BLACKHAM, H.J.
A Religião Numa Sociedade Moderna
Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1967.

INDICE

Capitulo.1 - Sobre as Religiões
Capitulo.2 - O Cristianismo até a Revolução Francesa
Capitulo.3 - Alternativas do Século XIX
Capitulo.4 - A Ideia de uma Sociedade Cristã
Capitulo.5 - A Religião nas Escolas
Capitulo.6 - O "Status" Atual da Religião
Capitulo.7 - A ideia de uma Sociedade aberta
Capitulo.8 - Progresso Secular e progresso religioso
Capitulo.9 - O Papel da Igreja
Capitulo.10 - A Coexistência dos Absoluto
Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10

Capítulo 2 - O Cristianismo até a Revolução Francesa

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O CRISTIANISMO PRIMITIVO

            O cristianismo é a única religião pessoal. Cristo é autor da fé, e ele mesmo objeto da fé; ser-lhe fiel significa aceitar um convite para com ele estabelecer e fruir eternamente uma relação pessoal. Não há nada comparável, em qualquer outra religião ou filosofia. A concepção judaico-cristã do absoluto é a de um Ser que cria o universo como um ato franco de amor. A alma não está destinada a voltar à sua origem, mas o homem é criado livre para rejeitar ou aceitar a oferta de ressurreição para uma vida eterna ao lado do Pai. A unidade de Deus e do homem é uma unidade da graça e não da natureza. Deus

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estabelece relações com o homem através dos profetas e, na sua forma suprema, através de Cristo, que não é um profeta, porém o próprio Deus fazendo-se passar por homem através da sua Palavra. O estabelecimento e a persistência do caráter pessoal desta fé ao longo de todos os contatos e conflitos com outras religiões eclesiásticas, políticas, culturais e populares, é notável. Suas características únicas têm resistido a influências poderosas e pressões irresistíveis, desde o antigo Egito até a ciência moderna.

            Exclusivamente pessoal, a fé é, porém, uma religião eclesiástica na medida em que se formou dentro de uma tradição e criou outra própria. O testemunho dos apóstolos era compreensível e verossímil porque traduzia o cumprimento de ensinamentos usuais. Isto se manteve como uma evidência para a crença. Quando os padres apostólicos cederam lugar aos apologistas, que ultrapassaram os limites a fim de atingir os sofisticados, apresentando o cristianismo como uma filosofia digna de respeito intelectual, e não para ser destruída pelos helenos racionais como “tolice”, Justino viu-se constrangido a valer-se de suas provas contidas nos livros judaicos: “Como poderíamos acreditar que um crucificado é o primogênito de Deus natural, e que ele irá julgar toda a humanidade, se não tivéssemos em mãos uma profecia anterior à sua vinda sob forma humana, e se não a tivéssemos visto ser integralmente cumprida?”.
 
            Mesmo sendo uma corrente dissidente do judaísmo, o cristianismo foi considerado o cumprimento das promessas de Jeová com relação à Israel; e a inclusão do Velho Testamento nas bases da nova tradição evidencia o propósito de continuar uma religião eclesiástica existente. Uma das primeiras batalhas da fé deveu-se a este fato. Repugnava aos pensadores gregos reconhecer em Jeová o Deus supremo e incognoscível revelado em Cristo. Marcion achava o Velho Testamento irreconciliável com o evangelho de Cristo, porque se recusava a usar o método alegórico de interpretação. No princípio, a unidade da Igreja nascente foi enfraquecida por Santo Estevão e os judeus helenizados que ele representava, que rejeitavam abertamente a “lei” e tudo quanto era visto como regras clericais provenientes de Aarão e remanescentes da adoração do templo de Jerusalém. Cristo veio para acabar com toda esta

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idolatria. Somente o culto ético e espiritual defendido pelos profetas era abençoado e eficaz.

            Nesta interpretação de religião verdadeira, havia uma soma de duas correntes de cultura: a crítica racional grega aos cultos pagãos (a teologia dos filósofos substituindo a teologia dos poetas) e a crítica ética dos profetas de Israel a todos os cultos da natureza. Mas o novo movimento não seguiu esta linha de fusão do judaísmo e do helenismo numa religião cultural comum, e se manteve mais perto da tradição bíblica. O Espírito esparso sobre a nova igreja em Pentecostes era aquele “através do qual os profetas profetizavam, os padres recebiam as lições de Deus, e os virtuosos eram guiados no caminho da virtude”, e esta era a revelação do Velho Testamento renovada e completada para sempre quando Cristo foi feito homem entre os homens “para completar e acertar todas as coisas”. Os novos ensinamentos foram interpretados à luz da tradição, e o Velho Testamento reestruturado (alegorizado) à luz da nova revelação. Nas famosas palavras de Santo Agostinho: “o Novo testamento está oculto no Velho; o Velho Testamento é revelado pelo Novo”.

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            O cristianismo primitivo era, portanto, o repúdio à religião política fundada no poder e à religião cultural fundada na confiança e na razão. Era uma religião do “coração”... Sob este aspecto, era uma religião exclusivamente pessoal e popular... No fim do século III, o cristianismo tinha realizado pouco progresso entre os homens cultos.

            O cristianismo era, no princípio, absolutamente descomprometido, rejeitando indiscriminadamente a religião política de Roma, a religião dos filósofos e os cultos populares, todos igualmente malditos e idólatras. A obediência aos

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poderes constituídos surgiu com a primeira política oficial, sem ser, entretanto, calcada no espírito do patriotismo cívico, mas apenas como uma aliança provisória com um regime temporal. “Para nós, cristão”. Disse Tertuliano, “nada é tão estranho quanto a república. Nós reconhecemos uma única república, a de todos os homens: o mundo”. A noção aristotélica de que os homens vivem juntos nas cidades para propiciar uma vida feliz, de que a civilização é um trabalho de cooperação para o qual todos estão convocados, era estranha ao pensamento cristão. O Estado existia apenas para exercer a coerção e punir, para coibir os excessos do homem natural. Era um regime interino, e por isso não havia base para uma cooperação íntima permanente. Na realidade, a religião política, o culto oficial do Estado, crescia em popularidade e poder, atraindo para si a rivalidade de uma nova religião. Paralelamente ao culto do Estado, persistiam os cultos locais e domésticos, e florescia o sincretismo dos cultos redentores do Oriente. O panteão romano abriu-se para receber estes deuses exóticos, e o sincretismo foi coroado pelo monoteísmo dos filósofos. Dentro desta situação hindu de proliferação e tolerância religiosas, apenas o Deus cristão era superior e intransigente. As pretensões de domínio das outras religiões criaram o abismo definitivo de separação entre os cristãos e o mundo que os cercava.

            Era inevitável para os convertidos a esta nova humanidade a alienação dos objetivos e interesses da religião política imperial, acompanhada de resistência às imposições do crescente culto ao Estado e rejeição dos cultos populares idólatras. Sua total oposição aos refinamentos da filosofia grega especulativa e moral era igualmente inevitável. A filosofia grega deificava a razão e, em virtude dela, o homem: o homem era convidado a se tornar divino pela graça. A filosofia era dirigida a uma elite intelectual; o evangelho era pregado aos pobres. A filosofia interpretava e alegorizava as superstições populares, mas não as condenava, nem as afastava. Os filósofos buscavam a serenidade perfeita, e acreditavam alcançar a harmonia seguindo a

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natureza. O evangelho trouxe esperança àqueles que sabiam não ser outra sua alternativa senão uma vida destinada ao pecado e à morte. Os filósofos não possuíam a noção de um novo paraíso ou de uma nova terra: eles reconheciam a necessidade, mas não a providência. O cristianismo estava, portanto, separado da civilização greco-romana por uma total disparidade de postulados, pensamentos e aspirações.

            Apesar do abismo dessa separação, havia algumas conexões. Deus (o Deus Hebreu!) foi claro em sua criação e em sua revelação. Os gentílicos sem lei poderiam, naturalmente ou de acordo com sua consciência, seguir as palavras da lei (Romanos, II, 14-15; Atos, XVIII). A procura desinteressada da verdade e o comportamento ordinário honesto seriam caminhos para Deus (João, III, 21). A filosofia, como a lei, poderia levar o homem a Deus (Gálatas, III, 24)...

Excetuando-se os escritores do Novo Testamento, os filósofos cristãos apareceram antes dos teólogos; uma filosofia cristã surgiu em Alexandria, no final do século II, antes de uma teologia propriamente dita. Clemente de Alexandria e seu discípulo Orígenes eram filósofos cristãos por excelência, impregnados de filosofia grega, pensando com sua linguagem e seus conceitos, quando iniciaram claramente uma formulação teológica do cristianismo em sua luta contra o gnosticismo.

As controvérsias sobre o gnosticismo e arianismo deveriam ser decididas numa luta entre o cristianismo grego e o cristianismo hebreu. Havia... noções especulativas... no pensamento grego, sobre o absoluto, todas fundamentalmente opostas à concepção judaico-cristã de um ser transcendente, criador e fonte única incriada de todas as coisas, que forjou o homem à sua própria imagem, por um ato livre de amor, cuja providência governa o mundo (e o diabo?! não é ele o dono do mundo?!), a quem o homem desafiou e por quem será absolvido. As ideias gregas sobre a natureza do divino e do homem, e o tratamento dado pelos gregos ao problema do Demônio, todos diferentes das ideias judaicas, eram familiares aos homens cultos, e quase prevaleceram. O cristianismo teria que entrar em acordo com a cultura helênica se essa tomasse a dianteira, provavelmente pelo desenvolvimento de uma teosofia cristã em vez de uma teologia expressamente cristã, que afinal foi criada durante as controvérsias e acabou prevalecendo.

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Um engajamento fiel ao pensamento apostólico estritamente tradicional estipulou os dados da eligião: que Deus, o Pai, era uno e criador de todas as coisas; que o filho de Deus, Jesus Cristo, tornou-se homem entre os homens para abolir a morte e abrir caminho para a vida eterna e a perfeita reconciliação entre o homem e Deus; que o Espírito Santo, através do qual os virtuosos de Israel tinham conhecido a vontade de Deus, espargiu-se de uma nova forma sobre toda a humanidade através da Igreja, iniciando uma nova era. Tudo isto fora trazido com a Revelação em Cristo, e não estava sujeito a qualquer outra prova. O que a filosofia podia fazer era tentar tornar esses dados inteligíveis.

            Quando o vigoroso Deus de Israel, que tinha sido o Senhor dos Exércitos e o Deus das Batalhas, tornou-se o Deus em cujo nome avançavam as águias romanas, o Deus da História e das atividades políticas; quando o hospitaleiro panteão romano foi fechado, e os antigos deuses, sob os quais Roma havia iniciado seu ciclo de prosperidade, foram oficialmente abolidos em nome do ciumento Deus de Israel revelado em Cristo; quando, finalmente, o cristianismo havia não somente sobrevivido ao conflito com tais e tão poderosos rivais, mas também prevalecido sobre eles, a Igreja não tinha nem assimilado, nem sido

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assimilada pela civilização greco-romana: ela possuía uma base popular própria, sua constituição eclesiástica, suas esperanças históricas e políticas, e sua literatura religiosa, tudo em discordância com as ideias populares, os ideais políticos e as conquistas culturais do mundo romano.

            “O Imperador dava a maior importância à execução dos rituais cristãos porque pensava que a segurança do Império dependia deles” (Parker). Seguiu-se uma integração da Igreja, o novo culto oficial, com a sociedade política. No século IV a Igreja tornou-se, aos olhos dos homens cultos uma carreira valiosa, mais atraente que a opressiva administração imperial. Ela tomara para si algumas funções administrativas, especialmente no nível municipal (provincial?!) e passou a atrair alguns espíritos poderosos de Ambrósio a Agostinho.

            As contradições entre a fé cristã, o helenismo e Romanitas foram suprimidas, mas não resolvidas por esta integração...  O conhecimento da natureza e profundidade destas contradições  é da maior importância para qualquer consideração a respeito da posição da Igreja e do papel que ela desempenha na sociedade contemporânea.

            1) A contradição entre fé (hebraica) e a razão (grega) não foi resolvida pela teologia. A doutrina de logos – o termo comum e intermediário entre a mente do homem e a mente de Deus – antes obscureceu que resolveu a contradição. A fé estava contida numa iniciativa de Deus, e dependia desta iniciativa. O intelecto era (ainda é!?) incompetente para descobrir e explicar o Espírito Santo. Mesmo que a razão fosse a mesma no homem e em Deus, a alma não era uma partícula do divino destinada a regressar à sua fonte; ela era criada “diferente” do Criador, como uma fonte de diálogo e integração humana. Em suma, Deus visitava e absolvia seu povo; o homem não se elevava à contemplação de Deus pelo exercício da razão. Essa ideia repugnava aos filósofos, mas provou ser popular e politicamente útil, e foi oficializada por requerimento imperial como novo mito e novo culto para a nova Roma... a filosofia estava em desvantagem nesse assunto. Os dogmas não eram suscetíveis de prova; a fé e a graça não dependiam da razão ou da vontade humana...

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Apesar de a teologia cristã ter se estabelecido com esses conceitos contra a filosofia grega e a teosofia cristã, contando com a ajuda do Império, a vitória não foi definitiva. Cristo e a cultura formam ainda hoje – e hoje mais do que nunca – uma conjunção problemática.

            2) Pode ser que a Igreja esteja reconciliada com o Estado e trabalhe com ele e através dele, mas permanece, indiscutivelmente como uma teocracia. Na teocracia judaica havia um elemento de puritanismo que imputava a Jeová um ciúme divino dos sacerdotes e reis que funcionavam como intermediários entre ele e as pessoas de sua comunidade. Quando o Messias chegasse, ele viria como Rei e Sacerdote, e Deus reinaria sobre seu Império. A oração pelo fim do regime secular e pela vinda de Cristo sobreviveu durante tanto tempo na Igreja, graças a sua fidelidade e ao espírito messiânico do cristianismo primitivo. Quando os concílios mais sofisticados passaram a predominar, as esperanças evangélicas foram falsificadas, e a Igreja comprometeu-se. Mesmo depois da adoção da Igreja pelo Estado, milhares de pessoas expressavam e viviam seu cristianismo abandonando o estado e suas tarefas, reunindo-se no deserto para viver a “vida religiosa”, em desprezo deste mundo...

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No princípio da Idade Média, o passado clássico foi idealizado, e de 600 a 1000, a história cultural da europa Ocidental compõe-se de uma série de tentativas, bastante isoladas no tempo e no espaço, da recriação das glórias do passado pela acumulação e imitação de seus ensinamentos e literatura... Para estes intelectuais

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maravilhosos; todo o conhecimento era originário deles; imitá-los e reproduzi-los era a única esperança; eles eram os únicos modelos. Deus estava no trabalho e podia ser vislumbrado nas artes e na natureza. Todas as formas de conhecimento e ensino eram subservientes à teologia... Quando em meados do século XIII, toda a doutrina aristotélica e árabe havia sido introduzida, os universitários estudiosos de lógica estavam aptos a construir um sistema cobrindo toda a experiência humana sem fazer referência à fé religiosa. A razão, as artes e a ciência ganharam uma autonomia relativa dentro do sistema cristão. São Thomaz de Aquino limitou os campos e definiu a competência da razão e revelação, graça e natureza. A mente humana era capaz de entender, à luz da razão, o ordenado universo aristotélico, e participava, por meio da graça e revelações sobrenaturais, de uma ordem mais alta de verdades antecipando a Visão Bem-Aventurada. Havia uma teologia sobrenatural nas bases da teologia natural...

A autonomia da cultura e da política, que não faziam sentido no contexto medieval, já apareciam como pensamentos revolucionários no século XIV.

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A Reforma

            O problema da jurisdição temporal e espiritual, que tanto perturbou a Idade Média, não foi resolvido pela Reforma. A hipótese de uma sociedade unitária comum, baseada na aceitação geral da lei divina, contida nas Escrituras persistiu... Esta religião verdadeira deveria portanto, ser mantida e estimulada pelos magistrados. Tal foi a decisão adicional da Igreja Católica, até que Calvino e Lutero levantaram a questão de a consciência, as Escrituras, ou o ardor reformista estarem em conflito com a nova ordem...

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            O problema foi colocado de maneira clara, embora cruamente, por Rousseau: “Já que nenhum homem possui autoridade natural sobre os seus semelhantes, e o poder não gera o direito, a única base que resta para autoridade legítima nas sociedades humanas é o acordo.”

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A religião de Jesus produziu uma ruptura entre o sistema ideológico e o político, e o Estado deixou de ser uno e indivisível... “a dupla autoridade era a responsável pelo perpétuo estado de conflito entre duas jurisdições opostas” (Rousseau). Conclui ele: “Além de ter-se tornado impossível qualquer boa organização da vida nos Estados cristãos, não se conseguiu decidir, finalmente, se um homem deve obediência última ao governador ou ao sacerdote.” O ponto principal desta tese é que a Igreja Cristã, em sua forma romana, é uma religião política e constitui um Estado dentro do Estado ou, como disse Locke, “os católicos romanos são compelidos a se transformar em agentes de uma jurisdição estrangeira”... segundo Rousseau, apenas Hobbes viu claramente o erro e a solução: estabelecer a soberania do Estado sobre a Igreja, ficando esta como seu instrumento:

            “A religião, observada em relação ao Estado... também pode ser dividida em dois tipos: a religião do homem como o homem e a religião do cidadão. A primeira, sem templos, altares ou rituais, estritamente limitada à adoração interior do Deus Supremo e às eternas obrigações morais, é a religião pura e simples dos Evangelhos...”

            A outra, que ele descreve como “lei divina civil ou positiva”, é constituída pelos dogmas, ritos e formas de adoração prescritas na lei como vínculo entre os cidadãos... Ele acha que o ideal moderno é a religião dos homens

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(dos evangelhos). Esta, entretanto, não somente não sanciona as leis da sociedade, mas tende a afastar os homens do Estado e de todos os assuntos meramente terrenos, minando o espírito público de uma sociedade... Mas esta religião pessoal precisa ser equilibrada por uma religião puramente civil, um corpo de sentimentos sociais sem os quais nenhum homem pode ser bom cidadão ou objeto de confiança: e4sta religião civil deve ser promulgada e reforçada por toda a sociedade.

            Agora, que não há nem pode haver nenhuma religião nacional exclusiva, nós devemos tolerar todos os credos que mostrem tolerância com os outros, contanto que seus dogmas não contenham nada em discordância com os deveres do cidadão. Porém qualquer pessoa que ousar dizer que “fora da Igreja não pode haver salvação” deve ser banida do estado, a menos que o Estado se transforme em Igreja, e o Príncipe em pontífice. Tal dogma só é bom onde o governo é teocrático. Do contrario é pernicioso.”

            A seriedade do pensamento de Rousseau ficou evidente quando a Revolução Francesa privou a Igreja da França dos últimos remanescentes da posição de supremacia, e pretendeu regulamentar a vida interna da Igreja na Constituição Civil.

Cap. 1- Sobre a Religião 2 - O Cristianismo até a Revolução Francesa 3 - Alternativas do Século XIX 4 - A Ideia de Uma  Sociedade Cristã 5 - A Religião nas Escolas
Cap. 6 - O "Status" Atual da Religião 7 - A Ideia de uma Sociedade Aberta 8 - Progresso Secular e Progresso Religioso 9 - O Papel da Igrejas 10 - A Coexistência dos Absolutos.