BLACKHAM, H.J.
A Religião Numa Sociedade Moderna
Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1967.

INDICE

Capitulo.1 - Sobre as Religiões
Capitulo.2 - O Cristianismo até a Revolução Francesa
Capitulo.3 - Alternativas do Século XIX
Capitulo.4 - A Ideia de uma Sociedade Cristã
Capitulo.5 - A Religião nas Escolas
Capitulo.6 - O "Status" Atual da Religião
Capitulo.7 - A ideia de uma Sociedade aberta
Capitulo.8 - Progresso Secular e progresso religioso
Capitulo.9 - O Papel da Igreja
Capitulo.10 - A Coexistência dos Absoluto
Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10

Capitulo 1 - Sobre a Religião

Prefácio

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            Os antecedentes deste livro vêm desde Sobre a Constituição da Igreja e do Estado de Acordo com Suas Ideias, de Coleridge (1830), passando por  A ideia de uma Sociedade Cristã, de T.S. Eliot (1939), Idealismo Nacional e Religião de Estado, de Stanton Coit (1907) e A Religião Natural, de Sir John Seeley (1882). Seu parente mais ilustre é As Igrejas no Estado Moderno, de J.N. Figgis (1913). Ele não pertence, no entanto, a nenhuma respeitável corrente sociológica. É uma tese autônoma.

            “Igreja e Estado”, “religião e cultura”, são questões que parecem pertencer ao campo da história, no que esta possui de mais velho e bolorento: controversas estéreis superadas e esquecidas, porém jamais resolvidas. Mesmo que isso correspondesse exatamente à verdade, ainda subsistem algumas noções falsas que devem ser afastadas e eliminadas. E não pode ser verdade, pois a religião tradicional sobrevive, seja ativamente, ou porque as pessoas não veem outra alternativa...

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            Este livro é, sob certo aspecto, um trabalho de ordenação, na medida em que ele apresenta muitos pontos discutidos anteriormente. Ao mesmo tempo, sua tese fundamental é sobre “o mais profundo de todos os problemas da vida comunitária”. O autor é um humanista, e se dirige principalmente aos cristãos. Primeiro, ele considerou o cristianismo com muita seriedade, subjetivamente; e nestas páginas ele o analisa objetivamente.  A Inglaterra é o cenário principal deste livro, mas são frequentes as observações sobre outros países. Pede-se ao leitor que seja paciente com algumas lições de História nos primeiros capítulos, pois uma tese referente ao cristianismo não pode começar no presente.

            O capítulo final alarga a cena para enfeixar os acontecimentos e perspectivas numa escala mundial.

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1 - Sobre a Religião

O Ponto de Partida

            As definições de religião são muitas e desorientadoras, porque os comportamentos religiosos são diferentes. A religião se refere aos deuses, mas nem todo pensamento religioso é obrigatoriamente relativo aos deuses. Para identificar o comportamento religioso, de fato existente em qualquer sociedade e em qualquer tempo, não é necessário nem útil possuir uma definição de religião, uma síntese de formas gerais comuns a todos os comportamentos religiosos. A religião existe sempre, concreta e identificável.

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            Pensar sobre religião na sociedade, entretanto, requer como ponto de partida algumas ideias gerais. Logo no início da história dos estudos sobre religião, o enciclopedista Varrão (116-27 A.C.), perturbado pela multiplicidade de deuses, fez várias classificações, das quais a mais interessante foi a do pontífice Cévola, por ele adotada. Nesta, ele distinguiu mitologia, teologia natural e teologia política, ou os deuses do poetas, dos filósofos e da cidade (este estudo é objeto de um longo exame por Santo Agostinho em A Cidade de Deus). A classificação pode parecer abstrata e primária, mas é o reconhecimento elementar de interesses perpétuos e independentes na religião, dentro de uma sociedade. Os deuses dos poetas representam os interesses populares, os dos filósofos o interesse cultural, e os da cidade os interesses políticos; e o interesse eclesiástico é colocado por um escritor romano dentro dos interesses políticos. A estes quatro interesses permanentes, existe outro que deve ser acrescentado: o do fiel, crente ou pensador individual, que não pode ser simplesmente alinhado sob os interesses gerais de qualquer classe.

            Estes cinco interesses constituem poderosas fontes de influência sobre a religião. Eles podem ser até considerados como fontes independentes de religião, observados de pontos de vista diferentes. A religião não existe desligada destes interesses, como algo independente – dentro da sociedade; ela deve ser sempre analisada e compreendida no contexto desses interesses... Dizer, por exemplo, que a religião é base de uma sociedade particular, pode significar que uma religião política domina tal sociedade, ou que o domínio é exercido por uma religião eclesiástica. A diferença pode ser considerável. Dizer – e diz-se com frequência – que a religião é e foi sempre a base das sociedades e dos Estados – presumindo portanto que sempre será – e se fazer de cego frente ao desenvolvimento e afirmação desses diversos interesses na História, e à sua sobre o caráter e o papel da religião na sociedade em qualquer época. A tentativa de chegar a conclusões gerais sobre a religião na sociedade requer, em primeiro lugar, o conhecimento e a compreensão destes cinco interesses religiosos distintos e das duas influências características, sobre a religião.

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Em vista do que foi dito, a introdução mais útil que se poderia fazer consiste numa rápida análise dos mesmos como se apresentaram na antiguidade, antes de aplicar esta análise às sociedades contemporâneas.

RELIGIÃO ECLESIÁSTICA

            Chamamos de religião eclesiástica os cultos imemoriais encontrados em qualquer sociedade. A religião eclesiástica é a religião tradicional, o interesse primário dos que perseveram e transmitem a tradição. Onde existe um clero estabelecido, o caráter da religião eclesiástica é mais facilmente definido. A ocupação e a função do clero são observadas integralmente em sociedades avançadas e altamente organizadas como as que se desenvolveram no antigo Oriente Médio. De modo geral, os sacerdotes são pessoas sagradas, guardiães reconhecidos de uma tradição sagrada imemorial, de escrituras sagradas, rituais sagrados, lugares sagrados ou oráculos divinos. Os guardiães, como administradores das coisas divinas ordenados por Deus, são carregados de manter a herança sagrada integra e imaculada. O interesse eclesiástico na religião é essencialmente conservador... O mesmo ideal governa a transmissão da doutrina. A religião eclesiástica, na medida em que é estritamente tradicional, e não histórica, resistente a qualquer visão crítica, verificação racional ou “revisionismo”: é uma manutenção escrupulosamente fiel do que foi recebido, sem alteração de uma vírgula sequer.

            A religião eclesiástica ou o interesse eclesiástico não podem ser confundidos, entretanto, com o clero. O religioso “profissional” pode ser inexistente ou de pouca importância, sem que com isso os cultos desapareçam ou deixem de florescer. O interesse eclesiástico pode ser representado por profetas, videntes, exorcistas, médiuns, curandeiros e afins, ao invés de sacerdotes, e manter a continuidade das tradições religiosas.

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Há o caso de civilizações avançadas, como a dos gregos, em que, por acidentes históricos, não há clero organizado. Ou de um povo inteiro, como os judeus, ser considerado como uma “nação sagrada”, um “reino de sacerdotes”, uma comunidade teocrática unida pela lei divina. O que é comum a todas as variedades de religião eclesiástica é uma tradição religiosa comunitariamente guardada e fielmente transmitida.
           A tradição religiosa não pode, evidentemente, ser confundida com ritual. Ela pode compreender oráculos, leis e ensinamentos espirituais incorporados num livro sagrado. Existem, no judaísmo, oposições características, perpetuadas no cristianismo, entre as tradições clericais e proféticas, entre altar e púlpito. Dentro da tradição comum judaico-cristã há duas faixas. A religião profética e histórica, interpreta a mensagem, dirige-se à sua época e desenvolve ensinamentos: tende, desta forma, a se tornar uma religião cultural. O altar é constante, mas o púlpito transmite as verdades eternas na linguagem da época, voltado para as condições presentes.

            As diversas religiões eclesiásticas não estão unidas por nenhum objetivo comum. A obtenção das necessidades vitais, por meios religiosos, pode definir basicamente o fim primitivo... O ideal característico de um clero hierárquico é integrar a sociedade inteira numa ordem cósmica sagrada... Na sua forma extrema, como no antigo pensamento hindu, a religião eclesiástica não existe dentro da sociedade não é uma instituição social, mas é vista como sendo a própria ordem cósmica e a responsável por sua manutenção. Essa pretensão foi minada pelo budismo e pelo jainismo. Em Israel, onde a Convenção era soberana sobre rei e sacerdote, a ordem cósmica era mais prometida do que existente. Com o advento do Cristo como Rei e Sacerdote absoluto, a ordem cósmica, o Reino de Deus, foi inaugurado e aberto a todos os crentes, para a salvação do mundo.

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RELIGIÃO POLÍTICA

            Roma, ou melhor, Romanitas, é o maior e o primeiro exemplo de uma religião política. A diferença entre religião política e eclesiástica está claramente demonstrada na distinção entre a deificação dos soberanos ptolomaicos do Egito no período greco-romano e o culto ao imperador no Império Romano. O culto ptolomaico revivia a tradição segundo a qual o faraó, sacerdote por excelência, aperfeiçoava e mantinha uma ordem cósmica divina. O culto do imperador em Roma, mantinha uma ordem política. As graças prometidas não eram as mesmas nos dois casos.

            Três casos podem ser assinalados:

1)  A sociedade e o Estado podem ser identificados com uma religião eclesiástica, como no antigo Egito.

2)  O Estado pode usar a religião eclesiástica para fins políticos.

3) A sociedade e o Estado podem-se dedicar a uma religião política, que efetivamente supere a religião eclesiástica (tradicional).

Estes casos são raramente tão distintos na prática, mas Roma exemplificou todos três em épocas diferentes, com maior ou menor nitidez.

A religião na República Romana era uma relação entre o Estado e os deuses. O Estado tomava a seu cargo a responsabilidade pelos ritos, e liberava os cidadãos da religiosidade ou temores supersticiosos. A disciplina e estabilidade políticas eram vistas como decorrência da boa execução dos ritos comuns, e a sorte da nação, como dependente da perfeita execução dos augúrios e auspícios, bem como do respeito aos mesmos. Por esse motivo o clero tinha enorme importância dentro da ordem civil, e seu controle era objeto de ambições políticas. O Estado organizou um sistema de augúrios que dependiam de relações perfeitas com a ordem sagrada, a pax deorum, e nenhuma transação política era realizada sem que os augúrios fossem favoráveis.

Na República, este sistema era nada mais que uma ordem religiosa adaptada ao modelo da cultura romana, cujo tema principal era político. Mas o tema político dominante subjugou e assimilou a religião eclesiástica. Augusto restaurou a antiga ordem na religião, como instrumento de renovação e integração políticas. Durante a civilização romana de Virgílio e Livio.

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Romanitas exprime uma fusão de ação política e religião. O próprio Augusto seguiu os passos de Enéias e foi santificado pelos olhos do seu mundo. Ele corporificou e revelou o sentido do patriotismo. Virgílio exprimiu de maneira excepcional a sua religião de patriotismo e destino político. A ordem romana aspirava a uma universalidade e finalidade que nenhum outro sistema político jamais pretendeu, uma realização secular do homem, dependente de uma intensa consciência religiosa: uma apoteose ao poder consagrado.

Cícero inspirou-se em Platão nos títulos de dois de seus principais tratados. A República e As Leis. Ambos os autores, em seus livros, se referem à religião política em termos ideais, envolvendo uma fusão de religião com vida política. Os credos e cultos religiosos são as bases da disciplina social nos dois casos... Em Cícero, a constante necessidade que o povo sente dos conselhos e da autoridade dos sacerdotes, ajuda a manter o Estado unido. Em Platão não há clero, nem mediadores profissionais entre o povo e os deuses: as crianças são educadas na crença básica sancionada por lei e confundida com a vida civil. Cícero inicia suas Leis dizendo que é dever de todos morrer pela mãe-pátria, “entregar-se inteiramente, prostrar-se no seu altar e dedicar a seu serviço tudo o que se possui”... ele exprime o patriotismo romano como religião, e a religião como patriotismo. Esta religião política está ligada a Romanitas como o bem final, o objeto absoluto de devoção. Em contraposição, A República de Platão é a harmonia interior da psique, da sociedade, do cosmo: um modelo universal do bem fora do qual não há bem possível. Este modelo elaborado da vida no universo... contrasta... com a religião política de Cícero... também com a religião eclesiástica (de caráter hindu ou egípcio), nas quais há participação na ordem cósmica por meio de ritos sacerdotais... um prenuncio da religião cultural.

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O Ser Supremo é o supremo legislador político. O espírito imortal do homem deve ser usado para os mais nobres objetivos, os relativos à defesa de sua pátria, independentemente do corpo e das suas necessidades.

            O momentoso abandono dos deuses oficiais da Romanitas em favor de Cristo por Constantino, no ano 312, um dos episódios mais dramáticos e definitivos de toda história, foi um ato de religião política, e não um recuo em suas posições, uma previsão de maus augúrios e uma oferenda em troca de favores divinos. Uma série de sucessos estabeleceu a nova fé como uma esperança em uma Roma renovada. A tentativa posterior de Juliano, o apóstata, para destituir e destruir a Igreja, tinha por fim descobrir uma religião mais política para o Estado. Ela (a nova fé?... Roma?...) esperava achar no helenismo, na religião cultural e particularmente em Platão, as fundações de um culto da civilização capaz de unificar e revitalizar a Romanitas, com a religião reconduzida à sua expressão natural, como uma função da vida política organizada. A tentativa falhou e o Estado retornou ao cristianismo; mas a religião tornou-se ainda mais política. Isto culminou com Teodósio, que estabeleceu a teoria e prática da monarquia sagrada. O ingresso no serviço público tornou-se uma espécie de ordenação; deixa-lo era trair a confiança sagrada. As funções imperiais assumiram um caráter sacerdotal. Tornou-se sacrilégio violar na lei, ou mudar de posição designada na sociedade. O sacrilégio envolvia penas severíssimas. Pelo edito de Tessalônica (380), Teodósio adotou deliberadamente a fé católica como um princípio de integração social. Esse primeiro casamento do Estado com a Igreja foi muito confuso;

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            “Considerar a fé como um princípio político consistia mais em “civilizar” o cristianismo do que cristianizar a civilização; não consistia na consagração das instituições humanas ao serviço de Deus, mas antes na identificação de Deus com a manutenção destas instituições, isto é, as da pax terrena... tentava substituir a religião pela cultura como um princípio de coesão meramente destinado a acrescentar um elemento final e decisivo às forças empenhadas na dissolução da ordem romana.” (Cochrane: Cristianismo e Cultura Clássica, pg. 336-37)

            A afirmação frequente de que religião é a base da sociedade, feita por pessoas mais ou menos credenciadas, vem desde a antiguidade e é geralmente uma afirmação sobre religião política: “Dieu par la nation et pour la nation”. (Fustel de Coulanges: La Cité Antique). A religião pode prover disciplina social e união das seguintes formas:

1) Onde o juramento é a garantia de boa fé e lealdade nas relações sociais, a crença religiosa provê a sanção... O Papa Pio XI expressou a sua convicção com palavras extraídas de Cícero, modificadas para a época atual: “Como pode o comércio entre os homens progredir, que negócio pode ser estabelecido na base do entendimento mútuo, se não existe fé em Deus, nem temor d’Ele? Removam este alicerce, e toda a lei moral desabará, e não haverá nada que impeça a gradual mas inevitável ruína das nações, da família, do Estado e da própria civilização”. Os governos, concluiu ele, devem concentrar todo o seu esforço para preservar seu povo da infecção das teorias blasfemas e ateias, fatais para toda a ordem social (Divini Redemptoris, 1937).

       2) Onde se acredita que a prosperidade é sempre e apenas um fator dos deuses, haverá uma atenção política que assegure seus favores, por meio de requisitos considerados necessários... o comportamento religioso sofre, neste caso, sanção social e política.

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     3) Uma vida comum é representada e desfrutada nos ritos religiosos. Estes são praticados em proveito de todos, e por isso exigem e criam uma comunidade de interesses, a harmonia do grupo... representam o traço de união entre as gerações, promovendo a identificação e a continuidade de um povo. O passado imemorial confere aos costumes uma sacralidade acima de qualquer dúvida, pois os antigos são considerados mais próximos dos deuses... A disciplina social rudimentar consiste em fazer o que já foi feito e da maneira que sempre foi feito – com reverência. Ousar colocar em questão o que foi recebido dos ancestrais e dos deuses, e por eles unanimemente sancionado, é perturbar as bases da sociedade, fazendo com que os homens se tornem insubordinados e ingovernáveis.

     4) Os ritos religiosos, e em particular os festivais, servem como estímulo e queima de energias necessários ao controle social, para que o povo seja purgado dos seus ressentimentos e sentimentos agressivos em relação à autoridade.

    5) Na teoria freudiana do grupo, os homens se unem ao seu líder, Cristo ou César, que é identificado com o seu ego-ideal, e por isto amado, temido e obedecido; a mesma libido promove a inter-relação com seus companheiros, que se projetam na corporificação comum do seu ego-ideal.

Estas são algumas das formas em que a religião aparece como um interesse político. A religião eclesiástica e a religião política têm implicações recíprocas. Cada uma delas exerce uma poderosa influência sobre a outra. As crenças e as práticas da religião eclesiástica criam dentro da ordem política um interesse e uma vida comuns. Elas organizam conjuntamente profundas induções psicológicas sob o controle da sociedade. Onde o interesse político é dominante, é provável que manipule ou assimile a religião eclesiástica.

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... Diz-se frequentemente que quando se permitir que Cristo falhe como a base da nossa sociedade, a religião de Cesar tomará o seu lugar.

É um grave erro pensar na religião política como o simples uso da religião eclesiástica para fins políticos. Esta é a hipótese menos provável... A religião política que inspirou e sustentou os irlandeses na Rebelião da Páscoa e em toda a tradição da sua causa era alimentada pelo catolicismo, e tornou-se um afluente dele. O nacionalismo nas colônia africanas e em outros países tem sido precedido ou acompanhado de movimentos religiosos nativos, adaptados do cristianismo das missões, e de tradições religiosas nativas, para sustentar um fim político passional. O nacionalismo nascido da Revolução Francesa é o primeiro exemplo moderno de fervor político de caráter religioso.

RELIGIÃO CULTURAL

Do ponto de vista do antropólogo, a religião é uma atividade ou interesse entre outros, dentro de um contexto global que é a cultura. De um ponto de vista religioso, a religião não pode ser observada como uma atividade ou um interesse cultural; ela própria se constitui no ponto de vista do qual devem ser consideradas todas as atividades e interesses culturais. Seja ela um voz vinda do deserto, a julgar uma cultura inteira, ou propriamente uma cultura integral que não admite nada que lhe seja estranho, é absoluta, e não um interesse entre outros. A “redução” da religião a um fenômeno cultural com o

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propósito de estuda-la é, às vezes, entendida como uma rejeição das suas pretensões absolutas, levando à supressão do fenômeno como ele é na realidade. Essa é uma confusão de objetivos. De qualquer forma, a relatividade da religião é um fato histórico, juntamente com as pretensões absolutas. Na cultura grega,  por exemplo, a religião é apenas uma instituição entre outras, e, neste particular, é completamente diferente do judaísmo ou islamismo.

            Malinowski, em Uma Definição Científica de Cultura, faz poucas menções à religião... O homem, em todos os seus estágios, diz ele, possui um conhecimento fundado empiricamente e usado racionalmente. O “conhecimento racional” é sempre o guia e apoio principal, a “espinha dorsal” da cultura, desde os primórdios, é a base da liderança...

            Onde, então, entra a religião? Onde o conhecimento falha; no controle do tempo ou das doenças, por exemplo. Os fatos grandiosos, a morte, os desastres, o destino, trazem consigo os temores e as esperanças religiosas, e a fé e a prática religiosas.  A sua importância, comparável á dos fatos que, para o homem, estão além dos seus conhecimentos e poderes, leva a religião a uma associação íntima com todas as formas de organização social. Sob esse aspecto, existe um sistema puramente racional e empírico de pensamento no contexto de um sistema religioso e mágico de credo e culto, com uma liderança e organização práticas contrapondo-se à liderança e organização espirituais...

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Contudo, mesmo que não se possa afirmar que o conhecimento racional tem sido a espinha dorsal da cultura e a base da liderança desde os primórdios, esse segmento independente, empírico e racional, existe marcadamente nos alicerces da cultura. O Iluminismo grego e o Helenismo podem ser considerados assentes nesse segmento. Os gregos tentaram ampliar o campo das artes e das ciências e aprimora-las, para torna-las adequadas às necessidades e exigências da vida humana. Pode-se dizer que eles procuraram, pelo conhecimento e pela técnica, aprimorar a arte de viver, o que pode ser considerado como a deificação da razão ou a racionalização do divino. O homem, possuidor de um dom divino, o intelecto, pode aspirar ao conhecimento e à contemplação durante todo o tempo ou durante toda a sua existência, guiado pelo mesmo tipo de inteligência. Este tipo de pensamento religioso-cultural, aspirando à divindade por meio da compreensão, em lugar do ritual, desenvolveu-se livremente porque não havia organização ou liderança espiritual exercendo controle sobre a cultura ou parte dela. Já se disse que o gênio de Homero manteve a teologia longe das mãos dos sacerdotes, encarregados apenas do culto (Cornford). No auge da cultura clássica, os homens deixaram de reverenciar as sagradas escrituras, substituindo-as pelos poetas, filósofos e oradores da Grécia e de Roma. (Com base nesse padrão, eles acharam os cristãos incultos, e seus livros sagrados extravagantes.)

            As escolas de pensamento que se desenvolveram por reflexão crítica sobre a mitologia e a tradição religiosa, e por discussões especulativas, estabeleceram certas teologias e filosofias naturais de vida, das quais as mais influentes... foram o estoicismo e o neoplatonismo. Estas escolas tinham uma visão terapêutica do homem; permanecendo ignorante, ele viveria doente e seria atingido pela desgraça; a cura consistia na educação e na vida racional.

O estoicismo foi um tipo definido de religião cultural cultivada na antiguidade clássica, mas a religião cultural da época talvez fosse melhor representada pelo ecletismo dos homens ilustrados.

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Helenismo significava a religião da cultura, o ideal clássico de educação, assim como Romanitas significava a religião do patriotismo. A procura pessoal da perfeição, através de uma vida dedicada aos estudos, era a religião dos educados... um problema pessoal e o alvo supremo dos helenos... Contrastando com as rigorosas doutrinas e controvérsias das escolas, o homem educado em busca do autocultivo era seu próprio padrão. Sua religião cultural era pessoal, como deve ser o ecletismo prático.

RELIGIÃO POPULAR

            A religião popular é primitivamente “paganismo”, no sentido radical da religião da terra e do fogo, adoração das divindades do campo e das colheitas, dos lugares santos e dos deuses protetores dos lares. Urbanizada, esta se tornou a religião de Roma. A recusa à adoração propicia os demônios e espíritos malignos, fantasmas e almas do outro mundo. Neste nível de temores ignorantes e esperanças irrealizáveis, a religiosidade e a superstição mal podem ser distinguidas. Além dos deuses e espíritos locais

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da natureza, há os deuses e heróis das lendas populares e dos mitos – os deuses dos poetas de Varrão. A maioria dos mitos é de origem popular, como as canções antigas. Os mitos são, na realidade, teologia e metafísicas populares, como acentuou Varrão. As festas religiosas podem também ser de origem popular; o carnaval é... uma festa popular.

            O interesse religioso popular é absorvido pela religião eclesiástica, e a Igreja Romana foi particularmente feliz ao fazê-lo, (Re) batizando as práticas pagãs. Mas o interesse popular pode desenvolver religiões independentes fora do controle eclesiástico e da corrente tradicional fundamental. Os movimentos populares sectários tendem a ser extravagantes, orgiásticos ou apocalíticos e escatológicos, uma proteção (projeção?) das aspirações para além das duras condições da existência cotidiana... compensações aos que, por um motivo ou por outro, julgam-se pouco aquinhoados pela sorte... Ao longo de toda a História, aparecem novas manifestações de revolta popular pela transformação da religião eclesiástica ou política na “religião dos oprimidos”...

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RELIGIÃO PESSOAL

            A religião, seja ela eclesiástica, política, cultural ou popular, é, primordialmente, um fato social e se desenvolve em contextos sociais, mas tem sido constantemente extraída da sociedade para o contexto da vida pessoal... Whitehead, desafiando a moderna sociologia, definiu a religião como “o que o indivíduo faz da sua própria solidão”. O Deus de Israel era o Deus de Abraão e o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, e foi para este Deus identificável que os profetas de Israel chamaram o seu povo. Santo Estevão, o primeiro mártir e herético cristão, voltou-se da mesma forma para o Deus de Abraão e o Deus de Moisés, rejeitando todo o Templo e todas as suas obras como sendo idolatria, leis humanas promulgadas por sacerdotes. A verdadeira religião da Convenção era simbolizada pelo tabernáculo em meio ao deserto. Era a revelação direta de Deus, como a recebida pelos profetas, e não um conjunto de doutrinas e estatutos nas mãos dos sacerdotes. Jesus surgiu para restaurar a tradição da verdadeira religião pessoal.

            A inspiração direta não era vista pelos padres como “exclusividade”. Os profetas que construíram a religião do Velho Testamento não eram “filhos dos profetas”. E não eram instrumentos passivos através dos quais falava Deus, mas sim personalidades fortemente reflexivas, cuja compreensão foi iluminada ou instruída... O porta-voz de Jeová, entretanto, era um filho do povo a quem ele falava, e suas palavras foram da maior relevância para a religião que ambos professavam. O que Spinoza fez da sua solidão ficou como a religião de um homem para ele mesmo, uma religião cultural, mas exclusivamente pessoal.

            Assim, a religião pessoal pode ser e permanecer exclusiva, pode ser uma renovação ou um desenvolvimento da religião tradicional, (Lutero), ou ainda o lado invisível da religião eclesiástica: a devoção pessoal.

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            A consciência é a mola mestra da religião pessoal, como a razão o é da religião cultural, a tradição, da religião eclesiástica, e a autoridade ou poder, da religião política. A religião popular, pode-se supor, permanece ligada à base primitiva da religião.

RECAPITULAÇÃO

            No judaísmo, Romanitas, helenismo, paganismo e cristianismo, a tradição europeia encontra as formas primitivas clássicas das religiões eclesiástica, política, cultural, popular e pessoal... Existem muitos exemplos diferentes na época moderna e antiga. Na verdade toda a religião na sociedade civilizada deve ser estudada nestes termos. Aconteça o que acontecer no futuro, ainda não é razoável argumentar que o interesse eclesiástico é o único genuinamente religioso, que os interesses culturais e políticos, por exemplo, não são interesses religiosos, na medida em que se voltam para a religião com objetivos não-religiosos... O interesse político ou cultural... o interesse pessoal ou popular, na religião tradicional, pode ser tão genuinamente religioso quanto o próprio interesse eclesiástico, mesmo se, sob a influência destes outros interesses, a religião tradicional for inteiramente transformada ou substituída. Romanitas ou helenismo ou paganismo são, logicamente consideradas, do ponto de vista do cristianismo ou islamismo... religiões espúrias ou idólatras, mas este não é o ponto de vista sociológico. O nosso pensamento foi tão influenciado pelos exemplos do judaísmo, cristianismo e islamismo, por mais remoto que eles sejam, que dificilmente conseguimos pensar em religião sob forma diferente da tradição eclesiástica dominante. Agora que os interesses políticos e culturais e a consciência privada, gozam de notória autonomia, como pode a religião tradicional ser mais que um interesse entre muitos: o que é feito de suas pretensões absolutas? Os

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outros interesses autônomos não são rivais das pretensões absolutas (isto é, religiosas)? Como se relacionam estas autonomias na sociedade moderna? É viável uma nova cristandade? É possível que algum dos outros interesses se torne dominante e traga consigo um tipo de integração diferente? Estas são algumas das questões discutidas nessas páginas.

            Talvez seja útil considerar estes cinco interesses religiosos como tendo três graus. O primeiro seria simplesmente uma aspecto da religião eclesiástica: na cristandade medieval, o Estado, o povo, as universidades e as pessoas, individualmente, eram religiosos no sentido da participação na religião eclesiástica tradicional mantida pelo clero. O segundo grau seria uma diferenciação que gerou uma forma independente de religião, seja popular, pessoal, cultural ou política. O terceiro grau seria nada mais que um interesse na religião, ou no seu uso desta ou daquela maneira, por um dos interesses citados, para um fim não-religioso: este pode variar desde a hipocrisia pessoal até a sociologia.


APLICAÇÕES CONTEMPORÂNEAS

            Existe material abundante para ilustrar esta análise com exemplos contemporâneos de religião cultural, pessoal, política e popular. As formas contemporâneas serão... mencionadas a seguir, com o fito de ilustrar a análise, ficando o seu estudo mais completo para um capítulo posterior.
            No jogo destes cinco interesses religiosos, a religião tradicional pode apresentar uma tendência à crescente sofisticação, movida pelo interesse eclesiástico em se tornar uma religião política ou cultural. Ou poderia haver um interesse político ou cultural do terceiro grau na religião, quando a administração política sustentasse a religião, como contribuição às necessidades dos cidadãos, ou ainda, quando se desenvolvesse um interesse no estudo da religião sem participação na vida religiosa. Este interesse político ou cultural do terceiro grau pode ser reforçado pelo interesse popular do terceiro grau na religião – vista talvez como uma chave ou técnica para atingir o “sucesso”.

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... tais interesses são movidos por propósitos não-religiosos. É perfeitamente possível a ocorrência de uma supervalorização dos aspectos pragmáticos da religião, em detrimento de qualquer ateísmo, e até acompanhada de manifestações hostis à propaganda antirreligiosa, mesmo que parte dos responsáveis pela sociedade ou do seu povo não seja religiosa praticante. A religião eclesiástica pode continuar sendo “uma boa coisa”, embora muito poucos a pratiquem...

            “Prática”, “conflito” e “determinação” são palavras em voga, difundidas pela influência da análise filosófica existencialista que, estimulada pela interrupção e quebra da solidariedade social nos países ocupados durante a guerra, afetou profundamente a teologia.

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            A religião política pode ser completamente exemplificada pelo fascismo. Mussolini ressuscitou conscientemente a tradição romana. Nas palavras de um escritor católico:

                “O regime de Mussolini, como o de Napoleão, dependia do controle absoluto da mente e do espírito do povo italiano, que lhe dedicava uma devoção de caráter nitidamente religioso. O fascismo, embora pagão, possuía um caráter marcadamente religioso, porque exigia devoção, espírito de sacrifício e completa submissão à nação, ao partido e ao Duce. O próprio Mussolini o definiu, na Enciclopédia Italiana, como uma concepção do Estado: seu caráter, seus deveres e seus objetivos. O fascismo concebe o Estado como absoluto; todos os indivíduos ou grupos são relativos a ele, isto é, são considerados apenas nas suas relações, com o Estado.” (Hales: A Igreja Católica no Mundo Moderno,pg.286).

            O medo do comunismo como uma religião político-cultural que poderia substituir inteiramente o cristianismo, pode ser notado nestas palavras dos bispos católicos americanos pronunciadas em 1948:

            “Estamos prontos a cooperar com bondade e caridade com todos os que acreditam em Deus e se dediquem à causa da liberdade sob a proteção de Deus, para afastar o perigo iminente do “estabelecimento legal do secularismo”, que baniria Deus da vida pública. O secularismo ameaça os fundamentos religiosos de nossa vida nacional e abre caminho para o advento do Estado onipotente” (citado por Schneider em Religião na América do Século XX, págs. 29-30). (negrito nosso)

            Estas palavras contém algumas ideias obscuras, mas representam a aliança da religião eclesiástica com o interesse político democrático contra o comunismo... nos partidos democrata-cristãos que empreenderam a reconstrução da Europa Ocidental, depois da guerra, sob a liderança de De Gaspari, Adenauer e Schumann...

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Os partidos democrata-cristãos se opuseram não apenas aos partidos comunistas, mas também aos partidos tradicionalmente anticlericais de extrema esquerda, eclipsados pelos comunistas no período do pós-guerra... relaxada a pressão por parte dos comunistas, os democrata-cristãos assumiram o papel de libertadores, e tornou-se possível uma aliança com os socialistas de esquerda na Itália. O secularismo político agressivo do século dezenove provavelmente não ressurgirá. São possíveis novas condições para o secularismo.

            Pop art é um termo genérico que tem sido usado atualmente para designar uma variedade de produções artísticas bastante conhecidas. O termo pop religion não tem uso corrente, mas o fenômeno é igualmente conhecido. O que é o comportamento ritualístico de uma determinada classe de adolescentes, com precisão característica de um culto? Ou a adoração dos “astros” e heróis populares endeusados pela tela?...

            A mitologia dos poetas (Varrão), os amuletos e relíquias sagrados, a adoração e os símbolos aí estão, criando um culto popular genuíno e organizado. Ver a religião popular meramente como formas aberrantes de religião eclesiástica, como as testemunhas de Jeová, ou pensar em religião política somente em termos de Igreja e Estado, é ter uma noção provinciana de religião. A religião é imemorial, mas suas fontes ainda não se esgotaram.

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RELIGIÃO CONCRETA

            O que é o cristianismo? Parece que a resposta mais definitiva que se possa dar consiste em recitar os credos dos apóstolos ou de Nicenas. E de fato é; mas será este o cristianismo que as pessoas realmente praticam?... ainda assim continua muito abstrato para muitos? Esta não é a imagem pública do cristianismo, nem a sua definição abstrata, mas sua face interna, revestida de história, e sua semente protegida pelo calor da devoção. Até que ponto o sociólogo pode-se aproximar da fonte de tanto amor e reverência? Cada igreja tem seu caráter próprio... as lições de seus líderes e sua importância dentro da comunidade, as relações com o poder civil, o papel dos leigos em sua conduta; estas são, na verdade, as formas que podem ser descritas e comparadas. O cristianismo, como tudo o mais, é o que ele faz. Os atrativos de uma igreja dependem muito do comportamento dos seus fiéis no passado e no presente, da presença de nomes ilustres e da reputação do pároco local. Talvez estas distintas tradições com suas longas memórias... estejam fadadas a dar lugar a impressões estritamente contemporâneas. Talvez o cristianismo perca gradualmente sua influência e passe a ser julgado simplesmente pelo que as pessoas autodenominadas cristãs seja ou façam.

 

Cap. 1- Sobre a Religião 2 - O Cristianismo até a Revolução Francesa 3 - Alternativas do Século XIX 4 - A Ideia de Uma  Sociedade Cristã 5 - A Religião nas Escolas
Cap. 6 - O "Status" Atual da Religião 7 - A Ideia de uma Sociedade Aberta 8 - Progresso Secular e Progresso Religioso 9 - O Papel da Igrejas 10 - A Coexistência dos Absolutos.