Içivara pranidhana

 


 

Os Aforismos de Patanjali(*)

 

 

 
 

 

Sadhana (a prática)

 

 

Sutras

Comentários de Carlos Eduardo G. Barbosa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sutra II,6
 

A identidade à qual este
sutra faz referência está
expressa pela palavra
ekatmata, ou seja, sob um
único espírito [
Átma] que
anima as forças do órgão de
percepção e as da própria
percepção.
Os mestres da Índia advertiam seus discípulos para
que não permitissem que
forças estranhas se apropriassem de seus órgãos de
ação ou de percepção.
O caminho do Yoga é o
mesmo dos magos, e não o
dos médiuns.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sutra II, 15

Viveka é o discernimento,
que nos permite distinguir
os objetos percebidos e os
observadores desses objetos.
No entanto, toda separação
provoca sofrimento. Precisamos, portanto utilizar
viveka para distinguir conceitos, e não objetos e para
que a luz do conhecimento
verdadeiro ilumine esse
discernimento.

 

 

 
 

1. Kriya Yoga é o sacrifício [tapas], a busca do
    saber interior [
svadhyaya] e a entrega ao Içvara
    [
Içvarapranidhana];

2. Tem a finalidade de produzir o
Samadhi e
     minimizar as perturbações;

3. Falta de sabedoria, egoidade [
asmita], desejo,
    aversão e apego à vida são as perturbações
    [
kleças];

4. Falta de sabedoria é o campo onde crescem as
    demais perturbações, quer estejam adormecidas,
    enfraquecidas, isoladas ou totalmente ativas;

5. Falta de sabedoria é a percepção da eternidade,
    pureza, bem estar e individualidade naquilo que
    é perecedor, impuro, desagradável e não
    individual;

6. Egoidade [
asmita] é a identidade aparente das
    forças da percepção pura com as do instrumento
    da percepção;

7. Desejo [
raga] é o que decorre da experiência do
    prazer [
sukha];

8. Aversão [
dvesa] é o que decorre da experiência
    da dor [
duhkha];

9. Apego à vida é um sentimento que surge por sua
    própria força até mesmo no sábio;

10. [Essas perturbações,] quando se tornam sutis,
      são destruídas. [
sua existência só faz sentido
      e só é possível no mundo grosseiro e material
];

11. Dhyana (meditação) destrói as manifestações
     [
vrttis] [dessas aflições]. [Dhyana devolve ao
      praticante a sabedoria (vidya), destruindo o
      único campo em que as aflições podem se
      desenvolver
];

12. O recipiente do karma (ações), que é a raiz das
      perturbações, deve ser percebido como a
      origem do visível e do invisível;

13. Existindo essa raiz, é o seu desfrute [
de prazer
      e sofrimento decorrentes do karma
] que faz
      existir o nascimento, a duração da vida e a
      maturidade;

14. Seus frutos são prazer e dor, conforme
      provenham da virtude ou do vício;

15. Tudo que vem do discernimento, bem como o
      que  vem da luta entre os desdobramentos
      [
vrttis] das qualidades da matéria [gunas] é
      verdadeiramente sofrimento [
duhkam] por
      força do sofrimento produzido pelas
      transformações naturais [
parinama], pelo
      sacrifício [
tapas] e pelos hábitos [samskaras];

16. Sofrimento que ainda não surgiu é o que pode
      ser  evitado;

17. A identificação entre o que percebe e a coisa
      percebível é a razão dessa dor poder ser
      evitada.

 


Comentários:
Os objetos materiais são dotados das características de permanência e impermanência,
simultaneamente. O aspecto impermanente produz sofrimento
no observador. É uma relação maculada. O aspecto permanente é um
conjunto de arquétipos aos quais o objeto está associado, e que expressam
sua essência espiritual. Ao se ligar a esse perfil espiritual do objeto, o
observador encontra a sua própria essência espiritual ali refletida.
Esse forte elo entre observador e objeto é o samyoga.


 

Sutra II,18
 

Não há percepção se não há
algo que se possa perceber.
Não há desfrute se não
houver algo que se possa
perceber distintamente de
nós mesmos. Essa coisa
percebível compartilha dos
mesmos princípios naturais
utilizados pelos órgãos
sensoriais, senão jamais
seria percebida. Ela é, por
essa razão, evidenciável, ou
seja, capaz de se tornar
destacada diante de nossa
consciência; é também
ativa, no sentido de produzir uma ação sensível sobre
nossos órgãos sensoriais; e
também é estável, para que
possamos atribuir a ela um
significado e um valor
 


Sutra II, 20

Pode-se dizer que um ato de
percepção pura acontece na
esfera de citta, muito longe
da natureza material. A
consciência, no entanto,
está presa aos objetos materiais, impermanentes.
Quando nossa relação com
os objetos é imaculada, ela
acontece na esfera de citta,
ainda que se apoie nas
atividades inferiores dos
órgãos sensoriais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sutra II, 24

A sabedoria (Vidya) não se
expressa por palavras ou
idéias, mas apenas por atos.
O sábio é aquele que age
corretamente, ainda que não
possa explicar as razões de
suas próprias ações.
O conhecimento (jñana)
não traz sabedoria, mas
apenas pode melhorar ou
piorar nossa relação com os
objetos. Nossa ligação com
os objetos que percebemos é
o princípio de nossa existência consciente. Mas ao
nos desligarmos do aspecto
exterior dos objetos, damos
oportunidade para o
surgimento de vidya, e
podemos realizar a
integração plena com esses
mesmos objetos.
Quando podemos perceber
os objetos e, ao mesmo tempo, ser integralmente esses
mesmos objetos, sentimos
que existe apenas uma única presença. O Universo se
esvazia (no kaivalyam) e
estamos livres.

 

Sutra II, 28

O discernimento é o caminho para eliminar a falta de
sabedoria (sutra 26), mas é
também causa de todo sofrimento (sutra 15). Para que
possamos resguardar apenas suas características
verdadeiramente construtivas, devemos iluminá-lo
com a inteligência despertada pela prática gradual dos
angas do Yoga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sutra II, 43

Os sentidos corporais,
Indriyani, são de dois tipos:
Budhindriyani, ou órgãos
sensoriais de percepção; e
Karmendriyani, ou órgãos
de ação. A mente [manas]
depende dos órgãos de percepção para suas operações,
mas citta projeta sua presença sobre os órgãos de
ação, por onde se revela a
sabedoria:
vák (voz - evidência), páñi (mão - imagina-
ção),
páda (pé - sono), páyú
(ânus - inventividade), e
pasthán (genitais -
memória).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sutras II, 51 e 52

Quando cessa o movimento
respiratório, após a
expiração, e o ar está fora
dos pulmões, se diz que o
organismo está preenchido
por um “sopro sutil”.
Esse é o momento em que,
para o praticante avançado,
cria-se uma forte presença
do magnetismo pessoal
orientado pelo “sopro”
espiritual mais elevado
[
Átman]. É essa presença das
forças de
Átman que destrói
a “capa de ocultamento”
mencionada no sutra 52.
Veja também, sobre isso, o
sutra II, 6.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

18. A coisa percebível, [que tem] a finalidade de
      fazer completa a fruição (veja sutra 13), [e que
      tem
] a mesma natureza dos órgãos sensoriais
      [
bhutendriyani], [tem] uma disposição [ou
       caráter
] evidenciável, ativa e estável;

19. Diferenciado e indiferenciado, dissolúvel e
      indissolúvel, são as condições dos gunas;

20. O percebedor é a própria medida da percepção.
      Embora puro, apreende apenas suas próprias
      convicções. [
O percebível é apenas uma
       reprodução imperfeita do próprio
       percebedor
];

21. Seu objetivo [
artha] é [encontrar] a natureza
      real[
Átman] do percebível. [Quando nos
      tornamos aquele que vê, nosso objetivo é
      buscar a percepção do princípio de
      individualidade (Átman) daquilo que
      pode ser visto
];

22. Embora destruído para quem tenha alcançado
      seu objetivo, não é destruído [em essência] pois
      é o mesmo em todos os outros. [
Quando
      alcançamos nosso objetivo (Átman),
      destruímos em nossa mente o percebível, pois
      mergulhamos na identidade fundamental de
      tudo. Mesmo assim a essência do percebível
      permanece disponível para a experiência de
      outros
];

23. Uma união muito forte [
samyoga] é causa da
      identificação das características das forças dele
      mesmo e de seu senhor. [
O percebedor é, num
      certo sentido o senhor daquilo que é
      percebido. Suas percepções constituem o seu
      reino, seu universo. Um não existe sem o
      outro. Daí se dizer que há uma união muito
      forte entre ambos. Quando o percebedor
      alcança o Átman naquilo que é percebido,
      então ele se estabelece em sua forma mais
      autêntica - veja-se o sutra 3 do primeiro
      capítulo
];

24. Sua causa [da união do percebedor com o
      percebível
] é a falta da sabedoria [
avidya];

25. Da eliminação [
abhava] da falta de sabedoria
      surge a eliminação dessa união [
samyoga]. Esse
      é o isolamento [
kaivalyam], a libertação da
      percepção [
drçi];

26. A maneira de eliminar a falta de sabedoria é a
      persistência no discernimento [
viveka];

27. conhecimento claro disso é alcançado em sete
      passos;

28. Com a destruição da impureza pela prática
       gradual dos componentes do Yoga, a luz do
       conhecimento [
jzana] ilumina o discernimento
       [
viveka];

29. Normas de convivência [yama], normas de
      autoaperfeiçoamento [
niyama], posturas de
      assentamento [
asanas], práticas de controle das
      forças sutis [
pranayama], recolhimento
      [
pratyahara], concentração [dharana],
      meditação [
dhyana] e superação de si mesmo
      [
Samadhi] são as oito partes [angas] do Yoga;

30. Yama é a não-agressão [ahimsa], a
       autenticidade [
satya], o não roubar [asteya],
       a prática de uma vida espiritualmente regrada
       [
brahmacarya] e o não cobiçar [aparigraha];

31. Essas normas não estão restritas a casta, lugar,
      tempo e circunstâncias, e são chamadas de
      “o grande voto”, que serve para o mundo todo;

32. Niyama é limpeza [çauca], contentamento
      [
santosa], sacrifício [tapas], busca do saber
      interior [
svadhyaya] e entrega ao Içvara
     
[Içvara pranidhana];

 

33. É o desenvolvimento de ideias contrárias aos
      maus pensamentos, com a finalidade de
      evitálos;

34. As ações maldosas, tais como agressão, etc.,
      são feitas, levadas a ser feitas, e permitidas de
      ser feitas pela avareza, cólera, e ignorância;
      elas têm graus leve, moderado ou intenso e
      levam aos infinitos frutos do sofrimento e das
      trevas. Por isso deve-se desenvolver seus
      pensamentos contrários;

35. Com o estabelecimento da não-agressão
      [
ahimsa], a inimizade desaparece das
      proximidades;

36. Com o estabelecimento da autenticidade
      [
satya], háo domínio sobre as ações e seus
      frutos;

37. Com o estabelecimento do não-roubar [
asteya],
       a presença de todas as coisas excelentes;

38. Com a prática de uma vida espiritual
      [
brahmacarya], a obtenção de vigor.
      [
A palavra virya, aqui traduzida por vigor,
      expressa a presença da vontade espiritual nas
      ações do indivíduo. Essa vontade é o
      ingrediente indispensável à realização da
      sabedoria. O herói é “vira”, aquele que tem
      vontade
];

39. Com o não cobiçar [
aparigraha], a percepção
      correta do como e do porquê do nascimento;

40. Da limpeza [
Çauca] vem a indiferença ao
      próprio corpo e o desinteresse por se misturar
      aos demais;

41. Surgem então a pureza imaculada
      [
çuddhi] de sattva, os pensamentos elevados, a
      concentração em um só ponto, o controle sobre
      os sentidos e aptidão para auto-observação;
 

42. Do contentamento vem a obtenção da mais
      elevada felicidade [bem-estar];

43.
Tapas traz a destruição das impurezas, o que
      leva à perfeição dos sentidos do corpo [
kaya].
      [
A realização do tapas traz inteligência
      corporal para o indivíduo, o que significa
      que ele age e se expressa com muito mais
      desenvoltura e espontaneidade que os demais
];

44. A busca do saber interior [
svadhyaya],
      orientada pela presença divina, traz a
      integração mais elevada [
samprayoga];

45. Da entrega ao
Içvara, a perfeição no samadhi;

46. Firme e confortável é a postura [
asana];

47. Por vir juntamente com um irrestrito
      relaxamento dos esforços [
prayatna];

48. Daí não há atritos nas dualidades [
dvandva];

49. Em seguida vem o
Pranayama, a separação
      dos movimentos de inspiração e expiração;

50. O pranayama tendo as operações externa,
       interna e de confinamento, e sendo regulado
       por espaço, tempo e número, torna-se longo
       e curto;

51. O quarto [tipo de
pranayama] transcende a
      esfera do interno ou externo;

52. Isso destrói o ocultamento [
avarana] do brilho
      pessoal [
prakaça] . [Esse ocultamento tem a
      natureza da ilusão, que impede a percepção
      da verdadeira natureza expressa pela palavra
     
prakaça, que significa mostrar a luminosidade
      ou a aparência natural de si mesmo
];

53. E a mente [
manas] está preparada para a
      concentração [
Dharana];

54. Na ausência de contato com seus objetos, os
      sentidos buscam a natureza de citta, o que é
     
pratyahara [recolhimento]. [Os sentidos se
      voltam para dentro, em direção à sua
      natureza autêntica
];

55. Daí se obtém a completa subjugação dos
      sentidos [
indriyani]. 

Assim se completa o segundo capítulo,
chamado de “As Instruções
para o Sadhana” no tratado sobre Yoga de Çri Patañjali, na doutrina do Samkhya.

 

Cap. I  Samadhi Cap.II  Sadhana Cap.III  Vibhuti Cap.IV  Kaivalyam