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LIÇÃO I - o «EU»
Para os que se
iniciam na ciência do RAJA YOGA, também conhecido por Yoga Real, os
Mestres Yogues preparam uma série de lições destinadas a esclarecer-lhes
a natureza do eu real e instrui-los na ciência secreta que os torna
capazes de desenvolver a consciência e realizar o conhecimento do «Eu
real» que está dentro deles. Ensinam-lhes como podem livrar-se das
opiniões erróneas e do saber imperfeito a respeito da sua identidade
real. Ao Aspirante não se dão novas instruções senão quando prova que
aprendeu as que tem recebido ou, ao menos, que a verdade se fixou na sua
consciência, porque os Yogues são de opinião que, antes de atingir a
realização da consciência da sua real identidade, ele não pode conhecer
a fonte do seu poder. e, além disto, não é capaz de sentir em si o poder
da Vontade, que forma a base de todos os ensinamentos do «Raja Yoga».
Os Mestres Yogues não se contentam com que o Aspirante
forme só uma clara concepção intelectual desta real identidade, mas
querem que ele sinta a sua verdade — que perceba o Eu real — que entre
num estado de consciência em que o perfeito conhecimento se torna parte
do eu quotidiano — num
estado em que a consciência conhecedora se torne a ideia predominante na
sua mente,
ao redor da qual giram todos os seus pensamentos e suas acções. A alguns
Aspirantes este conhecimento vem como um raio de luz no momento em que a
ele dirigem a sus atenção; ao passo que outros Aspirantes precisam
seguir um rigoroso curso de treinamento antes de adquirir a realização
do conhecimento consciente.
Os Mestres Yogues, ensinam que há
dois graus deste despertar da consciência
do Eu Real. O primeiro, a que chamam «consciência do Eu», é a plena
consciência de existência real, que o Aspirante obtém e que o faz saber
que ele é uma entidade real possuindo vida independente do corpo — vida
que não desaparece quando o corpo cai vítima de destruição — vida real,
verdadeira. O segundo grau, a que chamam «consciência de Eu Sou», é a
consciência da nossa identidade com a vida universal, nossa afinidade,
nosso contacte-com toda a vida, manifestada ou não. Estes dois graus de
consciência serão conhecidos por todos os que buscam o Caminho. Alguns
encontram-nos repentinamente; outros descobrEm-nos gradualmente; alguns
chegam até eles por meio dos exercícios, das práticas do «Raja Yoga». A
primeira lição que os Mestres Yogues dão ao Aspirante e que o conduz ao
primeiro grau é a seguinte: — Que a Suprema Inteligência do Universo — o
Absoluto — manifestou o ser a que chamamos homem — com a mais alta
graduação neste planeta. O Absoluto manifestou uma infinidade de formas
de vida no universo, com todos os distantes mundos, sóis, planetas,
etc., formas de que muitas são desconhecidas no nosso globo e
insusceptíveis de ser concebidas pela mente do homem ordinário. Estas
lições, entretanto, não se ocupam daquela parte da filosofia que trata
destas inumeráveis formas de vida; havemos de falar do desenvolvimento
mental da verdadeira natureza humana e do seu poder.
O homem, antes de querer achar a solução dos segredos
do universo exterior, deve saber governar o universo interior — o reino
do Eu. Quando conseguir isto, poderá e deverá ir à procura do saber
existir, como um senhor que quer desvendar os segredos deste saber, e
não como um escravo que pede migalhas da mesa da ciência. O que o
Aspirante deve conhecer em primeiro lugar é o seu Eu. O homem, que é a
mais alta manifestação do Absoluto neste nosso planeta, é um ser
maravilhosamente organizado, embora o homem vulgar conheça só muito
pouco da sua natureza real. Na sua constituição física, mental e
espiritual, abrange o homem as formas inferiores como também as
superiores, como explicamos nas nossas lições prévias (as «Catorze
Lições» e o «Curso Adiantado»). Nos ossos representa-se a vida mineral
e, com
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efeito,
existem substâncias minerais nos seus ossos, na construção do seu corpo
e seu sangue. A vida física do corpo assemelhase à da planta. Muitos
desejos e muitas emoções corporais são afins aos instintos dos animais
inferiores, e no homem não desenvolvido predominam estes desejos e
emoções que oprimem a natureza superior que fica quase despercebida.
Além disso, possui o homem certas características mentais que lhe são
próprias e não se encontram nos animais inferiores. (Ver as «Catorze
Lições de Filosofia Yogue»). E ao lado das faculdades mentais, que são
comuns a todos os homens, ou antes, que se podem ver, num grau maior ou
menor em todos os homens, existem ainda outras faculdades superiores no
Ente humano, que geralmente estão latentes, e que, uma vez manifestadas
e expressas, fazem do homem um ser mais elevado que o homem ordinário. O
desenvolvimento destas faculdades latentes é possível a todos os que
chegaram ao grau próprio para isso, e o desejo e a fome do estudante
ávido da instrução, são causados pela pressão dessas faculdades latentes
que se estão a desenvolver e se esforçam por serem reconhecidas pela
consciência.
E além de tudo isto, há no homem ainda uma coisa
maravilhosa que é a vontade, muito pouco conhecida pelos que ignoram a
Filosofia Yogue:. a vontade, esse poder do Eu, a sua primogenitura, a
que tem direito como filho do Absoluto. Estas coisas mentais e físicas
pertencem ao homem, mas não são o homem mesmo. Antes que o homem possa
dominar, controlar e dirigir estas coisas que lhe pertencem — a sua
ferramenta e os seus instrumentos — há de atingir o plano conhecimento
de si mesmo. Há-de ser capaz de distinguir entre o «Eu» e o «Não-Eu».
Esta é a primeira tarefa que espera o Aspirante. Aquilo que é o Eu real
do homem é a centelha divina, emitida pela chama sagrada. E o filho do
progenitor divino, e é imortal, eterno, indestrutível, invencível.
Possui em si mesmo o poder, a sabedoria e a realidade. Da mesma forma,
porém, que a criança que contém em si o futuro homem, a mente humana é
inconsciente das suas qualidades latentes e potenciais, e não se conhece
a si mesma; à medida que se desperta e desenvolve no conhecimento da sua
natureza real, manifesta as suas qualidades e realiza o que o Absoluto
lhe tem dado. Quando o Eu real começa a despertar-se, a mente põe de
lado as coisas que são meramente seus apêndices, mas que o homem, no seu
estado de imperfeito despertar, tomava pelo seu Eu. Pondo de lado isto e
aquilo, desprende-se de tudo o que constitui o seu «Não-Eu», tomando
assim o Eu real, não sendo mais sujeito à senilidade dos seus apêndices.
Então volta a estes apêndices postos de lado e utiliza-se deles.
Considerando a questão: «Que é o Eu real?», examinemos
primeiro o que a gente pensa ordinariamente, quando diz: «Eu». Os
animais inferiores não possuem este sentido de «Eu». São conscientes do
mundo externo, dos seus próprios desejos, apetites e sentimentos
animais; mas a sua consciência não alcança o grau da consciência de si
mesmos. Não são capazes de pensar de si como entidade e de refletir
sobre os seus pensamentos. Não possuem uma consciência da centelha
divina — o Ego ou Eu real. A centelha divina está oculta nas formas
inferiores de vida — até nas formas inferiores da vida humana — por
muitos envoltórios que obscurecem a sua luz. Contudo, ela existe sempre.
Dorme na mente do selvagem; depois, quando ele se desenvolve, a centelha
começa a irradiar a sua luz. Em vós, Ó Aspirante, ela se esforça por
penetrar nos invólucros materiais. Quando o Eu real começa a levantar-se
do seu sono, os seus sonhos desaparecem e começa a ver o mundo como ele
é e a reconhecerse em realidade, não se identificando mais com o «eu»
ilusório dos seus sonhos. Os selvagens e os bárbaros são muito pouco
conscientes do seu «Eu». Eles estão somente um pouco acima do animal,
quanto à consciência, e conhecem o seu «Eu» apenas nas necessidades do
corpo, na satisfação dos apetites e das paixões, segurança,
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bem estar pessoal, expressão de
concupiscências, no poder selvagem, etc. No selvagem, a sede do «Eu»
está na parte inferior da mente instintiva. Se o selvagem pudesse
analisar os seus pensamentos, diria que o seu «Eu» é o corpo físico, e
que este corpo tem certos «sentimentos», «necessidades» e «desejos». o
Eu
deste homem é o seu Eu físico, cuja forma e sustância é representada
pelo corpo. E isto
não é verdade somente em relação ao selvagem, pois até no meio dos
homens
chamados «civilizados» encontramos muitos neste grau.Eles desenvolveram poderes de pensar e raciocinar, mas não «vivem nas
suas
mentes», como alguns dos seus irmãos. Usam as suas faculdades mentais
para a satisfação de seus desejos e apetites corporais e, na realidade, vivem no plano
da mente
instintiva.
Uma pessoa nestas condições não pode falar da «sua mente» ou «sua alma»
de uma
posição elevada onde se observam estas coisas do ponto de vista de um
mestre que tem
pleno conhecimento do seu Eu real. Tal pessoa ocupa a posição baixa do
homem que
vive no plano da mente instintiva e vê os atributos superiores acima de
si. Para esta
gente, o corpo é o «Eu». O seu «Eu» está ligado aos sentidos e com o que
lhes vem por
meio dos sentidos.
Sem dúvida, à medida que o homem se adianta em «cultura» e
«civilização», os seus
sentidos são educados e encontram satisfação só em coisas mais
refinadas, ao passo
que o homem menos cultivado se contenta e satisfaz com os gozos sensuais
mais
materiais e grosseiros.
Uma grande porção daquilo a que chamamos «civilização e «cultura» não é
senão
uma forma mais refinada de gozos sensuais, e não um real adiantamento em
consciência
e desenvolvimento.
É verdade que o estudante adiantado e o mestre possuem sentidos
altamente
desenvolvidos, os quais muitas vezes excedem os do homem vulgar, mas
estes sentidos
têm sido cultivados sob a direcção da vontade, e longe de servirem de
obstáculo ao
progresso da alma, antes são criados do Eu — são criados e não senhores.
Na proporção que o homem progride na escala da evolução, faz uma
concepção mais
alta do «Eu». Começa a fazer uso da sua mente e razão, e passa ao plano
mental; a sua
mente começa a manifestar-se no plano do intelecto. Acha que há nele
algo que é
superior ao corpo. Acha que a sua mente parece ser-lhe mais real do que
a sua parte
física, e, nos momentos de profundo pensamento e e estudo, é capaz de
quase esquecer
a existência do corpo.
Neste segundo grau, o homem vem a sentir-se perplexo. Encontra problemas
que
exigem uma resposta: mas apenas se lhes dá uma resposta que parece
conter a solução,
os problemas apresentam-se numa nova fase, e o homem. é obrigado a
«explicar a sua
posição».
A mente, ainda que não seja controlada e dirigida pela vontade, tem uma
extensão
maravilhosa; mas, não obstante, o homem acha que se move num círculo e
reconhece
que continuamente confronta o desconhecido. Isto perturba-o; e, quanto
mais alto chega
nos «seus estudos» mais perturbado fica.
O homem de pouco saber não vê a existência de muitos problemas que
chamam a
atenção de um homem de mais saber, pedindo a solução. Quem não evoluiu
ainda a este
grau, não pode imaginar as torturas por que passa aquele que atingiu o
grau de
crescimento mental que torna possível ver os novos problemas e a
impossibilidade de os
resolver.
O homem neste grau de consciência pensa no seu «Eu» como uma coisa
mental que
tem um companheiro inferior — o corpo. Ele sente que se adiantou, mas o
seu «Eu» não
pode ainda dar-lhe a resposta aos enigmas e questões que o tornam
perplexo. E o
homem sente-se muito infeliz. Muitos que chegaram a este ponto
tornaram-se pessimistas
e consideraram toda a vida como o maior mal, considerando-a antes
maldição que
INDICE
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benção.
O pessimismo pertence a este
plano, porque é alheio ao plano físico e ao plano
espiritual. O homem no plano físico não se inquieta com tais
pensamentos, porque está
quase todo absorvido nos gozos da sua natureza animal; e
o homem no
plano espiritual
reconhece a sua mente como um instrumento imperfeito no seu presente
grau de
crescimento. Ele sabe que tem em si
a chave de todo o saber — o qual
está fechado no
Espírito
— e que a mente treinada, cultivada, desenvolvida e guiada pela
vontade
desperta, pode utilizar-se desta chave à medida que evolui. O homem
adiantado, sabendo
disto, não desespera e, reconhecendo a sua natureza real e as suas
possibilidades,
quando acorda à consciência de suas forças e capacidades, ri-se das
velhas ideias de
desespero e de pessimismo, e abandona-as como a uma veste que já não
serve. O
homem, no plano mental, é como um enorme elefante que não conhece a sua
força.
Poderia romper as barreiras e imporse a todas as condições e todo o
ambiente mas, na
ignorância do seu verdadeiro estado e da sua força, pode ser governado
por um pequeno
condutor ou assustado pelo ruído de um pedaço de papel.
Quando o Aspirante se tornou um iniciado — isto quando tem passado do
plano
puramente mental ao plano espiritual — reconhece que o «Eu» verdadeiro é
algo superior
ao corpo e à mente, e que ambos são usados como ferramenta e
instrumentos pelo Ego
ou «Eu». Este saber não se alcança por meio de raciocínio puramente
intelectual, ainda
que tais esforços da mente sejam muitas vezes necessários para favorecer
o
desenvolvimento, para que os Mestres os apliquem. O saber verdadeiro,
entretanto, vem
como uma forma especial de consciência. O Aspirante chega a «perceber» o
seu «Eu»
real, e quando atinge esta consciência, entra na ordem dos iniciados.
Quando o iniciado
passa pelo segundo grau de consciência e começa a sentir a sua afinidade
com o Todo
— quando começa a manifestar a expressão do Eu — está no caminho do
Mestrado.
Na presente lição esforçar-nos-emos por expor ao Aspirante os métodos
para
desenvolver ou ampliar a realização desta consciência do «Eu» — esta
obra do primeiro
grau.
Apresentamos ao Aspirante os exercícios de treinamento que seguem, para
os
praticar. Ele achará que, se seguir cuidadosa e conscientemente estas
direções,
desenvolverá em si a consciência do «Eu» a grau suficiente para poder
passar aos
estudos superiores do desenvolvimento e do poder. Tudo o que é
necessário é que o
Aspirante sinta em si o arrebol da consciência que se desperta, ou a
percepção do Eu
real. Os estados superiores da consciência do «Eu» virão gradualmente,
porque, quem
entrou uma vez no caminho, não pode retroceder. Pode haver pausas na
jornada, mas
nunca se pode perder realmente o que se obteve uma vez no caminho.
Esta consciência do «Eu» não é mesmo nos seus estados mais elevados
senão Um
passo preliminar ao que se chama «iluminado» e que significa o despertar
do iniciado ao
vivo conhecimento da sua verdadeira conexão e a sua afinidade com o
Todo. A plena
vista da glória do «Eu» é apenas um fraco reflexo da iluminação.
Quando
o Aspirante
entra plenamente na consciência do «Eu», toma-se um iniciado. E o
iniciado que entra no
arrebol de iluminação, dá o primeiro passo na vereda que conduz ao
Mestrado. A
iniciação é o despertar da alma ao conhecimento da sua existência real;
a iluminação é a
revelação da verdadeira natureza da alma e da sua afinidade com o Todo.
Quando o
Aspirante chegou ao primeiro arrebol da consciência do «Eu», torna-se
mais fácil
compreender os meios de desenvolver a consciência a um grau ainda mais
alto; é mais
capaz de utilizar as forças latentes em si mesmo, controlar os seus
próprios estados
mentais, manifestar um centro de consciência e influência que irradiará
ao mundo externo
que procura sempre com esforço tais centros, para girar em redor deles.
O homem há de ser senhor de si mesmo antes que possa esperar exercer
influência
sobre o seu ambiente. O caminho que conduz ao desenvolvimento e poder é
estreito e
árduo; há de ir-se passo a passo, e cada Aspirante há de dar
pessoalmente todos os
passos com o seu próprio esforço. Pode, entretanto, ser e será — guiado
pelas mãos dos
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instrutores que antes dele passaram pelo
caminho e que sabem quanto é necessário
estender a mão para ajudar o Aspirante a passar por lugares ásperos.
Pedimos ao Aspirante que preste muita atenção à instrução que segue,
pois é muito
importante. Não devereis negligenciar algumas das suas partes, porque
vos damos só o
que é necessário, pois expomo-la com a maior concisão possível. Prestai
atenção e segui
estritamente a instrução.
Antes que possamos prosseguir, é necessário que aprendais bem esta
lição. E
devereis praticá-la não só agora, mas em muitos pontos da vossa jornada,
até chegardes
à plena iniciação e iluminação.
Regras e exercidos que ajudarão o
Aspirante na sua iniciação
A primeira instrução que se dá ao
Aspirante it iniciação tem por fim despertar a mente
à plena realização e consciência da individualidade do «Eu». O Aspirante
deverá
aprender a afrouxar o seu corpo, acalmar a sua mente e meditar sobre o
«Eu» até que se
apresente clara e definitivamente perante a sua consciência. Vamos dar
aqui instruções
para produzir a desejada condição física e mental, em que se pratica
mais facilmente a
meditação e concentração.
Este estado de meditação será mencionado em
exercícios subseqüentes; o Aspirante deverá, pois, conhecê-lo bem.Estado de meditação.
— Se for possível, retirai-vos a um lugar ou quarto quieto,
onde não tenhais de temer interrupção, de maneira que a vossa mente se
sinta segura e
calma. De certo não é sempre possível obter a condição ideal; neste caso
devereis fazer
o melhor que puderdes. Trata-se de ficardes capaz de abstrair-vos,
quando for possível,
de impressões distraentes, e devereis estar isolado, só — em comunhão
com o vosso Eu
real.
É bom que vos senteis numa cadeira cômoda ou cama, de maneira que
possais
relaxar ou afrouxar os músculos e evitar a tensão dos vossos nervos.
Devereis ser capaz
de afastar a vossa atenção de tudo o que se passa ao redor de vós e
deixar todos os
músculos caírem em imobilidade, até que um sentimento de perfeita paz,
descanso e
calma penetre em todas as partículas do vosso ser. Descansai o corpo e
acalmai a alma.
Esta condição é a melhor no primeiro tempo da prática; mais tarde,
quando o Aspirante
adquiriu um, certo desenvolvimento, será capaz de obter o afrouxamento
físico e a calma
mental quando e onde desejar.
Cuidado, porém, que não adquira um hábito «sonolento», entregando-se à
meditação
quando deve atender aos afazeres da vida. Lembrai-vos disto: O estado de
meditação
deve estar inteiramente sob o controlo da vontade e devereis entrar nele
só quando
deliberardes e quando o tempo for próprio. A vontade. deve governar
este, como qualquer
outro estado mental. Os iniciados não são «sonhadores ambulantes» e sim
homens e
mulheres
que têm pleno controlo de si mesmos e dos seus hábitos.
A consciência do
«Eu»,
tendo sido desenvolvida por meio de meditação e consciência, em pouco
tempo fica
sendo uma fixa propriedade da consciência e não precisa ser produzida
por meditação.
No tempo de provação, dúvida ou aflição, pode a consciência ser
esclarecida por um
esforço da vontade (como explicaremos em lições subsequentes), sem
entrar no estado
de meditação.
O Real Conhecimento do «Eu».
— O Aspirante há de familiarizar-se primeiramente
com a realidade do «Eu», antes que possa chegar a conhecer a verdadeira
natureza
deste «Eu». Este é o primeiro passo. Entre o Aspirante no estado de
meditação, acima
descrito. Em seguida, deverá concentrar toda a sua atenção no seu Eu
individual
excluindo todos os pensamentos que se ocupam com o mundo exterior e com
outras
pessoas. Há de formar na sua mente a ideia de si mesmo como sendo uma
coisa real, um
ser que existe, uma entidade individual, um Sol ao redor do qual todo o
mundo gira. Deve
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ver-se como um centro, ao redor do qual
gira o mundo inteiro. Esta ideia não deve ser
turbada por uma falsa modéstia nem por um sentido de depreciação, pois
não negais a
outros o direito de se considerarem igualmente como centros. Com efeito,
vós sois um
centro de consciência — o Absoluto assim vos fez e estais a despertar
para este fato.
Enquanto o Ego não se reconhecer como sendo um centro de pensamento,
influência
e poder, não poderá manifestar estas qualidades. E à medida que
reconhecer a sua
posição como um centro, será capaz de manifestar as suas qualidades. Não
é necessário
que vos compareis com outros ou imagineis que sois maior ou mais alto do
que eles. Tais
comparações seriam lastimáveis, pois são indignas do Ego adiantado e
indicam uma falta
no desenvolvimento. Na vossa meditação, ignorai simplesmente toda a
consideração das
respectivas qualidades dos outros, e esforçai-vos por reconhecerdes o
fato de que sois
um grande centro de consciência — um centro de influência — um centro de
pensamento;
e que, como os planetas rodeiam o Sol, assim o vosso mundo gira ao redor
de vós que
sois o centro do vosso mundo.
Não é necessário que argumenteis isto, nem que vos convençais de que
isto é
verdade, por meio de raciocínio intelectual. O conhecimento não virá por
este caminho;
ele virá na forma de uma realização da verdade que gradualmente
resplandecerá na
vossa consciência por meio de meditação e concentração. («Realização»
aqui significa
reconhecimento intuitivo). Levai convosco este pensamento de vós mesmo
como sendo
um «centro de consciência — influência — poder», pois ele é uma verdade
oculta e, à
medida que puderdes realizar (ou reconhecer intuitivamente) esta
verdade, podereis
manifestar as qualidades enumeradas.
Por mais humilde que seja a vossa posição — por mais dura que seja a
vossa sorte,
por mais deficiente que seja a vossa educação—, não quereríeis permutar
vosso «Eu»
com o mais afortunado, o mais sábio e o mais respeitado homem (ou
mulher) do mundo.
Se duvidais, pensai um momento sobre isto e vereis que temos razão.
Quando dizeis que
«quereríeis ser como este ou aquele», pensais somente que quereríeis ter
inteligência,
poder, saúde, bem estar, posição, etc., como eles têm. Desejaríeis ter
alguma coisa que
eles possuem ou semelhante ao que possuem. Não quereríeis, porém, nem
por um
instante perder a vossa personalidade, nem permutar o EGO (isto é,
aquilo que faz que
eu seja eu, e vós sejais vós, etc.); pois para serdes a outra pessoa,
haveríeis de deixar de
ser vós, haveríeis de morrer vós e, em vosso lugar, existiria a outra
pessoa. O que vós
realmente sois, seria destruído, cessaria de existir: não seria mais
vós, mas seria o outro.
Se podeis compreender esta ideia, vedes que não desejais tal permuta nem
por um
instante. E, na realidade, tal permuta é impossível. O vosso «Eu» não
pode ser destruído:
é eterno, e irá passando a estados cada vez mais elevados — mas será
sempre o
mesmo; o vosso «Eu» é o mesmo que era na vossa infância, «Eu»
(personalidade),
mesmo reconhecendo que houve certamente algumas mudanças na vossa
pessoa, desde
a infância até à vossa idade atual. Igualmente, no futuro, não obstante
atinjais mais
conhecimento, experiência, poder e sabedoria, o vosso «Eu» será o mesmo.
O «Eu» é a
centelha divina que não pode ser extinta.
A maior parte do povo, no presente estado de desenvolvimento 'da raça,
tem apenas
uma fraca concepção da realidade do «Eu». Muitos aceitam a afirmação da
sua existência
e são conscientes de si mesmos como sendo criaturas que comem, dormem e
vivem —
algo mais alto do que os animais. Mas não chegaram à «percepção» ou
realização do
«Eu», que há de vir a todos os que devem
tornar-se centros de influência e poder. Alguns homens caíram nesta
consciência, pelo
menos parcialmente, sem terem conhecimento do assunto. Eles «sentiram» a
sua
verdade e retiraram-se das fileiras da gente vulgar do mundo, tornando-se
centros de
poder para o bem ou para o mal. Isto é bastante mau porque esta
«percepção» sem o
conhecimento que a deve acompanhar, pode trazer sofrimento ao indivíduo
e a outros.
O Aspirante há de meditar sobre o «Eu» e reconhecê-lo, — senti-lo como
sendo um
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centro. Esta é a sua primeira tarefa.
Gravai bem na vossa mente a palavra «Eu» neste
sentido e deixai-a cair profundamente na vossa consciência, para que se
tome uma parte
de vós mesmo. E quando dizeis «Eu», deveis acompanhar esta palavra com a
imagem do
vosso Ego como um centro de consciência, pensamento, poder e influência.
Vede-vos,
rodeado pelo vosso mundo. Aonde quer que estejais, está o centro do
vosso mundo. Vós
sois o centro, e todo o vosso exterior gira ao redor deste centro. Esta
é a primeira lição na
vereda da Iniciação. Aprendei-a!
Os mestres yogues ensinam que os Aspirantes poderão acelerar a
realização do «Eu»
como um centro, se entrarem no silêncio ou estado de meditação,
repetindo várias vezes
o seu nome, lenta, refletida e solenemente. Este exercício tem o fim de
concentrar a
mente na ideia do «Eu», e muitos casos de aparecimento da aurora de
iniciação
resultaram desta prática. Alguns pensadores originais descobriram este
método sem que
lhes tivesse sido ensinado. Um exemplo notável é o de lorde Tennyson,
que escreveu que
tinha atingido um grau de iniciação por esta maneira. Ele repetia muitas
vezes o seu
próprio nome, meditando ao mesmo tempo sobre a sua identidade, e
relatava que se
tornou consciente e podia «perceber» a sua realidade e imortalidade — em
poucas
palavras, reconhecia-se como um centro real de consciência.
Julgamos que vos foi dada a chave para o primeiro estádio de meditação e
concentração. Antes de irmos adiante, citaremos um dos antigos mestres
hindus. Diz ele
a respeito deste assunto: «Quando a alma se vê como um centro circundado
pela sua
circunferência — quando o Sol sabe que é um Sol e que é rodeado por seus
planetas que
giram em torno dele — então está preparado para receber a Sabedoria e o
Poder dos
Mestres».
O conhecimento da independência do «Eu»
em relação ao corpo
Alguns aspirantes encontram obstáculos à
plena realização do «Eu» (ainda que já
tenham começado a compreendê-la), porque confundem a realidade do «Eu»
com o
sentido do corpo físico. Este obstáculo pode ser removido facilmente
por meio da
meditação e concentração, e a independência do «Eu» manifesta-se ao
Aspirante, num
momento de lucidez, refletida sobre o próprio pensamento que lhe serve
como objeto
de meditação.
O exercício que se dá para este fim é o seguinte: Ponde-vos no estado de
meditação e
pensai em vós mesmo — no «Eu» real — como sendo independente do corpo e
usando o
corpo como vossas vestes e vosso instrumento.
Pensai no corpo como sendo uma muda de roupa. reconhecei que podeis
deixar o
corpo e, contudo, ser sempre o mesmo «Eu».
Imaginai que o estais
fazendo,
colocando-vos acima do vosso corpo e olhando para ele, que está debaixo.
Pensai que o
corpo é como uma casca de que podeis sair sem mudança da vossa
identidade. Pensai
que estais governando e controlando o corpo que ocupais e que dele
fazeis o melhor uso
possível, tornando-o sadio, forte e vigoroso, mas que ele não passa,
entretanto, de uma
casca ou um invólucro do vosso verdadeiro «Eu». Pensai no corpo, como
sendo
composto de átomos e células que se transformam incessantemente, mas que
são
conservados em união com os outros pela força do vosso Ego, e que podeis
aperfeiçoá-los por meio da vontade. Realizai o conhecimento que só habitais o corpo
e que o usais
para vossa conveniência, da mesma forma como usais uma casa.
Continuando a meditar, ignorai o corpo totalmente e fixai o vosso
pensamento no «Eu»
real que começais a sentir que sois «vós», e achareis que a vossa
identidade — o vosso
«Eu» — é algo totalmente distinto do corpo.
Podereis agora dizer «meu corpo» com um novo significado. Bani a ideia
de que sois
um ser físico e reconhecei que sois superior ao corpo. Esta concepção e
este
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reconhecimento, porém, não vos deverão
seduzir a negligenciardes o corpo. Deveis
considerar o corpo como um templo do espírito, e cuidar dele, para que
seja uma boa
morada para o «Eu».
Não vos assusteis se, durante esta meditação, vos sobreviver a sensação
de estardes,
por alguns instantes, fora do corpo e que a ele voltais depois de
concluído o exercício. O
Ego é capaz (no caso do iniciado adiantado) de elevar-se acima dos
limites do corpo, mas
nunca dissolve a sua conexão em tais ocasiões. O Ego estando assim
parcialmente fora
do corpo, pode ser comparado a quem abre a janela de um quarto e dela
observa o que
se passa fora, colocando a cabeça no espaço exterior e retirando-a para o
interior quando
quer.
Assim como este observador não sai do quarto, — embora sua cabeça se
ache fora
dele, — também o Ego não saiu, no caso acima mencionado, do corpo,
apesar de ter-se
elevado parcialmente acima dele. Não aconselhamos ao Aspirante cultivar
esta sensação;
porém, quando ela vem por si mesma durante a meditação, não vos
assusteis.
Convicção da imortalidade e
invencibilidade do Ego.
Muitas pessoas aceitam a crença da
imortalidade da alma, mas poucos sabem que ela
pode ser demonstrada pela própria alma. Os Mestres Yogues ensinam esta
lição ao
Aspirante, da seguinte maneira: O Aspirante deve pôr-se no estado de
meditação ou, ao
menos, numa disposição pensativa de alma e, neste estado, deve
esforçar-se por
«imaginar» que está morto, isto é, tentar formar uma concepção mental de
si como
estando morto. No primeiro momento parece ser isto muito fácil, mas, na
realidade, é
impossível fazer tal comparação, porque o Ego recusa-se a sustentar a
proposição,
achando impossível imaginá-la: Experimentai por vós mesmos. Achais que
podeis
imaginar que o vosso corpo está deitado, sem movimento e sem vida;
porém, ao mesmo
tempo, achareis que fazendo esta imaginação, vós estais ao pé do corpo e
olhais para
ele. Vedes, pois, que vós não morreis nem em imaginação, ainda que o
corpo morra. Se
não quereis separar-vos do vosso corpo, em imaginação, podeis pensar no
vosso corpo
como estando morto, mas vós, que não quereis abandoná-lo, estais ainda
vivo, e
reconhecereis o corpo morto corno uma coisa fora do vosso Eu real. Por
mais que tenteis,
não podeis imaginar-vos como morto. Em todos estes pensamentos, o Ego
insiste que
está vivo e, assim, acha que em si mesmo tem o sentido e a certeza de
imortalidade.
Em
sono ou no estupor causado por pancada, narcóticos ou anestésicos, a
mente está
aparentemente apagada, mas o «Eu» está consciente de uma continuidade de
existência.
Assim, quando quereis imaginar-vos como estando sem consciência ou em
sono, podeis
facilmente fazê-lo e vedes a possibilidade de tal estado; quando, porém,
quiserdes
imaginar que o vosso Eu está morto, a mente recusa-se absolutamente a
fazê-lo. Este
maravilhoso fato que a alma traz em si mesma, a evidência da sua
imortalidade, é Uma
coisa gloriosa; mas é necessário ter-se atingido um certo grau de
desenvolvimento antes
de poder-se compreender a plena significação deste fato.
O Aspirante deve investigar por si mesmo a afirmação acima enunciada
para o que lhe
servirá a meditação e a concentração, porque se o «Eu» deve chegar a
conhecer a sua
verdadeira natureza e suas possibilidades, há de reconhecer que não pode
ser destruído
nem morto. Há de saber o que é, antes que possa manifestar a sua
natureza.
Não
passeis adiante, antes de haverdes aprendido o que esta lição vos
ensina. E será bom,
ocasionalmente, a ela voltardes, para que graveis na vossa mente o facto
de ser imortal e
eterna a vossa natureza. Já o simples vislumbre desta concepção da
verdade vos dará
um vivo sentimento de força e poder, e achareis que a vossa
personalidade se expandiu e
cresceu, sendo mais forte e mais central do que outrora pensastes.
Os seguintes exercícios ajudarão a reconhecer a invencibilidade do Ego —
a sua superioridade em relação aos elementos.
12 / 118.
Ponde-vos no estado de meditação e imaginai que o «Eu» saiu do corpo.
Vede-o
passando incólume pelo ar, pelo fogo e pela água. Reconhecereis que, não
sendo impedida pelo corpo, a alma pode andar pelo ar à vontade, voar
como uma ave, adejar,
caminhar no éter. Pode ver-se como capaz de passar pelo fogo sem que
este lhe faça
mal, sem que o sinta, porque os elementos afetam só o corpo físico e
não o «Eu» real.
Igualmente pode ver-se como capaz de passar pela água, sem que lhe
aconteça algum
desastre ou ameace algum perigo.
Esta meditação dar-vos-á um sentimento de superioridade e vigor, e
mostrar-vos-á
algo da natureza do «Eu» real. É verdade que estais limitado no corpo e
o corpo pode ser
afetado pelos elementos; porém, o conhecimento de que o «Eu» real é
superior ao corpo
— superior aos elementos que afetam o corpo — e não pode ser ferido nem
morto, é
milagroso e tende a desenvolver em vós a plena consciência do «Eu».
Porque vós — o
«Eu» real — não sois corpo. Vós sois espírito. O Ego é imortal e
invisível; não pode ser
morto nem vulnerado. Quando entrardes neste conhecimento e nesta
consciência,
sentireis um influxo de força e poder que não se pede descrever.
O medo
cairá de vós
como um manto rasgado e sentireis que «nascestes de novo». A compreensão
deste
pensamento vos mostrará que as coisas que temeis não podem afetar o
«Eu» real e
hão de contentar-se em fazer mal ao corpo físico. E
podem ser desviadas
do corpo físico
por um conhecimento próprio e pela aplicação da vontade.
Na lição seguinte aprendereis como separar o «Eu» do mecanismo da mente
— como
podeis governar a mente, da mesma forma como agora realizais a vossa
independência
do corpo. Podeis obter gradualmente este conhecimento e haveis de
colocar os vossos
pés firmemente num degrau da escada antes de dar outro passo.
O objeto de que trata esta primeira lição é o «Eu». O Aspirante há de
compreender
planamente o sentido desta palavra, antes de poder progredir. Há de
conhecer a sua
existência real, independente do corpo. Há de ver--se como invencível e
inacessível ao
mal, inatingível a qualquer vulneração ou morte. Há de ver-se como um
grande centro de
consciência, um Sol, em roda do qual gira o seu mundo. E se tiver
realizado isto, uma
nova força lhe virá. Sentirá uma dignidade calma e um poder que serão
notados por
aqueles com que vier a ter contacto. Será capaz de olhar a face do
mundo, sem vacilar,
sem medo — porque conhecerá e sentirá a natureza e o poder do «Eu».
Sentir-se-á como
um centro de poder, um centro de influência. Saberá, com toda a
convicção, que nada
pode fazer mal ao seu «Eu», e que o seu «Eu» real, a sua
individualidade, permanecerão
incólumes, ainda que as tempestades da vida se desencadeiem sobre a sua
personalidade.
O «Eu» resistirá às tempestades da vida da personalidade como uma rocha
resiste à
tormenta. E saberá que, quanto mais se adianta na realização do
conhecimento, mais
apto estará para dominar estas tempestades e ordenar-lhes que cessem.
Como diz o Mestre Yogue: «O «Eu» é eterno. Passa por fogo, ar e água,
ileso e sem
impedimento. A espada e a lança não o podem matar nem ferir. O «Eu» não
pode morrer.
As provações da vida física são para ele meros sonhos. Permanecendo
seguro no
conhecimento do «Eu», pode o homem rir-se à vista das piores coisas que
o mundo lhe
pode oferecer e, estendendo a sua mão, pode ordenar-lhes que desapareçam
nas trevas
donde emergiram.
Bem aventurado quem pode dizer «Eu» com o necessário
entendimento».
Agora, caro Aspirante deixamo-vos estudar e aprender a primeira lição.
Não percais a
coragem se o vosso progresso for lento. Não vos aflijais se
escorregardes um passo para
trás, depois de vos terdes adiantado. Na próxima vez dareis dois passos
avante. O êxito e
a realização são-vos garantidos. Estais no caminho do Mestrado.
Atingi-lo-eis, isto é certo.
A Paz seja convosco.
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Mantrams
(afirmações)
«Eu» sou um centro.
Em tomo de mim gira o meu mundo.
«Eu» sou um centro de influência e poder.
«Eu» sou um centro de pensamento e consciência.
«Eu» sou independente do
corpo.
«Eu» sou imortal e não posso ser destruído.
«Eu» sou invencível e coisa alguma
me pode fazer mal.
«EU»
|
Senhor de
milhares de mundos sou "EU", e reino já, desde que o tempo
nasceu. Os anos, os meses e os dias, nas cíclicas vias se
vão. Mas o espírito não. O Espírito não morre e o Espírito
sou "EU".
"EU SOU"
. |
INDICE
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II LIÇÃO - OS INSTRUMENTOS MENTAIS DO EGO
Na primeira lição demos instruções e
exercícios destinados a despertar a consciência
do Aspirante para realizar o conhecimento do «Eu» real. As nossas
instruções limitaram-se aos ensinamentos preliminares da realidade do
«Eu» e aos meios pelos quais o
Aspirante pode chegar ao conhecimento da interioridade real e da sua
independência do
corpo e das coisas materiais. Temo-nos esforçado por vos mostrar como
podeis despertar
à consciência da realidade do «Eu»; sua natureza real; sua independência
do corpo; sua
imortalidade; sua invencibilidade e invulnerabilidade. Se obtivermos
êxito e até que grau,
pode ser determinado apenas pela experiência de cada Aspirante, pois nós
não podemos
senão mostrar o caminho; ao Aspirante cabe trabalhar para realizar a sua
obra.
Há, entretanto, ainda mais coisas para dizer e fazer, no intuito de
despertar o
conhecimento do «Eu». Até agora, só vos dissemos como distinguir entre
os invólucros do
Ego e o «Eu» mesmo. Temo-vos explicado que possuís um «Eu» real;
dissemos o que
ele é e como é independente dos invólucros materiais que o encobrem,
etc. Nesta análise
de si mesmo há de dar-se, porém, mais um passo, um passo muito mais
difícil. Ainda
depois de se ter despertado o conhecimento da independência do corpo e
dos invólucros
materiais, o Aspirante confunde, muitas vezes, o «Eu» com os princípios
inferiores da
mente. Isto é um erro. A mente, nos seus vários planos e fases, é só um
instrumento do
«Eu» e está longe de ser o «Eu».
Nesta lição elucidaremos este fato e
daremos
exercícios apropriados. Não nos ocuparemos do lado metafísico deste
assunto,
limitando-nos apenas à psicologia yogue. Não falaremos de teorias, nem
tentaremos
explicar a causa, a natureza e o fim da mente — o instrumento operante
do Ego — mas,
em luar disso, esforçar-nos-emos para indicar-vos a maneira de poderdes
analisar a
mente e depois determinar o que é o «Não-Eu» e o que é o «Eu» real. É
inútil
sobrecarregar-vos com teorias ou tratados metafísicos, quando o meio de
provar o fato
está na vossa própria compreensão. Analisando a mente, podereis separar
as partes que
a formam e obter dela mesma a resposta à questão que dela trata.
Nas segunda e terceira das nossas «Catorze Lições de Filosofia Yogue»
dissemos
que o homem tem três princípios mentais ou subdivisões da mente e que
eles pertencem
a um plano inferior ao do espírito. O «Eu» é espírito, mas os seus
princípios mentais são
de ordem inferior. Não querendo repetir sem necessidade o que já
dissemos, julgamos
que será melhor explicar concisamente sobre estes três princípios na
mente humana.
Em primeiro lugar, temos a mente instintiva, que é comum ao homem e aos
animais
inferiores. É o primeiro princípio mental que aparece na escala da
Solução. Nas suas
fases mais baixas, a consciência é pouco perceptível e a mera sensação
ocupa o seu
Iugar. Nos seus graus superiores, a mente instintiva atinge quase a
razão ou o intelecto;
podese dizer que ambos se entrelaçam. A mente instintiva desempenha uma
tarefa
importante, dirigindo a manutenção de vida animal no nosso corpo,
tratando de restaurar
as suas partes e forças, substituir, mudar, fazer digestão, assimilação,
eliminação, etc.,
tudo que pertence às atividades sob o plano da consciência.
Tudo isto, porém, é apenas uma pequena parte da obra da mente
instintiva; porque
esta parte da mente armazena todas as experiências que temos feito nós e
os nossos
antepassados no decurso da evolução das mais baixas formas de vida
animal até ao
presente estado de evolução. Todos os velhos instintos animais (que
foram todos bons no
seu lugar e muito necessários para o bem estar das formas inferiores da
vida) deixaram
vestígios nesta parte da mente, os quais podem aparecer à dianteira sob
a pressão de
certas circunstâncias, ainda que nos pareça que já hí muito tempo que
nos temos libertado deles. Nesta parte da mente, encontram-se vestígios
do velho instinto animal de
15 / 118
combater; todas as paixões animais; todo
o ódio, inveja, crime e o resto, tudo isto é nossa
herança do passado. A mente instintiva é também a sede dos hábitos; nela
estão
armazenados todos os hábitos, pequenos e grandes, de muitas vidas, ou
antes, todos
aqueles que não foram extintos por hábitos novos, de natureza mais
forte. A mente
instintiva é um interessante armazém, que contém muitas variedades de
objetos, dos
quais alguns são muito bons em si mesmos, mas outros pertencem à pior
espécie de lixo
e varreduras.
Esta parte da mente é também a sede dos apetites,, paixões, desejos,
instintos,
sensações, sentimentos e emoções de ordem inferior, que se manifestam
nos animais
inferiores, no homem primitivo, no bárbaro e no homem atual, com a
diferença que existe
apenas no grau do domínio e controlo que as partes mais elevadas da
mente exercem
sobre eles. Há também desejes superiores, aspirações, etc., pertencentes
à parte
superior da mente, os quais mais adiante descreveremos; mas a «natureza
animal»
pertence à mente instintiva. Pertencem-lhe igualmente os «sentimentos»
da nossa
natureza emocional e apaixonável. Todos os desejos animais, como a fome
e a sede; os
desejos sexuais (no plano físico); todas as paixões, como o amor físico;
o ódio, a inveja, a
malícia, o ciúme, a vingança, etc., são partes da mente instintiva. O
desejo de objetos
físicos (quando não serve como meio para fins mais altos) e a aspiração
a coisas materiais pertencem a esta região mental.
A concupiscência da
carne; a concupiscência da
vista; o orgulho da vida, fazem parte da mente instintiva.
Notai, porém, que não estamos a condenar as coisas que pertencem a este
plano da
mente. Todas elas têm o seu lugar; muitas foram necessárias no passado e
algumas
ainda são necessária para a continuação da vida física. Todas são boas
no seu lugar e
para os que se acham no plano particular de desenvolvimento a que essas
coisas
pertencem; elas são más só quando nos deixamos dominar por elas ou
quando alguém
torna a entregar-se a alguma delas depois de a ter já abandonado, por
ser indigna dele no
seu desenvolvimento individual. Esta lição não se ocupa do bom e mau uso
destas coisas
(de que já temos tratado em outro lugar); mencionamos esta parte da
mente para que
compreendais que tendes essas coisas no vosso depósito mental e para que
vos seja
conhecido o pensamento que dali provém, quando chegarmos a analisar a
mente mais
adiante nesta lição. Por era pedimos unicamente que fiqueis
compenetrados da convicção
de que esta parte da mente vos pertence, mas não é vós mesmo: não é
parte do vosso
«Eu».
Logo acima da mente instintiva está o intelecto, isto é, aquela parte da
mente de que
nos servimos para raciocinar, analisar, «pensar», etc. Dela vos servis,
estudando esta
lição. Porém, notai isto: — servi-vos dela, mas ela não é vós mesmo.
igualmente como
não o foi a mente instintiva que consideramos um momento antes.
Podereis
fazer a
separação, se pensardes um só instante. Não ocuparemos o vosso tempo com
a
consideração do intelecto ou razão. Em qualquer boa obra elementar de
psicologia
encontrareis uma boa descrição desta parte da mente, que nós mencionamos
somente
para poderdes fazer a classificação e para podermos mostrar-vos mais
adiante que o
intelecto não é o «Eu» real mesmo, como muitos pensam, mas apenas um
instrumento do
Ego.
O terceiro e o mais alto princípio mental é a mente espiritual, aquela
parte da mente
que é quase desconhecida à maioria da humanidade, mas que se desenvolve
na
consciência de quase todos os que lêem esta lição, porque o fato de o
assunto desta
lição vos atrair é uma prova de que esta parte da vossa natureza mental
se está a
desenvolver na consciência. Esta região da mente é a fonte daquilo que
se chama
«gênio», «inspiração», «espiritualidade», e de tudo aquilo que
consideramos como «o
mais alto» do nosso depósito mental. Todas as grandes ideias e
pensamentos elevados
fluem ao campo da consciência, emanando desta parte da mente. Toda a
grande evolução da raça provém daqui. Todas as mais altas ideias mentais que
vieram ao
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homem na sua jornada evolucionária
ascendente, que tem por fim ações nobres,
verdadeiro sentimento religioso, afabilidade, humanidade, justiça, amor
altruísta, graça,
simpatia, etc., vieram-lhe através da sua mente espiritual que se
desenvolve pouco a
pouco. Dela lhe vem o amor de Deus e o amor do próximo. O conhecimento
das grandes
verdades ocultas lhe vem por este canal. O perfeito conhecimento do «Eu»
, que nos
esforçamos por vos ensinar nestas lições, há de vir-vos por meio da
mente espiritual que
desenvolve as suas ideias até ao campo da consciência.
Mas também esta grande e maravilhosa parte da mente não é senão um
instrumento
— muito perfeito, é verdade, mas apenas um instrumento — do Ego ou «Eu».
Queremos dar-vos um pequeno exercício de treinamento mental, com o fim
de vos
tomardes capaz de distinguir prontamente o «Eu» da mente ou dos estados
mentais. Mas
advertimos o estudante de que toda a parte, todo o plano e toda a
função da mente são
bons e necessários, sendo errôneo pensar que, porque lhe dizemos que
deve deixar de
se ocupar primeiro com esta e depois com aquela parte da mente, a
estejamos menosprezando ou que a consideramos um lastro ou obstáculo.
Longe disso, nós sabemos e
reconhecemos que é servindo-se da mente que o homem se torna capaz de
chegar ao
conhecimento da sus verdadeira natureza e que ainda em muitos graus o
seu progresso
dependerá do desenvolvimento das. suas faculdades mentais.
O homem serve-se atualmente apenas das partes mais baixas e inferiores
da mente,
tendo no seu mundo mental regiões ainda inexploradas de que não pode
fazer ideia nem
a mais forte imaginação. E um dos propósitos de «Raja Yoga» ajudar no
desenvolvimento
destas faculdades e regiões mentais superiores. E longe de
desacreditarem a mente, os
instrutores de «Raja Yoga» reconhecem os seus poderes e as suas
possibilidades e
estimulam o estudante a aproveitar as forças latentes que são inerentes
à sua alma.
E somente por meio da mente que podeis entender e compreender as lições
que
agora vos estamos a dar e que delas podeis tirar proveito e vantagem.
Estamos agora a
falar diretamente à vossa mente e fazemos-lhe apelo, para que se
interesse e se abra ao
que está pronto a vir até ela de suas próprias regiões superiores.
Exortamos o intelecto a dirigir a sua atenção a este importante assunto,
para pôr
menos resistência às verdades que aguardam para serem projetadas da
mente espiritual
até ele, que conhece a verdade.
Exercido de treinamento mental
Ponde-vos num estado de calma e
tranquilidade, para poderdes meditar sobre os
assuntos que apresentamos à vossa consideração. Fazei com que as
matérias apresentadas encontrem de vossa parte uma recepção hospitaleira
e que a nossa atitude mental
seja animada pela vontade de receberdes o que vos aguarda nas regiões
superiores da
vossa mente.
Chamaremos a vossa atenção para várias impressões ou condições mentais,
uma
após outra, a fim de que reconheçais que são só acidentais para vós, e
não vós mesmo -
que podeis pô-las de parte e observá-las, da mesma forma como qualquer
coisa de que
vos tendes servido. Não podeis pôr de parte o vosso «Eu» e assim o
observar, mas as
várias formas do «não-Eu» podem ser postas de parte e observadas.
Na primeira lição obtivestes a percepção do «Eu» como independente do
corpo, sendo
este apenas um instrumento para seu uso. Agora chegastes ao ponto onde o
«Eu» vos
aparece como uma criatura mental, um conjunto de pensamentos,
sentimentos, hábitos,
etc. Mas é necessário irdes mais adiante. Haveis de tomar-vos capaz de
distinguir o «Eu»
destas condições mentais, que são igualmente ferramentas ou instrumentos
do «Eu»,
como o é o corpo e as suas partes.
Consideremos primeiro os pensamentos que são mais relacionados com o
corpo, e
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depois passaremos aos estádios mentais
superiores.
As sensações do corpo, como fome, sede, dor, sensações agradáveis,
desejos físicos,
etc., etc., não podem ser tomadas por qualidades essenciais do «Eu» pela
maioria dos
Aspirantes, porque já estão fora deste estádio e têm aprendido a pôr de
parte estas
sensações, a um ponto mais ou menos adiantado, por um esforço da
vontade, e não mais
são escravos delas. Com isto não queremos dizer que não sintam estas
coisas, mas que
se acostumam já a considerá-las como acidentes da vida física — bons, no
seu lugar —
mas úteis ao homem adiantado sã quando os domina e não os identifica com
o «Eu».
Muitas pessoas identificam, porém, estas sensações com a sua concepção
do «Eu», de
maneira que, quando falam de si mesmas, pensam somente num conjunto
dessas
sensações. Não são capazes de as pôr de parte e considerá-las como
coisas distintas de
si, de que podem fazer uso quando é necessário e conveniente, mas que
não fazem parte
integrante do «Eu».
Quanto mais se adianta o homem, tanto mais cresce a distância entre ele
e estas
sensações.
Não quer dizer isto que não sinta fome, por exemplo. Não; ele
reconhece a
fome e a satisfaz razoavelmente, sabendo que o seu corpo físico pede
atenção e que o
seu pedido deve ser respeitado. Porém — notai a diferença — em vez de
sentir que «Eu»
estou com fome, o homem sente que «o meu corpo» está com fome, da mesma
forma
como quando percebe que o seu cavalo e o seu cão querem comer. Entendeis
o que
queremos dizer? E que o homem não mais identifica a si mesmo — o «Eu» —
com o
corpo, e, conseqüentemente, os pensamentos que têm relação com a vida
física
parecem, em comparação, como «separados» da concepção do «Eu». Este
homem
pensa: «o meu estômago sente isto» ou a minha perna sente aquilo» ou «o
meu corpo
está assim», em vez de pensar: «Eu sinto isto ou aquilo». É capaz, quase
automaticamente, de pensar no corpo e suas sensações como em coisas que
lhe pertencem e que exigem atenção e cuidado, mas que não são partes
reais do «Eu». É capaz de
formar uma concepção do «Eu» como existindo sem todas essas coisas — sem
o corpo e
suas sensações — e assim tem dado o primeiro passo na realização do
conhecimento do
«Eu».
Antes que prossigamos, pedimos aos estudantes que se detenham um momento
e
percorram mentalmente estas sensações do corpo. Formai delas uma imagem
mental e
reconhecei que são meros acidentes do «Eu» no seu presente grau de
crescimento e
experiência e que não formam parte real dele. Poderão ser — e serão —
deixadas para
trás nos planos superiores de adiantamento do «Eu». Pode ser que já há
muito tempo
tenhais realizado perfeitamente esta concepção mental, mas pedimo-vos
façais agora
este exercício de treino mental, para se firmar na vossa mente este
primeiro passo.
Reconhecendo que podeis pôr de lado mentalmente estas sensações — que
podeis
afastá-las ao comprimento de um braço e «considerá-las» como coisas
«exteriores»
determinais mentalmente que elas são «Não-Eu» e ponde-as na coleção de
coisas que
formam o «Não-Eu». Permiti que vo-lo explique ainda mais claramente,
ainda que
corramos o perigo de vos aborrecermos com repetições (porque é
necessário que fixeis
esta ideia bem na vossa mente). Para poderdes dizer que alguma coisa é
«Não-Eu»,
haveis de reconhecer que se trata de duas coisas: 1 ° —do «Não-Eu», e 2
° — do «Eu», e
que estas duas coisas são tão diferentes como é diferente a ideia que
fazeis de vós
mesmo e de um pedaço de açúcar ou de um monte. Compreendeis o que
queremos
dizer? Pensai sobre isto até que se vos tome claro.
Em seguida, considerai algumas das emoções, como ira, ódio, amor em suas
formas
ordinárias, ciúme, ambição e as centenas de várias emoções que cruzam
vosso cérebro.
Achareis que podeis pôr de parte cada uma destas emoções ou estes
sentimentos e que
podeis estudá-los; analisá-los, observá-los. Podereis compreender o
princípio, o
progresso e o fim de cada Uma destas emoções, como vieram a vós e como
as invocais
na vossa memória ou imaginação, da mesma forma como se observásseis a
sua
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ocorrência na mente de um amigo. Achareis
que todas estavam depositadas em alguma
parte do vosso armazém mental e que podeis «citá-las perante vós e
indicar-lhes os seus
lugares». Vedes, pois, que não são «vós mesmos — que são só algo que vós
levais
convosco no vosso cesto mental. Podeis imaginar-vos como vivendo sem
elas e, não
obstante sendo «vós mesmo» — o vosso «Eu» pode subsistir sem elas, não é
verdade?
O próprio fato de que podeis pô-las de parte e examiná-Ias e
observá-las, é uma
prova que essas emoções são «Não-Eu»; porque se trata aqui de duas
coisas: 1.o — Vós
que estais examinando e observando-as; e — Aquilo que é o objeto do
vosso exame e
observação, que está separado de vós. Estas emoções, tanto as
agradáveis como as
desagradáveis pertencem, pois, à coleção daquilo que é o «Não-Eu». Esta
coleção está
a aumentar fortemente e, em breve, atingirá formidáveis proporções.
Não julgueis, entretanto, que esta lição seja destinada a ensinar-vos
como vos livrareis
destas emoções, embora ela vos possa tornar capaz de vos libertardes das
desagradáveis, o que seria muito bom.
Agora trata-se, porém, de pôr as
agradáveis junto com as
desagradáveis, para reconhecerdes que o «Eu» é superior, mais alto e
independente
destas coisas
mentais; depois, quando tiverdes realizado o conhecimento
do «Eu»,
podereis voltar a
fazer uso destas coisas (como senhor delas), ao passo
que outrora elas
faziam uso de vós como escravos. Não receeis, pois, pôr estas emoções
(boas e más) na
coleção das coisas que formam o «Não-Eu». Depois de terdes feito o
exercício mental,
podeis voltar a elas e vos servirdes das boas. Por mais ligado que vos
pareça que estejais
a alguma destas emoções, analisando a cuidadosamente reconhecereis que
não pertence
ao que forma o vosso «Eu», porque o «Eu» existia já antes que a emoção
aparecesse no
campo de ação e existirá ainda quando a emoção houver desaparecido. A
prova
principal é o fato de que a podeis pôr à parte de vós e examiná-la:
pois disto se segue
que ela não é o «Eu».
Percorrei toda a lista dos vossos sentimentos, emoções, hábitos, etc.,
como se
observásseis estas qualidades em algum dos vossos amigos ou conhecidos,
e achareis
que todas elas, e cada uma por si, pertencem ao que forma o «Não-Eu» e
que podereis
pô-las todas de parte ao menos para a experiência científica.
Depois, passando ao intelecto, podereis fazer exame em qualquer processo
e princípio
mental. Direis talvez que não o acreditais. Neste caso lê-la e estudai
alguma boa. obra
sobre psicologia e aprendereis a dissecar a analisar todo o processo
intelectual — e a
classificá-lo e pô-lo na estante a que pertence. Estudai psicologia,
servindo-vos de algum
bom manual e achareis que todos os processos intelectuais são
classificados e tratados
minuciosamente da mesma maneira como uma coleção de flores. Se isto não
vos
satisfaz, abri as folhas de alguma obra sobre lógica e vereis que podeis
pôr à parte,
separando-os de vós, esses processos intelectuais, podendo examiná-los e
falar deles a
outrem. Disto, pois, segue-se que estes maravilhosos instrumentos do
homem, os
poderes intelectuais pertencem à coleção do «Não-Eu»; pois o «Eu» pode
separar-se
deles, pô-los de lado e observá-los. O mais notável neste fato é que
reconheceis que o
«Eu» faz uso destas mesmas faculdades intelectuais, para passar por cima
delas. Qual é
o Senhor ou Mestre que obriga estas faculdades a fazerem isto ou aquilo?
É o Senhor da
Mente — o «Eu».
Ainda quando fordes atingido nas regiões superiores da mente — até mesmo
a mente
espiritual — havereis de admitir que aquilo que vos veio à consciência
daquela região,
pode ser observado e estudado, da mesma forma que qualquer outra coisa
mental e, por
isso, hão de incluir-se até estas coisas elevadas na coleção do
«Não-Eu». Podeis
objetar que isto não prova que tudo que faz parte da mente espiritual
pode ser assim
tratado — que podem haver ali coisas que pertencem ao «Eu». Nós não
discutiremos esta
questão porque vós não conheceis da mente espiritual senão aquilo que
ela vos revelou e
as regiões superiores dessa mente são como a mente de um Deus, quando
comparadas
com aquilo que vós chamais «mente». Mas a evidência dos iluminados —
daqueles
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homens em que a mente espiritual chegou a
um maravilhoso desenvolvimento, conta-nos
que, ainda nas mais altas formas de evolução, os iniciados, e até os
mesmos Mestres
reconhecem que, acima dos seus mais elevados estados mentais sempre há
aquele
eterno «Eu», que está acima deles, como o Sol acima do lago; e que até a
mais alta
concepção do «Eu» conhecida às almas desenvolvidas, não é senão um fraco
reflexo do
«Eu» que passa pela mente espiritual, embora esta mente espiritual seja
tão clara como o
mais claro dos cristais, quando comparada com os nossos estados mentais,
relativamente
opacos. E o mais alto estado mental é só um instrumento do «Eu», e não o
«Eu» mesmo.
Não obstante, porém, encontra-se este «Eu» até na mais insignificante
forma de
consciência e anima até a vida inconsciente. O «Eu» é sempre o mesmo,
mas o seu
aparente crescimento é o resultado do desenvolvimento mental do
indivíduo.
Conforme
descrevemos numa das lições do «Curso Adiantado», é como uma lâmpada
elétrica
coberta de muitas capas ou envoltórios de pano. Quando se retira um
envoltório após
outro, a luz parece difundir-se mais, é mais clara e forte e, não
obstante, não mudou
porque a mudança consiste no acto de se retirar os envoltórios que a
limitavam e
obscureciam. Não esperamos ser possível ensinar a realizardes o
conhecimento do «Eu»
em sua plenitude —o que é impossível à humanidade actual — mas queremos
ensinarvos o caminho para chegardes à realização da mais alta concepção
do «Eu», possível a
todos vós no presente grau de desenvolvimento, e o processo que vos leva
a retirardes
algumas das capas que envolvem o vosso «Eu», as quais já não vos servem
mais no
vosso estado actual. Estas capas, estes envoltórios estão prontos a
cair, e o que é
necessário para que caiam é o contacto de uma mão amiga que os retire de
vós.
Desejamos conduzir-vos ao mais claro conhecimento possível do «Eu», para
fazer de vós
um indivíduo — para que possais entender e ter coragem para
aproveitardes os
instrumentos e ferramentas que estão sob a vossa mão e fazerdes a vossa
obra.
E agora, voltemos ao treinamento mental. Quando tiverdes concluído a
vossa
coleção de tudo que podeis reconhecer como «Não-Eu» — como instrumento
para o
vosso uso — perguntareis:
E agora, que é que nos restou, que não possa
ser incluído na
coleção do «Não-Eu»? A esta pergunta responderemos: O «Eu mesmo». E se
pedis
uma prova, diremos: «Experimentai, se podeis separarvos do vosso «Eu»
e pô-lo à
parte, para observardes!» Podeis tentá-lo por séculos e séculos, e
nunca
podereis
separar-vos do vosso «Eu»; nunca podereis pôr o vosso «Eu» real de lado,
para o
observardes. Se pensais que podeis fazê-lo, refleti e achareis que só
pondes de lado
algumas das vossas qualidades ou faculdades mentais. E que é que o «Eu»
faz neste
processo? Está a observar-se simplesmente de lado e. observando estas
coisas.
Não podeis ver que o «Eu» não pode ser ao mesmo tempo o observador e a
coisa
observada — o examinador e a coisa examinada? Poderá o sol iluminar a si
mesmo com
a própria luz? Vós podeis observar o «Eu» de alguma outra pessoa, mas
quem está
observando é o vosso «Eu».
Porém, vós não podeis, como um «Eu»,
colocar-vos de lado
e ver-vos como um «Eu». E qual é a prova que temos de que há um «Eu» que
nos
pertence? E esta: que sempre sois consciente de ser observador e
examinador, e não a
coisa observada e examinada; e tendes a evidência da vossa consciência.
E qual é a
notícia que a consciência nos dá? Simplesmente e somente esta: «Eu sou».
Isto é tudo
de que o «Eu» é consciente em relação à sua natureza verdadeira: «Eu
sou»; mas esta
consciência vale todo o resto, porque o resto é só «não-Eu»,
instrumentos que podem ser
aproveitados e usados.
E assim, pela análise final, achareis que há algo que se opõe e não
admite que seja
posto de lado e examinado pelo «Eu». E que este algo é o «Eu» mesmo —
aquele «Eu»
eterno e imutável — aquela gota do grande oceano de espírito — aquela
centelha da
Chama Sagrada.
Da mesma maneira como achais que é impossível imaginar o «Eu» como
morto,
igualmente achareis que é impossível pôr o «Eu» de lado para o observar;
tudo que
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encontrareis é o testemunho: «Eu sou».
Se vós pudésseis pôr o «Eu» de lado para ser observado, quem haveria
para observá-
lo? Quem poderia ser, senão o «Eu» mesmo; e se ele está aqui, como
poderia estar alit O
«Eu» não pode ser o «não-Eu», nem nos mais atrevidos voos da imaginação.
A
imaginação, com toda a sua tão gabada liberdade e potência, confessa-se
vencida,
quando se trata deste ponto.
Ó estudantes, reconhecei o que sois. Acordai e reconhecei o facto de que
sois deuses
que dormem — que em vós tendes o poder do universo, que aguarda a vossa
palavra
para se manifestar em acção. Por longos séculos de pesados trabalhos
chegastes ao
ponto em que agora estais e longa ainda será a vossa peregrinação para o
primeiro
grande templo; mas agora mesmo já estais a entrar no estado consciente
da evolução
espiritual. Os vossos olhos não mais estarão fechados enquanto
caminhardes pela
vereda. Desde agora vereis mais claro e, a cads passo, aumentará esta
certeza, que é o
nascer da consciência.
Estais em contacto com toda a vida e a separação do vosso «Eu» em
relação ao
grande «Eu» universal é só aparente e temporária. Falar-vos-emos disto
na terceira lição;
porém, antes que possais entendê-lo, é necessário que tenhais
desenvolvido em vós
mesmos a consciência do «Eu». Não deixeis de lado este assunto como
coisa sem
importância. Não repudieis a nossa fraca explicação, qualificando-a de
«palavras, palavras
e só palavras», como muitos têm a inclinação de fazer. Nós vos apontamos
uma grande
verdade. Por que não devereis seguir o espírito que agora mesmo — neste
momento que
estais a ler se esforça por conduzir-vos ao Caminho da Realização?
Pensai sobre os
ensinamentos desta lição e praticai o treinamento mental até que a vossa
mente
compreenda a sua significação; e depois deixai que fique gravada na
vossa consciência
interna. Assim vos tornareis pronto para as lições que se seguirão.
Praticai este treinamento mental até que fiqueis plenamente convencido
da realidade
do «Eu» e da relatividade do «não-Eu» na mente. Quando tiverdes
compreendido esta
verdade, achareis que podeis servir-vos da mente com um poder e efeito
muito maiores,
porque reconhece-reis que ela é vosso instrumento, próprio e apto para
fazer o que
ordenais.
Sereis capaz de vencer os vossos hábitos e as vossas emoções,
quando for
necessário, e elevar-vos-eis da posição de escravo à de senhor.
As nossas palavras parecem ser insignificantes e pobres, quando
consideramos a
grandeza da verdade que por meio delas nos esforçamos por expor. Porque,
quem pode
achar palavras para expressar o inexprimível? Tudo o que nós podemos
fazer, é
despertar um vivo interesse e atenção por vossa parte, para que
pratiqueis o treinamento
mental e assim obtenhais a evidência da verdade na vossa própria
mentalidade. A
verdade não é verdade para vós, enquanto não a tenhais provado na vossa
própria
experiência; porém, uma vez assim provada, nada vo-la pode roubar e
ninguém a destrói.
Haveis de chegar ao pleno conhecimento do fato de o vosso «Eu» ter todo
e qualquer
esforço mental. Vós estais atrás dele. Vós ordenais à mente que trabalhe
e ela obedece
vosso vontade. Vós sois o senhor, o amo, e não o escravo da vossa mente.
Vós sois
quem manda e não o que é mandado.
Sacudi de vós a tirania da mente
que
vos oprimia
por tanto tempo. Sede firme e sereis livre. Nós ajudar-vos-emos neste
sentido durante o
curso destas lições, mas antes de tudo haveis de vos mostrar como senhor
da vossa
mente. Assinai a declaração mental da vossa independência em relação aos
vossos
hábitos, às vossas emoções e pensamentos não controlados, e afirmai o
vosso domínio
sobre eles. Entrai no vosso reino, vós que sois uma manifestação do
Espírito!
Esta lição tem por fim esclarecer na vossa consciência o facto de que
o
«Eu» é uma
realidade, separada e distinta dos seus instrumentos mentais; o controle
(ou o domínio)
das faculdades mentais, exercido pela vontade, fará parte de uma das
lições futuras; mas,
não obstante, julgamos que será bom apontar-vos agora as vantagens que
provêm da
realização do verdadeiro conhecimento do «Eu» e do aspecto relativo da
mente.
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Muitos de nós supúnhamos que as nossas
mentes eram senhoras de nós mesmos e
permitíamos que nos atormentassem e perturbassem com pensamentos que nos
levavam
consigo e que nos apresentavam em momentos inoportunos. O iniciado está
livre deste incômodo, porque aprende a afirmar o seu domínio sobre as diferentes
partes da mente,
controlando e regulando os seus processos mentais, da mesma forma que o
faria com um
delicado mecanismo. Ele é capaz de dominar as suas' faculdades e de
pensar
conscientemente; e pode dirigir o trabalho destas forças para produzir o
melhor possível,
aprendendo também como deve dar ordens à região mental subconsciente e
fazê-la
trabalhar, quando ele dorme ou aplica a sua mente consciente em alguma
outra matéria.
Trataremos destes assuntos, quando o tempo for próprio no curso destas
lições.
Aqui vos citaremos o que Eduardo Carpenter disse acerca ao poder que tem
o
indivíduo de dominar os seus pensamentos. No seu livro From Adam's Peak
to Elephanta
(«Do Pico de Adão à Elefanta») assim se exprime descrevendo a sua
experiência durante
a visita que fez a um Jñani Yogue hindu:
«E se não estamos dispostos a acreditar neste domínio interno sobre o
corpo, talvez
estejamos quase igualmente desacostumados à ideia de domínio sobre os
nossos próprios pensamentos e sentimentos. Geralmente julga-se que o homem precisa
servir de
presa a todo e qualquer pensamento que se lhe apodera da mente e que
isto é inevitável.
E lamentável que o homem não possa dormir toda a noite por pensar com
ansiedade no
êxito de um processo que o espera de manhã, mas parece ser extravagância
exigir que
ele determine pelo poder da sua própria vontade, se quer dormir ou não.
Sem dúvida é
detestável a imagem de uma iminente calamidade, mas esta odiosa imagem —
dizemos
— persegue a mente com toda a pertinácia e é inútil esforçar-se por a
dominar.
«Mas isto é uma posição absurda para o homem, o herdeiro de todos os
séculos; ser
enfeitiçado pelas criaturas fantásticas do seu próprio cérebro. Se um
seixo nos incomoda
na nossa bota, tiramo-lo para fora. Quando temos o necessário
conhecimento, podemos,
com igual facilidade, tirar da nossa mente uma ideia nociva que a
invade. Sobre isto não
deveria haver dúvida, nem duas opiniões. A coisa é evidente, clara e bem
compreensível.
Deveria ser-vos tão fácil expulsar da vossa mente um pensamento intruso
e
desagradável, como sacudir da vossa bota uma pedrinha; e enquanto o
homem não uder fazê-lo, é insensato falar dele como de um senhor sobre a Natureza
é todos os
demais. Ele é um mero escravo e presa dos fantasmas alados que lhe voam
pelos
corredores do cérebro.
«As faces tristes e cheias de cuidados, das quais encontramos milhares
até no meio
das classes ricas e civilizadas, provam-nos muito claramente como é raro
obter-se o
referido domínio sobre a mente. Com efeito, como é raro encontrar-se um
homem! E
como é comum ver-se uma criatura perseguida por pensamentos tirânicos de
cuidados ou
desejos, que se curva sob o seu domínio — ou talvez se orgulhe de correr
alegremente
em obediência àquele que segura as rédeas, julgandose e considerando que
está livre;
uma criatura com quem não é possível conversar confidencialmerte, por
causa dessa
presença de um estranho na sua mente que não cessa de espiar.
«E uma das mais importantes doutrinas de Raja Yoga a afirmação de que é
necessário adquirir-se o poder de dominar pensamentos ou matá-los
instantaneamente,
quando for necessário. Esta arte exige, naturalmente, certa prática;
mas, como outras
artes, não apresenta mistérios ou dificuldades, quando a pessoa chegou a
manejá-la. E
merece ser praticada. Podemos até proclamar solenemente que a nossa vida
começa a
ser verdadeira vida somente quando temos adquirido esta arte. Na
realidade, quando, em
vez de sermos dominados por pensamentos individuais nos tornamos
senhores deles, na
sua imensa multidão, variedade e capacidade, e os podemos dirigir,
despachar e
empregar à vontade (porque Ele faz os ventos Sens mensageiros e o fogo
flamejante Seu
ministro), a vida vem a ser Uma coisa tão vasta e grande que,
comparandoa com o que
foi anteriormente, achamos que o estado anterior aparece como antenatal,
como
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existência de uma criança antes do
nascimento.
«Se podeis matar um pensamento, podeis também fazer dele tudo que vos
apraz. Por
isso, é tão importante este poder, que se não limita somente a libertar
o homem do seu
tormento mental (que constitui nove décimos de todos os sofrimentos da
vida), mas ainda
lhe dá a possibilidade de executar trabalho mental com uma concentração
e força que
antes lhe foram desconhecidas. Estas duas coisas são correlativas uma
com a outra.
Como já dissemos, este é um dos princípios de Raja Yoga.
«Enquanto estais a trabalhar, o vosso pensamento deve estar
absolutamente
concentrado no vosso trabalho, não deve distrair-se por nada que não
pertença ao vosso
assunto — seguindo o exemplo de um grande engenho, com gigantesco poder
e perfeita
economia, em que não há fricção nem deslocamento de peças pelo facto de
diferentes
forças trabalharem ao mesmo tempo. Depois, quando a obra está feita e a
máquina não
tem mais que fazer, há-de parar igualmente, parar inteira e
absolutamente — sem se
quebrar (como se uma porção de rapazes brincasse com uma locomotiva
quando esta
entrou no pátio) — e o homem deve retirar-se àquela região da sua
consciência, onde
mora o seu verdadeiro «Eu».
«Digo que
Ela
vem a ser assim
que o mestre operário põe de lado depois de se
ter servido
dele, mas que somente um trapaceiro carrega consigo a toda a hora para
mostrar que o
possui».
Pedimos aos estudantes que leiam com atenção a citação do livro de
Carpenter,
acima dada, porque está cheia de sugestões que podem ser utilizadas
pelos que se estão
a emancipar da sua escravidão em relação à mente não dominada, e estão
agora
começando a exercer domínio (ou controlo) do «Eu» sobre a mente por meio
da vontade.
A nossa próxima lição tratará da afinidade ou conexão do «Eu» com o «Eu»
Universal,
e terá o titulo: «A Expansão do «Eu». Tratará este assunto não do ponto
de vista teórico,
mas da posição do instrutor que se esforça por despertar os seus
estudantes
praticamente para se tornarem conscientes da verdade da proposição.
Neste curso não
queremos fazer dos nossos estudantes conhecedores de teoria, mas
desejamos colocá-los numa posição em que eles mesmos se tornarão sabedores e
experimentarão as
coisas que lhes ensinamos.
Por isso vos repetimos que não basta ler esta lição, mas deveis
estudá-la e meditar
sobre os ensinamentos mencionados sob o titulo de «Treinamento Mental»,
até que as
distinções se tornem claras na vossa mente e até que não só acrediteis
que são
verdadeiras, mas chegueis a ser consciente do «Eu» e dos instrumentos
mentais. Sede
paciente e perseverante. A tarefa é difícil, mas o prémio é grande.
Tornar-vos consciente
da grandeza e majestade, da força e do poder do vosso ser real, vale
anos de duros
estudos. Não pensais assim? Estudai, pois, e praticai seriamente, com fé
e aplicação.
A Paz seja convosco.
Mantrams (afirmações)
«Eu» sou uma entidade—
a minha mente é meu instrumento de expressão.
«Eu» existo independente, da minha mente e não dependo dela na minha
existência
ou no meu ser.
«Eu» sou senhor da minha mente e não seu escravo.
«Eu» posso pôr de lado minhas sensações, emoções, paixões; meus desejos,
minhas
faculdades intelectuais e todo o resto da minha coleção mental de
instrumentos, como
coisas pertencentes ao «Não-Eu» — e ainda
permanece alguma coisa: — é
a minha verdadeira personalidade, a minha
única consciência, o meu ser real — «Eu». Aquilo que resta depois de ser
posto de lado, tudo que se pode pôr de lado, é o «Eu» — sou
Eu mesmo — eterno, constante, imutável.
Em branco.
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INDICE
III LIÇÃO - A EXPANSÃO DO «EU»
Nas primeiras duas lições deste curso
esforçamo-nos por Ievar o Aspirante à realização do
«Eu»,
e a torná-lo capaz de distinguir entre personalidade e o
«Eu» mesmo
e suas envolturas físicas e mentais. Nesta lição chamaremos a sua
atenção à
esforçar-nos-emos por dar-lhe uma ideia de
que tantas
vezes
tomamos erradamente pelo nosso «Eu» real.
e todos os nossos
ensinamentos
aqui terão por fim a realização do conhecimento consciente desta grande
verdade.
Queremos, porém,
gravar na mente do Aspirante que não o ensinamos a
pensar que ele
é o Absoluto.
Não ensinamos a fórmula: «Eu sou Deus» e julgamos que ela
é errônea e
conduz a mau caminho, sendo uma perversão do verdadeiro ensino original
dos yogues.
Muitos instrutores e estudantes hindus se deixaram seduzir por esta
falsa doutrina que, ao
lado da
concepção de «Maya» ou a completa ilusão ou não-existência do
universo,
reduziu milhões de pessoas a uma condição mental passiva, negativa,
retardando assim,
incontestavelmente, o seu progresso.
Isto não é verdade somente em relação à índia; também entre os
instrutores
ocidentais se podem observar os mesmos fatos, onde eles abraçaram esta
parte
negativa da filosofia oriental.
As pessoas de que falamos confundem os
«absolutos» e
«relativos» aspectos do Uno e, não podendo reconciliar os fatos da vida
e do universo
com as suas teorias, baseadas em «Eu sou Deus», são compelidas ao
expediente
desesperador de negar ousadamente a existência do universo e declarar
que ele é apenas uma «ilusão» ou «Maya».
Não vos será difícil distinguir os discípulos dos instrutores que
ensinam esta teoria.
Eles exibem a mais negativa condição mental, que é um resultado natural
produzido pela
constante absorção da sugestão do seu evangelho de negação: «Todo o
Universo é um
nada». Pode-se porém notar que, em contraste à condição mental dos
discípulos, os
instrutores são geralmente exemplos de força mental positiva, vital,
capaz de insuflar a
sua doutrina nas mentes dos discípulos, transmitindo a pela força de
vontade despertada.
O instrutor, em regra, tem adquirido um sentido de consciência do «Eu» e
desenvolve-o
por meio dessa mesma fórmula: «Eu sou Deus», porque, por meio desta
atitude mental, é
capaz de expulsar a influência das envolturas dos princípios mentais
inferiores, e a luz do
«Eu» irradia brusca e fortemente, às vezes com tanta veemência que
ofusca e queima a
mentalidade do discípulo menos adiantado. Apesar, porém, deste valor da
consciência do
«Eu», o instrutor é embaraçado pelas falsas concepções intelectuais. E a
sua nebulosa
metafísica é incapaz de transmitir aos seus discípulos a consciência do
«Eu» e, em vez
de levá-los a compartilhar o esplendor que ele irradia, na realidade
atira-os a uma
sombra, pela razão da sua doutrina.
Os nossos estudantes compreenderão, de certo, que escrevemos estas
linhas sem
querer fazer crítica, zombar ou apontar erros dos outros. Não temos tal
intenção, nem
podemos tê-la, se queremos permanecer fiéis à nossa concepção de
verdade.
Mencionamos isso somente para que o estudante possa evitar esta
armadilha de «Eu sou
Deus», que o Aspirante encontra logo que firmou os seus passos no
caminho. Este
assunto não seria tão sério se se tratasse simplesmente de uma questão
de erro
metafísico, porque mais tarde poder-se-ia corrigi-lo. É, porém, muito
mais sério, porque
este ensino conduz inevitavelmente ao ensino de que tudo é ilusão ou
maya, e que a vida
é um sonho, uma coisa falsa, uma mentira, um pesadelo; que a jornada no
caminho é
mera ilusão;
que tudo é «nada», que não há alma,
que vós sois Deus em máscara, e que
Ele se engana a Si mesmo, fazendo crer que Ele é vós; que a vida é só
uma, divina
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mascarada ou arte prestidigitatória; que
vós sois Deus, mas que vós (Deus) vos enganais
a vós mesmos para vos divertirdes. E tudo isto não é horrível? Pois isto
vos mostra onde
pode chegar a mente humana, se se deixa seduzir por alguma teoria
favorita de
metafísica, que a hipnotiza. Pensais que exageramos? Lede, pois, alguns
dos
ensinamentos dessas escolas da filosofia oriental ou ouvi algum dos mais
radicais
instrutores ocidentais que pregam essa filosofia. A maioria destes falta
a coragem dos
instrutores hindus que Levam as suas teorias a uma lógica conclusão e,
conseqüentemente, velam as suas doutrinas com subtilidade metafísica.
Alguns dentre
eles, porém, são mais corajosos e pregam-nas às claras e sem restrição.
Alguns dos modernos instrutores ocidentais desta filosofia explicam o
assunto dizendo
que «Deus se mascara nas diferentes formas de vida, inclusive o homem, a
fim de obter a
experiência que disso resulta, porque, apesar de ter Ele infinito e
absoluto conhecimento
e sabedoria, falta-lhe a experiência que se obtém somente vivendo a vida
das formas
inferiores e que, por isso, Ele desce para obter a necessária
experiência». Podeis
imaginar o Absoluto, sentindo a necessidade dessa mesquinha
«experiência» e vivendo a
vida das formas inferiores (inclusive o homem), para «obter
experiência»? A que
princípios nos conduzem estas vãs teorias?
Um outro célebre instrutor
ocidental, que
absorveu os ensinamentos de certos ramos da filosofia oriental e que tem
a coragem das
suas convicções, declara-vos ousadamente que «vós mesmos sois a
totalidade do ser e,
com a vossa mente, só criais, preservais e destruís o universo, que é
vosso próprio produto mental». E o mesmo instrutor afirma: «O universo
inteiro é apenas uma pequena,
insignificante ilustração do vosso próprio poder criativo, que vós
mesmos agora exibis
para a vossa própria inspeção». A todas estas doutrinas deve aplicar-se
a regra: «Por
seus frutos os conhecereis». A filosofia que ensina que o Universo é uma
ilusão
perpetrada por vós (Deus) para divertir,
entreter ou enganar a vós mesmo (Deus), pode ter somente um resultado, a
saber: a
conclusão de que «tudo é nada» e tudo o que precisais fazer é
sentar-vos, cruzar as
mãos e alegrar-vos com a divina exibição do prestígio que estais a fazer
para vosso
entretenimento; depois, quando o espetáculo se acabar, voltar ao vosso
estado de
divindade consciente e recordar-vos com um sorriso da interessante
«exibição» ou «prova
mágica» que criaste para vos enganar durante alguns bilhões de séculos.
A isto conduz a
referida teoria, e o resultado é que os que aceitam esta filosofia que
lhes é implantada por
instrutores que possuem a força da sugestão, conhecendo no seu interior
que não são
Deus, mas absorvendo as sugestões de que «tudo é nada», caem num estado
de mental
apatia e negatividade, porque a sua alma se imerge no estupor de que se
não pode elevar
por um longo período de tempo.
Desejamos que fique claro que o nosso ensino não deve ser confundido com
os que
acabamos de mencionar. Queremos ensinar-vos que sois um ser real — não
Deus
mesmo, que é o Absoluto — mas uma das Suas manifestações. Vós sois um
filho do
Absoluto, se preferis o termo, possuidor da herança divina, e a vossa
missão é
desenvolver qualidades de que o vosso Pai vos dota. Evitai o grande erro
de confundir o
relativo com o Absoluto, esta armadilha em que muitos caíram. Não vos
metais no
«lodaçal do desespero»; não vos atoleis no pantanal do «niilismo
filosófico»; não cometais
a loucura de não reconhecer a realidade a não ser na pessoa de algum
imponente
instrutor que toma o lugar do Absoluto na vossa mente. Levantai, porém,
a cabeça e
proclamai o vosso parentesco divino e a vossa herança que vos é dada
pelo Absoluto,
dando firmes e ousados passos no caminho, afirmando o «Eu».
(O Aspirante deverá tornar a ler «14 Lições de Filosofia Yogue», para
lhe ficar clara a
distinção entre o Absoluto e o relativo, que foi exposta nas três
últimas lições daquele
curso. Não queremos repetir aqui as referidas explicações para não
perdermos espaço
necessário para esta lição).
O «Eu» não é Deus, mas é infinitamente maior do que temos imaginado
antes do
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aparecimento da luz em nós. O «Eu»
estende-se muito além daquilo que pensamos que
eram os seus limites. Ele toca o Universo em todos os seus pontos e está
em união mais
estreita com toda a vida. Ele está em estreitíssimo contacto com tudo o
que emanou do
Absoluto — com todo o mundo de realidade. Encarando o universo relativo,
o «Eu» tem
as suas raízes no Absoluto e dele tira o seu alimento, como a criança
que está no ventre
materno recebe da mãe a alimentação. O «Eu» é, em verdade, uma
manifestação de
Deus e nele está a verdadeira essência divina. Esta afirmação, de certo,
é tão «alta»
como aquela: «Eu sou Deus», ensinada pelos supra-mencionados instrutores
— mas
como é diferente! Entremos em considerações minuciosas deste
ensinamento, para o que
nos servirá esta lição e partes das que seguem.
Comecemos com um atento
exame dos instrumentos do Ego e do material com
o qual
e por meio do qual o Ego age.
Sabemos que o corpo físico do homem é
idêntico, na
substância, a todas as outras formas de matéria; que os seus átomos
continuamente
mudam e são substituídos; que o material é tirado do grande armazém de
matéria; e que,
sob todas as aparentes diferenças de forma e substância, há uma unidade
de matéria. E
saibamos que a energia vital ou prana de que o homem se utiliza no seu
processo vital,
não é senão uma porção daquela grande energia universal que penetra tudo
e em toda
parte, e que a porção desta energia que empregamos em qualquer momento
particular é
tirada do depósito universal e de nós retorna ao grande oceano de força
ou energia.
E saibamos que até
a mente, que está tão estreitamente unida ao Eu
real que muitas
vezes é tomada por Ele.
— Que até aquela coisa admirável a que chamamos
pensamento, não é mais do que uma porção da Mente Universal, a mais alta
emanação
do Absoluto abaixo do plano do espírito e que
a substância mental ou Chitta que
empregamos neste momento, não é uma parte nossa se-parada e distinta,
mas
simplesmente uma porção do grande depósito universal, que é constante e
imutável.
Saibamos também que até aquilo que sentimos que pulsa em nós — aquilo
que está tão
intimamente ligado ao espírito que é quase inseparável dele —
aquilo a
que chamamos
vida — não é senão uma partezinha do Grande Princípio Vital que enche o
Universo
e
que não admite nem subtracção. Quando tivermos compreendido
conscientemente tudo
isso e começarmos a sentir a nossa conexão (nestas particularidades) com
a Una Grande
Emanação do Absoluto, então chegaremos a formar a ideia da unidade de
espírito, da
relação do «Eu» a todo o outro «Eu» e da imersão do nosso «Eu» no grande
«Eu»
universal, imersão esta que não é a extinção da individualidade, como
alguns supõem,
mas sim o alargamento e a extensão da consciência individual que aumenta
até abraçar o
Todo.
Nas lições X e XI do «Curso Adiantado» chamamos a vossa atenção para os
ensinamentos yóguicos sobre a matéria ou Akasa, e mostramos que todas as
formas
daquilo a que chamamos matéria não são senão diferentes formas de
manifestação do
princípio chamado Akasa ou, como os cientistas ocidentais dizem, «éter».
Este éter ou
Akasa é a mais fina, a mais ténue, a mais subtil forma de matéria; com
efeito, ele é a
matéria na sua forma final ou fundamental, e as diferentes formas do que
é denominado
matéria, são só manifestações deste Akasa ou éter, resultando a aparente
diferença dos
diferentes modos de vibração, etc. Mencionamos apenas este facto aqui
para apresentar
claramente à vossa mente
o facto da universalidade da matéria, para que
compreendais
conscientemente que toda a partícula do vosso corpo físico é só Uma
porção deste
grande princípio do universo, que vos vem do grande depósito universal e
que a ele
retorna, pois os átomos do corpo estão em constante mudança. Aquilo que
hoje vos
aparece como vossa carne, foi talvez, poucos dias antes, parte de uma
planta e, daqui a
alguns dias, poderá ser parte de outro ser vivo. Há uma incessante
mudança e o que é
hoje vosso, pertenceu ontem a outrem, e amanhã pertencerá a um outro
ainda.
Não
possuís pessoalmente nenhum átomo de matéria; ela é toda uma parte do
armazém
comum; é uma corrente que vos penetra a vós e toda a vida, sempre e
sempre.
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E assim acontece também com a energia
vital que Empregais a todo o momento da
vossa vida. Constantemente tirais Prana do grande depósito universal,
servindo-vos do
que vos é dado e deixando, em seguida, a força passar para assumir outra
forma. Ela é
propriedade de todos e todos vós a podeis usar quando precisais,
deixando-a sair depois.
Não há senão uma força ou energia, e esta encontra-se por toda a parte e
a todo o
tempo.
E até aquele grande princípio (que denominamos substância mental) está
submetido à
mesma lei. É-nos difícil compreendê-lo. Estamos de tal maneira
acostumados a pensar
das nossas operações mentais como exclusivamente nossas — alguma coisa
que nos
pertence pessoalmente — que achamos dificuldade em compreender que esta
substância
mental é um princípio universal do mesmo modo que a matéria e a energia,
e que nas
nossas operações mentais apenas nos servimos do depósito universal.
Além disto, a porção particular de substância mental, de que nos
servimos, ainda que
esteja separada da substância mental usada por outros indivíduos por uma
fina parede da
mais subtil qualidade de matéria, está na realidade em contacto com as
outras mentes,
aparentemente separadas; e com a mente universal, de que forma uma
parte.
Como igualmente a matéria de que estão compostos os nossos corpos
físicos, está
em contacto com toda a matéria, e como a força vital que empregamos
está, na realidade,
em contacto com toda a energia, assim a nossa substância mental está
verdadeiramente
em contacto com toda a substância mental.
O Ego, no seu progresso,
move-se, podemos
dizer, em grandes oceanos de matéria, energia e substância mental,
fazendo uso de tudo
aquilo que lhe é necessário e o rodeia, e deixando tudo atrás de si
mesmo, como se se
movesse no grande volume do oceano.
Esta comparação é grosseira; pode, porém, servir para elevar a vossa
consciência ao
claro conhecimento de que o Ego é a única coisa que realmente é vossa,
imutável e
inalterável, e que tudo o mais é meramente aquela porção do depósito
universal que tirais
para a necessidade do momento. A mesma comparação pode também per com
mais
clareza diante da vossa mente a grande Unidade das coisas — pode-vos
tornar capazes
de ver as coisas como um todo; e não como partes separadas. Lembrai-vos
de que vós o
vosso «Eu» — sois a única coisa real no vosso circuito, tudo que é
permanente — e que a
matéria, a força e até a substância mental são apenas vossos
instrumentos para sua
expressão. Elas são grandes oceanos que rodeiam o «r», o qual se move no
meio das
suas águas.
Também será bom gravardes na vossa mente a universalidade da vida. Tudo,
no
universo, vive vibrando e pulsando com vida, energia e movimento.
No universo nada há que seja morto. Por toda a parte há vida e ela é
acompanhada
sempre por inteligência. Não existe universo sem vida e sem
inteligência. Não somos
átomos de vida nadando num mar de morte, mas somos átomos de vida
rodeados de um
oceano de vida, que tem pulsações e movimento, que pensa e vive. Cada
átomo daquilo
que denominamos matéria, é vivo; tem consigo energia ou força, e é
sempre
acompanhado de inteligência e vida. Olhai em tomo de vós, por onde
quiserdes: o mundo
vegetal e mesmo o mundo mineral — por toda a parte vereis vida, vicia,
vida — tudo vivo
e com inteligência. Quando podemos imprimir esta concepção no domínio da
consciência
actual — quando não só podemos aceitar este facto intelectualmente, mas
podemos
ainda ir mais longe, e sentimos e somos conscientes desta vida universal
por todos os
lados, então estamos verdadeiramente no caminho da realização da
consciência cósmica.
Tudo isto, porém, não é mais do que passos que conduzem ao pleno
conhecimento da
unidade em espírito, pela parte do indivíduo. Gradualmente lhe vem a
clareza do
conhecimento na manifestação do espírito proveniente do Absoluto — uma
unidade
consigo mesmo e uma união com o Absoluto. Toda esta manifestação do
espírito pela
parte do Absoluto — toda esta geração de filhos divinos —deve
conceber-se como um
único acto e não como uma série de actos separados, se é possível
falarmos da manifestação
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como de um acto. Cada Ego é um
centro de consciência neste grande oceano
de espírito; cada Ego é um ser real, aparentemente separado dos outros e
da sua fonte,
mas a separação é só aparente, em ambos os casos, porque existe uma
estreitíssima
união entre os egos do Universo dos Universos — cada Ego está
intimamente unido ao
outro e cada um está ligado ainda ao Absoluto por meio de filamentos
espirituais, se
podemos empregar tal termo. Com o tempo tomar-nos-emos mais conscientes
desta
mútua relação, à medida que as envolturas forem retiradas e postas de
lado, e por fim
seremos atraídos ao Absoluto: regressaremos à mansão do Pai.
É da maior importância para a alma que evoluciona chegar ao pleno
conhecimento
desta relação e unidade, porque uma vez que esta concepção esteja
firmemente
estabelecida, a alma é capaz de se elevar acima de certos planos
inferiores, e está livre
para operação de certas leis que limitam o poder da alma ainda não
desenvolvida. E por
isso que os instrutores yogues encaminham e guiam o Aspirante
constantemente para
este alvo, ora por uma senda, ora por outra donde lhe possam vir vários
vislumbres do
ponto desejado, até que o estudante encontra, enfim, um caminho que é o
mais
apropriado aos seus pés e progride em linha reta ao marco, pondo de
lado os laços que
o limitavam e que reconhece como incômodos e onerosos, dando gritos de
alegria,
quando percebe que recuperou a liberdade.
Os seguintes exercícios de treinamento mental têm por fim ajudar o
Aspirante na sua
obra de progresso, que o deve conduzir ao pleno conhecimento da sua
relação com o
Todo de vida e de ser.
Exercícios de treinamento mental
1.
Tornai a ler o que dissemos no «Curso
Adiantado», acerca do princípio conhecido
como matéria. Reconhecei que toda a matéria é una — que a substância
real que forma a
base da matéria é Akasa ou éter, e que todas as variadas formas
evidentes aos nossos
sentidos são apenas modificações e formas mais grosseiras daquele
princípio básico.
Reconhecei que, por processos químicos e conhecidos, todas as formas de
matéria
nossas conhecidas, ou antes, todas as combinações, cujo resultado são as
«formas»,
podem ser resolvidas em seus elementos originais, e que estes elementos
não são mais
do que Akasa em diferentes estados de vibração. Deixai cair a ideia da
unidade do
universo visível no fundo da vossa mente, para ali se fixar bem. É
necessário substituir a
concepção errônea de diversidade no mundo material pela consciência de
Unidade —
tudo é uma coisa só, no fim da análise, apesar da aparência de variedade
e formas
múltiplas.
preciso que chegueis a ver além do mundo das formas da matéria e avistar
o grande
princípio de matéria (Akasa ou éter) atrás, dentro e por baixo de tudo
isso. É preciso que
chegueis a sentir isto e a vê-lo intelectualmente.
Meditai sobre as verdades ultimamente mencionadas é depois ide ainda
mais longe no
assunto. Lede o que temos dito no «Curso Adiantado» ( lição XI) sobre a
análise final da
matéria, como ela se entremeia com a força ou energia, até que se perde
a linha divisória
e a matéria imerge na energia ou força, pelo que se vê que ambas são uma
coisa só,
sendo a matéria uma forma decerto mais grosseira de energia ou força.
Esta ideia deve
ser gravada no entendimento, para que o edifício do conhecimento da
Unidade seja
completo em todas as suas partes.
Em seguida, lede no «Curso Adiantado» sobre a energia ou força, como as
suas
variadas manifestações constituem uma unidade. Considerai como uma forma
de energia
pode ser transformada em outra e esta ainda em outra, e assim por
diante, formando
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estas transformações um circulo, como um
princípio produz toda a cadeia de aparências.
Reconhecei que a energia que está em vós e pela qual vos moveis e agis é
apenas uma
das formas desse grande princípio de energia que enche todo o universo,
e que podeis
haurir do grande depósito universal a energia de que careceis. Porém,
esforçai-vos
sobretudo por compreender a ideia da unidade que penetra o mundo de
energia, força ou
movimento. Vede-a na sua totalidade, em vez de a ver na sua aparente
separatividade.
Estes passos podem parecer-vos um tanto tediosos e inúteis, mas
acreditai na nossa
palavra, que são todos utilíssimos e vos auxiliarão para fazerdes na
vossa mente a devida
ideia da Unidade de Tudo.
Cada passo é importante e ajuda-vos a fazer o seguinte, subindo assim
cada vez mais
alto. Neste exercício será bom pintardes mentalmente o Universo em
movimento perpétuo
— tudo está em movimento — toda a matéria se move e muda as formas,
manifestando a
energia que está nela. Sóis e mundos voam pelo espaço e as suas
partículas mudam e se
movem constantemente. Incessante e constante é o processo químico de
decomposição;
por toda a parte se vê a obra de construção e destruição. A cada momento
se formam
novas combinações de átomos e mundos, e a cada momento se dissolvem
outras.
Depois
de terdes considerado esta unidade do princípio de energia refleti que,
no meio de todas
essas mudanças de forma, o Ego, o «Eu» real — VÓS, o Ser verdadeiro —
permanece
imutável e incólume, eterno, invencível, indestrutível, invulnerável,
real e constante; ao
passo que o mundo de formas e força está em perpétua transformação. Vós
— que sois o
«Eu» real — estais acima de todas essas mudanças, e tudo gira em torno
de vós — em
redor do espírito.
Lede o que dissemos no «Curso Adiantado» sobre a passagem da força ou
energia
para a substância mental, que é a sua progenitora. Reconhecei que a
mente está atrás de
toda esta grande exibição de energia e força que levastes em
consideração. Depois
estareis preparados para considerar a unidade da mente.
Lede o que dissemos no «Curso Adiantado» acerca da substância mental.
Reconhecei
que há um grande mundo de substância mental ou uma mente universal que
está à
disposição do Ego. Todo o pensamento e produto do uso que o Ego faz
desta substância
mental, que é seu material e instrumento. Reconhecei que este oceano da
mente é inteiro
e forma um todo, podendo o Ego haurir dele livremente; que
Vós tendes
este grande
oceano de mente às vossas ordens, quando evolucionardes bastante para
fazer uso dele.
Reconhecei que a mente está atrás e debaixo de tudo no mundo de formas,
nomes e
ação, e isto neste sentido: «Tudo é Mente», embora ainda mais alto do
que a Mente, na
escala evolutiva, estais Vós, o «Eu» Real, o Ego, a manifestação do
Absoluto.
Reconhecei a vossa identidade e o vosso parentesco com toda a vida.
Olhai em redor
de vós a vida em suas formas, das mais baixas às mais altas; todas são
exibições do
grande princípio de vida em operação nos diferentes graus do caminho.
Não desprezeis
as formas mais humildes, mas olhai atrás da forma e vêde a realidade — a
vida. Senti-vos
como uma parte da grande vida universal. Deixai o vosso pensamento
baixar ao fundo do
oceano. e reconhecei o vosso parentesco com a vida que anima as formas
que ali
residem. Não confundais as formas (muitas vezes disformes do vosso ponto
de vista
pessoal) com o principio atrás delas. Olhai a vida das plantas e dos
animais, esforçai-vos
por ver atrás do véu de forma a descobrir a vida real atrás e debaixo da
forma. Aprendei a
sentir como a vossa vida pulsa em harmonia com o principio vital nessas
outras formas e
nas formas dos seres da nossa própria raça. Elevai a vista ao firmamento
estrelado e
vêde ali os numerosos sóis e mundos todos povoados com vida em algumas
das miríades
de suas formas, e senti que tendes relações de parentesco com todas
elas. Se podeis
compreender este pensamento e esta consciência, sentir-vos-eis unido com
aqueles
mundos em perpétuo giro, e em vez de vos achardes pequeno e
insignificante em
comparação com eles, tornar-vos-eis conscientes de uma expansão do «Eu»,
até que
sintais que também naqueles mundos gigantes está uma parte de vós mesmo
— que Vós
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estais também ali, enquanto que os vossos
pés estão na terra — que sois parente de
todas as partes do universo — sim, que elas são igualmente vossa pátria
e moradia,
como o torrão sobre o qual caminhais. Sentireis que vos penetrará a luz
da consciência
de que todo o universo é vossa pátria, e não somente uma parte dele,
como tínheis
pensado. Experimentareis um sentimento de grandeza, alargamento e
extensão que
nunca sonhastes. Começareis a reconhecer ao menos uma parte da vossa
herança divina
e a conhecer que sois um filho do Infinito e que a verdadeira essência
do vosso divino Pai
está nas fibras do vosso ser. Em tais momentos de claro conhecimento vos
tornais
consciente do que aguarda a alma no seu caminho de ascensão, e como
pequeno é o
valor que a terra vos oferece, em comparação com aquilo que está diante
da alma e que
se vê com os olhos da mente espiritual nos momentos de clara visão.
Não deveis disputar com estas visões da grandeza da alma, mas deveis
tratá-las
hospitaleiramente, pois elas são verdadeiramente vossas e vêm a vós das
regiões da
vossa mente espiritual que estão a desenvolver-se para atingir a
consciência.
7.
O mais alto passo nesta aurora da consciência da União do Todo é aquele
em que se chega ao claro conhecimento de que há Uma só realidade e se
fica consciente de que o «Eu» está nesta realidade. É dificílimo
expressar este pensamento com palavras, porque é uma coisa que se deve
antes sentir do que ver com o intelecto. A alma tem dado um grande
passo, quando reconhece que o espírito que está dentro dela é,
finalmente, a sua única parte real e que o Absoluto e a sua manifestação
como Espírito são a única coisa real no Universo. Há, porém, ainda um
outro passo mais alto para se fazer antes que adquiramos o pleno sentido
da unidade e realidade. Este passo é dado quando reconhecemos a
identidade do «Eu» como o grande «Eu» do universo. O mistério da
manifestação do Absoluto na forma do espírito nos é velado — a mente
confessa que é incapaz de penetrar o véu que oculta o Absoluto à nossa
vista, embora nos declare que está consciente da presença do Absoluto
exatamente nos pontos da linha divisória. Mas a mais alta região da
mente espiritual, quando é explorada pelas almas adiantadas, afirma-nos
que vê atrás da aparente separação entre o espírito e espírito,
reconhecendo que há uma só realidade de espírito e que todos os «Eu»
são, na realidade, apenas diferentes vistas deste Uno — Centro de
Consciência na superfície do Único Grande «Eu», cujo Centro é o próprio
Absoluto. Este penetra com certeza toda a região do espírito, da mesma
maneira que o intelecto nos satisfaz com a sua mensagem da unidade de
matéria, energia e mente. A ideia de unidade penetra todos os planos de vida.
O sentido de realidade do «Eu» que vos aparece nos momentos da vossa
mais clara
visão mental é, em realidade, o reflexo do sentido de realidade que faz
a base do Todo —
é a consciência do Todo que se manifesta através do vosso ponto ou
Centro de
Consciência. Os estudantes adiantados ou iniciados acham que a sua
consciência se vai
alargando gradualmente, até que reconhecem a sua identidade com o Todo.
Eles sabem
que, sob todas as formas e todos os nomes do mundo visível, se descobre
Uma Vida —
Uma Força — Uma Substância — Uma Existência — Uma Realidade — o UNO. E,
longe
de experimentarem uma sensação de perda de identidade ou
individualidade, tornam-se
conscientes de um alargamento, de uma expansão da individualidade ou
identidade; em
vez de se sentirem absorvidos no Todo, sentem que se estão estendendo e
abraçando o
Todo.
É muito difícil expressá-lo com palavras, porque não há as que possam
exprimir a
concepção e o único que podemos esperar que façamos é pôr em movimento,
por meio
das nossas palavras, as vibrações que encontrarão uma resposta nas
mentes dos que
lêem estas palavras, a fim de que eles obtenham a consciência que os
esclarecerá por si
mesmos. Esta consciência não pode ser transmitida por palavras que vêm
do intelecto,
mas podem ser produzidas por vibrações que prepararão a mente para
receber a
mensagem dos seus próprios planos superiores.
Já nos primeiros graus desta consciência nascente, o homem é capaz de
identificar a
31 / 118
parte real de si mesmo com a parte real
de todas as outras formas de vida que encontra.
Em cada outro homem — em cada animal, em cada planta, em cada mineral —
ele vê
através da envoltura e formas aparentes uma evidência da presença do
espírito que está
ligado ao laço de parentesco com o seu próprio espírito — de maneira que
até há mais
que parentesco, pois os dois são Um só. O homem vê-se a si mesmo em
todas as formas
de vida, em todos os tempos e todos os lugares. Ele sabe e sente que o
Eu real está
presente em toda a parte e que é eterno, pois a vida que está nele está
também em todo
o universo: em tudo, porque nada no universo é morto, e a vida, em todas
as suas
variadas fases, é só a mesma Vida Una que é possuída, usada e desfrutada
em
comunhão por todos. Cada Ego é um centro de consciência neste grande
oceano de vida,
e apesar de realmente em contacto separado e distinto, está realmente em
contacto com
o Todo e com cada parte aparente.
Não é nossa intenção, nesta lição, irmos aos detalhes deste grande
mistério da vida,
ou recitarmos aqueles fragmentos de verdade que os mais adiantados
instrutores e
Mestres nos deixaram. Aqui não é o lugar próprio para isso — porque isso
pertence mais
à Jnana Yoga — e aqui o mencionamos não para tentar explicar-vos o lado
científico
deste assunto, mas para que as vossas mentes possam conceber a ideia e
manifestação
gradualmente, em consciente conhecimento. Há uma grande diferença entre
o ensino
científico e intelectual de Jnana Yoga, onde os lados metafísico e
científico das doutrinas
de Yoga se apresentam às mentes dos estudantes de uma maneira lógica,
científica; e os
métodos da Raja Yoga, em que o Aspirante é conduzido gradualmente à
consciência da
sua natureza real e dos seus poderes (fora de mera crença intelectual).
Aqui, estamos
seguindo estes últimos métodos, porque este é um curso de Raja Yoga. O
nosso
propósito é apresentar a matéria à mente de tal maneira que esta possa
preparar o
caminho para a consciência nascente, retirando os preconceitos e
prejuízos e limpando a
entrada para uma nova concepção. Muita coisa que deixamos dito nesta
lição pode ser
julgada como inútil repetição e como uma incompleta apresentação do lado
científico dos
ensinamentos yóguicos. Com o tempo, porém, se verá que o resultado foi
uma mudança
na mente do estudante, proveniente da absorção da ideia da unidade da
vida e da
expansão do «Eu».
Aconselhamos ao Aspirante que não se precipite. O desenvolvimento não
deve ser
forçado. Lede o que escrevemos e praticai os exercícios de treinamento
mental que vos
damos ainda que a alguns de vós pareçam ser coisas infantis e sem
importância; nós
sabemos que utilidade vos trarão e vós concordareis connosco um dia.
Devagar se vai ao
longe. Percebereis que a mente elabora a matéria, ainda que estejais
absorvidos no
vosso trabalho ordinário e tenhais esquecido o assunto por algum tempo.
A maior porção
do trabalho mental faz-se desta maneira, enquanto que vós estais
ocupados com outras
coisas, ou até dormindo, porque a parte subconsciente da mente continua
a elaborar os
pontos dados e perfaz a sua tarefa.
Como dissemos, o fim desta lição é levar-vos ao caminho do
desenvolvimento de
consciência, e não ensinar-vos os detalhes do lado científico dos
ensinos yóguicos.
«Desenvolvimento» é a divisa da Raja Yoga. A razão por que desejamos
desenvolver
este sentido da realidade do «Eu» e a expansão do «Eu», neste lugar, é
que, por este
meio, podeis afirmar o vosso domínio sobre a matéria, energia e mente.
Para poderdes
sentar-vos sobre o vosso trono como um rei, haveis de realizar primeiro
o conhecimento
consciente de que sois a realidade neste mundo de aparência. Haveis de
ter claro
conhecimento de que vós— o vosso verdadeiro «Eu» — não somente sois
existente e
real, mas que estais em contacto com todo e qualquer outro ser real e
que as raízes do
vosso ser se afirmam no mesmo Absoluto. Haveis de chegar ao perfeito
conhecimento de
que não sois um átomo de realidade, separado, isolado e fixado num
estreito espaço, mas
que sois um centro de consciência no grande Todo de realidade, e que o
universo dos
universos é a vossa pátria e a vossa casa paterna — que o vosso centro
de consciência
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se pode mover a um ponto que dista
trilhões de léguas da Terra (e esta distância é como
nada no espaço) e, contudo, a alma desperta, estareis igualmente em casa
lá como aqui
— e que, enquanto estais aqui, a vossa influência se estende ao Iongo no
espaço. O
vosso verdadeiro estado, que vos será revelado gradualmente, através dos
séculos, é tão
grande e elevado, que a vossa mente no actual estado de desenvolvimento
não pode
compreender o menor reflexo daquela glória.
Desejamos que experimenteis formar ao menos uma fraca ideia do vosso
real estado
de ser, para que possais dominar os princípios inferiores pela força da
vossa vontade
despertada, que depende do vosso grau de consciência do «Eu» real.
À medida que o homem cresce em compreensão e consciência do «Eu» real,
aumenta
a sua capacidade de usar a própria vontade, que é o atributo do «Eu»
real. É bom que
este grande conhecimento perfeito do «Eu» real traga consigo o amor e a
benevolência a
toda a vida, porque, se assim não fosse, poderia a vontade despertada no
homem que
chegou ao conhecimento do seu ser real, ser usada para fazer grande mal
aos homens
que se não adiantaram tanto (mal relativo, compreendei, porque sob o
aspecto final
nenhuma alma pode sofrer mal algum).
0 poder nascente, porém, traz
consigo um
aumento de amor e benevolência, e, quanto mais alto a alma sobe, tanto
mais é repleta
de ideais mais elevados e tanto mais sacode de si os baixos atributos
animais. É verdade
que algumas almas que estão a chegar à consciência da sua natureza real,
sem
compreender o que significa tudo isso, podem cometer o erro de usar a
vontade
despertada para fins egoístas, como se pode ver nos casos dos magos
negros de que se
fala nos escritos ocultistas, como também nos casos de caracteres bem
conhecidos na
história e na vida moderna, que manifestam uma vontade enorme, fazendo
dela mau uso.
Todas estas classes de pessoas de grande vontade chegaram cegamente à
consciência
(ou parcial consciência) da sua natureza real, mas falta-lhes a
influência restrita dos
ensinos superiores. Porém, o mau uso da vontade traz sofrimento e
inquietação à pessoa
que assim abusou da própria força e que finalmente é compelida ao reto
caminho.
Não esperamos que os nossos estudantes compreendam plenamente esta ideia
da
expansão do «Eu». Até a mais alta concepção desta ideia é apenas uma
compreensão
parcial. Enquanto, porém, não obtiverdes um vislumbre da consciência,
não podereis
progredir no caminho de Raja Yoga. É necessário que compreendais o que
sois, antes
que possais usar o poder que em vós dormita.
É necessário que saibais
que sois o
Senhor, antes que possais usar os poderes do Senhor e esperar que as
vossas ordens
sejam obedecidas. Tende, pois, paciência conosco, vossos instrutores,
quando vos
apresentarmos as lições que deveis aprender, as tarefas que deveis levar
a termo. O
caminho é longo e em muitos lugares é áspero; os pés podem cansar-se,
porém a
recompensa é grande, e há lugares no caminho onde se pode descansar. Não
percais a
coragem se o vosso progresso for lento, porque a alma deve
desenvolver-se naturalmente
— como a flor — sem precipitação, sem ser forçada.
E não vos assusteis nem espanteis se, ocasionalmente, obtiverdes uma
visão
momentânea do vosso «Eu» superior. Como M. C. diz, em suas notas à «Luz
no
Caminho» (segunda parte): «Ter visto a tua alma em sua flor é ter obtido
uma visão
momentânea, em ti mesmo, da transfiguração que te converterá finalmente
em mais que
um homem; reconhecer é levar a termo a grande empresa de contemplar a
luz
resplandecente, sem baixar os olhos e sem retroceder, tomado de espanto,
como ante um
fantasma horrível. Isto acontece a alguns, e assim perdem a vitória no
momento preciso
de a alcançar».
A Paz seja convosco.
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Mantram (afirmação)
Há uma só forma final de matéria; uma só
forma final de energia; uma só forma final
de mente. A matéria procede da energia, e a energia da mente, e todas
são uma
emanação do Absoluto, tríplice em aparência, mas uma em substância. Há
uma só vida
que penetra o universo, manifestando-se em várias formas que constituem,
porém, uma
unidade. O meu corpo é uno com a matéria universal; a minha energia e
força vital é una
com a energia universal; a minha mente é una com a mente universal; a
minha vida é una
com a Vida Universal.
O Absoluto expressou-se e manifestou-se no espírito que é o «Eu» real
que cobre com
a sombra e abraça todos os «Eus» aparentemente separados. «Eu» sinto a
minha
identidade com o espírito e reconheço a unidade de toda a realidade. Eu
sinto a minha
unidade com o espírito e a minha união (por meio do espírito) com o
Absoluto. Eu
reconheço, sei e sinto que «Eu» sou uma expressão e manifestação do
Absoluto e que a
sua própria essência está em mim. Estou cheio de amor divino. Estou
cheio de poder
divino. Estou cheio de sabedoria divina. Estou consciente da identidade
em espírito, em
substância e em natureza, com a Realidade que é Una.
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INDICE
LIÇÃO IV - DOMÍNIO SOBRE A MENTE.
Nas primeiras três lições desta série
temo-nos esforçado por esclarecer na vossa
mente: 1.°) a consciência do «Eu»; sua independência do corpo; sua
imortalidade,
invencibilidade e invulnerabilidade; 2.°) a superioridade do «Eu», não
só em relação ao
corpo, mas também em relação à mente; o facto de que a mente não é o
«Eu» e sim um
mero instrumento para a expressão do «Eu»; o facto de que o «Eu» é o
senhor da mente,
igualmente como do corpo; que o «Eu» está atrás de todo o pensamento;
que o «Eu»
pode pôr de lado, para os observar e analisar, os desejos, sensações,
emoções, paixões
e todos os fenómenos mentais e, contudo, reconhece que ele, o «Eu», é
distinto destas
manifestações mentais, permanecendo imutável, real e plenamente
existente; que o «Eu»
pode pôr de lado todo e qualquer dos seus instrumentos mentais, como
coisas que
pertencem ao «Não-Eu» e ainda assim reconhecer conscientemente que,
depois de os ter
posto de parte, resta algo — ele mesmo — o «Eu», que não pode ser posto
de parte nem
retirado; que o «Eu» é o senhor da mente, e não seu escravo; 3.º) que o
«Eu» é coisa
muito maior do que o pequeno «eu» pessoal, pelo qual o temos tido; que o
«Eu» é uma
parte daquela grande Realidade Una que penetra todo o Universo; que está
em conexão
com todas as outras formas de vida, ligado a elas por inúmeros laços,
filamentos e relações mentais e espirituais; que o «Eu» é o centro de consciência
naquela grande
Realidade Una ou Espírito, que está no fundo e atrás de toda a vida e
existência, e cujo
Centro é o Absoluto ou Deus; que o sentido de Realidade inerente ao «Eu»
é a reflexão
do sentido da Realidade inerente ao Todo — o Grande «Eu» do Universo.
A base de todas estas três lições é a Realidade do «Eu», em si mesmo,
sobre e acima
da matéria, força e mente — positiva a elas todas, como elas são
positivas ou negativas
umas às outras — negativas só ao Centro do Uno — ao mesmo Absoluto. E
esta é a
posição que o Aspirante ou Iniciado deve tomar: «Eu sou positivo à
mente, à energia à
matéria, e domino-as (ou controlo-as) todas; Eu sou receptivo só para o
Absoluto, que é o
Centro do Ser, e Eu sou deste Ser. E, enquanto afirmo o meu domínio
sobre a mente,
energia e matéria e exerço sobre elas a minha vontade, reconheço a minha
subordinação
ao Absoluto, e com gosto abro a minha alma ao influxo da vontade divina,
participando do
seu poder, força e sabedoria».
Na presente lição e nas que se seguem imediatamente, esforçar-nos-emos
por auxiliar
o Aspirante ou Iniciado na aquisição de domínio sobre as manifestações
subordinadas:
matéria, energia e mente, afim de adquirir e afirmar este domínio, o
Aspirante há de
familiarizar-se, antes de tudo, com a natureza daquilo que deve dominar
(ou controlar).
No nosso «Curso Adiantado» esforçamo-nos por vos explicar a natureza das
três
grandes manifestações, conhecidas como Chitta ou substância mental;
Prana ou energia;
e Akasa ou princípio de matéria.
Igualmente vos explicamos que, o «Eu» do homem é superior a todas estas
três
manifestações, sendo aquilo que é conhecido como Atman ou espírito.
A
matéria, energia
e mente, como dissemos, são manifestações do Absoluto e são coisas
relativas. A
filosofia yogue ensina que a matéria é a mais grosseira das formas de
substância, sendo
inferior em relação à energia e mente, e consequentemente, negativa e
subordinada a
ambas.
Um grau mais alto do que a matéria está a energia ou força, que é
positiva em relação
à matéria e tem autoridade sabre ela (porque a matéria é forma ainda
mais grosseira de
substância); mas a energia ou força é negativa e subordinada à mente,
que é uma forma
certamente mais alta de substância. De todas estas três grandes
manifestações, a mais
alta é a mente — a mais fina forma de substância — e domina tanto a
matéria como a
energia, sendo positiva a estas ambas. A mente, porém, é negativa e
subordinada ao
35 / 118
«Eu», que é espírito, obedecendo às
ordens deste quando são dadas firme e inteligentemente. O próprio
«Eu» é
subordinado somente ao Absoluto
— o Centro do 'Ser;
o
«Eu» é positivo à tríplice manifestação de mente, energia e matéria,
tendo domínio sabre
todas as três.
O «Eu», que havemos de considerar como uma coisa separada, para podermos
dar a
devida ilustração (embora na realidade, ele seja apenas um centro de
consciência no
grande corpo do espírito), acha-se rodeado do tríplice oceano de mente,
energia e
matéria, o qual se estende ao infinito. O corpo, é apenas uma forma
física, através da
qual flúi Uma corrente de matéria sem fim; porque, como sabeis, as
partículas e os
átomos do corpo estão em incessante mudança; renovam-se, substituem-se,
são atraídos
e repelidos.
O nosso corpo de há alguns anos atrás ou, melhor dito, as partículas que
o
compunham, afastaram-se de nós, não estão mais no seu lugar e formam
agora novas
combinações no mundo da matéria. E o nosso corpo de hoje está passando e
deixando-nos, sendo substituído por novas partículas. E o corpo que
teremos no ano
vindouro ocupa agora uma outra porção de espaço; as partículas dele são
agora partes
de inumeráveis outras combinações e virão, mais tarde, deste espaço e
destas
combinações para compor e formar o nosso corpo do ano vindouro.
No corpo não há nada permanente; até as partículas dos ossos estão
mudando
constantemente, sendo substituídas sempre por outras. E o mesmo se dá
com a energia
ou força vital do corpo (inclusive a força do cérebro). Constantemente é
usada, expelida e
suprimida por nova. Até a mente da pessoa é mutável e a Chitta ou
substância mental é
usada, sendo o gasto reparado por nova provisão que vem do grande oceano
da mente,
no qual toma a cair a porção eliminada, da mesma maneira como se dá com
a matéria e a
energia.
Julgamos que a maioria dos nossos estudantes, estando mais ou menos
familiarizada
com as correntes concepções da ciência materialista, aceitará
prontamente a ideia acima
exposta — do oceano de matéria e energia — e o facto de ambas estarem
continuamente
a ser usadas e substituídas; poderão, entretanto, achar mais ou menos
difícil aceitar a
ideia que a mente é uma substância ou um princípio a que se pode aplicar
as mesmas
leis gerais como aos outros dois atributos ou manifestações de
substância. Vivemos muito
inclinados a pensar na nossa mente como em nós mesmo — o «Eu». Apesar do
facto de,
na segunda lição desta série, vos termos mostrado que o «Eu» é superior
aos estados
mentais e que os pode per de parte e observar e analisar como coisas que
pertencem ao
«Não-Eu», a influência do hábito de pensamento é todavia, tão forte, que
alguns de vós
precisarão tempo considerável para realizar o conhecimento de que a
vossa mente é
«algo de que vos servis», e não Vós mesmos.
Haveis, porém, de procurar
com
perseverança esta clareza de conhecimento, porque o vosso domínio sobre
a mente e a
possibilidade de a dominar dependem do reconhecimento da verdade de que
sois o
senhor dela. E ao grau deste domínio e controlo corresponderá o carácter,
o grau e a
extensão do trabalho que a vossa mente fará por vós. Vede, pois, que: o
conhecimento
traz o domínio — e o domínio traz resultados. Esta verdade forma a base
da ciência de
Raja Yoga. E muitos dos seus primeiros exercícios têm por fim
familiarizar o estudante
com este conhecimento e desenvolver o conhecimento e o domínio por
hábito e prática.
A Filosofia Yogue ensina que a mente não é o «Eu», mas que é a coisa
pela qual e
por meio da qual o «Eu» pensa, ao menos no que concerne ao conhecimento
do universo
exterior ou fenomenal — isto é, o universo de nome e forma. Há um saber
mais alto que
está encerrado na parte mais íntima do «Eu» e este saber transcende toda
a informação
que se possa receber do mundo exterior; mas não tratamos agora disto e
havemos de
nos contentar com o «pensar» sobre o «mundo de coisas».
Substância mental chama-se, em sânscrito, Chitta, e uma onda na Chitta
(onda esta
que é combinação de mente e energia) chama-se Vritta, correspondendo ao
que
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denominamos «pensamento». Em outras
palavras, Vritta é a «mente em acção», ao
passo que
Chitta é «mente em repouso». Em tradução literária,
Vritta
significa um
redemoinho ou turbilhão na mente, o que é,
em realidade, exactamente um
pensamento.
Aqui chamamos a atenção do estudante para o facto de os yogues e outros
ocultistas
empregarem a palavra «mente» com dois significados, e é necessário que o
estudante
tenha uma clara concepção delas, para evitar confusão e para poder
perceber com mais
clareza os dois aspectos das coisas que a palavra quer exprimir. Em
primeiro lugar
emprega-se a palavra «mente» como sinónimo de Chitta ou substância
mental,
que é o
princípio mental universal.
Desta substância mental, Chitta ou mente,
provém todo o
material dos milhões de mentes pessoais.
O segundo significado da
palavra «mente» é
aquele com que falamos da «mente» de alguém, designando com estas
palavras as
faculdades mentais daquela pessoa particular — aquilo que distingue a
sua personalidade
mental da de outrem. Temo-vos ensinado que esta «mente» no homem
funciona em três
planos, tendo designado as respectivas manifestações como:
1°) Mente
Instintiva;
2°)
Intelecto;
3°) Mente Espiritual.
(Vêde as «Catorze Lições de Filosofia
Yogue»).
Estes três
planos mentais juntos constituem a «mente» da pessoa ou, para falarmos
mais
exatamente,
agrupados em redor do «Eu»
formam
a «alma»
do indivíduo.
Muitas vezes
se usa a palavra «alma» como sinónimo de «espírito»; mas aqueles que
seguiram as nossas explicações saberão fazer a distinção.
A «alma» é o Eu rodeado dos seus
princípios mentais,
ao passo que
o espírito é a «alma da alma» — O «Eu», o Ser Real.
A ciência de Raja Yoga, a que esta série de lições é dedicada, ensina,
como seu
princípio básico, o domínio sobre a mente. É de opinião que o primeiro
passo para
alcançar poder consiste no domínio que o homem tem sobre a sua própria
mente. Ela diz
que é necessário conquistar primeiro o mundo interno, antes de poder
atacar o mundo
externo. Ela ensina que o «Eu» se manifesta em vontade, e que esta
vontade pode ser
empregada para se servir da mente do seu possuidor, guiá-la, governá-la
e dirigi-la, da
mesma maneira como o mundo físico. Raja Yoga tende a limpar a mente de
todo o
entulho e de todos os obstáculos, conservando-a limpa, clara e sã.
Depois vem a dominar
esta mente com inteligência e eficácia, preservando de todo o
desperdício de força e
elevando a mente, por meio de concentração, à plena harmonia com a
vontade, para
servir-lhe de foco, aumentando o seu poder e assegurando a sua eficácia.
A concentração
e o poder da vontade são os meios pelos quais manejam e dirigem as suas
mentes
vigorosas e sãs, dominando o mundo exterior e agindo positivamente sobre
a energia e a
matéria. Este domínio estende-se a todos os planos da mente e os yogues
não só
dominam a mente instintiva, rejeitando-lhe as qualidades inferiores e
aproveitando-as
noutras partes, como também desenvolvem e alargam o campo do seu
intelecto, obtendo
dele admiráveis resultados. Os yogues dominam até sobre a mente
Espiritual,
desenvolvem-na e transmitem ao campo da consciência alguns dos
maravilhosos
segredos que se acham na sua área.
Raja Yoga responde e dá solução a
muitos dos
segredos da existência e do ser, a muitos dos enigmas do universo.
Desenvolve e põe em
acção as forças latentes que são inerentes à constituição humana. Dos
que estão muito
adiantados nesta ciência, afirma-se que obtiveram um grau tão alto de
poder e domínio
sobre as forças da Natureza, que são quase como deuses em comparação com
o homem
comum.
Raja Yoga ensina que não se pode obter tal poder, mas que, com sua
prática, se abre
um admirável campo de saber. Ensina que, quando a mente concentrada se
dirige a uma
coisa ou a um objecto, descobre a verdadeira natureza e o significado
interno desta coisa
ou deste objecto e o que com eles se relaciona. A mente concentrada
passa através do
objecto, assim como os raios t passam através de um tronco de árvore, e
se vê a coisa
pelo «Eu» como ele é — em verdade — e não como antes tinha aparecido,
imperfeita e
erroneamente. Assim pode ser explorado o mundo externo, como também o
raio mental
pode ser dirigido ao interior, para explorar os lugares secretos da
mente.
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Quando nos lembramos de que 'o pedaço de
mente que cada homem possui é como
uma gota do oceano que contém, em seu pequenino volume, todos os
elementos que
constituem o oceano, e que conhecer a gota é conhecer perfeitamente o
oceano, então
começamos a ver o que significa, na realidade, tal poder.
Muitos, que, no mundo ocidental, alcançaram grandes resultados nos
campos do
esforço intelectual e científico, desenvolveram estes poderes mais ou
menos
inconscientemente. Muitos dos grandes inventores são yogues práticos,
apesar de
ignorarem a fonte do seu poder. Quem conhece as características pessoais
mentais de
Edison, achará que ele seguiu alguns dos métodos de Raja Yoga e que a
concentração
era uma das suas armas mais fortes. Igualmente o professor Elmer Gates,
de
Washington, D. C., cuja mente fez admiráveis descobertas e invenções, é
também yogue
prático, embora não admita tal asserção, porque não se familiarizou com
os princípios
desta ciência a que chegou inconscientemente.
Os informadores dizem-nos que ele «escava» as invenções e descobertas da
sua
mente depois de se ter isolado e praticado a concentração e a chamada
visão mental.
Mas já vos demos bastante teoria para uma lição e havemos de começar a
dar-vos
indicações que vos ajudarão a desenvolver essas forças latentes e a
despertar essas
energias adormecidas.
Notareis que, nesta série, primeiramente vos esclarecemos algo sobre a
teoria e,
depois, vos apresentamos «alguma coisa para fazer». Este é o melhor
método yogue,
seguido e praticado pelos seus melhores instrutores.
Teoria em excesso cansa e adormece a mente; como também demasiados
exercícios
cansam e não dão o necessário alimento à parte da mente que o pede. O
melhor método
é combinar a teoria com a prática, em convenientes proporções, e nós
seguimos este
método.
Exercícios de treinamento mental
Antes de podermos esperar que a nossa
mente funcione bem, havemos de a
«amassar» e fazê-la obedecer à vontade do «Eu». Em geral, permite-se à
mente fazer o
que quer e passar de um objecto a outro como lhe apraz.
A mente dá-nos então muito trabalho e inquietações, pouco prazer e
consolo, como
uma criança má ou um animal doméstico mal ensinado, de maneira que não
se vê a sua
utilidade.
As mentes de muitos de nós são como pátios de animais selvagens,
seguindo cada
um as suas inclinações naturais e o seu próprio caminho. Temos em nós
mesmos uma
coleção de animais: o tigre, o macaco, o pavão, o asno, a ovelha, a
hiena e todos os
outros. E temo-nos deixado governar por estes animais. O nosso próprio
intelecto é
errático, instável e qual azougue ou mercúrio, a que os antigos
ocultistas o comparavam,
mutável e incerto. Se olhardes em tomo de vós, vereis que aqueles homens
e mulheres
do mundo que realmente têm feito alguma coisa importante, tinham
treinado a sua mente
para serem obedecidos.
Eles sabiam dominar a própria mente pela força da vontade e assim
atingiram o poder.
A mente ordinária enfurece-se sob o freio da vontade e é como um macaco
obstinado que
não quer «aprender artes». Se, porém, deve funcionar bem, há-de ser
ensinada e há de
aprender. Haveis de ensiná-la, se quereis ter dela alguma utilidade, se
quereis que ela
vos sirva, em vez de a servirdes.
E esta é a primeira coisa que há-de aprender o estudante de Raja Yoga:
controlar ou
dominar a mente. Aqueles que esperavam encontrar um caminho largo e
cómodo para os
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conduzir ao Mestrado, ver-se-ão
desenganados; mas existe um só caminho que vos pode
conduzir ao alvo: é o domínio e o controlo sobre a mente, exercido pela
vontade. Sem
este, a mente fugir-vos-á quando tiverdes dela maior necessidade. Por
isso, vos daremos
exercícios destinados a ajudar-vos nesta direcção.
O primeiro exercício em Raja Yoga é o chamado Pratyahara ou arte de
tornar a mente
introspectiva, isto é, dirigir a sua atenção para o seu próprio
interior. Este é o primeiro
passo para o domínio sobre a mente. O seu fim é desviar a mente da
ocupação com o
exterior e dirigi-la, gradualmente, ao interior, fixando a sua atenção
sobre a sua natureza
interna. Trata-se de dominar a mente pela vontade.
Os seguintes exercícios senão úteis para isso:
EXERCÍCIO I
a) Colocai-vos numa posição cómoda e o
mais longe possível de influências externas
que vos possam interromper ou distrair. Não façais esforço violento para
dominar a
mente, mas antes deixai-a vaguear um pouco, até que os seus esforços se
achem
exaustos. Ela aproveitará, ao princípio, a oportunidade e disparará aqui
e acolá, como um
macaco solto, até que se cansa, pouco a pouco, e obedecerá às vossas
ordens. Na
primeira vez custará algum tempo amansá-la, mas todas as vezes que o
experimentardes, chegar-vos-á com a menor demora. Os yogues sacrificam
muito tempo
à aquisição desta paz e calma mental, e consideram-se bem pagos por seus
esforços.
b) Quando a mente estiver bem acalmada e em paz, fixai o pensamento no
mantram
«Eu sou», como vo-lo ensinamos nas lições prévias. Imaginai o «Eu» como
uma entidade
independente do corpo, imortal, invulnerável, real.
Em seguida, pensai nele como sendo independente do corpo e capaz de
existir em
seu envoltório carnal. Meditai sobre isto algum tempo e depois dirigi
gradualmente o
pensamento ao real conhecimento do «Eu» como independente da mente,
superior a ela
e dominando-a. Percorrei as ideias gerais das primeiras duas lições e
esforçai-vos por as
reflectir com calma e vê-las no «olho da mente». Achareis que a vossa
mente se torna
cada vez mais calma e cheia de paz, enquanto os pensamentos distraentes
do mundo
exterior se afastam de vós cada vez mais.
c) Depois, a vossa mente deverá fazer uma calma consideração da terceira
lição, onde
falamos da Unidade de Tudo e da afinidade do «Eu» com a Unidade de Vida,
Poder,
Inteligência, Ser. Achareis estar adquirindo um domínio sobre a mente
(um controlo
mental) e uma calma até então desconhecidos para vós. Os exercícios
dados nas
primeiras três lições vos terão preparado para isto.
d) A seguinte parte deste exercício é a mais difícil, mas gradualmente
vos virá a
necessária habilidade. Trata-se de excluir da mente todo o pensamento ou
impressão do
mundo exterior, do corpo e mesmo dos pensamentos, devendo o estudante
concentrar-se
e meditar sobre a afirmação:
«Eu sou», concentrando a ideia no simples
«ser» ou
«existência», simbolizados pelas palavras «Eu sou». Não «Eu sou isto» ou
«Eu sou
aquilo», nem «Eu faço isto» ou «Eu penso aquilo», mas simplesmente: «Eu
sou». Este
exercício focará a atenção no verdadeiro centro do ser que está em vós
mesmos e juntará
todas as energias mentais que, aliás, se dispersariam pelos objectos
exteriores. Como
resultado tereis uma sensação de paz, força e poder; esta afirmação e a
ideia que está
atrás dela, são a mais poderosa e a mais forte de todas as afirmações
que se possam
fazer, porque concernem ao Ser Real, e dirigem o pensamento para esta
verdade.
Ao
princípio deixai a mente demorar-se sobre a palavra «Eu», o próprio, e
depois fazei-a
passar à palavra «sou», que significa a realidade e o ser. Em seguida,
combinai estes
dois significados
e o resultado será uma fortíssima focalização do
pensamento no interior e uma potentíssima
afirmação do ser.
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É bom acompanhar os exercícios acima
descritos, com uma cômoda e conveniente
atitude física, para prevenir a distração da atenção. Para este fim
tomai uma posição cômoda e depois relaxai todos os músculos, cuidando que todos os nervos
fiquem sem
tensão, até que obtenhais um perfeito estado de tranqüilidade e
relaxação. Deveis praticar
isto até que o aprendais bem, porque vos será muito útil, principalmente
em concentração
e meditação que, assim, se tornarão mais fáceis. Será uma «cura de
descanso» para o
corpo, os nervos e a mente cansados.
EXERCÍCIO II
O segundo passo em Raja Yoga é conhecido
como Dharana ou concentração, pela
qual se dirige a centralização das forças mentais e se obtêm resultados
quase incríveis. É
verdade que isto requer trabalho, tempo e paciência; mas o estudo será
bem
recompensado. A concentração consiste em dirigir toda a mente a um
objecto ou coisa,
retendo-a ali por algum tempo. No primeiro instante isto parece muito
fácil, mas um pouco
de prática mostrará como é difícil fixar a atenção firmemente e retê-la
no objecto, porque
a mente tem a tendência de flutuar e passar a um outro objecto, e é
necessária muita
prática para poder fixá-la e retê-la no ponto desejado. Mas a prática
faz maravilhas, como
se pode ver observando as pessoas que adquiriram esta faculdade e a
aplicam Ira sua
vida quotidiana. É, porém necessário lembrar o seguinte: Muitas pessoas
têm adquirido a
faculdade de concentrar a sua atenção, mas deixaram que se tornasse
quase
involuntária, e são escravos dela, esquecendo-se de tudo o demais e
negligenciando,
muitas vezes, afazeres necessários. Tal modo de concentração pertence à
ignorância e
os que o praticam tornam-se escravos de seus hábitos, em vez de serem
senhores das
suas mentes. Vêm a ser sonhadores com olhos abertos e distraídos, em vez
de mestres.
São dignos de compaixão, do mesmo modo que os que não sabem totalmente
concentrar-se. O segredo está no domínio da mente. Os yogues sabem
concentrar-se à
vontade e se enterram completamente no objeto que observam, extraindo
dele tudo que
os possa interessar; depois, retiram a mente desse objeto também à
vontade, usando o
mesmo controlo (ou domínio) em ambos os casos. Não caem em distração,
não ficam
«ausentes em espírito», nem sonham de olhos abertos. Pelo contrário, são
indivíduos
com sentidos bem despertos; observadores profundos; pensadores claros;
raciocinadores
corretos. São senhores da sua mente e não escravos dos seus hábitos. O
concentrador
ignorante enterra-se no objecto e deixa-se dominar e absorver por ele;
mas o pensador
yogue treinado afirma o «Eu» e, depois, dirige a sua mente para a
concentrar no objecto,
conservando-a sob a sua vista e domínio por todo esse tempo. Percebeis a
diferença?
Pois bem, prestai atenção à lição.
Os seguintes exercícios serão úteis para os primeiros passos de
concentração:
a) Concentrai a atenção sobre algum objecto muito conhecido; por
exemplo, um lápis.
Retende nele a mente e observai-o, com exclusão de qualquer outro
objecto. Observai-lhe
o tamanho, a forma, a cor, a qualidade da madeira. Pensai sobre o seu
uso, destino,
material, processos de fabricação, etc., etc. Com poucas palavras,
pensai sobre o lápis
tanto quanto é possível, até que o objecto fique exausto. Deixai a vossa
mente seguir
algum caminho vicinal associado, como seja: a consideração acerca da
grafite de que é
feito o lápis, a árvore de que foi tirada a madeira que cobre a grafite,
a história do lápis e
outros utensílios para escrever, etc.
O seguinte plano de sinopse será útil para as considerações que devem
ser feitas em
concentração:
1) Pensai sobre o objecto mesmo.
2) Sobre o lugar donde veio.
3) Sobre o seu destino ou uso.
4) Suas associações.
5) Seu provável fim.
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Não desanimeis por causa da natureza aparentemente trivial da
inquirição, porque a
mais simples forma de treinamento mental é útil e vos auxiliará a
desenvolver a vossa
vontade e concentração. É coisa semelhante ao processo de
desenvolvimento de um
músculo físico por meio de um simples exercício e, em ambos os casos,
não nos
ocupamos com a questão se é ou não importante o exercício em si mesmo,
mas olhamos
para o fim a que serve.
b) Concentrai a atenção sobre alguma parte do corpo; por exemplo, a mão
— e,
fixando a vossa atenção nela, exclui ou inibi toda a sensação das outras
partes do corpo.
Um pouco de prática torna-vos hábeis a fazê-lo. Além de servir de
treinamento mental,
este exercício estimulará a parte do corpo sobre a qual vos concentrais,
por razões que
vos esclarecemos em lições futuras. Depois, escolhei outras partes do
corpo, para nelas
concentrar, uma por cada vez, a vossa mente, e assim dareis à mente uma
variedade de
exercícios e ao corpo o efeito de um estimulante geral.
c) Estes exercícios podem estender-se indefinidamente a uma porção de
objectos que
vos são familiares. Lembrai-vos sempre de que o objecto em si mesmo não
tem
importância e que, com tudo isto, se trata apenas de treinar a mente
para obedecer à
vontade, a fim de que acheis as forças mentais bem treinadas e
obedientes, quando
quiserdes empregá-las num objecto do trabalho. Não menosprezeis esta
parte do assunto
porque achais que é «seca» e não interessa; sabei que ela vos conduz
para poderdes
subir a objectos muito interessantes e abre-vos a entrada a uma coisa
fascinante.
d) Concentrai a atenção num objecto abstracto, isto é, sobre um objecto
interessante
que possa oferecer um campo para exploração mental. Pensai sobre ele em
todas as
suas fases e variedades, seguindo ora um caminho vicinal, ora outro, até
que sintais que
sabeis tudo o que a vossa mente pode explorar. Surpreender-vos-á o facto
de verdes que
sabeis muito mais de uma coisa ou objecto, do que pensaste ser possível.
Em recantos
ocultos da vossa mente encontrareis alguma útil ou interessante
informação sobre o
objecto em questão e, quando tiverdes terminado, achareis que possuis um
sólido saber
do assunto. Este exercício, além de auxiliar a desenvolver as forças
mentais, fortalecerá a
vossa memória, alargará a vossa mente e vos dará mais confiança em vós
mesmos. E,
em adição, tereis feito um importante exercício de concentração ou
Dharana.
A Importância da Concentração
A concentração é a focalização da mente.
E esta focalização requer uma localização
da vontade, isto é, a direcção da vontade a um centro. A mente está
concentrada, quando
a vontade está focalizada sobre o objecto. A mente flúi no molde feito
pela vontade. Os
exercícios acima apresentados têm por fim, não só acostumar a mente a
obedecer à
direcção da vontade, como também acostumar a vontade a mandar.
Falamos de fortalecer a vontade, mas o que com isto pensamos na
realidade, é treinar
a mente a obedecer e acostumar a vontade a mandar. A nossa vontade é
suficientemente
forte, mas nós ignoramo-la. A vontade tem a raiz no verdadeiro centro do
nosso ser — no
«Eu» — mas a nossa mente, sendo apenas imperfeitamente desenvolvida, não
reconhece este facto. Nós somos como elefantes novos que não conhecem a
sua própria
força e se deixam governar por pequenos condutores que poderiam atirar
ao longe com
um único movimento. A vontade está atrás de toda a acção, tanto mental
como física.
Teremos muito a dizer nestas lições, a respeito da vontade, devendo o
estudante
prestar toda a atenção ao assunto. Olhe ao redor de si e verá que a
grande diferença
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entre os homens que subiram a uma posição
elevada e os que ficaram em atraso consiste
em determinação e vontade. Como disse, com razão, Buxton: «Quanto mais
vivo, mais convencido fico de que
a grande diferença entre os homens fracos
e fortes,
grandes e insignificantes,
é a energia e a determinação
invencível». E poderia ter
acrescentado que
aquilo que está atrás da «energia e determinação invencível» é a
vontade.
Os escritores e pensadores de todos os séculos reconheceram a admirável
e
transcendente importância da vontade. Tennyson diz: «ó Vontade viva, tu permaneces, quando todas as aparências
sofrem
um choque!»
Olivier Wendell Holmes diz: «A sede da vontade parece variar com o órgão
pelo qual
se manifesta; parece transportar-se a diferentes partes do cérebro,
quando desejamos
recordar um quadro, uma frase, uma melodia; parece transmitir a sua
força aos músculos
ou ao processo intelectual. Como o comandante em chefe, ocupa sempre o
lugar no
campo de acção. Ela é o mais forte dos instrumentos de qualquer
faculdade nossa; ela é
aquilo que é o mais remoto das nossas concepções de mecanismo e matéria
como as
definimos ordinariamente».
Holmes tem razão na sua ideia, mas erra nos detalhes.
A vontade não muda
a sua
sede, que está sempre no centro do Ego, porém impele a mente a todas as
partes e
direcções, dirigindo igualmente o Prana ou a força vital.
A vontade é,
de facto, o
comandante em chefe, mas não corre aos vários pontos de acção e envia
mensageiros e
correios para lhe transmitirem as ordens.
Buxton disse: «A vontade fará tudo o que é possível fazer neste mundo. E
não há
talento, nem circunstâncias, nem oportunidades que possam, sem ela,
fazer um homem
de uma criatura bípede».
Ik Marvel tem razão, quando diz: «Na resolução é que se manifesta o
homem; não
numa resolução pusilânime, não em determinações mal definidas, não em
propósitos
vagos — mas naquela vontade forte e infatigável que pisa sobre as
dificuldades e perigos,
como um rapaz pisa o solo regelado de inverno; a vontade que alumia a
vista ao
inatingível. A vontade que transforma os homens em gigantes».
O grande obstáculo que impede a maioria do povo de usar devidamente a
vontade é a
falta de habilidade de focalizar a atenção.
Os yogues compreendem claramente este ponto e muitos exercícios que os
instrutores dão aos estudantes são destinados a superar esta
dificuldade. Atenção é a
evidência externa da vontade. Como disse um escritor francês: «A atenção
está sujeita à
autoridade superior do Ego. Eu perco-a ou mantenho-a à vontade. Eu a
dirijo quer a este
quer àquele ponto. Eu a concentro sobre um ponto durante tanto tempo
porquanto a
minha vontade pode fazer o esforço».
O professor James disse: «A obra essencial da vontade, quando ela é toda
voluntária,
é atender a um objecto difícil e mantê-lo firme diante da mente. Esforço
de atenção é o
fenómeno essencial da vontade».
O professor Halleck disse: «O primeiro passo para o desenvolvimento da
Vontade
consiste nos exercícios de atenção. As ideias se torram mais distintas e
poderosas à
medida que lhes prestamos atenção».
Se tomarmos duas ideias da mesma intenção e concentrarmos a atenção numa
delas,
notaremos como vai aumentando o seu poder.
O professor Sully disse: «A atenção pode ser definida elementarmente
como a activa
direcção da mente voltada para um objecto que se lhe apresenta no
momento dado».
A palavra «atenção» é derivada de duas palavras latinas:
ad
e
tendere,
que significam
«tender» ou «estender» em certa direcção: e os yogues assim a entendem.
Por meio da
sua vista psíquica ou clarividente, percebem como o pensamento de uma
pessoa atenta
se estende em direcção ao objecto a que presta atenção, como uma cunha
aguda, cuja
ponta é dirigida ao objecto em consideração, a que se concentra toda a
força do
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pensamento. Isto é verdade não só quando
está incutindo suas ideias a outrem, mas
também quando as dirige a uma tarefa que deve cumprir. Atenção
significa, pois, estender
a mente e dirigi-la como um foco a alguma coisa.
A vontade treinada apresenta-se numa atenção tenaz e esta vontade é um
dos sinais
da vontade treinada. O estudante não deverá tirar disto uma conclusão
precipitada,
pensando que esta qualidade de atenção é uma faculdade comum à
humanidade. Pelo
contrário, é muito rara e encontra-se somente entre as pessoas de
mentalidade «forte».
Cada um pode fixar a sua atenção numa coisa atrativa, agradável; mas é
necessário
ter uma vontade treinada para fixar a atenção numa coisa sem atracção e
retê-la ali. É
verdade que o ocultista treinado é capaz de encontrar interesse na coisa
mais inatrativa
a que decide dirigir a sua atenção; mas isto vem por si mesmo com a
vontade treinada, e
não é dado ao homem vulgar. Atenção voluntária é rara e encontra-se
somente entre
caracteres fortes. Ela pode porém ser cultivada e pode crescer, até que
aquele que hoje
tem dela apenas pequena noção, com o tempo se torna um gigante. Tudo
depende de
prática, exercício e vontade.
Não se pode dizer demais a favor do desenvolvimento da faculdade de
atenção firme.
Quem possui esta faculdade desenvolvida é capaz de produzir obras muito
acima das que
pode fazer qualquer pessoa que dela carece.
a melhor maneira de treinar a atenção, sob a direcção da vontade, é
dirigi-la a coisas e
ideias que não interessam, sustendo-as diante da mente, até que comecem
a evocar um
interesse. Isto é difícil no princípio, mas breve começará a mostrar um
aspecto agradável,
porque o praticante verá que o seu poder de vontade e a sua atenção vão
aumentando e
ele sente que está a adquirir uma força e um poder que não tinha antes:
— reconhece
que se está tomando mais forte.
Charles Dickens disse que o segredo do seu bom sucesso consistia no
desenvolvimento da faculdade de dirigir toda a sua atenção a qualquer
coisa que devia
fazer no momento, e, em seguida, poder retirá-la e dirigi-la com a mesma
atenção à coisa
com que depois se devia ocupar. Ele era como um homem detrás de um
grande archote
que tornava sucessivamente a um e outro ponto, iluminando-os todos, um
após outro.
O
«Eu» é o homem que está atrás da luz, a vontade é o reflector e a
atenção é a luz.
Esta discussão sobre a vontade e a atenção pode parecer «sem», ao
estudante, mas
isto é mais uma razão para se ocupar dela. A vontade e a atenção são o
segredo que
forma a base da ciência de Raja Yoga e os mestres yogues atingiram um
grau elevado de
vontade e atenção concentradas que o homem vulgar não pode conceber. Por
este meio
eles são capazes de dirigir a mente aqui e acolá, no exterior ou no
interior, com uma força
enorme. Sabem concentrar a mente numa coisa pequena com intenção
admirável, como
os raios solares podem ser focalizados numa lente e acender um pano; e
igualmente
sabem emitir o pensamento com intensa energia, iluminando tudo sobre que
pousa, da
mesma forma que se dá no caso de uma forte luz eléctrica, que muitos de
nós conhecem.
Esforçai-vos, por todos os meios, para cultivar a atenção e a vontade.
Praticai estes
temas que não são interessantes nem agradáveis; fazei aquilo que deveis
fazer e não
fizestes porque não vos agradava. Procurai encontrar interesse em
qualquer tarefa e a
dificuldade desaparecerá; e tornar-vos-eis mais fortes; e tereis uma
nova sensação de
poder.
Mantram (afirmação)
«Eu» tenho Uma vontade que é minha
inalienável propriedade e meu direito. Eu
determino cultivá-la e desenvolvê-la com prática e exercício. A minha
mente obedece à
minha vontade.
A minha vontade domina sobre a minha mente. Eu sou senhor da minha mente
e do meu corpo. Eu afirmo o meu domínio. A
minha vontade é dinâmica — cheia de força,
energia e poder. Eu sinto a minha força. Eu sou forte e cheio de vigor.
Sou cheio de
vitalidade. Eu sou centro de consciência, energia, força e poder, e
sustento o meu direito.
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Em branco
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INDICE
LIÇÃO V - O DESENVOLVIMENTO DA ATENÇÃO
Na quarta lição dissemo-vos que os yogues
despendem muito tempo e muita prática
para adquirir a concentração. Também vos dissemos alguma coisa a
respeito da relação
que há entre a atenção e o objecto de concentração. Nesta lição vos
esclareceremos
mais sobre a atenção, porque esta é uma das coisas importantes para a
prática de Raja
Yoga, e os yogues insistem que os seus estudantes pratiquem
sistematicamente para
desenvolver e cultivar a faculdade. A atenção forma a base do poder da
vontade, e o
cultivo daquela facilita o exercício desta.
Se quiséssemos explicar aqui porque atribuímos tanta importância ao
cultivo da
atenção, anteciparíamos nossas futuras lições desta série e isso não nos
parece bom, por
ora. Assim, pedimos aos nossos estudantes que confiem na nossa palavra,
que tudo
quanto temos a dizer sobre a importância deste cultivo é necessário para
o
desenvolvimento e aplicação da mente em certas direcções, como mais
adiante se verá.
Para vos mostrar que não expomos alguma teoria especial dos yogues que
não esteja
em harmonia com a ciência moderna, apresentar-vos-emos neste artigo um
número de
citações de escritores e pensadores ocidentais, que tratam desta
importante faculdade
mental, e assim vereis que o Ocidente e o Oriente estão de acordo sobre
o ponto
principal, embora haja diferenças nas explicações do facto ou no uso de
poder obtido pelo
cultivo da atenção.
Como dissemos na nossa última lição, a palavra atenção é derivada das
palavras
latinas ad tendere, e significa o acto de «estender em certa direcção»,
o que é a atenção
na realidade. O «Eu» quer que a mente seja dirigida como um foco a um
determinado
objecto, e a mente obedece e «estende-se em direcção» a esse objecto,
focalizando nele
toda sua energia, observando todo o detalhe, dissecando, analisando,
consciente e
subconsciente, aproveitando toda a informação que vem do interior, como
a que vem dó
exterior. É muito importante adquirir esta grande faculdade, ou antes,
desenvolvê-la,
porque ela é necessária para o inteligente estudo de Raja Yoga.
Para compreender a importância do nosso assunto, suponde que paramos
agora,
prestando a nossa atenção à matéria de atenção, e vêde como nela achais
muito mais do
que pensais. Sereis bem recompensados pelo gasto do tempo e pelo
trabalho feito.
A atenção foi definida como focalização da consciência ou, se preferis
outra forma de
expressão, como «detenção em consciência». No primeiro caso, podemos
compará-la à
acção da lente, por meio da qual os raios solares são concentrados num
objecto, do que
resulta que o calor se acumula num pequeno ponto dado, e este calor pode
aumentar a
sua intensidade por muitos graus, até que venha a acender um pedaço de
lenha, ou fazer
a água ferver e evaporar. Se os raios não tivessem sido focalizados, os
mesmos raios e o
mesmo calor haver-se-iam estendido por uma grande superfície, e o efeito
e o poder
seriam diminuídos. E assim se dá com a mente. Se se lhe permite
estender-se por todo o
campo de um objecto, poderá exercer somente pouco poder, e os resultados
serão
fracos.
Se, porém, passa pela lente da atenção e se focaliza primeiro a uma
parte da matéria,
depois a outra, e assim por diante, dominará toda a matéria
minuciosamente e obterá um
resultado que parecerá quase maravilhoso a quem não conhece o segredo.
Thompson disse: «As experiências que ficam mais permanentemente
impressas na
nossa consciência, são aquelas em que temos fixado a mais firme
atenção». Um outro
escritor, tratando do assunto, disse que «a atenção é tão essencialmente
necessária ao
entendimento que as ideias e percepções que passam pela mente sem um
grau de
atenção, parecem não deixar vestígio algum atrás de si».
Hamilton disse: «Um acto de atenção, isto é, um acto de concentração,
parece ser tão
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necessário para termos consciência de
qualquer coisa, como uma certa contração da
pupila é condição indispensável à visão. A atenção é, pois, para a
consciência o que a
contração da pupila é para a visão; ou
a atenção é para o olho da mente
o que o
microscópio ou telescópio é para o olho do corpo. Ela forma mais de
metade de todo o
poder intelectual.»
E Brodie acrescenta: «A atenção, mais que qualquer diferença no
abstracto poder de
raciocínio, constitui a grande diferença que existe entre as mentes de
diferentes
indivíduos».
Butler dá-nos este importante testemunho: «O mais importante hábito
intelectual que
conheço é o hábito de prestar atenção exclusivamente ao que nos ocupa.
Geralmente dizse que o génio não pode ser infundido por meio da
educação, mas este poder de atenção
concentrada, que é comum a todo o grande inventor, como uma parte do seu
dom pode
ser, com toda a certeza, aumentado quase indefinidamente, por meio de
resoluta prática».
Em conclusão desta revista de opiniões e definições daquilo de que os
yogues têm
tanto que dizer e a que dão tanta importância, ouçamos as palavras de
Beattie, que diz:
«A força com que alguma coisa impressiona a mente, está geralmente em
proporção ao
grau de atenção que se lhe presta. Além disso, a grande arte da memória
é a atenção e
as pessoas que não prestam atenção, têm sempre má memória».
Há duas espécies principais de atenção. A primeira é a atenção dirigida
dentro da
mente a objectos e concepções mentais. A segunda é a atenção dirigida ao
exterior, a
objectos externos. A ambas as espécies de atenção se aplicam as mesmas
regras e leis
gerais.
Igualmente se pode fazer outra distinção e divisão de atenção em duas
classes, a
saber:
atenção atraída por alguma impressão que vem à consciência sem um
esforço
consciente da vontade: isto é atenção involuntária, porque a atenção e o
interesse são
despertados pela actividade ou novidade do objecto.
A atenção dirigida a algum objecto por um esforço da vontade é a atenção
voluntária.
A atenção involuntária é muito comum, e não requer treino especial. Com
efeito, parece
que se encontra muito mais entre os animais inferiores e entre as
crianças do que entre
as pessoas adultas.
Um grande número de homens e mulheres nunca se desenvolve além deste
grau. Por
outro lado, a atenção voluntária exige esforço, vontade e determinação —
um certo
treinamento mental, de que a maioria do povo nada sabe, porque não se
quer «inquietar»
com o esforço de dirigir a sua atenção para este caminho. A atenção
voluntária é o sinal
característico do estudante e de outros homens pensantes. Eles dirigem a
sua mente a
objectos em que não acham imediatamente interesse ou prazer, com o fim
de aprender e
se exercitar. A pessoa desleixada não prestará atenção a tais objectos,
a não ser por um
instante, porque a sua atenção involuntária logo é atraída por algum
objecto, talvez muito
frívolo, e a atenção voluntária desaparece e é esquecida. A atenção
voluntária
desenvolve-se com prática e perseverança, e vale bem a pena, pois nada
no mundo
mental se alcança sem ela.
A atenção não se prende prontamente a objectos que não interessam e,
para os tornar
interessantes, é necessário um considerável grau de atenção voluntária
que fixe a mente
em tal objecto. Além disso, até quando a atenção ordinária foi atraída
ainda falha, se no
aspecto do objecto não houver alguma interessante mudança que a
refresque ou se não
se manifestar no objecto alguma nova qualidade ou propriedade
característica. Isto dá-se,
porque o mecanismo mental não foi treinado para sustentar a atenção
voluntária
prolongada e, de facto, o cérebro físico não está acostumado à tarefa,
embora possa ser
treinado para isto com paciência prática.
Investigadores notaram que a atenção pode descansar e reforçar-se quando
se retira
a atenção voluntária do objecto e se permite a atenção involuntária
passar a outros
objectos; ou, quando se dirige a atenção voluntária a um novo campo de
observação, a
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um novo objecto. As vezes, um destes
métodos dá o melhor resultado, outras vezes será
preferível o outro.
Já vos dissemos que o interesse desenvolve a atenção e conserva-a fixa,
ao passo
que Um objecto sem interesse exige muito esforço e aplicação. Este facto
é evidente a
todos. Um bom exemplo dele está na maneira de ler um livro. Cada Um
prestará atenção
quase perfeita a um conto interessante, mas poucos serão capazes de
manter um
suficiente grau de atenção voluntária para lerem e ficarem cientes do
conteúdo das
páginas de uma obra científica. Mas aqui mesmo queremos lembrar-vos o
outro lado do
caso, que é mais um exemplo do facto de a verdade ser composta de
paradoxos.
Assim como o interesse desenvolve a atenção, também é verdade que a
atenção
desenvolve o interesse. Quem se dá ao trabalho de prestar Um pouco de
atenção
voluntária a qualquer objecto, em breve achará que um pouco de
perseverança fará
aparecer nele alguns pontos de interesse. Descobrir-se-ão rapidamente
coisas que antes
não eram vistas nem suspeitadas.
Ver-se-ão muitas fases novas e novos aspectos do objecto, dos quais um,
por sua
vez, evocará novo interesse. Este facto é geralmente desconhecido e será
bom que o
relembreis e o apliqueis praticamente. Procurai os pontos de interesse
numa coisa que
vos parece não ser interessante, e eles aparecerão à vossa vista,
transformando-se em
pouco tempo o objecto não interessante numa coisa com vários lados
interessantes.
A atenção voluntária é um dos sinais da vontade desenvolvida; isto é, de
uma mente
que foi bem treinada pela vontade, porque esta é sempre forte, e é a
mente que precisa
ser treinada, não a vontade. E, por outro lado,
um dos melhores meios de
treinar a mente
e torná-la obediente à vontade, é a prática da atenção voluntária.
Assim, vêdes como a
regra é aplicável aos dois caminhos.
Alguns psicólogos ocidentais
emitiram até teorias
que a atenção voluntária é o único poder da vontade e que este poder é
suficiente, porque
quando a atenção está firmemente fixada num objecto, a mente «fará o
resto».
Nós não
somos desta opinião, mas mencionamos apenas esta teoria filosófica para
mostrar a
importância que os psicólogos atribuem à atenção voluntária.
Um homem de atenção muito desenvolvida é capaz de praticar actos de
muito maior
importância do que um homem mais erudito que carece, porém, de atenção.
A atenção voluntária e a aplicação podem até substituir o génio e
alcançam muitas
vezes maiores resultados, com o decorrer dos tempos.
A atenção voluntária consiste em
fixar a mente séria e intensamente em
algum
objecto, excluindo ao mesmo tempo da consciência todos os outros
objectos que nela
querem entrar. Hamilton define-a «consciência voluntariamente aplicada
sob as suas leis
de limitação a um objecto determinado». O mesmo escritor continua,
dizendo que «quanto
maior é o número de objectos a que a nossa atenção simultaneamente se
estende, tanto
maior é a intenção com que pode considerar cada um e, consequentemente,
tanto menos
viva e distinta será a informação que ela recebe de vários objectos.
Quando o nosso
interesse é excitado por um objecto especial e quando queremos obter
todo o
conhecimento possível relativo a ele, convém que limitemos a nossa
consideração a este
objecto, com exclusão de outros».
A mente humana pode atender a um só objecto num tempo, embora possa
passar de
um objecto a outro com uma rapidez admirável, tão ligeiro que alguns
opinaram que
podiam perceber e compreender duas coisas ao mesmo tempo. Mas as
melhores
autoridades do Oriente e do Ocidente declaram que só a teoria de
«percepção simples» é
correcta. Citaremos algumas autoridades a respeito disto.
Jouffroy diz: «Está provado pela experiência que não podemos prestar
atenção a dois
objectos diferentes ao mesmo tempo». Holland afirma: «Não se pode supor
que dois
pensamentos, por mais intimamente relacionados que sejam um com o outro,
existam
juntos na mesma mente, ao mesmo tempo.» Lewes diz: «A natureza do nosso
organismo
não admite que tenhamos mais que um aspecto de um objecto em cada
instante que se
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apresenta à nossa consciência». Whateley
diz: «Os melhores filósofos são unânimes na
opinião de que a mente não pode atender a mais de uma coisa num só tempo
e que
quando parece que assim faz realmente só salta com prodigiosa rapidez de
um para o
outro».
Quando prestamos concentrada atenção voluntária a um objecto, não só
somos
capazes de vê-lo e pensar sobre ele com maior grau de clareza possível,
mas a mente
possui, em tais circunstâncias, a tendência de trazer ao campo da
consciência todas as
diferentes ideias associadas na nossa memória com aquele objecto e
construir em redor
dele uma porção de factos e informações associadas. Ao mesmo tempo, a
atenção
prestada ao objecto torna mais vivo e mais claro tudo o que temos
apreendido acerca
desse objecto naquele tempo e o que possamos aprender mais tarde. Parece
que a
atenção cava um túnel pelo qual flúi o saber. Ela aumenta e robustece os
poderes de
percepção, auxiliando muito o emprego das faculdades perceptivas.
«Prestando atenção» a algo que se vê ou ouve, é-nos possível observar os
detalhes
desta coisa vista ou ouvida, e onde a mente inatenta obtém, digamos,
três impressões, a
mente atenta absorve três vezes três ou, talvez três vezes o triplo de
três (isto é, vinte e
sete).
E, como acabamos de dizer, a atenção evoca os poderes de
associação, dando-nos o fio de uma quase infinita série de factos
associados, armazenados na nossa
memória, formando novas combinações de factos que antes nunca tínhamos
agrupado
trazendo ao campo da consciência todos os variados fragmentos de
informação sobre a
coisa a que prestamos atenção. Cada um tem a prova disto na sua própria
experiência. Quem é que não se lembra como tem estado sentado
escrevendo, pintando, lendo, etc.
com interesse e atenção, e como tem passado na sua mente, com grande
surpresa sua,
um fluxo de factos relacionados com o objecto da sua ocupação?! Parece
que a atenção
foca todo o vosso saber relativo a uma coisa e o leva a um ponto que vos
dá a
possibilidade de combinar, associar, classificar, etc., e assim criar
novo saber.
Gibbon conta-nos que, depois de haver observado e elucidado um pouco um
novo
tema, suspendia esta sua ocupação e deixava a sua mente (sob atenção
concentrada)
apresentar todo o seu saber associado relativo a esse tema, e depois
voltava à sua tarefa
com um aumento de capacidade e eficiência.
Quanto mais se fixa a nossa mente num objecto com que nos ocupamos,
tanto mais
profunda é a impressão que este objecto deixa sobre a mente. E tanto
mais fácil nos será
depois seguir a mesma direção de pensamento e trabalho.
A atenção é Uma condição indispensável de boa memória e, com efeito, não
pode
haver memória senão quando houver algum grau de atenção e interesse.
E
se
considerarmos que o trabalho de hoje se tomou eficiente pela memória de
coisas
aprendidas ontem, anteontem, etc., torna-se-nos claro que o grau de
atenção que
prestamos hoje regulariza a qualidade do nosso trabalho de amanhã.
Algumas autoridades dizem que o génio é o resultado de grandes poderes
de atenção
ou que, pelo menos, o génio e a atenção se acompanham Um ao outro. Um
escritor disse
que «talvez a melhor definição do génio seja: o poder de se concentrar
sobre um dado
objecto, até que estejam absorvidas e exaustas as suas possibilidades».
Simpson disse: «O poder e o hábito de pensar com precisão e perseverança
sobre o
objecto dado, excluindo, por esse tempo, todo o pensamento de outros
objectos, é um
dos meios principais, senão meio principal mesmo, do êxito».
Sir Isaac Newton expôs-nos o seu método de observar informações e saber.
Ele
conservava continuamente diante de si o objecto da sua consideração e
aguardava até
que sentia o primeiro alvor da perfeição que se transformava, pouco a
pouco, em luz cada
vez mais clara. Um nascer do sol mental, de facto.
O sábio observador, Dr. Abercombie, escreveu que não conhecia outra
regra mais
importante para elevar-se a um alto grau nalguma profissão ou ocupação,
do que a
habilidade de fazer uma só coisa a um tempo, evitando todas as coisas
que produzem
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distracção ou desvio e mantendo o objecto
de que se trata, sempre diante da mente. E
outros acrescentam que tal hábito torna o homem apto a observar relações
entre o
objecto e outras coisas que não são evidentes ao observador ou estudante
superficial.
O grau de atenção cultivada por um homem é o grau da sua capacidade para
o
trabalho intelectual. Como dissemos, os «grandes» homens de todos os
ramos de vida
desenvolveram esta faculdade num grau admirável e muitos deles parecem
obter
resultados «intuitivamente», quando, realmente os obtêm através do seu
concentrado
poder de atenção, que os torna capazes de ver directamente o centro de
um objecto ou
proposição, e tudo o que está em redor, detrás e diante, e todos os
lados, no espaço tão
pequeno de tempo que parece incrível ao homem que não cultivou esta
poderosa
faculdade. Os homens que dedicaram muita especial atenção a um trabalho
ou
investigação, são capazes de agir como se possuíssem a «segunda vista»,
prevendo o
que está dentro do seu predilecto campo de actividade. A atenção
concentrada torna mais
rápidas todas as faculdades: as de raciocínio, análise e decisão, como
também os
sentidos que, por ela, obtêm agudeza, finura e perspicácia.
Por outra parte, não há indicação mais certa de uma mente fraca do que a
falta de
atenção. Esta fraqueza pode resultar de doença ou debilidade física
reagindo sobre o
cérebro, e, neste caso, o mal é só temporário; ou, pode ser causada por
falta de
desenvolvimento mental. Imbecis e idiotas são dotados de pouca ou
nenhuma atenção. O
grande psicólogo francês, Luys, falando deste facto, diz: «Imbecis e
idiotas vêem mal,
ouvem mal, sentem mal e o seu sensório está, consequentemente, numa
semelhante
condição de pobreza sensitiva. A sua impressionabilidade para as coisas
do mundo
externo é mínima, a sua sensibilidade fraca e, por consequência, é
difícil provocar a
condição fisiológica necessária para a absorção da impressão externa».
Na velhice, a atenção é a primeira faculdade que mostra sinais de
decadência.
Algumas autoridades disseram que a memória era a primeira faculdade
atacada pela
aproximação da velhice, mas isto está errado, porque a experiência prova
que as pessoas
idosas manifestam uma notável e clara memória dos acontecimentos do
passado remoto.
A sua memória de acontecimentos recentes é pobre por causa da decadência
da
faculdade de atenção, que não lhes dá a possibilidade de receber fortes
e claras
impressões mentais, pois como é a impressão, assim é a memória. As
pessoas idosas
recordam-se facilmente das impressões antigas, porque foram claras e
fortes, ao passo
que das últimas se recordam com dificuldade, porque foram fracas. Se
houvesse falta de
memória, ser-lhes-ia difícil lembrar-se de qualquer impressão, recente
ou antiga.
Mas nós vamos dar-vos agora exemplos, apresentar-vos autoridades e
fazer-vos
sentir a importância da faculdade de atenção. Se não a reconheceis agora
é porque não
prestais à matéria a atenção em que vos deveis ter exercitado e uma
repetição posterior
de nada serviria.
Admitindo a importância da atenção, do ponto de vista psicológico, já
não falando do
lado oculto do assunto, não vedes como é grave e digno de prática o
cultivo desta
faculdade? De certo o reconheceis. E o único modo de cultivar qualquer
faculdade ou
parte, tanto mental, como física, é exercitada.
O exercício «gasta» um
músculo ou uma
faculdade mental, mas o organismo apressa-se em reparar o gasto por novo
material:
novas células, nova força nervosa, etc., e acumula sempre um pouco mais
do que gastou.
E este «um pouco mais» que vai ser acrescentado aumenta e cresce, e com
ele os
músculos e os centros cerebrais. E os centros cerebrais, aperfeiçoados e
reforçados, dão
à mente melhores instrumentos para o seu trabalho.
Uma das primeiras tarefas que exige o cultivo da atenção é aprender a
pensar numa
só coisa e fazer uma só coisa a um tempo. O costume ou hábito de prestar
atenção
exclusivamente à coisa de que nos ocupamos e, depois, passar à mais
próxima, para a
tratar do mesmo modo, e assim por diante, é um caminho certo para o
êxito, devendo ser
adquirido em primeiro lugar por todos os que querem desenvolver a
faculdade da
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atenção. E, pelo contrário, nada forma um
obstáculo maior para alcançar êxito e nada
destrói mais o poder de prestar atenção do que o hábito de querer fazer
uma coisa,
enquanto se pensa noutra. A parte mental que pensa e a parte que age
devem trabalhar
unidas, e não em oposição.
O Dr. Beatti, falando deste assunto, diz-nos: «É coisa muito importante
adquirirmos o
hábito de fazer uma só coisa a um tempo; com o que quero dizer que os
nossos
pensamentos não devem passar a um objecto, enquanto estamos prestando
atenção a
um outro».
E Granville acrescenta: «Uma frequente causa de falta de atenção é o
esforço de
pensar em mais de uma coisa de cada vez». Kay cita, aprovando, um
escritor que diz:
«Ela fazia tudo com facilidade, porque prestava atenção ao que fazia.
Quando fazia pão,
pensava no pão e não na moda do seu novíssimo vestido, ou no homem com
quem tinha
dançado no último baile». Lorde Chesterfield disse: «Tereis tempo
suficiente para tudo no
decurso do dia, se fizerdes uma só coisa a um tempo; mas não achareis
tempo suficiente
em um ano, se quiserdes fazer duas coisas ao mesmo tempo».
Para obtermos os melhores resultados, devemos fazer o nosso trabalho,
concentrando-nos nele e excluindo, tanto quanto possível, qualquer outra
ideia ou
pensamento.
Em tais casos deveríamos até
esquecer a nós mesmos — a
personalidade
— porque
nada é tão nocivo e destrutivo à boa marcha do pensamento, como
a intrusão da
mórbida consciência pessoal.
Faz melhor obra quem «se esquece a si mesmo», quando se trabalha,
mergulhando a
sua personalidade no trabalho criativo. O homem ou a mulher «mais
sérios» são aqueles
que mergulham a personalidade no resultado desejado ou no cumprimento de
uma tarefa
empreendida. O actor, o pregador, o orador, o escritor hão-de perder de
vista o seu «eu»
pessoal, para alcançar os melhores resultados. Conservai a atenção fixa
naquilo que
tendes diante de vós e deixai o «eu» cuidar de si mesmo.
Em conexão com o que acima dissemos, relatar-vos-emos uma anedota de
Whaterley,
que é
um interessante exemplo de como é possível «perder-se a si mesmo».
Pediram-lhe uma receita para combater o «acanhamento» e ele respondeu
que a
pessoa era acanhada, porque pensava em si mesma e na impressão que
fazia.
A sua receita foi que
a jovem devia pensar em outros - no prazer que
lhes podia dar —
e que, deste modo, devia
esquecer tudo a respeito de si mesma. E a
receita efectuou a
cura. A mesma autoridade escreveu: «O orador de improviso, ou quem faz
Uma prelecção
das suas próprias composições, deve
evitar o mais possível todo o
pensamento em si
mesmo, fixando as ideias na matéria de que está ocupado e sentir-se-á
menos
embaraçado pelo pensamento sobre a opinião que dele formam os ouvintes».
Esse escritor parece ter estudado minuciosamente o tema da atenção e
dá-nos
algumas informações interessantes sobre o assunto.
As seguintes palavras
são dignas de
menção e podem ser muito aproveitadas: «É um facto curiosíssimo que
várias pessoas
achem que podem prestar melhor atenção a um sério assunto, quando se
ocupam com
alguma outra coisa que exige um pouco, porém só um pouco, de atenção,
como, por
exemplo, trabalhando com agulha ou cortando folhas de papel abertas ou à
falta de
semelhante coisa, brincando com os dedos». Ele não apresenta a razão
deste facto que,
no primeiro instante, pode parecer uma contradição à regra: «Uma só
coisa a um tempo».
Mas um exame mais profundo mostrar-nos-á que a ocupação mais fácil (como
cortar
folhas de papel, etc.) exige pouca ou nenhuma atenção voluntária, porque
é a natureza de
um movimento involuntário ou automático e parece «fazer-se por si
mesma». Esta
ocupação não retira a atenção do objecto principal, mas antes, talvez,
preserva em geral
da perda de atenção, que tem a tendência de se dividir, passando de um
acto voluntário a
outro. A mente habituada pode fazer uma coisa, enquanto a atenção está
fixa noutra.
Por exemplo: podemos escrever fixando a nossa atenção no pensamento que
desejamos exprimir, ao passo que ao mesmo tempo, a nossa mão escreve,
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aparentemente sem prestarmos atenção ao
acto de escrever.
Experimentai, porém, se um rapaz ou alguém não acostumado a escrever
exprime os
seus pensamentos desta maneira, e vereis que ele se sente embaraçado no
curso das
suas ideias pelo facto de haver de prestar muita atenção ao acto
mecânico de escrever.
Igualmente, o principiante que se serve da máquina de escrever acha
difícil esse
trabalho, ao passo que aquele que tem suficiente prática, não se deixa
embaraçar pelos
movimentos mecânicos no curso dos pensamentos e na formalização da
atenção; de
facto, muitos acham mais fácil compor servindo-se da máquina de
escrever, do que
ditando a um taquígrafo. Julgamos que compreendeis.
E agora passemos a pequenos exercícios mentais de treinamento da
atenção, para
poderdes dar passos práticos na cultura desta importante faculdade.
Exercícios de treinamento da atenção
EXERCÍCIO I
Tomai um objecto conhecido, colocai-o
diante de vós e esforçai-vos por receber tantas
impressões, quantas forem possíveis. Estudai a forma do objecto, o
tamanho, a cor e as
muitíssimas pequenas peculiaridades relativas a ele, que se apresentam à
vossa atenção.
Fazendo-o, reduzi esse objecto às partes mais simples, analisai-o o mais
possível,
dissecai-o mentalmente e estudai-lhe as partes detalhadamente.
Quanto mais simples e menor for a parte que deveis observar, tanto mais
claramente
será recebida a impressão e mais viva a sua recordação. Reduzi a coisa
às menores
proporções possíveis e, depois, examinai cada porção; concluindo este
exame, passai à
parte mais próxima e assim por diante, até que tenhais examinado tudo.
Em seguida,
quando estiver exausto o objecto, tomai pena e papel e relatai por
escrito tudo o que
notastes nesse exame. Quando o tiverdes feito, comparai a descrição
escrita com o
próprio objecto e vede quantas coisas deixastes de anotar.
No dia seguinte tomai o mesmo objecto, tornai a examiná-lo, escrevei os
pormenores
e achareis que tendes depositado na vossa mente maior número de
impressões relativas
ao dito objecto, e além disso, que tendes descoberto muitos pormenores
novos no vosso
segundo exame. Esse exercício fortalece a memória e também a atenção,
pois ambas
estão estreitamente unidas; a memória depende principalmente da clareza
e força das
impressões recebidas, e as impressões dependem do acúmulo de atenção
prestada ao
objecto observado. Não vos canseis com este exercício, porque atenção
cansada é
atenção pobre. Será melhor exercitar-vos gradualmente, prolongando o
exercício cada
vez mais um pouco. Fazei disto um jogo ou divertimento, se quiserdes, e
notareis que
cada vez vos aperfeiçoais mais na matéria.
Será interessante praticá-lo juntamente com algum amigo, examinando
ambos o
objecto e escrevendo separadamente as suas impressões, e depois
comparando os
resultados. Assim aumentará o interesse e sereis surpreendidos vendo com
que rapidez
ambos vos adiantais no vosso poder de observação, que resulta da
atenção.
EXERCÍCIO II
Este exercício é apenas uma variação do
primeiro. Entrai num quarto, olhai
rapidamente em redor de vós; depois sai e escrevei o número de coisas
que observastes,
fazendo a descrição de cada uma. Ficareis admirados ao ver quantas
coisas vos
escaparam à primeira vista e como progredireis em observação com um
pouco de prática.
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Também este exercício poderá ser feito
com a assistência de um amigo, como o exercício
precedente. Causa admiração ver quantos detalhes podem ser observados e
recordados,
depois de alguma prática.
Conta-se de Houdin, o prestidigitador francês, que ele aumentou e
desenvolveu a sua
faculdade de atenção e memória repetindo estes jogos com um jovem
parente. Passaram,
por exemplo, em frente de uma vitrina, lançaram-lhe um olhar ligeiro,
porém atento, e
depois dobraram a esquina e compararam as notas. Ao princípio
recordavam-se apenas
de alguns poucos artigos mais distintos, isto é, a sua atenção podia
abranger somente
poucas coisas. A medida, porém, que se foram desenvolvendo pela prática,
notaram que
aumentava o número de objectos vistos de que se podiam lembrar depois. E
conta-se que
Houdin chegou a tal perfeição neste jogo de observação, que afinal podia
passar
rapidamente na frente de alguma vitrina e lançar nela apenas um olhar
muito ligeiro e,
depois, dizer os nomes de todos os objectos ali contidos, descrevendo-os
detalhadamente; isto era possível porque ele imprimia à sua mente uma
viva imagem da
vitrina e seu conteúdo, e podia, depois, descrever os objectos, um por
um, observando-os
com o olhar mental.
Houdin ensinou seu filho a desenvolver a atenção por meio de um simples
exercício
que vos há de interessar e poderá ser-vos útil. Ele pôs diante do rapaz
uma pedra de
dominó, por exemplo o número 5-4, e exigia que lhe dissesse a soma dos
números
apresentados, sem contar os pontos um por um. O menino respondeu, depois
de
pequena hesitação: 9. Então foi ajuntada outra pedra, por exemplo: 3-4.
«São 16»,
exclamou o pequeno. No segundo dia trabalharam com duas pedras
simultaneamente, no
terceiro com três, no quarto com quatro, e assim por diante, até que o
rapaz chegou a
dominar doze pedras de dominó — isto é, podia dizer instantaneamente o
número total de
pontos das doze pedras, depois de lhes passar Uma só olhada; e isto
porque tinha
desenvolvido com os exercícios, a atenção a tão alto grau. O resultado
foi um admirável
poder de observação, memória e atenção, junto com a acção mental
instantânea, que se
manifestavam naquele jovem. Não só era capaz de adicionar dominós
instantaneamente,
mas veio a ter uma força de observação e memória que parecia
maravilhosa. E diz-se
que, a princípio, tinha atenção fraca e memória deficiente.
Se isto parece incrível, lembremo-nos que velhos jogadores de whist
notam e se
lembram de cada carta no baralho e, depois, dizem se as cartas foram
jogadas ou não,
contando todas as circunstâncias do jogo. O mesmo se dá com jogadores de
xadrez, que
observam cada movimento e podem relatar todo o jogo minuciosamente muito
depois de
haverem concluído.
Lembrai-vos também de que, quando Uma mulher encontra
outra
mulher na rua, e sem lhe dar, como parece, mais do que uma ligeira
olhada, é capaz
depois, de descrever minuciosamente o vestido desta outra, a moda, a
cor, a qualidade
do material, o seu preço provável, etc., etc.; ao passo que Um homem não
notaria quase
nada disso, porque não haveria prestado atenção. Todavia, esse homem
aprenderá bem
depressa a igualar a sua irmã na atenção e observação de vestidos de
mulheres, se disto
depender o seu negócio ou se o seu instinto especulativo o levar a fazer
uma aposta com
algum amigo, para verem se recorda mais pormenores a respeito do vestido
de uma
mulher que viram passageiramente! Vêde, pois, que tudo depende de
interesse e
atenção.
Mas esquece-se, geralmente, que a atenção pode ser desenvolvida e
cultivada, e
ouvem-se queixas de que «não podemos recordar as coisas» ou que parece
que não
podemos delas «tomar notícia». Um pouco de prática faria maravilhas
nesta direcção.
Os exercícios que acima demos desenvolverão a vossa memória e a vossa
faculdade
de observação; mas não é esta a razão principal por que vo-los demos.
Nós visamos um
objecto ulterior, que aparecerá com o tempo. Queremos desenvolver a
vossa força de
vontade e sabemos que a atenção está à porta desta força. Para que
possais empregar a
vossa vontade, haveis de saber focalizar a atenção forte e
distintamente. E estes infantis
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exercícios auxiliar-vos-ão a desenvolver
os músculos mentais da atenção. Se pudésseis
compreender os jogos infantis com que os jovens estudantes yogues se
divertem para
desenvolver as faculdades mentais, mudaríeis a vossa opinião sobre os
adeptos yogues
que considerastes como meros sonhadores, muito retirados da vida
prática. Estes
homens e os seus discípulos são intensamente práticos. Conquistaram o
domínio sobre a
mente e as faculdades, sendo capazes de as usar como instrumentos com
ponta afiada,
ao passo que o homem não treinado acha que não tem senão uma lamina
embotada e
peada, com que apenas pode fazer trabalho rude e é incapaz de produzir
coisa perfeita.
Os yogues pensam que devem dar ao «Eu» bons instrumentos para o seu
trabalho e
despendem muito tempo em temperar e afiar esses instrumentos. Todavia,
os yogues não
são sonhadores inúteis. O seu entendimento de «coisas práticas» causaria
admiração a
muitos negociantes práticos do Ocidente, se os pudessem observar.
Assim,
nós vos
pedimos que vos exerciteis em «observar coisas». Os dois exercícios que
vos demos são
apenas indicações que devem servir de modelo. Poderíamos dar-vos
milhares de
exercícios, mas vós mesmos podeis prepará-los.
O pequeno rapaz hindu toma lições de atenção, notando e recordando o
número, a
cor, o carácter e outros pormenores de um número de pedras de cores,
jóias, etc., que lhe
são mostradas por um instante na palma da mão, fechando o instrutor a
mão logo em
seguida. O mesmo rapaz aprende a notar e descrever transeuntes, carros,
casas e
milhares de objectos vistos quotidianamente. Os resultados são
notabilíssimos. Assim se
prepara como um cheia ou discípulo e traz ao seu guru ou mestre um
cérebro bem
desenvolvido, uma mente inteiramente treinada a obedecer à vontade do
«Eu», e com
faculdades prontas a perceber instantaneamente aquilo que outros não
veriam nem em
quinze dias.
É verdade que o estudante hindu não aplica estas faculdades
ao «negócio»
ou aos fins chamados «práticos», mas prefere dedicá-las a estudos
abstractos e a fins
diferentes daquilo que o homem ocidental considera como objectivo e alvo
da vida. Mas
lembrai-vos que estas duas civilizações são muito diferentes — visam
diferentes ideais —
tendo diferentes condições económicas, vivendo em diferentes mundos.
Tudo isto, porém,
depende do gosto e dos ideais; o chela possui a faculdade para a «vida
prática» do
Ocidente, se viver neste mundo ocidental. Mas não são chelas todos os
jovens hindus,
lembrai-vos disto — nem todos os jovens ocidentais são «capitães de
indústria» ou
Edison.
Mantram (afirmação)
«Eu» estou a usar a minha atenção para
desenvolver as faculdades mentais e para
dar, assim, ao «Eu» um perfeito instrumento procurando levá-la a um
estado de
capacidade para uma obra perfeita.
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INDICE
LIÇÃO VI - O DESENVOLVIMENTO DA PERCEPÇÃO
O homem obtém o seu conhecimento do mundo
exterior por intermédio dos sentidos.
É por isso que muitos dentre nós costumam pensar que os sentidos
percebem as coisas;
mas eles são apenas portadores das vibrações que vêm do mundo exterior,
que
apresentam à mente para que esta as examine. Falaremos sobre isto com
mais amplitude
um pouco mais adiante nesta lição. Agora queremos, antes de tudo,
incutir-vos o facto de
que é ã mente quem percebe e não os sentidos, e que, consequentemente,
desenvolver a
percepção é desenvolver a mente.
Os yogues prescrevem aos seus discípulos um árduo curso de práticas e
exercícios
destinados ao desenvolvimento da faculdade de percepção. Muitos pensarão
que isto
significa somente um desenvolvimento dos sentidos e achá-lo-ão estranho,
porque os
yogues declaram continuamente que é tolice ser governado e dominado
pelos sentidos.
Mas não há contradição nisto, porque os yogues, considerando como tolice
a vida sensual
e vivendo em conformidade com a sua doutrina, reconhecem, apesar disso,
a importância
de todos os exercícios, cujo fim é «aguçar» a mente, desenvolvê-la a um
ponto de perfeita
percepção.
Eles vêem uma grande diferença entre a agudeza de percepção de um lado e
a
senilidade prestada ao sentido, de outro lado. Que pensaríeis, por
exemplo, de um
homem que não quisesse adquirir vista clara e perspicaz, por temor de
que, assim, se
afastaria de coisas mais altas, porque o encantariam as belas coisas
percebidas por sua
vista? Para compreenderdes como é insensata tal ideia, tirais a lógica
conclusão: que
seria muito melhor para o homem se todos os seus sentidos fossem
destruídos. O
absurdo — senão a malícia — de tal ideia torna-se evidente a cada um que
a submete a
uma pequena consideração.
O segredo da teoria yogue e dos ensinamentos sobre o desenvolvimento das
forças
mentais está na palavra domínio. O estudante de Yoga chega a possuir
este domínio por
dois caminhos.
O primeiro caminho consiste em subordinar todos os
sentimentos, todas
as impressões dos sentidos, etc., ao domínio do «Eu» ou da vontade; e
obtém-se este
domínio afirmando a supremacia do «Eu» sobre as faculdades, emoções,
etc. O segundo
caminho está no desenvolvimento e aperfeiçoamento do instrumento mental,
e o yogue
entre nele depois de haver afirmado o domínio do «Eu» sobre a mente;
deste modo torna
esta capaz de trabalhar melhor e o seu domínio estende-se por um
território maior.
Para obtermos conhecimentos, será necessário fazermos o mais proveitoso
uso dos
instrumentos mentais que achamos à nossa disposição. E havemos de
desenvolver e
aperfeiçoar esses instrumentos.
Assim não só desenvolvemos vantajosamente as faculdades de percepção,
como
também adquirimos um adicional benefício do treinamento da mente
inteira, sua
disciplina, etc., praticando os exercícios que foram dados nas nossas
lições prévias.
Nesta lição exporemos alguns meios de treinamento das faculdades
perceptivas.
Esperamos que nenhum dos nossos estudantes perca o interesse pelo
assunto por causa
da simplicidade da ideia. Se soubésseis a que conduz este
desenvolvimento,
obedeceríeis com muito gosto às nossas sugestões. Cada ideia e exercício
que vos
apresentamos tem por fim dar mais vigor à vossa mente, fazendo com que
adquirais
forças e desenvolvais as faculdades.
O caminho de Raja Yoga é penoso,
mas o estudante
achará boa recompensa dos trabalhos passados, quando tiver alcançado o
cimo da
montanha.
Em vista do que dissemos, examinemos a questão dos sentidos. Por
intermédio deles
recebe o homem todas as informações acerca do mundo exterior. São como
portas pelas
quais lhes vem o conhecimento. Se estas portas só estão entreabertas ou
tapadas com
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obstáculos e lixo, apenas poucas notícias
do exterior se podem obter. Quem, porém, as
conservar limpas e claras, obterá os melhores resultados.
Se alguém houvesse nascido sem órgãos dos sentidos — ainda que tivesse
uma
mente muito boa — seria obrigado a passar a vida num estado de
existência vegetativa,
como em sonho, com pouca ou nenhuma consciência. A sua mente seria como
uma
semente na terra, que por alguma causa, está inibida de crescer.
Pode-se objectar que as ideias mais elevadas não nos vêm pelo canal dos
sentidos,
mas respondemos que aquilo que obtemos por meio dos sentidos é o
«material cru» que
a mente utiliza no seu trabalho, fabricando dele as belas coisas que é
capaz de produzir
nos seus mais altos estados. Da mesma forma que o corpo depende, em seu
crescimento, da alimentação que se lhe dá, assim também a evolução da
mente depende
das impressões recebidas do universo — estas vêm, na sua maior parte,
por meio dos
sentidos.
Pode-se objectar ainda que conhecemos muitas coisas que se não nos
apresentaram
por intermédio dos sentidos. Estas coisas, porém, passaram por eles na
nossa mente
instintiva ou na nossa memória espiritual.
É verdade que há sentidos superiores aos que actualmente se conhecem,
mas a
Natureza exige que aprendamos as lições dos graus baixos antes de
tentarmos aprender
as dos graus mais altos.
Não vos esqueçais de que tudo o que sabemos devemo-lo ao nosso trabalho.
O
preguiçoso não se adianta. O que sabemos é apenas o resultado das
acumulações
depositadas de «experiências anteriores», como disse acertadamente
Lewis.
Assim, quem examina profundamente a questão, acha que a ideia yogue de
que
«devemos desenvolver todas as partes da mente» é toda correcta. O homem
individual vê
e sabe muito pouco do que se passa em torno dele. As suas limitações são
grandes. A
sua faculdade de ver percebe apenas algumas vibrações da luz, ao passo
que, acima e
abaixo da escala, está uma infinidade de vibrações que lhe são
desconhecidas. O mesmo
se dá com a faculdade de ouvir, pois apenas uma porção relativamente
pequena das
ondas de som chegam à mente humana — até alguns animais ouvem mais do
que o
homem.
Se o homem possuísse um só sentido, teria do mundo exterior uma ideia
correspondente apenas a este único sentido. Se fosse adicionado um outro
sentido, o seu
conhecimento se duplicaria. E assim por diante. A melhor prova da
relação que existe
entre o aumento da percepção dos sentidos e o desenvolvimento,
oferece-no-la o estudo
da evolução das formas animais. Nos primeiros estádios da vida, o
organismo tem
somente os sentidos de tacto e de gosto, e mesmo estes são muito fracos
e imperfeitos.
Depois desenvolve-se o olfacto, o ouvido e a vista, marcando cada um
novo ¡degrau na
escada da vida, porque cada um deles abre um novo mundo às formas vitais
progressivas. E quando o homem desenvolver novos sentidos — o que
acontecerá no
futuro — será um ser muito mais sábio e maior.
Carpenter exprimiu, há anos, uma ideia que não será estranha aos que
conhecem os
ensinamentos yogues a respeito do desenvolvimento de novos sentidos.
Ele
disse:
«Parece que há, provavelmente, propriedades de matéria de que nenhum dos
nossos
sentidos pode obter imediato conhecimento, mas que podem ser percebidos
por outros
seres do mesmo modo que a luz, o som, etc., o são por nós».
E Isaac Taylor disse: «Pode ser que, no campo ocupado pelo universo
visível e
ponderável, exista e se mova um outro elemento imbuído de outra espécie
de vida —
corpórea, é verdade, e variada nas suas ordens, porém, impossível de ser
conhecida
pelos seres limitados às condições de organização animal. Deveríamos
pensar que os
olhos do homem sejam a medida do poder do Criador? — e que Ele não criou
mais do
que aquilo que expôs aos nossos sentidos presentes? O contrário parece
não só possível,
mas até certo».
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Outro autor, o professor Masson, disse:
«Se o homem recebesse um ou dois novos
sentidos como suplemento dos que já possui, aquilo que agora conhecemos
como mundo
fenomenal transformar-se-ia em algo muito diferente e surpreendentemente
mais largo».
Não só é verdade isto, mas o homem pode até aumentar os seus poderes de
saber e
de experiência, se desenvolver os sentidos que possui a um mais alto
grau de eficiência,
em vez de os deixar ficar relativamente atrofiados. E para este fim são
escritas estas
lições.
A mente recebe as suas impressões de objectos do mundo exterior por meio
dos
órgãos dos sentidos. Os órgãos sensoriais são os instrumentos da mente,
como
igualmente o são o cérebro e todo o sistema nervoso. Por meio dos nervos
e do cérebro,
a mente utiliza os órgãos sensoriais para obter informação sobre
objectos externos:
Os sentidos, como geralmente se diz, são cinco, a saber: vista, ouvido,
paladar, olfacto
e tacto. Os yogues ensinam que há também sentidos superiores que não
estão ainda
desenvolvidos na maioria da humanidade actual, porém que esta se prepara
para
desenvolver.
Mas não trataremos destes sentidos latentes nesta lição, porque
pertencem a outra
fase do assunto. Alguns fisiólogos e psicólogos enunciaram a opinião de
que ainda há
outros sentidos, além dos cinco acima mencionados; por exemplo, o
sentido pelo qual os
órgãos internos revelam a sua presença e condição. O sistema muscular
comunica com a
mente por meio de um sentido que não é o de «tacto», embora esteja com
ele
estreitamente ligado. E o sentimento de fome, sede, etc., parece que nos
vem por meio
de um sentido que ainda não obteve nome.
Bernstein distinguiu, entre os cinco sentidos, este de que acabamos de
falar: «A
distinção característica entre estas sensações comuns e as sensações dos
sentidos é
esta: que por meio destas (as dos sentidos) obtemos conhecimento das
ocorrências e dos
objectos que pertencem ao mundo externo (sensações que referimos aos
objectos
externos), ao passo que por aquelas (isto é, pelas sensações comuns dos
sentidos sem
nome) somente sentimos certas condições do nosso próprio corpo».
Uma sensação é a concepção mental interna que resulta da excitação
produzida por
um facto ou objecto externo nos órgãos dos sentidos; nos nervos e no
cérebro, por meio
do qual a mente «percebe» o facto ou o objecto externo. Como disse Bain,
ela é «a
impressão mental, o sentimento ou estado consciente que resulta da acção
de coisas
externas sobre alguma parte do corpo, chamada neste caso sensitiva».
Cada canal de impressões de sentidos tem um órgão ou órgãos adaptados
especialmente para a excitação da sua substância pela particular espécie
de vibrações
que lhe comunicam as impressões. O olho é um órgão muito sabiamente
feito para
receber as ondas de luz; e as ondas de som não produzem nele efeito.
Analogamente, o
mecanismo delicado do ouvido responde somente às ondas de som, e não
registra as
ondas de luz. As sensações pertencem a classes inteiramente diferentes,
e os órgãos e
nervos são designados a registrar cada um aquela classe de sensações a
que o seu
organismo está adaptado. Podemos comparar os órgãos dos sentidos,
inclusive os seus
sistemas nervosos especiais, a um instrumento delicado que a mente
formou para si
mesma, a fim de poder investigar, examinar e obter notícias do mundo
exterior.
Estamos tão acostumados às funções dos sentidos, que os consideramos
como
coisas que não causam admiração, em vez de os reconhecermos como
delicados e
maravilhosos instrumentos — que a mente designou e aperfeiçoou para uso
próprio. Se
formarmos a ideia de que é a alma que designa, fabrica e usa estes
instrumentos,
começaremos a compreender a verdadeira relação que há entre eles e a
nossa vida, e
tratá-los-emos com mais respeito e consideração.
Estamos acostumados a pensar que percebemos todas as sensações recebidas
pela
nossa mente; mas não é assim. As regiões inconscientes da mente são
incomparavelmente maiores do que a pequena área consciente em que
geralmente
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pensamos quando dizemos «minha mente». Em
lições futuras discorreremos sobre esta
área maravilhosa e examinaremos o que ali se acha. Taine disse com
razão: «Dentro de
nós realiza-se um processo subterrâneo de infinita extensão; só os seus
produtos nos são
conhecidos, e estes, apenas no todo. Quanto aos elementos e seus
fundamentos, a
consciência não os atinge. Eles são para as sensações o que as moléculas
secundárias e
primitivas são para os corpos. Cá e lá recebemos um vislumbre de
obscuros e infinitos
mundos que se estendem sob nossas sensações distintas. Estas são
composições e
tonalidade. Para que os seus elementos sejam perceptíveis à consciência
é necessário
que se juntem e assim formem certo volume e ocupem certo tempo, porque
se o grupo
não forma esse volume e não subsiste por esse tempo, não observamos
mudanças no
nosso estado. Não obstante, há mudanças, embora escapem à nossa
percepção».
Esta fase do assunto é muito interessante; mas havemos de a deixar para
alguma
lição futura, quando fizermos uma excursão às regiões da mente, abaixo e
acima da
consciência, excursão que muitos de nós apreciarão.
Presentemente havemos de prestar atenção aos canais pelos quais entra na
nossa
mente o material para o saber e o pensamento; porque essas impressões de
sentidos que
nos vêm de fora são, com efeito, «material» de que a mente se serve para
fabricar o
produto chamado «pensamento». Obtemos este material pelos canais dos
sentidos e
depositamo-lo, em seguida, nesse maravilhoso armazém, chamado «memória»
donde, de
vez em quando, tiramos o que precisamos para fabricar o pensamento. A
habilidade do
trabalhador depende do seu adestramento, da sua capacidade de escolher e
combinar os
materiais próprios. E a aquisição de bons materiais para os depositar é
um acto
importante.
Uma mente sem a provisão de material de impressões e experiências seria
como uma
fábrica sem material. As máquinas não teriam com que fabricar e o
armazém estaria
vazio. Como disse Helmholtz: «A apreensão pelos sentidos supre, directa
ou
indirectamente, o material de todo o conhecimento humano ou, pelo menos,
o estímulo
necessário para desenvolver toda a faculdade inata da mente».
Herbert
Spencer diz: «É
quase um axioma (isto é, verdade evidente) dizer que o número, a rapidez
e a variedade
das mudanças no organismo hão-de estar em proporção ao número dos
objectos que
podem ser distinguidos; e em proporção à variedade de coexistência e
sequências que
podem ser respondidas separadamente; este número, a rapidez e a
variedade das
mudanças no organismo exprimem o grau de vitalidade».
Um pouco de reflexão sobre este assunto toma nos claro que, quanto mais
exercícios
e treinamentos damos aos sentidos, mais poder e capacidade mental
adquirimos.
Conforme o material que depositamos no armazém mental, para dele
fabricarmos
pensamentos, assim também será a qualidade e a quantidade do produto
fabricado.
É pois necessário despertarmos da nossa «ociosa» condição mental e
tratarmos de
desenvolver os nossos órgãos dos sentidos e o seu respectivo mecanismo,
pois assim,
que aumentamos a nossa capacidade para o pensamento e o saber.
Porém, antes de passarmos aos exercícios, será útil tratarmos um pouco
de cada um
dos sentidos e suas propriedades.
O sentido do tacto é o mais simples e primitivo. Já muito tempo antes
que as formas
inferiores de vida desenvolvessem os sentidos superiores, tinha
aparecido o sentido do
tacto ou sensação. Sem este sentido teriam sido incapazes de achar o seu
alimento ou
receber as impressões externas e responder-lhes. Nas primeiras formas de
vida, este
sentido era exercido igualmente por todas as partes do corpo; mas nas
formas superiores
ficou sendo um tanto localizado, pois certas partes do corpo são muito
mais sensitivas do
que outras. A pele é a sede do tacto e seus nervos são distribuídos por
toda a área da
pele. A mão, e principalmente os dedos, e as pontas, são os mais
importantes órgãos
deste sentido.
A fineza do tacto varia materialmente em diferentes partes do corpo.
Experiências
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demonstraram que os dois braços de um
compasso, a pequena distância um do outro,
registam impressões diferentes quando aplicados à ponte da língua. A
distância em que
os dois pontos poderiam distinguir-se um do outro, na ponta da língua,
foi chamada «uma
linha». Tomando esta «linha» por medida, achou-se que a superfície
palmar do terceiro
dedo registava 2 linhas; a superfície dos lábios, 4 linhas, e a pele do
dorso e pelo meio do
braço ou da coxa, 60 linhas de altura. O grau da sensibilidade ao tacto
varia muito em
diferentes indivíduos; alguns têm um tacto muito fino nos seus dedos, ao
passo que
outros manifestam grau muito inferior.
Igualmente há grande diferença no discernimento do peso por meio dos
dedos, pois
uns podem distinguir melhor que outros o peso de objectos, pondo-os na
mão. Há
pessoas que podem, assim, distinguir até as diferenças em gramas e suas
fracções.
Também foram notadas finas distinções na diferença em temperatura.
O sentido do tacto e seu desenvolvimento foram de muita importância para
o homem.
É o único sentido em que o homem excede os animais, quanto ao grau e
fineza. Os
animais podem ter mais fino o sentido do paladar, o olfacto, ouvido e
vista, mas o seu
sentido do tacto é muito inferior ao do homem. Cita-se Anaxágoras, como
autor da opinião
de que «se os animais tivessem mãos e dedos, seriam como os homens».
Desenvolvendo o sentido do tacto, deve o estudante lembrar-se de que a
atenção é a
chave do êxito. Quanto maior é a atenção prestada, tanto maior o grau de
desenvolvimento possível no caso de qualquer sentido. Se se concentra a
atenção sobre
um sentido particular, este torna-se mais vivo e mais fino; e o
exercício repetido, sob o
estímulo da atenção, produzirá maravilhas no caso de qualquer sentido
particular. Por
outro lade, o sentido do tacto pode ser quase ou completamente inibido,
quando se fixa
firmemente a atenção em qualquer outra coisa. Como prova extrema disto,
lembramo-vos
o facto de se ter conhecido pessoas que sofreram horríveis torturas,
aparentemente sem
as sentir, porque fixaram toda a mente em alguma ideia ou pensamento.
Como disse
Wyld: «O mártir que se elevou acima das impressões dos sentidos é capaz
não só de
suportar torturas, mas até de resistir-lhes e fazê-las cessar. Os golpes
e cortes na carne
só aumentam a energia no canto de morte dos índios americanos e até o
escravo
chicoteado ganha força para aguentar as dores, pensando na injustiça que
sofre».
As pessoas cujas ocupações requerem um fino grau de tacto, chegam a Um
desenvolvimento maravilhoso. O gravador passa a mão por cima da chapa e
é capaz de
distinguir a mínima imperfeição. O negociante de tecidos distingue as
mais finas
diferenças, simplesmente pelo sentido do tacto. Sortidores de lã
igualmente têm o tacto
maravilhosamente fino. E os cegos, em recompensa da vista que lhes
falta, têm muito fino
o sentido do tacto, conhecendo-se casos em que os cegos eram capazes de
distinguir a
cor, apalpando o objecto.
O sentido do paladar está estreitamente ligado ao do tacto; com efeito,
algumas
autoridades consideraram o paladar como um alto grau de tacto,
notavelmente
desenvolvido em certas partes superficiais do corpo, sobretudo na
língua. Lembremo-nos
que a língua possui o tacto no mais fino grau; é igualmente a língua que
desenvolve o
sentido do paladar à perfeição. Quando se trata de paladar e tacto, os
objectos hão-de ser
postos em contacto com o órgão do sentido, o que não se dá no olfacto,
no ouvido ou na
vista. Estes três sentidos têm seus nervos especiais, ao passo que o
paladar recai nos
nervos ordinários do tacto. É verdade que o paladar se limita a uma
muito pequena parte
da superfície do corpo, enquanto que o tacto é geral. Mas isto indica
apenas um
desenvolvimento especial de uma área especial. O sentido do paladar
depende também
em grande parte, da presença de fluidos, podendo dar a conhecer a sua
presença por
meio dele somente substâncias solúveis.
Dizem alguns fisiólogos que o sentido do paladar é tão fortemente
desenvolvido em
certas pessoas, que uma parte de estricina num milhão de partes de água
tem sido
distinguida. Os provadores de vinhos, chás, etc., manifestam Uma fineza
quase incrível
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de paladar.
O sentido do olfacto está em conexão com, o do paladar e, às vezes,
opera junto com
este, quando as pequeninas partículas da substância na boca chegam aos
órgãos do
olfacto por meio do abrir da boca ou pela comunicação que há entre a
parte posterior da
boca e o nariz; entretanto, o nariz descobre ordinariamente o cheiro da
substância antes
que esta entre na boca. O sentido do olfacto opera pela razão de que as
pequenas
partículas ou objecto são levados à membrana mucosa no interior do
nariz, por meio do
ar. Esta membrana, estando húmida, prende estas partículas e segura-as
por um instante,
e o fino organismo nervoso dá noticia das diferenças e qualidades,
ficando a mente assim
informada da natureza do objecto.
Achamos altamente desenvolvido o sentido do olfacto entre os animais que
se vêem
obrigados a fazer uso dele num grau muito considerável. Entre os homens
há tambem
certas profissões que requerem o desenvolvimento deste sentido, cano,
por exemplo, os
tabaqueiros, perfumistas, negociantes de vinho, químicos, etc. Conta-se
que alguns cegos
podem distinguir pessoas por meio do olfacto.
O sentido do ouvido é mais complexo do que o paladar, o tacto e o
olfacto. Nestes três
é necessário pôr os objectos em contacto com os órgãos dos sentidos, ao
passo que,
para o ouvido, pode o objecto estar afastado, pois as vibrações,
transmitidas pelo ar, são
apreendidas e comunicadas pelo organismo nervoso do sentido do ouvido. O
mecanismo
interno do ouvido é admiravelmente intrincado e complexo, excitando a
admiração da
pessoa que o examina. Não o podemos descrever aqui por falta de espaço,
mas
aconselhamos o estudante a que procure e leia a respectiva descrição em
algum livro que
trate do assunto. O mecanismo do ouvido é Uma ilustração maravilhosa do
trabalho da
mente que constrói para si mesma os instrumentos com que operam para
adquirir
conhecimento.
A orelha regista no ar de 20 a 32 vibrações por segundo, que é a
condição da mais
baixa nota que se pode ouvir até 38.000 vibrações por segundo, que é a
condição de se
ouvir a mais alta nota. Há grande diferença nos indivíduos quanto à
fineza do sentido
auditivo; mas todos podem desenvolvê-lo pela aplicação da atenção. Os
animais e os
selvagens têm desenvolvida extraordinariamente a agudeza do ouvido
somente no que
concerne à distinção, ao passo que os músicos desenvolveram este sentido
em outras
linhas.
Do sentido da vista diz-se, geralmente, que é o mais alto e mais
complexo de todos os
sentidos do homem. Ele abrange muito maior número de objectos — em
maiores
distâncias — e dá muito maior variedade de noticias à mente do que
qualquer outro
sentido. É o sentido de tacto, muitas vezes engrandecido. Como diz
Wilson: «A nossa
vista pode ser considerada como uma espécie de tacto, mais delicada e
difusa, que se
estende sobre Um infinito número de corpos; compreende as maiores
figuras e traz ao
nosso alcance algumas das mais remotas partes do universo».
O sentido da vista recebe as suas impressões do mundo exterior por meio
de ondas
que passam de corpo a corpo — do sol à terra e da lâmpada aos olhos.
Estas ondas
procedem de vibrações em substância, sendo de um quase incrível grau de
velocidade.
Das mais baixas vibrações o número de 450.000.000.000.000 por segundo,
para afectar o
nervo óptico, e, das mais altas, 750.000.000.000.000 por segundo. Isto
são apenas as
vibrações reconhecíveis pelo olho como luz. Acima e abaixo destas
figuras da escala há
inúmeros graus invisíveis ao olho, embora alguns possam ser registados
por
instrumentos. As diferentes sensações de cor dependem do número de
vibrações num
segundo; o vermelho é o limite das mais baixas e o violeta é o limite
das mais altas
vibrações visíveis; as cores intermediárias são: o alaranjado, o
amarelo, o verde, o azul e
o anil.
O cultivo do sentido da vista, com o auxílio da atenção, é muito
importante para todos.
Por meio da capacidade de ver claramente e distinguir as partes de um
objecto, pode-se
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obter um grau de conhecimento que seria
impossível adquirir sem o mencionado exercício
da faculdade. Falamos disto no capítulo dedicado à atenção, numa das
lições
precedentes, e o estudante pode tornar a ler esses tópicos. A fixação do
olho sobre um
objecto tem o poder de concentrar os pensamentos e preservá-los de
qualquer distracção.
O olho tem outras propriedades e qualidades de que trataremos em lições
futuras. Ele
tem outro uso, além do de ver. A influência do olho é uma coisa
maravilhosa e pode ser
cultivada e desenvolvida.
Julgamos que o que dissemos tornará clara ao estudante a importância do
desenvolvimento dos poderes de percepção. Os sentidos foram
desenvolvidos pela mente
no decorrer de um longo período de evolução e esforço que decerto não se
haveria
envidado, se o objecto visado com isso não fosse digno de tanto
trabalho. O «Eu» quer
obter, com insistência, conhecimento do universo e muitas partes deste
conhecimento
podem ser obtidas somente através dos sentidos. O estudante yogue deve
ser muito
atento e ter desenvolvidos os sentidos e as faculdades da percepção.
Especial atenção
deve ser prestada aos sentidos da vista e do ouvido, os dois últimos na
escala do
crescimento e desenvolvimento evolucionários. O estudante há-de
«perceber» o que está
a acontecer em torno de si, para poder «atrair» as melhores vibrações.
Muitos ocidentais seriam surpreendidos, se vivessem em contacto com um
yogue
altamente desenvolvido e pudessem ser testemunhas do maravilhoso grau de
desenvolvimento e fineza de seus sentidos. O yogue é capaz de distinguir
as mais finas
diferenças entre as coisas e a sua mente está de tal modo treinada que,
em pensamento,
pode tirar conclusões do que percebeu, de maneira que parece ser como
uma «segunda
vista» ao que ignora a causa. Com efeito, aquele que desenvolve o
sentido da vista sob a
direcção da atenção, pode obter um certo grau de segunda vista (ou
clarividência).
A tal
pessoa se abre um novo mundo.
Devemos aprender a dominar os sentidos não só tornando-os independentes
e
superiores aos seus impulsos, mas também desenvolvendo-os a um alto
grau. O
desenvolvimento dos sentidos físicos é também muito importante para o
desenvolvimento
dos «sentidos astrais», dos quais falamos nas nossas «Catorze Lições», e
dos quais
teremos mais que dizer na presente série.
A ideia de Raja Yoga é tornar o estudante possuidor de uma mente
altamente
desenvolvida, com instrumentos também altamente desenvolvidos, que lhe
sirvam para o
trabalho próprio.
Nas nossas lições futuras daremos ao estudante muitas ilustrações,
direcções e
exercícios destinados a desenvolver as diferentes faculdades da mente —
não só as
faculdades ordinárias do uso quotidiano, mas também outras, ocultas
atrás destas
faculdades e destes sentidos comuns.
Começando com a próxima lição, apresentaremos um sistema de exercícios,
treinamento, etc., destinados a produzir o desenvolvimento acima
mencionado das
faculdades mentais.
Nesta lição, não tentaremos dar exercícios específicos mas
contentar-nos-emos em
chamar a atenção do estudante para algumas regras gerais que são a base
do
desenvolvimento da percepção.
Regras gerais de percepção
A primeira coisa a lembrar na aquisição
da arte da percepção é que se não deve tentar
perceber a totalidade de uma coisa complexa ao mesmo tempo ou de uma
vez. Devemos
considerar o objecto em detalhes e, depois, agrupando os detalhes,
acharemos ter
observado a totalidade.
Tomemos o rosto de uma pessoa como um objecto familiar. Se tentardes
perceber o
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rosto como uma totalidade, encontrareis
obstáculos e a impressão será indistinta e
nebulosa, e, consequentemente, a lembrança desse rosto não corresponderá
à
percepção original.
Observai, porém, o rosto em detalhes: primeiro os olhos, depois o nariz,
em seguida a
boca, o queixo, o cabelo, delineamentos da face, a compleição, etc., e
achareis que
adquiristes uma clara e distinta impressão ou percepção de todo o rosto.
A mesma regra pode ser aplicada a qualquer objecto ou assunto. Tomemos,
por
exemplo, outra ilustração familiar.
Observai um edifício. Se vos contentardes com uma percepção geral do
edifício como
uma totalidade, podereis recordar-vos de muito poucas coisas, apenas de
seus contornos,
tamanho, forma, cor, etc.; não podereis fazer uma descrição
satisfatória. Se, porém,
notardes, detalhadamente, o material empregado, a forma das portas, da
chaminé, do
tecto e do pórtico, as ornamentações, formas e número das janelas, etc.,
etc., tereis uma
inteligente ideia do edifício, em vez de uma simples impressão
superficial que pode
adquirir um animal que passe em frente.
Concluiremos esta lição com uma anedota sobre os métodos que aplicava o
famoso
naturalista Agassiz, quando ensinava os seus discípulos, que se tornaram
afamados
pelas excelentes faculdades de observação, percepção e capacidade de
«pensar» sobre
as coisas que viram. Muitos deles chegaram a ocupar posições eminentes e
declararam
ser isto devido em grande parte ao treino a que tinham sido submetidos.
Conta-se que, um dia, um novo estudante se apresentou a Agassiz, para
ser aceite. O
naturalista tomou um peixe de uma jarra em que tinha sido conservado e,
pondo-o diante
do jovem estudante, ordenou-lhe observá-lo cuidadosamente e preparar-se
para dizer o
que notou a respeito do peixe. O jovem não via no peixe nada que
interessasse; era um
peixe como muitos outros que ele tinha visto: tinha barbatanas e
escamas, uma boca e
dois olhos, sim, e uma cauda.
Em meia hora, pensou o estudante que tinha observado tudo o que naquele
peixe se
podia perceber. Mas o naturalista não vinha.
O tempo ia passando, e o jovem, não tendo nada mais a fazer, começou a
sentir-se
inquieto e cansado. Pô-se a procurar o mestre, mas não pôde encontrá-lo
e, assim, teve
que voltar e tomar a olhar, enojado, o peixe. Passaram-se horas e, do
seu tema, ele sabia
pouco mais que antes.
Saiu para almoçar e, quando voltou, teve que continuar as observações.
Sentiu-se
desgostoso e, perdendo a coragem, desejou não ter visitado Agassiz, que
lhe parecia
agora ser um velho estúpido — um homem atrasado.
Depois, para matar o tempo, começou a contar as escamas e, quando
acabou, contou
os ossos das barbatanas. Em seguida, começou a desenhar o peixe. Fazendo
o desenho,
notou que o peixe não tinha pálpebras. Descobriu, assim, que, como o seu
mestre
costumava dizer nas prelecções, «o lápis é o melhor dos olhos».
Afinal, o professor voltou e, vendo o que o jovem tinha observado, não
ficou satisfeito
e disse que o rapaz devia olhar com mais atenção para ver alguma coisa
mais.
O jovem pôs-se, então, a trabalhar cuidadosamente com o lápis, marcando
pequenos
detalhes que antes lhe tinham escapado, mas que agora lhe pareciam muito
claros.
Começou a descobrir o segredo da observação. Pouco a pouco apareciam
novos pontos
interessantes naquele peixe. Mas isto não bastou ao professor, que o fez
estudar o
mesmo peixe durante três dias inteiros. No fim deste tempo, o estudante
sabia algo sobre
o peixe e, melhor que tudo, tinha adquirido a destreza e o hábito de
cuidadosa
observação e detalhada percepção.
Anos depois, este estudante, tendo chegado a ocupar uma posição
eminente, disse:
«Aquela foi a melhor lição de zoologia que tive — uma lição cuja
influência se estendeu
aos detalhes de todos os estudos posteriores; um legado que o professor
me deixou,
como também a muitos outros de grande valor, que não podemos comprar nem
vender».
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Além da informação particular que o
estudante obteve, fortaleceu as faculdades
perceptíveis que o tornaram capaz de observar os pontos importantes em
qualquer
objecto ou assunto e, consequentemente, deduzir importante conhecimento
do que tinha
observado.
A mente tem sede de conhecimento e construiu, no decorrer de anos de
laboriosa
evolução e esforço, uma série de sistemas de sentidos para obter esse
conhecimento, e
ainda está a construir. Os homens e as mulheres que chegaram a ter o
melhor sucesso
do mundo, utilizaram estes maravilhosos canais de informação e,
dirigindo-os sob o
domínio da vontade e da atenção, obtiveram admiráveis resultados. Estas
coisas são de
grande importância e pedimos aos nossos estudantes que não passem por
cima deste
assunto como sendo sem interesse. Cultivai um espírito de atenção e boa
percepção, e
surpreender-vos-á o «saber» que disto provém.
Por este meio desenvolvereis os sentidos existentes, e, além disso,
acelerareis o
desenvolvimento das forças e dos sentidos latentes que tendem a
manifestar-se.
Empregando e exercitando as faculdades que temos, aceleramos o
desenvolvimento
daquelas de cujo aparecimento nem sequer havíamos sonhado.
Mantram (afirmação)
Eu sou uma Alma que possui canais de
comunicação com o mundo exterior. Quero
fazer uso destes canais e, assim, adquirir a informação e o conhecimento
necessário para
o meu desenvolvimento mental. Exercitarei e desenvolverei os meus órgãos
dos sentidos,
sabendo que com isto desenvolverei os sentidos superiores, dos quais
estes são apenas
precursores e símbolos. Quero ser plenamente despertado, atento e aberto
aos influxos
de conhecimento e informação. O Universo é a minha Pátria. — Eu quero
explorá-lo.
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INDICE
LIÇÃO VII - O DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA
Deliberamos fazer uma pequena alteração
na composição destas lições, isto é, na
ordem em que devem aparecer. Queríamos dar nesta sétima lição uma série
de
exercícios de treino mental, destinados a desenvolver certas faculdades
mentais; mas
decidimos deixá-los para uma lição posterior, a fim de ser mais lógica a
ordem das
matérias. Nesta lição falaremos do desenvolvimento da Consciência no
homem e, na
próxima — ou talvez nas duas próximas — vos daremos uma explicação dos
estados da
mente, abaixo e acima da consciência — Uma Legião maravilhosa e que tem
sido
geralmente mal compreendida e mal interpretada. Isto conduzirá ao
cultivo de várias
faculdades — , tanto conscientes como inconscientes. E concluiremos a
série, dando-vos,
nas últimas três lições, certas regras e instruções para o
desenvolvimento da admirável
«máquina de pensamentos» que o homem possui e cujo desenvolvimento é do
maior
interesse e importância para todos os nossos estudantes. Quando
concluirmos estas
lições, vereis que a presente disposição das matérias é a mais lógica e
própria.
Nesta lição trataremos do desenvolvimento da consciência — um tema muito
interessante. Muitos de nós têm o costume de identificar a «consciência»
(isto é, a
percepção consciente) com a mente. Mais adiante, porém, vereis que o que
é chamado
«consciência» não é senão uma pequena porção da mente do indivíduo e que
até esta
pequena parte muda constantemente o seu estado, desenvolvendo novos
estados com
que não se tinha sonhado.
«Consciência» é uma palavra que se aplica com frequência em relação à
ciência da
mente. Vejamos o que significa este termo. Webster define-o coma
«conhecimento de
sensações e operações mentais ou conhecimentos daquilo que passa pela
nossa própria
mente». Halleck dá a seguinte definição: «Consciência é aquela
característica indefinível
dos estados mentais que faz com que os «percebamos». Porém, como afirma
Halleck, «a
consciência não se pode definir; para definirmos alguma coisa somos
obrigados a
descrevê-la em termos de outra coisa».
Mas não há, no mundo, outra coisa semelhante à consciência e, por isso,
podemos
defini-la apenas em termos dela mesma, sendo isto muito parecido com a
tentativa de se
levantar, puxando pelas orelhas das suas próprias botas. A consciência é
um dos maiores
mistérios que encontramos diante de nós.
Antes de podermos compreender o que é a consciência, em realidade,
havemos de
saber exactamente o que e, realmente, a mente — e este saber é
imperfeito, a despeito
das numerosas e engenhosas teorias que foram apresentadas afim de
explicar o mistério.
Os metafísicos não nos dão muita luz a respeito deste assunto; e quanto
à ciência
materialista, ouvi o que diz Huxley:
«Explicar como é que da irradiação do tecido nervoso resulta coisa tão
notável como
um estado de consciência, é tão impossível como explicar o aparecimento
do génio
quando Aladino esfregou a sua lâmpada».
Para muitos parecem ser sinónimos as palavras «consciência», «processo
mental» ou
«pensamento». E, com efeito, até há pouco tal era a opinião dos
psicólogos. Agora,
porém, geralmente se aceita como facto que os processos mentais não se
limitam ao
campo da consciência e ensina-se que o campo dos processos mentais
pertencentes à
subconsciência (isto é, «sob a consciência» ou «abaixo da consciência»)
é muito mais
extenso do que o dos processos mentais conscientes.
Não somente é verdade que a mente pode conter em consciência um só facto
num só
instante e que consequentemente, só uma muito pequena fracção do nosso
conhecimento pode estar em consciência num momento dado, mas também que
a
consciência ocupa apenas uma parte muito pequena na totalidade dos
processos das
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suas próprias actividades. Maudesley diz
que somente dez por cento vêm ao campo da
consciência Taine afirmou-o nestas palavras: «Do mundo que constitui o
nosso ser,
percebemos apenas os mais altos pontos — os cumes iluminados de um
continente,
cujos lugares baixos estão em sombra».
Mas não é nossa intenção falarmos agora sobre esta inconsciente região
mental,
porque teremos que nos ocupar dela muito mais adiante.
Mencionámo-la aqui apenas para mostrar que o engrandecimento ou a
ampliação da
consciência é antes um «desenvolvimento» do que um «crescimento»; não se
trata ali de
uma nova criação ou aumento de fora, mas antes de um desenvolvimento que
se faz do
interior ao exterior.
Desde os princípios rudimentares da vida podemos encontrar — entre as
partículas de
substância inorgânica, traços de alguma coisa como sensação e a reacção
por ela
provocada. Por muito tempo, não quiseram os escritores dar a este
fenómeno o nome de
«sensação» ou «sensibilidade», por lembrarem estes termos demasiadamente
os
«sentidos» e os «órgãos dos sentidos». Mas a ciência moderna não hesitou
em empregar
esses nomes; os mais adiantados escritores científicos afirmam que, em
reacção ou
correspondência química, etc., se podem ver indicações de sensações
rudimentares.
Haeckel diz: «Não posso imaginar o mais simples processo químico e
físico, sem atribuir
o movimento das partículas materiais a uma sensação inconsciente. A
ideia de afinidade
química consiste no facto de os vários elementos químicos perceberem as
diferenças
qualitativas noutros elementos e experimentam «prazer» ou «repulsão» em
contacto com
eles e sobre esta base executam os seus movimentos específicos». Ele
fala também da
sensibilidade do «plasma» ou da substância dos «corpos vivos», como
sendo «apenas
um grau superior da geral irritabilidade da substância».
Os químicos falam da reacção química entre os átomos como de uma reacção
«sensitiva». Encontra-se sensibilidade até nas partículas de substância
inorgânica e
podemo-la considerar como primeiros vislumbres de pensamento. A ciência
reconhece
este facto, quando chama à sensação inconsciente das partículas
aethesis
ou
«sentimentos», e à vontade inconsciente que a isto corresponde,
tropesis
ou
«inclinação». Haeckel diz: «A sensação percebe as diferentes qualidades
dos estímulos e
sente a quantidade».
E mais adiante diz: «Podemos atribuir o sentimento de prazer e dor (no
contacto com
átomos qualitativamente diferentes) a todos os átomos, e assim explicar
a afinidade
electiva na química (atracção de átomos que se combinam, inclinação;
repulsão de
átomos que se não combinam, afastamento)».
É impossível formarmos uma ideia clara ou inteligente do fenómeno de
afinidade
química, etc., sem que atribuamos aos átomos algo semelhante à sensação.
Igualmente é
impossível compreender as acções das moléculas senão pensando nelas como
possuidoras de algo semelhante à sensação. A lei de atracção baseia-se
nos estados
mentais da substância. A reacção da substância inorgânica à
electricidade e ao
magnetismo é também outra evidência de sensação e a respectiva
correspondência.
Nos movimentos e operações da vida do cristal encontramos evidências de
formas
ainda mais altas de sensação e reacção à mesma. A acção de cristalização
é muito
semelhante à acção de algumas formas plásmicas inferiores. Com efeito,
afirma-se que o
«elo que faltava» entre a vida vegetal e os cristais foi encontrado
nalgumas recentes
descobertas da ciência, tendo-se achado a conexão em certos cristais, no
interior de
plantas que são compostas de combinações de carbono e muito se
assemelham aos
cristais inorgânicos.
Os cristais crescem em certas linhas e formas até certo tamanho. Depois
começam a
formar «cristais-crianças» na sua superfície e estes se desenvolvem e
crescem — sendo
os processos quase análogos à vida das células. Em alguns corpos
químicos foram
descobertos processos que se assemelham à fermentação.
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Há muitos motivos para se dizer que
devemos procurar o princípio da vida mental nos
minerais e nas partículas — e estas, lembrêmo-lo, compõem não só a
substância
inorgânica, como também a orgânica.
À medida que nos adiantamos na escala da vida, encontramos um sempre
maior
desenvolvimento do processo mental; as manifestações simples dão lugar
às complexas.
Passando por simples processos vitais das «moneras» ou seres
constituídos de uma só
célula, notamos as formas superiores da vida celular, com sensibilidade
ou sensação
sempre maior. Depois chegamos aos grupos de células em que as células
individuais
manifestam a sensação de uma espécie, unida à sensação de comunidade;
como
resultado disto, distingue-se, escolhe-se e toma-se o alimento,
exercendo movimentos. O
ser vivo começa a manifestar estados mentais inferiores e aqui notamos
vários
fenómenos que indicam um aumento de sensibilidade, apesar de não haver
praticamente
sinais de órgãos especiais para os sentidos. Em seguida passemos à vida
de vegetais do
grau superior, onde começam a manifestar-se algumas «células sensitivas»
ou grupos de
tais células, que são órgãos rudimentares dos sentidos. Depois vêm as
formas de vida
animal em que, a par do aumento de sensações e desenvolvimento do
aparelho sensório
ou órgãos dos sentidos se desenvolvem gradualmente os sistemas nervosos.
Entre os animais inferiores há vários graus de processos mentais a que
acompanham
centros nervosos e órgãos de sentidos, mas há poucos ou nenhuns sinais
da consciência,
que se eleva gradualmente, encontrando-se dela vislumbres na espécie
réptil, etc., e
melhor expressão e um grau de pensamento inteligente nas formas
superiores, até que
chegamos aos mamíferos, entre os quais o cavalo, o cão, o elefante, o
macaco, etc., que
possuem cérebros e sistemas nervosos complexos e uma consciência bem
desenvolvida.
Não precisamos deter-nos mais nas formas de processo mental nas espécies
de vida
abaixo do grau de consciência, porque nos afastaríamos muito do nosso
assunto.
Entre as formas superiores da vida animal encontramos, depois de um
«período de
alvor» ou semi-consciência, formas de vida entre os animais inferiores
que possuem um
bem desenvolvido grau de acção mental e de consciência, a que os
psicólogos chamam
«consciência simples»; consideramos, porém como demasiado indefinido
este termo, e
propomos substituí-lo pelo termo «consciência física», que esclarecerá
melhor a ideia.
Empregamos a palavra «físico» em dois sentidos: com a significação de
«externo» e de
«relativo à estrutura material de um ser vivo»; ambas definições se
encontram nos
dicionários. A consciência física é, na realidade, um «despertamento» na
mente ou uma
«consciência» do mundo «externo» como é evidenciado pelos sentidos co
«corpo» do
animal ou da pessoa. O animal ou a pessoa cujos pensamentos estão no
piano da
consciência física (todos os animais são incapazes, e muitos homens
parecem também
ser incapazes de se elevarem acima deste plana), identificam-se com o
corpo físico e é
consciente apenas dos pensamentos deste corpo e do mundo exterior. Eles
«sabem»,
mas não «sabem que sabem», porque não são conscientes das operações
mentais, nem
da existência da sua mente.
Esta forma de consciência, embora infinitamente acima do processo mental
do
inconsciente plano de «sensação», é um mundo de pensamentos bem
diferente da
consciência do homem intelectual da nossa época e raça, bem
desenvolvido.
É difícil ao homem formar uma ideia da consciência física dos animais
inferiores e dos
selvagens, principalmente quando quase não compreende a sua própria
consciência a
não ser pelo acto de ser consciente. Pela observação e pelo raciocínio,
porém, podemos
chegar a entender o que há de ser esta consciência física da vida animal
— ou não
menos em que difere ela da nossa própria consciência. Façamos uma
comparação. Um
cavalo que está fora da estrebaria, apanhando chuva e frio sente
indubitavelmente o seu
estado desagradável e talvez dor, porque sabemos pela observação que os
animais
sentem estas coisas. Mas ele não é capaz de analisar o seu estado mental
e de admirarse que o seu dono não saiba e não vem até ele — é incapaz de
pensar que é crueldade
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deixá-lo fora a este frio e chuva, em vez
de o abrigar na estrebaria quente — não é capaz
de pensar se amanhã torna a sofrer a intempérie — nem de ter inveja dos
cavalos que
estão abrigados — nem de se admirar porque o dono o deixa fora em noites
frias, etc.,
etc. — em poucas palavras, ele não pensa como pensaria, em tais
circunstâncias, Um
homem que raciocina. O cavalo percebe o seu triste estado, assim como o
perceberia o
homem — e correria a procurar abrigo, se pudesse, da mesma forma que o
homem faria.
Mas o animal não é capaz de lamentar o seu estado, nem de pensar da sua
personalidade como o faria o homem, e não pergunta se tal vida vale a
pena viver ou não. Ele
«sabe» — mas não é capaz de pensar de si como quem «sabe que sabe». Ele
sente
aflição e dor física, mas não a aflição e dor mental.
O animal não pode transpor a sua consciência das sensações do mundo
externo aos
estados internos do ser. É incapaz de «conhecer-se a si mesmo». A
diferença pode ser
toscamente representada pelo exemplo de um homem que sente, vê ou ouve
alguma
coisa que lhe dá uma sensação agradável ou desagradável. Ele é cônscio
desse
sentimento ou sensação de que é agradável ou desagradável. Esta é a
consciência física
e o animal tem-na também. Mas este não vai além desta consciência
física, ao passo que
o homem começa a admirar-se porque a sensação é admirável, e associa
esta sensação
com outras coisas e pessoas; ou especula parque lhe desagrada, qual será
a
consequência, etc. — e assim manifesta a consciência mental, porque
reconhece Um
«eu» interno e dirige a sua atenção ao interior.
Pode ver outro homem e experimentar um sentimento ou sensação de
atracção ou
aversão — agrado ou desagrado: isto é, consciência física; e o animal
também pode
experimentar tal sensação. Mas o homem vai mais longe do que o animal e
admira-se
porque a pessoa em questão lhe agrada ou repugna; pode fazer comparação
entre si e
outrem e pergunta-se se este sente o mesmo que ele, etc.; isto é
consciência mental.
O olhar mental nos animais dirige-se livremente para o exterior e nunca
torna a si
mesmo. No homem, a atenção mental pode ser dirigida ao interior ou
voltar ao interior
depois de uma excursão ao exterior. O animal «sabe»; o homem não só
«sabe», mas
«sabe que sabe», e é capaz de investigar este «saber» e especular a seu
respeito. A esta
consciência superior chamamos «consciência mental». A operação da
consciência física
damos o nome de instinto; à operação da consciência mental damos o nome
de
raciocínio.
O homem que tem a consciência mental, não só «sente» ou «percebe com os
sentidos» as coisas, como também possui palavras ou conceitos mentais
destes
sentimentos e sensações e pode pensar sobre si mesmo como
experimentando-os,
separando a si mesmo, sensação ou sentimento, e o objecto sentido ou
percebido. O
homem é capaz de pensar: «Eu sinto; eu ouço, eu vejo; eu cheiro; eu
apalpo; eu provo;
ou desejo; eu faço, etc. Estas palavras indicam a consciência mental
reconhecendo os
estados mentais e dando-lhes nomes, e reconhecendo também algo chamado
«Eu» que
experimenta as sensações. Este facto levou os psicólogos a falarem deste
estado como
de «consciência de si mesmo»; mas nós reservamos esta ideia de
«consciência do «Eu»
para um estado mais alto.
O animal experimenta alguma coisa que lhe dá as impressões ou o
sentimento que
denominamos «dor», «aflição», «prazer», «agradável», «doce», «amargo»,
etc.; tudo isto
são formas de sensação, mas o animal é incapaz de pensar nelas em
palavras. A dor
parece ser uma parte dele mesmo, embora associada, talvez, com uma
pessoa ou coisa
que a provoca. O estudo do desenvolvimento da consciência numa criança
dar-nos-á uma
ideia melhor dos graus e das distinções do que se pode obter da simples
leitura destas
linhas.
A consciência mental tem um crescimento. Como diz Halleck: «Muitas
pessoas nunca
têm mais que uma nebulosa ideia de tal atitude mental. Não se preocupam
com o seu
«Eu», não dirigem a sua atenção para o interior». Houve dúvidas sobre a
questão se os
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selvagens têm ou não desenvolvida a
consciência de si próprios, e até muitos homens da
nossa própria raça parecem estar muito pouco acima dos animais quanto ao
intelecto e à
consciência. Parece que não são capazes de ter nenhum vislumbre de
conhecimento de
si próprios. Para eles, o «Eu» parece ser uma coisa puramente física —
um corpo que
tem desejos, sentimentos, e pouco mais. Eles são capazes de sentir um
acto, mas é tudo.
Não são capazes de par de lado um «Não-Eu» físico e são totalmente
incapazes de
pensar sobre si como sendo alguma coisa mais que um corpo. Para eles, o
seu «Eu» e o
corpo são a mesma coisa, pois não podem distinguir entre ambos.
Depois vem um outro estado em que começa a manifestar-se a consciência
mental
própria. O homem começa a reconhecer que tem «uma mente». É capaz de
«conhecer-se
a si mesmo» como um ser mental, e a voltar o seu olhar um pouco ao
interior. Este
período de desenvolvimento pode ser observado nas crianças. Por algum
tempo elas
falam de si como de uma terceira pessoa, até que, finalmente, começam a
dizer «Eu».
Um pouco mais tarde vem a capacidade de conhecerem os seus próprios
estados
mentais como o que são: sabem que têm uma mente e podem fazer a
distinção entre ela
e o corpo. Conta-se que algumas crianças sentem uma coisa como susto,
quando entram
nesta fase.
Começam a sentir vergonha e o que geralmente se denomina «consciência
própria»
neste sentido. Alguns nos contaram que os anos em que chegaram a
conhecer-se como
uma entidade, foram perturbados pelo sentimento de se acharem sós e
separados do
universo. Muitos jovens sentem isto durante alguns anos. Parece que há
neles um distinto
sentimento de que o universo lhes é antagonista e estranho — que são
entidades à parte
do universo.
E, embora este sentimento de separatividade e apartamento se torne menos
forte à
medida que o homem progride em idade, sempre o acompanha, em maior ou
menor grau,
até uma fase mais elevada — até que o homem alcança a consciência do Eu;
somente
então desaparece, como veremos. Esta fase mental é muito dura para
muitos. Eles estão
enleados numa porção de estados mentais que tomam por seu «Eu», e o
combate entre o
«Eu» real e os seus envoltórios limitativos é doloroso. E torna-se ainda
mais doloroso
quando se aproxima do fim, porque à proporção que o homem se adianta em
consciência
mental e em conhecimento, sente mais vivamente e sofre mais, em
consequência disto. 0
homem come o fruto da árvore do conhecimento e começa a sofrer, sendo
expulso do
jardim do Éden das raças infantis e primitivas, que vivem como as aves
nos ares e não se
incomodam com os estados mentais e problemas que estes apresentam.
Há, porém, salvação do estado em que o homem caiu, achando-se na forma
de uma
consciência superior, Embora poucos sejam os que vêm a senti-la e ainda
menos o
número dos que a atingiram. Pode ser que esta lição abra o caminho a
esta consciência
superior a vós.
Com o nascimento da consciência mental vem o conhecimento de que há uma
mente
nos outros. O homem é capaz de especular e raciocinar sobre os estados
mentais de
outros homens, porque reconhece estes estados em si mesmo. A medida que
se adianta
em consciência mental, desenvolve sempre mais o intelecto e,
consequentemente, atribui
a maior importância a esta parte da sua natureza. Alguns adoram o
intelecto como um
Deus, ignorando as limitações que nele descobriram outros pensadores.
Estas pessoas
opinam que, quando o intelecto humano (no seu presente estado de
desenvolvimento) diz
que isto ou aquilo há-de ser, ou não pode ser, já por isso mesmo é certo
que é verdade o
que o intelecto afirma. Eles ignoram o facto de ser possível que o
intelecto humano, no
seu presente estado de desenvolvimento, seja capaz de tomar conhecimento
apenas de
uma muito pequena parte do facto universal, e que podem existir regiões
e regiões de
realidade e facto, das quais nem temos a menor ideia, porque estão muito
longe da nossa
experiência. O desenvolvimento de um novo sentido abriria um novo mundo
e traria à luz
factos que revolucionariam completamente todo o nosso mundo de
concepções, por
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causa da nova informação que obteríamos.
Mas, apesar disso, foi desta consciência mental que veio a admirável
actividade do
intelecto que se manifesta nas conquistas e obras do homem até ao
presente tempo; e,
embora nos vejamos obrigados a reconhecer suas limitações, não deixamos
de cantar
louvores em honra do intelecto. A razão é o instrumento com que o homem
faz
escavações nas minas dos factos, encontrando ali diariamente novos
tesouros. Esta fase
da consciência mental traz ao homem o conhecimento de si mesmo e o
conhecimento do
universo, que vale o preço com que se adquire; porque o homem paga a
entrada nesta
região, e mais paga quanto mais se adianta, e quanto mais se adianta
tanto mais vivo é o
seu sentimento e sofrimento, bem como o prazer.
A capacidade de sentir dor é o preço que o homem paga da sua admissão a
um certo
grau. A sua dor passa da consciência física à consciência mental,
apresentam-se-lhe
problemas de cuja existência nunca sonhou. A falta de uma solução
inteligente produz
sofrimento mental. E o sofrimento mental que lhe vem de aspirações não
satisfeitas, do
desengano, da dor de outros a quem ama, etc., é muito pior do que um
sofrimento físico.
O animal vive a sua vida animal e está contente, porque não sabe de nada
melhor.
Tendo bastante comida, um lugar para dormir e um companheiro, é feliz.
Alguns homens
são também assim. Mas outros sentem-se envolvidos num estado de aflições
mentais.
Novos desejos se apresentam e, não podendo satisfazê-los, o homem se
aflige.
A civilização torna-se sempre mais complexa e traz consigo tantas novas
dores, como
novos prazeres. O homem apega-se às «coisas» e, cada dia, cria novas
necessidades
para si, que já não são naturais, mas artificiais, e cuja satisfação
exige trabalho. O seu
intelecto não o conduz ao alto, mas incita-o a inventar novos e mais
subtis meios e
caminhos para satisfazer os seus sentidos num grau impossível aos
animais. Alguns
homens fazem uma religião da satisfação da sensualidade, dos apetites, e
vêm a ser
bestas engrandecidas pelo poder do intelecto. Outros tornam-se vaidosos,
orgulhosos e
crentes da imaginação da sua personalidade (o falso «Eu»). Outros se
tornam
morbidamente introspectivos e gastam o tempo com a análise e dissecação
dos seus
hábitos, motivos, sentimentos, etc. Outros exaurem a sua capacidade para
o prazer e a
felicidade, mas olhando para fora, em vez de procurarem no interior,
ficam estragados,
aborrecidos, contraindo-se a si mesmos habitualmente. Mencionamos isto
não como
pessimistas mas simplesmente Para mostrar que até esta grande
consciência tem a face
clara que a faz agradável.
Quando o homem atinge um grau elevado da sua consciência mental e começa
a
distinguir outro grau mais alto ainda, começa a sentir, mais que antes,
a insuficiência da
vida como se lhe apresenta. É incapaz de se compreender a si mesmo, a
sua origem,
destino, fim e natureza, e dá pancadas nas barras da gaiola do intelecto
onde está preso.
Ele põe a si mesmo a pergunta: «Donde venho? Aonde vou? Qual é o objecto
da minha
existência?» Não se dá por satisfeito com as respostas que o mundo deu a
estas
questões, e clama desesperado; porém somente o eco da sua própria voz
lhe vem, como
resposta, dos impenetráveis muros que o cercam. Ele não compreende que a
resposta
deve vir do interior — mas é assim.
A Psicologia pára quando chega aos limites da consciência mental ou,
como lhe
chama, «consciência de si mesmo», e nega que além dela haja alguma coisa
— algumas
regiões inexploradas da mente. Ela ri-se das palavras daqueles que
penetram mais longe
nos recessos do seu ser, e toma estas palavras por «sonhos»,
«fantasmas», «ilusões»,
«imaginações estáticas», «estados anormais», etc., etc. Há, entretanto,
escolas de
pensamento que ensinam que existem estes estados superiores e há pessoas
em todas
as raças e épocas que neles entraram e deles dão notícia. E nós julgamos
que as deveis
tomar em consideração.
Há dois planos de consciência de que achamos próprio falar, porque
obtivemos mais
ou menos informação a seu respeito. Há ainda outros planos superiores,
mas pertencem
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a fases mais elevadas de vida do que
aquelas de que aqui tratamos.
O primeiro destes pianos ou estados de consciência acima da «consciência
de si
mesmo» dos psicólogos (a que nós chamamos «consciência mental») pode ser
denominado «consciência do Eu», porque traz uma «percepção» da realidade
do Ego.
Esta percepção está muito acima da consciência de si mesmo, do homem que
é capaz
de distinguir «Eu» e «Tu», e dar-lhes nome.
É muito acima da consciência que torna o homem capaz, quando se eleva na
escala,
de distinguir entre o «Eu» e as múltiplas faculdades da mente que
reconhece como o
«Não-Eu», até que encontra na mente algo que não pode pôr de lado, e a
que chama
«Eu» — apesar de este estado ser já muito mais alto do que o da maioria
dos homens e é
um alto grau da realidade do objectivo da vida. Esta «percepção» da
realidade do Ego, de
que falamos, é um estado semelhante, mas ainda mais intenso e mais
completo. No alvor
da consciência do «Ego», o Ego reconhece-se ainda mais claramente e,
além disso, está
todo embebido de um sentimento e de uma percepção da sua própria
realidade, que
antes lhe era desconhecida. Esta percepção não é simples matéria de
raciocínio, é uma
«consciência», da mesma forma como a consciência física e mental, algo
diferente de
uma «convicção intelectual». É um saber, e não um pensar ou uma crença.
O «Eu» sabe
que é real — que tem as suas raízes na suprema realidade que forma a
base do universo,
e sabe que participa da sua essência. Não sabe o que é esta realidade,
mas sabe que é
real, e algo diferente de outra coisa do mundo no nome, forma, número,
tempo, espaço,
causa e efeito — algo transcendente e acima de toda a experiência
humana.
Conhecendo isto, sabe que não pode ser destruído nem ofendido; não pode
morrer,
pois é imortal; e que há algo que é a verdadeira essência do Bem atrás
dele, abaixo e até
nele. E nesta certeza e consciência há paz, entendimento e poder. Quando
ela vem na
sua plenitude, caem do homem a dúvida, o medo, o desassossego e o
descontentamento,
como as vestimentas usadas que se tiram para não vestir mais; o homem
acha-se vestido
de fé, que sabe ser coragem, sossego e satisfação. Então é capaz de
dizer com
entendimento e compreensão: «EU SOU».
Esta consciência do Ego vem a muitos como um alvor de conhecimento — a
luz que
se eleva por detrás dos outeiros. A outros vem gradual e lentamente,
porém em
abundância, e eles vivem agora na plena luz da consciência. A outros
veio como um raio
ou uma visão — como uma luz caindo do claro firmamento, ofuscando a
princípio, mas
deixando-os transformados, cromo outros homens e mulheres, possuindo
algo que não
pode ser descrito nem compreendido pelos que não o experimentaram. Este
último
estado denomina-se «iluminação» numa das suas formas.
O homem que tem a consciência do Ego não pode compreender o enigma do
universo, nem é capaz de dar a resposta às grandes questões da vida; mas
cessou de se
afligir por causa delas — não o perturbam mais. Pode aplicar sobre elas
o seu intelecto
como anteriormente, porém nunca com o sentimento como se a sua
felicidade ou a paz
da mente dependessem da solução destas questões. Ele sabe que está com o
pé em
cima de uma sólida rocha e que não corre perigo, ainda que as
tempestades do mundo da
matéria e força se desencadeiem ao redor dele. Ele sabe isto e outras
coisas mais. Não
pode prová-lo a outro, porque estas coisas não se deixam demonstrar por
argumento —
ele mesmo não as adquiriu por este caminho. E, por isso, fala pouco de
tudo isso, mas
vive a sua vida como se nada soubesse dessas coisas — se se quer julgar
pelas
aparências externas.
Interiormente, porém, é um homem transformado; a sua vida é diferente da
vida dos
seus irmãos porque, enquanto as almas destes se entregam ao sono e a
sonhos que os
agitam e perturbam, a sua alma está desperta e contempla o mundo com os
olhos claros
e sem medo.
É verdade que nesta consciência há diferentes fases ou graus, assim como
os há nos
pianos inferiores de consciência. Alguns possuem-na num pequeno grau, ao
passo que
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outros a têm em abundância. Talvez esta
lição esclareça a alguns dos leitores o que lhes
«aconteceu» e de que hesitam falar aos seus mais íntimos amigos ou
companheiros de
vida. A outros poderá abrir o caminho a uma realização mais completa.
Esperamo-lo
sinceramente, pois o homem começa a viver apenas quando conhece a
realidade do
«Eu».
Há um grau ainda mais alto do que este que acabamos de mencionar, mas
são muito
poucos os homens da actual geração que o experimentaram. Notícias sobre
ele vêm de
todos os tempos, de todas as raças, de todos os países. Este estado foi
denominado
«consciência cósmica» e designa-se como uma percepção da unidade de
vida, isto é, a
consciência de que o universo está cheio de uma só vida; é uma real
percepção e clara
compreensão do facto de que o universo é cheio de vida, movimento e
mente, e que não
existe força cega nem matéria morta, porque tudo vive, vibra e tem
inteligência. Esta
descrição, com efeito, é a do universo real, que é a essência ou o
fundamento do universo
de matéria, energia e mente. Aqueles que obtiveram vislumbres deste
estado, dizem que
vêem o universo como Tudo sendo Mente — que Tudo, afinal, é Mente. Esta
forma de
consciência foi experimentada por poucos homens, que, aqui e acolá, em
momento de
«iluminação», declararam achar-se em contacto com o saber e a vida
universais, sendo
impossível de descrever, e que este sentimento era acompanhado de uma
alegria que
não se pode compreender.
A respeito desta «consciência cósmica», diremos que é mais que uma
crença ou
reconhecimento dos factos, pois uma verdadeira visão e consciência
destas coisas veio
no momento da iluminação. Alguns outros relatam que têm um profundo e
persistente
sentimento da realidade dos factos descritos pelos iluminados, mas não
chegaram a ter a
referida «visão» ou «êxtase».
Parece que estas pessoas têm sempre consigo o mesmo estado mental que
possuem
aqueles que tiveram a «visão» e ela desapareceu, deixando-lhes a
lembrança e o
sentimento, mas não a consciência real que tinham atingido naquele
momento. São
unânimes os testemunhos quanto às particularidades essenciais.
O Dr. Maurice Bucke (já desencarnado), escreveu um livro com o título
«Consciência
Cósmica», onde relata um número destes casos, inclusive o seu próprio, o
de Walt
Whitman e de outros; ele opina que este grau de consciência está diante
da humanidade
e lhe pertencerá no futuro, tornandose gradualmente mais geral.
Ele julga que as manifestações desta consciência cósmica que foi
percebida por
alguns poucos, como acima dissemos, não são senão os primeiros arrebóis
do sol, a nós
dirigidos, os quais apenas profetizam a aparência do grande corpo
luminoso mesmo.
Não nos ocuparemos aqui longamente dos testemunhos de certos grandes
personagens religiosos do passado que, em momentos de grande exaltação
espiritual se
tornaram conscientes de «estar em presença do Absoluto» ou, talvez, no
raio da «luz da
Sua face». Temos muito respeito para cam estes testemunhos e temos toda
a razão para
acreditar que mulos são autênticos, a despeito das contradições que
encontramos nas
narrações dos que nos comunicaram as suas experiências. Estes conflitos
e contradições
provêm de que as mentes daqueles que tiveram esses vislumbres de
consciência não
estavam preparadas e treinadas para compreender plenamente a natureza
dos
fenómenos. Eles se acharam na presença espiritual de algo
assombrosamente grande e
de alta espiritualidade, cuja visão os ofuscou e perturbou
completamente. Não conheciam
a natureza do Absoluto e, quando voltaram a seu estado ordinário,
relataram que tinham
estado «na presença de Deus» — designando com a palavra «Deus» a sua
particular
concepção de deidade, quer dizer, a concepção que o seu particular credo
religioso ou a
sua seita atribui à deidade. A única razão por que eles identificaram
esse algo com a sua
particular concepção da deidade foi a ideia que tinham de que «isso
havia de ser Deus»;
e não conhecendo outro Deus a não ser a concepção de «Deus» como
imaginavam que
havia de ser. E as suas descrições foram conformes com isto.
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Assim as narrações de todas as religiões
estão cheias de casos a que se chamam
milagrosos.
O santo católico diz que «viu raios de luz da face de Deus» e o católico
afirma que viu
a Deus assim como o conhece. O maometano diz que Alá lhe permitiu ver a
Sua face por
um instante e o budista conta-nos que viu o Buda debaixo da árvore. O
bramanista olhou
a face de Brama e as diferentes seitas hindus têm seus próprios
testemunhos a respeito
das visões das suas deidades particulares. Encontramos narrações
análogas entre os
persas e até entre antigos egípcios. É por causa destas divergências que
julgamos que
não compreendem a natureza deste fenómeno, que tudo isso é «só
imaginação» e fantasia, senão engano e impostura.
Mas os yogues sabem que todas estas narrações variantes têm um fundo
comum de
verdade que aparece a quem investiga a matéria. Sabem que todas estas
narrações
(excepto algumas que .são fraudulenta imitação do fenómeno real) se
baseiam em
verdades e que só sofreram modificação devido às diferentes concepções
dos
observadores. Sabem que estas pessoas se elevaram temporariamente acima
do
ordinário plano de consciência e perceberam a existência de um Ser ou
Seres mais altos
que os mortais. Disto não se segue que viram a «Deus» ou o Absoluto,
porque há
inúmeros Seres espiritualmente muito desenvolvidos, que a um simples
mortal parecem
como um verdadeiro Deus. A doutrina católica sobre os anjos e arcanjos é
confirmada
pelos yogues que entraram «para o outro lado do véu» e nos dão a
descrição dos
«Devas» e outros seres adiantados. Assim, o yogue aceita estas narrações
e
testemunhos dos diferentes místicos, santos e homens inspirados e
explica-os por leis
que são perfeitamente naturais para os estudantes da Filosofia Yoga, mas
que parecem
sobrenaturais aos que não estudaram estas coisas.
Não podemos tratar mais desta fase do tema nesta lição, porque uma
discussão
completa nos levaria longe do assunto geral que temos diante de nós.
Desejamos, porém,
ser entendidos quando dizemos que há certos centros no ser mental do
homem, dos
quais se torna clara a existência do Absoluto e de mais altas ordens de
seres.
Com efeito, é destes centros que vem ao homem aquela parte dos seus
mentais
«sentimentos» que ele denomina «instinto religioso» ou «intuição». Não é
por meio do
intelecto que o homem chega a esta consciência de «alguma coisa além»;
ela é o
vislumbre da luz que vem dos centros mais altos do «Eu». O homem nota
estes raios de
luz, mas não os compreendendo, põe-se a elaborar estruturas teológicas e
credos para os
explicar; isto, porém, é obra do intelecto, a que sempre falta aquele
«sentimento» que só
a intuição mesma possui. A verdadeira religião, qualquer que seja o nome
sob que está
mascarada, vem; do «coração» e não é corroborada ou satisfeita com essas
explanações
intelectuais, e disto provém aquele desassossego e a procura de
satisfações que se nota
no homem que começa a romper o véu.
Por agora concluímos estas nossas considerações, que completaremos numa
das
lições futuras, tratando delas em conexão com outros assuntos. Como já
dissemos, as
nossas duas próximas lições tratarão das religiões fora da consciência
do homem
ordinário. Haveis de achar muito interessantes e instrutivas estas
pesquisas, que a muitos
de vós abrirão novos campos de pensamento.
Mantram (afirmação)
Eu
Sou um Ser muito maior e mais alto do que as concepções que de mim até
agora
tenho feito. Estou-me desenvolvendo gradualmente, porém com segurança,
para entrar
em mais altos planos de consciência.
Constantemente estou a progredir e a subir.
O meu alvo é o pleno conhecimento do verdadeiro «Eu» e saúdo, animado,
todo o
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grau que
me conduz ao objectivo.
« Eu Sou uma manifestação da REALIDADE ». Eu SOU.
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INDICE
LIÇÃO VIII - AS ALTURAS E PLANÍCIES DA MENTE
O
«Eu» de cada um de nós tem um veículo de expressão a que chamamos mente;
mas este veículo é muito maior e muito mais complexo do que podemos
conceber. Como
disse um escritor: «O nosso «Eu» é maior do que nos é conhecido; tem
altos montes
acima e planícies abaixo do planalto da nossa experiência consciente.
Aquilo que
conhecemos com o nome de «mente consciente», não é a alma. Ele não é uma
parte
daquilo que conhecemos como consciência; mas, ao contrário, aquilo que
conhecemos
como consciência é apenas uma pequena parte da alma — o veículo
consciente do «Eu»,
que é muito maior.
Os yogues têm sempre ensinado que a mente tem muitos planos de
manifestação e
acção, e que muitos desses planos operam acima e abaixo do piano da
consciência. A
ciência ocidental começa a reconhecer este facto e suas teorias sobre
este assunto
podem se achadas em obras mais modernas que tratam de psicologia.
Mas a ciência ocidental chegou a este ponto somente na idade moderna.
Até há
poucos anos, os livros científicos diziam que a consciência e a mente
eram sinónimos e
que a mente era consciente de todas as suas actividades, mudanças e
modificações.
Leibnitz foi um dos primeiros filósofos ocidentais que exprimiu a ideia
de que existiam
planos de actividade mental fora do plano de consciência. E desde aquele
tempo, foram
os primeiros pensadores mais adiante nesta direcção, devagar, é verdade,
porém com
segurança.
Presentemente admite-se que pelo menos noventa por cento das nossas
operações
mentais têm lugar no domínio extra-consciente. O professor Elmer Gates,
um cientista
bem conhecido, disse: «Pelo menos noventa por cento da nossa vida é
subconsciente. Se
analisais as vossas operações mentais, achais que o pensar consciente
nunca segue
uma contínua linha de consciência, mas sim uma série de dados
conscientes com
grandes intervalos de subconsciência. Estamos sentados e esforçamo-nos
por resolver
um problema e não podemos. Levantámo-nos, damos um passeio e
experimentámos de
novo, outra vez sem resultado. De repente, vem-nos uma ideia que conduz
à solução do
problema. Esta ideia foi o resultado de processos subconscientes que
corriam na mente,
sem que a parte consciente os percebesse. Nós não criamos à vontade o
nosso próprio
pensar; este processo faz-se em nós; nós somos mais ou menos recipientes
passivos.
Não podemos mudar a natureza de um pensamento ou de uma verdade, mas
podemos,
por assim dizer, dirigir o navio, movendo o leme. A nossa mente (isto é,
actividade mental)
é, na maior parte, o resultado do grande Todo Cósmico agindo sobre nós».
«Sir» William Hamilton diz que a esfera da nossa consciência não passa
de um
pequeno círculo, no centro de uma esfera de acção e pensamento muito
mais larga, de
que somos conscientes dos seus efeitos.
Taine diz: «Por fora de um pequeno círculo luminoso, há um grande anel
de
crepúsculo e, atrás deste, uma noite indefinida; mas os acontecimentos
neste crepúsculo
e nesta noite são igualmente reais, como os que se dão no círculo
luminoso».
Sir Oliver Lodge, o eminente cientista inglês, fala dos planos da mente
assim:
«Imaginai um monte de gelo, que se orgulha da sua solidez e do brilho do
seu cume,
prestando pouca atenção à sua parte submersa ou à região que o suporta
ou ao líquido
salino de que proveio e em que há-de tomar a cair um dia. Ou, usando de
outra metáfora,
podemos comparar o nosso presente estado ao casco de um navio mergulhado
num
escuro oceano, no meio de monstros estranhos, em que percorremos
cegamente o
espaço, orgulhosos, talvez, de acumular alguns mariscos como decoração,
reconhecendo
o nosso destino somente quando batemos contra a doca; sem conhecimento
da coberta e
dos camarotes acima de nós, ignorando a existência do mastro e das velas
— não tendo
ideia do sextante, da bússola nem do comandante, nem enxergando o vasto
horizonte;
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não
avistando os objectos que estão muito acima —os perigos que devemos
evitar – os
pontos a que devemos chegar — não podendo falar com os outros navios a
não ser por
meio de contacto corporal uma região de sol e nuvens, espaço, percepção
e inteligências,
sendo totalmente inacessíveis às partes que estão abaixo do nível».
Pedimos aos nossos estudantes que leiam atentamente as citadas palavras
de Sir
Oliver Lodge, porque exprimem muito clara e atentamente o estado actual
dos planos
mentais, pertencendo às melhores passagens das obras dos escritores
ocidentais. E há
outros escritores ocidentais que observaram e descreveram estes domínios
extraconscientes.
Lewes disse: «É certo que, em cada acto de volição consciente, a maior
parte é
totalmente inconsciente. Igualmente é certo que, em cada percepção, há
processos
inconscientes de reprodução e inferência. Na meia distância há
subconsciência; e no
fundo há inconsciência».
Taine diz-nos que: «Os acontecimentos mentais imperceptíveis à
consciência são
muito mais numerosos do que os outros; do mundo que constrói a nossa
existência, só
percebemos os pontos mais altos — os cumes iluminados de um continente,
cujos níveis
mais baixos permanecem na sombra. Abaixo das sensações ordinárias estão
os seus
componentes, isto é, as sensações elementares que precisam ser
combinadas em grupos
para virem à nossa consciência».
Maudsley diz: «Examinai bem e sem preconceitos as ordinárias operações
mentais da
vida quotidiana, e achareis que a consciência não funciona nem na décima
parte do que
se lhe costuma atribuir. Em cada estado consciente operam energias
conscientes,
subconscientes e infraconscientes, sendo estas tão indispensáveis como
aquelas».
Oliver Wendell Holmes diz: «Há pensamentos que nunca se apresentam à
consciência, mas cuja influência se sente no meio das correntes mentais
perceptíveis do
mesmo modo que os planetas invisíveis têm influência sobre os movimentos
dos que são
observados e registados pelos astrónomos».
Muitos outros escritores nos deram exemplos e provas da operação dos
extraconscientes pianos de pensamento. Um deles escreveu que, quando a
solução de
um problema sobre o qual tinha trabalhado em vão por muito tempo, se lhe
apresentou
num momento lúcido na mente, estremeceu como em presença de um outro ser
que lhe
comunicou o segredo. Cada um de nós experimentou que, não se podendo
lembrar de
um nome ou outra coisa semelhante, e deixando de pensar nisso, de
repente obteve a
desejada recordação alguns minutos ou algumas horas mais tarde. Alguma
coisa na
nossa mente continuou a procurar a palavra esquecida, até que a achou e
apresentou.
Um escritor fala de «ruminação inconsciente» que se produzia nele quando
lia livros
em que se apresentavam novos pontos de vista, essencialmente opostos às
suas
opiniões prévias. Depois de dias, semanas ou meses, achava, com grande
admiração
sua, que as opiniões velhas estavam todas revistas e reajustadas e
opiniões novas
colocadas no seu meio. Muitos exemplos desta digestão e assimilação
mental
inconscientes se encontram nos livros que tratam destes assuntos e foram
escritos nos
últimos anos.
Conta-se que Sir W. R. Hamilton descobriu as equações quaternárias
quando, um dia,
passeava com a sua esposa no observatório, em Dublin. Ele relata que
sentiu,
subitamente, «o círculo galvânico do pensamento» fechado e as centelhas
que dele
caíram eram as fundamentais relações matemáticas do seu problema, que
agora é uma
lei importante na matemática.
O Dr. Thompson escreveu: «As vezes sinto que é inútil qualquer esforço
voluntário e
que a matéria opera claramente na minha mentalidade. Muitas vezes me
pareceu que eu
era, na realidade, um passivo instrumento nas mãos de uma pessoa que não
era eu. Para
ver os resultados destes processos inconscientes, acostumei-me a reunir
de antemão o
material e deixar, depois, a massa para ser digerida por si mesma, até
estar pronto a
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escrever
sobre o assunto. Interrompi, por um mês, a composição do meu livro
«Sistema
de Psicologia», mas continuei lendo as autoridades. Não pensei mais no
livro. Observei
com interesse os transeuntes que passavam pelas janelas. Uma noite,
quando eu estava
a ler o jornal, apresentou-se claramente à minha mente a parte que
faltava no meu livro, e
então pus-me a escrever. Isto é um só exemplo de muitas experiências
semelhantes».
Berthelot, o fundador da Química Sintética, diz que as experiências que
o conduziram
às maravilhosas descobertas, nunca eram o resultado de esboços mentais
cuidadosamente traçados — ou resultado de processos puramente
intelectuais — mas
que lhe vinham por si mesmos, como se caíssem do céu.
Mozart escreveu: «Eu não posso dizer como produzo as minhas composições.
As
minhas ideias correm, sem que eu saiba de onde ou como vêm. Não ouço na
minha
imaginação as partes sucessivamente, mas ouço-as como todas a um só
instante. O resto
é apenas uma tentativa de reproduzir o que ouvi».
O Dr. Thompson, acima referido, disse também: «escrevendo esta obra, fui
incapaz,
durante dias e semanas, de pôr em ordem o meu saber de um assunto, até
que percebi
na minha mente um esclarecimento, quando peguei na pena e escrevi sem
hesitação o
resultado. E fiz isto muito melhor, quando desviei a mente (consciente)
para o mais longe
possível do assunto sobre que estava a escrever».
O prof. Barret diz: «O mistério do nosso ser não se limita aos subtis
processos
fisiológicos que temos em comum com toda a vida animal. A nossa humana
personalidade contém forças mais potentes e superiores às que são
expressas pelo que
conhecemos como consciência, vontade ou razão. Há forças supranormais e
transcendentais, de que actualmente podemos observar apenas alguns
vislumbres; e
detrás e além das supranormais há abismos sem fundo, a essência divina
da alma: a
realidade final, de que a nossa consciência é apenas o reflexo ou fraca
percepção. Não é
meu propósito entrar em tão sublimes temas; eles hão-de ficar sempre
fora do escopo das
pesquisas humanas; nem é possível nos limites deste trabalho dar uma
concepção
adequada dessas misteriosas regiões da nossa complexa personalidade, que
se abrem à
investigação científica».
O Rev. Dr. Andrew Murray escreveu: «Mais profundo do que onde pode
entrar a alma
com a sua consciência está a matéria-espírito, que liga o homem a Deus;
e mais profundo
que a mente e os sentimentos e a vontade — nas profundidades invisíveis
da vida oculta
— mora o Espírito de Deus».
Este testemunho é importante, porque, provindo desta parte, corrobora e
reitera os
ensinamentos yogues a respeito do Espírito no interior.
Schofield escreveu: «A nossa mente consciente, comparada com a
inconsciente,
assemelhase ao espectro visível dos raios solares, comparado com a parte
invisível que
se estende indefinidamente em ambos os lados. Nós sabemos, agora, que a
maior parte
do calor vem dos raios infravermelhos que não mostram luz alguma; e a
maior parte das
mudanças químicas no mundo vegetal são o resultado dos raios
ultravioletas na outra
extremidade do espectro, que são igualmente invisíveis ao olho humano e
reconhecidos
somente pelos seus potentes efeitos. Na verdade, como estes raios
invisíveis se
estendem indefinidamente por ambos os lados do espectro visível, assim
podemos dizer
que a mente inclui não só a parte visível ou consciente e o que
denominais a
subconsciente, que está abaixo da linha vermelha, como também a mente
supraconsciente, que está do outro lado — todas aquelas regiões de alma
superior e vida
espiritual, de que nos tomamos vagamente conscientes apenas em certos
momentos,
mas que existem sempre e nos ligam com verdades eternas, de um lado, tão
certamente
como a mente subconsciente nos liga, por outro lado, com o corpo».
Os nossos estudantes saberão apreciar este testemunho do Dr. Schofield,
que é
idêntico aos ensinamentos da Filosofia Yogue, em relação aos planos
mentais. (Vejam-se
as «Catorze Lições de Filosofia Yogue»).
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Julgamos
que será bom citar ainda outros tópicos do Dr. Schofield, porque a sua
voz
confirma a doutrina fundamental dos yogues. O Dr. Schofield é um autor
inglês de obras
sobre psicologia e, por quanto nos é conhecido, não tem tendência alguma
para 'o
ocultismo, chegando às suas opiniões por meio de atentos estudos
científicos e
investigações conforme a psicologia ocidental, que tornam o seu
testemunho tanto mais
valioso, mostrando como a mente humana acha sempre o caminho para a
Verdade, por
qualquer direcção que siga, mesmo que tenha de abrir uma nova senda
através dos
matos, separando-se das estradas abertas por onde passaram outras
mentes, às quais
falta a coragem de uma Empresa tão árdua.
O Dr. Schofield escreve: «A mente, com efeito, está em contacto com
todos os
caminhos; de um lado, é inspirada pelo Todo-Poderoso, e, por outro lado,
dá energia ao
corpo, cuja vida toda é sustentada por ela. Podemos denominar a mente
supraconsciente
— a esfera da vida do corpo, e a mente consciente — a região
intermediária em que as
outras duas se encontram».
Continuando, o Dr. Schofield diz: «Diz-se que o Espírito de Deus reside
nos crentes,
mas, não obstante, como vimos, a Sua presença não é objecto de
consciência directa.
Incluiremos, pois, na região supraconsciente todas essas ideias
espirituais, junto com a
consciência (moral) — que é, no dizer de Max Müller, a voz de Deus —
sendo esta
consciência uma faculdade meio-consciente. Além disso, a região
supraconsciente — ,
como também a subconsciente — , compreende-se melhor quando a mente
consciente
não está activa. Visões, meditações, preces e até sonhos têm dado, sem
dúvida, ocasiões
de revelações, podendo-se citar muitos exemplos que provam que o
Espírito age
independente da acção do raciocínio ou da mente. Parece que a verdade é
esta: que a
mente, como um todo, é um estado inconsciente, sendo os seus registos
médios, com
exclusão das mais altas manifestações espirituais e as mais baixas
físicas,
alternadamente iluminadas em vários graus pela consciência (isto é,
percepção
consciente); e é a esta parte iluminada que se dá, em geral, o nome de
«mente» que
pertence, quando bem aplicado, à região inteira».
Oliver Wendell Holmes disse: «As ideias correm, muitas vezes
automaticamente, com
mais facilidade, quando se ouve um fraco discurso sem interrupção, que
contém ideias
suficientes para conservar a mente (consciente) em actividade. A
corrente de
pensamentos induzida costuma ser rápida e brilhante, em razão inversa à
força da
corrente indutiva».
Wundt diz: «Os processos lógicos inconscientes dão-se com uma certeza e
regularidade que seriam impossíveis se neles houvesse a possibilidade do
erro. A nossa
mente está tão felizmente constituída que nos prepara os mais
importantes fundamentos
de conhecimento, enquanto que nós não temos o menor entendimento do
modus
operandi.
Esta alma inconsciente, como um benévolo desconhecido, age e faz
provisões
em nosso benefício, pondo apenas os frutos maduros no nosso regaço».
Um autor escreve, numa revista inglesa, as seguintes interessantes
palavras: «Da
inconsciência vêm à nossa consciência intimações que a mente está pronta
a trabalhar,
com vigor e cheia de ideias». «As bases do nosso juízo estão muitas
vezes tão longe da
consciência que não as podemos avistar». «Que a mente humana inclui uma
parte
inconsciente; que processos inconscientes ocorridos nesta parte são
causas próximas da
consciência; que a maior parte da acção humana intuicional é um efeito
de uma causa
inconsciente; a verdade desta proposição é tão evidente que seria de
admirar se não a
conhecêssemos. A nossa conduta é influenciada por inconscientes
suposições a respeito
da nossa posição social e intelectual, e a posição da pessoa a que nos
dirigimos. A nossa
conduta em sociedade é inconscientemente bem diferente da nossa conduta
em casa.
Quando alguém se eleva a uma posição mais alta, muda subtil e
inconscientemente toda
a conduta, conforme o seu avanço». E Schofield acrescenta a esta última
sentença: «O
mesmo se dá, em menor escala, com os diferentes estilos e qualidades de
vestuário e os
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diferentes ambientes. Totalmente inconscientes, mudamos a nossa conduta,
o automóvel
e a moda, conforme as circunstâncias».
Jensen escreve: «Quando reflectimos em alguma coisa com toda a força da
mente,
podemos cair num estado de completa inconsciência, em que não só
esquecemos o
mundo exterior, mas até nada sabemos de nós mesmos e dos pensamentos que
passaram dentro de nós; isto dura uns instantes. Depois despertamos como
de um sonho,
e quase sempre aparece no mesmo momento o resultado das nossas
meditações
distintamente em nossa consciência, sem que saibamos como o obtivemos».
Bascom diz: «É inexplicável como as premissas que jazem sob a
consciência podem
chegar às conclusões na consciência; como a mente pode de propósito
apanhar um
movimento mental num ponto adintado, sem o ter seguido nos primeiros
passos».
Hamilton e outros escritores compararam a acção da mente à acção de uma
carreira
de bolas de bilhar, das quais uma é tocada e o ímpeto se transmite
através de toda a
carreira, mas somente a última bola se move realmente, ficando as outras
nos seus
lugares. A última bola representa o pensamento consciente e as outras a
mentalização
inconsciente.
Lewes, falando desta comparação figurada, diz: «Algo parecido, diz
Hamilton, parece
dar-se num trajecto de pensamento, levando Uma ideia e outra à
consciência, por meio
de uma sugestão que passa através de uma ou mais ideias que se não
elevam à
consciência. Este facto de que não somos conscientes da formação de
grupos, mas só de
um grupo formado, pode-nos esclarecer sobre a existência de
inconscientes juízos e
raciocínios, e inconscientes registos de experiência».
Muitos escritores falam do processo pelo qual a mente inconsciente
emerge
gradualmente, até que chega ao campo da consciência, e da inquietação
que acompanha
esse processo. Daremos alguns exemplos interessantes e instrutivos.
Maudsley diz: «É admirável como se pode tornar inquieta uma pessoa pela
obscura
ideia de algo que havia de ter dito ou feito, e de que se não pode
lembrar por mais esforço
que faça. A ideia esquecida esforça-se por chegar à consciência, e a
inquietação passa
quando essa ideia alcança o campo do pensamento consciente».
Oliver Wendell Holmes disse: «Há pensamentos que nunca entram na
consciência,
mas cuja influência, não obstante, se faz sentir no meio das correntes
mentais
perceptivas, do mesmo modo que os planetas invisíveis têm influência
sobre os planetas
conhecidos».
O mesmo autor observa: «Ouvi contar em Boston que um comerciante, deixou
de
pensar numa importante questão, por não a poder resolver. Mas continuou
a sentir tanta
inquietação no seu cérebro, que começou a temer uma paralisia. Depois de
haverem
passado algumas horas, veio-lhe a solução natural da questão, tendo sido
elaborada,
como ele julgou, naquele intervalo tão inquieto».
O Dr. Schofield dá alguns exemplos desta fase das operações dos planos
mentais
inconscientes. Escolheremos alguns que nos parecem mais interessantes:
«No ano passado — diz ele — fui a Phillmore Gardens para entregar umas
cartas a
um amigo. Pelo caminho surgiu em mim uma vaga inquietação, e uma voz me
parecia
dizer: «Penso que não levas as cartas». A razão consciente contrariou,
dizendo: «De
certo que as tens, pois tiraste-as da gaveta». O sentimento vago não se
deu por satisfeito,
mas não pôde replicar. Quando cheguei, verifiquei que não tinha as
cartas em nenhum
dos meus bolsos. Voltando a casa, achei-as na mesa da sala, onde as
tinha posto num
momento em que calçava as luvas».
«No outro dia, tinha de ir ver um doente em Folkestone, na localidade de
Shakespeare. Cheguei lá muito tarde e não parei, mas fui de carro até o
Pavilhão, onde
fiquei naquela noite, que era escura e chuvosa. No dia seguinte, às onze
horas, fui, a pé,
à procura do doente, sabendo a direcção geral, mas sem haver andado por
ali antes
disso. Cheguei à estrada geral e, depois de ter passado por certa volta,
comecei a sentir
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uma vaga
inquietação que me vinha à consciência, um sentimento de que tinha
deixado
atrás de mim a localidade. Perguntando pelo caminho, verifiquei que era
assim e o desvio
era onde começara a inquietação. Quando eu tinha passado por ali de
mate, era muito
escuro e chovia, mas algo visto do carro se tinha gravado
inconscientemente na minha
mentalidade».
O Prof. Kirchener diz: «A nossa consciência pode ter, num momento,
apenas uma
ideia clara. Todas as outras ideias são, nesse mesmo tempo, um tanto
escuras. Elas
existem na realidade mas, para a consciência, só potencialmente; isto é,
vagueiam, por
assim dizer, no nosso horizonte, ou abaixo do limiar da consciência. O
facto de que ideias
anteriores voltam subitamente à consciência, explica-se simplesmente
pelo facto de que
tinham continuado na existência física; e, às vezes, a atenção desvia-se
voluntária ou
involuntariamente do presente, e assim se torna possível o aparecimento
de ideias
anteriores».
Oliver Wendell Holmes diz: «As nossas diferentes ideias são como pedras
que servem
para nelas firmarmos os pés, passando por um arroio; não sabemos como
chegamos de
uma à outra; alguma coisa nos leva. Nós (a nossa consciência) não nos
ocupamos a
pensar em dar os passos. O espírito que cria e ensina, e que está dentro
de nós e não é
só nosso, encontra-se em toda a parte na vida real. Ele vem até nós como
uma voz que
quer ser ouvida; ele diz-nos o que devemos crer; ele constrói as nossas
sentenças, e nós
admiramo-nos, vendo como este visitante escolhe o nosso cérebro para sua
morada».
Galton diz: «O meu intuito foi mostrar como completos estados de
operação mental
que escaparam à consciência ordinária a ela podem! ser reduzidos».
Montgomery diz: «Percebemos constantemente que sentimentos não
provocados por
algum estado mental prévio, emergem do misterioso seio da inconsciência.
Com efeito,
todos os nossos mais vivos sentimentos são desta mística origem. De
repente, introduzse na consciência uma coisa que não queríamos nem
esperávamos. Alguma força
imponderável a produz e faz entrar na presença mental como um
constituinte sensorial.
Se havemos de supor vívida dependência de forças inconscientes para
explicar as mais
vívidas ocorrências mentais, quanto mais necessária é tal suposição para
esclarecer
aquelas fracas revivificações de sensações anteriores que são tão
numerosas na
constituição da nossa presença mental complexa!»
Sir Benjamim Brodie diz: «Muitas vezes me sucedeu que acumulei uma
porção de
factos, mas sem poder fazer mais que isso. Depois de algum intervalo de
tempo, achei
que desapareceram a obscuridade e a confusão que tinham existido na
minha mente
quanto a esses factos, e eles foram devidamente explicados e
classificados, sem que eu
tivesse feito algum esforço nesse sentido».
Wundt diz: «Não se pode aceitar a opinião tradicional de que a
consciência ocupa o
campo inteiro da vida interna. Na consciência são os actos psíquicos bem
diferentes uns
dos outros, e a própria observação leva a fazer delas unidades em
psicologia. Mas o
agente desta unidade está fora da consciência, conhecendo esta somente o
resultado do
trabalho feito no laboratório desconhecido que está abaixo dela. De
repente, nasce um
pensamento novo. A análise final de processos psíquicos demonstra que o
inconsciente é
o teatro da maior parte dos fenómenos mentais mais importantes. O
consciente é sempre
condicionado pelo inconsciente».
Greighton diz: «A nossa vida consciente é a soma destas entradas e
saídas. Detrás da
cena, como julgamos, acha-se uma vasta reserva, a que chamamos o
«inconsciente»,
formando-lhe o nome apenas pelo prefixo «in» que significa «não». A base
de tudo o que
está atrás da cena é simplesmente a negativa de consciência».
Maudesley diz: «O processo de raciocinar nada adiciona ao saber (no
raciocinador),
mas apenas exibe o que já havia e traz à possessão consciente o que
antes era
inconsciente». E adiante: «A mente pode fazer a sua obra sem o saber.
Consciência é a
luz que ilumina o processo, e não o agente que o executa».
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Walstein
diz: «Foi decerto pelo «Eu» subconsciente que Shakespeare percebia, sem
esforço, grandes verdades que se ocultam à mente consciente do
estudante; que Fídias
esculpia em mármore e bronze; que Rafael pintava madonas e Beethoven
compunha
sinfonias».
Ribot diz: «A mente recebe da experiência certos dados e elabora-os
inconscientemente segundo as suas leis próprias, e o resultado vem à
consciência».
Newman diz: «Quando nos surpreende uma coisa insólita, não é a coisa que
percebemos primeiro, mas sim a surpresa, e depois procuramos a causa;
assim a causa
agiu sobre o inconsciente para criar o sentimento, antes que a
consciência o
percebesse».
Um autor diz numa revista inglesa: «De quão transcendente importância é
o facto de a
parte inconsciente da mente estar em tal relação com a parte consciente,
como a lanterna
mágica ao disco luminoso que projecta; que a maior parte da acção
intencional, toda a
vida prática da grande maioria dos homens, é um efeito de ocorrências
tão distantes da
consciência, como o movimento dos planetas!»
O Dr. Schofield diz: «É verdade que o domínio da mente consciente há-de
ficar sendo
indefinido; ninguém pode dizer a que altura ou profundidade se pode
estender... Não
queremos decidir, aqui, até que ponto devem ser consideradas dentro ou
fora dos mais
baixos limites da mente inconsciente as inconscientes forças da vida
que, como se disse,
podem fazer ovos e penas dos grãos de milho, e leite e carne de vaca ou
de ovelha do
pasto. Basta-nos reconhecer-lhe o facto da existência; delineá-la nos
seus aspectos mais
importantes; e demonstrar que esta parte inconsciente merece o nome de
mente com o
mesmo direito que a parte que tem consciência. E assim voltamos à nossa
primeira
definição de mente, que é, como dissemos, a soma da acção psíquica em
nós, seja
consciente ou inconsciente».
Hartmann chama a nossa atenção para um facto muito importante, dizendo:
«O
inconsciente não adoece, nem toda a actividade mental consciente está
sujeita à fadiga».
Kant diz: «Ter ideias e, não obstante, não ser consciente delas — nisto
parece haver
contradição. Entretanto, podemos imediatamente sentir que temos uma
ideia, embora não
sejamos directamente dela conscientes».
Maudsley diz: «Pode parecer paradoxo afirmar não só que podem existir
ideias na
mente, sem que haja consciência delas, mas que uma ideia — ou série de
ideias
associadas — pode entrar em acção e produzir movimentos, sem que a mente
preste a
isso atenção. Quando uma ideia desaparece da consciência, não desaparece
necessariamente por completo; pode ficar latente sob o horizonte da
consciência e até
pode produzir um efeito sobre o movimento ou outras ideias, sento activa,
assim, no seu
estado latente».
Leibnitz diz: «Do facto de não percebermos um pensamento, não se pode
concluir que
ele não existe. É muito errónea a opinião que acredita que não há na
mente outra
percepção além daquela de que é consciente».
Oliver Wendel Holmes diz: «Quanto mais examinamos o mecanismo do pensar,
tanto
mais patente se nos torna aquela acção inconsciente anterior da mente
que entra, em
grande parte, em todos os seus processos. As pessoas que falam muito,
nem sempre
pensam muito. Eu duvido que as pessoas que pensam muito — isto é, por
cujas mentes
passam muitos pensamentos cônscios — necessariamente hajam de trabalhar
muito na
sua mentalidade. Cada nova ideia plantada na mente de um verdadeiro
pensador cresce
quando ele está menos cônscio dela».
Maudsley diz: «A humanidade passaria mal, se tivesse de agir sempre com
consciência do acto. Sem saber porquê, seguem os homens uma carreira,
para a qual
existem boas razões. E mais até. Os práticos instintos da humanidade
agem, muitas
vezes, para o benefício desta, ainda que estejam em contradição com as
doutrinas
professadas».
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O mesmo
escritor acrescenta: «As melhores ideias de um autor são aquelas que lhe
vêem espontâneas por si mesmas; o poeta, estando sob a influência da
actividade
criadora está longe de ser consciente».
Um autor diz numa revista inglesa: «Uma vez, aguardando um vapor no
trapiche, fui
ao primeiro que não era o procurado. Voltei e esperei — perdendo o meu
navio, que
estava do outro lado do trapiche, devido à suposição inconsciente, que
eu fizera, de que o
lugar onde esperei era o único para se esperar o vapor. Vi um homem
entrar num quarto
e sair por outra porta. Logo depois, vi um outro homem, exactamente
parecido com o
primeiro. Era o mesmo homem; mas eu disse que havia de ser seu irmão
gémeo,
supondo, inconscientemente, que não havia possibilidade para o primeiro
homem de
voltar por outra porta».
Maudsley diz: «A mais firme resolução ou projecto desvanece-se, muitas
vezes
improficuamente, quando chega o momento da acção, ao passo que a
verdadeira
vontade, que determina, talvez, um acto diferente, salta de repente do
abismo da natureza
inconsciente, surpreendendo e vencendo o pensamento cônscio».
Schofield diz: «A nossa influência inconsciente é a inconsciente
projecção da nossa
mente inconsciente e personalidade sobre outros. Esta projecção age
inconscientemente
sobre os seus inconscientes centros, produzindo efeitos no carácter e na
conduta, que
são reconhecidos pela consciência. Por exemplo, se um bom homem entra
numa sala
onde há conversas impróprias, a sua presença modifica e purifica
inconscientemente o
tom de toda aquela sala.
As nossas mentes projectam sombras de que nós somos ignorantes, como as
projectadas pelos nossos cornos, mas elas afeiçoam para o bem ou para o
mal todos os
cue vêm inconscientemente em seu contacto. Isto pode-se notar todos os
dias, e é
comum a todos, mas principalmente se observa esta forca em
personalidades vigorosas».
Agora temos dedicado bastante tempo e espaço à exposição das opiniões de
vários
escritores ocidentais a respeito destes planos mentais fora do campo da
consciência.
Dedicamos tanto espaço a estes valorosos testemunhos, não só por causa
do seu
intrínseco valor e mérito, como também porque desejamos gravar nas
mentes dos nossos
estudantes o facto de com estes extra-conscientes pianos mentais são
actualmente
reconhecidos pelas melhores autoridades do mundo ocidental, apesar de
ter passado
esta ideia por ridícula e por um «sonho dos instrutores orientais» há
alguns anos atrás.
Cada um dos autores citados apresenta algum ponto interessante e de
valor sobre o
nosso tema, e o estudante achará que as suas próprias experiências
confirmam o que
vários autores dizem. Desta maneira, julgamos que o assunto se tornará
mais claro e se
fixará na mente dos que estudam este curso de lições.
Prevenimos, entretanto, os estudantes de que não deverão adoptar com
precipitação
as diferentes teorias dos escritores ocidentais, apresentadas nos poucos
anos passados,
a respeito destes estados extra-conscientes. Os escritores ocidentais,
ofuscados pela
visão dos planos mentais subconscientes que se lhes abriu bruscamente
adoptaram, com
precipitação, certas teorias com as quais pensavam explicar todos os
fenómenos
conhecidos como «psíquicos», e este é o seu erro. Estes escritores
fizeram uma obra
meritória, ajudando a milhares de pessoas a fornecerem novas ideias
sobre a natureza e
as actividades da mente, mas não exploraram bastante a natureza do
problema que se
lhes apresentava. Se tivessem estudado um pouco as filosofias orientais,
teriam evitado,
para eles e seus leitores, muita confusão.
Por exemplo, a maioria desses escritores julgou que, porque havia um
plano mental
extra-consciente, todas as actividades da mente podiam ser agrupadas sob
a rubrica de
«conscientes» e «subconscientes», e que todos os fenómenos
extraconscientes podiam
ser agrupados sob a rubrica de «subconsciente» ou «mente subjectiva»,
etc., ignorando o
facto de as regiões extra-conscientes abrangerem não só as mais baixas,
mas também as
mais altas formas da mente. Colocaram sob a denominação de «mente
subjectiva ou
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subconsciente» os mais baixos traços e as paixões animais; os impulsos
insanos; as
ilusões; a superstição; a inteligência quase-animal, etc., etc., mas
também a inspiração do
poeta e do músico, e os altos anelos e sentimentos espirituais que vêm
reconhecidamente
das mais altas regiões da alma.
Esse erro era natural e, a princípio, o mundo ocidental leu essas
teorias com
aceitação, como expressão da verdade. Quando, porém, veio a reflexão e
se lhes aplicou
a análise, sentiu-se que não eram satisfatórias. O povo reconheceu
intuitivamente que as
suas inspirações e intuições mais altas provinham de uma diferente parte
da mente e não
da mesma onde se geravam as emoções baixas, as paixões e outros
sentimentos e
instintos subconscientes.
Um pequeno estudo das filosofias orientais dá-nos a chave do problema.
Os
instrutores orientais têm sempre ensinado que a mente consciente é
apenas uma
pequena fracção do inteiro volume do pensamento, mas também têm ensinado
que, da
mesma forma que há um campo mental abaixo da consciência, existe
igualmente um
cam-po mental acima da consciência, que é tão superior ao intelecto,
como este é
superior subconsciência. Já a menção deste facto será uma revelação para
os que
anteriormente não ouviram isto e se têm enleado em qualquer das teorias
da «dualidade»
da mente, exibidas por escritores ocidentais. Quanto mais tiverdes lido
sobre este
assunto, tanto mais apreciareis a superioridade da teoria oriental sobre
a dos autores
ocidentais. É como quando o químico clarifica o líquido nebuloso no
alambique.
Na próxima lição trataremos dos planos supraconscientes e dos planos
subconscientes, tornando clara a distinção e acrescentando mais alguma
coisa ao que já
dissemos sobre este assunto nos nossos livros anteriores.
E tudo isto nos conduz ao ponto onde vos poderemos dar instruções sobre
o
treinamento e o cultivo — o domínio e a aplicação — destas faculdades
extraconscientes.
Restringindo os planos inferiores de mentação à sua actividade própria e
estimulando os
superiores, pode o homem tornar-se superior mentalmente e adquirir
forças que agora
nem sonha. E é por isso que vos conduzimos, passo a passo, ao
conhecimento destas
coisas. Deveis conhecer todas as fases do tema para poderdes aplicar o
ensino e
instrução que seguirão nas últimas lições deste curso.
Mantram (afirmação)
Reconheço que o meu «Eu» é maior do que parece: — que há planos mentais
acima e
abaixo da consciência; que, igualmente, há planos mentais inferiores que
pertencem à
minha passada experiência dos tempos passados e sobre os quais devo
agora afirmar o
meu domínio; também há planos mentais aos quais me elevo gradualmente no
meu
desenvolvimento e que me trarão sabedoria, poder e alegria. Eu Sou Eu,
no meio deste
mundo mental.
Sou o Senhor da minha Mente. Eu afirmo o meu domínio sobre as suas fases
inferiores e preparo-me para receber das suas fases superiores tudo o
que ali está à
minha espera.
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INDICE
LIÇÃO IX - OS PLANOS MENTAIS
Na
lição precedente dissemo-vos alguma coisa sobre a operação da mente fora
do
campo da consciência. Na presente lição tentaremos classificar esses
planos extra-conscientes, dirigindo a vossa atenção para os diferentes
planos acima e abaixo do plano
da consciência. Como dissemos na última lição, mais de 90 por cento das
nossas
operações mentais têm lugar fora do plano da consciência, de maneira que
é importante
estudar estas regiões.
O homem é um centro de consciência na grande vida una do universo. A
alma do
homem passou por numerosos graus antes de chegar à sua presente posição
e estado de
desenvolvimento. E passará ainda por muitos graus, até se tornar
completamente livre e
não necessitar mais da roupa em que se envolve.
No seu ser mental, o homem contém traços de tudo pelo que anteriormente
tem
passado — todas as experiências que fizeram, ele e o grande movimento da
raça a que
pertence. E também a sua mente contém faculdades e planos que ainda se
não
desenvolveram tanto que o homem deles seja cônscio. Todas estas
faculdades mentais,
porém, lhe são úteis e preciosas — até as mais inferiores. Estas podem
ser utilizadas com
vantagem, sob o devido domínio, e são perigosas apenas ao homem que se
deixa
dominar por elas, em vez de se servir delas convenientemente,
considerando o seu
presente estado de evolução.
Nesta nossa consideração dos diferentes planos mentais, não nos
limitaremos aos
termos técnicos que os ocultistas lhes dão, mas pô-los-emos em grupos
gerais e
descreveremos as propriedades características de cada um, deixando de
procurar a
explicação da formação e da razão de ser dos mesmos, porque isto nos
levaria longe da
parte prática do nosso assunto.
Começando pelo ponto mais baixo da escala, vemos que o homem tem um
corpo. O
corpo se compõe de pequeníssimas células de protoplasma. Estas células
são formadas
de inúmeras moléculas, átomos e partículas de matéria — exactamente a
mesma matéria
que compõem as rochas, as árvores, o ar, etc., em redor de nós.
A filosofia yoga diz-nos que até os átomos de matéria têm vida e uma
elementar
manifestação da mente que faz com que se agrupem uns aos outros, segundo
a lei de
atracção, formando diferentes elementos, combinações, etc.
Essa lei de atracção é uma operação mental e é a primeira evidência de
escolha,
acção e resposta mentais. Abaixo dela está o prana ou a força, que
também, estritamente
falando, é uma manifestação da mente; embora a designemos, por
conveniência, como
uma separada manifestação do Absoluto.
E assim achamos que essa lei de atracção entre os átomos e as partículas
de matéria
é uma acção mental do homem, porque ele tem um corpo e, neste seu corpo,
tem lugar
continuamente esta acção mental.
E por isso havemos de considerar este mais baixo plano mental como a
base do
homem. Este plano está, com efeito, muito abaixo do plano da consciência
e não se pode
identificar com a personalidade do homem, porque pertence antes à vida
do Todo,
manifestada tanto no homem como na rocha.
Quando, porém, esses átomos se agruparam segundo a lei de atracção e
formaram
moléculas de matéria, receberam um grau mais alto de actividade mental e
construiriam
células, passando assim ao domínio de acção mental da planta. O impulso
vital da planta
começa por atrair-lhe certas partículas de matéria inorgânica —
elementos químicos — de
que depois se constrói uma célula. Oh, mistério da célula! A
inteligência humana é
incapaz de produzir este processo maravilhoso. Mas o princípio mental do
plano
vegetativo sabe exactamente como escolher e atrair os elementos de que
necessita para
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construir
cada célula. Depois, firmando a sua moradia nesta célula — usando-a como
base de operações — procede a duplicar a sua obra prévia e assim
acrescenta-se uma
célula à outra, por meio dos simples processos reprodutivos de divisão e
subdivisão — o
primeiro e elementar processo sexual — até que esteja formada a planta
inteira. Desde o
mais humilde organismo vegetal até à maior árvore, o processo é
idêntico.
E não pára aqui. O corpo do homem é também construído exactamente desta
maneira
e também tem em si essa mente vegetativa, abaixo do plano da
consciência. A muitos
surpreenderá esta ideia de uma mente vegetativa. Mas lembrem-se de que
cada parte do
nosso corpo foi formada da célula vegetal. A criança ainda não nascida
começa a existir
com a coalisão de duas células. Estas células põem-se a construir o novo
corpo para ser
ocupado pela criança — isto é, o princípio mental nas células dirige a
obra — tirando do
corpo da mãe o alimento e material necessário. O alimento do sangue
materno, que
fornece o material para a formação do corpo da criança, é obtido pela
comida e
assimilação, directa ou indirecta, das células vegetais.
Se a mãe come frutas, nozes, legumes, etc., obtém o alimento
directamente da vida
da planta; se come carne, obtém-na indirectamente, porque o animal de
que a carne foi
tomada tinha produzido essa carne comendo vegetais. Vemos, pois, que
todo o alimento
do reino animal e humano provém do reino vegetal, directa ou
indirectamente.
E a acção da célula na criança é idêntica à acção da célula na planta.
Incessantemente se reproduzem as células e formam assim órgãos e partes
de corpo,
sob a direcção do princípio mental. A criança cresce assim até à hora do
nascimento.
Nasce e o processo muda apenas de forma. A criança começa a alimentar-se
com o leite
da mãe (ou de vaca) ou com outras formas de nutrição. E, à medida que
cresce, aumenta
a variedade dos alimentos com que se nutre; mas sempre é da vida da
célula das plantas
que recebe o material para a formação do seu corpo.
E este grande processo de formação é inteligente, intencional, a um grau
admirável. O
homem, com o seu tão gabado intelecto, não pode explicar como, na
realidade, se faz
este processo.
Um conhecido cientista que examinou o ovo de um pequeno lagarto ao
microscópio,
observando-o como se desenvolvia devagar, diz que lhe parecia como se
certa mão
houvesse traçado os contornos das pequeninas vértebras e, depois,
construído em redor
delas. Pensai por um instante sobre o desenvolvimento do germe no ovo do
beija-flor, da
formiga, do mosquito, da águia. A cada segundo pode notar-se mudança. A
célula que
constitui o germe atrai a si o alimento de outra parte do ovo e então
cresce e reproduz
outra célula. Em seguida, dividem-se ambas e, depois, se subdividem até
que há milhões
e milhões de células. E durante esse tempo continua o processo
constitutivo e a ave ou o
insecto assume forma e sinais característicos, até que finalmente sai do
ovo.
A operação, assim começada, continua até à morte do animal, porque
incessantemente se gastam e quebram células e tecidos, precisando o
organismo
substituí-los. E assim a mente vegetativa da planta ou do insecto, do
animal, do homem,
não cessa de construir novas células do aimento, expelindo do sistema o
material já
usado e gasto. E isto não é tudo; ela também atende à circulação do
sangue, para que o
material necessário à formação das células seja levado a todas as partes
do sistema. Ela
atende à digestão e assimilação do alimento — essa maravilhosa obra dos
órgãos do
corpo. Ela atende à cura de feridas, ao combate contra a doença, às
necessidades
higiénicas do corpo físico. E tudo isto fora do plano da consciência —
no homem-criança,
no mundo animal, no mundo vegetal— operando sempre, sem cansar,
inteligente e
admiravelmente. Este plano mental está no homem, como igualmente na
planta, e
executa o seu trabalho sem auxílio da parte consciente do homem, embora
se lhes
possam criar obstáculos com pensamentos contrários que parecem
paralisar-lhe os
esforços.
A cura mental é simplesmente a restauração de condições normais, para
que esta
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parte do
corpo possa desempenhar a sua tarefa, sem encontrar obstáculos de
pensamentos conscientes contrários.
Todas as funções e operações vitais se baseiam neste plano da mente, que
opera fora
da consciência; e a consciência sabe desta parte da mente apenas quando
ela pede à
parte consciente alimento, etc. Neste plano reside também o instinto
elementar de
reprodução e actividade sexual. Esta parte da mente quer sempre «crescer
e multiplicarse», e o seu desejo é correspondido conforme o estado de
desenvolvimento do indivíduo,
como vamos ver. Os impulsos e desejos elementares que encontramos
subindo ao
campo da consciência provêm deste plano mental. A fome, a sede e os
desejos
reprodutivos são as suas mensagens às partes mentais superiores. E estas
mensagens
são naturais e susceptíveis de abuso e prostituição, que o intelecto do
homem muitas
vezes pratica nelas, quando não sabe dominar e restringir os seus
impulsos animais. A
gula e a volúpia não provêm do primitivo pedido deste plano mental, pois
os animais
inferiores não as conhecem geralmente — mas é reservado ao homem
prostituir assim
essas primitivas tendências naturais, para satisfazer apetites
desnaturais e artificiais que
não ajudam a natureza, mas lhe são contrários.
A medida que a vida progredia na escala e formas animais apareciam na
cena,
desenvolviam-se novos planos mentais, de acordo com a necessidade das
formas vivas.
O animal foi impelido a procurar a sua alimentação — apoderar-se de
outras formas e
evitar tornar-se presa de outros. Foi impelido a combater pelo
desenvolvimento de forças
latentes da sua mente, necessárias para desempenhar o seu papel na cena
da vida. Foi
impelido a fazer certas coisas para viver e reproduzir a sua espécie. E
não procurou
debalde, pois devagar lhe veio um crescente conhecimento das coisas
necessárias para
as exigências da vida. Nós chamámo-lo instinto. Mas notai bem: com esta
palavra instinto
não pensamos naquela coisa ainda mais alta que é realmente um intelecto
rudimentar, e
que encontramos nos caminhos superiores. Falamos agora do instinto que
não raciocina
e que se observa nos animais inferiores e em certo grau no homem. Este
plano instintivo
da mentalidade faz com que a ave construa o ninho antes de pôr os ovos;
ensina mãe
animal como cuidar das suas crias quando nascem e depois do nascimento;
ensina a
abelha a construir a célula e a armazenar o mel. Estas inúmeras outras
coisas na vida
animal e na forma superior da vida das plantas são manifestações desse
grande plano
mental a que chamamos instinto. Com efeito, a maior parte da vida animal
é instintiva,
embora as mais altas formas de animais tenham desenvolvido como que um
intelecto ou
razão rudimentar que as torna capazes de entrar noutras condições onde
carecem de
intelecto.
E o homem tem este plano mental em si, abaixo da consciência. Com
efeito, as formas
inferiores da vida humana manifestam apenas algum intelecto e vivem, na
maior parte, de
conformidade com os seus impulsos e desejos, instintivos.
Cada homem tem em si esta região mental instintiva e continuamente
surgem dela
impulsos e desejos para o perturbar e incomodar, como também para lhe
servir
ocasionalmente. Todo o segredo da questão consiste em saber se o homem
tem domínio
sobre o seu Eu inferior ou não.
Deste plano da mente surgem os impulsos hereditários que vêm das
gerações dos
antepassados, procedem já dos homens das cavernas e podem ser notados
até já no
reino animal. É um verdadeiro armazém. Encontramos ali instintos
animais, paixões,
apetites, desejos, sentimentos, sensações, emoções, etc. Ódio, inveja,
ciúme, vingança, o
desejo animal procurando a satisfação dos seus impulsos sexuais, etc.,
etc., ali estão e
incessantemente desviam a nossa atenção, enquanto não afirmamos o nosso
domínio
sobre eles. E esta falta de domínio é devida muitas vezes a ignorarmos a
natureza do
desejo, etc. Foi-nos ensinado que estes pensamentos eram «maus», mas não
nos foi dito
porquê, e nós receamos julgando que são sugestões de uma natureza impura
ou de uma
mente depravada, etc. Isto tudo é erróneo. Estas coisas não são «más» em
si mesmas —
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elas
vieram a nós honestamente — são a nossa herança do passado. Pertencem à
parte
animal da nossa natureza e foram necessárias ao animal no seu estado
evolutivo. Nós
temos dentro de nós uma colecção inteira de animais, mas isto não quer
dizer que os
devemos soltar para nos atacarem, a nós ou a outros. Tem sido necessário
para o animal
ser feroz, combatente, apaixonado, inatento para com os direitos dos
outros, etc.; mas
nós já crescemos acima deste ponto de desenvolvimento e é ignóbil para
nós a ele voltar
ou deixar-nos dominar por aqueles impulsos.
Não é nossa intenção fazer aqui um discurso sobre a ética ou moral. Não
tencionamos
discutir os detalhes do bem e do mal, porque já falamos disto em outras
obras.
Chamamos, entretanto, a vossa atenção para o facto de que a mente humana
reconhece
intuitivamente que é bom aquilo que nos vem das mais altas partes da
mente — o mais
alto produto do nosso desenvolvimento. E reconhece igualmente que é mau
recair no que
pertence aos baixos graus da nossa mentalidade — à parte animal em nós,
que é a nossa
herança do passado.
Enquanto achamos difícil expor muitos detalhes da moral e da ética, não
podendo
«explicar» porque consideramos certas coisas como boas e outras como
más, não
obstante sentimos intuitivamente que o mais alto «bem» que podemos
praticar é agir em
conformidade com aquilo que nos vem do mais alto pólo do nosso ser
mental, e que o pior
«mal» consiste em fazer o que nos rebaixa ao nível da vida dos animais
inferiores, quanto
à mentalidade. Não porque haja algo absolutamente «mau» nos processos
mentais e
suas consequências nos animais mesmo — todos eles são bons e
perfeitamente naturais
na vida animal — mas reconhecemos intuitivamente que recair no grau do
animal significa
para nós «ir para trás» na escala da evolução. Recuamos instintivamente
diante de uma
exibição de brutalidade e animalidade por parte do homem ou da mulher.
Não sabemos
talvez exactamente a causa, mas um pouco de reflexão mostra-nos que tais
actos
significam uma queda na escala evolucionária, contra a qual se revolta e
protesta em nós
a parte espiritual.
Não se interprete, entretanto, isto no sentido de que as almas
adiantadas olham com
desgosto ou horror para o mundo animal. Pelo contrário, não se encontra
noutra parte
maior respeito pela vida animal do que entre os yogues e outras almas
adiantadas. É com
gosto que eles observam como os animais preenchem os seus lugares na
vida,
desempenhando o papel que lhes é destinado no divino plano de vida. As
almas
adiantadas olham com simpatia e carinho as acções, paixões e desejos dos
animais, não
encontrando neles nada de «mau» nem impróprio. E até a brutalidade ou
baixeza das
raças selvagens é assim considerada por essas almas adiantadas, que
acham que tudo é
natural e conforme o grau de desenvolvimento desses povos.
É somente quando estas almas adiantadas observam as degenerações da vida
«civilizada» que sentem aflição e dor; porque vêem exemplos de involução
em lugar de
evolução — degeneração em lugar de regeneração e adiantamento. E não são
eles que
sabem que assim é, mas os espécimes degenerados da humanidade sentem e
sabem-no
mesmo. Comparai a expressão do animal ou selvagem ocupando-se com as
acções e os
processos naturais da sua vida. Vede como são livres e naturais as suas
expressões e
como lhes é absolutamente estranha a evidência da má acção. Eles ainda
não acharam o
fatal segredo do bem e do mal — não comeram ainda o fruto proibido. Ao
contrário,
porém, olhai a face das almas degeneradas e caídas da nossa vida
civilizada. Vede o
olhar furtivo e a consciência pessoal do «mal» estampada em cada face. E
esta
consciência do «mal» pesa muito sobre esta gente — pesa mais do que os
castigos que
acumularam. Essa coisa sem nome a que chamamos «consciência», no sentido
moral da
palavra, pode ser atordoada por um momento, mais cedo ou mais tarde,
porém reaparece
e martiriza a vítima.
Direis, decerto, que vos parece ser impossível chamar a mesma coisa
«boa» em um
caso e «má» em outro. Realmente, isto parece ser uma expressão ousada e
doutrina
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perigosa,
mas é a verdade. E o homem reconhece-a instintivamente.
Não exigirá o mesmo sentido de responsabilidade moral a uma criança ou
selvagem,
como a um homem maduro, desenvolvido e civilizado. lmporá certos limites
às acções da
criança e do selvagem, para a protecção dos mesmos e para o bem geral,
mas reconhece
a distinção ou, pelo menos, deve reconhecê-la. E não somente isto é
verdade, mas o
homem, quando se adianta na escala do progresso, abandona muitas
concepções de
«mal» que anteriormente tinha, modifica as suas ideias de conformidade
com o progresso
que fez, substituindo ideias velhas por concepções novas. A sua
tendência é sempre
avante e mais alto! — da força e obrigação ao amor e liberdade.
A condição ideal seria aquela em que não houvesse leis nem necessidades
delas —
uma condição em que os homens cessariam de fazer mal, não por terem medo
ou serem
impossibilitados de o fazer, mas porque não teriam desejo de fazer mal
algum. Esta
condição parece estar ainda muito afastada, mas constantemente se
desenvolvem planos
e faculdades mentais superiores que, quando uma vez se manifestam
plenamente na
raça humana, causarão uma completa revolução ética nas leis e no governo
— uma
revolução para o melhor. A humanidade move-se sempre para mais adiante,
fazendo o
melhor que pode e progredindo devagar, mas continuamente.
Há um outro plano da mente a que se chama, muitas vezes, «instinto», mas
que não é
senão uma subdivisão do plano do intelecto, embora as suas operações
estejam, na
maior parte, abaixo do campo da consciência. Aludimos ao que alguns
denominaram «a
mente do hábito», para a distinguir do plano instintivo. A diferença é
esta: o plano mental
instintivo é composto das operações mentais ordinárias que têm lugar
abaixo do plano do
intelecto, mas acima do plano da mente vegetativa e também contém as
experiências
adquiridas da raça, que foram transmitidas por hereditariedade, etc. Mas
a «mente do
hábito» contém apenas aquilo que ali foi introduzido pela mesma própria
pessoa e o que
esta adquiriu por experiência, hábito e observação, repetidos com tanta
frequência que a
mente o ficou a conhecer tão bem, que o colocou abaixo do campo da
consciência, onde
estes conhecimentos vêm a ser a «segunda natureza» e se assemelham ao
instinto.
Os manuais de psicologia dão muitos exemplos e explicações do plano das
operações
mentais habituais, de maneira que não julgamos necessário repeti-lo
aqui. Cada um sabe
que os temas, quando estudados pela primeira vez, exigem grande esforço
e um tempo
considerável, fixam-se logo em alguma parte da mente, até que a sua
repetição exige
apenas um pouco (ou nenhum) exercício da.operação mental consciente. Com
efeito,
alguns autores dizem que ninguém «aprende» realmente a fazer um tema ou
uma obra,
senão quando o pode fazer quase automaticamente. O aluno que nas
primeiras lições de
piano acha muito difícil controlar e manejar os dedos, torna-se em breve
capaz de não
pensar nas posições dos dedos, podendo dedicar toda sua atenção às
páginas da música
e, mais tarde, é capaz de deixar os dedos tocarem aparentemente por si
mesmos a peça
inteira, sem nela pensar. Os melhores artistas disseram-nos que, no
momento dos seus
mais altos esforços, percebem que a extraconsciente porção da sua mente
age por eles e
que eles, praticamente, estão de lado, testemunhando o que se está a
fazer. Isto é tão
exacto que se tem observado, às vezes, quando a mente consciente do
artista tenta
tomar parte na execução, esta sofre com isso e o músico e o auditório
notam a diferença.
O mesmo se dá com uma mulher que trabalha com uma máquina de costura. Ao
princípio opera com dificuldades, mas pouco a pouco a máquina «trabalha
por si mesma».
Os que usam máquina de escrever, verificam a mesma experiência. A
princípio hão-de
tocar com muito cuidado cada letra; mas depois de uns exercícios
graduados, o operador
pode dedicar toda sua atenção à «cópia» e deixar os dedos tocarem as
teclas por si
mesmos. Muitos operadores aprendem a escrever muito rapidamente à
máquina,
treinando a mente pelo hábito, de tal maneira que ela toca as teclas das
letras pela razão
da sua posição e, para este fim, cobrem o teclado, obrigando assim a
mente a adaptar-se
às novas exigências.
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Coisa
semelhante se dá quando os homens ou as mulheres têm que fazer uso de
qualquer utensílio ou ferramenta. A mente reconhece o utensílio e usa-o
como se fosse
uma parte do corpo e não se aplica à manipulação de pensamento algo mais
cônscio do
que à de caminhar; ao passo que a criança, para aprender a caminhar,
carece de tempo e
exercício.
É admirável como muitas pessoas fazem coisas «automaticamente». Alguns
escritores
chamam a nossa atenção para o facto de que, em geral, os homens não nos
podem dizer
conscientemente como vestem o casaco de manhã — qual a manga em que
metem o
braço em primeiro lugar, como seguram o casaco, etc. Mas a mente do
hábito sabe-o e
muito bem. Levantai-vos e vesti o vosso casaco como estais acostumado,
seguindo as
indicações da mente do hábito. Depois, tirando o casaco, tentai vesti-lo
de outra maneira,
metendo, por exemplo, primeiramente o outro braço. Surpreender-vos-á
como isto vos
dará mau jeito e como dependeis da mente do hábito.
Na manhã do dia seguinte notai qual o sapato que a mente do hábito calça
primeiro, e
depois tentai inverter a ordem e observareis como será perturbada e
inquietada com isso
a mente do hábito e como telegrafará à mente consciente: — «Algum erro
foi feito!» Ou,
então, experimental abotoar o colarinho, trocando as pontas: a direita
antes da esquerda,
ou a esquerda antes da direita, conforme for o caso, e notareis o
protesto involuntário. Ou,
experimentai andar de maneira diferente da que estais acostumados,
tentai levantar o
braço direito com o movimento da vossa perna direita, e assim por
diante, e achareis que
tudo isso requer o exercício de grande força de vontade. Ou,
experimentai «trocar as
mãos» no manejo de faca e garfo. Mas temos que parar de apresentar
exemplos; o seu
número é enorme.
A mente do hábito não só atende às acções físicas, como também toma
parte nas
nossas operações mentais. Em pouco tempo adquirimos 'o hábito de cessar
de observar
certas coisas conscientemente, a mente do hábito toma conta disso e nós
pensamos,
depois, automaticamente, sobre essas questões particulares, enquanto não
nos afasta do
nosso hábito um rude abalo causado por mente alheia ou alguma ideia
contrária
ocasionada pela nossa experiência ou pelos nossos processos de
raciocínio. E a mente
do hábito não gosta de ser perturbada ou obrigada a fazer a revisão das
suas ideias.
Combate contra isto e se revolta, resultando que muitos de nós são
escravos de ideias
inveteradas que reconhecem como falsas, mas de que não se podem libertar
suficientemente. Nas nossas lições futuras dare-mos métodos que ensinam
come
emancipar-se destas velhas ideias.
Há outros planos da mente que se relacionam com os fenómenos chamados
«psíquicos», a que pertencem a clarividência, a psicometria, a
telepatia, etc., mas não
trataremos deles nesta lição, porque pertencem à outra parte do assunto
geral. Já
falamos deles sem entrar em minuciosidades nas nossas «Catorze Lições de
Filosofia
Yogue».
Agora, viemos ao plano mental, conhecido como intelecto ou faculdades de
raciocínio.
Webster define a palavra intelecto desta maneira: «A parte ou faculdade
da alma humana,
por meio da qual obtemos saber ou conhecimento como distinta da
faculdade de sentir e
querer; é a faculdade de pensar: o entendimento».
A mesma autoridade define a palavra «razão» assim: «A faculdade ou
capacidade da
mente humana pela qual se distingue da inteligência dos animais
inferiores».
Não entraremos em considerações sobre o intelecto cônscio, porque assim
ocuparíamos o espaço destinado às lições que devem seguir para terminar
este curso; e,
além disso, o estudante pode achar extensas explicações sobre este
assunto em
qualquer curso de psicologia. Em vez disso, observaremos outras
faculdades e planos
mentais sobre os quais os ditos livros passam rapidamente, ou até os
negam. Um destes
planos é o plano do intelecto inconsciente ou do raciocínio
inconsciente. A muitos
parecerá este termo um paradoxo, mas os estudantes do inconsciente
compreenderão o
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que assim
designamos.
O raciocínio não é, necessariamente, cônscio nas suas operações; com
efeito, uma
grande parte dos processos de raciocínio realiza-se abaixo do campo da
consciência. Na
nossa lição precedente, demos vários exemplos que provam este facto, mas
será útil e
interessante acrescentarmos mais algumas notas.
Vistes, na última lição, muitos exemplos de como o campo subconsciente
do intelecto
elabora problemas e, mais tarde, apresenta à razão consciente a sua
solução. Isto
aconteceu a muitos de nós, se não a todos. Quem não tem feito esforços
para resolver
um problema ou uma questão de qualquer espécie e, não podendo obter
resultados
satisfatórios «os abandonou», mas de repente obteve a necessária solução
ou resposta
na sua consciência, quando menos o esperava?
Esta experiência é comum à raça humana. Quando a maioria nota estas
coisas, tomaas por excepcionais e fora da regra geral. Os estudantes dos
planos mentais são, porém,
de outra opinião. Eles conhecem estes planos da razão e lhes aproveitam
o
conhecimento, deixando estas faculdades inconscientes trabalharem por
si.
Na próxima lição dar-vos-emos para tais fins instruções, que serão de
muito grande
importância para os que as quiserem praticar. Este método é conhecido
pela maioria dos
que «fizeram obras» importantes, mas eles descobriram-no, geralmente,
levados pela
necessidade ou pelo esforço das forças mentais internas.
O plano mental que vem imediatamente acima do plano do Intelecto é
conhecido como
intuição. Webster define esta palavra assim: «Compreensão ou
conhecimento directo;
saber imediato, como percepção ou consciência, que não envolve nenhum
processo de
raciocínio; conhecimento que vem com um lançar de vista».
É difícil explicar o que é a intuição, excepto aos que a experimentarem
— e estes não
carecem de explicação. A intuição é igualmente uma faculdade mental,
como o é o
intelecto — ou, para sermos mais exactos, é igualmente uma colecção de
faculdades
mentais. A intuição está acima do campo da consciência e suas mensagens
vêm de cima
para baixo, embora os seus processos fiquem ocultos.
A humanidade está a desenvolver-se para entrar no plano da intuição, e
Um dia terá
plena consciência neste plano. Por ora, recebe apenas raios e vislumbres
de região
oculta. Muitas das melhores coisas que temos provêm desta região; por
exemplo: a arte,
a boa música, a bela poesia, o amor sublime, a percepção espiritual até
certo grau, o
intuitivo reconhecimento da verdade, etc., etc. Estas coisas não são
produtos de
raciocínio do nosso intelecto, mas parecem emanar de uma desconhecida
região da
mente.
Nesta maravilhosa região habita o génio. Muitos, se não todos os nossos
grandes
escritores, músicos, artistas e outros exemplos de génio, têm sentido
que a sua força
vinha de um manancial superior. Muitos pensaram que emanava de um ser
que os
favorecia e os inspirava com força e sabedoria. Parecia que estava
operando alguma
força transcendente e o operador sentiu que a sua produção ou criação
não era sua
própria obra, mas sim de alguma inteligência externa. Os gregos
reconheciam este algo
no homem e chamavam-no daimon. Plutarco, no seu discurso sobre o daimon
que guiava
Sócrates, fala da visão de Timarco que, no caso de Trofónio viu
espíritos que, estavam
parcialmente ligados a corpos humanos e, parcialmente, por cima deles,
produzindo uma
irradiação luminosa sobre as suas cabeças. O oráculo disse-lhe que
aquela parte do
espírito que estava imersa no corpo se chamava daimon. O oráculo
explicou-lhe, em
seguida, que cada homem tem o seu daimon, a quem deve obedecer; aqueles
que se
deixam guiar implicitamente por ele são almas proféticas, os favoritos
dos deuses. Goethe
falou também do daimon como de uma força superior à vontade e que
inspira certas
naturezas com maravilhosa energia.
Podemos sorrir destas concepções, elas estão, porém, realmente muito
próximo da
verdade. As regiões superiores da mente, embora pertençam ao indivíduo e
sejam uma
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parte
dele, estão tão alto e tão acima da sua consciência ordinária, que todas
as margens
e comunicações que nos vêm delas são como ordens dadas por uma outra e
mais
elevada alma, não obstante, porém, seja a voz do «Eu» que fala através
dos envoltórios
da melhor maneira possível.
Esta força pertence a cada um de nós, mas se manifesta apenas no grau a
que
podemos responder. Cresce e aumenta com fé e confiança, encerra-se e
retira-se para o
seu esconderijo quando não a acreditamos e duvidamos da sua veracidade e
realidade. O
que denominamos «originalidade» vem desta região. As faculdades
intuitivas comunicam
à mente consciente alguma percepção de verdade mais alta do que o
intelecto pode
produzir, e eis ao que se dá o nome de obra de génio.
O ocultista adiantado sabe que nas regiões superiores da mente se abrem
percepções
intuitivas de toda a verdade e que aquele que se pode elevar a estas
regiões saberá tudo
intuitivamente e tudo lhe será claro, sem o auxílio de raciocínio ou
explicação. A
humanidade não chegou ainda a estas alturas de intuição — presentemente
começa a
subir as colinas; mas move-se em rumo directo.
Será bom para nós seguirmos o superior rumo interno, deixando-nos
«conduzir pelo
Espírito». Isto é muito diferente de sermos guiados pela inteligência
externa, que pode ter
a capacidade de nos guiar ou também pode não a ter.
Mas o Espírito dentro de cada um de nós cuida dos nossos interesses e
deseja o
nosso maior bem possível, e não está pronto para nos dirigir, mas até
toma a nossa mão
para nos guiar. O Eu Superior faz o melhor que pode para o nosso
desenvolvimento e
bem-estar, mas encontra obstáculos nas envolturas que o limitam.
E, ai! Muitos de nós elogiam estas envolturas e pensam que elas são a
mais alta parte
de nós mesmos. Não temais e deixai a luz do Espírito penetrar e
dissolver estas
envolturas que formam obstáculos! Mas a intuição não é o Espírito; é
apenas um dos
canais pelos quais ele se comunica connosco. Há ainda outros e mais
elevados planos
mentais, porém a intuição é um dos mais próximos ao nosso estado de
desenvolvimento,
e devemos dar-lhe acesso e aceitar-lhe a influência, para que se
desenvolva
devidamente.
Acima do plano da intuição está o plano do saber cósmico, no qual
acharemos a
consciência da unidade de Tudo. Falamos deste plano na lição do
desenvolvimento da
consciência.
Quem é capaz de ser «cônscio» deste plano — neste elevadíssimo plano
mental —
pode ver plena, clara e completamente que há uma grande Vida que é a
base de todas as
formas de manifestação. Pode ver que a separatividade não é mais que «a
ficção
operante do Universo». Pode ver que cada Ego é um centro de consciência
no grande
oceano da Vida — que tudo segue as prescrições do plano divino e que o
homem
progride, elevando-se a planos cada vez mais altos de manifestação,
poder e
individualidade para tomar, cada vez mais, parte na obra universal.
O saber cósmico na sua plenitude veio somente até poucos da nossa raça,
mas
muitos obtiveram alguns raios, mais ou menos claros, da sua
transcendente luz
maravilhosa e outros estão a entrar neste plano. A humanidade
desenvolve-se
gradualmente, devagar, porém com segurança, e aqueles que já sentiram
esta
maravilhosa força preparam outros para a receber e ter experiências
iguais.
Semeia-se o grão: a colheita virá mais tarde. Esta e outras fases das
formas
superiores de consciência abrem-se à humanidade. Os que lêem esta lição
estão, talvez,
mais perto desse plano elevado do que pensam; o seu interesse por estas
lições é um
indício daquela fome da alma, que é uma profecia da satisfação do grito
pelo pão
espiritual. A lei da vida atende a estes gritos que pedem auxílio e
alimento, respondendolhes de conformidade com os ditames da mais alta
sabedoria e segundo as verdadeiras
necessidades do indivíduo.
Encerramos esta lição com uma citação da «Luz no Caminho», muito própria
neste
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lugar.
Lede-a com atenção e gravai-a profundamente na vossa consciência
interior, pois
percebereis o júbilo que sente aquele que se está a aproximar do alvo.
«Busca a flor que abrir durante o silêncio que segue a tormenta, e não
antes.
«A planta crescerá e desenvolver-se-á, lançará ramos e folhas, formando
botões,
enquanto continuar a tempestade.
«Mas enquanto toda a personalidade do homem não se tenha dissolvido e
dissipado;
enquanto o divino fragmento que a criou não a considera um mero
instrumento de
experimentação e experiência; enquanto toda a natureza não esteja
vencida e subjugada
pelo seu Eu superior, a flor não pode abrir-se. Então sobrevirá uma
calma como a que,
nos países tropicais, sucede a uma chuva torrencial, quando a natureza
age com tanta
rapidez que a sua acção pode ser observada. Uma calma semelhante
difundir-se-á sobre
o espírito fatigado. E no silêncio profundo ocorrerá o misterioso
sucesso que provará que
se encontrou o caminho. Podes chamá-lo como quiseres; é uma voz que fala
onde não há
ninguém que fale; é um mensageiro que vem, mensageiro sem forma nem
substância; ou,
antes, é a flor da alma que se abriu. Não há metáfora que o possa
descrever. Mas podese pressentir, procurar e desejar, mesmo no meio da
fúria da tempestade. O silêncio pode
durar apenas um momento ou pode prolongar-se por milhares de anos; terá
porém, fim.
Contudo, residirá em ti a sua força. Uma ou outra vez tem-se que dar e
ganhar a batalha.
O repouso da natureza só pode ser um intervalo».
As três últimas lições desta série serão dedicadas a um curso prático de
instrução
sobre o desenvolvimento dos planos mentais ocultos, ou antes, sobre o
desenvolvimento
da força do indivíduo com que os possa dominar e utilizar-se deles na
sua vida. O
estudante aprenderá como deve dominar os princípios interiores não só
elevando-se
sobre eles, mas também transmitindo as forças elementares a seus fins
mais altos. Desta
parte da mente pode-se obter um poder, quando é dirigida pela vontade. O
estudante
encontrará também a explicação para encaminhar o intelecto inconsciente
a trabalhar por
ele e desenvolver e treinar a vontade.
Agora, passamos da parte teórica à prática, e daqui para diante
tratar-se-á do
treinamento, desenvolvimento, cultura e aplicação: Sabendo em que bases
repousa tudo
isto, o estudante está preparado para receber as instruções, das quais
anteriormente
poderia ter feito mau uso.
A Paz seja com todos vós.
Mantram (afirmação)
EU
SOU O SENHOR DA MINHA ALMA.
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INDICE
LIÇÃO X - OPERAÇÃO SUBCONSCIENTE
Na
nona lição, chamamos a vossa atenção para o facto de o raciocínio não
ser
necessariamente cônscio nas suas operações e que uma grande parte dos
processos
racionais da mente se realiza abaixo ou acima do campo da consciência.
Na oitava lição
vos demos exemplos que esclarecem esse facto. Demos também uma porção de
casos
em que o campo subconsciente do intelecto elaborava problemas, e, depois
de algum
tempo, apresentava ao campo consciente do intelecto a solução.
Nesta lição, queremos ensinar-vos os métodos pelos quais esta parte do
intelecto
pode ser encaminhada a trabalhar por vós. Alguns têm descoberto
parcialmente esta
verdade por si mesmos e, com efeito, a maioria das pessoas que têm ou
tiveram bom
êxito, ou pessoas que se tornaram eminentes nalgum ramo de vida,
utilizaram mais ou
menos esta verdade, apesar de conhecerem raras vezes as leis que dirigem
estesprocessos.
Muito poucos são os escritores ocidentais que reconheceram o trabalho
deste plano
mental. Eles apresentaram completas e engenhosas teorias e exemplos das
operações
da mente instintiva e, em alguns pontos, mencionaram os trabalhos e
operações dos
planos da intuição, mas quase sempre trataram o intelecto como coisa
limitada somente
ao consciente plano da mente, sem perceber algumas das mais
interessantes e
importantes manifestações da mente subconsciente.
Nesta lição, ocupar-nos-emos desta particular fase de mentação e
esperaremos que
nos seja possível mostrar o caminho para a usar com a melhor vantagem,
dando-vos
algumas simples instruções que os instrutores hindus dão aos seus
discípulos, já desde
há séculos: instruções estas, porém, que modificamos de conformidade com
os
postulados e as necessidades do estudante ocidental dos nossos dias.
Na nossa oitava lição mencionamos o caso do homem que se entregava à
«ruminação
consciente», quando lia livros que continham pontos de vista para ele
novos e
essencialmente opostos à sua opinião prévia; depois de alguns dias,
semanas ou meses,
ele notava que as opiniões velhas obtinham de novo a sua colocação, com
as novas no
meio delas.
Na mesma lição, mencionamos o caso de Sir William Hamilton, que
descobriu uma
importante lei matemática durante um passeio em companhia de sua esposa.
Neste caso,
ele tinha anteriormente pensado a respeito do elo que lhe faltava na sua
cadeia de
raciocínio e o problema foi elaborado para ele pelo plano subconsciente
do seu intelecto.
Ali mesmo encontrareis também o caso do Dr. Thompson, que nos dá uma
interessante relação das operações desta parte da sua mente, que, às
vezes, produziam
nele o sentimento de inutilidade de todo esforço voluntário, vendo que a
matéria se
esclarecia na sua mente por si mesma. Ele diz-nos que, às vezes, lhe
parecia ser
simplesmente um instrumento passivo nas mãos de alguma pessoa diferente
dele, que o
fazia esperar até que alguma região mental oculta lhe apresentasse o
resultado por ele
procurado. Quando a parte subconsciente da mentalidade tinha concluído o
seu trabalho,
comunicava o resultado à sua mente cônscia e então ele se punha a
escrever.
Mencionamos mais adiante o grande químico francês Berthelot, que conta
que
algumas das suas melhores concepções lhe caíram como do céu. A oitava
lição contém
muitos exemplos desta espécie e pedimos ao estudante queira tornar a
lê-los para
refrescar a sua mente com a verdade das operações da mentalidade
subconsciente.
Observareis, porém, quase em todos esses casos mencionados, que aqueles
que
relataram os exemplos do auxilio da mente subconsciente, só deram com o
facto de que
havia uma parte mental abaixo da consciência, que podia elaborar
problemas para eles, e
fazia-o, tendo sido posta em operação. E eles aproveitaram estas
operações
inconscientes. Ou antes, eles saturaram primeiro a sua mente cônscia com
uma porção
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de
material, — assim como quando se enche o estômago de alimento — e depois
deixaram a mentalidade subconsciente sortir-se, separar, arranjar e
digerir o alimento
mental, da mesma maneira que o estômago e o aparelho digestivo digerem o
alimento
natural, fora do domínio da consciência ou volição. Em nenhum dos casos
mencionados a
mente era dirigida especialmente para realizar a sua admirável obra.
Esperava-se
simplesmente que ela digerisse o material mental com que foi enchida —
praticando
somente a sua própria defesa.
Os yogues hindus, ou antes, aqueles que instruem os seus alunos em «Raja
Yoga»,
ensinam-lhes os meios pelos quais podem dirigir a sua mentalidade
subconsciente para
trabalhar por eles, do mesmo medo que podem encarregar outra pessoa da
execução de
um trabalho.
Eles ensinam-lhes os métodos pelos quais, depois de ter acumulado o
necessário
material, podem ordenar à mentalidade subconsciente que o disponha,
arranje, analise e
que dele construa alguma coisa que se deseja saber ou conhecer. E mais
ainda: os
instrutores yogues ensinam aos seus discípulos como dirigir e encaminhar
a mentalidade
subconsciente para ela achar e lhes apresentar certas informações que se
podem
encontrar apenas dentro da própria mente — alguma questão filosófica ou
metafísica.
Tendo adquirido esta arte, o estudante ou o yogue descansa, sabendo que
o resultado
desejado se lhe apresenta no devido tempo e consequentemente não ocupa,
com o
assunto, a sua mente cônscia, sabendo que, dia e noite, incessantemente,
o processo da
operação subconsciente está em movimento e que a mentalidade
subconsciente trabalha
colhendo a informação ou elaborando o problema. Sem dúvida, é-vos claro
quanto melhor
e superior é este método em comparação com a atitude das pessoas que
conhecem
fragmentos da verdade, mas operam apenas «experimentando» e «esperando
que a
sorte as ajude».
O instrutor yogue começa por gravar no ânimo dos estudantes o facto de
que a mente
é capaz de se estender para fora em direcção ao objecto, seja este
material ou mental,
examinando-o por métodos que lhe são inerentes e adquirindo conhecimento
relativo ao
dito objecto. Esta verdade não é estranha, sendo tão comum que cada um a
emprega,
mais ou menos, todos os dias. Porém, o processo pelo qual é adquirido o
conhecimento é
muito admirável, e realiza-se, de facto, abaixo do plano da consciência,
consistindo a
tarefa da mente cônscia principalmente em dirigir a atenção ao objecto.
Falamos sobre a
importância da atenção em lições prévias e será útil se as lerdes,
agora, de novo.
Quando o estudante está bem familiarizado com o processo da atenção e
com o
desenvolvimento do saber que daí provém, explica-lhe o seu instrutor
yogue que há
outros meios de adquirir conhecimentos relativos a um objecto e depois
ali pára
inconscientemente — isto é, uma parte da atenção ou uma subconsciente
fase da
mentação, que faz a mente ocupar-se com persistência da obra, até a
concluir, deixando
a atenção cônscia e a mente cônscia livres, para se ocuparem de outras
coisas.
Os yogues explicam aos estudantes que esta nova forma de atenção é muito
mais
intensa e poderosa do que a atenção consciente, porque não pode ser
perturbada nem
abalada, nem distraída e desviada do seu objecto, e que trabalha na sua
tarefa durante
dias, meses e a vida inteira, se for necessário, segundo a dificuldade
da tarefa, e leva o
seu trabalho de uma vida a outra, até que a vontade determine outra
coisa. Os yogues
ensinam ao estudante que, em cada vida, se realiza, em grau maior ou
menor, esta obra
subconsciente, que começou obedecendo a um forte desejo de saber,
manifestado,
nalguma vida anterior e dando frutos somente na existência presente.
Muitas descobertas
importantes foram feitas em obediência a esta lei. Mas não é desta fase
do assunto que
queremos falar nesta lição.
A teoria yogue diz que as subconscientes faculdades intelectuais podem
ser utilizadas
para a execução de um trabalho sob as ordens dadas pela vontade. Todos
nós sabemos
como a mentalidade subconsciente aceita uma ordem da vontade ou um forte
desejo, que
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a pessoa
acorde a uma hora certa para alcançar o comboio ou como a lembrança de
um
certo negócio que deve ser realizado, digamos, às dezasseis horas, vem à
mente quando
o ponteiro do relógio se aproxima da hora combinada. Quase todos se
podem recordar de
exemplos desta espécie na sua própria experiência.
Mas os yogues vão ainda muito mais adiante. Afirmam que todas as
faculdades da
mente podem ser postas em actividade para elaborar ou resolver qualquer
problema, se a
vontade lho ordena. Com efeito, os yogues e seus discípulos adiantados
são mestres
desta arte a um ponto tão alto, que acham desnecessário sobrecarregar
com o pensar no
campo consciente, e preferem abandonar tal trabalho mental ao
subconsciente,
reservando o seu trabalho cônscio para a consideração da comunicação
seleccionada e
do pensamento que a mentalidade subconsciente lhes apresenta.
As direcções que eles dão aos seus discípulos são extensas e exigem uma
grande
porção de tempo; e muitas são bastante complicadas e cheias de
minuciosidade. Mas nós
pensamos que poderemos dar aos nossos estudantes uma abreviada e
condensada ideia
em algumas páginas desta lição.
As lições que vêm depois, no fim deste curso, esclarecerão ainda mais o
processo das
operações mentais subconscientes, além de outros assuntos.
O yogue toma o estudante quando este está muito Embaraçado, considerando
um
difícil tema filosófico, Ele manda ao estudante afrouxar todos os
músculos — retirar a
tensão de todos os nervos — deixar de fazer qualquer esforço mental e
esperar, assim
alguns momentos. Depois, manda-lhe firmar, fixar e conservar diante da
sua visão mental,
por meio da concentração, o objecto em questão. Em seguida, ensina-o a
passar à
mentalidade subconsciente por um esforço da vontade, sendo este esforço
auxiliado pela
formação de uma imagem mental do objecto, como Uma substância material
ou um feixe
de pensamentos, que é levantado corporalmente e metido numa escotilha ou
alçapão
mental, onde se perde à vista.
O estudante diz, nesta ocasião, à sua mentalidade subconsciente: «Eu
quero que este
objecto seja bem analisado, arranjado, classificado (e o que mais se
deseja) e que me
sejam apresentados, depois, os resultados... Cuida disto!»
O estudante aprende a falar à mentalidade subconsciente como se ela
fosse uma
entidade separada dele, encarregada de fazer o respectivo trabalho.
Aprende também
que o aguardar com confiança é uma importante parte do processo e que o
grau de
sucesso depende do grau desta expectativa e confiança.
Em casos obstinados o estudante aprende a usar a imaginação livremente,
até ser
capaz de criar uma imagem ou pintura mental da mente subconsciente,
fazendo que dela
se requer. Este processo limpa um caminho mental para os pés da mente
subconsciente,
que ela escolherá depois, porque prefere seguir a linha de menor
resistência.
Como é natural, o êxito depende principalmente da prática — a prática
aperfeiçoa
tudo, como sabeis, e as operações mentais subconscientes não formam
excepção à
regra.
O estudante progride gradualmente na arte de operar subconscientemente
e, depois,
dedica o seu tempo à aquisição de novos factos para a digestão mental,
em vez de se
ocupar com o pensar mecânico.
Havemos, porém, de lembrar um ponto muito importante, a saber: que a
força de
vontade atrás do material mental transferido, a força de vontade que é a
causa da acção
subconsciente, depende grandemente da atenção e do interesse que dá ao
material
adquirido.
Para obter os melhores resultados é preciso saturar bem, com interesse e
atenção,
essa massa de material mental que deve ser digerido e batido pela
mentalidade
subconsciente. Com efeito, o interesse e a atenção são tão importantes
ajudantes da
vontade, que todo o desenvolvimento e aquisição de força de vontade é
praticamente um
desenvolvimento e aquisição de atenção e interesse. Aconselhamos ao
estudante a ler de
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novo as
lições prévias deste curso, onde foi explicada e descrita a importância
do
interesse e da atenção.
Adquirindo a massa de material mental que se deve passar à digestão
subconsciente,
havemos de concentrar um alto grau de interesse e atenção sobre cada
porção do
material reunido.
É necessário proceder seriamente quando estamos a reunir o material
mental; isto é
muito importante.
Não se pode reunir depressa toda a espécie de material mental e esperar
depois que
a mente subconsciente faça bem a sua obra; não poderá fazer; e o
estudante que
proceder com tal suposição errada há-de ter maus resultados.
O verdadeiro modo de proceder é tomar sucessivamente cada partícula do
material
mental preparado, examiná-la com o maior interesse e, por isso, também
com a maior
atenção possível e, depois, tendo-a bem saturada com atenção
interessada, juntá-la à
porção de material que, em breve, deverá ser entregue à mentalidade
subconsciente.
Depois, tomar a partícula próxima e fazer com ela o mesmo. E quando já
reunistes sob a
mão os principais factos do caso, observai a massa como um todo, com
interesse e
atenção, como se isto fosse um «tratamento geral». Depois, entregai esse
material à
mentalidade subconsciente, com um forte comando: «Elaborai este material
de
pensamentos» e esperai, confiando que a vossa ordem será obedecida.
A ideia que forma a base deste tratamento do material mental com
interesse e atenção
é a seguinte: assim fazendo, cria-se uma forte «imagem mental» que pode
ser facilmente
tratada pela mentalidade inconsciente. Lembrai-vos que entregais
«pensamento» à mente
inconsciente, para ela agir sobre os mesmos; e que os pode tratar tanto
melhor, quanto
mais tangíveis e reais estes pensamentos forem. Por isso, deve seguir-se
um plano que\
faz destes pensamentos coisas «reais». E são exactamente a atenção e o
interesse que
produzem tal resultado.
Se nos é permitido, faremos uma comparação muito grosseira: diremos que
o
processo pode ser comparado com o de cozinhar um ovo, pelo qual o fluido
que constitui
a «clara» e a «gema» se torna matéria sólida. Outra comparação pode ser
feita com o
pincel de barbeiro, com que este transforma uma subtil espuma numa
grossa massa,
parecida com nata. Outra comparação de que os hindus se servem de
preferência é a
fabricação de manteiga; assim os estudantes são levados a prestar
atenção ao facto do
material de pensamentos, elaborado com atenção e interesse, se
transformar em «formas
de pensamentos» e poder ser tratado pela mente da mesma forma que um
objecto
material é tratado pelas mãos. Meditai sobre estas comparações, porque
uma vez que se
vos torne clara a ideia que desejamos que compreendais, tereis achado a
chave do
segredo das grandes forças do pensamento.
Esta força de mentalidade subconsciente não se limita apenas à
consideração de
questões filosóficas, mas é aplicável a todo campo de pensamento humano
e pode ser
empregada por todos. É útil para resolver os problemas da vida
quotidiana e do trabalho
ordinário, como também é aproveitável na realização dos mais altos voos
da mente
humana. Compreendei ó estudantes, que nestas simples lições vos é dada a
chave de
uma grande força mental.
Para que a possais apreciar devidamente, recordai-vos dos velhos contos
de fadas
que se encontram em todas as raças e que narram que um pobre sapateiro,
alfaiate,
carpinteiro ou outra pessoa, que mereceu, por suas boas obras, o favor
de algum «anão»
ou de alguma boa fada, que veio todas as noites, quando o homem, e sua
família
dormiam, fazer por ele todo o trabalho deixado para o outro dia. Dos
pedaços de couro,
fez sapatos e botas; dos tecidos, fez roupa; da madeira, fabricou
caixas, cadeiras,
bancos, etc. Em cada um destes casos, porém, o material cru tinha sido
preparado pelo
próprio profissional na véspera.
Pois bem, nós queremos introduzir na vossa casa também uma espécie de
anões
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mentais
que vos são favoráveis e dedicados, dispostos a ajudar-vos nos vossos
trabalhos. A única coisa que tendes de fazer é dar-lhes o material
apropriado e dizer-lhes
o que devem fazer, pois eles farão o resto. Mas estes anões mentais são
uma parte da
vossa própria mentalidade — lembrai-vos disso — e não entidades
estranhas e
separadas de vós, como alguns imaginam.
Muitas pessoas que, acidentalmente, descobriram esta faculdade da mente
subconsciente de elaborar problemas e prestar outros valorosos serviços
ao seu
proprietário, deixaram-se levar à superstição de que o auxílio realmente
lhes vinha de
alguma outra entidade ou inteligência. Alguns pensaram que as mensagens
vinham de
amigos, no mundo dos espíritos, e outros acreditaram que alguma
inteligência superior —
Deus ou seus anjos — os socorriam nos trabalhos. Sem entrarmos em
discussão da
comunicação espiritual ou das mensagens divinas, coisas em que cremos
(com certas
reservas provisionais), podemos dizer com certeza que a maioria de casos
deste género é
devida às operações subconscientes da nossa própria mentalidade.
Cada um de nós tem «um amigo» na nossa própria mente — e não só um, mas
uma
multidão deles, e estes gostam de trabalhar por nós, sempre que os
queiramos
encarregar de um serviço. Nós temos não só o Eu Superior, a que podemos
dirigir-nos,
pedindo conforto e auxílio nos momentos de aflição e necessidade; mas
temos também
esses invisíveis trabalhadores no plano subconsciente, que estão prontos
a executar
muito do nosso trabalho mental, fazendo-o com gosto se lhe damos o
material em devida
forma.
É muito difícil dar instruções especiais sobre a maneira como se obtêm
tais resultados,
porque cada caso há-de depender em grande extensão das circunstâncias
peculiares que
o acompanham. Entretanto, podemos dizer que o principal que é necessário
fazer é «dar
a forma» ao material e depois entregá-lo à mentalidade subconsciente, do
modo já
indicado. Vejamos alguns casos em que se pode aplicar este princípio.
Suponhamos que estais em frente de um problema que consiste numa
incerteza a
respeito da escolha de um, entre dois ou mais processos, para ser
aplicado em certo
assunto. Cada um dos referidos processos ou modos parece ter suas
vantagens e
desvantagens e, por isso, não podeis tomar uma resolução clara e
inteligente. Quanto
mais vos esforçais por fazer a devida escolha, tanto mais perplexo e
perturbado vos
tornais.
A vossa mente parece sentir-se cansada disso e manifesta uma espécie de
«náusea
mental». Este estado será experimentado por todos os que têm muito que
«pensar». O
homem comum continua a pensar sobre o assunto, a despeito da condição
imprópria da
sua mente cansada e da sua apatia para com o tema. Forçará a mente a
voltar às
considerações e, até à noite, em vez de adormecer quieto, ocupará os
pensamentos com
o assunto. Este processo, porém, é absurdo. A mente reconhece que o
trabalho deve ser
feito por outra parte dela mesma — pela sua região digestiva— e,
naturalmente, revoltase contra o processo fatigante que não é da sua
atribuição.
Segundo as leis da operação subconsciente, o melhor que aquele homem
pode fazer
é, em primeiro lugar, acalmar e tranquilizar a sua mente. Depois, deve
arranjar e dispor
propriamente os principais pontos do problema e os pequenos detalhes. Em
seguida,
deve colocá-los diante da sua mente e passar sobre eles revista,
tratando cada facto e
detalhe com interesse e atenção, porém, sem fazer a menor tentativa de
formar uma
opinião decisiva, ou de chegar a uma conclusão. Depois, quando tiver
revisto a matéria
com interesse e atenção, deve querer que passe à mente subconsciente,
formando uma
imagem mental desta passagem e, ao mesmo tempo, ordenando com a voz da
sua
vontade: «Elabora isso para mim!»
Em seguida, tirai o assunto da vossa mentalidade consciente, por uma
enérgica ordem
da vontade. Se vos for difícil fazê-lo, podereis em breve chegar ao
resultado desejado,
aplicando frequentemente a seguinte afirmação: «Esta matéria (ou este
assunto)
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abandonou
a minha mentalidade consciente; e a minha mentalidade subconsciente
atenderá à sua elaboração para mim». Depois, esforçai-vos por criar um
mental
sentimento de perfeita confiança e fé na acção subconsciente, não
admitindo
pensamentos de dúvida ou ânsia a respeito do resultado que aguardais.
Das primeiras
vezes poderá isto ser difícil, mas será um sentimento natural quando
tiverdes adquirido a
confiança, que provém de bons resultados obtidos em alguns casos.
Esta confiança depende da prática e, como tudo o que é novo, precisa de
ser
adquirida por perseverança e paciência. Ela vale bem a pena e o tempo
gasto, e quem a
adquiriu é como se descobrisse um tesouro em lugar inesperado. Já o
sentimento de
tranquilidade e contentamento — de calma e confiança — que vem a quem
praticou estes
exercícios vale por si mesmo todo o trabalho e esforço, quanto mais o
magnífico
resultado! Quem está bem familiarizado com este método, considerará os
velhos
sentimentos de tormento, agitação e amargura como restos de barbaria. O
novo caminho
abre um mundo de novos sentimentos e contentamento.
Em alguns casos, a matéria será elaborada pela mentalidade subconsciente
em mui
pouco tempo e, com efeito, conhecemos casos em que a resposta veio quase
instantaneamente, como uma inspiração. Mas, na maioria dos casos, é
necessário mais
ou menos tempo. A mentalidade subconsciente trabalha com muita rapidez,
mas precisa
tempo para arranjar o material mental convenientemente e para lhe dar as
formas
desejadas. Na maior parte dos casos é bom deixar a matéria descansar até
ao dia
seguinte; um facto que nos explica a razão do velho provérbio: dormir
antes de tomar uma
importante decisão ou resolução.
Se a matéria não se apresenta no dia seguinte, ponde-a de novo diante da
mente
cônscia, para esta lhe passar nova revista. Achareis que já está
consideravelmente
esclarecida e assumindo forma definida. Mas não vos esqueçais da
importante verdade
que seria um erro, se a quisésseis dissecar, mexer com ela e arranjá-la
na vossa
mentalidade consciente. Em vez de fazer assim, observai-a com atenção e
interesse
nesta sua nova forma e, depois, entregai-a de novo à mentalidade
subconsciente, a fim
de que esta continue a fazer o trabalho. Cada vez que examinardes a
matéria,
encontrareis mais adiantamento. Aqui é necessário dar-vos ainda outra
advertência: não
caias no erro de ceder à impaciência do principiante e de examinar
amiúde o estado em
que está a matéria que foi entregue à subconsciência. Dai-lhe tempo; não
sejais como o
rapaz que plantou sementes e todos os dias as descobria e tirava da
terra para ver se já
germinavam e quanto cresciam.
Mais cedo ou mais tarde, a mentalidade subconsciente trará e vos
apresentará, de
próprio impulso, quando esta estiver em forma, a matéria, pronta para
passar à
consideração da mente cônscia. A subconsciência não vos obriga a adoptar
as suas
opiniões ou a aceitar o seu trabalho, mas vos entrega apenas os
resultados de sua
análise, classificação e arranjo. Vós tendes a escolha h vontade;
vereis, porém, que,
como por si mesmo se vos tornará claro qual o método ou caminho que
deveis seguir. O
segredo é este: que a mentalidade subconsciente, com sua admirável
paciência e
diligência, analisou a matéria e separou as coisas antes de as
apresentar como unidas.
Achou também os pontos de semelhança e combinou as coisas até então
consideradas
como contrárias. Em poucas palavras: ela fez por vós e fez bem tudo o
que vós podíeis
ter feito com o gasto de muito tempo e trabalho, e, em seguida,
apresenta-vos a matéria
para vossa consideração e julgamento.
Todo o trabalho da mentalidade subconsciente parece que consiste em
sortear,
dissecar, analisar e arranjar a evidência, para vo-la apresentar, em
seguida, de forma
clara e sistemática. Ela não pretende exercer a função julgadora, mas
conhece que a sua
obra cessa com a apresentação da evidência acima referida e que a função
da mente
cônscia começa no mesmo ponto onde a sua cessa.
Não confundais, porém, esta função da mente subconsciente com as funções
da
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intuição,
que é um plano ou uma fase mental muito diferente. A mentalidade
subconsciente é um bom criado e não ambiciona ser qualquer coisa mais. A
intuição, pelo
contrário, é como um bom amigo que ocupa um posto elevado e nos dá
conselho e
advertência.
Nas nossas instruções, dissemo-vos como podeis utilizar-vos desta parte
da
mentalidade, conscientemente, para obter os melhores resultados e para
vos livrardes da
perturbação e inquietação que vos perseguem, se vos ocupais na vossa
mente cônscia
com problemas cuja solução pertence à subconsciência. Todos empregamos
esta parte
da nossa mente, muitas vezes sem o sabermos.
Ocupamo-nos, por exemplo, com pensamentos dirigidos a certo assunto,
conservando-o «na nossa mente» até que nos vemos obrigados a abandoná-lo
porque
precisamos tratar de outra coisa ou porque adormecemos. E quando, mais
tarde,
tornamos a pensar naquele assunto (que tínhamos abandonado), achamos,
muitas vezes,
que já está mais claro e que encontrou a solução por si mesmo, tendo nós
aprendido algo
que anteriormente ignorávamos.
Nós não entendemos como foi que isso se deu e pensamos que é uma das
coisas
inexplicáveis. Nestas lições, porém, achareis alguma explicação a
respeito e podeis
aprender a fazer uso consciente e entendido daquilo que, aliás, podeis
fazer apenas «por
acaso», instintiva e imperfeitamente. Nós vos ensinamos a dominar a
mente.
Agora, apliquemos a regra a um outro caso. Suponhamos que desejais
reunir todos os
conhecimentos que possuis em relação a certo objecto. Em primeiro lugar,
dir-vos-emos
que é certo que possuis muitos mais conhecimentos de qualquer objecto do
que pensais.
Armazenadas nos vários receptáculos da mente (ou se preferis o termo —
da memória),
acham-se dispersas partículas de saber e conhecimentos relativos a quase
todos os
objectos. Mas estas partículas de saber não estão associadas Umas às
outras. Vós nunca
tentastes pensar com atenção sobre a questão particular de que se trata,
e os factos não
foram correlacionados na vossa mente. É como se tivésseis muitos quilos
de alguma
coisa num vasto armazém, porém espalhados, um pedacinho aqui, outro ali,
misturados
com milhares de objectos.
Podeis convencer-vos de que assim é, se vos sentardes por algum tempo e
deixardes
que os vossos pensamentos se ocupem com determinado objecto;
percebereis, então,
como emergem no campo de vossa consciência numerosos conhecimentos e
informações que tínheis aparentemente esquecido e cada um procura o seu
próprio lugar.
Não há quem não tenha experiências deste género.
Mas o trabalho de reunir as porções dispersas de conhecimento, é mais ou
menos
tedioso para a mente cônscia, e a mentalidade subconsciente o fará
igualmente bem, à
custa da atenção. Na realidade, é sempre a mentalidade subconsciente que
elabora a
tarefa, ainda que vos pareça que a mente cônscia o faz.
Esta apenas presta firme atenção ao objecto e, depois, o entrega à mente
subconsciente. Prestar atenção, porém, é um processo fatigante e não é
necessário
gastar as vossas energias com os detalhes da tarefa, porque o trabalho
pode ser feito de
um modo mais fácil.
O melhor método é aquele que mencionamos algumas páginas atrás, isto é:
fixar com
firmeza a atenção interessada na questão de que vos ocupais, até que
obtenhais uma
clara e viva impressão daquilo que quereis vos seja esclarecido.
Em seguida, entregai todo o material à mentalidade subconsciente,
ordenando-lhe:
Cuida disto, e não vos preocupeis mais com a questão, isto é, não vos
ocupeis dela na
vossa mente cônscia, deixando a subconsciente trabalhar. Se for
possível, deixai tudo
assim até à manhã seguinte e, depois, submetei o assunto a consideração;
se
procedestes devidamente, achareis, então, que o trabalho está pronto,
logicamente
arranjado, de maneira que a vossa atenção consciente poderá rever a
fileira de factos,
exemplos, ilustrações, experiências, etc., que se referem ao objecto em
questão.
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Dirão,
talvez, alguns dentre vós, que desejariam saber com o proceder em casos
em
que não têm tempo de dormir, para depois obter o resultado da operação
subconsciente.
Nestes casos, podeis cultivar um rápido método de operar
subconscientemente, que, com
efeito, é seguido por muitas negociantes e pessoas empreendedoras e
activas, que o
descobriram levadas pela necessidade. Em primeiro lugar, dirigem a sua
atenção com
firmeza e compreensão ao objecto em questão, penetrando-o profundamente
e, depois,
deixam-no repousar na mente subconsciente por um momento, passando um ou
dois
minutos em «conversação preliminar», até que lhes venha o primeiro
clarão de resposta.
Depois deste primeiro clarão, e segurando a ponta solta do objecto que
se lhes apresenta,
desenvolverão um novelo de informação é «falarão» sabre o objecto de
maneira
surpreendente para si próprios. Muitos advogados adquiriram este saber e
com facilidade
descobrem a fonte donde devem haurir. Muitas vezes vêem-se em frente de
questões de
condições tais que não as suspeitam um momento antes. A prática lhes
ensinou que é
loucura ter medo e perder a confiança em tais momentos, convencendo-os
da verdade do
facto de que alguma coisa no seu interior os salvará. E assim, com ares
de confiança,
dizem primeiro algumas palavras, dando à mente subconsciente o tempo
necessário para
reunir rapidamente o material para a resposta. Num momento vem ao homem
uma ideia
que começa a esclarecer a questão e, depois dela, outras a que ele
presta boa atenção
consciente; estas ideias vêm às vezes com tanta rapidez que é quase
impossível
expressá-las e eis que o perigo passou e o homem colhe um brilhante
sucesso, muitas
vezes onde, a principio, o ameaçava o falhanço e a derrota. Em tais
casos, a ordem não é
dada à mente subconsciente com palavras, mas resulta de uma grande
necessidade
mental. O resultado, porém, será melhor ainda, se derdes à
subconsciência uma rápida
ordem verbal: Cuida disto!
Conhecemos casos em que homens que ocupam posições proeminentes nos
negócios públicos fumavam um ci-garro durante uma importante entrevista,
não porque
fossem fumadores viciosos, mas porque tinham aprendido a apreciar o
valor de um
momento de tempo para «juntar os pensamentos», como disse alguém.
Trata-se, por
exemplo, de responder a uma proposição ou pergunta, sendo necessário
responder
imediatamente. Sob as vigilantes vistas do seu interlocutor não quer o
interrogado deixar
perceber, por óbvias razões que está a procurar a resposta a dar. Então
dá uma bofarada
prolongada com a fumaça do cigarro, depois olha atentamente a cinza da
ponta, em
seguida utiliza-se dele mais um momento, deixando-o cair no receptáculo
e, depois,
começa a responder, dizendo devagar: «Bem, quanto a isso» — ou qualquer
outra
palavra semelhante, que lhe serve de prefácio à resposta que foi
elaborada, nesse
intervalo, pela mente subconsciente, para ser expressada em tempo
conveniente. Os
poucos instantes ganhos foram suficientes para a mentalidade
subconsciente reunir o
material e dar-lhe a devida forma, sem que o interrogado demonstrasse
qualquer
hesitação. Como é natural, tudo isto requer prática, mas o princípio é
que o homem faça,
nestes casos, trabalhar por si uma parte latente da sua mente e que o
material seja posto
na devida forma, ainda que rude, no momento em que ele começa a falar.
Os nossos estudantes compreenderão, decerto, que não devem interpretar o
que
dissemos como um conselho de fumar cigarros quando tiverem uma
entrevista de
importância, mas que apresentamos simplesmente o exemplo para explicar o
princípio
que rege tudo isso. Conhecemos outras pessoas que fazem girar um lápis
entre os dedos
vagarosamente, por alguns instantes, deixando-o cair no momento em que
lhes vem a
ideia. Havemos, porém, de cessar de apresentar exemplos, porque, aliás,
poderíamos ser
acusados de dar instruções em sabedoria mundana, em vez de ensinar como
se deve
fazer o uso da mente. A pausa impressiva do mestre, antes de responder à
pergunta do
discípulo, também é um exemplo da operação desta lei. As vezes dizemos:
«Espera,
deixa-me pensar um pouco», e durante a pausa não pensamos realmente em
absoluto,
mas permanecemos numa posição um tanto sonolenta, enquanto que a nossa
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mentalidade subconsciente trabalha por nós, embora nem saibamos disso e
ignoremos a
natureza da Operação. Olhemos ao redor de nós e reconheceremos a
importância e
frequente aplicação desta verdade.
A mentalidade subconsciente pode ser utilizada não só nas direcções
indicadas nas
últimas páginas, mas em quase toda a perplexidade e em qualquer problema
da vida lhe
podemos pedir auxilio. Estes pequenos anões subconscientes estão sempre
à nossa
disposição e parecem gostar de nos servir.
E assim, longe de cairmos numa posição de falsa dependência, este
processo tornanos confiantes em nós mesmos porque pedimos socorro a uma
parte de nós mesmos, e
não de uma inteligência exterior. Se aquelas pessoas que nunca se sentem
satisfeitas
senão quando recebem «aviso» ou «conselho» de outrem, quisessem cultivar
as
operações que os familiarizam com o pequeno «conselheiro de casa» que
está dentro
delas mesmas, a sua mente cessaria de depender dos outros e
tornar-se-iam cheios de
confiança em si mesmos e livres do medo. Imaginai a confiança que sente
quem sabe
que tem em si mesmo uma fonte de saber; igual à maioria daqueles com que
vivem em
contacto; ele olha-os na face, sem medo, e a sua presença não o
atemoriza; sente que a
sua «mente» não se limita ao pequeno campo da consciência mas que a sua
área é
infinitamente maior e contém uma quantidade de conhecimentos que nunca
sonhou. Tudo
o que o homem herdou ou trouxe consigo das vidas passadas — tudo o que
leu, ouviu,
viu ou experimentou nesta vida, está guardado em qualquer repartição
dessa grande
mente subconsciente e a «essência» de todo esse saber aparece, quando
ordenamos. Os
detalhes não se apresentam talvez à sua consciência (para o que há muito
boas razões
ocultas), mas o resultado ou a essência do saber comparece perante a sua
atenção, com
suficientes exemplos e ilustrações ou argumentos que lhe dão a
possibilidade de
aproveitar o caso.
Na próxima lição chamaremos a vossa atenção sobre outras formas e
qualidades
desse grande campo mental, mostrando-vos como podeis dominá-lo e fazê-lo
trabalhar.
Lembrai-vos sempre de que o «Eu» é o Senhor; e o seu domínio há-de ser
sempre
lembrado e afirmado sobre todos os planos e fases da mente. Não sejais
escravo do
subconsciente, mas sede seu dominador, seu Senhor.
Mantram (afirmação)
Eu
tenho dentro de mim uma grande área da Mente que está debaixo do meu
mando
e que posso dominar. Esta Mente é minha amiga e gosta de fazer o que lhe
mando fazer;
obedece com gosto às minhas ordens. Ela trabalhará por mim quando eu
quiser, e é
constante, incansável e fiel. Sabendo isto, já não sou medroso,
ignorante e sem
conhecimento. O «Eu» é o senhor de tudo isto e afirma a sua autoridade.
«Eu» sou o
Senhor do corpo, da mente, da consciência e da subconsciência. Eu sou
«Eu» — um
centro de poder, força e saber. Eu sou «Eu» — e «Eu» sou espírito, um
fragmento da
Chama Divina.
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INDICE
Na
nossa última lição (a décima) chamamos a vossa atenção para o trabalho
admirável das regiões mentais subconscientes na direcção da execução de
obras
intelectuais. Grandes são as possibilidades deste campo de mentação na
dita direcção;
igualmente grandes, porém, são as possibilidades da formação de carácter
por métodos
semelhantes.
Cada um reconhece que podemos mudar o nosso carácter por meio de um
estrênuo
curso de repressão e educação, e quase todos os que lêem estas linhas
modificaram o
seu carácter em certos pontos por semelhantes métodos. Há apenas poucos
anos que o
público em geral soube que o carácter pode ser modificado, mudado e, às
vezes,
totalmente transformado por meio de uma inteligente aplicação das
faculdades mentais
subconscientes.
A palavra «carácter» deriva de termos antigos que significam «marcar»,
«gravar», etc.,
e algumas autoridades dizem que este termo provém originalmente da
palavra usada
pelos tijoleiros babilónicos para designar a marca comercial que
imprimiam nos seus
tijolos, tendo cada tijolo a sua própria marca. Isto é interessante, em
vista das recentes
teorias a respeito do cultivo da força do carácter, as quais podem ser
achadas nos livros
ocidentais modernos que tratam de psicologia. Mas estas teorias não são
novas para os
instrutores yogues orientais, que têm empregado semelhantes métodos já
nos séculos
passados, na educação dos seus estudantes e alunos. Os yogues ensinam já
desde há
séculos que o carácter de um homem é, praticamente, a crua matéria do
carácter com
que nasceu, modificada e modelada no homem ordinário por influências
exteriores, e no
homem sábio por meio de voluntário treinamento e educação. Os seus
discípulos são
examinados quanto aos traços característicos e, em seguida, são
dirigidos para reprimir
os traços inconvenientes e cultivar os traços desejáveis.
A prática yogue de formação do carácter baseia-se no conhecimento das
admiráveis
forças do plano mental subconsciente. Os yogues não exigem que o
discípulo siga
severos métodos de repressão ou cultivo, mas, ao contrário, ensinam que
tais métodos
são opostos aos planos naturais e que o melhor caminho é imitar a
natureza e
desenvolver gradualmente as características desejadas por meio da
concentração da
força de vontade e da atenção sobre elas. A extirpação dos traças
característicos
inconvenientes realiza-se quando o discípulo cultiva os traços que lhe
são opostos. Por
exemplo, se o discípulo quer vencer o medo, não se lhe ensina a
concentrar-se sobre o
medo com a ideia de o destruir, mas em vez disso ensina-se-lhe que deve
mentalmente
negar que tem medo e, depois, concentrar a sua atenção sobre o ideal de
coragem.
Quando estiver desenvolvida a coragem, o medo desaparece. O positivo
vence sempre o
negativo.
Na palavra «ideal» está o segredo do método yogue de formação
subconsciente do
carácter. Os yogues ensinam a formar «ideais» por meio da atenção que
lhes é prestada.
Ao estudante dá-se o exemplo de um roseira e ensina-se-lhe que a planta
crescerá e
florescerá à medida do cuidado e atenção que se lhe dispensar, e
vice-versa. Explica-selhe que o ideal de um traço de carácter que se
deseja ter é como uma roseira mental, que
crescerá e produzirá folhas e flores, se lhe dedicarmos cuidadosa
atenção. Em seguida,
dá o instrutor ao discípulo a ideia de um traço característico de menor
dificuldade para ser
adquirido e manda-o desenvolver, ocupando-se dele em seus pensamentos:
para este fim
o estudante deve exercer a sua imaginação de «ver» mentalmente como está
a adquirir a
qualidade desejada. Dão-se-lhe mantrams ou afirmações para os repetir,
com o fim de ter
um centro mental, ao redor do qual pode construir um ideal. Há um grande
poder nas
palavras usadas desta maneira, supondo que o praticante pensa sempre no
significado
das mesmas e faz uma imagem mental da qualidade que expressa e não as
repete
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simplesmente sem pensar, como um papagaio.
O estudante yogue treina-se gradualmente, até que adquire a faculdade de
dirigir
conscientemente a mentalidade subconsciente no processo de formação,
faculdade que
pode cada um adquirir, seja ocidental ou oriental, se se der ao trabalho
de praticar dos
exercícios próprios. Com efeito, quase cada um possui e emprega esta
faculdade, embora
muitos nem o saibam. O carácter de uma pessoa é grandemente o resultado
da qualidade
dos pensamentos tidos na mente e dos ideais ou imagens mentais que a
pessoa traz
consigo.
Quem se vê e imagina sempre como infeliz e vencido, é muito capaz de
aumentar as
ideias das formas de pensamento destas coisas até que toda a sua
natureza venha a ser
dominada por elas, e todos os seus actos objectivam esses pensamentos,
tomando-o
realmente infeliz e fraco. Pelo contrário, o homem que nutre um ideal de
sucesso e bom
êxito, achará que a sua natureza mental inteira parece colaborar para a
objectivação do
seu ideal, tornando-o feliz e forte. E assim em relação a qualquer outro
ideal. A pessoa
que forma e alimenta em si uma ideia de ciúme, facilmente poderá
objectivar e criar
inconscientemente as condições que darão ao ciúme o alimento para se
nutrir. Mas esta
fase particular do assunto pertence propriamente à lição próxima. Esta
décima-primeira
lição tem por fim explicar a maneira por que podemos formar o nosso
carácter como
quisermos — substituindo os traços inconvenientes pelos desejáveis e
desenvolvendo os
ideais desejáveis até que venham a ser caraeterísticas activas. A mente
é elástica, para
quem conhece o segredo de sua manipulação.
A maioria dos homens reconhece os pontos fortes e fracos do seu
carácter, mas
considera-os geralmente como fixos e inalteráveis. Tais pessoas pensam
que são «como
o Senhor os fez», e que não podem ser outros. Não sabem que o seu
carácter é
inconscientemente modificado, dia a dia, pela associação com outros,
cujas sugestões
são por eles absorvidas e agem sobre eles. Não sabem igualmente que
estão a formar o
seu próprio carácter, tomando interesse em certas coisas e permitindo à
mente ocupar-se
com elas.
Não sabem que, na realidade, são eles mesmos seus próprios autores,
servindo-se do
rude e cru material que lhes foi dado ao nascerem. Cada um faz-se a si
mesmo positiva
ou negativamente. Negativamente, se se deixa modelar pelo pensamento e
ideais de
outros; e positivamente, se se modela a si mesmo.
Cada um faz uma ou outra destas duas coisas — ou talvez ambas. O homem
fraco é
aquele que se deixa modelar por outros: o forte é aquele que tem o
processo da sua
formação nas próprias mãos.
O processo da formação do carácter é tão extraordinariamente simples que
a sua
importância escapa facilmente à observação das pessoas que o não
conhecem. É por
meio da prática e das experiências que dão resultado, que essas
admiráveis
possibilidades podem ser realizadas.
O estudante yogue cedo aprende a lição da força e importância da
formação do
carácter por meio de um exemplo prático. Assim, por exemplo, quando o
estudante
reconhece que o seu paladar acha certas coisas agradáveis e outras
desagradáveis, seu
instrutor ensina-o a cultivar o desejo e gosto da coisa desagradável, e
aversão pela coisa
agradável. O yogue ensina o estudante a fixar a sua mente nas duas
coisas, porém
imaginando que gosta de uma e não gosta de outra. O estudante é ensinado
a fazer uma
imagem mental das condições desejadas e dizer, por exemplo:
«Não gosto de açúcar candi — nem quero vê-lo» e, por outro lado: «Gosto
de coisas
amargas — acho nelas bom paladar», etc., etc., esforçando-se ao mesmo
tempo por
sentir nojo da doçura ou de outro objecto agradável ao paladar, e gosto
delicioso ao
provar coisas amargas ou desagradáveis. Depois de algum tempo o
estudante acha que o
seu paladar está a mudar realmente, de acordo com os seus pensamentos e,
por fim, os
referidos gostos terão trocado completamente os seus lugares. A verdade
desta teoria
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torna-se
assim clara e inesquecível ao estudante.
Alguns dos leitores poderiam objectar-nos que assim o estudante fica com
o sentido
de gosto em condições invertidas; não se dá assim, porque o instrutor
yogue lhe ensina
depois a abandonar a ideia da coisa desagradável e lhe dá instruções
para achar bom
paladar em tudo o que é comestível; porque os yogues são de opinião que
a aversão para
alguma comida provém de alguma sugestão na infância ou de alguma
impressão pré-
natal, porque tudo o que é comestível se torna atractivo ao paladar pela
natureza. Todo
este treinamento, porém, não tem por fim o cultivo do paladar, mas serve
de prática de
treino mental e convence o estudante da verdade do facto, de que a sua
natureza é
plástica para o seu Ego, e que este a pode modelar à vontade, por meio
da concentração
e da prática inteligente. O leitor desta lição pode experimentar em si
mesmo, se quiser, o
que acima dissemos. Achará que é possível fazer cessar a sua aversão a
certas comidas
ou mudar o gosto, etc., pelo método acima indicado. Desta maneira poderá
encontrar
prazer em tarefas e deveres que até agora lhe eram desagradáveis e que
necessariamente deve desempenhar.
O princípio que serve de base a toda teoria yogue da formação do
carácter pelo
intelecto subconsciente é que o Ego é o Senhor da mente, e que a mente é
plástica para
as ordens do Ego. O Ego ou «Eu» do indivíduo é o seu único princípio
real, permanente,
imutável; a mente, como o corpo, está constantemente em mudança e
movimento, cresce
e morre. Da mesma maneira como o corpo pode ser desenvolvido e educado
por meio de
exercícios inteligentes, assim também a mente pode ser desenvolvida e
educada pelo
Ego, se se aplicarem métodos inteligentes.
A maioria dos homens pensa que o carácter é uma coisa fixa, pertence ao
homem e
que não pode ser alterado nem mudado. Não obstante, provam com os seus
actos
quotidianos que, nos seus corações não acreditam nisso, porque todos se
esforçam por
mudar e modelar os caracteres daqueles que os rodeiam: pela palavra de
aviso,
conselho, louvor ou repressão, etc.
Não é necessário nesta lição entrarmos na consideração das causas do
carácter.
Contentar-nos-emos em dizer que estas causas podem ser resumidas, mais
ou menos,
assim:
1) Resultado de experiências feitas nas vidas passadas; 2)
Hereditariedade; 3)
Ambiente; 4) Sugestão dada por outros; 5) Auto-sugestão.
Porém, de qualquer modo que tenha sido formado o nosso carácter, ele
pode ser
modificado, modelado, mudado e melhorado pelos métodos apresentados
nesta lição, e
que são parecidos com o que alguns escritores ocidentais denominam
«auto-sugestão».
A ideia básica da auto-sugestão é o «querer» do indivíduo que se façam
as mudanças
na sua mente, sendo esta volição ajudada pelos métodos inteligentes e
experimentados
de criar o novo ideal ou forma de pensamento. A primeira condição
necessária para
realizar as mudanças é o «desejo» da mudança. Enquanto não desejardes
realmente que
haja tal mudança, não podeis levar a vontade à, tarefa. Há uma estreita
conexão entre o
desejo e a vontade. A vontade não costuma ser induzida a um objecto,
senão quando é
inspirada pelo desejo Algumas pessoas ligam a palavra desejo com as
inclinações baixas,
mas ela é igualmente aplicável às superiores. Se alguém combate uma
inclinação ou um
desejo inferior, faz isso também porque tem uma inclinação ou possui
desejo superior.
Muitos desejos são, às vezes, compromissos entre dois ou mais desejos
contrários ou
diferentes — uma espécie de desejo comum.
Ninguém fará a menor mudança no seu carácter sem desejar primeiro
fazê-lo. E na
proporção da força do desejo, maior ou menor será a força de vontade que
se aplica à
tarefa. O essencial necessário na formação do carácter é sentir que «é
mister tratar
disso». E quando o homem acha que este sentimento de necessidade não é
bastante
forte para o tornar capaz de manifestar a perseverança e o esforço
necessários para o
levar a bom êxito, deve proceder com deliberação e «formar o desejo».
102 / 118
O desejo
pode ser formado quando se permite à mente ocupar-se com o objecto até
que comece a desejá-lo. Esta regra rege ambos os caminhos, como muitos
acharam à
sua tristeza e miséria. Pode-se tornar assim não só um desejo
recomendável, como
também repreensível. Um pouco de reflexão vos convence da verdade disto.
Um jovem
não tem desejo de se entregar aos excessos de uma vida «leviana». Algum
tempo depois,
porém, ouve ou lê alguma coisa sobre outros que levam a vida assim e
começa a permitir
à sua mente ocupar-se do assunto, pensando nele e examinando-o
mentalmente, e
saturando com ele a sua imaginação.
Depois de algum tempo começa a sentir um desejo que se enraíza e
desenvolve
gradualmente. E se continuar a nutrir o objecto na sua imaginação,
chega, por fim, a
sentir em si uma inclinação nascente, que tentará com insistência
exprimir-se em acção.
Há muita verdade nas palavras do poeta:
«O vicio é tão feio que, visto à luz,
Só nojo e ódio ao homem bom produz.
Mas se o vê frequentemente, o nojo passa,
o homem aceita-o e, por fim o abraça».
E as loucuras e crimes de muitos homens devem-se ao crescimento de um
desejo na
sua mente; eles plantaram a semente, regaram-na e cuidaram dela, para
que crescesse:
— o desejo cresceu. Pensamos que é útil esta palavra de advertência,
porque ela vos
esclarecerá muitas coisas que vos poderiam perturbar e porque pode
chamar a vossa
atenção a certas ervas daninhas que crescem na mente e que talvez
tenhais bem
alimentadas.
Lembrai-vos sempre, porém, de que a força que conduz para baixo pode ser
transmutada e usada para conduzir para cima.
É tão fácil plantar e fazer crescer desejos sãos e úteis, como maus. Se
tendes a
consciência de certos defeitos e deficiências no vosso carácter (e quem
não os tem?) e
achais que não possuís ainda o desejo bastante forte para fazerdes a
necessária
mudança, deveis começar por plantar a semente do desejo e deixá-la
crescer sob o vosso
cuidado e constante atenção. Deveis fazer-vos à imagem das vantagens da
aquisição dos
traços de carácter que desejais ter. Deveis frequentemente pensar neles,
imaginando que
já os possuís. Assim achareis que o desejo crescente aumenta e que, a
pouco e pouco,
sentis cada vez mais a necessidade de possuir aqueles traços de
carácter. E quando
começardes a sentir esta necessidade com bastante força achareis que
também
experimentais na vossa consciência um sentimento de possuirdes força de
vontade
suficiente para realizar o desejo: A vontade segue depois do desejo.
Cultivai um desejo e
achareis depois a vontade para o realizar. Sob a pressão de um
fortíssimo desejo
praticaram, alguns homens, actos semelhantes a milagres.
Se achais que possuís desejos que vos são prejudiciais, podeis
livrar-vos deles
deixando-os morrer por falta de alimento e, ao mesmo tempo, fazendo
crescer desejos
opostos. Recusando-vos a pensar nos desejos inconvenientes, tirai-lhes o
alimento
mental necessário à sus existência. Da mesma forma que morrerá uma
planta a que tirais
o solo e a água que a nutrem, assim também há-de morrer um desejo
inconveniente, se
vos recusais a dar-lhe alimento mental. Lembrai-vos disto, porque é
multo importante.
Não permitais à mente ocupar-se de tais desejos, e desviai resolutamente
a atenção e
sobretudo a Imaginação do objecto.
Isto exige, no principio, Um pouco de força de vontade, mas à medida que
progredirdes, tornar-se-á mais fácil e cada vitória vos dará nova força
para o próximo
combate. Não contemporizeis com o desejo, não façais compromisso com ele
— recusaivos a entreter a ideia. Num combate deste género, cada vitória
aumenta a vossa força, e
cada revés a enfraquece.
103 / 118
E
enquanto vos recusais a entreter o hóspede desagradável, haveis de fazer
crescer
com firmeza um desejo de natureza totalmente oposta — um desejo
directamente oposto
ao que estais a eliminar. Fazei a imagem do desejo oposto, e pensai nela
amiúde. Fazei
com que a vossa mente pouse nela com agrado e que a imaginação ajude a
dar-lhe
forma. Pensai nas vantagens que vos trará a sua plena possessão e fazei
na vossa
imaginação um quadro em que vos vejais possuidor da qualidade almejada e
como esta
vos dá nova força vital e novo vigor.
Tudo isto vos levará gradualmente ao ponto em que delibereis «querer»
possuir tal
força. Em seguida, preparai-vos para dar o primeiro passo para diante,
que é a «fé» ou
«expectação confiante».
Ora, muitas pessoas são incapazes de ter fé ou esperar com confiança,
quando
precisam; em tais casos, hão-de adquirir a fé gradualmente. Muitos de
vós — que estais
lendo estas linhas — compreenderão aquilo que vos dará esta M. Aos que
não estão
neste caso, aconselhamos que pratiquem algumas fases triviais de
desenvolvimento
mental, algum traço de carácter em que a vitória for fácil e simples.
Depois, deverão
empreender tarefas mais difíceis; até que, por fim, adquirirão aquela fé
ou expectação
confiante que provém da prática perseverante.
Quanto mais fé ou confiança tiverdes no bom êxito do trabalho da
formação do
carácter, tanto maior será o vosso sucesso. Isto baseia-se em leis
psicológicas bem
estabelecidas. A fé ou expectação confiante clarifica e limpa o caminho
mental e torna o
trabalho mais fácil, ao passo que a dúvida ou a falta de fé retardam a
obra e agem como
obstáculo. Desejo forte e fé ou expectação: eis os primeiros dois
passos. O terceiro é a
força de vontade.
Com a palavra «força de vontade» não pensamos naquela coisa que cerra os
punhos
e franze as sobrancelhas — a que alguns dão, falsamente, o nome de
«vontade». A
vontade não se manifesta deste modo. A verdadeira vontade aparece quando
reconhecemos o nosso «Eu» e pronunciamos a palavra de mando daquele
centro de
poder e força. É a voz do «Eu». E é necessária, nesta operação de
formação de carácter.
Agora estais, pois, pronto para operar, possuindo: 1) um desejo forte;
2) fé ou
expectação confiante; e 3) a força de vontade. Com esta tríplice arma,
haveis de alcançar
o sucesso.
Em seguida, vem o trabalho mesmo. Em primeiro lugar, haveis de pôr o
trilho para um
novo hábito destinado a fazer parte do vosso carácter. «Hábito?» —
perguntareis, talvez,
com surpresa. Sim, hábito! Porque esta palavra explica todo o segredo.
Os nossos
caracteres são formados de hábitos que herdamos ou que adquirimos.
Reflecti sobre isto
e achareis que é assim. Fazeis certas coisas sem nelas pensar, porque
adquiristes o
hábito de as fazer. Agis em certas direcções, porque constituístes o
hábito. Estais
habituados a ser fiéis, verdadeiros, honestos, virtuosos, porque
adquiristes e firmastes o
hábito de sê-lo. Duvidais? Pois olhai em redor de vós — ou olhai no
vosso próprio
coração e vereis que perdestes alguns dos vossos hábitos velhos e
adquiristes alguns
novos. A formação do carácter é formação de hábitos. E mudar o carácter
é mudar os
hábitos. Gravai bem na vossa mente este facto, porque ele vos explicará
muitos segredos
relativos ao assunto.
E lembrai-vos que o hábito pertence quase inteiramente à mentalidade
subconsciente.
É verdade que os hábitos se originam na mente consciente, mas quando
estão
estabelecidos, caem nas profundidades da mentalidade subconsciente e
transformam-se
na «segunda natureza» que, muitas vezes, é mais poderosa que a natureza
original da
pessoa.
O duque de Wellington disse que o hábito era tão forte conto dez
naturezas e cuidava
de cultivar certos hábitos no exército, até que os soldados achavam
natural agir de acordo
com os hábitos implantados pelos exercícios.
Darwin relata um exemplo interessante da força do hábito sobre a razão.
Ele
104 / 118
reconheceu que o seu hábito de recuar em frente de um perigo que se
apresentava
repentinamente era tão enraizado no seu ânimo, que nenhuma força de
vontade podia
conseguir que apertasse a sua face contra a jaula da cobra da índia nos
Jardins
Zoológicos, quando a serpente se lançava contra ele, embora soubesse que
o vidro era
tão grosso que não havia perigo algum e apesar de aplicar toda a força
de vontade. Mas
nós podemos garantir que se pode vencer mesmo um hábito fortemente
arraigado,
quando se treina gradualmente a mentalidade subconsciente e se
estabelece um novo
hábito de pensar e agir.
O processo de aprontar o novo caminho mental não se faz apenas quando a
vontade
se ocupa dele; os yogues opinam que a maior parte deste processo se faz
subconscientemente nos intervalos entre as ordens dadas pela vontade e
que o processo
real é feito deste modo, subconscientemente, como a solução de
problemas, de que
tratamos na última lição.
Agora chamaremos a vossa atenção para uns exemplos de cultivo de hábitos
físicos.
Um tema a estudar de tarde faz-se com muito mais facilidade de manhã, no
dia seguinte,
do que à noite, no primeiro dia; e ainda com mais facilidade de manhã,
na segunda-feira,
do que à tarde, no sábado anterior. Os alemães têm um provérbio que diz:
«Aprendamos
a patinar durante o verão e a nadar durante o inverno»; querendo dizer
com isso que a
impressão dada à mentalidade subconsciente aprofunda e alarga-se durante
o intervalo
de descanso.
O melhor método é fazer frequentes e fortes impressões e, depois, dar
razoáveis
períodos de descanso para que a mentalidade subconsciente possa fazer o
seu trabalho.
Com o termo «fortes impressões», pensamos impressões dadas sob forte
atenção, como
já mencionamos algures nesta série de lições.
Um escritor disse, com toda a razão: «Semeai um acto, colhereis um
hábito; semeai
um hábito, colhereis um carácter; semeai um carácter, colhereis um
destino»,
reconhecendo, assim, que o hábito é a fonte do carácter.
Esta verdade é praticamente reconhecida na educação das crianças, na
formação de
bons hábitos e bom carácter por meio de constante repetição, cuidadosa
atenção, etc. O
hábito age como um motivo quando está assente, de maneira que, quando
pensamos que
estamos a agir sem motivo, agimos talvez sob a força motivada por um
hábito bem
assente.
Herbert Spencer disse bem: «O homem habitualmente honesto faz o que é
justo, não
com o pensar consciente de que o «deve» fazer, mas com simples
satisfação; e não fica
contente enquanto não estiver feito o que reconhece como justo».
Alguns podem objectar que esta ideia de hábito como base do carácter é
capaz de
suprimir a ideia de uma consciência moral iluminada; mas a tais
objecções
responderemos que quem quer criar os hábitos para cultivar Um carácter
superior, há-de
«desejar» primeiro fazer cultura e «desejá-lo» é o sinal da «consciência
moral», mais que
o hábito. O mesmo acontece em relação ao lado do «dever». A ideia do
«deve fazer»
surge na mente cônscia no princípio e inspira o cultivo do hábito,
embora este, depois de
pouco tempo, se torne automático, uma operação da mentalidade
subconsciente, sem
ligação alguma à ideia do dever. Ele vem a ser um objecto de gosto...
Assim, vemos que a modelação, modificação, e formação do carácter
dependem, em
grande parte, da criação de hábito. Qual o melhor método de criar
hábitos, será a questão
mais próxima. A resposta do yogue é: «Formai uma imagem mental e depois
assentai o
vosso hábito em torno dela». E nesta sentença condensou um sistema
inteiro.
Tudo que vemos que tem forma, é construído sobre a base de uma imagem
mental —
seja a de um homem, de Um animal ou do Absoluto. Esta é a regra do
universo e, na
formação de um carácter, seguindo simplesmente uma casa, pensamos
primeiro na
«casa» de um modo geral. Depois começaremos a pensar na «espécie» de
casa. Em
seguida, vamos aos pormenores.
105 / 118
Depois
consultamos um arquitecto e ele faz-nos um plano; este plano é sua
imagem,
sugestionada por nossa imagem mental. Em seguida, aceite o plano,
consultamos o
construtor e, por fim, a casa está construída, — uma imagem mental
objectivada. E assim
é com todos os objectos criados ou produzidos — tudo é manifestação de
uma imagem
mental.
E assim, quando desejamos criar um traço de carácter, havemos de formar
uma clara
e distinta imagem mental do que queremos. Isto é um passo importante.
Formai uma
imagem clam e distinta, e segurai-a na vossa mente. Depois começai a
construir em tomo
dela. Deixai os vossos pensamentos pousarem nessa imagem mental. Fazei
com que a
vossa imaginação vos veja como possuindo o referido traço de carácter e
ponde-o em
acção. Ponde-o em acção na vossa imaginação, repetidas vezes, tantas
quantas forem
possíveis, perseverando e continuamente vendo-os manifestar o dito
característico numa
variedade de circunstâncias e condições. A medida que fordes fazendo
assim, achareis
que, gradualmente, começais a exprimir o pensamento em acção —
objectivar a imagem
mental subjectiva. Tornar-se-á «natural» agirdes de acordo com a vossa
imagem mental,
até que, por fim, o novo hábito estará firmemente fixo no vosso ânimo e
virá a ser o vosso
natural modo de acção e expressão.
Isto não é uma teoria vaga, visionária. É um facto psicológico muito bem
conhecido e
provado, por meio do qual milhares de pessoas produziram admiráveis
mudanças no
próprio carácter.
Desta maneira, não só podemos elevar o nosso carácter moral, como também
modelar o nosso eu inferior para se conformar melhor às necessidades do
ambiente e da
ocupação. Se alguém tem falta de perseverança, pode-a adquirir; se está
cheio de medo,
pode substitui-lo por coragem; se lhe falta a confiança em si mesmo,
pode obtê-la. Com
efeito, não há traço que não possa ser desenvolvido desta maneira. Há
pessoas que se
transformaram totalmente, seguindo este método de formação do carácter.
A humanidade
tem sofrido tanto por não saber que se podia fazer isto! Os homens
julgavam que haviam
de ficar a ser sempre as mesmas criaturas que eram; não compreendiam que
a obra da
criação não estava acabada e que dentro de si mesmos tinham um poder
criador
adaptado às suas necessidades. Quando p homem reconhece esta verdade e a
põe em
prática, torna-se um outro ser. Acha que é superior ao ambiente e à
educação — acha
que pode elevar-se acima destas coisas. Faz o seu próprio ambiente e
educa-se a si
mesmo.
Em algumas das escolas superiores, na Inglaterra e nos Estados Unidos,
certos
estudantes que desenvolveram e manifestaram a capacidade de dominar-se a
si mesmos
e ser senhores das suas acções, passam ao rol de um grau denominado: «o
grau dos que
se governam a si mesmos». Eles agem como se tivessem diante de si as
palavras de
Herbert Spencer, que diz: «Na supremacia do domínio de si mesmo consiste
uma das
perfeições do homem ideal. O que a educação moral se esforça por
produzir é o seguinte:
«Não ser impulsivo; não se deixar levar aqui e ali pelos desejos; mas
saber restringir-se a
si mesmo, equilibrar-se, governar-se pela decisão dos sentimentos
elevados...» É este o
desejo do autor desta lição: Colocar cada estudante na «classe des que
se governam a si
mesmos».
Não podemos, no curto espaço de Uma só lição apresentar um curso de
instrução na
formação de carácter, adaptado às necessidades especiais de cada
indivíduo. Julgamos,
entretanto, que aquilo que dissemos sobre o assunto será suficiente para
indicar o
método que cada estudante pode especializar para seu uso, seguindo as
regras gerais
dadas acima.
Para auxiliar o estudante daremos, todavia, um breve curso de instrução
para o culto
de um desejável traço de carácter. O plano geral deste curso pode ser
adaptado para
satisfazer as necessidades de qualquer outro caso, se o estudante tem
bastante
inteligência. O caso que escolhemos é o de um estudante que tem sofrido
pela «falta de
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coragem
moral — falta de confiança em si próprio — incapacidade de conservar o
próprio
valor na presença de outras pessoas —incapacidade de dizer «Não» —
sentimento de
inferioridade com os que tinha contacto». Aqui segue o cônscio esboço do
curso de
prática dado nesse caso:
Pensamento preliminar — Deveis fixar firmemente na vossa mentalidade o
facto de
que sois igual a qualquer pessoa. Viestes da mesma fonte. Sois uma
expressão da
mesma Vida Una. Aos olhos do Absoluto, sois igual a qualquer pessoa,
ainda que seja a
que ocupa a mais alta posição do país.
Verdade é: «As coisas como Deus as vê» — e, em verdade, vos e qualquer
homem
(ou mulher) sois iguais e, enfim, sois Um. Todos os sentimentos de
inferioridade são
ilusões, erros e mentiras, e não têm existência verdadeira.
Quando estiverdes em companhia de outros, lembrai-vos deste facto e
reconhecei que
o Princípio da Vida em vós fala ao Principio de Vida neles. Deixai o
Princípio de Vida fluir
através de vos, e esforçai-vos por vero mesmo Principio de Vida atrás e
além da
personalidade da pessoa em cuja presença estais. Ela (esta pessoa)
oculta sob o véu da
personalidade o Principio de Vida, da mesma forma que vós o fazeis. Nada
mais, nada
menos! Vós ambos sois Um na verdade. Deixai irradiar a consciência do
«Eu» e sentireis
enlevo e coragem, e o outro sentirá a mesma coisa. Tendes em vós mesmo a
fonte da
coragem moral e física. e não tendes nada a temer; intrepidez é a vossa
herança divina;
apossai-vos dela. Tendes a consciência de vós mesmo; o vosso «Eu» não é
limitado à
mesquinha personalidade; tende confiança nesse «Eu» real. Penetrai no
vosso interior,
até sentirdes a presença do «Eu», e então tereis uma confiança em vós
mesmo que nada
pode abalar nem perturbar. E quando tiverdes atingido a consciência
permanente do
«Eu», estareis em equilíbrio. Uma vez que tenhais reconhecido que sois
um centro de
poder, não vos será difícil dizer: «Não!» quando convier dizê-lo. Uma
vez que tenhais
reconhecido a vossa verdadeira natureza — o vosso «Eu» Real — perdereis
todo o
sentimento de inferioridade e sabereis que sois uma manifestação da Vida
Una e que
tendes por vós a força, o poder e a grandeza do Cosmos. Começai com o
reconhecimento de VÓS MESMO e, em seguida, repassai aos seguintes
métodos de
treino mental:
Imagens de palavras — É difícil para a mente construir sobre uma ideia,
quando esta
ideia não for expressa em palavras. Uma palavra é o centro de uma ideia,
da mesma
forma que a ideia é o centro da imagem mental; e imagem mental é o
centro do hábito
mental crescente. Por isso, os yogues dão sempre grande importância ao
uso de palavras
neste treinamento. No caso particular de que tratamos, sugerimo-vos
algumas palavras
que cristalizem a ideia principal e que deveis segurar na mente. Estas
palavras são: «Eu
Sou», coragem, confiança, equilíbrio, firmeza, igualdade. Gravai-as na
memória e depois
esforçai-vos por fixar na vossa mente uma clara concepção do significado
de cada uma
dessas palavras, de maneira que cada uma represente uma ideia viva,
quando as
pronunciardes. Tende cuidado em não as repetir sem pensar, como
papagaios ou como o
fonógrafo. O significado de cada palavra deve estar claro diante de vós
para o sentirdes,
quando disserdes a palavra. Repeti essas palavras frequentemente, quando
se apresenta
a oportunidade, e, em breve, começareis a notar que agem sobre vós como
um forte
tónico mental, produzindo um efeito fortificante. E todas as vezes que
repetirdes essas
palavras, com entendimento, tereis feito alguma coisa para clarificar o
caminho mental
pelo qual desejais viajar.
Prática — Quando não tiverdes que fazer e vos puderdes entregar aos
«sonhos de
dia», sem prejuízo dos vossos negócios e deveres, evocai a vossa
imaginação e esforçaivos por fazer uma imagem de vós mesmo como
possuindo as qualidades indicadas pelas
palavras acima dadas. Imaginai que estais em circunstâncias muito
tentadoras e fazeis
uso das qualidades desejadas e que as manifestais plenamente.
Esforçai-vos por fazer
uma imagem mental de vós mesmos desempenhando bem o vosso papel e
exibindo as
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qualidades desejadas. Não vos envergonheis de entregar-vos a estes
sonhos de dia,
porque eles são as profecias das coisas que hão-de vir, e vós apenas
ensaiais o vosso
papel antes do dia em que será desempenhado na realidade. Isto pode
parecer infantil a
vários dentre vos, ;nas se tendes um actor entre os vossos amigos,
consultai-o sobre isto
e achareis que vo-lo recomendará de coração. Ele dir-vos-á o que vale a
prática nestas
coisas e como a prática repetida e os repetidos ensaios fixam um
carácter tão firmemente
na mentalidade humana, que, depois de algum tempo, é difícil despi-lo.
Escolhei bem o
papel que deveis representar — o carácter que desejais possuir — e,
depois, fixando-o
bem na vossa mente, praticai, praticai, praticai. Conservai o vosso
ideal sempre diante de
vós e esforçai-vos por crescer até ele. Se vos exercitardes em paciência
e perseverança,
tereis bom êxito.
Alguma coisa mais. Não limiteis a vossa prática apenas a ensaios
particulares.
Precisareis de ensaiar também em público. Por isso, quando vedes que já
estais preparado, passai a exercitar os vossos crescentes hábitos,
destinados a formar o vosso
carácter, na vossa vida quotidiana. Escolhei primeiro os casos mais
fáceis e experimentaios. Achareis que sereis capaz de vos tomar senhor
de condições que outrora vos
causavam grandes dificuldades. Tornar-vos-eis conscientes de uma força e
de um poder
que vêm do vosso interior, e reconhecereis que realmente sois uma pessoa
transformada.
Deixai o vosso pensamento expressar-se em acção, sempre que for
conveniente. Mas
não tenteis forçar o sucesso para experimentar a vossa força. Não
obrigueis, por
exemplo, o povo a pedir-vos favores, para poderdes dizer: «Não!»
Encontrareis
muitíssimos casos e ocasiões próprias, sem as provocar. Acostumai-vos a
olhar o povo
nos olhos e a sentir o poder que está detrás e dentro de vós. Em breve,
podereis ver
através das personalidades e reconhecer que não são senão uma parte da
Vida Una,
olhando outra parte e que não há motivo de se assustar.
O reconhecimento do vosso «Eu» real tornar-vos-á capaz de manter o
equilíbrio em
qualquer circunstância, por mais tentadora que seja, se abandonardes a
vossa falsa ideia
a respeito da vossa personalidade. Esquecei-vos de vós mesmo — o vosso
pequeno
«eu» pessoal — por um instante, e fixai a vossa mente no «Eu» universal,
de que sois
uma parte. Tudo o que vos tem afligido não é mais que pequenos acidentes
da vida
pessoal que são reconhecidos como ilusões, do ponto de vista da Vida
Universal.
Lembrai-vos sempre de que o Ego é o senhor dos estados e hábitos
mentais, e que a
vontade é o instrumento directo do Ego e sempre pronta para o seu uso.
Enchei a vossa
alma com o forte desejo de cultivar aqueles hábitos mentais que vos
tornam fortes. É
plano da natureza produzir fortes expressões individuais de si mesma, e
com gosto vos
ajudará para vos tornardes forte. O homem que deseja fortificar-se
encontrará sempre
grandes forças a seu lado que o auxiliarão, porque está a realizar um
plano favorito da
natureza, que ela vai elaborando já desde há séculos. Tudo o que vos
leva a reconhecer
e manifestar o vosso poder e mestrado, tende a fortalecer-vos e põe à
vossa disposição o
auxílio da natureza.
Podeis testemunhá-lo todos os dias: a natureza parece gostar de
indivíduos fortes e
deleita-se em ajudá-los a avançar. Como mestrado, designamos o domínio
sobre a nossa
própria natureza inferior, e também sobre a natureza exterior.
O «Eu» é o Mestre, o Senhor, o Dominador — não esqueçais, ó estudante, e
afirmai-o
constantemente! A Paz seja convosco.
Mantram (afirmação)
Eu
sou o Senhor dos meus hábitos mentais. Eu sou
Senhor e Governador do meu carácter. Eu hei-de ser forte e invoco as
forças da
natureza em meu auxilio.
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INDICE
LIÇÃO XII - INFLUENCIAS SUBCONSCIENTES
Nesta lição, queremos falar de certo ramo da mente subconsciente, de que
se têm
ocupado muito certas escolas de escritores e estudantes ocidentais
durante os últimos
vinte anos, mas que também foi mal compreendido e — o que é pior —
muitas vezes
abusado por alguns que tinham sido atraídos para este assunto. Aludimos
ao que foi
denominado «poder do pensamento». E verdade que este poder é real e,
como qualquer
outra força da natureza, pode ser usado e aplicado propriamente na nossa
vida
quotidiana; mas alguns estudantes do poder da mente abusaram dele e
chegaram a
práticas dignas apenas dos adeptos das escolas de magia negra. Ouvimos
par toda a
parte falar de «tratamentos» para fins egoístas e, muitas vezes, muito
baixos, parecendo
que as pessoas que se dedicam a essas práticas ignoram as leis ocultas
que põem em
operação e a terrível reacção que recai inevitavelmente sobre os que
praticam esta forma
negativa de influência mental.
Ficamos surpreendidos ao ver tanta ignorância a respeito da natureza e
do efeito
deste abuso da força mental e, ao mesmo tempo, a grande extensão que já
adquiriram
estas práticas impróprias e egoístas. E isto, particularmente, quando o
verdadeiro
ocultista sabe que tais coisas não são necessárias aos que procuram o
«sucesso»
através das forças mentais. Há um bom método de emprego das forças
mentais, como
também há mau uso e julgamos poder esclarecer nesta lição este assunto
clara e
distintamente aos nossos estudantes.
No nosso primeiro curso («Catorze Lições»), nas diversas lições
intituladas «Dinâmica
do Pensamento», «Telepatia», etc. e «Influência Psíquica», demos uma
ideia geral do
efeito de uma mente sobre outras mentes, e muitos outros escritores
chamaram a
atenção do mundo ocidental para os mesmos factos. Nos últimos anos,
despertou o
interesse geral, no Ocidente, por esta fase do assunto, e muitas e
admiráveis são as
teorias que foram apresentadas, por diferentes escolas, a respeito das
leis que regem
esses fenómenos. Apesar de diferirem entre si essas teorias, todas estão
de acordo sobre
factos fundamentais. Todas concordam que as forças mentais podem ser
empregadas
para agir sobre si e outros, e muitos se entregam ao uso dessas forças
mentais para seus
próprios fins e intuitos egoístas, julgando que têm pleno direito de o
fazer e ignorando a
teia de causas e efeitos psíquicos que tecem, com suas práticas, ao
redor de si.
Agora queremos, antes de tudo, gravar nas mentes dos nossos estudantes o
facto de
que, por um lado, é indubitável verdade que, as pessoas que não sabem da
verdadeira
fonte de força que têm em si mesmas, podem ser, muitas e muitas vezes,
influenciadas
pela força mental dos outros; mas que, de outro lado, igualmente é
verdade que ninguém
pode ser influenciado deste modo contra sua vontade, se reconhecer o
«Eu» em si
mesmo, este «Eu» que é a sua única parte real e que é uma inacessível
torre de força
contra os assaltos de pessoas estranhas. Não há razão para o medo do
poder do
pensamento, que manifestaram alguns estudantes ocidentais temendo
constantemente
possam ser «tratados» adversamente por algumas pessoas.
O homem ou a mulher que reconhece o «Eu» no seu interior, pode, com um
pequeno
esforço de vontade, rodear-se de uma aura mental que repelirá as andas
de pensamento
adversário, emanadas de outras mentalidades. E mais que isso: — o
reconhecimento
habitual do «Eu» e alguns momentos de meditação sobre ele todos os dias,
por si
mesmos erigirão tal aura; e a saturação com uma vitalidade que retorna o
pensamento
adversário e o faz voltar à fonte de origem, onde poderá convencer a
mente que o
originou de que está em erro e que deve deixar de fazer essas práticas
perigosas.
O reconhecimento do «Eu», de que falamos na primeira lição desta série,
é o melhor e
o único método de protecção própria. Entendereis melhor isto se vos
recordardes que
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todos os
fenómenos de influências mentais pertencem ao «ilusório» lado da
existência —
ao lado negativo — e que o lado real e positivo há-de necessariamente
ser mais forte.
Nada pode influenciar o que em vós é real — e quanto mais aproximado
estais do real,
em conhecimento e entendimento, tanto mais forte vos tornais. Este é o
segredo de tudo.
Pensai nele.
Mas, são relativamente poucas as pessoas que podem permanecer firme e
constantemente na consciência do «Eu»; e outros pedem auxílio enquanto
se
desenvolvem. A estes diremos: «Refugiai-vos, quanto possível, no
reconhecimento do
«Eu» e conservai os vossos pés com firmeza sobre a rocha do «Eu» real.
Se sentis que
algumas pessoas, circunstâncias ou coisas, vos influenciam
indevidamente, levantai-vos,
intrépidos, e negai a influência. Dizei, por exemplo: «Eu NEGO o poder e
a influência de
pessoas, circunstâncias ou coisas adversas a mim. Eu AFIRMO a minha
realidade, o meu
poder e domínio sobre estas coisas». Estas palavras parecem ser muito
simples, mas são
muito poderosas se se dizem com a consciência da verdade sobre que se
baseiam.
Compreendereis, decerto, que não há magia ou virtude nas palavras como
tal — isto
é, no agrupamento dos sons ou das letras que formam as palavras — a
virtude está na
ideia, de que as palavras são a expressão. Surpreender-vos-á o efeito
cesta NEGAÇÃO e
AFIRMAÇÃO sobre as influências depressivas ou adversas que vos rodeiam.
Se vós —
vós que ledes agora estas palavras — vos sentis sujeito a algumas
influências adversas
ou depressoras, levantai-vos, ponde-vos de pé, erecto, com os ombros
para trás e a
cabeça para cima, olhando corajosa e intrepidamente para diante e repeti
as palavras
acima mencionadas com firmeza e fé: — vereis como desaparecerão as
influências
adversas. Será como se uma nuvem caísse de vós. Experimentai agora,
antes de
continuar a ler, e tornar-vos-eis consciente de uma nova força, de um
novo vigor e poder.
Tendes toda a razão de negar assim qualquer influência adversa. Tendes
pleno direito
de afugentar de vós as nuvens de pensamentos maus ou depressivos. Tendes
pleno
direito de vos colocar firme sobre a rocha da Verdade — o vosso «Eu»
real — e querer a
vossa liberdade. Esses negativos pensamentos do mundo em geral e de
algumas
pessoas em particular pertencem ao lado escuro da vida, e vós tendes
direito de querer
ser livre deles. Vós não pertenceis ao mesmo lado da vida e é o vosso
privilégio — sim, é
até o vosso dever! — repeli-los e ordenar-lhes que desapareçam do vosso
horizonte. Vós
sois um filho da Luz e é vosso direito e dever afirmar a vossa
liberdade, que não vos pode
tirar as coisas das trevas.
E afirmais simplesmente a verdade quando afirmais vossa superioridade e
vosso
domínio sobre aquelas forças negras. E à força do vosso conhecimento e
fé
corresponderá a força que tereis à disposição.
A fé e o conhecimento fazem do homem um deus. Se pudéssemos plenamente
reconhecer o que somos na realidade, poderíamos elevar-nos acima de todo
o plano do
negativo e obscuro mundo do pensamento. Mas tornámo-nos tão cegos e
apalermados
com os pensamentos de medo e fraqueza espalhados pela raça humana; e tão
hipnotizados com as sugestões de fraqueza que ouvimos por todos os
lados, que até aos
melhores dentre nós é difícil evitar ocasionalmente o cair nas
profundidades do desespero
e desânimo. Lembrai-vos, porém, irmãos e irmãs, que estas «recaídas» se
tornam menos
frequentes e duram menos, à medida que progredimos. Pouco a pouco
escapar-lhesemos totalmente.
Alguns pensarão que estamos a dar demasiada importância ao lado negativo
da
questão, mas nós sabemos que o que vimos dizendo é dito em bem tempo e
muito
necessário a muitos dos que lêem estas lições. Esta negativa, adversa
força de
pensamento tem sido objecto de tantos tratados e descrições, que é bom
que todos
saibam que está em seu poder o elevar-se acima dela e que a arma para se
defender
dela já está nas suas mães.
O mais adiantado discípulo pode ocasionalmente esquecer que é superior à
influência
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adversa
do pensamento da raça e a outras nuvens de pensamento que aparecem na
sua
vizinhança. Quando pensamos como são poucos os que emitem ondas de
pensamentos
positivos, esperançosos, e quantos são os que emitem vibrações de
desânimo, medo e
desespero, não nos admiramos que às vezes nos assalte Um sentimento de
desânimo,
pusilanimidade e fraqueza. Devemos, porém, estar sempre alerta,
levantar-nos e negar
essas coisas na nossa existência, quando concerne ao nosso mundo pessoal
do
pensamento. Há uma maravilhosa verdade oculta nesta última sentença. Nós
somos os
criadores, conservadores e destruidores do nosso mundo pessoal do
pensamento.
Podemos aduzir-lhe o que desejamos que apareça; podemos conservar ali o
que
desejamos, cultivando, desenvolvendo e modelando as formas de pensamento
que
queremos; podemos destruir o que não queremos conservar. O «Eu» é o
senhor do seu
mundo de pensamentos. Reflecti sabre esta grande verdade, ó estudante!
Pelo desejo
chamamos à existência, pela afirmação conservamos e encorajamos, pela
negação
destruímos. Os hindus, nas suas concepções religiosas populares,
representam o Ser
Uno como uma Trindade, composta de Brama — o Criador, Vishnu — o
Conservador, e
Shiva — o Destruidor; não são três deuses, como se supõe geralmente, mas
é uma
Trindade, composta de três aspectos da Deidade ou do Ser. Esta ideia de
tríplice Ser é
aplicável também ao indivíduo: «Como em cima, assim em baixo». O «Eu» é
o Ser do indivíduo, e o mundo de pensamento é a sua manifestação.
Ele cria, conserva e destrói — como quer. Ficai com esta ideia e
reconhecei que o
vosso mundo individual do pensamento é o vosso próprio campo de
manifestação.
Nele estais criando sempre — sempre conservando — e destruindo. E se
podeis
destruir alguma coisa no vosso próprio mundo do pensamento, com isso lhe
anulais a
actividade, no que a vós respeita. E se criais alguma coisa no vosso
próprio mundo de
pensamento, dai-lhe existência activa, quanto a vós concerne. E se
conservais alguma
coisa a sua operação e influência na vossa vida vos acompanha. Esta
verdade pertence
às fases superiores do nosso assunto, porque a sua explicação é
inseparável da
explicação da «Coisa em Si mesma» — o Absoluto e as Suas manifestações.
0 que,
porém, dissemos acima, será suficiente para o estudante atento, a fim de
lhe fazer
compreender os factos do caso e aplicar os princípios na sua própria
vida.
Quem vive no plano do pensamento da raça está sujeito às suas leis,
porque a lei de
causa e efeito está em plena operação acima do pensamento da raça e ao
plano do
reconhecimento do «Eu» real, não está mais sujeito às leis inferiores de
«causa e efeito»
e coloca-se num plano mais alto de causa, onde desempenha uma tarefa
muito superior.
E assim estamos a lembrar-vos constantemente que a vossa torre de força
e refúgio está
situada no plano superior.
Não obstante, porém, temos que nos ocupar com as coisas e leis do plano
inferior,
porque muito poucos dos que lêem estas lições são capazes de ficar
totalmente no plano
superior.
A grande maioria elevou-se ao plano superior apenas em parte e vive por
conseguinte,
em ambos os planos, cada um parcialmente; e por isso há um combate,
entre as leis de
ambos os planos, as quais dão ocasiões a conflitos. O presente grau é um
dos mais
árduos no caminho da realização e assemelha-se às dores do parto no
corpo físico. Mas
vós estais nascendo a um plano mais elevado; e a dor, quando tiver
chegado ao seu
auge, irá diminuindo e, por fim, desaparece e sobrevirão paz e calma.
Quando a dor
estiver no ponto mais agudo, consolai-vos com a certeza de haverdes
chegado à crise do
vosso novo crescimento espiritual e sabei que, em breve, alcançareis a
paz. E então
vereis que a paz e a ventura valem toda a dor e combate. Sede corajosos,
ó
companheiros de viagem: — a libertação está perto!
Em breve virá o silêncio que segue a tempestade. A dor que sofreis — ah!
bem
sabemos que estais sofrendo a dor! — não é castigo, mas é uma parte
necessária do
vosso desenvolvimento. Toda a vida segue este plano — as dores de
trabalho e parto
111 / 118
precedem
sempre a libertação. Tal é a vida — e a vida baseia-se na verdade — e
tudo é
para bem do mundo. Não foi intenção nossa falarmos destas coisas nesta
lição mas,
enquanto escrevemos, ouvimos um grande clamor que pede auxílio e
palavras de ânimo
e esperança, e que vem da classe dos que estudam este curse de lições, e
nos sentimos
obrigados a responder-lhe como fizemos.
A Paz seja convosco — com todos e cada um.
E agora começaremos a nossa consideração sobre as leis que governam a
chamada
«influência subconsciente».
Todos os estudantes do oculto conhecem o facto de os homens poderem ser
—e são
— muito influenciados pelo pensamento de outros. Isto dá-se não só nos
casos em que
os pensamentos são dirigidos da mentalidade de uma pessoa à outra, como
também
quando não há especial direcção ou intenção no pensamento emitido. As
vibrações do
pensamento continuam a subsistir na atmosfera astral muito tempo depois
de haver
passado o esforço que emitiu o pensamento. A atmosfera está carregada
das vibrações
de pensadores dos anos já há muito passados, e possui bastante
vitalidade para
influenciar aqueles cujas mentes estão prontas a recebê-las. E todos nós
atraímos
vibrações do pensamento que correspondem em natureza aos que estamos
habituados a
entreter. A lei da atracção está em plena operação e quem a estuda pode
ver exemplos
por todos os lados.
Atraímos estas vibrações de pensamentos, mantendo e treinando
pensamentos de
certa qualidade. Se cultivamos o hábito de pensar em alegria, bom ânimo
e optimismo,
atraímos a nós idênticas vibrações de outros e, em pouco tempo,
notaremos que todas as
espécies de pensamentos alegres flúem de todos os lados às nossas
mentes. Igualmente,
se nutrimos pensamentos de tristeza, desespero, pessimismo, abrimo-nos
ao influxo de
pensamentos semelhantes que emanaram das mentes de outros. Pensamentos
de
cólera, ódio ou ciúme atraem outros semelhantes que servem para
alimentar a chama e
perpetuar o fogo destas emoções baixas. Pensamentos de amor tendem a
atrair outros
pensamentos de amor, que nos saturam de um ardor de amorosa emoção.
Não só somos influenciados, assim, pelos pensamentos de outros, mas a
«sugestão»
também toma uma parte importante nesta matéria de influência
subconsciente. Achamos
que a mente tem a tendência de reproduzir as emoções, o medo, as formas
de
pensamentos e os sentimentos de outras pessoas, como se manifestam por
sua atitude,
aparência, expressão da face, ou palavras. Se nos associamos às pessoas
de
temperamento sombrio, corremos o perigo de sermos afectados por elas,
tornando-nos
também tristes, devido à lei da sugestão, se não conhecermos esta lei e
não a
contrariarmos. Do mesmo modo achamos que a alegria é contagiosa e,
quando estamos
em companhia de pessoas alegres, facilmente assumimos a sua qualidade
mental. A
mesma regra se aplica à frequência da companhia de pessoas que têm ou
não bom
sucesso, conforme for o caso. Se permitimos h nossa mente aceitar as
sugestões que
constantemente emanam dessas pessoas, notaremos que ela reproduz os
tons, as
atitudes, as características, as disposições e os traços das outras
pessoas e, em pouco
tempo, viveremos no mesmo plano mental. Dissemos repetidas vezes que
estas coisas se
dão quando deixamos a nossa mente «tomar» impressões; quando, porém,
sois
conhecedor e senhor da lei da sugestão compreendendo seus princípios e
suas
operações, não sois sujeitos a deixar-vos influenciar. Todos nós temos
notado o efeito de
certas pessoas sobre outras, com que viviam em contacto. Alguns têm a
faculdade de
inspirar com vigor e energia aqueles em cujo meio vivem. Outros fazem
impressão
desagradável, deprimindo os que estão perto. Aqueles outros produzem nos
que estão
em sua companhia um sentimento de indisposição, devido a sua
desconfiança, suspeita e
baixeza. Alguns irradiam uma atmosfera de saúde, ao passo que outros
parecem
rodeados de uma aura de doença, ainda que a sua condição física não
pareça indicar
falta de saúde. Os estados mentais impressionam subtilmente;
112 / 118
o
estudante que quiser observar com atenção as pessoas com quem vive em
contacto, receberá desta maneira uma educação liberal.
Naturalmente, há grande diferença no grau de sugestionabilidade entre
diferentes
pessoas.
Há alguns que são quase imunes, ao passo que outros são tão constante e
fortemente
impressionados pelas sugestões alheias, conscientes ou inconscientes,
que é difícil dizer
se têm qualquer pensamento independente ou vontade própria. Quase todas
as pessoas,
porém, são sugestionáveis, umas mais, outras menos.
Do que dissemos, não se deve supor que todas as sugestões sejam «más»,
prejudiciais ou inconvenientes. Muitas sugestões são bem boas para nós e
nos ajudam
muito quando vêm em tempo próprio. Contudo é bom que a nossa mente
examine essas
sugestões, antes de lhes permitir manifestarem-se na nossa mentalidade
subconsciente.
A decisão final deve ser vossa e não de outrem, ainda que aceiteis
sugestões externas.
Lembrai-vos sempre de que VÓS sois um indivíduo que tem uma mente e
vontade
próprias.
Conservai-vos firmemente sobre a base da consciência do «Eu» e vereis
como tendes
uma força admirável contra as sugestões adversas de outros. Sede vosso
próprio
sugeridor — educai e influenciai vós mesmo a vossa mente subconsciente e
não lhe
permitais tomar as sugestões de outros. Desenvolvei o sentido da
individualidade.
Nos últimos anos escreveu-se muito, no mundo ocidental, a respeito do
efeito da
atitude mental sobre o sucesso e adiantamento no plano material. Embora
muitas destas
coisas não passem de mera imaginação, há sempre uma firme e sólida
parcela de
verdade em tudo isto.
É indubitavelmente certo que a nossa atitude mental predominante se
manifesta e
objectiva constantemente a nossa vida. Coisas, circunstâncias, pessoas,
planos, tudo
parece que se adapta ao ideal geral da forte atitude mental do homem. E
nisto pode-se
notar a operação da lei mental segundo várias linhas de acção.
Em primeiro lugar, a mente, quando se dirige a alguns objectos, torna-se
alerta para
descobrir coisas que são concernentes aos mesmos objectos: quer apanhar
pontos,
oportunidades, pessoas, ideias e factos que sirvam para esclarecimento
daquilo sobre o
que se pensa. Quem procura factos para provar certas teorias, acha-os
certamente, como
igualmente é certo que lhe escapam factos que são contrários à sua
teoria. Quando um
optimista e um pessimista passam pelas mesmas estradas, cada um vê
milhares de
exemplos que tendem a corroborar as suas ideias. Como diz Kay: Se tendes
o firme
propósito de achar ou descobrir alguma coisa, se conservais na vossa
mente e tendes
sempre diante de vós a sua clara imagem, ser-vos-á muito fácil
encontrá-la e até, talvez,
onde provavelmente passaria despercebida, sob outras circunstâncias.
Quando
pensais firmemente em algum objecto, vêm-vos muitas ideias de coisas
semelhantes ou
concernentes a ele, próprias a dar-vos esclarecimentos relativos ao dito
objecto. Em
verdade, podemos dizer da mente o que se diz da vista: «percebe apenas
aquilo que
pode atingir com a sua capacidade de perceber».
John Burroughs disse com razão que: «Ninguém achou a bengala, se não a
tinha na
mente. Um homem, cujos olhos estão cheios de relíquias indianas,
descobre-as em todos
os lugares por onde passa. Reconhece-as rapidamente, porque os seus
olhos foram
encarregados de as achar».
Quando a mente se dirige com firmeza a um ideal ou alvo, todas as suas
variadas
forças tendem à realização e manifestação desse ideal. A mente achará
milhares de
modos de operar e objectivar a atitude mental subjectiva e grande
proporção do esforço
mental é obra da subconsciência. É de suma importância para quem deseja
ter sucesso
em alguma empresa segurar diante da sua vista mental uma clara imagem
daquilo que
deseja. Ele deve fazer esta imagem e supor que segura o objecto do seu
desejo, até que
este se torne quase real.
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Deste
modo chama em seu auxílio toda a sua força e faculdade mental, pelo
caminho
da subconsciência e prepara, por assim dizer, uma limpa vereda que o
conduz à
realização.
Bain diz a respeito disto: «Planeando uma nova construção, precisamos
conceber
claramente o que planeamos. Se temos diante de nós um modelo distinto e
inteligível,
estamos no caminho do bom sucesso; quando o ideal está imperfeitamente
esboçado,
sendo obscuro e vacilante, também ele vacilará e não chegará a realizar
o seu plano».
Maudsley diz: «Não podemos praticar um acto voluntariamente, sem
sabermos o que
estamos a querer fazer; e não podemos saber isso, sem haver aprendido a
fazê-lo».
Carpenter diz: «A contínua concentração da atenção sobre uma certa ideia
dá-lhe um
poder dominante, não só sobre a mente como também sobre o corpo». Muller
diz: «A
ideia da nossa própria força dá força aos nossos movimentos. Quem tem
confiança nos
seus músculos fará qualquer trabalho que exige esforço muscular, com
muito mais
facilidade do que aquele a quem falta essa confiança na sua própria
força». Tanner diz:
«Acreditar com firmeza em alguma possibilidade é quase equivalente à sua
realização.
Relatam-se casos extraordinários que demonstram a influência da vontade
mesmo sobre
os músculos involuntários».
Neste sentido, muitos escritores ocidentais deram testemunho do
principio yogue da
manifestação do pensamento em acção. Kay escreveu: «Uma ideia clara e
exacta do que
desejamos fazer e como deve ser feito, é de grande valor e importância
em todos os
afazeres da vida. A conduta de um homem segue naturalmente as ideias da
sua mente e
nada contribui mais para o êxito na vida do que um alto ideal que se tem
constantemente
em vista. Onde há esse ideal o êxito é quase certo. Numerosas
circunstâncias
inesperadas vêm colaborar para esse fim e até o que, no princípio,
parecia ser adverso,
pode converter-se em força auxiliadora; e o ideal, estando sempre
presente diante da
nossa vista mental, estará sempre pronto a aproveitar qualquer
circunstância favorável
que se apresente».
A respeito do mesmo tema, escreveu Foster as seguintes palavras
notáveis: «É
admirável como até as causalidades da vida parecem vergar-se diante de
um espírito que
não quer vergar-se diante delas e como cedem para servir a um fim que,
ao princípio,
pareciam querer frustar. Quando se reconhece um espírito firme e
decisivo é interessante
ver como o espaço se clarifica em torno de um homem e lhe dá liberdade».
Simpson
disse: «Um desejo apaixonado e uma vontade infatigável podem realizar o
impossível ou
o que parece impossível para os frios e fracos». E Maudsley apresenta à
mocidade aspirante uma verdade de grande importância, quando diz: «Assim
é que as aspirações.
muitas vezes, são profecias, arautos daquilo que o homem será quando
estiverem
cumpridas certas condições». E podemos concluir o parágrafo, citando
Lytton: «Sonha, ó
mocidade, sonha viril e nobremente e os teus sonhos serão profecias».
Este principio do poder da imagem mental é fortemente gravado na mente
do discípulo
ou chela, pelos mestres yogues. Eles ensinaram que, da mesma forma como
a casa é
construída de acordo com o plano do arquitecto, assim também a nossa
vida se
desenvolve de acordo com a imagem mental predominante. A mente fixa-se
em torno da
imagem mental ou da atitude predominante e, em seguida, procura no mundo
exterior o
material necessário para executar o plano de construção.
Desta maneira, forma-se não só o carácter do discípulo, mas até as
circunstâncias e
os incidentes da sua vida seguem a mesma regra. O discípulo do yogue
recebe
instruções sobre os mistérios do poder da mente nesta direcção, não para
que faça delas
uso para alcançar bens materiais ou realizar os seus desejos pessoais —
pois ensina-selhe que deve evitar tais coisas — mas recebe as instruções
completas, para compreender
as operações da lei que vê ao redor de si. E é um facto muito conhecido
pelos estudantes
aprofundados de ocultismo, que os poucos que chegaram a graus
extraordinariamente
elevados no seu desenvolvimento, empregam este poder somente em
benefício da
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humanidade. Muitos dos movimentos mundiais têm sido dirigidos pela mente
ou pelas
mentes de algumas dessas almas adiantadas que eram capazes de ver o
ideal da
evolução que a humanidade devia seguir, e vislumbrando-o e
concentrando-se nele em
meditação, aceleraram realmente o progresso da onda evolucionária e
causaram a
manifestação daquilo que viam e sobre que tinham meditado.
É verdade que alguns ocultistas usaram semelhante processo para servir
seus
próprios fins pessoais e egoístas — muitas vezes até sem ter pleno e
exacto
conhecimento da força que empregavam — mas isto só o corrobora o velho
facto de que
as forças da natureza podem ser usadas para o bem e para o mal. E tudo
isto é mais uma
razão porque aqueles que desejam o progresso da humanidade, o
adiantamento na
evolução do mundo, devem utilizar esta poderosa força nos seus trabalhos
altamente
altruístas.
O sucesso não é repreensível, apesar do facto de muitos interpretarem e
aplicarem
esta palavra de tal modo que fizeram parecer como se não tivesse outro
significado ou
aplicação a não ser a material e egoísta que se lhe atribui geralmente,
devido ao abuso
que se pratica neste sentido. O mundo ocidental está a desempenhar o seu
papel na
evolução da raça, e a sua divisa é «actividade». Aqueles que se elevaram
tão alto que
podem, do seu ponto de vista, avistar o mundo humano como se avista um
vale de cima
de uma montanha, sabem o que significa esta estrénua vida ocidental.
Eles vêem
poderosas forças em operação — poderosos princípios aplicados por
pessoas que nem
sonham a significação final daquilo que estão a fazer. Coisas
assombrosas estão hoje
diante do mundo ocidental — fazem-se mudanças maravilhosas — grandes
coisas estão
na matriz do tempo e a hora do parto se aproxima. Os homens e as
mulheres do mundo
ocidental sentem, dentro de si, uma poderosa força que os impele a ser
activos, a
desempenhar uma parte activa no grande drama da vida. E têm razão em dar
plena
expressão a este impulso e fazem bem usando todos os meios legítimos
para este fim. E
a ideia da atitude mental ou da imagem mental é um dos maiores factores
neste combate
pelo sucesso.
Nesta lição, não tencionamos ensinar os caminhos do «sucesso» aos nossos
estudantes. As nossas lições têm outro objectivo, e há muitos outros
tratados do referido
assunto. O que desejamos fazer é mostrar aos nossos estudantes o
significado de todo
este estrénuo combate do século que tem lugar no mundo ocidental e os
princípios
básicos que nele estão envolvidos. As grandes obras do mundo material
são executadas
por meio da força mental. Os homens começam a compreender que o
«pensamento se
manifesta em acção» e atrai a si as coisas, pessoas e circunstâncias que
estão em
harmonia com ele. O poder da mente manifesta-se de modos cêntuplos. O
poder do
desejo, secundado pela fé e vontade, começa a ser reconhecido como uma
das maiores
forças dinâmicas. A vida da humanidade está a entrar num novo e
desconhecido grau de
desenvolvimento e evolução e, nos anos vindouros, a MENTE será
reconhecida cada vez
com mais clareza, como o grande princípio que forma a base do mundo de
coisas e
acontecimentos materiais. Os principais pensadores no mundo reconhecem
que a frase
«Tudo é mente» é alguma coisa mais do que simples expressão metafísica
ou palavras
de sonhador.
Como dissemos, grandes mudanças estão para vir ao mundo e à humanidade,
e cada
ano mais nos aproxima do seu principio. Com efeito, já o começo está
aqui. Que o
pensador pare e reflicta sobre as maravilhosas mudanças dos passados
doze anos —
desde a alvorada do século XX, e não pode deixar de reconhecer que houve
grandes
transformações. Entramos num novo grande ciclo da raça, que traz
mudanças
assombrosas. A humanidade desenvolveu-se de tal maneira que não lhe
servem mais as
roupas velhas: velhas convenções, velhos ideais e costumes, velhas leis
éticas e
metafísicas — tudo há-de sofrer mudanças. O grande caldeirão do
pensamento humano
ferve fogosamente e muitas coisas vêm vindo à sua superfície. Como todas
as grandes
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mudanças,
o que é bom virá somente com muita dor — todo o parto é acompanhado de
dor.
A humanidade sente dor e perpétuo desassossego, mas não conhece a
enfermidade
nem o remédio. Pode-se agora observar muitos casos de falsa diagnose e
prescrição e o
seu número aumentará ainda com o decorrer do tempo.
Muitos salvadores da humanidade, intitulados assim por si mesmos —
muitos
receitadores de remédios para as dores da alma e da mente — se
levantarão e cairão.
Com tudo isso, porém, virá aquilo cuja vinda a humanidade agora espera.
As mudanças h vir são tão grandes como as mudanças em pensamento e vida,
descritas na novela recente de H. G. Wells, intitulada: «Nos Dias do
Cometa». Com efeito,
o Sr. Wells indicou nesta história algumas das mudanças de que as almas
adiantadas da
nossa raça informam os seus discípulos que estão próximos; a visão
profética do
mencionado escritor parece ser maravilhosa e havemos de reconhecer que
até ele está a
ser usado como uma Parte do mecanismo mental da mesma Grande Mudança.
Porém, a
mudança não virá devido a um novo gás formado pela fricção de um cometa
sobre a
superfície da terra. Virá do desenvolvimento da mente da raça, e este
processo já está em
operação. Não se notam, acaso, sempre mais sinais de inquietação e
desassossego
mental? A dor aumenta e a nossa raça começa a gemer, estremecer e
excitar-se. Não
sabe o que lhe falta, mas sabe que sente dor e que precisa de alguma
coisa que a alivie.
As coisas velhas começam a vacilar e a cair, e muitas ideias
consideradas como
sagradas no passado são tratadas com desprezo e irreverência. Sob a
superfície da
nossa civilização podemos ouvir o zumbido de expansão das ideias e dos
princípios que
se esforçam por se apresentar no plano de manifestação.
Os homens estão correndo para aqui e para ali, chamando por um guia e
salvador.
Tentam e experimentam ora isto, ora aquilo, mas não acham o que
procuram. Querem
encontrar satisfação, porém, são iludidos. Não obstante, estes esforços
e estas ilusões
são parte da Grande Mudança e preparam a nossa raça para o que há de
vir. A salvação,
porém, não virá de uma coisa qualquer.
Ela virá de dentro. Da mesma
forma que no conto
de Wells -as coisas se endireitaram, quando o vapor do cometa aclarou as
mentes humanas, assim também as coisas tomarão os seus novos lugares, quando a
mente da
raça estiver aclarada pelo novo desenvolvimento que se está a operar. Os
homens
começam a sentir as dores uns dos outros; não se acham satisfeitos com a
velha regra:
«Cada um por si mesmo e o diabo leve o resto»; esta regra foi boa para
os que tiveram
bom sucesso, mas agora parece não satisfazer. O homem de alta posição
começa a
sentir-se só e descontente; o seu sucesso parece assustá-lo de maneira
misteriosa. E o
homem de baixa posição sente em si um movimento de estranhos desejos,
anelos e
descontentamento. E surgem novas ideias, estranhas e espantosas, que
levam a novas
fricções, avançam, acham apoio e oposição.
E as relações entre o povo parecem não ser satisfatórias. As velhas
regras, leis e os
laços sociais já não satisfazem.
Novos pensamentos se introduzem nas
mentes dos
homens e mulheres, pensamentos tão estranhos e ousados que eles não se
atrevem a
exprimi-los aos seus amigos — e estes mesmos amigos encontram ideias
semelhantes
no seu próprio interior. E, debaixo de tudo isto, encontra-se certa
honestidade — sim, aqui
está o que produz a inquietação: o mundo está cansado de ver hipocrisia
e desonestidade
em todas as relações humanas, e clama alto que é necessário mudar de
rumo e andar no
caminho da verdade e da honestidade em pensamento e acção. Mas não
enxerga o novo
caminho! E não o encontrará artes que a mente da raça se desenvolva
ainda mais. E a
dor do novo desenvolvimento penetra profundamente a nossa raça. Das
partes profundas
e secretas da mente da raça surgem à superfície velhas paixões,
relíquias dos dias dos
moradores de cavernas e todas as espécies de relíquias mentais hediondas
do passado.
E elas continuarão a surgir e mostrar-se até que, por fim, o pote que
ferve comece a
acalmar-se e então virá uma nova paz, e o melhor subirá à superfície: a
essência de
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todas as
experiências da raça.
Aos nossos estudantes dizemos: Durante o combate da raça, desempenhai
bem a
vossa parte, fazendo o melhor que puderdes, vivendo cada dia para o
vosso dever e
conservando a confiança e a coragem em qualquer nova fase da vida. Não
vos deixeis
iludir por aparências, nem sigais profetas estranhos. Deixai trabalhar
os processos
evolucionários e entrai na onda sem os combater e sem fazerdes esforços
demasiados. A
lei está a operar bem — ficai certos.
Aqueles que têm desenvolvido pelo menos uma parcial compreensão e
reconhecem a
Vida Una como base e fundamento de tudo, acharão que são como o povo
escolhido no
meio das mudanças que sobrevêm à humanidade. Já atingiram o que a raça
procura
atingir em dor e trabalho.
a força que emana da lei os conduzirá avante, porque eles serão a
levedura para a
grande massa da humanidade na era da nova dispensação. Levedarão a
massa, não por
meio de actos ou acções mas pelo pensamento.
O pensamento está a trabalhar agora mesmo e todos os que lêem estas
palavras
estão a desempenhar uma parte na obra, ainda que o não saibam. Se a
humanidade pudesse reconhecer hoje a verdade de que há uma só Vida, que
é a base e o sustentáculo
de tudo o que existe, a Mudança far-se-ia num momento; ela, porém não
virá desta
maneira. Quando esta compreensão gradualmente iluminar a raça humana —
dando-lhe
uma nova consciência — então as coisas tomarão os seus próprios lugares
e o lobo
deitar-se-á em paz ao lado do cordeiro.
Julgamos bem dizer estas palavras na última lição do presente curso —
palavras de
que careceis e servirão para mostrar o rumo aos que sabem ler: «Velai e
aguardai o
silêncio que se segue à tormenta».
Nesta série de lições temo-nos esforçado por dar-vos uma clara e prática
explicação
dos pontos mais importantes da «Raja Yoga».
Esta fase do assunto, porém,
Embora seja
importante e interessante, não é a mais alta fase dos grandes
ensinamentos yóguicos. É
apenas a preparação do solo da mente para o que vem depois.
A fase chamada «Jñana Yoga» — a Yoga da Sabedoria — é a mais alta de
todas as
várias fases da Yoga, embora cada um dos graus mais baixos seja
importante em si
mesmo. Estamos-nos aproximando da fase do nosso trabalho que há muito
tempo
desejamos empreender.
Aqueles que nos aconselham e dirigiram este trabalho opinaram que
devíamos
começar com as fases menos adiantadas e mais simples, para preparar as
mentes dos
interessados para os ensinos superiores. As vezes, pensamos com
impaciência no dia em
que poderíamos ensinar
mais elevado que conhecemos. E agora parece que o tempo chegou.
A seguir
a este
curso começaremos uma série de lições de «Jñana Yoga» — a Yoga da
Sabedoria — nas
quais apresentaremos aos nossos estudantes os mais altos
ensinamentos a
respeito da
Realidade e suas Manifestações — o Uno e os Muitos.
O ensino de que «Tudo é Mente» será explicado de tal maneira que possa
ser
compreendido pelos que nos seguiram até aqui. Poderemos comunicar-lhes
as verdades
superiores sobre a evolução espiritual, às vezes chamada «reencarnação»,
como também
sobre a causa e efeito espirituais, muitas vezes chamados «karma».
As mais altas verdades sobre estes importantes temas são obscurecidas,
muitas
vezes, por falsas concepções populares ocasionadas por ensino parcial.
Esperamos que
vós, nossos estudantes, desejareis seguir-nos ainda mais alto — mais
alto do que
ousamos subir até agora, e garantimos que há uma verdade que se pode ver
e conhecer
e que é tanto mais alta do que as outras fases de que tratamos, como
estas fases foram
mais altas do que as crenças correntes das massas da humanidade.
Esperamos que as forças do saber nos guiarão e dirigirão para podermos
apresentar a
nossa mensagem de modo que possa ser aceite e entendida. Agradecemos aos
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estudantes que nos acompanharam até aqui e lhes asseguramos que a sua
afável
simpatia sempre nos foi ajuda e inspiração.
A Paz seja convosco.
Mantram (afirmação)
Há Uma só Vida — a Vida Una que é base de Tudo.
Esta vida manifesta-se por MIM e por qualquer outra forma ou coisa.
Descanso no seio do grande oceano da Vida e ele me sustém e levar-me-á
seguro, através das ondas que se levantam e caem — através das tormentas
enfurecidas e tempestades que bramem. Estou seguro no oceano da Vida e
alegro-me quando lhe sinto o forte movimento. Nada me pode fazer mal;
através das mudanças que vêm e vão, estou seguro.
Eu sou Uno com toda a
Vida e o seu poder, saber e paz estão atrás, debaixo e dentro de Mim.
Oh! Vida Una! expressa-te por mim! Leva-me ora no dorso da onda, ora na
profundidade do oceano — sustido sempre por Ti! Tudo é bom para mim,
quando sinto a Tua vida movendo-se em mim e através de mim. Eu vivo com
a Tua vida
e abro-me à Tua plena manifestação e ao Teu influxo.
FIM
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