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Comentários
de Carlos Eduardo G. Barbosa
Sutra IV, 1
Os
siddhis, que foram descritos no capítulo anterior,
são o resultado da movimentação de forças oriundas do
inconsciente
(citiçakti - veja sutra IV,
34). Eles são também as
causas operativas do
parinama.
Podem ser acionados de diversas maneiras,
conforme descrito neste
sutra, mas também ocorrem
espontaneamente na matéria fundamental, a
Prakrtí,
(conforme sutra IV, 2).
Nesta última hipótese esses
siddhis não são decorrência
das ações (karman) nem
estão sujeitos a elas.
Sutra IV, 4 a 6
A
mente é o instrumento
da ação consciente. No
entanto, pode nos levar a
agir movidos por vontades
que não são nossas. Para
nos tornarmos donos de
nossas próprias ações precisamos descobrir o verdadeiro “eu” (citta)
que anima
nossa mente. Ao realizar
a meditação proposta pelo
sistema do yoga, desenvolvemos
nossa verdadeira
identidade, descobrimos o
coração de nossa mente, o
centro espiritual de nossa
alma e de nossos atos.
Sutra IV, 10
A
ideia de eternidade expressa
pela palavra
anaditva
implica na ausência de um
início conhecido, mas não
significa que não possa
terminar.
(IV, 9-17)
Sutra IV, 11 e 12
Os
pensamentos mundanos
ocupam cada vez mais a
nossa mente, pois
prendem-se à nossa memória, determinando como
entendemos o nosso passado, e também aos nossos
hábitos, criando uma linha
de dependência para
nossos
atos futuros.
O futuro e o passado se
revelam apenas através das
ações realizadas no mundo
material, e sua qualidade
depende da identidade ou
dissemelhança que mantêm
com a condição natural,
dharma, de citta
Sutra IV, 18 a 23
Esses sutras entranham
uma discussão de ordem
metafísica: se existe apenas
uma existência universal,
da qual citta é a expressão
limitada, como ela poderia
perceber a sua própria
existência? Será que citta
percebe a sua própria presença
em outro citta? Será
que existe a possibilidade de
um citta sequer perceber a
manifestação de outro?
A resposta apresentada por
Patañjali é simples:
Não há percepção consciente
de citta por outro citta,
mas apenas a visão de
suas projeções (vqttis).
Citta percebe sua própria
presença no mundo na
forma de uma vivência, um
sentimento inconsciente de
sua identidade com o todo.
Mas isso só acontece quando
aprende a distinguir
entre o colorido que expressa a sua própria natureza
essencial e aquele que revela
as expressões imperfeitas
dos pensamentos sobre a
matéria
Sutra IV, 29
O
Samadhi da Nuvem do
Dharma é a condição em
que o praticante vai além da
integração “observadorobjeto” e se integra à totalidade dos
objetos ao seu
redor. Percebe então sua
própria presença espiritual
em todos e em cada um
deles. Isso é o mesmo que
dizer que a sua condição
espiritual [dharma] se projeta
ao seu redor de maneira
difusa e indistinta, como se
fosse uma delicada nuvem
do dharma.
Nessa condição nada
mais
resta para ser observado
pois tudo se converteu no
próprio observador.
A percepção de que não há o
“outro”, mas apenas o
“eu”, produz a sensação do
isolamento [Kaivalyam],
verdadeiro objetivo da prá-
tica do Yoga darçana.
Sutra IV, 34
Esta frase final encerra os
Sutras declarando que as
qualidades da matéria
[guna]
retornam ao seu
estado de latência para
aquele em quem o modo de
pensar de citta se torna um
hábito predominante. Não
há mais a necessidade de
suporte material para a
mente, e o indivíduo está
plenamente integrado ao
todo da natureza manifestada.
Isto, em suma, é o
Kaivalyam.
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1. Os
siddhis podem ser alcançados por nascimento,
por ervas medicinais [osadhi],
por mantras, pelo
Tapas
ou por
Samadhi;
2. A transformação [parinama]
(que leva a) outro
nascimento provém de excessos em
Prakrti;
3. A característica de
Prakrti,
por conseqüência,
é ser tão sem resultados [aprayojaka]
quanto
quem põe agricultores numa encosta erodida;
4. Os cittas criados pela mente [nirmana]
surgem
do que é desvinculado [amatra]
da egoidade
[asmita];
5. Um único citta dentre muitos é aquele que
promove [prayojaka]
uma ruptura no impulso
das
vrttis;
6. Ali está o coração da mente [manas],
que nasce
da meditação [Dhyana];
7. Nem brilhantes nem obscuras são as ações dos
yoguins. De três modos são as dos outros. [As
ações movidas pelos estímulos mundanos estão
sujeitas às qualidades (gunas)
próprias da
matéria];
8. São, portanto, quando amadurecem, a
manifestação
das inclinações [vasanas]
correspondentes às qualidades [guna]
de cada um.
[Os
vasanas
são
pensamentos comuns, orientados
por desejos e não originados da
inspiração de
citta (não
espiritualizados), que se baseiam na
memória e são
movidos pelos
samskaras.]
9. Ainda que
se diferenciem nos tipos, no espaço e
no
tempo, os
vasanas
vão se sucedendo
da mesma
forma que os
samskaras
e a
memória;
10. E sua evocação [dos
vasanas,
pelos
samskaras
e
pela
memória] nunca teve um princípio
[anaditva],
em
razão de ser contínua [ou seja,
eterna];
11. A relação de proximidade entre causa e frutos
produz uma
forte dependência da qual decorre
o fato
de que se não existem estes [os “frutos”,
os
vasanas]
é porque também não existe aquele
[o conjunto
dos
samskaras
e a
memória]
12. Passado e Futuro existem, à sua maneira
peculiar,
[apenas] como uma ruptura no curso
de realização
dos
dharmas;
13. [Essas condições] são visíveis ou sutis, com a
mesma
natureza dos gunas (qualidades da
matéria);
14. A aparência externa exibida pelas coisas é
produto
de uma série única de transformações
(evolução);
15. Se um mesmo objeto é percebido de maneiras
diversas, é
porque os cittas são muito
diversificados;
16. A aparência do objeto, no entanto, não é a
elaboração [tantra]
de um único citta, pois o
que seria ele
então se não estivesse sendo
percebido?
17. As aparências são conhecidas [jzata]
ou
desconhecidas de citta, conforme o colorido
que lhe imprimem.
[Este
sutra explica, em seu
estilo conciso,
que a percepção do mundo por
citta não acontece
pela identificação consciente
e intelectual de características
distintivas dos
objetos. Ela é, na verdade, vivencial. Citta se
identifica com o próprio
objeto, tornando-se
ele mesmo, incorporando o seu
colorido, ou
seja, suas características diferenciais.];
18. As
vrttis
de
citta são sempre conhecidas do
Purusha, pois não sofrem transformações;
19. Citta não tem expressão própria [svabhaõa],
pois [para
isso] ele precisaria ter visibilidade
[dqçyatva
-
isto
significa que se tornaria um
objeto de percepção,
podendo ser conhecido
conscientemente por outro
citta];
20. E citta não pode concentrar-se em duplicidade,
num
único momento [samaye];
21. Na visão de citta por um outro citta, haveria
uma
confusão entre o percebedor e o que deve
ser percebido, e se
confundiriam também as
memórias;
22. Então, a partir da interrupção da intensa
movimentação do “pensar” [citti]
de
citta,
[surge] a vivência
da percepção de si mesmo
[svabuddhi],
na transição para uma condição
ativa;
23. O colorido tanto no observador quanto no
observado, é
citta,
em sua totalidade;
24. Porém, matizado por inumeráveis pensamentos
materiais [vasanas],
[citta]
pode multiplicar
atividades
orientado para objetivos que não
são seus;
25. Ao procurar pela diferença (individualidade),
cessa
[para o yoguim] a [percepção da]
existência material, porque atman se
manifesta;
26. Citta, então, tendendo ao discernimento, gravita
em
direção ao isolamento espiritual
[Kaivalyam];
27. Nas falhas desse procedimento, em decorrência
dos
hábitos [Samskara],
outras convicções ainda
se manifestam;
28. É ensinado
que a sua destruição se faz como a
destruição dos
kleças
(perturbações). [Ver
sutras II,
10 e 11];
29. Para quem age com discernimento e desiste de
receber as mais
elevadas recompensas por seus
méritos, há o Samadhi da Nuvem do
Dharma;
30. Daí a introversão [nivqtti]
das ações ligadas às
perturbações;
31. Então, devido à infinitude do conhecimento que
foi
libertado de todas as impurezas superficiais,
torna-se pouco o que resta para ser conhecido;
32. Então tendo os
gunas
alcançado seus
objetivos
evolutivos, encerra-se a marcha das
transformações;
33. Essa marcha já não mais aprisiona, mas liberta
o praticante
das transformações e da morte, pois
integra
a totalidade dos momentos [num só
momento];
34. O Kaivalya é o estado que se segue ao retorno
dos gunas ao seu estado original por estarem
esvaziados da presença
e do interesse do
Purusha, ou se
diz que se estabelece em sua
natureza autêntica a
força [que existe] em
citta
(o espírito por
trás da mente). [O
pensamento,
ou melhor, as raízes espirituais do pensamento
prescindem, nesse estágio final,
de qualquer
veículo material para se manifestar,
pois atuam
em sua natureza original - integradas
ao
pensamento divino];
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