RUSSELL, Bertrand.
Crimes de Guerra no Vietnã
Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1968.

 Pg.85

 5 – Guerra Fria: Uma Nova Fase?

                 Fevereiro de 1965

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             O homem é um animal brigão e amante do poder. A vida sem poder e sem disputas lhe pareceria um negócio monótono e sem graça. A maior parte da história e, mais particularmente, as guerras e os impérios, derivam de uma combinação entre as disputas e o amor ao poder. O tamanho que um império pode atingir cresce com o avanço da tecnologia.  Ciro, cujo império foi o primeiro de certa magnitude na História ocidental, dependia, para a estabilidade de seu império, de uma grande estrada que ia de Sousa a Sardis. A viagem a cavalo de um desses lugares ao outro levava um mês, para um emissário do Estado, mas três meses para um viajante qualquer.

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             As estradas dominaram a História desde o tempo de Ciro até o momento em que os impérios começaram a depender do poder naval. A seguir vieram as estradas de ferro e depois o poderio aéreo. A maioria dos mais importantes acontecimentos da História foi determinada pelas estradas – por exemplo, Constantino converteu-se ao cristianismo em York e marchou imediatamente sobre Roma, chegando às suas portas antes que sua mudança de política tivesse sido sabida dentro da cidade...

            Durante milhares de anos nenhum império estável poderia abranger todo o mundo e, por isso, os instintos agressivos do homem permaneceram satisfeitos. O que acontece de novo em nossos dias é que um império estável pode ser tão grande quanto o mundo. Esse é o resultado das armas nucleares, que tem causado perplexidade a todos os que vivem de matanças. O resultado da intervenção das armas nucleares é que a guerra pode acabar com a nossa espécie e pode, portanto, deixar de satisfazer a quaisquer desejos que inspiraram as guerras das épocas anteriores. Nesta situação, os homens de Estado permanecem perplexos. As guerras, que satisfaziam nos períodos anteriores, tornaram-se todas impossíveis. As únicas alternativas prováveis que restam são a paz ou o extermínio. Em tal situação, a arte de governar tradicional vai à falência... Este fato já veio ser percebido até pelos políticos e está exigindo novas formas de Guerra Fria.

            Até pouco tempo, o tradicional amor à guerra e a esperança de vitória se ajustavam aos poderes desenvolvidos do mundo em dois campos, o Ocidente e o Oriente... o conflito final era concebido como algo com a duração de uma ou duas horas...Mas, gradualmente, este quadro perdeu seu atrativo. A ferocidade guerreira não podia manter-se a um nível que envolvia a destruição de tudo e de todos a quem se tinha amado... Começou-se a sentir que uma guerra nuclear deveria ser evitada. Isto exigia uma política nova e o abandono da simples organização bipolar que tanto satisfazia os estadistas desde que foram inventadas as armas nucleares.

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            A América, tendo de enfrentar a nova situação, desenvolveu uma política nova, cujo objetivo é transferir para si mesma o máximo possível do que antes pertencia as potências ocidentais. Todas as vezes que a Grã-Bretanha, a França ou a Itália se viam envolvidas em uma difícil guerra colonialista, a América vinha em auxílio da potência em questão e, por sua superioridade financeira e militar, ia gradualmente desalojando os antigos senhores imperialistas e substituindo a seguir os impérios coloniais anteriores por governos títeres sob o seu controle.

            Esse processo foi seguido de maneiras diversas segundo vários continentes. Na América Latina foram criadas grandes companhias (rede globo) de comércio, dominadas pelos americanos e com controle total da política, tanto interna quanto externa, dos vários países sul-americanos. A única exceção a essa política foi Cuba.

Na Ásia, tal processo foi consideravelmente frustrado... Onde essa política se mostrou possível, como no sudeste da Ásia e na África Central, ela foi realizada por ter encontrado uma pequena percentagem da população favorável ao Ocidente, reconhecendo-o como única fonte legítima de poder político e mantendo o governo em suas mãos por meio das tropas (norte) americanas e do dinheiro (norte) americano.
...
            Houve, como se viu, certas dificuldades. A maior parte dos países menores nos quais a América buscou ter poder desejava manter-se neutra e só pode ser submetida à custa de crueldades inomináveis. P processo usado para vencer os sentimentos populares nos países em questão fez com que a população em geral se tornasse cada vez mais antiocidental em seus sentimentos.

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 Os americanos esperam que, com o passar do tempo, a hostilidade destes países diminua, mas a experiência anterior da Inglaterra na Índia faz com que isto se mostre bastante improvável.

            Outra dificuldade que enfrentam os poderes do Ocidente na Ásia e na África é que inúmeras partes dos dois continentes vieram a adquirir completa independência no decorrer da luta. Quase toda a África está hoje completamente independente, enquanto o congo permanece duvidoso. Com algumas exceções os antigos impérios coloniais passaram para o domínio político ou financeiro dos Estados Unidos.

            Mas grandes interrogações permanecem: Poderá o novo império ser bem sucedido e poderá ele durar? Terá sucesso a política (norte) americana? A América já tem encontrado grandes dificuldades... no momento atual, as mais importantes estão no Vietnã do Sul e no congo. O Vietnã do Sul era parte da região francesa da Indochina, mas rebelou-se durante a Segunda Guerra Mundial. Os franceses foram finalmente derrotados em Dien Bien Phu em 1954. Uma conferência internacional teve lugar em Genebra e decidiu que toda a região da Cochinchina deveria ser dividida em várias nações isoladas, das quais uma era o Vietnã.  (continua)

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