CHAUI, Marilena.
Simulacro e Poder, Uma Análise da Mídia.
São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2006.

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1. DESTRUIÇÃO DA ESFERA DA OPINIÃO PÚBLICA

            Faz parte da vida da grande maioria da população brasileira ser espectadora de um tipo de programa de televisão no qual a intimidade das pessoas é o objeto central do espetáculo... O ponto culminante desse tipo de espetáculo é o programa intitulado “Big Brother”.

            As ondas sonoras do radio e as transmissões televisivas tornam-se cada vez mais consultórios sentimental, sexual, gastronômico, geriátrico, culinário, de cuidados com o corpo...

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Os entrevistados e debatedores, os competidores dos torneios de auditório, os que aparecem nos noticiários, todos são convidados e mesmo instados com vigor a que falem suas preferências...

Não é casual que os noticiários de rádio e na televisão, ao promover entrevistas em que a notícia é intercalada com a fala dos direta ou indiretamente envolvidos no fato, tenham sempre repórteres indagando a alguém: “O que você sentiu/sente com isso?” ou “o que você achou/acha disso?” ou “Você gosta? Não gosta disso?”. Não se pergunta aos entrevistados o que pensam ou o que julgam dos acontecimentos, mas o que sentem, o que acham, se lhes agrada ou desagrada.
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Houve uma rede de televisão brasileira que conseguiu, com ousadia e exclusividade, uma entrevista com o presidente da Líbia, logo após o bombardeio de sua casa pela aviação norte-americana em 1986. Foi constrangedor para Kadafi e para os telespectadores ouvir as perguntas: “O que o senhor sentiu quando percebeu o bombardeio?  O que o senhor sentiu quando viu sua família ameaçada? O que o senhor achou desse ato dos inimigos?” Nenhuma pergunta sobre o significado do atentado na política e na geopolítica do Oriente Próximo; nenhuma indagação que permitisse furar o bloqueio das informações a que as agências noticiosas norte americanas submetem a Líbia. A longa entrevista reduziu-se aos sentimentos paternos e conjugais de Kadafi perante o terrorismo inimigo... Em suma, o acontecimento político foi transformado em uma tragédia doméstica e da vida pessoal de umas das mais importantes lideranças do mundo árabe.

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Os assuntos se equivalem, todos são questão de gosto ou preferência, todos se reduzem à igual banalidade do “gosto” ou “não gosto”, do “achei ótimo” ou “achei horrível”.

            Essa mesma tendência aparece, por exemplo, como regra de trabalho de muitos articulistas de jornais e revistas, que não nos informam sobre os fatos, acontecimentos e situações, mas gastam páginas inteiras contando seus sentimentos, suas impressões e opiniões sobre pessoas, lugares, objetos, acontecimentos e fatos que continuamos a desconhecer porque conhecemos apenas sentimentos e impressões daqueles que deles fala. Este procedimento acabou por se tornar até mesmo paradigma para as resenhas de livros e filmes... Ao término da leitura (da resenha) nada (pouco) sabemos sobre o autor e a obra, mas sabemos muitíssimo sobre as preferências e os gostos do resenhista.

            Sem dúvida, ninguém ignora que essas modalidades de programas de rádio e televisão, de entrevistas, crônicas e resenhas obedecem aos padrões do mercado: ao exprimir sua

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preferência, a “personalidade” (seja o entrevistado o cronista ou o resenhista) avaliza um produto e garante sua venda no mercado cultural, no mercado político ou no mercado tout court.

Trata-se do mesmo procedimento usado diretamente na propaganda, que tanto pode recorrer aos estereótipos...

O estereótipo da propaganda pode alcançar o ponto máximo de irrealidade quando o produto é anunciado por atores que representam para o consumidor o papel que representam em novelas...

            Como observa Christopher Lash, no livro A cultura do narcisismo, os mass media tornaram irrelevantes as categorias da verdade e da falsidade substituindo-as pelas noções de credibilidade ou plausibilidade e confiabilidade – para que algo seja aceito como real, basta que apareça como crível ou plausível, ou como oferecido como alguém confiável. Os fatos cederam lugar a declarações de “personalidades autorizadas”, que não transmitem informações, mas preferências, as quais se transformam imediatamente em propaganda. Como escreve Lash, “sabendo que um público cultivado é ávido por fatos e cultiva a ilusão de estar bem informado, o propagandista moderno evita slogans grandiloquentes

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e se atém a ‘fatos’, dando a ilusão de que propaganda é informação”. Esse procedimento é empregado pelas burocracias (empresariais e estatais) por meio do discurso especializado da técnica e da pseudociência, que “provê” os funcionários com informação e o público com desinformação. No caso do Estado, a sutileza consiste em aumentar propositadamente a obscuridade do discurso para que o cidadão se sinta tanto mais informado quanto menos puder raciocinar, convencido de que as decisões políticas estão com especialistas críveis e confiáveis – que lidam com problemas incompreensíveis para os leigos.

            Qual a base de apoio da credibilidade e da confiabilidade?... Trata-se do apelo à intimidade, à personalidade, à vida privada como suporte e garantia da ordem pública... os códigos da vida pública passam a ser determinados e definidos pelos códigos da vida privada, abolindo-se a diferença entre espaço público e espaço privado.

            As relações interpessoais, as relações intersubjetivas e as relações grupais aparecem com a função de ocultar ou de dissimular as relações sociais enquanto sociais e as relações políticas enquanto políticas, uma vez que a marca das relações sociais e políticas é serem determinadas pelas instituições sociais e políticas, ou seja, são relações mediatas, diferentemente das relações pessoais que são imediatas... definidas pelo relacionamento direto entre pessoas, e por isso mesmo nelas os sentimentos, as emoções, as preferências e os gostos têm papel decisivo. As relações sociais e políticas, que são mediações referentes a interesses e a direitos regulados pelas instituições, pela divisão social das classes e pela separação entre o social e o poder político, perdem sua especificidade e passam a operar sob a aparência da vida privada...referidas a preferências, sentimentos, emoções, gostos, agrado e aversão.      

            Não é casual, mas uma consequência necessária dessa privatização do social e do político, a destruição de uma categoria essencial das democracias, qual seja, a da opinião pública.

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 Esta, em seus inícios liberais, era definida como a expressão, no espaço público, de uma reflexão individual ou coletiva sobre uma questão controvertida e concernente ao interesse ou ao direito de uma classe social, de um grupo, ou mesmo da maioria. A opinião pública era um juízo emitido em público sobre uma questão relativa à vida política, era uma reflexão feita em público por isso definia-se como uso público da razão e como direito à liberdade de pensamento e expressão.

            É sintomático que, hoje, se fale em “sondagem de opinião(grifo nosso). Com efeito, a palavra sondagem indica que não se procura a expressão pública racional de interesses ou direitos e sim que se vai buscar um fundo silencioso, um fundo não formulado e não refletido... se procura fazer vir à tona o não pensado, que existe sob a forma de sentimentos e emoções, de preferências, gostos, aversões e predileções, como se os fatos e os acontecimentos da vida social e política pudessem vir a se exprimir pelos sentimentos pessoais. Em lugar de opinião pública, tem-se a manifestação pública de sentimentos.