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1. En expliquant la valeur salvifique de la souffrance, l'Apôtre Paul
écrit: « Je complète en ma chair ce qui manque aux épreuves du Christ
pour son Corps, qui est l'Eglise».(1). |
1. Ao explicar o valor
salvífico do sofrimento, o Apóstolo Paulo escreve: «Completo na
minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo
pelo seu Corpo, que é a Igreja» (1). |
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9. Au
coeur de toute souffrance éprouvée par l'homme, et aussi à la base
du monde entier des souffrances, apparaît inévitablement la question:pourquoi?
C'est une question sur la cause, la raison; c'est en même temps une
question sur le but (pour quoi?) et, en définitive, sur le sens.
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9. No fundo de cada sofrimento experimentado pelo homem, como também na base de todo o mundo dos sofrimentos, aparece inevitavelmente a pergunta: porquê? É uma pergunta acerca da causa, da razão e também acerca da finalidade (para quê?); trata-se sempre, afinal, de uma pergunta acerca do sentido. Esta não só acompanha o sofrimento humano, mas parece até determinar o seu conteúdo humano, o que faz com que o sofrimento seja propriamente sofrimento humano. |
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e10. Cette question, l'homme peut l'adresser à Dieu avec toute l'émotion de son coeur, l'esprit saisi d'étonnement et d'inquiétude; et Dieu attend la demande et l'écoute, comme nous le voyons dans la Révélation de l'Ancien Testament. Dans le Livre de Job, la question a trouvé son expression la plus vive. On connaît l'histoire de cet homme juste, qui, sans aucune faute de sa part, est éprouvé par de multiples souffrances. Il perd ses biens, ses fils et ses filles, et finalement il est lui-même atteint d'une grave maladie. Dans cette horrible situation, il voit arriver chez lui trois vieux amis qui — chacun avec des mots différents — cherchent à le convaincre que, puisqu'il a été frappé par des souffrances aussi variées et aussi terribles, il doit avoir commis quelque faute grave. |
10. O
homem pode dirigir tal pergunta a Deus, com toda a comoção do seu
coração e com a mente cheia de assombro e de inquietude; e Deus
espera por essa pergunta e escuta-a, como vemos na Revelação do
Antigo Testamento. A pergunta encontrou a sua expressão mais viva no
Livro de Job. É conhecida a história deste homem justo que, sem
culpa nenhuma da sua parte, é provado com inúmeros sofrimentos.
Perde os seus bens, os filhos e filhas e, por fim, ele próprio é
atingido por uma doença grave. Nesta situação horrível,
apresentam-se em sua casa três velhos amigos que procuram — cada um
com palavras diferentes — convencê-lo de que, para ter sido atingido
por tão variados e tão terríveis sofrimentos, deve ter cometido
alguma falta grave. |
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Car
la souffrance — disent-ils — atteint toujours l'homme comme peine
pour un délit. Elle est envoyée par Dieu, qui est absolument juste,
et elle trouve sa motivation dans l'ordre de la justice. On dirait
que non seulement les vieux amis de Job veulent le convaincre de la
justesse morale du mal, mais qu'en un certain sens ils tentent de
défendre à leurs propres yeux le sens moral de la souffrance. Pour
eux, celle-ci ne peut avoir de sens que comme peine pour le péché,
en se plaçant donc exclusivement sur le terrain dè la justice de
Dieu, qui récompense le bien par lé bien et punit le mal par le mal.
Le point de référence, dans ce cas, est la doctrine exprimée en d'autres
écrits de l'Ancien Testament qui nous montrent la souffrance comme
une peine infligée par Dieu pour les péchés des hommes. Le Dieu de
la Révélation est Législateur et Juge à un degré qu'aucune autorité
temporelle ne peut atteindre. |
Com efeito, dizem-lhe eles, o sofrimento atinge o homem sempre como pena por uma culpa; é mandado por Deus, que é absolutamente justo e age com motivações que são da ordem da justiça. Dir-se-ia que os velhos amigos de Job querem não só convencê-lo da justeza moral do mal, mas, de algum modo, procuram defender, aos seus próprios olhos, o sentido moral do sofrimento. Este, a seu ver, pode ter sentido somente como pena pelo pecado; e portanto, exclusivamente no plano da justiça de Deus, que paga o bem com o bem e o mal com o mal. O ponto de referência, neste caso, é a doutrina expressa noutros escritos do Antigo Testamento, que nos apresentam o sofrimento como castigo infligido por Deus pelos pecados dos homens. O Deus da Revelação é Legislador e Juiz em plano tão elevado, que nenhuma autoridade temporal o pode alcançar. |
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En
effet, le Dieu de la Révélation est avant tout le Créateur de qui
vient, en même temps que l'existence, le bien qui est qualité
essentielle de la création. En conséquence,
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O Deus da Revelação, efetivamente, primeiro que tudo é o Criador, do qual provém, juntamente com a existência, o bem que é essencial à criação. Por conseguinte, a violação consciente e livre deste bem, por parte do homem, é não só transgressão da lei, mas também ofensa ao Criador, que é o Primeiro Legislador. Tal transgressão tem caráter de pecado no sentido próprio, isto é, no sentido bíblico e teológico desta palavra. Ao mal moral do pecado corresponde o castigo, que garante a ordem moral no mesmo sentido transcendente em que esta ordem foi estabelecida pela vontade do Criador e Supremo Legislador. Daqui se segue também uma das verdades fundamentais da fé religiosa, baseada igualmente na Revelação; ou seja, que Deus é juiz justo, que premeia o bem e castiga o mal: « Tu és justo, Senhor, em tudo o que tens feito por nós; todas as tuas obras são verdadeiras, todos os teus caminhos são retos, todos os teus juízos são verdadeiros. Tu pronunciaste uma sentença verdadeira em tudo o que nos fizeste passar e à cidade santa dos nossos pais, Jerusalém. … |
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Car
c'est dans la vérité et dans le droit que tu nous a traités à cause
de nos péchés »(23). Dans l'opinion exprimée par les amis de Job se
manifeste une conviction que l'on trouve aussi dans la conscience
morale de l'humanité: l'ordre moral objectif requiert une peine pour
la transgression, pour le péché et pour le délit. A ce point de vue,
la souffrance apparaît comme un « mal justifié ». La conviction de
ceux qui expliquent la souffrance comme punition du péché s'appuie
sur l'ordre de la justice, et cela correspond à l'opinion exprimée
par un ami de Job: « Je parle d'expérience, ceux qui labourent
l'iniquité et sèment le malheur, les moissonnent ». (24) |
Sim, em verdade e justiça nos infligistes todos estes castigos por causa de nossos pecados ». (23) Na opinião manifestada pelos amigos de Job exprime-se uma convicção que também se encontra na consciência moral da humanidade: a ordem moral objetiva exige uma pena para a transgressão, para o pecado e para o crime. Sob este ponto de vista, o sofrimento aparece como um « mal justificado ». A convicção daqueles que explicam o sofrimento como castigo pelo pecado apóia-se na ordem da justiça, e isso corresponde à opinião expressa por um dos amigos de Job: « Pelo que vi, aqueles que cultivam a iniqüidade e os que semeiam a maldade também as colhem ». (24) |
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11.
Toutefois, Job conteste la vérité du principe qui identifie la
souffrance avec la punition du péché. Et il le fait en se fondant
sur sa propre réflexion. Il est en effet conscient de ne pas avoir
mérité une telle punition; il montre au contraire le bien qu'il a
fait dans sa vie. A la fin, Dieu lui-même reproche aux amis de Job
leurs accusations et reconnaît que Job n'est pas coupable. Sa
souffrance est celle d'un innocent; elle doit être acceptée comme un
mystère que l'intelligence de l'homme n'est pas en mesure de
pénétrer à fond. Le Livrè de Job n'attaque pas les bases de l'ordre
moral transcendant fondé sur la justice, telles qu'elles sont
proposées dans toute la Révélation, dans l'ancienne comme dans la
nouvelle Alliance. |
11. Job, no entanto, contesta a verdade do princípio que identifica o sofrimento com o castigo do pecado; e faz isso baseando-se na própria situação pessoal. Ele, efectivamente, tem consciência de não ter merecido semelhante castigo; e, por outro lado, vai expondo o bem que praticou durante a sua vida. Por fim, o próprio Deus desaprova os amigos de Job pelas suas acusações e reconhece que Job não é culpado. O seu sofrimento é o de um inocente: deve ser aceite como um mistério, que o homem não está em condições de entender totalmente com a sua inteligência. O Livro de Job não abala as bases da ordem moral transcendente, fundada sobre a justiça, como são propostas em toda a Revelação, na Antiga e na Nova Aliança. |
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Mais simultanément ce Livre montre avec la plus grande fermeté que les principes de cet ordre ne peuvent pas s'appliquer de façon exclusive et superficielle. S'il est vrai que la souffrance a un sens comme punition lorsqu'elle est liée à la faute, il n'est pas vrai au contraire que toute souffrance soit une conséquence de la faute et ait un caractère de punition. La figure de Job le juste en est une preuve spéciale dans l'Ancien Testament. La Révélation, parole de Dieu même, pose en toute franchise le problème de la souffrance de l'homme innocent: la souffrance sans faute. Job n'a pas été puni, il n'y avait pas de fondement pour lui infliger une peine, même s'il a été soumis à une très dure épreuve. De l'introduction du Livre, il ressort que Dieu a permis cette épreuve en raison de la provocation de Satan. Celui-ci avait en effet contesté devant le Seigneur la justice de Job: « Est-ce pour rien que Job craint Dieu? ... Tu as béni toutes ses entreprises, ses troupeaux pullulent dans le pays. Mais étends la main et touche à ses biens; je te jure qu'il te maudira en face! »(25). |
Contudo este Livro demonstra ao mesmo tempo, com toda a firmeza, que os princípios desta ordem não podem ser aplicados de maneira exclusiva e superficial. Se é verdade que o sofrimento tem um sentido como castigo, quando ligado à culpa, já não é verdade que todo o sofrimento seja conseqüência da culpa e tenha caráter de castigo. A figura do justo Job é disso prova convincente no Antigo Testamento. A revelação, palavra do próprio Deus, põe o problema do sofrimento do homem inocente com toda a clareza: o sofrimento sem culpa. Job não foi castigado; não havia razão para lhe ser infligida uma pena, não obstante ter sido submetido a uma duríssima prova. Da introdução do Livro deduz-se que Deus condescendeu com esta provação, em seguida à provocação de Satanás. Este, de facto, impugnou diante do Senhor a justiça de Job: « Acaso teme Job a Deus em vão? ... Abençoastes os seus empreendimentos e os seus rebanhos expandem-se sobre a terra. Mas estendei a vossa mão e tocai nos seus bens; juro que vos amaldiçoará na vossa face ». (25) |
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12.
Le Livre de Job soulève de manière aiguë le « pourquoi » dè la
souffrance, il montre également que celle-ci frappe l'innocent, mais
il ne donne pas encore la solution du problème. Déjà dans l'Ancien
Testament, nous remarquons une tendance qui cherche à dépasser
l'idée selon laquelle la souffrance n'a de sens que comme punition
du péché, car on souligne en même temps là valeur éducative de cette
peine qu'est la souffrance. Ainsi donc, dans les souffrances
infligées par Dieu au Peuple élu est contenue une invitation de sa
miséricorde, qui châtie pour amener à la conversion: « Ces
persécutions ont eu lieu non pour la ruine mais pour la correction
de notre peuple »(26). Ainsi est affirmée la dimension personnelle
de la peine. Selon cette dimension, la peine a un sens non seulement
parce qu'elle sert à répondre au mal objectif de la transgression
par un autre mal, mais avant tout parce qu'elle crée la possibilité
de reconstruire le bien dans le sujet même qui souffre. C'ést là un
aspect extrêmement important de la souffrance. Il est profondément
enraciné dans toute la Révélation de l'ancienne et surtout de la
nouvelle Alliance. |
12. O
Livro de Job põe de modo perspicaz, a pergunta sobre o « porquê » do
sofrimento; e mostra também que ele atinge o inocente, mas ainda não
dá a solução ao problema. No Antigo Testamento notamos uma
orientação que tende a superar o conceito segundo o qual o
sofrimento teria sentido unicamente como castigo pelo pecado, ao
mesmo tempo que se acentua o valor educativo da pena-sofrimento.
Deste modo, nos sofrimentos infligidos por Deus ao povo eleito está
contido um convite da sua misericórdia, que corrige para levar à
conversão: “Essas perseguições não aconteceram para a destruição do
nosso povo, mas para a correção do nosso povo” (26). Isso afirma a
dimensão pessoal do castigo. Segundo essa dimensão, o castigo tem
sentido não apenas porque serve para responder ao mal objetivo da
transgressão com outro mal, mas sobretudo porque cria a
possibilidade de reconstruir a bondade na própria pessoa que sofre.
Este é um aspecto extremamente importante do sofrimento. Está
profundamente enraizado em toda a Revelação da Antiga e,
especialmente, da Nova Aliança. |
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La souffrance doit servir à la conversion, c'est-à-dire à la reconstruction du bien dans le sujet, qui peut reconnaître la miséricorde divine dans cet appel à la pénitence. La pénitence a pour but de triompher du mal, qui existe à l'état latent dans l'homme sous diverses formes, et de consolider le bien tant dans le sujet lui-même que dans ses rapports avec les autres et surtout avec Dieu.
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O sofrimento deve servir à conversão, isto é, à reconstrução da bondade no indivíduo, que pode reconhecer a misericórdia divina nesse chamado ao arrependimento. O objetivo do arrependimento é vencer o mal, que existe em estado latente na humanidade sob diversas formas, e consolidar a bondade tanto no indivíduo quanto em seus relacionamentos com os outros e, sobretudo, com Deus. |
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13.
Mais pour être en mesure de percevoir la vraie réponse au « pourquoi
» de la souffrance, nous devons tourner nos regards vers la
révélation de l'amour divin, source ultime du sens de tout ce qui
existe. L'amour est également la source la plus riche du sens de la
souffrance, qui demeure toujours un mystère: nous sommes conscients
de l'insuffisance et du caractère inadéquat de nos explications. Le
Christ nous fait entrer dans le mystère et nous fait découvrir le «pourquoi»
de la souffrance, dans la mesure où nous sommes capables de
comprendre la sublimité de l'amour divin. |
13.
Mas, para sermos capazes de perceber a verdadeira resposta ao
“porquê” do sofrimento, devemos voltar o nosso olhar para a
revelação do amor divino, a fonte última de sentido de tudo o que
existe. O amor é também a fonte mais rica do sentido do sofrimento,
que permanece sempre um mistério: temos consciência da inadequação e
insuficiência das nossas explicações. Cristo conduz-nos ao mistério
e revela-nos o “porquê” do sofrimento, na medida em que somos
capazes de compreender a sublimidade do amor divino. |
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