WEIL, Pierre.
A Consciência Cósmica,
Introdução à Psicologia Transpessoal.

Petrópolis: Editora Vozes LTDA. 1978. 

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Duas Realidades ou uma só? (ou em uma só!?)

Certeza Experimental e Experiencial 

As hipóteses que acabamos de expor podem ser consideradas como tais quando vistas do ponto de vista da ciência de nível de consciência baseada nos cinco sentidos, nível que chamamos de CEC 1. Em nível de CEC 2, no nível da consciência cósmica, elas constituem certezas experienciais. Perguntando a qualquer pessoa que tenha entrado em nível de consciência cósmica, se ela concorda com essas hipóteses, ela responderá de certo que para ela a maioria, senão todas elas constituem algo que ela mesma experimentou.
            A maior dificuldade, em nível de CEC 1, consiste justamente em aceitar, mesmo como hipótese, a existência de uma dimensão fora do tempo-espaço em que inexiste separação entre objetos, nem sobre o EU e o não EU.
            Estamos aqui diante de um velho quebra-cabeça em relação ao qual o Ioga assim como as diversas metodologias orientais ou ocidentais de meditação deram uma resposta experiencial, ao alcance de quem tenha paciência, abertura e motivação suficientes para realizar tal experiência.

 O problema das Duas realidades 

O quebra-cabeça consiste em perguntar como o cognoscente pode conhecer o cognoscido, como o “eu” pode conhecer o “não-eu”, se ambos são feitos da mesma energia ou da mesma essência. É a essência se conhecendo a si mesma...  Eu sou feito de um corpo físico, que é constituído de um conjunto de aparelhos sensoriais receptores das impressões visuais, auditivas, tácteis, gustativas, olfativas; estas impressões 

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são transmitidas ao cérebro por vias nervosas aferentes ; outras vias eferentes transmitem respostas adaptativas automáticas ou através do analisador racional. Estes órgãos sensoriais têm como função permitir ao cérebro se formar uma imagem da realidade externa tanto quanto possível exata. Em outras palavras, “eu” posso perceber a realidade de uma árvore, de um alimento ou de um pinheiro através das informações recebidas através dos meus órgãos sensoriais. Ao realizar esta operação informativa, “eu” estou ao mesmo tempo informado do aspecto ou qualidade “externo” do objeto sentido; assim se forma a convicção difícil de desenraizar, de que “eu” sou diferente do mundo exterior. 

            Esta diferença entre o mundo exterior e o “eu” se acentua ainda mais, sob efeito das informações proprioceptivas, cinestésicas e cenestésicas entre outras. O alimento uma vez percebido pela forma, cor, cheiro, sabor e textura provoca uma série de respostas condicionadas ou incondicionadas como por exemplo boas lembranças alegria ou tristeza, salivação ou sensação de fome, ou ainda associações de ideias com fatos relacionados com experiências passadas; todas estas informções interiores reforçam ainda mais a convicção da exist6encia real de um mundo interior e de um mundo exterior de um "eu"e de um "não-eu".

            Esta divisão entre dois mundos é o que constitui a base psicológica da ciência ocidental e do nível do CEC 1. Ela até reforça essa separação quando exige formalmente que deve se eliminar toda influência do mundo subjetivo como por exemplo a imaginação ou a emoção.

            Sob efeito da meditação, qualquer que seja a técnica usada para entrar neste estado, a divisão entre dois mundos, entre o "subjetivo" e o "objetivo", desaparece. O meditante começa a tomar consciência de que existe nele uma parte do "eu", um observador que permanece o mesmo, que não se modifica e que toma conhecimento com uma certa distância tanto das percepções esteroceptivas como interoceptivas; numa fase mais adiantada, este "eu" se percebe como sendo idêntico quanto à sua essência ao mundo exterior. Neste momento ele é sujeito a "insight": o mundo  tal como ele o percebia é ilusório, havendo uma dicotomia que Le Shan (1973) intitulou de "Individual Reality"; segundo ele há duas espécies de "realidades individuais":

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a realidade individual "sensorial" e a realidade individual "clarividente". Damos a seguir um quadro-resumo que traduzimos do seu excelente trabalho sobre uma teoria geral do "Paranormal".
 

QUADRO COMPARATIVO ENTRE A
REALIDADE INDIVIDUAL SENSORIAL
E A REALIDADE INDIVIDUAL CLARIVIDENTE
EM RELAÇÃO A CERTOS PRINCÍPIOS BÁSICOS.

(Seg. Le Shan 1973)

 

(S-IR)
Sensory Individual Reality
 

 

(C-IR)
Clairvoyant Individual Reality

1. Objetos e eventos separados no tempo e/ou espaço são primariamente individuais e separados, mesmo se são vistos de modo secundário - como sendo relacionados em unidades maiores

 

A identidade individual é essencialmente ilusória. Primariamente, objetos e eventos fazem parte de uma configuração que por sua vez é parte de uma configuração maior e assim por diante até que tudo esteja incluído no grande plano e configuração do universo. Eventos individuais e objetos existem, mas a sua individualidade é bastante secundária em relação ao fato de ser parte integrante da unidade da configuração.
 

2. A informação vem através dos sentidos, e estes são as únicas fontes válidas de informação.

 

A informação é conhecida através do cognoscente, e do objeto fazendo parte da mesma configuração unitária. os sentidos nos dão apenas informação ilusória.
 

3. O tempo é dividido em passado, presente e futuro e se move de modo irreversível numa só direção do futuro, através do presente, no passado. É o tempo de uma-coisa-que-é-seguida-por-outra.
 

 

O tempo não tem divisões; presente, passado e futuro são ilusórios. Existe sequência de ação mas isto acontece num eterno agora. É o tempo de tudo-de-uma-vez.

4. Um evento ou uma opção podem ser bons, neutros ou maus, mesmo se as suas consequências frequentemente só são percebidas somente muito tempo após o evento.

 

 

O mal é uma ilusão, tal como o bem. O que é "é", e não é nem bom nem mau, mas faz parte de um plano cósmico eterno e harmonioso, o qual, pela força da sua existência, está acima do bem e do mal.

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5. A vontade livre existe, e se pode fazer decisões que alteram o futuro. A ação pode ser realizada através da vontade.

 

A vontade livre não existe já que o que será "é", e que o começo e o fim de tudo se fundem um no outro. Decisões não podem ser tomadas já que isto envolve ação-no-futuro e que o futuro é ilusório. Não podemos agir mas apenas observar a configuração das coisas.
 

6. A percepção pode ser focalizada em qualquer direção desejada, salvo se bloqueada, e aquele conhecimento específico pode ser adquirido.

 

A percepção não pode ser focalizada, pois isto envolve a vontade, a decisão e ação-em-direção-ao-futuro; todos estes impossíveis. Conhecimento vem quando a gente "é" na configuração das coisas e não do desejo de conhecer uma informação específica. A percepção não pode ser exteriormente bloqueada já que o conhecimento vem do fato de ser parte do Todo, e que nada pode aparecer entre cognoscente e cognoscido, já que eles são a mesma coisa.
 

7. O espaço pode impedir o intercâmbio de informação e energia entre dois objetos individuais a não ser que haja uma "média", uma "coisa-entre", que transmite a energia ou a informação de um a outro.
 

 

O espaço não pode impedir o intercâmbio de energia entre dois objetos individuais, já que a sua separatividade e individualidade são subordinadas à sua unidade e relatividade.

8. O tempo pode impedir o intercâmbio de energia ou informação entre dois objetos individuais. Intercâmbios só podem ser realizados no presente, e nao do presente ao passado ou do presente ao futuro.

 

 

O tempo não pode impedir o intercâmbio de energia ou informação entre dois objetos individuais, já que a divisão em passado, presente e futuro são ilusões, e que todas as coisas ocorrem num " eterno agora".

         Como já mostramos numa das nossas hipóteses, a primeira na relação, há uma semelhança muito grande e uma quase-identidade de pontos de vista entre as visões dos místicos e as da física moderna; Le Shan o demonstra claramente (1973). Não vamos voltar ao assunto; queremos apenas mostrar que já em nível CEC 1 existe uma brecha que tende a fazer cair a balança a favor do (C-IR) que se confunde aliás em grande parte com a nossa CEC 2. Em outras palavras a mística e a física nos descrevem um mundo totalmente diferente do que estamos percebendo; as coincidências entre as descrições das duas disciplinas

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forçam um aceitação da CEC 2.
          Resulta disto que a ciência atual e do futuro tem e terá que levar em consideração esta realidade fora do tempo-espaço. A ciência passará progressivamente ao nível de CEC 2, à medida que a Psicologia se dispuser a integrar este mesmo nível; é o que explica a criação da Psicologia Transpessoal, cuja função essencial será de efetuar uma verdadeira revolução nos conceitos atuais desta ciência.

 

Qual das Duas Realidades é Real?

Surge então um último problema: Qual dos dois modos de perceber é mais verdadeiroplo?
           Diante desta pergunta, parece surgir uma divisão na percepção entre os que entram na consciência cósmica; esta divisão tem gerado inúmeras correntes filosóficas, tanto no Ocidente quando no Oriente; ela está também na base da distinção entre o "materialismo" e o "espiritualismo" e é ela que distingue, num certo sentido, as posições do Ioga Hinduísta e do Ioga Budista. Nas grandes linhas os materialistas defendem as posições da CEC 1, embora devam sentir-se bastante embaraçados diante de certas posições recentes da física moderna. Os espiritualistas defendem as posições da CEC 2. Os budistas insistem no caráter ilusório, tanto do mundo exterior quanto do mundo interior, e negam, em sua tendência niilista, toda realidade de nossa experiência do eu, qualquer que seja sua forma, enquanto que os hinduístas tendem a negar apenas a realidade do "eu" ou ego dos cinco sentidos; para a maioria deles só é real o nível de CEC 2.
    Tudo indica que a percepção e a aceitação de duas realidades são apenas reflexo de uma fase evolutiva em que se encontram ou se encontravam os místicos na sua caminhada. Sri Aurobindo, por exemplo, insiste muito neste ponto; ele mostra que as pessoas que vivem intensamente a realidade da consciência cósmica têm uma tendência a negar a nossa realidade cotidiana; mas que progressivamente estas pessoas passam a aprender a viver e a experimentar os dois planos como sendo uma só realidade, pois a divisão segundo ele é apenas aparente. Há em nós um "eu" que faz parte integrante do "eu" universal; uma parte deste "eu" está em contato com o mundo, isto é, com outras partes de outros "eus", através dos cinco sentidos, os quais dão a este "eu" parcial a impressão de separatividade. Como o afirma Willian James, há inúmeras verdades mas só há uma realidade; ele queria expressar com isto o mesmo de Sri Aurobindo; percebemos o mundo em relação à nossa mente, que é por sua vez apenas uma parte do "eu" total; assim sendo o mundo é ilusório apenas no sentido de uma relatividade; é uma parte do nosso eu, a mente, que percebe uma parte do universo; à medida que nos aprofundamos e alcançamos níveis subliminais, subconscientes e superconscientes é que a realidade nos parece de modo cada vez mais amplo; a parte inferior do "eu" (o "ego" freudiano) dos cinco sentidos passa a ser percebida como fazendo parte integrante da parte do "eu" retraído (o "Self" de Jung); por um processo de de conhecimento por identificação, bastante diferente do conhecimento intelectual, o "eu" total interior passa ater a vivência de sua pertinência ao "eu" universal e o eu universal passa existir dentro do "eu"individual o qual ao mesmo tempo se percebe como sendo todos os "eus" individuais de todas as partes do universo. Isto é que caracterizaria os estágios mais adiantados da consciência cósmica.

 

 

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