Içivara pranidhana

 


 

Os Aforismos de Patanjali(*)

 

 

 
 

 

Vibhuti (os resultados)

 

 

Sutras

Comentários de Carlos Eduardo G. Barbosa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anga: órgão, membro, ou
qualquer parte autônoma e
independente dentro de um
corpo ou organismo.
Em sânscrito, a formiga,
cujo corpo apresenta as
partes claramente separadas
(cabeça, tronco, abdome,
patas, antenas) é chamada
angani (tanajura). Era assim que se apelidavam também as mulheres de cintura
estreita e quadris largos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sutra III, 9

A primeira transformação
de citta - Samadhi.

 

 

Sutra III, 11

A segunda transformação
de citta - Dhyana.


 

Sutra III, 12
A terceira transformação de
citta - Dharana.

 

 

 

Sutras III, 14-15
A diferença entre as distintas transformações não pode
ser percebida senão pela
maneira como acontecem
por isso não importa qual
delas opera, mas sim os
resultados que são percebidos, e que passam a ser
descritos a partir do
sutra 16

 

1. Concentração [Dharana] é a fixação de citta em um objeto;

2. Meditação [
Dhyanam] é a continuidade da
    cognição nesse único objeto;

3.
Samadhi é perceber-se como a própria medida
    do objeto, esvaziando-se de sua própria
    forma;

4. Estes três passos reunidos são o
Samyama
   
(meditação intensa);

5. De sua conquista se origina o mundo do
   conhecimento natural [
prajzaloka];

6. Sua aplicação é gradual [por etapas];

7. Os três são
angas internos para os seus
    precedentes. [Angas são cada uma das oito
    partes que compõem a prática do Yoga.
    No segundo capítulo dos Sutras Patanjali
    descreveu os cinco primeiros angas, que são
    considerados “externos” por produzirem
    efeitos perceptíveis para quem observa o
    praticante];

8. Eles, porém, são
angas externos do nirbijam
   
(“sem sementes”);

9. A transformação [de citta] pela prática do
    nirodha (recolhimento das vrttis) é a conexão
    de citta aos momentos em que ocorre esse
    nirodha, ou seja, seu fortalecimento e
    enfraquecimento na  prática freqüente [
samskara]
    do nirodha e da dispersão [
vyutthana]. [Esta
     transformação é viabilizada pelo Samadhi
];

10. Sua tendência à tranqüilidade advém do

      samskara
[hábito];

11. A transformação de citta pela prática do
      Samadhi é a destruição e o ressurgimento da
      concentração num único ponto [
ekagrata] e da
      distração [
sarvartha] [Esta transformação é
      viabilizada durante Dhyana
];

12. Daí, mais uma vez, a transformação de citta
      pela prática da concentração num único ponto
      [
ekagrata] é a percepção clara e diferenciada
      [
pratyaya] e a identificação genérica [tulya]
      naquilo que é indistinto [
çanta] e no que é
      destacado [
udita]. [Esta transformação é
      viabilizada por Dharana
];

13. Assim se explica [
vyakhyata] a transformação
      de estado [
avastha] e de comportamento
      [
dharma laksana] nos elementos e nos órgãos.
      [
Patañjali preocupa-se em precisar a origem
      das transformações físicas e psíquicas que
      acontecem no organismo do praticante de
      Yoga. Todas elas são conseqüência das
      transformações da condição de citta durante
      a prática do samyama
];

14. É uma condição decorrente de modos de ser
      que não poderiam ser descritos como indistinto
      [
çanta] ou destacado [udita];

15. As causas das diferenças nas transformações de
      citta são as diferenças de método [
krama];

16. Da meditação intensa [
samyama] sobre a tripla
      transformação [
parinama] de citta, surge o
      conhecimento do passado e do futuro.
   

 

 

 

 

 

 

 

Uma série de resultados
são apresentados para a
prática do samyama. A cada
resultado está associada
uma força ou habilidade
psíquica, chamada siddhi.
Todos os siddhis são meros
indicadores de transforma-
ções interiores obtidas pelo
exercício da meditação intensa (samyama).
A meditação é a integração
da mente do yoguim ao
objeto de sua meditação.

 

 

 

 

 

 

 

 

Esta figura com doze
pétalas representa o chakra
do coração, chamado de
anahata.
O mantra Yam ressoa em
seu centro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sutra III, 39

Esse “agente amarrador” é
constituido pelas forças que
emanam de citta através das
suas manifestações materiais [
vrttis], e que prendem
citta firmemente ao corpo,
como se fossem um cordão.
Alguns livros fazem referência a ele como “cordão de
prata”, que não deve ser
confundido com o fio de
prata que representa o
antahkarana

 

 

 

 

 

 

 

Sutra III, 41

Em algumas versões este
sutra aparece como:
|| Samánajayát prajvalanam ||
o que seria traduzido assim:
“Da conquista de Samana,
provem o tornar-se
incandescente”.
Uma das provas “de fogo”
para os yoguins do norte da
Índia é a de cobrir suas
costas com um manto de
tecido encharcado das águas
geladas de algum lago das
montanhas. Entre as neves
eternas dos Himalaias, eles
precisam provar seu
controle sobre o samana
produzindo calor com seu
próprio corpo e provocando
a evaporação da umidade do
tecido até que esteja
totalmente seco. Se diz que
alguns yoguins conseguem
essa proeza em poucos
segundos, durante os quais
ficam envoltos por uma
densa nuvem de
evaporação.

 

 

 

 

 

 

Sutra III, 44

Para a expressão “brilho
pessoal” veja o sutra II, 52.
Os siddhis revelam facetas
de citta que normalmente
ficam ocultas pela natureza
grosseira das forças
materiais.

 

17. O som da palavra, seu objeto e sua idéia
       confundem-se na mente; do
samyama sobre
       suas diferenciações [
pravibhaga] vem o
       conhecimento das vozes de todos os seres
       viventes;

18. Da observação direta dos
samskaras, provem
      o conhecimento das vidas passadas;

19. [Da observação direta] das idéias, o
      conhecimento proveniente de outros cittas;

20. E não está relacionado a isso o que é
      proveniente de sua mera existência mundana.
      [
O autor deixa claro neste sutra que o
      disposto na frase anterior se refere ao
      conhecimento derivado dos núcleos
      espirituais nas mentes alheias, e não das
      ideias traduzidas por suas limitadas
      personalidades materiais. Trata-se,
      naturalmente, de uma comunicação com
      citta, indiretamente, através do contato com
      as idéias de um outro indivíduo.
];

21. Do samyama sobre a forma do corpo provem
      a suspensão da capacidade de captação, pela
      combinação da imagem com os olhos, e
      [portanto] o seu desaparecimento;

22. Da mesma forma se descreve o
      desaparecimento das palavras, etc.;

23 O karma atua com rapidez ou com lentidão.
      Do samyama sobre isso, ou sobre os sinais de
      degeneração do corpo, vem o conhecimento
      da morte [
aparanta];

24. Sobre a amizade, etc., as respectivas forças.


25. Sobre as forças, as forças do elefante, etc;

26. Através da aplicação sobre a manifestação
      objetiva, o conhecimento do sutil, o oculto
      e o distante;

27. O conhecimento do universo vem do
samyama
     
sobre o Sol;

28. Sobre a Lua, o conhecimento da organização
      das estrelas;

29. Sobre a Estrela Polar, o conhecimento do
      seu movimento [das estrelas]. [
Pois as
      estrelas parecem girar ao redor da Estrela
      Polar
];

30. Sobre o chakra do umbigo, o conhecimento
      sobre a organização do corpo;

31. Sobre o “pomo de Adão”, o fim da [
vrtti]
      da fome e da sede;

32. Sobre o
Kurmanadi (o “canal da tartaruga”
      na anatomia sutil), a firmeza. [
A firmeza do
      corpo e do caráter individual
];

33. Sobre o brilho [jyotis] da cabeça, a visão dos
     
siddhas. [O brilho da cabeça mencionado
      aqui é a cintilação das forças psíquicas nos
      centros de atividade que se situam na
      cabeça - o que inclui alguns chakras.
      A meditação sobre essas forças traria uma
      visão clarividente ao Yoguim. Os siddhas
      são os indivíduos dotados de poderes
      psíquicos como esses descritos nos Sutras
];
 

34. Do conhecimento intuitivo [pratibha], tudo
      [se conhece];

35. Sobre o coração, o reconhecimento de
citta;

36.
Sattva e Purusa são extremamente diferentes;
      o entendimento da inseparatividade de ambos
      é a experiência baseada na existência de
Sattva
     
pelo interesse de outro; do samyama sobre o
      auto-interesse vem o conhecimento de
Purusa;

37. Daí nascem o brilho da inteligência, a audição
      superior, o tato sutil, a vidência, o paladar
      sutil e o olfato sutil;

38. Estes
siddhis são obstáculos ao samadhi e são
      a perfeição da mente exterior;

39. Do afrouxamento do “agente amarrador”
      [
bandha karana] e do aprendizado sobre o
      modo de manifestação da individualidade
      [
pracara] de citta, [se obtem a técnica para]
      a entrada nos outros corpos;

40. Pelo domínio sobre
udana; se evita afundar
      nas águas, na lama, nos espinhos, etc., e [se
      aprende] a levitação. [
Udana é composto
      pelo prefixo “ut”, que significa “para cima”,
      e representa as forças sutis que arrastam a
      matéria para o alto, contra as forças da
      gravidade
];

41. Da conquista de
Samana, vem o fogo. [Esse
      sopro vital é o responsável pela distribuição
      de forças para todo o corpo. Os antigos
      mestres descobriram que poderiam controlar
      o calor de seu corpo quando aprendiam a
      identificar e controlar Samana. Algumas
      técnicas foram desenvolvidas até mesmo
      para produzir labaredas no próprio corpo,
      sem produzir queimaduras
];

42. Do
samyama sobre a relação entre a audição
      e o
akaçam, vem a audição espiritual;

43. Do
samyama sobre a relação entre o corpo e
      o
akaçam, e pela obtenção da leveza do
      algodão, vem a movimentação através do
      Espaço;

44. Daí, a destruição dos obstáculos ao brilho
      pessoal é [feita pela] exteriorização
      espontânea do aspecto incorpóreo das
     
vrttis [de citta];

45. Do
samyama sobre o grosseiro, o
      manifestativo, o sutil, o correlativo e o
      funcional, vem o domínio sobre os elementos
      [
bhuta];

46. Daí vem a capacidade de diminuição, etc.,
      as perfeições do corpo, e também a
      não-obstrução à condição espiritual
      manifestada [
dharma];

47. Beleza, charme, força, e a firmeza de um
      diamante são as perfeições do corpo;

48. Do
samyama sobre a ação, natureza real,
      egoidade, correlação e propósito, vem o
      domínio sobre os órgãos sensoriais;

49. Daí vem a velocidade do pensamento, o
      conhecimento sem uso dos sentidos e o
      controle sobre
pradhana;

50. [Como atributo] da completa [
matra]
      percepção da diferença entre sattva e
purusa
     
há a maturação proveniente do conhecimento
      pleno [
sarvajña] e a maturação proveniente
      da ascensão para uma existência plena
      [
sarvabhava];

51. Do desapego até mesmo disso [dessa
      maturação], na destruição da semente do mal
      [
dosa] surge o Kaivalyam. [veja também o
      sutra 56, abaixo
];

52. No entanto, da inclinação ao indesejável
      vem uma falta de ação cheia de orgulho
      quando há a convocação de quem ocupa
      posição mais elevada;

53
. Do samyama sobre o momento e sua sucessão
      vem o conhecimento que nasce do
      discernimento;

54. Daí vem a capacidade de distinguir duas
      coisas similares mesmo quando parecem
      iguais em razão de ausência de diferenciação
      por espécie, características e posição;

55. O conhecimento oriundo do discernimento
      pertence às estrelas [
táraka], alcança todos os
      objetos, alcança todas as condições e não
      depende do tempo;

56. Da coincidência da pureza tanto de
sattva
     
quanto de Purusa surge kaivalyam.
 

Assim se completa o terceiro capítulo,
chamado de “Vibhuti” no tratado sobre Yoga de Çri Patañjali, na doutrina do Samkhya.

 

Cap. I  Samadhi Cap.II  Sadhana Cap.III Vibhuti Cap.IV  Kaivalyam