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Sutra II,18
Não há percepção se não há
algo que se possa perceber.
Não há desfrute se não
houver algo que se possa
perceber distintamente de
nós mesmos. Essa coisa
percebível compartilha dos
mesmos princípios naturais
utilizados pelos órgãos
sensoriais, senão jamais
seria percebida. Ela é, por
essa razão, evidenciável, ou
seja, capaz de se tornar
destacada diante de nossa
consciência; é também
ativa, no sentido de produzir uma ação sensível sobre
nossos órgãos sensoriais; e
também é estável, para que
possamos atribuir a ela um
significado e um valor
Sutra II, 20
Pode-se dizer que um ato de
percepção pura acontece na
esfera de citta, muito longe
da natureza material. A
consciência, no entanto,
está presa aos objetos materiais, impermanentes.
Quando nossa relação com
os objetos é imaculada, ela
acontece na esfera de citta,
ainda que se apoie nas
atividades inferiores dos
órgãos sensoriais.
Sutra
II, 24
A sabedoria (Vidya) não se
expressa por palavras ou
idéias, mas apenas por atos.
O sábio é aquele que age
corretamente, ainda que não
possa explicar as razões de
suas próprias ações.
O conhecimento (jñana)
não traz sabedoria, mas
apenas pode melhorar ou
piorar nossa relação com os
objetos. Nossa ligação com
os objetos que percebemos é
o princípio de nossa existência consciente. Mas ao
nos desligarmos do aspecto
exterior dos objetos, damos
oportunidade para o
surgimento de vidya, e
podemos realizar a
integração plena com esses
mesmos objetos.
Quando podemos perceber
os objetos e, ao mesmo tempo, ser integralmente esses
mesmos objetos, sentimos
que existe apenas uma única presença. O Universo se
esvazia (no kaivalyam) e
estamos livres.
Sutra II, 28
O discernimento é o caminho
para eliminar a falta de
sabedoria (sutra 26), mas é
também causa de todo sofrimento (sutra 15). Para que
possamos resguardar apenas suas características
verdadeiramente construtivas, devemos iluminá-lo
com a inteligência despertada pela prática gradual dos
angas do Yoga
Sutra II, 43
Os sentidos corporais,
Indriyani, são de dois tipos:
Budhindriyani, ou órgãos
sensoriais de percepção; e
Karmendriyani, ou órgãos
de ação. A mente [manas]
depende dos órgãos de percepção para suas operações,
mas citta projeta sua presença sobre os órgãos de
ação, por onde se revela a
sabedoria:
vák
(voz - evidência),
páñi
(mão
- imagina-
ção),
páda
(pé - sono),
páyú
(ânus - inventividade), e
pasthán
(genitais -
memória).
Sutras
II, 51 e 52
Quando cessa o movimento
respiratório, após a
expiração, e o ar está fora
dos pulmões, se diz que o
organismo está preenchido
por um “sopro sutil”.
Esse é o momento em que,
para o praticante avançado,
cria-se uma forte presença
do magnetismo pessoal
orientado pelo “sopro”
espiritual mais elevado
[Átman].
É essa presença das
forças de
Átman
que
destrói
a “capa de ocultamento”
mencionada no sutra 52.
Veja também, sobre isso, o
sutra II, 6.
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18. A coisa percebível, [que tem]
a finalidade de
fazer completa a fruição (veja sutra 13), [e que
tem] a mesma natureza dos órgãos sensoriais
[bhutendriyani],
[tem] uma disposição [ou
caráter] evidenciável, ativa e estável;
19. Diferenciado e indiferenciado, dissolúvel e
indissolúvel, são as condições dos gunas;
20. O percebedor é a própria medida da percepção.
Embora puro, apreende apenas suas próprias
convicções. [O
percebível é apenas uma
reprodução imperfeita do próprio
percebedor];
21. Seu objetivo [artha]
é [encontrar] a natureza
real[Átman]
do percebível. [Quando
nos
tornamos aquele que vê, nosso objetivo é
buscar a percepção do princípio de
individualidade (Átman) daquilo que
pode ser visto];
22. Embora destruído para quem tenha alcançado
seu objetivo, não é destruído [em essência] pois
é o mesmo em todos os outros. [Quando
alcançamos nosso objetivo (Átman),
destruímos em nossa mente o percebível, pois
mergulhamos na identidade fundamental de
tudo. Mesmo assim a essência do percebível
permanece disponível para a experiência de
outros];
23. Uma união muito forte [samyoga]
é causa da
identificação das características das forças dele
mesmo e de seu senhor. [O
percebedor é, num
certo sentido o senhor daquilo que é
percebido. Suas percepções constituem o seu
reino, seu universo. Um não existe sem o
outro. Daí se dizer que há uma união muito
forte entre ambos. Quando o percebedor
alcança o Átman naquilo que é percebido,
então ele se estabelece em sua forma mais
autêntica - veja-se o sutra 3 do primeiro
capítulo];
24. Sua causa [da união do percebedor com o
percebível] é a falta da sabedoria [avidya];
25. Da eliminação [abhava]
da falta de sabedoria
surge a eliminação dessa união [samyoga].
Esse
é o isolamento [kaivalyam],
a libertação da
percepção [drçi];
26. A maneira de eliminar a falta de sabedoria é a
persistência no discernimento [viveka];
27. conhecimento claro disso é alcançado em sete
passos;
28. Com a destruição da impureza pela prática
gradual dos componentes do Yoga, a
luz do
conhecimento [jzana]
ilumina o discernimento
[viveka];
29.
Normas
de convivência [yama],
normas de
autoaperfeiçoamento [niyama],
posturas de
assentamento [asanas],
práticas de controle das
forças sutis [pranayama],
recolhimento
[pratyahara],
concentração [dharana],
meditação [dhyana]
e superação de si mesmo
[Samadhi]
são as oito partes [angas]
do Yoga;
30. Yama
é a
não-agressão [ahimsa],
a
autenticidade [satya],
o não roubar [asteya],
a prática de uma vida espiritualmente
regrada
[brahmacarya]
e o não cobiçar [aparigraha];
31. Essas normas não estão restritas a casta, lugar,
tempo e
circunstâncias, e são chamadas de
“o grande voto”, que serve para o mundo todo;
32. Niyama
é
limpeza [çauca],
contentamento
[santosa],
sacrifício [tapas],
busca do saber
interior [svadhyaya]
e entrega ao
Içvara
[Içvara
pranidhana];
33. É
o desenvolvimento de ideias contrárias aos
maus
pensamentos, com a finalidade de
evitálos;
34. As ações maldosas, tais como agressão, etc.,
são feitas,
levadas a ser feitas, e permitidas de
ser feitas
pela avareza, cólera, e ignorância;
elas têm graus
leve, moderado ou intenso e
levam aos infinitos frutos do
sofrimento e das
trevas. Por isso deve-se desenvolver seus
pensamentos contrários;
35. Com o estabelecimento da não-agressão
[ahimsa],
a
inimizade desaparece das
proximidades;
36. Com o estabelecimento da autenticidade
[satya],
háo domínio sobre as ações e seus
frutos;
37. Com o estabelecimento do não-roubar [asteya],
a presença de todas as coisas excelentes;
38. Com a prática de uma vida espiritual
[brahmacarya],
a obtenção de vigor.
[A
palavra virya, aqui traduzida
por vigor,
expressa a presença da vontade espiritual nas
ações
do indivíduo. Essa vontade é o
ingrediente indispensável à
realização da
sabedoria. O
herói é “vira”, aquele que tem
vontade];
39. Com o não cobiçar [aparigraha],
a percepção
correta do como e do porquê do nascimento;
40. Da limpeza [Çauca]
vem a indiferença ao
próprio
corpo e o desinteresse por se misturar
aos demais;
41. Surgem então a pureza imaculada
[çuddhi]
de sattva,
os pensamentos elevados, a
concentração em um só
ponto, o controle sobre
os sentidos e aptidão para
auto-observação;
42.
Do contentamento vem a obtenção da mais
elevada felicidade [bem-estar];
43.
Tapas
traz a
destruição das impurezas, o que
leva à
perfeição dos sentidos do corpo [kaya].
[A
realização do tapas traz inteligência
corporal para o indivíduo, o que
significa
que ele age e se expressa com
muito mais
desenvoltura e espontaneidade que os
demais];
44. A busca do saber interior [svadhyaya],
orientada pela
presença divina, traz a
integração mais elevada
[samprayoga];
45. Da entrega ao
Içvara,
a perfeição no samadhi;
46. Firme e confortável é a postura [asana];
47. Por vir juntamente com um irrestrito
relaxamento
dos esforços [prayatna];
48. Daí não há atritos nas dualidades [dvandva];
49. Em seguida vem o
Pranayama,
a separação
dos movimentos de inspiração e expiração;
50. O pranayama tendo as operações externa,
interna e
de confinamento, e sendo regulado
por espaço, tempo e número,
torna-se longo
e curto;
51. O
quarto [tipo de
pranayama]
transcende a
esfera do interno ou externo;
52. Isso destrói o ocultamento [avarana]
do brilho
pessoal [prakaça]
. [Esse
ocultamento tem a
natureza
da ilusão, que impede a percepção
da verdadeira
natureza expressa pela palavra
prakaça,
que significa mostrar a
luminosidade
ou a aparência natural de si mesmo];
53. E a mente [manas]
está preparada para a
concentração [Dharana];
54. Na ausência de contato com seus objetos, os
sentidos buscam
a natureza de citta, o que é
pratyahara
[recolhimento]. [Os
sentidos se
voltam para dentro, em direção à sua
natureza
autêntica];
55. Daí se obtém a completa subjugação dos
sentidos
[indriyani]. |