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Comentários
de Carlos Eduardo G. Barbosa
Sutra I,2
Vrttis,
que chamamos aqui de "meios de expressão", podem ser descritos
como os desdobramentos materiais de citta (2). Quando
estão vinculados ao mundo manifestado, criam a consciência e a
ilusão de separatividade, trazendo para nós a ideia de que
observador e objeto observado são entidades distintas(3).
Quando são "recolhidos" levam a consciência à percepção de Atman
nos objetos observados, o que elimina qualquer possibilidade de
separatividade, destruindo desta forma a raiz de todo o
sofrimento.
Sutra I,8
Embora a
quase totalidade das traduções prefiram entender viparyaya como
"engano", "conhecimento errôneo" ou algo no gênero, preferimos
uma abordagem diversa. Nenhuma expressão de citta, considerado
este como o aspecto mais elevado da mente humana, poderia
representar necessariamente uma pratica de erro ou engano,
exceto quando manifestado sob condições adversas.
Sutra I,10
A
raiz sânscrita drai, de
onde vem a palavra para
sono, traz consigo um sentido que envolve o conceito
de ausência, inconsciência,
adequado à comparação com
a não-existência. Tem a
semelhança do sono da
morte, ou da profunda
transformação na aparência
exterior de um yoguim em
meditação, que parece ausente do seu próprio corpo.
Patañjali não faz referência
ao sono como o estado de
consciência alterado em que
ainda temos algum tipo de
percepções, sonhos, etc.
Para este último ele teria
utilizado o termo svapna,
que o define precisamente
(como faz em I,38 com
“svapnanidrã”).
O uso de
“nidrã”
para um meio de
expressão de citta, indica
uma situação em que o
indivíduo produz, voluntariamente a condição de nãoexistência,
seja durante a
meditação, ao se abstrair
totalmente da personalidade
para mergulhar na unidade
absoluta, seja no caso em
que deixe de representar o
papel de sua própria personalidade para tornar-se
uma outra, que pode ser
conceitual - como o juiz
encarnando as leis - ou
imaginária - como o ator
representando uma personagem de ficção.
Sutra I, 28
Traduzimos artha por “sentido” neste sutra,
embora a palavra tenha mais
freqüentemente o uso de
“objetivo” ou “finalidade”.
Optamos por esta forma
porque o
Içvara
não surge
na mente do recitador com
um objetivo, mas apenas
como um sentido, um
“vira-ser” que aponta para o
seu dharma (condição espiritual, vocação).
Sutra I, 31
É importante chamar a
atenção para a inclusão dos
movimentos respiratórios
como sinais externos das
dispersões de citta. De acordo com o sistema do Yoga, a
respiração pode ser dividida
em quatro fases: inspiração,
pausa com retenção do ar,
expiração e pausa com os
pulmões esvaziados. Esta
última fase é considerada a
mais adequada para o esforço de concentração.
No processo natural de relaxamento e introspecção,
as duas pausas crescem em
duração e se tornam maiores que as fases com movimento.
Inspiração e expiração,
conforme aparecem nesse
sutra, não representam
apenas a respiração ofegante, mas representam as duas
fases de movimento da
respiração, consideradas
inferiores às duas fases de
repouso que há entre elas.
(veja o outro comentário,
I, 29-36)
Sutra I, 34
Prãna
é sinônimo de
atividade. Expulsar o
Prãna
é o mesmo que buscar um
estado de repouso
Controlar o
Prãna
é a capacidade
de controlar as forças
do comportamento para que
obedeça à vocação interior.
Sutra I, 36
Esse brilho, jyotis, é o influxo
astral relacionado à
nossa vocação. Pode se dizer
que é a luz das estrelas de
nossa carta natal astrológica
indicando os caminhos
que levam à realização de
nosso dharma. Conforme
Krishna fala para Arjuna
no Bhagavadgita, quando
agimos em conformidade
com o dharma, não há sofrimento.
É a divindade suprema que age
por nosso intermédio. Como
poderia haver
dor, que é o sinal do
errôneo, num ato que está
perfeitamente correto, como
todo ato baseado em nossa
vocação espiritual?
Sutra I, 40
Ao exercitar um único
tattva, que é a individualidade universal, Atman, o
yoguim se identifica plenamente com cada objeto
(visaya),
tornando-se integrado a todos eles. O domí-
nio que ele passa a ter sobre
suas forças interiores se
converte em controle
sobre as forças que movem
todos os fenômenos materiais, das menores partículas
(anu)
aos corpos celestiais
(I, 37-44)
[Sa-/Nir-] Vitarka:
Pensamento lógico, baseado
nos objetos e nas palavras.
[Sa-/Nir-] Vicara:
Pensamento com que se
elabora conceitos abstratos
ou julgamentos de valor e
mérito, sem a necessidade
de referência a objetos materiais.
[Os prefixos
Sa-
e
Nir
significam “com” e “sem”]
Sutra I, 46
O
samadhi
é descrito aqui
como uma condição dinâmica da mente em que gradualmente o
praticante descobre o
Atman
em cada objeto
ao qual empresta sua atenção. Eles passam a ser partes de um
corpo vivente,
inteligente e dotado de
consciência, que é o
Içvara,
um reflexo elevado de nossa
própria individualidade.
Cada objeto, torna-se, junto
a
Içvara,
uma semente de
conhecimento (ver I,25) e o
ponto de partida de pensamentos encadeados em
direção ao abstrato e ao
infinito.
(I, 45-51)
Sutra I, 50
Cabe esclarecer aqui que o
samadhi
é uma condição de
elevação da consciência que
se obtém através de uma
prática continuada, persistente e somada ao desapego.
Por isso podemos dizer que
ele próprio é, seguramente
um hábito mental cultivado,
um
samskara.
Na verdade é
o mais elevado de todos, que
se sobrepõe e interrompe
todos os demais.
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1.
Eis os postulados mais elevados do Yoga;
2. O Yoga é o recolhimento [nirodha]
dos
meios de expressão [vrttis] da mente [citta];
3. Então "aquele que vê" [drastr,
o percebedor]
se manifesta em sua natureza mais autêntica;
4. Nesta outra [condição,
está] perfeitamente
adequado aos meios de expressão [vrttis];
5. Os meios de expressão
formam um conjunto
de cinco, tanto na condição perturbada quanto
na não perturbada. [veja-se o sutra 3 do
capítulo 2, que trata das pertubações (kleças)];
6. [Os meios de expressão da
mente (citta) são
chamados:] evidência [pramana], inventividade
[viparyaya], imaginação [vikalpa], sono [nidra]
e memória [smrti];
7. As evidências [pramana] são a percepção direta
(física), a inferência mental e o testemunho;
8. Inventividade [viparyaya] é um conhecimento
derivativo que leva formas que não são aquela
[que originou o conhecimento];
9. Imaginação [vikalpas] é o resultado do
conhecimento adquirido pela palavra,
desprovido de existência real. [é interessante
que a imaginação aqui tem um poder de
criação semelhante àquele que lhe atribuíam
os alquimistas ocidentais. É o poder do verbo
criador, razão pela qual o autor utiliza o termo
çabda (palavra), a poderosa força mobilizada
pela deusa Sarasvati - conforme narrado no
anugita];
10. O sono
[nidra]
é um meio de expressão
sustentado
pela
experiência de não existir;
11. A memória [smrti]
é a retenção (não perda) do
objeto
percebido;
12. Seu
recolhimento [ou seja, o nirodha desses
cinco
meios de
expressão] advém da disciplina
e do desapego;
13. A disciplina é o esforço em permanecer nele
[nesse
recolhimento];
14. Ele [o
recolhimento], então, praticado
assiduamente com atenção e continuidade por
um longo tempo, torna-se uma condição
consolidada;
15. O
desapego é o sinal da vontade perfeita
daquele
que está
indiferente aos objetos já
vistos ou dos
quais se
ouviu falar;
16. Em decorrência disso, [o desapego] é a
indiferença
às
qualidades materiais [gunas]
das coisas nas quais
o
espírito
[Purucha]
se revela;
17. Um
conhecimento intenso [samprajñata]
surge
a partir
de:
suposição [vitarka],
avaliação
[vicara],
sensação
de
realidade [ananda]
e da
percepção da própria individualidade [asmita]
(como uma existência separada de todas as
outras). [A
partir daqui, até o sutra
22, o
autor traça a origem desse conhecimento
intuitivo a partir de práticas intelectuais];
18. Outro
[samprajñata]
é resultante de hábitos
mentais
[samskaras]
cultivados a partir da
disciplina na experiência da “ausência”;
19. É a
certeza de continuar existindo daqueles que
jazem incorpóreos na terra espiritual [prakrti];
20. O [samprajñata]
de outros tem sua origem
numa percepção intuitiva [prajna]
durante o
estado de samadhi retida pela
memória
[smrti], pela vontade [virya
- firme disposição]
e pela fé. [São as
reminiscências. Essas
percepções obtidas durante o Samadhi
se
desvanecem tão logo a consciência retorna -
tal como ocorre com os sonhos. Podem ser
retidas, no entanto, por um esforço de
memória, vontade e fé];
21. [O
samprajñata]
está próximo [quando há]
intensas inquietações;
22. Do fato de sua medida ser delicada, média ou
muito intensa, daí justamente vem a diferença;
23. Ou [o samprajñata
surge] da entrega ao Senhor
interior [Içvara]. [A
partir deste sutra, até o
sutra 29,
estamos tratando da via inconsciente
para a obtenção do conhecimento intuitivo].
24. O Içvara é um aspecto do Purucha, e portanto
não é afetado pelos repositórios dos resultados
das ações. [Os efeitos
de nossos atos são
armazenados junto
ao nosso organismo
psíquico, e afetam seu funcionamento. Içvara,
porém, é de natureza espiritual
[Purucha]
e
não está sujeito às suas influências. - Veja-se,
em relação a este sutra, o conteúdo de II,12];
25. Repousa ligada a ele [ao Içvara] a semente de
todo o conhecimento [possível];
26. É verdadeiramente o mestre dos antigos, pois
não está limitado pelo tempo;
27. O pranava (a sílaba mística “OM”) é a sua
expressão;
28. Recitá-lo é fazer surgir o seu sentido [na mente
do recitador];
29. Disso vem a introversão da inteligência e a
dissolução dos obstáculos. [Veja
II,10 - as
perturbações,
quando a mente gravita em
direção a citta (em atitude de recolhimento),
desaparecem; da mesma forma, aqui,
buscamos elevar nossa inteligência para uma
esfera mais sutil de atuação buscando
o Içvara como referencial. Por isso os
obstáculos se dissolvem.];
30. Os obstáculos [antarayas, “limitadores”] são
as [nove] dispersões da mente [citta]:
doença,
insensibilidade, dúvida, negligência,
imobilismo, desinteresse, divagação,
não realização e instabilidade;
31. Dor, desespero, agitação dos membros,
inspiração e expiração aparecem junto com
essas dispersões;
32. Para evitá-las, exercita-se um único princípio
[tattva]. [esse tattva
é
Atman,
conforme o que
aparece no aforismo 47, adiante];
33. O assentamento [tranqüilização] de citta se
demonstra pela amizade para com o feliz,
compaixão com o sofredor, alegria com o
virtuoso e indiferença como malvado.
[A partir deste sutra, e
até o sutra 41, o
assunto é a
tranquilização - prasad - de citta];
34. Ou então [se demonstra] por meio da expulsão
e do controle do prana (sopro vital);
35. Ou produzindo a estabilidade da mente que
surge de uma transformação relacionada aos
objetos perceptíveis [os
objetos passam a ser
percebidos sem interferência
dos pensamentos
limitados ao mundo objetivo];
36. Ou [é] o brilho [celestial] que liberta da dor.
[Esse
brilho, jyotis, é o brilho dos astros
noturnos, relacionado ao espírito e à
inconsciência];
37. Ou é [demonstrado pela presença de] citta,
em relação ao apego aos desejos [porque citta
só se manifesta quando não está presente o
apego];
38. Ou é oriundo [o assentamento da mente] do
saber que vem dos sonhos em sono profundo
[quando
silenciam as interferências externas
na produção dos sonhos, e estes passam a
refletir a sabedoria serena do
samprajñata];
39. Ou então provém da meditação [dhyana] no
que é agradável [por corresponder à vocação];
40. O controle sobre isto [do assentamento de
citta] se estende desde o
infinitesimal ao
imensamente grande;
41. Encontra-se o colorido da jóia [mani], nascida
em consequência do enfraquecimento (material)
das vrttis, com aquele [mesmo colorido]
que
está no observador, nos órgãos sensoriais e nos
objetos observados. [a gema preciosa
representa tradicionalmente a alma individual
espiritualizada];
42. Daí, a razão [savitarka] combina-se
perfeitamente com a imaginação [vikalpa]
aplicada ao conhecimento aprendido com
palavras. [Ao romper com
a
lógica racional,
a imaginação liberta o pensamento dos
limites do mundo material, abrindo caminho
para o
samadhi];
43. A negação da razão [nirvitarka], [que servirá]
para a purificação da memória [smrti], é
semelhante a um referir-se às coisas que na
verdade não levasse em conta suas
peculiaridades [externas, grosseiras].
[Purificar a memória é torná-la apta para
trazer
para a consciência as reminiscências
da percepção sutil, que normalmente se
desfazem ao contato com nossos
pensamentos];
44. Da mesma maneira, são explicados, numa
esfera mais sutil, a abstração [savicara]
e sua
negação[nirvicara].
[Para poder dispor das
impressões sutis
trazidas à sua mente e fruir
da plenitude do estado de Samadhi, o yoguim
precisa aprender a prescindir até mesmo dos
modos de pensamento mais abstratos];
45. E [certamente] o próprio conceito de esfera
mais sutil termina no que não tem mais sinais
perceptíveis [isto é,
aquilo que não pode ser
percebido ou
observado];
46. Este é de fato o samadhi com semente;
47. Na utilização habilidosa do nirvicara, o Atman
se assenta [junto à consciência] em sua
condição superior [adhyãtman];
48. Lá, ele é aquele que possui o conhecimento
verdadeiro [prajña].[Veja I,25 – a
semente de
todo o conhecimento (sarvajña bijam) está
ligada ao Içvara];
49. É uma outra natureza [de conhecimento], que
não a daquele obtido por dedução ou
revelação, mas que provem de causas diferentes;
50. O samskara que nasce daí interrompe outros
samskaras;
51. O que surge do recolhimento total, dentro deste
recolhimento, é o samadhi sem
semente. [É a
condição
em que não há mais objeto e
observador. Onde o
Atman
se assenta por
si só, de modo que o
samadhi
não é
construído, mas apenas existe].
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