto Corpo de Buda.
Assim,
o que há a ganhar no Zen é chamado wu-shih
(japonês, buji)
ou “nada de
especial”, pois como diz o Buda no Vajracchedika:
Não
obtive a menor coisa do “inexcedível, completo
acordar”.
Pg.156
A
expressão wu-shih
tem também o
sentido de perfeitamente
natural e
desafetado, em que
não há
“reboliço” nem
“comércio”. O
alcançar do satori é
muitas vezes sugerido pelo antigo poema chinês:
Monte Lu sob chuva miúda, Rio Che
na
maré
alta.
Quando não os
tinha visto ainda, era um doer constante
[de desejo!
Fui e
voltei... e
não era nada de especial:
Monte Lu sob chuva
miúda; Rio Che na maré alta.
De
acordo com as famosas palavras de Ch’ing-yüan:
Antes
de ter estudado o Zen durante trinta anos, via as montanhas como
montanhas, e
as águas como águas. Quando cheguei a um mais
intimo
conhecimento, alcancei o
ponto em que vi que as montanhas não são
montanhas, e as
águas não são águas.
Mas agora que alcancei a sua essência real, estou tranquilo.
Porque é justo que
eu veja mais uma vez as montanhas como montanhas, mais uma vez as
águas como
águas.
A dificuldade
do Zen consiste, é claro, em desviar a nossa
atenção do abstrato para o
concreto, do ego simbólico para a nossa verdadeira natureza.
Enquanto nos limitarmos a falar disso, enquanto continuarmos a
revolver, nas
nossas mentes, ideias acerca de
“símbolo” e
“realidade”, ou continuarmos a
repetir, “Eu não sou a minha ideia de mim
próprio”, não sairemos da mera
abstração. O Zen criou o método (upaya)
do “apontar diretamente” a fim de escapar a este
círculo vicioso, a fim de
lançar o real imediatamente sob a nossa
atenção.
Quando se lê um livro difícil,
de nada serve pensar, “devia-me concentrar”, porque
pensamos na concentração em
vez de pensarmos naquilo que o livro tem a dizer. Do
mesmo modo, ao
estudar
ou praticar o Zen, de nada serve pensar sobre o Zen. Manter-nos
aprisionados em
idéias e palavras acerca do Zen é, como diziam os
antigos
mestres, “cheirar mal
a Zen”.
Pg.157
É
esta razão pela qual os mestres falam do Zen tão
pouco
quanto possível, e
lançam contra nós a sua concreta realidade. Essa
realidade é o “tal-qual
(ismo)” (tathata)
do nosso
mundo
natura e não verbal. Se vemos isto tal
como é, não há nada bom, nada mau,
nada
inerentemente longo ou curto, nada
subjetivo e nada objetivo. Não há qualquer ego
simbólico a ser esquecido, e não
há necessidade de qualquer ideia de uma realidade concreta a
ser
recordada.
Um
monge perguntou a Chao-chou, “Porque razão veio o
Primeiro
Patriarca do
Ocidente?” (trata-se de uma pergunta formal, procurando o
ponto
essencial dos
ensinamentos de Bodhidharma, isto é do próprio
Zen).
Chao-chou
respondeu: “O cipreste no pátio!”
“Estás
a tentar”, disse o monge, “demonstra-lo por meio de
uma
realidade objetiva?”
“Não
estou!” retorquiu o mestre.
“Porque
razão veio, então, o primeiro patriarca do
Oeste?”
“O
cipreste no pátio!”
Note-se
como Chao-chou lança o monge, à chicotada, para
fora de
sua conceptualização
acerca da pergunta. Quando perguntaram ao T’ung-shan,
“O
que é o Buda?” ele
respondeu, “Três quilos (chin) de
linhaça!”
Sobre isto, comenta Yüan-wu:
Varias
respostas tem sido dadas por vários mestres à
pergunta,
“O que é o Buda?”
Nenhuma, contudo, pode exceder a de T’ung-shan
“Tres quilos
de linhaça” no que
respeita à sua irracionalidade que fecha o caminho
à
qualquer especulação.
Alguns comentam que T’ung-shan estava a pesar
linhaça
nesse momento, e daí a
resposta. Outros ainda, pensam que, como o interrogador não
estava consciente
do fato de ele próprio ser o Buda, T’ung-shan lhe
respondeu, deste modo
indireto. Estes são como cadáveres, pois
são
absolutamente incapazes de
compreender a verdade viva. Há ainda outros que tomam,
à
letra, os “três quilos
de linhaça” pelo Buda. E que loucas e
fantásticas
observações fazem!
Pg.158
Os
mestres interrompem resolutamente toda a
teorização e
especulação à volta
destas respostas. O
“apontar
diretamente” falha por completo na sua
intenção, se
requer ou estimula
qualquer comentário conceitual...
Dois poemas apresentados
pelo Budista da Pura
Região, Ippen Shonin, à
apreciação do
mestre Zen, Hoto, e traduzidos por Susuki
das Palavras
de Ippen, Ippen
era uma
daqueles que estudavam o
Zen para encontrar um contato entre este e a Escola da Pura
Região, com sua
prática de repetir o nome de Amitabha.
Em japonês, a
formula “Namu
Amida Butsu!” Ippen
apesentou primeiro este poema:
Quando o nome é pronunciado,
Nem o Buda nem o
ego
Existem:
Na-mu-a-mi-da-bu-tsu
Apenas a voz se ouve.
Pg.159
Porém,
Hodo considerou que o ponto essencial não ficara bem
expresso, e
só deu sua
aprovação quando Ippen lhe apresentou um segundo
poema:
Quando o nome é pronunciado,
Nem
o Buda nem o
ego
Existem:
Na-mu-a-mi-da-bu-tsu,
Na-mu-a-mi-da-bu-tsu!
Po-chang
tinha tantos alunos que se viu obrigado a abrir outro mosteiro. Para
encontrar
alguém apto a ocupar a função de
mestre, reuniu os
seus monges e pôs um cântaro
à frente deles, dizendo:
“Sem
lhe chamares um Cântaro, dizei-me o que é
isto.”
O
monge principal disse, “Não lhe podes chamar um
toro de
lenha.”
Nesta
altura, o cozinheiro do mosteiro voltou o cântaro com um
pontapé e afastou-se.
O cozinheiro foi encarregado do novo mosteiro. Vale a pena citar aqui
um dos
sermões de Nan-ch’üan:
Durante
o período (kalpa)
que decorreu antes
que o mundo fosse manifestado, não havia nomes. No
momento que o Buda chega ao mundo passa a haver nomes, e
assim
nos apegamos estreitamente a formas. No grande Tao não
há
absolutamente nada
que seja secular ou sagrado. Se há nomes, tudo é
classificado dentro de limites
e fronteiras. Por isso o velho a Ocidente do Rio (isto é,
Ma-tsu) disse: “Não é
mente; não é Buda; não é
uma coisa”.
Pg.160
Isto
reflete, obviamente, a doutrina do Tao Te
Ching, segundo a qual
O
sem nome é a origem do céu e da terra;
Nomear
é a mãe das dez mil coisas.
Mas
o “sem nome” de Lao-Tzu e o “kalpa
do
vácuo” de Nan-ch’üan, antes da
manifestação do mundo, não
são anteriores,
no
tempo, ao mundo convencional das coisas. Representam o
“tal-qual
(ismo)” do
mundo tal como é agora, e para o qual apontam diretamente os
mestres Zen...
Outro
mestre (Zen)
estava a tomar chá com dois discípulos quando,
subitamente lançou o seu leque a
um deles, dizendo, “Que é isto?” O
discípulo
abriu-o e abanou-se. “Não está
mal,” comentou o mestre. “Agora, tu,”
continuou,
passando o leque ao outro discípulo.
Este fechou-o imediatamente coçou o pescoço com
ele.
Feito isto, voltou a
abri-lo, pôs lhe em cima uma fatia de bolo, e estendeu ao
mestre.
Esta ação foi
considerada ainda melhor...
Pg.161
O
mundo do “tal-qual (ismo)” é vago e
vazio porque
arranca a mente ao pensamento,
emudecendo o papaguear da definição tal modo que
nada
fica para ser dito. Contudo,
é
obvio que não estamos perante o nada
literal. É verdade
que quando tentamos, pela
força, agarrar o nosso mundo ficamos de mãos
vazias. Mais
ainda, quando tentamos assegurar-nos
pelo menos de nós próprios, os sujeitos que
conhecem e
agarram, desaparecemos.
Não
conseguimos encontrar qualquer
ego estranho à mente, e não conseguimos encontrar
qualquer mente estranha às
próprias experiências que a mente –
agora
desaparecida – tentava agarrar.
Segundo a brilhante metáfora de R.H. Blyth,
“quando
estávamos quase a matar a
mosca, a mosca levantou voo e pousou no mata-moscas”. Em
termos
de percepção
imediata, quando
procuramos coisas
nada há senão mente, e quando procuramos a mente
nada
há senão coisas.
Pg.162
Ficamos
paralisados durante
um momento, porque nos
parece não termos qualquer base sobre a qual agir, nem
debaixo
dos pés para
podermos saltar. Mas isso é como sempre foi e, no momento
seguinte,
encontramo-nos tão livres de agir, falar e pensar, como
sempre,
embora num
estranho e miraculoso novo mundo, de
onde “próprio” e
“outro”,
“mente” e “coisas”
desapareceram. Segundo
as
palavras de Te-shan:
Só
quando
já não tiveres coisas na tua
mente, nem a mente em coisas, estarás vago e espiritual, vazio e maravilhoso.
O
maravilhoso só pode ser descrito como a peculiar
sensação de liberdade ativa,
que surge quando o mundo se não sente já como uma
espécie de obstáculo que se
ergue contra nós. Não se trata de liberdade no
sentido
grosseiro de “atirar a
albarda” e agir de acordo com o primeiro capricho.
É a descoberta da
liberdade nas
tarefas mais comuns,
pois quando a
sensação de isolamento subjetivo desaparece, o
mundo
deixa de
parecer um objeto intratável.
Yün-men
disse um dia, “A nossa escola deixa-vos à vossa
vontade.
Ela mata e traz à vida
– ao mesmo tempo.”
Um
monge perguntou então, “Como é que
mata?”
O
mestre respondeu, “O inverno vai, vem a primavera.”
“Como
é”, perguntou o monge, “quando o inverno
vai e a
primavera vem?”
O
mestre disse, “Com um cajado ao ombro vagueias por toda a
parte,
Leste ou
Oeste, Norte ou Sul, batendo, quando te apetece, nos troncos
selvagens”.
O
passar das estações não é
passivamente
sofrido, antes “acontece” tão livremente
como quando vagueamos pelos campos batendo com uma verdasca em velhos
troncos
de árvore.
Pg.163
No
contexto do Cristianismo,
isto podia ser
interpretado como sentir que se alcançou a
onipotência,
que se é Deus, mandando
tudo o que acontece. Porém, devemos recordar que no
pensamento Toista e Budista
não
há uma concepção de Deus governando,
deliberada e
conscientemente, o universo.
Lao-tzu disse acerca do Tao:
Não invoca
direitos sobre o que realiza
Todas as coisas ama e
alimenta,
Mas não invoca
isso para delas
ser senhor.
O Tao, sem que nada
faça (wu-wei),
Nada deixa por fazer.
Para usar as imagens de um
poema Tibetano, cada ação, cada acontecimento,
surge por
si próprio do Vácuo
“como da superfície de um lago tranqüilo
salta
subitamente um peixe”. Quando
conseguimos ver que isto é tão verdadeiro no que
se
refere ao surpreendente e
inesperado, já podemos concordar com o Poeta Zen
P’ang-yun:
Milagroso poder e
maravilhosa atividade
Tirar água do poço
e cortar lenha!
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