BUENO,
Eduardo.
A Coroa, a Cruz e a Espada
Lei, ordem e
corrupção no Brasil Colônia
Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2006.
Pg.23
INTRODUÇÃO
Restavam apenas
destroços. Ainda
assim, tão logo a caravela comandada por Gramatão
Teles
contornou a ponta do
Padrão e penetrou na Baía de Todos os Santos, o
capitão e seus homens avistaram
a Vila do Pereira – ou o que sobrava dela...
A Torre do Pereira, um
prédio de
pedra e cal com dois andares de altura, jazia em ruínas.
Depois
de meses
jogados na praia, os quatro canhões que a guarneciam tinham
sido
levados por
franceses que recolhiam pau-brasil à revelia das leis de
Portugal...
A desoladora visão
que a Vila do
Pereira oferecia naquele princípio de verão de
1549 era
um retrato em cores
dramáticas da situação em que se
encontravam as
demais capitanias espalhadas
pelo litoral do Brasil. Implantado 15 anos antes, em março
de
1534, o regime
das donatarias surgira como uma solução mais
engenhosa
para dar início à
ocupação da América Portuguesa. Com
sua
atenção e os recursos do Tesouro
Real voltados para as riquezas do oriente, o rei D. João III
e
seus
conselheiros haviam transferido para a iniciativa particular a
responsabilidade
de ocupara vasto território sul-americano até
então praticamente
abandonado, trinta anos após a descoberta de Cabral.
Cerca de 5 mil
quilômetros da costa
foram divididos em 15 lotes, com largura média de 300
quilômetros cada,
perfazendo 12 capitanias. Cada lote – a maioria com
dimensões superiores ao
reino de Portugal – foi concedido a um donatário.
Não se tratava de simples
doação: ao receberem aquelas imensas
porções de terra, os novos
proprietários
tornavam-se, compulsória e automaticamente, os
únicos
responsáveis pela sua
colonização.
Nas
remotas capitanias do norte, as
tentativas de ocupação tinham redundado em
naufrágios e tragédias, e elas nunca
chegaram a ser colonizadas. (Até hoje
não
foram!!!) Em
duas outras donatarias a revolta dos
indígenas contra
os abusos dos colonos provocara a devastação:
Ilhéus (cedida a Jorge de
Figueiredo Correa, tesoureiro do reino) havia sido atacada pelos
ferozes
Aimoré, e São Tomé (que pertencia ao
capitão Pero de Góis) fora destruída
pelos
ainda mais temíveis Goitacá. As
capitanias de
Itamaracá e do Espírito Santo
estavam nas mãos dos comerciantes ilegais de pau-brasil,
tanto
portugueses como
franceses, enquanto Porto Seguro
se achava à beira de uma
guerra civil, com
seu donatário, Pero do Campo Tourinho, preso pelos colonos
e,
após processo um espúrio,
enviado a ferros para os tribunais da Inquisição
em
Lisboa. Isolada nas
lonjuras do litoral sul, São Vicente sobrevivia a duras
penas.
Nos três lotes
restantes sequer houve tentativa de ocupação: a
capitania
do Ceará (que
pertencia ao funcionário do Tesouro Real Antônio
Cardoso
de Barros), o lote do
Rio de Janeiro (que era parte da capitania de San Vicente e pertencia
ao
fidalgo Martim Afonso de Sousa) e a capitania de Santana (hoje
Paraná e Santa
Catarina, do militar Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim
Afonso) permaneceram
abandonadas por seus donatários.
Nenhum dos demais
capitães do Brasil
haveria de desfrutar de circunstâncias tão
favoráveis quanto Francisco Pereira
Coutinho.
A princípio, tudo
correu bem para o
donatário. Ele se instalou nas cercanias da atual Praia da
Barra... onde hoje
se ergue o Farol da Barra, um dos pontos turísticos mais
conhecidos de Salvador...
próximo à entrada da baía de Todos os
Santos.
À sombra de uma colina e à frente
de uma pequena enseada, surgiu um povoado com cerca de trinta casas,
cercado
por uma paliçada de pau-a-pique, próxima
à qual
foi construída uma torre em
estilo medieval, guarnecida por quatro canhões (imagem
abaixo).
Era a Vila do
Pereira – mais tarde Vila Velha...
O Tupinambá
reagiram e, sem demora,
passaram ao ataque...
Pg.28
Supõe-se
que as investidas dos nativos tenham sido incentivadas pelos
próprios desafetos
de Pereira...
Foi então que
Francisco Pereira
acabou vítima de um ardil de um tal João Bezerra,
“clérigo de missa”, ou seja,
um padre, tido como “aventureiro sem escrúpulos
que se
valia das vestes
sacerdotais para proteger seus crimes” e que, cerca de um ano
antes, havia sido
expulso da vila pelo próprio Pereira. Em meio ao confronto
com
os indígenas...
o padre Bezerra retornou à baía de Todos os
Santos... mentiu
que voltava de Portugal e, munido de um alvará
falso, decretou
a destituição do donatário.
Pg.29
Ocorrida
no segundo semestre de 1546, a morte de
Francisco Pereira Coutinho mudou o curso da história do
Brasil... Mais que uma
tragédia pessoal,... um sinal evidente que o regime das
capitanias hereditárias
virtualmente falira. Vitima de sua imprevidência e
inabilidade como capitão, o
donatário da Bahia fora prejudicado também por
homens inescrupulosos (como o
clérigo João Bezerra) e pela ganancia de seus
colonos, cujas agressões
provocaram a reação dos indígenas
(permanentemente insuflados pelos franceses e
por dissidentes portugueses). Esses
mesmos ingredientes, combinados em maior ou menor escala, já
haviam precipitado
a derrocada de pelo menos outras seis donatarias.
A notícia da
trágica morte de
Pereira levou meses para chegar às demais capitanias. Quando
enfim se espalhou
pela costa, soou como um alerta que outros capitães do
Brasil não puderam
ignorar. Temendo o que poderia ser o próprio destino, alguns
deles
apressaram-se em implorar o
apoio e a interferência do rei, mesmo que,
implicitamente, isso viesse a significar
a supressão
de seus poderes e restrição à sua
autonomia.
Um
apelo dramático já havia partido da capitania de
São Tomé:
Pg.30
“A
terra do Brasil, se não a acodem, está em
condição de se perder”, dissera ao rei
o donatário Pero de Góis, em carta
escrita em 29 de abril de 1546. “Tudo
é
fruto de pouca justiça e do pouco temor a Deus e a Vossa
Alteza que em algumas
partes dessa terra há, se a dita terra não for
provida por Vossa Alteza,
perder-se-á todo o Brasil antes de dois anos.”
AS
NOVAS REGRAS DO JOGO
Mais
do que a morte de Francisco
Pereira Coutinho e a derrocada da capitania de Bahia, o desesperado
apelo de
Luís de Góis tem sido apontado pelos
historiadores como impulso que faltava
para que o rei D. João III e seus conselheiros deflagrassem
o processo que iria
resultar no estabelecimento do Governo Geral no Brasil. Dificilmente,
no
entanto, se pode traçar uma relação de
causa e efeito tão direta entre a carta
e o surgimento do novo regime... a decisão de estabelecer o
Governo Geral no
Brasil já estava tomada. E tratava-se de uma
resolução grave – e cara –
demais
para
Pg.31
ter
se concretizado em apenas um mês, especialmente
quando se sabe que o rei D. João III, tido como rei
“papeleiro”, era
morosíssimo em suas deliberações e
vivia enredado na teia complexa de sua
burocracia.
A
verdade é que, embora trágica, a morte do
Rusticão (apelido
do Pereira) revelou-se
oportuna para os interesses do rei D.
João III e há de ter sido ela – bem
mais que o alerta de Luís de Góis (“um mero
colono”) –
que
deflagrou o processo de criação do Governo Geral.
Afinal, o falecimento de
abria a possibilidade de o rei “chamar para si” uma
capitania. E não uma
capitania qualquer: localizada no centro do território a ser
colonizado, a
Bahia era tida como a porção mais
estratégica da costa do Brasil, pois a partir
dali, seria mais fácil enviar socorro tanto para as
capitanias do sul quanto
para as do norte... Decidiu-se, assim, que às margens da
baía de Todos os
Santos seria fundada uma “cidade-fortaleza”
destinada a ser “como um coração no
meio do corpo”, conforme as palavras de frei Vicente do
Salvador.
Cabe
salientar ainda que Pereira foi Morto quase que exatos 15 anos depois
do
estabelecimento do
regime das
capitanias. E sabe-se que,
tanto em Portugal como na Espanha, havia a
prática de entregar à iniciativa privada a
responsabilidade de ocupar e
colonizar determinado território; passada uma
década e meia, a burocracia real
retomava o poder, apropriando-se de uma empresa em andamento.
Isso já
ocorrera nos territórios dos açores, no Cabo
Verde, no México e no Peru.
Pg.32
Para
reorganizar o processo de ocupação e
colonização da América portuguesa, seria
necessário investir cerca de 400 mil cruzados, o equivalente a
1,4 tonelada de
ouro. Dessa vez, porém, o dinheiro não viria de
investidores particulares,
arrendatários ou especuladores, mas do Tesouro Régio.
Tesouro aliás
progressivamente depauperado, pois Portugal atravessava uma grave crise
econômica que, desde 1537, só fazia crescer. Em 1547, o
reino possuía em caixa
pouco mais de 3 milhões de cruzados, mas devia 3 milhões
e 880 mil, a maioria
em empréstimos externos, a juros de 25% ao ano...
Em
1548, a América portuguesa, além de pouco lucrativa, era
pouco povoada por
europeus: não mais do que 2000 colonos viviam no Brasil. As
circunstâncias que
levaram à decisão de que, ainda assim, ela deveria ser
colonizada e integrada
ao reino estavam ligados a uma política imperial na qual o
definhamento
financeiro da Índia lusitana, o
Pg.33
avanço
mulçumano no Marrocos e no Mediterrâneo e as
sempre instáveis relações de Portugal com as
coroas vizinhas (Espanha e França)
desempenharam papel preponderante.
Embora
a instauração do Governo Geral não extinguisse o
regime das capitanias,
restringiria consideravelmente o poder e a autonomia dos
donatários. E essa também
era uma decisão inteiramente coerente com o novo quadro
político e ideológico
que se delineava em Portugal e no resto da Europa Ocidental.
O
PODER DOS LETRADOS
Uma
profunda transformação político-administrativa
desenrolava-se na Península
Ibérica. Esse novo regime era
inteiramente incompatível com a ampla liberdade de
ação e autonomia
político-econômica anteriormente concedida aos
capitães do Brasil. Estava
em andamento o que os historiadores chamam de
“construção e consolidação do
Estado moderno. Não se tratava de um processo inteiramente
novo... Foi, porém,
na segunda metade do reinado de D. João III que o movimento
adquiriu dimensões
notáveis.
O
Estado português começara a estabelecer, a partir de 1540,
uma série de
mecanismos que lhe haviam permitido aumentar o controle, a
coerção e o domínio
sobre os seus súditos. Essas novas e eficientes formas de
exercício de poder
incluíam a realização de recenseamentos
populacionais (os chamados
“numeramentos”, como os realizados em 1527 e 1532), alistamento
militar
obrigatório, definição mais rígida
das fronteiras do reino e criação
de
Pg.34
um sistema judicial mais poderoso e intrusivo – além, é claro, de formas mais amplas, associadas a métodos de cobrança mais eficientes.
Os
novos mecanismos de controle desse governo mais
forte, centralizado e “racional” iriam se tornar presentes
não só no cotidiano
daqueles que viviam em Portugal: tão cedo quanto
possível, seriam exportados
para os territórios ultramarinos. O estabelecimento do Governo
Geral – e a
consequente submissão dos capitães-donatários e
seus colonos à autoridade
central da Coroa – desponta como a face mais visível desse
processo em relação
ao Brasil.
Para
cobrar e controlar, vigiar e punir seus súditos, submetendo-os
ao cumprimento
de uma série de novas obrigações civis, os Estados
modernos emergentes se viram
na contingência de criar vastos e complexos aparelhos
burocráticos – um
conjunto de órgãos e servidores responsáveis pelo
funcionamento e manutenção do
sistema judiciário, do fisco, e das forças armadas
–, ou seja, o corpo
administrativo como um todo. Um paradoxo instaurou-se então no
seio desses
Estados progressivamente centralizados e autônomos: o rei e seus
colaboradores
mais próximos (no caso de Portugal, os homens que
constituíam o Conselho Régio)
tornaram-se, virtualmente, reféns de uma burocracia estatal
tentacular que
florescia à sombra do crescente poderio do Estado.
Com
o passar dos anos, desembargadores, juízes, ouvidores,
escrivães, meirinhos,
cobradores de impostos, vedores, almoxarifes, administradores
burocratas em
geral – os chamados “letrados” – encontram-se
em posição sólida o bastante para
instituir uma espécie de poder paralelo, um “quase
Estado” que, de certo modo,
conseguiria arrebatar das mãos do rei as funções
administrativas. Esse
funcionalismo tratou de articular também fórmulas legais
e informais para se
transformar em um grupo autoperpetuador, na medida em que os cargos
eram
passados de pai para filho, ou então para parentes
próximos.
Embora recebessem altos salários, muitos
burocratas engordavam seus rendimentos com propinas e desvios de verbas
públicas. Inúmeras evidências permitem afirmar que,
na península ibérica, a
máquina administrativa não era apenas ineficiente, mas
corrupta. Outra de
suas características mais notórias é que o
número de funcionários destacados para o cumprimento de
qualquer função
revela-se, na maioria dos casos, bem superior ao necessário para
a realização
do trabalho.
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Em
Portugal, tanto a Justiça quanto a Fazenda encontravam-se nessa
situação. A
Casa de Suplicação (o tribunal de última
instância), permanentemente sobrecarregada de
processos, era famosa “pela lerdeza e
avareza de seus magistrados”. (Stuart Schwarcz em Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial) Já a
Casa dos Contos, núcleo
de controle das receitas e despesas do reino, era alvo frequente de
investigações oficiais, geralmente incapazes de evitar
“as fugas de prestações de contas
à Fazenda, que se faziam sob as mais
variadas formas”. (Virginia Rau A Casa
dos Contos)
As autoridades judiciárias e
fiscais que, a partir de março de 1549, iriam desembarcar no
Brasil com a
missão de instalar o Governo Geral enquadram-se nesse perfil.
O ouvidor-geral
(grosso modo, uma espécie de Ministro de Justiça),
desembargador Pero Borges, e
o provedor-mor (quase um ministro da Fazenda) Antônio Cardoso de
Barros, além
de ganharem bastante bem e terem obtido seus cargos graças a
indicações nos
meandros da Corte, desempenhavam suas funções
assessorados por contingentes de funcionários.
“em número sem
dúvida desproporcionado para as coisas do governo”. (Edison
Carneiro em A Cidade do Salvador – 1549)
Além disso, ambos – Pero Borges
antes de vir ao Brasil e Cardoso de barros depois – foram
acusados de desviar
dinheiro do Tesouro Régio. Quanto ao primeiro bispo do Brasil,
Pero Fernandes
Sardinha, ele provocaria uma onda de indignação na
colônia ao perdoar os pecados
dos fiéis em troca de dinheiro.
A “GRANDE VIRAGEM”
No mesmo instante que os homens do
rei preparavam-se para se transferir para a Bahia, tanto Portugal como
Espanha
– e a Europa católica em geral – viviam um
período de fechamento político e
ideológico. Aquela “revolução
conservadora” tinha múltiplas faces e inúmeros
braços, todos articulados ao crescente poder do Estado.
O cenário político-ideológico no
qual D. João III e seus conselheiros decidiram estabelecer o
Governo Geral no
Brasil é fruto do que que alguns historiadores portugueses
chamam de “a grande
viragem”. Tal viragem se constitui basicamente no processo de
gestação e implantação
da Contra Reforma na península Ibérica.
Mais de trinta anos se haviam passado
desde que o frade alemão Martinho Lutero pregara suas 95 Teses na porta da igreja de Wittenberg, em outubro de
1517. Três
décadas de perplexidade e inquietude haviam abalado a Igreja
Católica
Apostólica Romana. No inverno de 1545, a reação se
iniciou com a instalação do
Concílio de Trento, o nascimento da Contra Reforma e o
recrudescimento da
Inquisição.
Pg.36
Tão
logo a
ortodoxia do catolicismo tornou-se uma obsessão, toda e qualquer
atividade
intelectual que sugerisse maiores liberdades individuais passou a ser
vista como
“heterodoxia luterana” – e, por conseguinte,
reprimida com vigor.
Em Portugal, a liberdade de
pensamento começou a ser substituída pelo oposto, com o
crescente poder
concedido à Companhia de Jesus e o fortalecimento da
Inquisição. A
plena instauração
do Tribunal do Santo Ofício em Portugal, ocorrida não por
acaso em 1547, deu-se
menos por zelo religioso e mais por instrumento de vigilância e
controle.
Criada em Paris, em 1534, a
Companhia de Jesus, a mais controversa ordem religiosa do século
XVI,
tornou-se, a partir de 1540, cada vez mais presente nos destinos de
Portugal,
transformando-se em um dos braços ativos do novo modelo
ideológico. Depois de
se livrarem de todos os humanistas portugueses ligados à Reforma
– difamando-os
e entregando-os à Inquisição –, os
jesuítas se tornaram confessores de D. João
III e responsáveis diretos pelo ensino em Portugal. Além
de controlar a Universidade
de Coimbra, a Companhia de Jesus passou a orientar todos os aspectos
culturais
da empresa colonial, sendo encarregada também da
conversão dos “gentios” na
Índia (e em toda a Ásia) e no Brasil.
Em
breve, os jesuítas condicionariam não apenas os
horizontes religiosos, mas as
perspectivas intelectuais da América portuguesa.
O que estava prestes a se iniciar no
Brasil coma instalação do Governo Geral era, portanto,
“uma reação do Estado
contra a ambiguidade, a franqueza e a
experimentação” que haviam marcado a
aventura colonial dos português na primeira metade do
século XVI, como observa
o historiador norte-americano Harold B. Johnson. Esse “movimento
rumo à rigidez
e à codificação”, e a deliberada
“exclusão de alternativas”, decretaria o fim
daquilo que, com alguma liberdade, se pode chamar de
“período romântico” do
expansionismo luso.
Do ponto de
vista
dos que estavam do outro lado do processo – no caso do
Brasil, os colonos tentavam reinventar sua vidas no trópico,
lutando para
libertar-se das amarras e “travões”
sociais
tão presentes no reino –, as novas regras seriam
percebidas como uma
profunda intromissão no seu cotidiano. Como não
é difícil supor, os
portugueses radicados na América fariam de tudo para conspirar
contra a nova ordem.
Pode-se afirmar, por isso, que a chegada do Governo Geral assinala o
primeiro
conflito entre indivíduo e o Estado em terras brasileiras.
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Embora o desenlace fosse previsível,
a vitória da fé, da lei e da ordem, não se daria
sem inúmeros desvios e
retrocessos. Apesar de todo o esforço centralizador da Coroa, os
destinos da América
portuguesa não iriam se concentrar somente nas mãos do
rei e de seus
conselheiros mais próximos. Seriam desenhados também pelo
confronto entre os
“letrados” – que o monarca enviara para servir no
remoto território tropical –
contra os colonos e os degredados que já viviam ou estavam sendo
trazidos para
viver no Brasil...
| Introdução | I - Os homens do Rei | II - A Construção de Salvador | III - A Fundação de São Paulo | IV - Ouro Caos e Canibalismo | Epílogo |