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Duas Realidades ou uma só?
(ou em uma só!?)
Certeza Experimental e Experiencial
As hipóteses que acabamos de expor podem ser consideradas como tais quando
vistas do ponto de vista da ciência de nível de consciência baseada nos cinco
sentidos, nível que chamamos de CEC 1. Em nível de CEC 2, no nível da
consciência cósmica, elas constituem certezas experienciais. Perguntando a
qualquer pessoa que tenha entrado em nível de consciência cósmica, se ela
concorda com essas hipóteses, ela responderá de certo que para ela a maioria,
senão todas elas constituem algo que ela mesma experimentou.
A maior dificuldade, em nível de CEC 1, consiste justamente em
aceitar, mesmo como hipótese, a existência de uma dimensão fora do tempo-espaço
em que inexiste separação entre objetos, nem sobre o EU e o não EU.
Estamos aqui diante de um velho quebra-cabeça em relação ao qual o
Ioga assim como as diversas metodologias orientais ou ocidentais de meditação
deram uma resposta experiencial, ao alcance de quem tenha paciência, abertura e
motivação suficientes para realizar tal experiência.
O
problema das Duas realidades
O quebra-cabeça consiste em perguntar como o cognoscente pode conhecer o
cognoscido, como o “eu” pode conhecer o “não-eu”, se ambos são feitos da mesma
energia ou da mesma essência. É a essência se conhecendo a si mesma... Eu sou
feito de um corpo físico, que é constituído de um conjunto de aparelhos
sensoriais receptores das impressões visuais, auditivas, tácteis, gustativas,
olfativas; estas impressões
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são transmitidas ao cérebro por vias nervosas aferentes ; outras vias eferentes
transmitem respostas adaptativas automáticas ou através do analisador racional.
Estes órgãos sensoriais têm como função permitir ao cérebro se formar uma imagem
da realidade externa tanto quanto possível exata. Em outras palavras, “eu” posso
perceber a realidade de uma árvore, de um alimento ou de um pinheiro através das
informações recebidas através dos meus órgãos sensoriais. Ao realizar esta
operação informativa, “eu” estou ao mesmo tempo informado do aspecto ou
qualidade “externo” do objeto sentido; assim se forma a convicção difícil de
desenraizar, de que “eu” sou diferente do mundo exterior.
Esta diferença entre o mundo exterior e o “eu” se acentua ainda
mais, sob efeito das informações proprioceptivas, cinestésicas e cenestésicas
entre outras. O alimento uma vez percebido pela forma, cor, cheiro, sabor e
textura provoca uma série de respostas condicionadas ou incondicionadas como por
exemplo boas lembranças alegria ou tristeza, salivação ou sensação de fome, ou
ainda associações de ideias com fatos relacionados com experiências passadas;
todas estas informções interiores reforçam ainda mais a convicção da exist6encia
real de um mundo interior e de um mundo exterior de um "eu"e de um "não-eu".
Esta divisão entre dois mundos é o que constitui a base psicológica da
ciência ocidental e do nível do CEC 1. Ela até reforça essa separação quando
exige formalmente que deve se eliminar toda influência do mundo subjetivo como
por exemplo a imaginação ou a emoção.
Sob efeito da meditação, qualquer que seja a técnica usada para entrar neste
estado, a divisão entre dois mundos, entre o "subjetivo" e o "objetivo",
desaparece. O meditante começa a tomar consciência de que existe nele uma parte
do "eu", um observador que permanece o mesmo, que não se modifica e que toma
conhecimento com uma certa distância tanto das percepções esteroceptivas
como interoceptivas; numa fase mais adiantada, este "eu" se percebe como sendo
idêntico quanto à sua essência ao mundo exterior. Neste momento ele é sujeito a
"insight": o mundo tal como ele o percebia é ilusório, havendo uma
dicotomia que Le Shan (1973) intitulou de "Individual Reality"; segundo ele há
duas espécies de "realidades individuais":
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a realidade
individual "sensorial" e a realidade individual "clarividente". Damos a seguir
um quadro-resumo que traduzimos do seu excelente trabalho sobre uma teoria geral
do "Paranormal".
QUADRO
COMPARATIVO ENTRE A
REALIDADE INDIVIDUAL SENSORIAL
E A REALIDADE INDIVIDUAL CLARIVIDENTE
EM RELAÇÃO A CERTOS PRINCÍPIOS BÁSICOS.
(Seg. Le Shan
1973)
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(S-IR)
Sensory Individual Reality
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(C-IR)
Clairvoyant Individual Reality |
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1. Objetos e eventos separados no
tempo e/ou espaço são primariamente individuais e separados, mesmo
se são vistos de modo secundário - como sendo relacionados em
unidades maiores |
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A identidade individual é
essencialmente ilusória. Primariamente, objetos e eventos fazem
parte de uma configuração que por sua vez é parte de uma
configuração maior e assim por diante até que tudo esteja incluído
no grande plano e configuração do universo. Eventos individuais e
objetos existem, mas a sua individualidade é bastante secundária em
relação ao fato de ser parte integrante da unidade da configuração.
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2. A informação vem através dos
sentidos, e estes são as únicas fontes válidas de informação. |
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A informação é conhecida através
do cognoscente, e do objeto fazendo parte da mesma configuração
unitária. os sentidos nos dão apenas informação ilusória.
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3. O tempo é dividido em passado,
presente e futuro e se move de modo irreversível numa só direção do
futuro, através do presente, no passado. É o tempo de
uma-coisa-que-é-seguida-por-outra.
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O tempo não tem divisões;
presente, passado e futuro são ilusórios. Existe sequência de ação
mas isto acontece num eterno agora. É o tempo de tudo-de-uma-vez. |
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4. Um evento ou uma opção podem
ser bons, neutros ou maus, mesmo se as suas consequências
frequentemente só são percebidas somente muito tempo após o evento.
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O mal é uma ilusão, tal como o
bem. O que é "é", e não é nem bom nem mau, mas faz parte de um plano
cósmico eterno e harmonioso, o qual, pela força da sua existência,
está acima do bem e do mal. |
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5. A vontade livre existe, e se
pode fazer decisões que alteram o futuro. A ação pode ser realizada
através da vontade. |
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A vontade livre não existe já que
o que será "é", e que o começo e o fim de tudo se fundem um no
outro. Decisões não podem ser tomadas já que isto envolve
ação-no-futuro e que o futuro é ilusório. Não podemos agir mas
apenas observar a configuração das coisas.
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6. A percepção pode ser focalizada
em qualquer direção desejada, salvo se bloqueada, e aquele
conhecimento específico pode ser adquirido. |
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A percepção não pode ser
focalizada, pois isto envolve a vontade, a decisão e
ação-em-direção-ao-futuro; todos estes impossíveis. Conhecimento vem
quando a gente "é" na configuração das coisas e não do desejo de
conhecer uma informação específica. A percepção não pode ser
exteriormente bloqueada já que o conhecimento vem do fato de ser
parte do Todo, e que nada pode aparecer entre cognoscente e
cognoscido, já que eles são a mesma coisa.
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7. O espaço pode impedir o
intercâmbio de informação e energia entre dois objetos individuais a
não ser que haja uma "média", uma "coisa-entre", que transmite a
energia ou a informação de um a outro.
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O espaço não pode impedir o
intercâmbio de energia entre dois objetos individuais, já que a sua
separatividade e individualidade são subordinadas à sua unidade e
relatividade. |
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8. O tempo pode impedir o
intercâmbio de energia ou informação entre dois objetos individuais.
Intercâmbios só podem ser realizados no presente, e nao
do presente ao passado ou do presente ao futuro.
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O tempo não pode impedir o
intercâmbio de energia ou informação entre dois objetos individuais,
já que a divisão em passado, presente e futuro são ilusões, e que
todas as coisas ocorrem num " eterno agora". |
Como já mostramos numa das nossas hipóteses, a primeira na relação, há uma
semelhança muito grande e uma quase-identidade de pontos de vista entre as
visões dos místicos e as da física moderna; Le Shan o demonstra claramente
(1973). Não vamos voltar ao assunto; queremos apenas mostrar que já em nível CEC
1 existe uma brecha que tende a fazer cair a balança a favor do (C-IR) que se
confunde aliás em grande parte com a nossa CEC 2. Em outras palavras a mística e
a física nos descrevem um mundo totalmente diferente do que estamos percebendo;
as coincidências entre as descrições das duas disciplinas
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forçam um aceitação da CEC 2.
Resulta disto que a
ciência atual e do futuro tem e terá que levar em consideração esta realidade
fora do tempo-espaço. A ciência passará progressivamente ao nível de CEC 2, à
medida que a Psicologia se dispuser a integrar este mesmo nível; é o que explica
a criação da Psicologia Transpessoal, cuja função essencial será de efetuar uma
verdadeira revolução nos conceitos atuais desta ciência.
Qual das Duas Realidades é Real?
Surge então um último problema: Qual
dos dois modos de perceber é mais verdadeiroplo?
Diante desta
pergunta, parece surgir uma divisão na percepção entre os que entram na
consciência cósmica; esta divisão tem gerado inúmeras correntes filosóficas,
tanto no Ocidente quando no Oriente; ela está também na base da distinção entre
o "materialismo" e o "espiritualismo" e é ela que distingue, num certo sentido,
as posições do Ioga Hinduísta e do Ioga Budista. Nas grandes linhas os
materialistas defendem as posições da CEC 1, embora devam sentir-se bastante
embaraçados diante de certas posições recentes da física moderna. Os
espiritualistas defendem as posições da CEC 2. Os budistas insistem no caráter
ilusório, tanto do mundo exterior quanto do mundo interior, e negam, em sua
tendência niilista, toda realidade de nossa experiência do eu, qualquer que seja
sua forma, enquanto que os hinduístas tendem a negar apenas a realidade do "eu"
ou ego dos cinco sentidos; para a maioria deles só é real o nível de CEC 2.
Tudo indica que a percepção e a aceitação de duas realidades
são apenas reflexo de uma fase evolutiva em que se encontram ou se encontravam
os místicos na sua caminhada. Sri Aurobindo, por exemplo, insiste muito neste
ponto; ele mostra que as pessoas que vivem intensamente a realidade da
consciência cósmica têm uma tendência a negar a nossa realidade cotidiana; mas
que progressivamente estas pessoas passam a aprender a viver e a experimentar os
dois planos como sendo uma só realidade, pois a divisão segundo ele é apenas
aparente. Há em nós um "eu" que faz parte integrante do "eu" universal; uma
parte deste "eu" está em contato com o mundo, isto é, com outras partes de
outros "eus", através dos cinco sentidos, os quais dão a este "eu" parcial a
impressão de separatividade. Como o afirma Willian James, há inúmeras verdades
mas só há uma realidade; ele queria expressar com isto o mesmo de Sri Aurobindo;
percebemos o mundo em relação à nossa mente, que é por sua vez apenas uma parte
do "eu" total; assim sendo o mundo é ilusório apenas no sentido de uma
relatividade; é uma parte do nosso eu, a mente, que percebe uma parte do
universo; à medida que nos aprofundamos e alcançamos níveis subliminais,
subconscientes e superconscientes é que a realidade nos parece de modo cada vez
mais amplo; a parte inferior do "eu" (o "ego" freudiano) dos cinco sentidos
passa a ser percebida como fazendo parte integrante da parte do "eu" retraído (o
"Self" de Jung); por um processo de de conhecimento por identificação, bastante
diferente do conhecimento intelectual, o "eu" total interior passa ater a
vivência de sua pertinência ao "eu" universal e o eu universal passa existir
dentro do "eu"individual o qual ao mesmo tempo se percebe como sendo todos os "eus"
individuais de todas as partes do universo. Isto é que caracterizaria os
estágios mais adiantados da consciência cósmica.
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