RUSSELL, Bertrand.
Crimes de Guerra no Vietnã
Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1968.
 
Prefácio
 
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             O racismo do Ocidente, sobretudo o dos Estados Unidos, criou uma atmosfera tal que se torna extremamente difícil deixar clara a responsabilidade da América em relação a problemas que se assegura serem “internos” nos países subdesenvolvidos. A guerra do Vietnã é considerada como trágico e inevitável produto do atraso, da pobreza e da selvageria – supostamente nativos do sudeste da Ásia. As raízes do conflito entre o norte e o sul são buscadas num passado longínquo: antigos conflitos entre o norte e o sul são desenterrados. A intervenção americana é, sobeste ponto de vista, ocasional. O povo vietnamita é visto como um conjunto de criaturas dignas de pena em cujos negócios os americanos foram, infelizmente e a contragosto, solicitados a intervir.

            Mas o racismo não confunde apenas as raízes históricas da guerra do Vietnã; provoca um igualmente um clamor bárbaro, chauvinista, quando os pilotos americanos que tem bombardeado hospitais, escolas, diques e centros civilizados são acusados de estarem cometendo crimes de guerra. Somente a escora racista da visão de mundo americana é que permite que a imprensa dos Estados Unidos, o Senado e inúmeras figuras públicas permaneçam em silêncio quando os prisioneiros vietcongs são sumariamente fuzilados; no entanto, se os pilotos são levados a julgamento por seus crimes, no mesmo instante estes indivíduos exigem o arrasamento de cidades norte-vietnamitas. As violações americanas das Convenções de Genebra de 1949,

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 em relação ao tratamento de prisioneiros de guerra, são há muito matéria de domínio público. Noticiou-se, por exemplo, no New York Times de 1º de dezembro de 1965 que o “Comitê Internacional da cruz Vermelha em Genebra... lamentava, de novo, que os Estados Unidos continuassem a violar o acordo internacional sobre o tratamento de prisioneiros...!” A indiferença demonstrada diante desta acusação direta – para não mencionar a indiferença aos bombardeios diários de populações civis com napalm e fósforo branco – é estarrecedora.

            O fato fundamental que eu desejo demonstrar aqui é que os Estados Unidos são responsáveis pela guerra do Vietnã. Esta verdade elementar é essencial a uma mínima compreensão desta guerra cruel. Para entender a guerra, temos que entender a América, embora isto não signifique que ignoremos a história do povo vietnamita. A cultura vietnamita é rica e vem de tempos antigos. Lendas orais perpetuam tradições heroicas, sobretudo as que mostram a repulsa anterior à China feudal. Mas o movimento da história, cada vem ai rápido, é tal, que o Vietnã atual está menos preso a sua herança primitiva que a sua situação no momento. Os últimos cem anos da vida nacional do Vietnã trouxeram-no ao cenário internacional. Para compreendermos o Vietnã e a agonia de sua luta, temos que vê-lo dentro da constelação de forças anticolonialistas que estão transformando o Terceiro Mundo e, menos dramaticamente, o próprio Ocidente. 

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            Foi o processo totalitário de colonização que destruiu a sociedade vietnamita e estreitou os laços entre o povo e o seu passado. As aptidões, hábitos e crenças do povo colonizado  vieram a ser julgados segundo um utilitarismo deformado: era útil e bom o que beneficiava o colonizador

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7 – A Política Externa do Partido Trabalhista

             Como alguns de vocês talvez se lembrem, pronunciei um discurso na Escola de Economia de Londres, em 15 de fevereiro, no qual, primeiro, recordei o manifesto eleitoral do Partido Trabalhista antes das eleições gerais do ano passado, e, a seguir, o comparei com o que Governo Trabalhista vem fazendo. Parece que os anais do Governo Trabalhista demonstram estar ele falhando em fazer sequer uma tentativa no sentido de realizar suas promessas eleitorais. Hoje, quero comentar as ações do Governo Trabalhista desde aquela ocasião e perguntar, em vistas de seus atos, como é possível que alguém continue a apoiá-los. 

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