BLACKHAM, H.J.
A Religião Numa Sociedade Moderna
Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1967.
 

INDICE

Capitulo.1 - Sobre as Religiões
Capitulo.2 - O Cristianismo até a Revolução Francesa
Capitulo.3 - Alternativas do Século XIX
Capitulo.4 - A Ideia de uma Sociedade Cristã
Capitulo.5 - A Religião nas Escolas
Capitulo.6 - O "Status" Atual da Religião
Capitulo.7 - A ideia de uma Sociedade aberta
Capitulo.8 - Progresso Secular e progresso religioso
Capitulo.9 - O Papel da Igreja
Capitulo.10 - A Coexistência dos Absoluto
Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10

Capítulo 3 - Alternativas do Século XIX

NOVAS RELIGIÕES POLÍTICO-CULTURAIS

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        A síntese medieval foi dissolvida pela Renascença, pela Reforma e pela emergência das nações modernas. A síntese do século XVIII não sobreviveu à Revolução Francesa. O sistema de São Tomás de Aquino havia sido uma síntese da razão, tradição e revelação, na qual o ingrediente nacional baseava-se na lógica e metafísicas aristotélicas, estritamente subordinadas à revelação. Na síntese do século XVIII, o elemento racional eram as ciências naturais, e, desta forma, a razão eclipsou a revelação. Os racionalistas deste período fizeram a religião avançar, mesmo falsificando o cristianismo e pensando simplesmente em termos científicos, éticos ou sociais. A própria ortodoxia foi mudada em seus ensinamentos e temperamento.

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Saint-Simon e Comte. Como herdeiros dos philosophes, queriam conservar o ímpeto da revolução burguesa reformando as ideias e ideais que a haviam inspirado. Ambos criaram uma nova religião para dar vida aos seus esquemas de uma nova sociedade...  reparar a falta de autoridade, pois eles sustentavam que liberdade de pensamento e igualdade de poder político (a soberania do povo) eram princípios desastrosos provenientes da Reforma, e conduziriam, necessariamente, à anarquia, ao egocentrismo e à ruína do espírito público.  

... Já era tempo de organizar a sociedade em bases científicas, para... recuperar e aprimorar a coerência e a coesão da síntese medieval. O século XVIII pensava em termos de ciências naturais: razão e natureza, uma síntese das leis divinas morais e físicas. O século XIX pensava em termos de história: razão e poder, uma organização da ciência, economia industrial ou estado político.

            Para Comte, o maior empreendimento político, devido aos pensadores medievais, fora a separação da Igreja e Estado... a autoridade intelectual e espiritualmente competente não coincidia com a autoridade politicamente competente... A sociedade organizada desta maneira teria a inconfundível e insubstituível virtude da sanidade, da qual todos se beneficiariam igualmente.

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             Como a ciência havia tomado o lugar da teologia e não mais se destinava ao conhecimento de Deus, mas apenas ao bem-estar humano, e como, na realidade, o objeto de devoção religiosa era a humanidade, a nova religião não era o cristianismo... O “novo cristianismo” de Saint Simon substituía mais claramente a Igreja católica. A Igreja permanecia medieval em seu aspecto social. Não havia lugar na sua economia para as ideias, métodos e ideais da burguesia, particularmente dos figurões – os banqueiros e industriais. A Igreja sancionara uma sociedade baseada no status, e não numa ordem de progresso...

... Por outro lado, numa sociedade tecnocrática organizada pelos banqueiros e industriais, os pobres de Deus seriam devidamente alimentados e vestidos pela primeira vez, e a miséria desapareceria. Este era o “novo cristianismo”: uma sociedade verdadeiramente organizada para o bem dos pobres, e o Evangelho posto em prática em escala social pela primeira vez.
            Tais sistemas eram uma antevisão das muitas tentativas realizadas nos século XIX, de planificar a sociedade de maneira a fornecer uma síntese social e ideológica moderna. A ideia de que a religião no mundo moderno deve ser representada pelo socialismo alastrou-se na Europa. A ciência, a síntese e a justiça social eram as ideias que provocavam esta visão.

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             O mais perfeito, completo, persistente e bem sucedido destes sistemas era o posteriormente denominado “socialismo científico”, com suas noções de lutas de classes e a teoria do materialismo histórico marxista. Isto é verdade apenas se entendermos por religião a projeção em outro mundo das esperanças frustradas do nosso, o que Marx chamou de “o ópio do povo”. Se entretanto, reconhecermos as religiões terrenas do tipo político ou cultural, como a Romanitas e o helenismo, o comunismo da teoria marxista-leninista é um exemplo completo e perfeito da religião político-cultural. A ausência de qualquer fé ou crença sobrenatural nada significa neste caso, pois todo o sistema se apoia em ideias metafísicas e ideias utópicas, que funcionam na prática como uma fé na História e no destino. Esta teoria surgiu afinal como a mais completa síntese do tipo medieval e um formidável rival do cristianismo...

            Na Inglaterra, onde se diz que o socialismo é mais influenciado pelo metodismo que pelo marxismo, havia um forte impulso religioso de caráter tradicional: o socialismo era para muitos a expressão prática de uma fé religiosa destinada a erigir uma Nova Jerusalém na verde e agradável terra inglesa. Os que se iniciavam nesta doutrina, levados pela poderosa influência da Bíblia num país essencialmente protestante, não raro acabavam encontrando no socialismo um sucedâneo para o cristianismo. Nem todos eram tão explícitos quanto Willian Morris, que via na nova ordem homens (e mulheres) transformados pela revolução social, finalmente capazes de amar o próximo.
            O cristianismo, portanto, laicizou-se no socialismo, quando a intenção não era substituí-lo totalmente por uma religião política.

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          Também o nacionalismo laicizou o cristianismo. Pode-se atribuir esse fenômeno à filosofia de Hegel, uma das principais fontes do “socialismo científico”. Hegel criou a primeira e mais ambiciosa síntese, que viria substituir a antiga (a síntese medieval). Esta síntese tem sido acusada de ser um ato de “pensamento puro”, mas ela pretendia ser inteiramente concreta, pertencer à história e não à mente: a filosofia é um estudo da história (e a própria filosofia é histórica). Com isto, o cristianismo e a ciência moderna, que tiveram igualmente seu lugar na história, eram ambos realização do espírito absoluto.

A história tornou-se, desta forma, a outra revelação de Deus, representando para o século XIX o papel das ciências naturais nos séculos XVII e XVIII. Enquanto nesses séculos o homem cultuava a Deus estudando sua obra, como havia feito antes com sua palavra, os indivíduos são agora compelidos a encontrar Deus  na marcha dos acontecimentos: a coisa mais racional e espiritual a fazer é identificar-se com as instituições e tradições do seu país. O homem se torna objeto de si mesmo na realizações humanas com que a História o presenteia...
... a vontade universal encontra-se no Estado, em suas leis e em sua organização racional e totalizante. O Estado é a Ideia Divina transportada para terra. A divindade da nação está nesta conjunção do universal com o particular... (Hegel in Blackham)
Para Hegel, esta secularização do cristianismo não era uma apostasia, mas sua (do cristianismo) realização.

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A ideia da humanidade como associação fraternal de nações livres pertencia a Deus, e os indivíduos somente encontrariam o divino na nação, seu elo com a humanidade. O único ideal positivo era a ideia e o poder divinos trabalhando para a História.

A Solução Liberal
            A ideia liberal teocrática, uma tentativa esforçada de encontrar lugar para Deus na História, recusava-se a atribuir qualquer identidade ao divino, opondo-se à identificação da vontade de Deus, com o Estado ou, em contraposição, como o povo e sua tradição.
           O liberalismo como “a religião insubstituível” significava “a sociedade aberta”, surgida no século XIX graças ao laissez-faire, às instituições democráticas e à liberdade religiosa. O liberalismo político e o religioso eram irmãos siameses.

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            “A doutrina protestante da competência do indivíduo para compreender as verdades morais e religiosas sem o auxílio de autoridades superiores, sejam políticas ou eclesiásticas, foi o ponto de partida para dois liberalismos, o político e o religioso” (Cowherd in Blackham) ... A solução “liberal” do “problema religioso” pela separação da Igreja e do Estado e pelo reconhecimento da base secular da sociedade era, portanto, primitivamente, uma solução religiosa.
Antes para o bem da religião que da vida política.

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“Todos os homens têm o direito natural e irrevogável e adorar a Deus todo-poderoso de acordo com as normas de suas próprias consciências; nenhum homem pode ser obrigado a frequentar, erigir, ou sustentar qualquer templo ou congregação contra a sua vontade; nenhuma autoridade humana pode , em qualquer caso, interferir ou controlar, no que diz respeito à consciência; e nenhuma lei jamais poderá dar preferência a qualquer estabelecimentos religiosos ou tipos de culto”. (Greene: A Religião e o Estado, pg.94) (Greene in Blackham) 

“O estabelecimento da supremacia real sobre a igreja, e exclusão do Papa e a afirmação da soberania ilimitada da lei destruíram as fundações da política e da sociedade medievais e substituíram-na por algo novo” (Elton in Blackham).