Introdução
Ao leitor
benévolo
Doleo
super
te frater mi...
2Sm 1,26
553
Devido ao conteúdo
um tanto
insólito, este meu trabalho exige um pequeno
prefácio, que o benévolo leitor
não deve perder de vista. No que se segue trataremos de
veneráveis objetos da
fé religiosa, e todos aqueles que se ocupam com isso correm
o risco de ser
reduzidos a pedaços pelo entrechoque das duas partes que
discutem acerca desses
objetos. Tal discussão parte do estranho pressuposto de que
só é “verdadeiro”
aquilo que se comprovou como sendo uma realidade física.
Assim, por exemplo, acreditam que o nascimento original de
Cristo foi um acontecimento físico, ao passo que outros o
negam, por
considera-lo fisicamente impossível. Não
há dúvida de que esta divergência de
posições é logicamente
insolúvel, e por isso seria melhor que os contendores
deixassem de lado essas discussões estéreis que
não levam a nada. Ambas as
partes têm e não têm razão, e
chegariam mais facilmente a um acordo se
renunciassem à palavrinha
“físico”. O conceito de
“físico” não constitui o
único critério de uma verdade, pois há
também verdades psíquicas
que não se podem explicar, demonstrar ou negar sob o
ponto de vista físico. Se
houvesse, por exemplo, uma crença geral de que em
certo período de sua história o Reno tivesse
corrido da foz para a nascente,
tratar-se-ia de uma crença que é um fato em si,
embora a sua formulação no
sentido físico deva ser considerada como simplesmente
inadmissível. Uma crença
como esta constitui uma realidade psíquica, de que
não se pode duvidar e que
também não precisa ser demonstrada.
554
Os enunciados
religiosos
são desta categoria. Todos
eles se referem a objetos que é impossível
constatar sob o ponto de vista
físico. Se assim não fosse, cairiam
inexoravelmente sob o domínio das ciências
naturais que os arrolariam simplesmente entre as coisas que
não se podem
comprovar pela experiência. Sob o
ponto de vista físico, não têm qualquer
sentido. Seriam simples milagres,
passíveis de dúvida, incapazes de evidenciar a
realidade objetiva de um
espírito, ou seja, de um sentido,
pois o sentido sempre se evidencia por si mesmo. O sentido e o
espírito de
Cristo estão presentes em nós e os podemos
perceber mesmo sem os milagres.
Estes últimos apelam para a inteligência daqueles
que são incapazes de captar o
sentido em si mesmo, Constituem meros sucedâneos de uma
realidade do espírito
que não foi compreendida. Mas com isto não
pretendemos negar que a presença
vital deste espírito seja, às vezes, acompanhada
de fenômenos físicos
extraordinários; apenas queremos acentuar que estes
últimos não podem
substituir, e muito menos produzir, o único e essencial
conhecimento do
espírito.
555
O fato de os enunciados
religiosos se acharem muitas
vezes em aberta oposição aos fenômenos
fisicamente comprovados é
uma demonstração da autonomia do
espírito
em face da percepção de ordem física
e também de uma certa independência
psíquica em relação às
realidades físicas. A
alma é um fator autônomo,
e os enunciados
religiosos são uma espécie de
confissão da alma, os quais, em última
análise,
têm suas raízes em processos inconscientes e, por
conseguinte, também
transcendentais. Estes processos são inacessíveis
ao domínio da percepção
física, mas revelam sua presença mediante as
confissões correspondentes da
alma. Tais
enunciados chegam até nós por meio da
consciência humana ,
isto é, são expressos em formas vivas e
dinâmicas que se acham, por sua vez,
expostas a múltiplas influências de natureza tanto
interna quanto externa. Por
isso, quando falamos de conteúdos religiosos, situamo-nos em
um mundo de
imagens que se referem a um
determinado inefável.
Não
sabemos se estas imagens, comparações e conceitos
exprimem ou não com clareza
seu objeto transcendental. O
termo “Deus”, por exemplo, expressa uma imagem
ou um conceito verbal que sofreu muitas mudanças ao longo de
sua história. Em
tal caso
não temos possibilidade alguma
de mostrar, com a
mínima parcela de certeza que seja – a
não ser da fé – se
tais mudanças se referem apenas às imagens e aos
conceitos, ou se atingem o
próprio inefável. É verdade que
podemos conceber a Deus não só como um
agir em perpétuo fluxo, transbordante
de vitalidade,
que se transfunde em um número interminável de
formas,
mas também como um ser eternamente imóvel e
imutável.
Mas a única
certeza de que se dispõe a nossa inteligência
é a de que trabalha
com imagens,
representações,
que dependem
da fantasia humana e de seus condicionamentos
tanto em relação ao espaço
como ao tempo; por isso mesmo, sofreram muitas
modificações ao longo de sua
história secular. Não há
dúvida de que na
origem destas imagens se acha algo que transcende a
consciência e não somente
impede que os enunciados variem simplesmente, de maneira ilimitada e
caótica,
como também
mostrando que eles estão
relacionados com uns poucos princípios ou
arquétipos.
Estes
princípios são incognoscíveis em
si mesmos,
como a psique ou
a
matéria, e só podemos traçar os seus
perfis, que, bem o sabemos, são
incompletos, fato constantemente comprovado também pelos
enunciados religiosos.
556
Por isso ao tratar, a
seguir, destas realidades
“metafísicas”, faço-o
plenamente consciente que estou me movendo no mundo das
imagens e de que nenhuma de minhas reflexões toca o
inefável. Sei perfeitamente
como é reduzida nossa capacidade de
representação – sem falarmos das
limitações
e da pobreza de nossa linguagem – para ter a
pretensão de imaginar que minhas
afirmações dizem em princípio mais do
que a crença do primitivo, quando este
afirma que o seu deus salvador é uma lebre ou uma serpente.
Embora todo o
universo de representações seja
constituído de imagens antropomórficas e
portanto, segundo creio, incapazes de resistir a uma crítica
racional, contudo
é preciso não esquecer que ele assenta em
arquétipos numinosos, ou seja, em um
fundamento emocional que parece inacessível à
razão crítica. Refiro-me aqui a
casos psíquicos cuja existência podemos ignorar
mas nunca refutar. É por isto
que Tertuliano invoca a este respeito e não sem
razão o testemunho da alma,
quando diz na sua obra
De
Testimonio
Animae:
“Estes testemunhos
da alma quanto mais verdadeiros, tanto mais simples;
quanto mais simples, tanto mais vulgares; quanto mais vulgares, tanto
mais
comuns; quanto mais comuns, mais naturais; quanto mais naturais, tanto
mais
divinos. Não acredito que estes testemunhos possam parecer
sem sentido e
importância para alguém, tendo em vista que
é justamente da majestade da
natureza que provém a autoridade da alma. O que
atribuíres à mestra, também
deverás atribuir à discípula. A mestra
é a natureza, a discípula, a alma. Tudo
quanto a primeira ensinou ou a segunda aprendeu foi concedido por Deus,
preceptor da mestra. Está em ti, a partir da alma que tens
dentro de ti, julgar
o quanto a alma possa receber do seu supremo mestre. Procura sentir
dentro de
ti a presença daquela de onde provêm as tuas
sensações. Considera que ela é tua
vidente nos eventos que prenunciam o futuro, tua intérprete
nos vaticínios, e
aquela que vela por ti nos acontecimentos posteriores.
Admirável é que ela
conheça o Deus que concedeu aos homens tais coisas, mas mais
admirável ainda é
que conheça Aquele que as deu”.
557
Dando
mais um passo à frente, considero as
afirmações
da Sagrada Escritura como
manifestações da alma, embora com o risco de
incorrer na suspeita de psicologismo. Ainda que os enunciados da
consciência
possam não passar de enganos, mentiras e outras
arbitrariedades, isto não
acontece com os enunciados da alma: em primeiro lugar, eles ultrapassam os
limites do nosso pensar comum, pois se
referem a realidades que transcendem a consciência. Estes
“entia” [entes] são
os arquétipos do inconsciente coletivo que produzem os
complexos de
representações sob a forma de temas
mitológicos. Estas representações
não são
inventadas; são percebidas interiormente (por exemplo, nos
sonhos) já com
produtos acabados. São fenômenos
expontâneos que escapam ao nosso arbítrio e
por isso podemos atribuir-lhes uma certa autonomia. Pela mesma
razão, devemos
considera-los não só como objetos em si, mas como
sujeitos de leis próprias.
Podemos, naturalmente, descrevê-los e até certo
ponto interpretá-los como
objetos, sob o ponto de vista da consciência, tal como se
pode descrever e
interpretar uma pessoa viva. Mas no caso presente é preciso
deixar de lado a
autonomia desses objetos. Entretanto, se levarmos em conta esta
autonomia, as
representações a que nos referimos devem ser
tratadas como sujeitos, ou seja,
devemos reconhecer seu caráter espontâneo e
também a sua intencionalidade, isto
é, uma espécie de consciência e de
“liberum arbitrium” [livre arbítrio].
Observamos o seu modo de comportar-se e consideramos os seus
enunciados. Este
duplo ponto de vista que devemos assumir em
relação a qualquer organismo mais
ou menos autônomo conduz naturalmente a um duplo resultado:
de um lado, a uma
espécie de relato sobre aquilo que faço com esse
objeto e, de outro, ao relato
que ele faz (ocasionalmente me relação a mim).
Não há dúvida de que esta
duplicidade de aspectos, em si inevitável, causa no
início uma certa confusão
na mente de meus leitores, e isto de modo particular em se tratando,
nas
páginas subsequentes, do arquétipo da divindade.
558
Se
alguém tivesse a tentação de
estabelecer um “limite” (Nur) às imagens
divinas,
certamente entraria em conflito com a experiência que nos
revela, sem a menor
sombra de dúvida, a extraordinária numinosidade
dessas imagens. A eficácia
extraordinária (= mana) dessas
representações é de tal intensidade,
que se tem
a impressão que elas não só indicam o
“Ens realissimum”, como também parecem
expressá-lo e mesmo produzi-lo. E isto é o que
torna a discussão sumamente
difícil, quando não impossível. De
fato, não se pode conceber a realidade de
Deus, a não ser recorrendo à imagens que
surgiram, em geral, de forma
expontânea ou foram consagradas pela
tradição e cujos efeitos psíquicos a
razão
distinguiu de seu fundamento metafísico,
inacessível ao conhecimento.
559
O que tentarei nas
páginas
subseqüentes representa uma espécie de
confrontação com certas
representações
religiosas tradicionais. O fato de eu tratar de fatores numinosos
constitui um
desafio não só para o meu intelecto
como também para o meu sentimento.
Por isso não posso me escudar por detrás de uma
prudente objetividade; pelo
contrário, devo deixar que fale minha subjetividade
emocional, dizendo naquilo
que sinto quando leio determinados livros da Sagrada Escritura ou me
recordo de
certas impressões que recebi dos ensinamentos de nossa
fé. Não escrevo na
qualidade de perito em Sagrada Escritura (que não sou), mas
como leigo e como
médico a quem devo perscrutar as profundezas da vida da alma
de inúmeras
pessoas. Embora o que eu expresse seja principalmente fruto de minha
concepção
pessoal, sei que falo também em nome de muitos outros aos
quais aconteceu algo
semelhante ao que se passou comigo.
560
O livro de Jó
constitui um dos
marcos miliários que assinam a longa caminhada da
evolução de um drama divino.
Na época em que o livro surgiu, já havia
testemunhos de várias espécies: fora
traçada uma imagem contraditória de
Javé, imagem de um Deus excessivo em suas
emoções, e que sofria por causa desses excessos,
um Deus que reconhecia a
cólera e o ciúmes que o corroíam,
o que lhe era doloroso. A percepção
existia ao lado da falta de percepção, a bondade
ao lado da crueldade e a força
criadora ao lado da vontade destruidora. Tudo havia nesse Deus, e uma
coisa não
impedia a outra. Semelhante
estado de coisas só é concebível
quando não há
uma consciência reflexa
ou a reflexão constitui um dado real, um fator
concomitante impotente e inoperante. Uma situação
de tal natureza não pode ser
designada senão como
amoral.
561
Através dos
testemunhos da Sagrada
Escritura sabemos de que modo os homens do Antigo Testamento sentiam
seu Deus.
Mas não é disso que trataremos nesta obra, e sim
da forma pela qual uma
pessoa criada e instruída no cristianismo se confronta com
as trevas divinas
como aparecem no livro de Jó e como essas trevas agem sobre
tal pessoa. Não
me proponho a apresentar uma exegese fria e ponderada, que levasse em
conta
todos os pormenores; muito pelo contrário, expressarei minha
reação subjetiva.
Com isto, se ouvir-se-á
uma voz em favor de muitas pessoas que sentem algo
semelhante dentro de si, manifestando-se a
comoção interior provocada pela
exteriorização da maldade da selvageria
“divinas”, que nada encobre.
Embora
saibamos que há
divisão e sofrimento no seio da divindade, eles
são de tal
maneira irreflexos e por isso mesmo moralmente inoperantes,
que não
suscitam qualquer compreensão compassiva,
mas um afeto ao mesmo tempo
irreflexo e constante, a modo de uma ferida que só
paulatinamente se fecha. Da
mesma forma que a ferida tem a marca da arma que a provocou, assim
também o
afeto corresponde ao ato de violência que lhe deu origem.
562
O
livro de Jó serve de paradigma de uma forma de
experiência íntima de Deus,
experiência que possui um significado particular para a
época que vivemos.
Experiências desta natureza assaltam o homem não
somente a partir de dentro,
mas também a partir de fora, e não tem sentido
algum reinterpretá-las de modo
racional e, assim, atenua-las apotropeicamente. É
preferível para o indivíduo
admitir a existência do afeto e submeter-se a sua
violência, do que
desembaraçar-se dele mediante
operações mentais abstratas de qualquer
espécie
ou estados emocionais de fuga. Embora devido ao afeto o homem imite
todas as
más qualidades do ato de violência, tornando-se
com isto culpado do mesmo erro,
contudo, a finalidade deste acontecimento é precisamente
penetrar no interior
do homem fazendo com que ele se curve à sua
ação. Por isso, é
necessário que o
homem seja afetado; contrariamente essa ação
não o atingirá. Mas é conveniente
que o indivíduo saiba, ou melhor, tome conhecimento daquilo
que o afetou, pois
assim transformará em conhecimento a cegueira,
não só da violência, mas
também
do afeto.
563
Essa
é a razão pela qual nas páginas
seguintes deixarei que o afeto se expresse, sem
qualquer temor e consideração; que a
justiça responda à injustiça, a fim de
que
eu possa compreender a razão ou finalidade pela qual
Jó foi ferido e quais as
conseqüências decorrentes deste acontecimento,
não somente para Javé mas também
para o homem.
I
564
Jó responde ao
discurso de Javé, nos seguintes termos:
“Sinto-me
pequeno, que poderei reponder-te?
Porei minha
mão sobre a boca;
Falei
uma vez, não replicarei;
Duas vezes,
e nada mais acrescentarei”.
565
Na verdade, diretamente, em
face do poder criador
infinito, esta é a única resposta
possível por parte de uma testemunha cujos
membros continuam tomados pelo temor de um quase total aniquilamento.
Que outra
resposta, racionalmente falando, um pobre verme humano semi-esmagado e
se
arrastando sobre o pó da terra poderia dar em tais
circunstâncias? Apesar
de sua
deplorável pequenez e fraqueza, este
homem tem a consciência de que se defronta com um ser de
natureza sobre-humana,
extremamente sensível sob o ponto de vista pessoal, e que
é preferível, em
qualquer caso, abster-se de toda e qualquer
consideração crítica; quanto
às
pretensões de ordem moral que acredita poder ter em
relação a um Deus, deverá
renunciá-las.
566
Louva-se a
justiça de Javé, Jó poderia muito bem
apresentar a ele, o justo juiz, suas queixas e proclamar sua
inocência. Mas Jó
duvida que isso seja possível: “como poderia um
homem ter razão diante de
Deus?... Ainda que eu o quisesse citar em juízo, ele
não me responderia... Se
buscássemos o direito, quem o poderá
citar?” Multiplica-lhe as feridas sem
motivo algum... Inocente ou culpado, Ele os faz perecer! Quando seu
flagelo
causa de repente a morte, Ele ri-se do desespero dos inocentes...
“Sei”, diz Jó
a Javé, “que não me
absolverás. Eu tenho certeza de que me julgarás
culpado”.
Por mais que ele se purificasse, Javé o
“submergiria na cloaca... Ele não é um
homem como eu, com quem eu possa comparecer, para responder-lhe em
juízo”. Mas
Jó quer explicar seu modo de pensar a Javé, quer
apresentar-lhe suas queixas e
diz que Ele sabe muito bem que ele, Jó, é
inocente, e que “ninguém o pode
livrar de tuas mãos”. Ele “deseja
ardentemente” “querelar com Deus”. Quer
expor-lhe “seu modo de proceder”. Sabe que
está “no seu direito”. Javé
deveria
citá-lo em juízo e explicar-lhe suas
razões, ou pelo menos permitir-lhe que
apresente suas queixas. Numa correta apreciação
da disparidade de condições
entre Deus e o homem, Jó propõe a pergunta:
“Queres então assustar uma folha
levada pelo vento e perseguir uma palha seca?” Deus
“torceu o seu direito”.
Privou-o de seu direito”. Não olha para a
injustiça. “Até o ultimo alento,
insistirei em minha inocência. Agarrar-me-ei fortemente
à minha justiça e não a
abandonarei”; seu
amigo Eliú não acredita na injustiça
de Javé:
“Deus
não é injusto e o Todo-Poderoso não
falseia a justiça” e fundamenta esta sua
opinião de maneira ilógica, apelando para o poder;
também não se dirá ao rei:
“Tu és malvado!” e ao nobre:
“Tu és um ímpio!”
Segundo ele, é preciso “respeitar a pessoa dos
príncipes” e “ter mais
consideração pelos ricos do que pelos
pobres”. Mas Jó não se deixa abalar e
profere uma palavra muito significativa: “Eis que desde agora
habita nos céus a
minha testemunha e o meu fiador nas alturas... meus olhos
recorrem a Deus, desfeitos em
lágrimas, para que Ele defenda
o homem diante de Deus”;
e em outra passagem, diz: “Ora, eu sei que meu
defensor está vivo e que no fim ele se levantará
sobre o pó da terra”.
567
Das palavras de
Jó se deduz claramente que ele, embora
duvidando de que alguém possa ter razão contra
Deus, só com dificuldade desiste
da idéia de se confrontar com Deus no terreno do direito e
da moral. Custa-lhe
crer que o arbítrio divino torce o direito, pois mesmo
crendo na justiça divina
não quer ceder. Por outro lado, porém,
vê-se obrigado a confessar que outro não
é o que lhe causa injustiça e violência
senão o próprio Javé. Não
pode deixar
de reconhecer que se acha diante de um ser que não se
preocupa com julgamentos
morais nem com uma ética que lhe imponha
obrigações. Talvez o que de mais
elevado haja em Jó seja que ele, em face de uma dificuldade
como esta, não se
perturbe com a unidade de Deus, percebendo claramente que
Deus
se harmoniza tão perfeitamente consigo
próprio, que Jó tem certeza de que
encontrará em Deus um advogado e defensor
contra o próprio Deus. Tão certa é
para ela a existência do bem em Javé quanto
a existência do mal. Não se pode esperar um
defensor na pessoa de um homem que
não pode fazer-nos o mal. Mas Javé não
é um homem. Ele é, a um só tempo,
perseguidor e defensor, e nesta situação um dos
aspectos é tão real quanto o
outro. Javé não se acha dividido, mas constitui
uma antinomia,
isto é, uma oposição interna total,
que é a condição
preliminar e necessária de seu imenso dinamismo
intrínseco, de seu poder e
ciência infinitos. A partir deste conhecimento, Jó
persiste no propósito de
“expor seu modo de proceder” a Javé, ou
seja, insiste em lhe explicar o seu
ponto de vista, pois apesar de sua ira,
Javé, contra
si próprio, é também
defensor do homem que lhe apresentou uma queixa.
568
O conhecimento de
Jó a respeito de Deus poderia causar
maior espanto ainda, se o ouvíssemos falar, pela primeira
vez, do caráter
amoral de Javé. Mas os caprichos imprevisíveis e
os acessos destrutivos da ira
de Javé eram conhecidos desde os tempos antigos. Ele sempre
aparece como zeloso
guardião da lei, particularmente sensível em
relação à justiça. Por isso
era
preciso louvá-lo continuamente como
“justo”, coisa que Ele, como parece,
atribuía tão pouca importância.
Graças a este atributo, Ele possuía uma personalidade
distinta
que o
diferenciava da pessoa de um rei mais ou menos arcaico, apenas em
virtude da
amplidão. Seu caráter cioso e sensível
que sondava, com desconfiança, o
coração
do homem infiel e seus pensamentos secretos, dava origem
forçosamente a um
relacionamento pessoal entre ele e o homem ao qual outra coisa
não restava
senão sentir-se pessoalmente chamado por Ele. É
isso que o distingue
essencialmente Javé do Todo-poderoso Pai Zeus que
benevolamente, e como que posto
um pouco à parte, fazia com que a ordem do mundo se
desenrolasse dentro de
caminhos consagrados desde épocas imemoriais, só
castigando aquilo que
contrariasse a ordem estabelecida. Não moralizava, mas tudo
governava segundo
os ditames dos instintos. Nada queria da
parte dos homens, a
não ser os sacrifícios que lhe eram devidos. Nada
queria com eles, pois não tinha planos que lhes dissesse
respeito. Pai Zeus era
uma figura, não uma personalidade. Javé, pelo
contrário, se interessava pelos
homens. Estes constituíam para Ele uma de suas principais
preocupações. Javé
precisava dos homens do mesmo modo que estes também
precisavam Dele, de maneira
premente e pessoal. É verdade que Zeus poderia
lançar suas setas inflamadas,
mas somente sobre delinqüentes isolados que contrariassem a
ordem estabelecida.
Nada tinha a objetar contra humanidade como um todo, nem esta lhe
interessava
de modo particular, Javé, pelo contrário, podia
irar-se desmesuradamente
contra os homens enquanto
gênero e enquanto
indivíduos, quando estes não se comportavam como
Ele queria e esperava, mas sem
jamais explicar-lhes que sua onipotência poderia criar coisas
muito melhores do
que “miseráveis vasos de terra”.
569
Em face deste relacionamento
pessoal intenso com seu
povo, era inevitável que desenvolvesse uma
aliança toda particular que se
referia também a determinadas pessoas, como por exemplo:
Davi. Como nos relata
o Salmo 89, disse Javé a Davi:
“
...não faltarei à minha
fidelidade.
Não
violarei
minha
aliança..
E nada
mudarei daquilo
que meus lábios proferiram.
Uma coisa eu
jurei mela
minha santidade:
nunca hei de
mentir a
Davi...”
570
Mas apesar disso aconteceu
que Ele, o zeloso guarda do
cumprimento da lei e do pacto, quebrou o próprio juramento.
O homem veria o
abismo do mundo abrir-se diante de si e o solo fugir debaixo de seus
pés, pois
o que ele esperava de seu Deus seria, no mínimo, que se
mostrasse sob todos os
aspectos superior a um simples mortal, e isto no sentido do melhor, do
mais
elevado e do mais nobre, e não sob o ponto de vista da
mobilidade e da falta de
seriedade morais que admitem como muito natural, até mesmo
uma quebra de
juramento.
571
É evidente que
não se pode contrapor um Deus arcaico
às exigências da ética moderna. Para os
homens da remota antigüidade as coisas
eram um pouco diferentes: em seus deuses floriam e vicejavam ao mesmo
tempo as
virtudes e os vícios. Por isso, ele podiam submete-los
à castigos, prende-los,
engana-los e atiça-los uns contra os outros sem que
perdessem o prestígio, pelo
menos a longo prazo. O homem daquele éon
estava de tal modo acostumado às incongruências de
seus deuses, que não se
abalava muito quando ocorriam. Mas com Javé a coisa era
diferente, dado que o
fator da ligação pessoal e moral desempenhava,
há muito, um papel de
importância na relação religiosa. Em
tais circunstâncias a quebra do pacto
representava uma ofensa não só no plano pessoal
como também no plano religioso.
O primeiro destes aspectos se deduz do modo pelo qual Davi responde a
Deus, ao
dizer:
“
Até quando, Senhor,
continuarás escondido,
até
quando
farás arder
como fogo a tua cólera?
Lembra-te,
Senhor, o
quanto fugaz é a vida,
Como
são
efêmeros todos
os homens que criaste!
....
Onde
estão,
Senhor, os
teus favores de outrora,
E os
juramentos que
fizeste a Davi por tua fidelidade?”
572
Se isto fosse dito a um
homem, o seu teor seria
expresso mais ou menos da seguinte maneira:
“Detém-te, afinal, e para com essa
sua fúria insensata! Não vês como
és realmente grotesco que alguém como tu se
irrite deste modo contra as plantinhas que não querem
crescer como convém, e
isto não sem tua culpa. Bem que poderias ter sido
razoável outrora, cuidando
corretamente do jardinzinho que plantaste, em vez de
calcá-lo aos teus pés”.
573
Mas o interlocutor
não ousa discutir com o parceiro
todo poderoso a respeito da quebra do pacto. Ele bem sabe o que teria
que
ouvir, se fosse ele
o desgraçado
violador do direito. Deve refugiar-se no plano mais alto da
razão, porque senão
sua vida correria perigo, e assim se mostra ligeiramente superior, ao
parceiro
divino, sem o saber e sem o querer, tanto sob o ponto de vista
intelectual
quanto sob o ponto de vista moral. Javé não
percebe que é “tratado” como
objeto, e tampouco compreende por que deve ser continuamente
“louvado” e
propiciado de todas as formas possíveis, evidentemente para
ser mantido, a todo
custo, em boas disposições de
espírito.
574
O caráter que
então se delineia é próprio de uma
personalidade que só pode ter consciência de sua
existência em virtude de um
objeto. A dependência em relação ao
objeto é total, quando o sujeito não é
capaz de refletir sobre si mesmo e, por conseguinte, não tem
a percepção do que
se passa no seu interior. A impressão é a de que
ele só existe porque tem um
objeto que garante de fato
que ele
existe. Se Javé tivesse consciência da
própria existência, como seria de se
esperar, pelo menos por parte de uma pessoa dotada de
percepção, deveria ter
feito cessar os louvores á sua justiça, em face
da situação real em que Ele se
acha. Mas Javé é inconsciente demais para ser
“moral”. A moralidade pressupõe a
consciência. Com isto, evidentemente, não queremos
dizer que Javé seja, por
exemplo, imperfeito ou mau, como um demiurgo gnóstico. Ele
possui cada um dos seus atributos em sua
plenitude, inclusive, portanto, a justiça pura e simples,
mas não deixa de ser também
o contrário, e isso também de maneira absoluta e
total. É assim, pelo menos,
que devemos imaginá-lo, se quisermos ter uma
visão unitária de sus natureza. A
única condição, nesse caso,
é que devemos estar conscientes de que, com isto,
não fizemos senão esboçar uma imagem
antropomórfica que não chega a ser
diretamente perceptível. A maneira pela qual o ser divino se
expressa nos
mostra que seus atributos não se relacionam
satisfatoriamente uns com outros e
assim se decompõem em atos contraditórios.
Então Javé se arrepende, por
exemplo, de ter criado o homem, embora sua sabedoria infinita
percebesse
claramente, desde o início, o que haveria de acontecer com
um tal homem.
II
575
Como o Onisciente perscruta
todos os
corações, e os olhos de Javé
“vagueiam sobre a terra” ,
é
preferível que o interlocutor do salmo 89 não
tome logo consciência de sua
pequena superioridade moral em relação ao deus
que é um pouco menos consciente,
ou, mais exatamente, que se
precavenha, pois Javé
não gosta de idéias
críticas que possam reduzir o afluxo do reconhecimento que
reclama. Quanto
maior é a ressonância do seu poder
através do espaço cósmico, menor
é a base de seu ser que precisa, p. ex., de
algo que o reflita para poder existir realmente. Efetivamente,
o ser só tem
validade na medida em que alguém tome consciência
de sua existência. Por
isso
o Criador necessitou da consciência humana , embora levado
por sua
inconsciência, preferisse impedir que ele se tornasse
consciente. Por isso
também precisou ser aclamado por um pequeno grupo humano.
É fácil imaginar o
que teria acontecido se essa assembléia cessasse de
aplaudir. Haveria um estado
de comoção seguido por um sério
vandalismo e um segundo mergulho na solidão
infernal e no nada mais tormentoso, acompanhado de um grande e
inexprimível
anseio, que aos poucos tomaria corpo e vida, através de algo
que me tornasse
mais sensível a mim mesmo . É talvez por isso que
todas as coisas primitivas e
até mesmo o homem antes de se tornar canalha são
de uma beleza tocante, pois
no “statu nascendi” [na fase de nascimento]
“qualquer coisa em seu gênero”
representa o que há de mais precioso, de intimamente
desejado e de
profundamente terno, na visão do amor e da bondade infinitos
do criador.
576
Dado
ao caráter inegavelmente
temível da ira divina e numa época em que
não se tinha plenamente consciência
do que se dizia ao referir-se a um “temor de Deus”,
era natural que uma
humanidade bem superior sob certos aspectos se mantivesse num estado de
inconsciência. A personalidade
poderosa de Javé, que
carecia também
de quaisquer antecedentes biográficos (estando sua
relação original com os eloins
mergulhada no Letus havia já
muito tempo), elevava-o acima
de todos os numes da gentilidade, imunizando-o
assim contra a tendência da destruição
da autoridade dos Deuses helênicos,
influência que perdurava havia já alguns
séculos. Para estes
deuses
tornara-se fatal o detalhe de sua biografia mitológica
cujo aspecto
chocante e incompreensível foi sendo reconhecido cada vez
mais nitidamente.
Ora Javé não tinha origem, nem passado
atrás de si, com exceção do seu
título
de Criador com o qual teve início a história em
geral, e de sua relação com
aquela parte da humanidade cujo primeiro pai, Adão, ele
criara à sua imagem e
semelhança, como o anthropos,
o homem
primordial puro e simples, num ato criador manifestamente especial.
Os
demais homens que já existiam naquela época
tinham sido formados antes, como é
de se supor, no torno do divino oleiro, juntamente como as
“várias espécies de
animais selvagens e domésticos”. Entre esses
homens, Caim e Set tomaram suas
mulheres. Quem não admitir esta minha hipótese
terá diante de si apenas outra
possibilidade, muito mais chocante que a primeira, ou seja, a de que os
dois se
casaram com as irmãs, cuja existência
não é textualmente
confirmada,
como supunha o filósofo da história, Karl
Lamprecht, em fins do século
XIX.
577
A
“providentia specialis” que garantiu aos judeus
pertencentes ao número dos
portadores da semelhança de Deus, o caráter de
povo eleito
sobrecarregou-os, desde o
início com uma
obrigação que eles, compreensivelmente,
procuravam evitar de todos os modos
possíveis, como acontece em geral em semelhantes casos. Como
o povo se
aproveita de todas as ocasiões para fugir a seus
compromissos e considerando
Javé de importância vital ligar definitivamente a
si o objeto que lhe era
indispensável e que ele mesmo formara para este fim,
“à semelhança de Deus”,
desde os primórdios, ele propôs ao ancestral
Noé uma “aliança”. Entre
ele,
Javé e Noé,
juntamente com seus filhos e animais domésticos e selvagens
que lhe pertenciam foi
estabelecido um pacto que
prometia vantagens para
as duas partes contratantes. Para
fortalecer esta aliança e mante-la viva,
Javé instituiu o arco-íris como sinal do pacto.
Mais tarde, ao produzir as
nuvens que traziam os raios e a inundação em seu
bojo, também faria aparecer o
arco-íris que lembraria a ele, Javé, e a seu povo
o pacto outrora celebrado. De
fato, a
tentação de utilizar um aglomerado de nuvens para
a experiência do
dilúvio não era pequena
e por isso era aconselhável ligar a este fenômeno um
sinal que indicasse a autoria da obra e advertisse, enquanto era tempo,
contra
uma possível catástrofe.
578
Apesar dessas medidas de
precaução, o
pacto com Davi foi rompido, acontecimento
este que deixou
seus
vestígios literários nas Sagradas Escrituras,
para confusão e
intranqüilidade de algumas pessoas piedosas que tinham
dúvidas a respeito
quando faziam sua leitura. Em uma utilização
ciosa do saltério era inevitável
que qualquer pessoa imaginosa e sonhadora tropeçasse com o
Salmo 89.
Seja como for, a impressão geral que se manterá
viva é a de que houve
uma
quebra do pacto. Sob o ponto de
vista cronológico é possível que o
autor do
livro de Jó tenha sido influenciado por esse tema.
579
O
livro de Jó
coloca o homem justo e fiel,
mas
golpeado por Deus,
em um palco visível
a longa distância,
onde ele expõe a sua causa aos
olhos e ouvidos do mundo: com espantosa facilidade e sem nenhum motivo Javé
se deixou influir por um de seus filhos,
por um de seus pensamentos
de dúvida ,
mostrando-se
inseguro em relação à fidelidade de
Jó. Dado o seu
caráter sensível e a sua
desconfiança, a simples possibilidade de uma
dúvida o deixou agitado e o
induziu àquele estranho
comportamento de que já dera prova no paraíso,
ou seja, àquele modo
de agir equívoco que consiste em um sim e um não:
chamara
a atenção dos primeiros pais sobre a
árvore do bem e do mal, mas lhes proibira,
ao mesmo tempo, de comer dela.
Com isto deu ocasião à queda original. E eis
que agora o fiel servo Jó deve ser submetido sem motivo e
sem finalidade a uma
dura prova moral, embora Javé esteja convencido da sua
fidelidade e paciência,
e esteja, além disso, conforme dá a entender,
absolutamente seguro a este
respeito, graças à sua onisciência, no
caso de vir a consultá-la.
Mas por
que, apesar de tudo, aceitar uma aposta gratuita com o insinuador sem
escrúpulos, às escondidas, e
à custa de uma criatura desamparada?
Na
verdade não é um espetáculo
dignificante ver com que rapidez Javé abandona seu
fiel servo ao espírito mau e com que
despreocupação e falta de
comiseração o
deixa cair no abismo do sofrimento físico e moral.
Do ponto de vista
humano, o comportamento de Deus é tão revoltante
que nos vemos obrigados a
perguntar se por trás de tudo isso não
há um motivo profundo. Será que Javé
não
alimenta uma certa prevenção oculta contra
Jó? Isto talvez explicasse o seu
recuo perante Satanás. Mas o que o homem possua que Deus
também não tenha? Como
já indicamos acima, por causa de sua pequenez, debilidade e
impotência diante
do todo-poderoso, Jó tem uma consciência aguda,
decorrente de sua capacidade de
auto-reflexão: para poder subsistir, ele precisa manter-se
sempre consciente
de sua impotência em
face do Deus Onipotente. Este último não precisa
precaver-se do mesmo modo, porque não depara em parte alguma
com aquele
obstáculo insuperável que poderia
levá-lo à hesitação e,
consequentemente,
também à auto-reflexão. Terá
Javé concebido a suspeita de que o homem possui
uma luz infinitamente pequena, mas não obstante mais
concentrada do que a dele?
Um ciúme dessa natureza talvez explicasse o comportamento de
Javé. Seria então
compreensível que uma tal divergência, apenas
suposta mas não concretizada em
relação à
definição de uma simples criatura, provocasse a
desconfiança divina.
Na verdade, os homens já se haviam
comportado muitas vezes de um
modo inesperado. Afinal de contas, o
próprio Jó, apesar de sua fidelidade podia estar
tramando alguma coisa... daí
se explicaria a presteza surpreendente com que Javé cede
às insinuações de
Satanás mesmo contra sua própria
convicção.
580
Jó é
imediatamente privado de seus
rebanhos, de seus servos, e seus
filhos e filhas são
golpeados pela
morte; e ele mesmo é
atacado pela enfermidade que o leva à beira do
túmulo.
Para privá-lo
também de sua tranqüilidade,
até sua mulher e
seus bons
amigos, que nada dizem de
acertado, são
atiçados contra ele.
Sua
justa queixa não encontra eco junto ao juiz que é
justamente (?!) louvado por
ser justo. O direito lhe
é recusado, para que Satanás (não?)
seja estorvado
em seu jogo.
581
Necessário
é explicar por que se
acumulam aqui fatos obscuros em tão curto intervalo de
tempo: roubos,
assassinatos,
ferimentos corporais infligidos
de propósito, e recusa
de direitos
próprios. Para
dificultar ainda mais, constata-se que Javé
não manifesta
qualquer escrúpulo, arrependimento ou compaixão, mas somente falta de
consideração e uma natureza cruel.
Não adianta apelar para a falta
de
consciência, pois sabe-se que ele violou
flagrantemente pelo menos três dos mandamentos
que ele mesmo promulgara no Sinai.
582
Para aumentar o tormento de
Jó, seus
amigos lhe infligem torturas morais, e ao invés de ampararem
pelo menos com o
calor do coração aquele que Deus abandonara
deslealmente, dão-lhe lições de
moral, de um modo demasiadamente humano, o que equivale a dizer de
maneira
estúpida, e o privam dos últimos
auxílios da participação e
compreensão
humanas, sem que se possa afastar de todo a suspeita de
conivência por parte de
Deus.
583
Não se
vê claramente por que o
sofrimento de Jó e o jogo da aposta divina cessam
abruptamente. O sofrimento
absurdo de Jó poderia continuar enquanto ele vivesse (como
tem acontecido com o
Murilo). Mas não devemos perder de vista o pano de fundo
deste acontecimento:
não me parece impossível que algo tenha surgido
pouco a pouco neste pano de
fundo, ou seja, uma compensação do sofrimento
infligido imerecidamente e que
não poderia deixar Javé indiferente, mesmo que
só o pressentisse de longe. E
então aquele que fora torturado imerecidamente foi elevado
imperceptivelmente,
e sem disto se dar conta, a uma
superioridade de conhecimento de Deus que o
próprio Deus não tinha.
Se Javé tivesse auscultado sua consciência,
Jó não
teria levado vantagem sobre ele. Mas, neste caso, não teriam
acontecido muitas
outras coisas.
584
Jó
conhece a antinomia interior
de Javé e este seu conhecimento alcança a
numinosidade divina. A
possibilidade de uma tal evolução reside,
presumivelmente, na
semelhança
a Deus que dificilmente se pode procurar na morfologia humana.
O próprio
Javé preveniu este erro,
proibindo que se fabricassem
imagens de
qualquer espécie.
Não deixando dissuadir-se a da idéia de
apresentar o seu
caso a Deus, mesmo sem a
esperança de ser atendido, Jó se posta diante dele,
e deste modo
cria aqueles
obstáculos através dos quais deve manifestar-se a
natureza de Javé.
Neste
ponto culminante do drama, Javé interrompe o jogo cruel. Mas
ficaria
profundamente desapontado quem pensasse que Javé voltaria a
sua ira contra o
caluniador. Javé
não pensa em chamar à responsabilidade o filho
pelo qual se
deixou persuadir, nem
lhe ocorre a idéia de dar a Jó pelo menos uma
certa satisfação moral,
além da explicação de seu
comportamento. Ao invés
disto, aparece com sua onipotência em meio à
tempestade e invectiva o verme
humano semi-esmagado, com acusações:
“Quem
é esse aí que
obscurece o meu desígnio
com discursos
destituídos de
inteligência?”
585
Diante dos discursos
subseqüentes de Javé,
perguntamo-nos quem é, na verdade, que obscurece aqui o
desígnio e em que
consiste esse desígnio. Obscuro é o problema de
saber como é que Deus pode
fazer uma aposta com Satanás. Jó, por certo,
não obscureceu coisa alguma neste
contexto, muito menos um desígnio, pois antes nunca se falou
dele e nem se
falará posteriormente. Não existe na aposta,
tanto quanto é possível ver, desígnio
algum; seria preciso que o próprio Javé
provocasse Satanás, para que Jó afinal
fosse exaltado. Naturalmente esta evolução
está prevista na própria onisciência
e é possível que o termo
“desígnio”
esteja se referindo a
este
conhecimento absoluto e eterno. Se assim for, a atitude de
Javé parece ainda
incoerente e incompreensível, desde que Ele poderia muito
bem ter esclarecido a
Jó a este respeito, o que seria justo e eqüitativo,
em vista da injustiça que
lhe fora infligida. Por isso, forçoso é
considerar esta impossibilidade como de
todo improvável.
586
Quais os discursos
destituídos de inteligência?
Provavelmente Javé não está se
referindo aos discursos dos amigos, mas
censurando Jó. Em que consiste, porém, a culpa
deste último? O único ponto que
se lhe poderia censurar seria o otimismo com que julga poder apelar
para a
justiça divina. Mas isto, na realidade, faz com que ele
não tenha razão, como
se vê pelos discursos posteriores de Javé, Deus
não quer absolutamente passar
por justo, mas impõe o seu poder que ultrapassa o direito. E
é isto que Jó não
quer compreender, porque considera Deus um ser moral. Nunca duvidou,
por
exemplo, da onipotência de Deus, mas, muitíssimo
ao contrário, confiou também
no seu caráter justo. Entretanto, ele mesmo já se
retratou deste engano, ao
reconhecer a natureza antinômica de Deus, e com isto conferiu
o devido lugar à
Justiça e bondades divinas. Parece que aqui não
se trata de uma falta de
inteligência.
587
Por isso a resposta que se
deve dar à pergunta de Javé
é que Ele mesmo é quem obscurece o
próprio desígnio e não possui
inteligência. Ele
inverte, por assim dizer, os termos da
argumentação e acusa Jó daquilo que
ele
próprio está fazendo: sustentar uma
opinião a esse respeito, o que Ele não
permite ao homem, e particularmente ter uma inteligência que
ele próprio não
possui. Ao longo de 71
versículos Ele proclama o seu poder de Criador do
Mundo à sua vítima desgraçada que jaz
sentada na cinza, raspando as úlceras,
convencida há muito tempo, no mais íntimo de seu
ser, de que foi submetida a um
ato de violência sobre-humana. Não
há, absolutamente, necessidade de Jó ser
impressionado de novo por este poder, até a
exaustão. Com sua onisciência Javé
poderia muito bem quão inadequada é sua tentativa
de abalar o ânimo de Jó em
uma situação como esta.
Ele poderia muito bem perceber
que Jó acreditou
e acredita na sua onipotência e que não a
pôs em dúvida, mesmo quando Javé se
lhe tornou infiel. É tão pouca sua
consideração para com a realidade de
Jó, que
parece justificada sua suspeita de que tem para tudo isso um motivo de
maior
importância: Jó constitui apenas a
ocasião para um confronto intradivino. Javé
fala de tal modo, sem levar Jó em
consideração, que não é
difícil perceber o
quanto Ele se preocupa consigo mesmo. A ênfase colocada em
sua onipotência e
grandeza não tem sentido algum aos olhos de Jó, o
qual não é preciso convencer,
e só será compreensível em
relação a um ouvinte que dela duvidar. Este pensamento
de dúvida é Satanás
que após
realizar sua obra perversa,
retorna ao regaço paterno, para daí continuar o
seu trabalho de sapa. Javé deve evidentemente
ter
percebido que a
fidelidade de Jó foi inabalável e que
Satanás perdeu a aposta. Também deve ter
percebido que, ao aceitar a aposta, estava fazendo tudo para levar seu
servo à
infidelidade, até
mesmo com o risco de cometer uma série de delitos.
Mas não foi o
arrependimento (para não falarmos dos horrores morais) que o
fez, por exemplo, tomar consciência desta
situação, mas
um obscuro pressentimento
de alguma coisa que colocaria em dúvida sua
onipotência (sob
este
aspecto verifica-se uma sensibilidade toda particular, pois o
“poder” constitui
o pretexto mais importante). Mas na
onisciência está presente a consciência
de que com o poder nada se justifica.
Este pressentimento deve-se ao fato sumamente doloroso de que
Javé se deixou
aliciar por Satanás. Mas Ele
não percebe plenamente sua situação de
fraqueza, pois trata Satanás com tolerância e
deferência desusadas, fechando os
olhos para as intrigas contra Jó.
588
No decorrer da
alocução, Jó notou, para sua
felicidade, que se tratava de tudo menos de seus direitos. Percebeu que
desde
então era
absolutamente impossível debater a questão de
seus direitos, pois
era evidente que Javé não tinha qualquer
preocupação pelos problemas de Jó,
mas estava voltado apenas para
seus próprios interesses.
Satanás deve
desaparecer de qualquer modo, e para que isto aconteça nada
melhor do que fazer
com que Jó se torne suspeito de alimentar
disposições revolucionárias. Com isto
se desvia o problema para um novo rumo e o incidente com
satanás passa
inadvertido. O espectador não chega a ver claramente a
razão pela qual a
exibição da onipotência divina a
Jó deva ser feito em meio a trovões e
relâmpagos. Mas esta exibição
é em si grandiosa e suficientemente
impressionante para convencer não só um
público mais vasto, mas, em primeiro
lugar, o próprio Javé, quanto ao seu poder
intocável. Não sabemos, é verdade,
se Jó suspeita de que Javé, agindo assim,
está cometendo um ato de violência
contra sua própria onisciência, mas o seu
silêncio e a sua submissão deixam em
aberto várias possibilidades. Por
isso, Jó não terá outra
saída melhor senão
a de renunciar imediatamente às suas pretensões
de justiça sob todas as formas,
e esta é a razão pela qual ele responde com as
palavras que citamos no início
desta obra: “Porei minha mão sobre
a
boca”.
589
Ele não revela o
mínimo traço de uma reservatio mentalis
[restrição mental].
Sua resposta não deixa dúvida alguma de que
sucumbiu inteiramente e de modo
muito natural à poderosa impressão que lhe causou
a demonstração de Deus. Com
isto, o mais exigente dos tiranos ter-se-ia dado por satisfeito e
poderia ter
plena certeza de que seu servo não se aventuraria a
alimentar por mais tempo (apenas
por medo, não falando
mais de
sua lealdade a toda prova) sequer uma única
idéia desacertada.
590
Estranho é que
Javé não se dá conta de tudo isto.
Simplesmente não toma conhecimento de Jó e sua
situação. A impressão que nos
fica é a que ele tem diante de si um poderoso
alguém que vale a pena desafiar,
e não o pobre Jó. É isto que se
vê na segunda parte da invocação:
“Cinge-te
os
rins com um
homem;
Vou
interrogar-te e tu
me instruirás”
591
Talvez fosse preciso
escolher exemplos grotescos para
explicar a semelhança de situações
entre os dois adversários. Javé percebe em
Jó alguma coisa que dificilmente atribuiríamos a
este último, mas antes ao
próprio Javé, ou seja, uma força
igual, e isto o leva a expor todo o aparato de
seu poder aos olhos do adversário, numa parada grandiosa. Javé
projeta sobre Jó um rosto de cético que
ele próprio não gosta, porque é seu
próprio rosto que ele contempla com um
olhar sinistramente crítico. Ele o teme porque só
se mobiliza a força, o poder,
a coragem, a invencibilidade etc., contra algo que provoca o medo. Que
tem Jó a
ver com isso? Que vantagem tem
o forte assustar um rato?
592
Javé
não pode contentar-se com o primeiro
“round”
vitorioso. Jó se acha prostrado no chão
há muito tempo, mas o seu grande rival,
cujo fantasma se projeta sobre o pobre e desgraçado
sofredor, continua
ameaçadoramente de pé. Por isso Javé
retoma suas divagações:
“Queres
tu
aniquilar a minha justiça,
condenar-me,
para assegurares o seu direito?
Tens
um braço
semelhante ao de Deus?
Tens
uma voz
trovejante como a dele?
593
Para Javé, o
indivíduo desprotegido e privado de seus
direitos, e cuja nulidade lhe é exposta a cada momento,
parece evidentemente
tão perigoso, que deve ser alvejado com uma artilharia mais
pesada. Aquilo que
o irrita, se revela em seu desafio ao pretenso Jó:
“Com
teu olhar
humilde todo altivo
esmaga
os
ímpios
no mesmo lugar onde se
encontrem.
Submerge-os
todos juntos no pó de terra,
amordaça
a sua
face num lugar escondido.
Então
eu
também te louvarei,
pois
a tua
destra te conquistou a vitória”
594
Jó é
desafiado como se ele próprio fosse um deus. Mas
na metafísica de outrora não havia um segundo
deus, um Outro, a não ser
Satanás, que possui o ouvido de Javé e
é capaz de influenciá-lo. Satanás
é o
único que pode retirar o solo debaixo dos seus
pés, de ofuscá-lo e levá-lo a
uma dose maciça de pecados contra a lei penal promulgada por
Ele mesmo. Na
realidade, um formidável contendor e de tal modo
comprometedor, em razão de seu
estreito parentesco, que é preciso dissimulá-lo
com o máximo de descrição. Na
verdade, ele se vê obrigado a ocultá-lo na
própria consciência, no seu seio, e
em lugar dele coloca o pobre servidor de Deus como espantalho a ser
combatido,
esperando assim poder “amordaçar sua
face” temida “num lugar escondido”, para
manter-se a si mesmo em estado de inconsciência.
595
A
preparação do duelo imaginário, os
discursos proferidos
nessa ocasião e a impressionante
exibição do bestiário primitivo
estariam
suficientemente explicados, se quiséssemos
ligá-los ao fator
meramente
negativo do receio de uma tomada de consciência e das
conseqüências da
relativização que a acompanha.
Mas, ao invés disto, o conflito torna-se
agudo para Javé, em virtude de um
fato novo que, entretanto, não passou
despercebido à sua onisciência.
Em tal caso, porém,
o conhecimento não
foi seguido de uma conclusão.
O fato
novo em questão se
relaciona com o caso desconhecido na história universal
dessa época e consiste
em ser um
mortal exaltado, por causa de
seu comportamento, sem disso ter conhecimento, acima dos
astros,
a partir de onde pode
contemplar inclusive o
dorso de Javé, ou seja, o mundo abissal das
“cascas”.
596
Tem Jó
consciência do que vê? Ele é bastante
sábio e
esperto para denunciá-lo. Mas a partir de suas palavras
pode-se perfeitamente
supô-lo:
“Reconheço
que podes tudo;
nada do que concebes te
é impedido de realizares”.
597
De fato, Javé
tudo pode e se permite, sem pestanejar um momento. Ele
é capaz de projetar, com
impassibilidade férrea, o seu próprio lado
sombrio e permanecer inconsciente
disto, à custa do ser humano.
É capaz de apelar para o seu poder supremo e
promulgar leis que para ele significam menos que o ar. Os
assassínios, os
morticínios não lhe causam
preocupação,
e quando
lhe dá na veneta é capaz igualmente de, qual um
senhor feudal, ressarcir
generosamente os danos provocados pelas suas caçadas nos
campos de cereais dos
servos: “Perdestes os teus filhos, as tuas filhas e seus
escravos? Não há de
ser nada; eu te darei outros em troca, e melhores que os
primeiros”.
598
Jó prossegue seu
discurso (talvez de olhos baixos e
voz sumida):
“Quem
seria
este que obscurece o desígnio sem inteligência?
Falei,
pois,
de coisas que não entendia,
de
maravilhas
que ultrapassam a minha compreensão.
Escuta-me,
que
vou te falar;
Interrogar-te-ei,
e tu me responderás.
Conhecia-te
só
por ouvir dizer,
Mas
agora meus
olhos te viram.
Por
isso
retrato-me e faço penitencia
no
pó e na
cinza”.
599
É numa atitude de
prudência que Jó acolhe aqui as
palavras agressivas de Javé e se coloca sob seus
pés, como se fosse realmente o
adversário vencido. Embora pareça claro, o seu
discurso comporta um duplo
sentido. Na verdade, ele apreendeu bem sua lição
e viu “maravilhas” muito
difíceis de entender. De fato, ele conhecia Javé
“por ouvir dizer”, mas agora
sente de perto a sua realidade mais do que Davi, ensinamento este
verdadeiramente penetrante e que é melhor não
esquecer. Outrora ele fora
ingênuo, chegando inclusive a sonhar com um
“bom” Deus ou um senhor benevolente
e justo; pensara que uma “aliança”
constituía uma questão de direito e que um
dos parceiros
do pacto podia insistir
num direito seu; pensara que
Deus era veraz e fiel, ou pelo menos justo, e
que, como se pode deduzir do Decálogo de alguma modo,
reconhecia certos valores
éticos, ou se achava comprometido com sua própria
concepção do direito. Mas
com espanto viu que Javé não só
é um homem, como também, em certo sentido,
é
menos do que um homem, ou seja,
aquilo que Javé diz a respeito do
crocodilo:
“Mesmo os mais
altivos temem diante dele;
é rei de todos os
animais orgulhosos”.
600
A
inconsciência é de caráter animalesco e
natural. Como
todos os deuses da antigüidade, Javé
também
possui o seu simbolismo animal, inegavelmente inspirado nas figuras
teriomórficas muito mais antigas dos deuses
egípcios, e em
particular de
Horus e seus quatro filhos. Dos quatro animalia
(seres
animados) de Javé, somente um
tem aspecto humano. E este talvez seja Satanás, o padrinho
do homem animal. Na
visão de Esequiel, o deus animal possui três
quartos de animal e somente um
quarto de homem,
ao
passo que o deus “de cima”, isto é,
aquele que está sobre o disco de safira,
tem semblante de homem. Este
simbolismo explica o comportamento
(humanamente) intolerável de Javé. É a
forma de proceder de um ser que prefere
manter-se inconsciente, e que não podemos julgar sob o ponto
de vista moral:
Javé é um fenômeno
e “não um homem”.
601
Poderíamos sem
muita dificuldade supor um tal sentido
no discurso de Jó. Seja como for, Javé
terminou por se tranqüilizar. A
medida terapêutica de aceitar a
situação sem resistência mostrou-se
mais uma
vez válida. Mas mesmo
assim Javé ainda parece irritado com os amigos de
Jó,
pois eles “não conseguiram falar corretamente
dele”.
A
projeção do cético portanto se estende
(cosmicamente, seria o caso de dizer)
também a estes homens honrados e um pouco filisteus, como se
o que eles pensam
tivessem alguma ligação com isto. Mas
o fato os homens poderem pensar, e
pensar acima de tudo a respeito dele, Javé, é
algo de secretamente inquietante
e por isso é preciso impedi-lo a todo custo. Mas
é parecido com aquilo que seu
filho perambulante causa, muitas vezes de maneira inopinada, e toca
profundamente o seu ponto fraco. Quantas vezes Ele teve de
arrepender-se por
causa de seus ímpetos de superioridade!
602
É quase
impossível fugir à impressão de que a
onisciência de Javé se aproxima de uma
percepção interior da realidade e de que
paira no ar a ameaça de uma compreensão,
acompanhada de temores de
auto-aniquilamento. Mas a
explicação final de Jó se acha,
afortunadamente,
expressa de tal modo, que se pode sustentar com bastante
segurança estar o
incidente entre os dois parceiros definitivamente superado.
603
Mas nós que
formamos o
coro que comenta a grande tragédia, que não
perdeu ainda a sua atualidade, não
temos esta mesma impressão. À luz do
nosso moderno modo de sentir, não parece que a
prostração profunda de Jó diante
da onipotência divina, juntamente com seu silêncio
prudente, constitua uma
resposta adequada ao problema suscitado pelo golpe de
Satanás em relação à
aposta divina. A atitude de Jó consiste menos em responder
do que em reagir
concordantemente com as circunstâncias, dando assim mostras
de notável controle
sobre si mesmo. Mas sua resposta não se define com clareza.
604
O que acontece com a
injustiça moral sofrida por Jó
(para mencionarmos o que nos toca mais de perto)? Ou o homem
é tão miserável
aos olhos de Javé, que não lhe pode ser feito sequer
um “tort moral”? Isto estaria em
contradição com o fato de
que o homem é cobiçado por Javé e de
que este se preocupa abertamente com que o
homem “fale corretamente dele”.
Ele preza muito a lealdade de Jó e lhe dá
tanta importância, que nada o impede de levar avante o seu
teste. Esta
atitude de Javé faz com que o homem
assuma valor quase divino, pois
existirá no vasto mundo algo que tenha
algum significado para aquele que tudo possui? A
atitude ambígua de Javé
que, de um lado, esmaga a vida e a felicidade do ser humano, sem a
mínima
consideração, e, de outro, é
forçado a ter o homem como seu parceiro, coloca-o
numa situação simplesmente
insustentável:
Javé se comporta, de um lado, de
maneira irracional, segundo
o modelo das catástrofes da natureza
e
dos fatos
imprevisíveis da mesma ordem,
e de outro, quer ser amado,
honrado, adorado e louvado como justo(!!??).
Reage sentimentalmente a
qualquer palavra crítica, mas quase não
se preocupa com seu código moral, quando seu modo de agir se
choca com alguns
de seus parágrafos.
605
É somente com
temor e tremor que um ser humano pode
submeter-se ao jogo de um deus desta espécie e só
com doses maciças de louvor e
obediência ostensiva poderá tentar propiciar o
Senhor absoluto.
Mas a
relação de confiança parece de todo
excluída aos olhos da sensibilidade
moderna. Não se pode
esperar uma satisfação
moral da parte de um ser
natural tão inconsciente, mas ela aconteceu a Jó,
embora fosse estranha à
intenção de Javé e talvez acontecido
sem que Jó dela se apercebesse, como o
autor do poema parece querer indicar. Os discursos de Javé
têm um objetivo
não-reflexo, embora transparente, qual seja p de exibir aos
olhos do homem a
prepotência brutal do demiurgo.
“É
assim que eu sou o Criador de todas as
coisas
invencíveis e
pérfidas da
natureza, que não estão submetidas a nenhuma lei
moral; eu mesmo sou uma
potência natural amoral, uma personalidade puramente
fenomenal, incapaz de ver
as próprias costas”.
606
Isto constitui, ou pelo
menos poderia constituir, uma
satisfação moral de grande estilo para
Jó, pois tal explicação eleva o homem
à
condição de juiz da divindade, apesar de sua
impotência. Não sabemos se Jó
tomou consciência deste fato. Mas sabemos, positivamente,
através de muitos e
muitos comentários sobre Jó, que todos os
séculos subseqüentes viram que há um
destino e uma justiça que domina Javé e faz com
que Ele abdique de si mesmo em
igual proporção. Quem prestar
atenção perceberá que Ele
involuntariamente
exalta Jó exalta Jó, ao humilhá-lo no
pó da terra: Ele anuncia seu próprio
julgamento, dando ao homem aquela satisfação cuja
falta sempre sentimos
agudamente no livro de Jó.
607
O autor deste drama deu
provas de magistral discrição,
fazendo baixar a cortina precisamente no momento em que seu
herói manifesta, ao
prostrar-se diante da majestade divina, o reconhecimento irrestrito da
onipotência do demiurgo.
Não
há margem para
nenhuma outra impressão
que não esta. Muitas
são as coisas, com efeito, que estão em jogo.
Paira
no ar a ameaça de um escândalo de
proporções descomunais de ordem
metafísica,
de que resultarão conseqüências
provavelmente devastadoras e diante
de tal
fórmula ninguém está em
condições de preservar de uma
catástrofe o conceito
monoteísta de Deus. A
compreensão crítica de um grego poderia
facilmente
ter-se aproveitado e explorado, já naquela época,
essa nova aquisição
biográfica em favor de Javé (o que de fato
ocorreu, mas somente mais tarde)
para garantir-lhe um destino, como se fez em
relação aos deuses gregos. Mas era
simplesmente impossível uma
relativização, tanto naquela época,
como nos
primeiros séculos que se seguiram.
608
O espírito
inconsciente percebe corretamente, mesmo
que a razão esteja obscurecida e incapacitada de agir, que o
drama se consumou
por toda a eternidade; que
a dupla
natureza de Javé se manifestou, e que alguma coisa ou
alguém a viu e registrou.
Uma revelação desta espécie, quer o
homem tenha tomado ou não consciência dela,
não poderia deixar de ter suas
conseqüências.
III
609
Antes de tentarmos saber com
o se
desenvolveu o núcleo da inquietação
que começava a se esboçar, voltemos nosso
olhar para a época em que o livro de Jó foi
escrito. Infelizmente não há
certeza quanto à sua data precisa. Admite-se que tenha sido
entre 600 e 300 aC.
E portanto não muito afastado cronologicamente dos assim
denominados Provérbios
de Salomão (séculos IV-III). Nestes
últimos encontramos um indício da
influência grega que, se porventura começou mais
cedo, atingiu a região judaica
através da Ásia Menor, e se mais tarde,
através de Alexandria. Refiro-me à
idéia da Sapientia
Dei,
uma espécie de Pneuma
coeterno, de natureza feminina, mais ou menos hipostasiado e
preexistente à
criação:
“O
Senhor me criou, como primícias
de suas ações,
como
princípio de suas obras, antes dos tempos mais antigos.
desde
a eternidade fui constituída,
Desde
o começo, antes da origem do mundo.
Quando
ainda não havia os mares eu fui concebida,
e
ainda não existiam as fontes carregadas de água.
.....................................................................
Quando
ele fixava os céus, eu estava lá,
.....................................................................
quando
assentava os fundamentos da terra,
eu
estava lá,
como predileta a seu lado,
era
toda
encantamento dia após dia,
brincando
todo
o tempo na sua presença,
brincando
sobre o globo de sua terra,
Achando
minhas
delícias estar junto aos filhos dos homens”.
610
Esta Sofia, que já
participa dos
atributos essenciais do Logos joaneu, relaciona-se, de um lado, com a
Hohma da
literatura sapiencial hebraica, mas, de outro lado, supera-se de tal
modo, que
é impossível não pensar na Shakti
hindu. De fato, naquele tempo (época dos
Ptolomeus) havia relações com a Índia.
Outra fonte da sabedoria é a coletânea
de provérbios da autoria de Jesus, filho de Sirac (composta
por volta de 200
aC.). A sabedoria diz, falando de si própria:
“Sai da boca do Altíssimo
e como a névoa
cobri a terra.
Tive a minha morada nas
alturas,
e meu trono estava sobre uma
coluna
de nuvens.
Sozinha percorri o
círculo do céu
e passei nas profundezas das
águas.
Andei sobre as ondas do mar e
sobre
os fundamentos da terra.
Exerci o meu
império sobre todos os
povos e nações.
.............................................................
Antes de todos os
séculos, desde o
princípio ele me criou,
e até a eternidade
não cessarei de
existir.
Exerci o
ministério diante dele, no
santo tabernáculo,
e foi assim que tive uma
morada
firme em Sião.
Repousei
na cidade que ele ama tanto quanto a mim,
e em Jerusalém
exerci o meu poder.
.................................................................
Lancei-me às
alturas como um cedro
sobre o Líbano,
como um cipreste sobre a
montanha do
Hermon;
cresci como uma palmeira de
Engadi
e como as rodeiras de
Jericó,
como uma oliveira
magnífica na
planície,
e me elevei como um
plátno à beira
das águas.
Exalei perfume como a canela
e o
bálsamo odorífico,
e como uma mirra escolhida
espalhei
suave odor.
.................................................................
Estendi minhas
raízes como um
terebinto,
e meus ramos eram ramos de
esplendor
e de graça;
como uma videira produzi
graciosos
brotos,
e
minhas flores eram flores
de beleza e de riqueza.
Eu
sou a mãe do puro amor,
do temor, do conhecimento e
da
esperança;
eu sou dada a todos os meus
filhos,
(e os devoro sempre!!)
mas com (dom) eterno somente
aos que
forem escolhidos por Deus”.
611
Vale a pena examinar mais
detidamente este texto. A
sabedoria
se apresenta como logos, como palavra de Deus.
Na sua qualidade de
“ruah”, de espírito de Deus, ela incubou
as profundezas do abismo, no início da
criação.
A semelhança de Deus, ela
incubou as profundezas do abismo, no início da
criação.
À
semelhança de Deus ela também tem seu
trono no céu.
Enquanto pneuma
cosmológico, ela penetra o céu e a
terra e tudo quanto foi criado.
O logos do evangelho de João é, por assim
dizer, o seu equivalente. Veremos mais adiante o quanto é
importante esta
relação também do ponto de vista do
seu conteúdo.
612
A sabedoria é o
nome feminino da
“Metrópole” “par
excelence”, a cidade-mãe de Jerusalém. É
amante e mãe ao mesmo tempo, uma imagem de Isthar, a deusa
pagã
das cidades. Isto
é comprovado pela minuciosa comparação
da Sabedoria
com determinadas árvores tais como o cedro, a palmeira, o
terebinto, a
oliveira, o cipreste etc. Todas
estas
árvores são consideradas desde tempos imemoriais
como símbolos da deusa-mãe e
da deusa do amor. Junto ao seu altar, em um lugar elevado, havia uma
árvore
sagrada.
No Antigo Testamento, os carvalhos e terebintos são
considerados como árvores oraculares. Deus
ou um Anjo de Deus aparece nas árvores ou em suas
proximidades.
Davi
consulta o oráculo da amoreira.
A árvore representa igualmente Tammuz (entre os
babilônicos), filho e amante,
assim como Osíris, Adônis, Átis e
Dionísio, os deuses da Ásia posterior que
morreram prematuramente. Todos estes atributos simbólicos aparecem
também no Cântico dos Cânticos, onde
caracterizam ao mesmo tempo o Sponsus e a Sponsa. A vinha, a videira, a
uva, a
floração das vinhas desempenham um papel
considerável nesse poema. O amado é
como uma macieira. Dos montes
(lugares de culto da deusa-mãe) é que deve
descer a bem-amada, bem como das tocas dos leões e dos
leopardos; seu
“ventre forma um bosque de romãs com toda
espécie de frutas deliciosas, com
cipreste... nardo e açafrão, canela e cinamomo...
mirras e aloés, justamente os
bálsamos mais seletos”. Suas mãos
“destilam mirra” (Adonis nasceu da mirra!).
À
semelhança do Espírito Santo, a sabedoria
é dada a todos os eleitos de Deus. Este é um
ponto em que, mais tarde, se
apoiará a doutrina do Paráclito.
613
No
livro da Sabedoria de Salomão, apócrifo de
época bastante posterior (100-50
aC.), a natureza pneumática da Sofia e seu
caráter de plasmadora do universo se
projetam de modo ainda mais claro como “maia”. “E,
de fato, a Sabedoria é um
espírito amigo dos homens”, a
“artífice de todas as coisas”.
“Existe nela um
espírito santo intelectivo”, uma
“exalação do poder divino”,
um “eflúvio da
glória do Todo-Poderoso”, um “resplendor
da luz eterna, um reflexo da divina
obra”, um ser constituído de matéria
sutil, que tudo penetra com sua presença.
Está em
íntima reunião com Deus e o Senhor de todas as
coisas a ama. “Quem
mais do que a sabedoria é a artífice de todos os
seres?” É enviada do céu e do
trono da glória como uma espécie de
“Espírito Santo”. Na qualidade de
“Psichopompos” ela conduz as almas e lhes assegura
a imortalidade.
614
O
livro da sabedoria é enfático em
relação à justiça de Deus e
não é sem uma
intenção pragmática que se arrisca a
pousar em um ramo tão frágil, quando
afirma: “A justiça é imortal, mas os
ímpios chamam a morte com os gestos e a
voz”. Mas eis o que dizem os ímpios e injustos:
“Oprimimos
o justo
pobre...
.................................................
Que a nossa força
seja o critério da justiça, pois o
que é fraco se demonstra inútil.
Armemos ciladas ao justo.
..................................................
Ele nos acusa de transgredir
a lei
e nos invectiva por causa de
nossos desregramentos.
Glorias-se de possuir o
conhecimento de Deus,
e se chama a si mesmo de
servo do senhor.
Tornou-se para
nós uma censura aos nossos pensamentos.
Ponhamo-lo à
prova com ultrajes e torturas,
a fim de conhecermos sua
doçura
E experimentarmos sua
paciência nos sofrimentos”.
615
Onde foi parar aquilo que
líamos à pouco: “E o Senhor
disse a Satanás: Reparaste no meu servo Jó, que
não há outro igual sobre a face
da terra, um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se
afasta do mal.
Persevera em sua integridade, apesar de me teres instigado contra ele,
para
aniquila-lo sem motivo?” “A sabedoria vale mais do
que a força”, diz o
Eclesiastes.
616
Certamente não
por mera inadvertência nem por falta de
consciência, mas por um motivo profundo, que o livro da
Sabedoria toca aqui no
ponto sensível do problema. E só
poderíamos compreendê-los se
conseguíssemos
descobrir qual é o tipo de relacionamento que o livro de
Jó mantém
relativamente à mudança, cronologicamente bem
próxima, advinda no status de
Javé, ou seja, o aparecimento da Sofia. Não se
trata absolutamente de uma
reflexão histórico literária, mas,
pelo contrário, do destino de Javé presente
na vida do homem. Sabemos pelas antigas escrituras que o drama divino
se passa
entre Deus e seu povo, que lhe foi confiado como uma mulher, a Ele que
é a
“dynamis” [a força] divina e vela
ciosamente pelo sua felicidade. Um caso
específico é Jó, cuja fidelidade se
acha submetida a uma prova cruel. Como já
lembramos anteriormente, Javé
cede
com espantosa facilidade às
insinuações de Satanás.
Se confiasse
inteiramente em Jó, nada mais lógico do que
tomá-lo sob sua proteção,
desmascarando
o caluniador malévolo e fazendo-o pagar duramente pela
difamação do fiel
servidor de Deus. Mas
Javé não pensa
em nada disto, nem sequer depois de ter sido comprovada a
inocência de Jó. Não
se ouve uma palavra de censura ou de desaprovação
ao procedimento de Satanás.
Diante disto, é
impossível não
duvidar da conivência de Javé.
Sua disposição em abandonar Jó
à ação
criminosa de Satanás revela que ele duvida de Jó,
justamente por
sua tendência de projetar a própria
infidelidade em um bode expiatório.
Suspeita-se, com efeito, que Ele
se prepara para afrouxar os laços
matrimoniais com Israel,
mas dissimulando a si mesmo tal intenção. A
infidelidade que ele pressente, não sabe bem onde, o leva a
descobrir o infiel
com a ajuda de Satanás, e o descobre justamente na pessoa
mais fiel entre os
fiéis que é então submetido a uma
provação dolorosa.
Javé
nem sequer tem mais certeza de sua própria fidelidade.
617
Nessa mesma
ocasião, ou um
pouco mais tarde, torna-se notório o que acaba de acontecer:
Ele se recorda de
um ser feminino que não lhe é menos
agradável do que aos homens, amiga e
companheira desde tempos imemoriais, primogênita de toda a
criação, resplendor
sem mácula de sua glória desde toda eternidade e
artífice da obra da criação;
ela é muito mais próxima e íntima ao
seu coração do que os descendentes tardios
do Protoplastes (o homem primordial), criados numa fase posterior e
marcada com
o selo da imagem de Deus. Parece que o fundamento da anamnese desta
Sofia é uma
“dira necessitas” [uma necessidade
implacável]: as coisas não podiam continuar
como até então; o
próprio Deus
“justo” não podia mais cometer
injustiças e
“Aquele
que tudo sabe” não podia mais se comprometer com
um homem
inconsciente e despreocupado.
A
auto-reflexão torna-se uma necessidade imperiosa,
e para isto precisa
da Sabedoria.
Javé
é forçado a lembrar-se que de que é
portador de uma natureza absoluta,
pois se
Jó conhece a Deus, este também deve conhecer-se a
si mesmo.
Era impossível que a dupla natureza de Deus se tornasse
notória a todo mundo e
só ficasse oculta a Ele mesmo. Quem
conhece a Deus age sobre Ele.
A
fracassada tentativa de arruinar Jó provocou uma
transformação em Deus.
618
Partindo das
alusões
contidas na Sagrada Escritura, procuraremos agora reconstituir aquilo
que se
seguiu a esta transformação de Deus. Para isto,
devemos retornar ao início do
Gênesis, ou mais precisamente ao homem primitivo
“ante lapsum” [antes da
queda]. Este, na sua qualidade de Adão e com ajuda do
Criador, produziu Eva de
seu próprio lado, como sua equivalente feminina, do mesmo
modo que o Criador
formara o Adão hermafrodita da matéria-prima
primordial, e juntamente com ele a
parte da humanidade portadora da semelhança com Deus que
é Israel. Numa espécie
de correspondência, estava determinado que o primeiro filho
de Adão fosse
criminoso e homicida na presença do Senhor (à
semelhança de Satanás),
repetindo-se, aqui na terra, o prólogo que já
realizara no céu. Não é
difícil
imaginar que aqui reside a razão profunda pela qual
Javé proporciona proteção
especial a Caim; afinal de contas, ele nada mais é do que
uma cópia fiel de
Satanás em escala reduzida. Mas nada se diz em
relação a um modelo de Abel,
prematuramente desaparecido, que Deus preferia a Caim, o agricultor
progressista, provavelmente instruído por um anjo de
Satanás. Talvez se
tratasse de um outro filho de Deus, de natureza mais conservadora do
que
Satanás, não um andarilho partidário
de idéias novas e tenebrosas, mas alguém
ligado ao Pai por um amor filial, sem alimentar outras
idéias senão as
paternas, e sem sair do círculo intimo da economia celeste.
Daí talvez a razão
de que sua idéia terrestre – Abel –
não demorasse em “escapar deste mundo
perverso” (para usarmos a linguagem do livro da Sabedoria)
voltando para o Pai,
ao passo que Caim teria que provar ao longo de sua existência
terrena a
maldição provocada, de um lado por seu
caráter progressista, e de outro, por
sua inferioridade.
619
Se o primeiro pai
Adão traz
a imagem do Criador, o seu filho Caim traz certamente a imagem do filho
de
Deus, Satanás, e por isso existem fundados motivos para
admitirmos que o
favorito de Deus, Abel, também tinha seu equivalente num
lugar supraceleste. Os
primeiros incidentes graves ocorridos
já de início em uma criação
aparentemente bem sucedida e satisfatória, ou seja,
a queda original e o fratricídio nos põem de
sobreaviso;
lembramo-nos
espontaneamente que a situação inicial, isto
é, aquela em que o Espírito de
Deus pousava sobre o abismo desolado, fecundando-o, dificilmente
desembocaria
num resultado plenamente satisfatório. O
próprio Criador que achava boa sua
obra ao término de um dos dias, não elogiou a que
realizara na segunda-feira.
Nessa ocasião, ele não disse uma palavra,
circunstância essa que proporciona um
argumento “ex silentio”. Naquele
dia as águas que estavam em cima foram
separadas das águas que estavam embaixo por meio do
firmamento, agora entre as
duas. É claro que este dualismo não se harmoniza,
não somente então, como
também depois, com o conceito monoteísta, pois
está ligado a uma cisão de
caráter metafísico.
Essa cisão, como no-la ensina a História, sempre
teve
de ser conservada, dissimulada ou mesmo negada. Mas mesmo assim ela
se
impôs: no início , ainda no paraíso,
quando o Criador contrariando o seu plano
de apresentar no último ato de sua obra o homem, como o mais
inteligente de
todos os seres e como o senhor da criação, comete
a absurda incoerência de
criar a serpente que se mostra muito mais sábia e consciente
do que o homem e
como surgida antes dele.
É difícil de
admitir que Javé tenha pregado uma peça desta
natureza a si mesmo.
O
mais provável que aí esteja a mão
de seu filho
Satanás.
Este é um
embusteiro, um desmancha-prazeres, e se delicia em provocar incidentes
desagradáveis. É verdade que Javé
criara os répteis antes de Adão, mas
tratava-se das serpentes comuns e as menos inteligentes dentre os
animais.
Satanás escolheu dentre elas uma serpente arbórea
para dissimular-se atrás de
sua figura. Desde então, espalhou-se o boato de que
a
serpente é o mais espiritual de todos os
animais. Ela se converte repetidamente no símbolo mais
popular do (espírito,
mente, inteligência), tornando-se objeto de
veneração e podendo simbolizar
inclusive o segundo filho de Deus: este é concebido como Logos
redentor do
mundo
(freqüentemente identificado como o nous). Uma saga surgida
posteriormente
afirmava que a serpente do paraíso era Lilith,
a primeira mulher de Adão, com a qual ele gerou o
exército dos demônios. Esta
saga admitia também uma trapaça, que dificilmente
estaria nos planos do Criador
do mundo, pois a Sagrada Escritura só atribui uma mulher
legítima a Adão.
Estranho, porém, é o fato de que na
tradição primitiva o homem, que constitui a
imagem de Deus, também tenha duas mulheres, como o seu
protótipo celeste. Dado
que Deus se acha legitimamente ligado a sua esposa que é
Israel, embora
possuindo um pneuma feminino como companheira íntima,
é fácil concluir que Adão
teve uma primeira mulher, Lilith (a filha ou
emanação de Satanás),
correspondendo a uma Sofia satânica. Mas Eva corresponderia
ao povo de Israel.
Naturalmente não sabemos a razão pela qual
só mais tarde se verificou que a
“ruah Eloim”, o “Espírito de
Deus”, não é somente de natureza
feminina, como
também possui uma existência mais ou menos
autônoma ao lado de Deus, e que
existia uma relação entre Javé e a
Sofia bem antes de seu conúbio com Israel.
Desconhecemos também o motivo pelo qual nas
tradições mais antigas perdeu-se a
lembrança desta primeira aliança.
Aliás, somente muito mais tarde se fala de
uma relação escabrosa entre Adão e
Lilith. É totalmente impossível saber se Eva
foi uma esposa incômoda para Adão, como o era para
Javé o povo que vivia, por
assim dizer, “flertando” com a infidelidade. De
qualquer maneira, a vida de
família dos primeiros pais não é feita
somente de alegria: seus dois primeiros
filhos representam o par de irmãos inimigos, pois nessa
época ainda se
realizavam os temas mitológicos. (Nos dias de hoje isto
parece chocante, e
quando tal ocorre sua existência é negada). Os
pais podem compartilhar o fator
hereditário comprometedor. Adão deve lembrar-se
unicamente de sua princesa demoníaca,
e Eva não deve esquecer-se de que foi a primeira a ceder
à tentação da
serpente. O interrmezzo Caim-Abel, do mesmo modo que a queda, quase
não foi
registrado na lista dos objetos perfeitos da
criação. É lícito tirar
esta
conclusão, pois parece que o próprio
Javé não foi informado dos incidentes
acima referidos. Disto se depreende, como ocorrerá mais
tarde, a suspeita de
que a onisciência de Javé não era
concludente, ou seja, que Javé não se
lembrara
de seu saber universal e por
isso fora surpreendido pelos resultados de sua obra. Podemos observar
igualmente o mesmo fenômeno por parte do homem todas as vezes
que ele não pode
deixar de sentir e viver a própria
emoção. Não podemos negar que um
acesso de
raiva ou uma onde de tristeza tem lá os seus encantos
secretos. Se não fosse
assim, a maioria dos homens já teria conquistado alguma
sabedoria.
620
Partindo destes fatos,
talvez consigamos compreender um pouco melhor o que aconteceu a
Jó. No estado
pleromático ou de Bardo (como chamam os tibetanos), o que
predomina é um jogo
cósmico perfeito; mas com a criação,
isto é, com a passagem do mundo para uma
história distinta que se desenrola no tempo e no
espaço, os acontecimentos
começam a se atritar e a colidir uns com os outros.
Acobertado e protegido
pelas dobras do manto divino, Satanás coloca acentos
corretos, e sob certos
aspectos também errados, ora aqui, ora acolá,
resultando disso complicações que
aparentemente não estavam no plano do Criador e que portanto causavam
surpresas. Enquanto as criaturas
inconscientes como os animais irracionais, as plantas, os cristais
funcionam
satisfatoriamente (até onde nos é dado saber) há
no homem alguma coisa que sempre vai mal.
É verdade que
no início sua consciência não era muito
superior à dos animais, razão pela qual
seu livre arbítrio também se revela extremamente
limitado. Mas Satanás se
interessa por ele, experimenta-o e o induz a tornar-se independente,
enquanto
seus anjos lhe ensinam as ciências e as artes até
então reservadas à
perfeição
do pleroma. (Naquela época Satanás já
teria merecido o nome de “Lúcifer”!) As
extravagâncias bizarras e imprevistas dos homens provocam os
afetos de Javé,
fazendo-o enredar-se na própria
criação. As intervenções
divinas se tornam
imperiosamente necessárias. Mas todas elas infelizmente tem
um êxito meramente
passageiro, e nem mesmo o castigo draconiano do afogamento de todos os
seres
vivos (com exceção dos eleitos) e do qual,
segundo o velho Joham Jakob
Scheuchzer, nem mesmo os peixes escaparam (como atestam os restos
fósseis),
teve efeito duradouro. A criação aparece
infectada como
sempre. Estranho
é que Javé sempre procure as causas deste
fracasso no homem que aparentemente
não quer obedecer-lhe e jamais no seu filho, o pai de todos
os enganos.
Esta orientação errônea não
senão exacerbar a sua natureza já de
“per si”
irritadiça, de modo que o temor de Deus se transforma em
principio entre os
homens, e é considerado até mesmo como
início de toda sabedoria. Enquanto os
homens se preparam, sob esta severa disciplina, para expandir sua
consciência
graças à aquisição de um
certo grau de sabedoria, ou seja, de prudência e
ponderação, a evolução
histórica nos mostra claramente que Javé perde de
vista
a convivência pleromática que mantinha com Sofia
desde os dias da criação. Em
lugar dela surge a aliança com o povo eleito, o qual
é impelido então a
revestir-se do papel feminino. O “povo” daquela
época era constituído por uma
sociedade patriarcal de natureza masculina, na qual a mulher tinha
apenas
importância secundária. Por este motivo, o
matrimônio de Deus com Israel foi um
assunto de caráter essencialmente masculino, como era por
exemplo a fundação da
“polis” (quase na mesma época). A
inferioridade da mulher era um ponto
pacífico. A mulher era considerada mais imperfeita do que o
homem, como podemos
ver pela facilidade com Eva cedeu diante das
insinuações da serpente no
paraíso. A perfeição
é um
“desideratum” masculino, ao passo que a mulher
tende, pela própria natureza,
para a integralidade.
De fato, ainda
hoje o homem consegue sustentar uma perfeição
relativa, de modo mais adequado e
por mais tempo, ao passo que esta (a perfeição
relativa) não é conveniente para
a mulher, podendo inclusive ser-lhe perigosa. Quando a mulher procura a
perfeição, está se esquecendo do seu
papel complementar em relação a essa
perfeição, isto é,
negligência a(e) integralidade. Esta, embora imperfeita e si
mesma, constitui a contrapartida tão necessária
à perfeição. De fato, da mesma
forma que a integralidade é sempre imperfeita, a
perfeição também é
incompleta
e por isto constitui um estado final terrivelmente estéril
(será??). “Ex
perfecto nihil fit” [Nada se pode fazer com o que
já está perfeito], dizem os
velhos mestres, ao passo que o “imperfectum”
[inacabado] traz dentro de si os
germes de um aperfeiçoamento futuro. O perfeccionismo
termina sempre em um beco
sem saída, ao passo que a integralidade carece somente de
valores seletivos.
621
O
matrimônio celebrado com Israel tem por motivo fundamental um
propósito perfeccionista
de Javé. Isto exclui de antemão aquelas
relações que poderíamos denominar de
“eros”. A
ausência deste “eros”, ou seja, da
relação de valor, surge com
suficiente clareza na figura de Jó:
o grande paradigma da criação por
excelência é um monstro e não um homem
(bem entendido!). Javé
não tem o eros,
não possui nenhuma
relação com o homem,
mas apenas com um fim para o
qual o homem deve cooperar. Mas
nada disso impede que Ele seja ciumento e
desconfiado, como só acontece com um marido. Mas Ele
só pensa em seu projeto
e nunca no homem em si.
622
A
fidelidade do povo torna-se tanto mais
importante, quanto mais Javé se esquece da Sabedoria.
Mas o povo
volta
sempre a cair na
infidelidade,
apesar das inúmeras demonstrações de
favor por parte de Javé.
Este
comportamento, naturalmente, não
é
apto a
aplacar
o ciúme a
desconfiança de Javé.
Por isso a
insinuação de Satanás cai em
terreno fértil, ao instilar no ouvido paterno a
dúvida a respeito da fidelidade
de Jó. Apesar de
estar convencido da fidelidade deste último, Javé
não
hesita em dar o seu assentimento aos piores tipos de tortura contra o
seu
servidor. Sentimos faltar aqui
aquela “filantropia” da Sofia, conhecida em
outras ocasiões. O próprio Jó anseia
pela sabedoria que é impossível encontrar.
623
Jó
representa o ponto culminante
desta evolução escabrosa.
Ele
corporifica,
em sua função de paradigma, uma
idéia que estava
amadurecendo no homem de então,
uma idéia
perigosa e sumamente
exigente em relação à
sabedoria dos deuses e dos homens.
Jó se dá plenamente conta destas
exigências, mas, como podemos ver, nada sabe a respeito da
Sofia que é coeterna
a Deus. Como os homens se sentem entregues ao arbítrio de
Javé, têm necessidade
da Sabedoria, mas isto não ocorre com o próprio
Javé, que até então só
depara
com a nulidade e a pequenez do homem. Mas o drama de Jó
altera fundamentalmente
esta situação. Javé
se defronta aqui com o homem paciente, que persiste em seu
direito até
se ver obrigado a ceder à
força bruta.
Ele
viu o semblante de Deus e sua
dualidade inconsciente.
Deus tornou-se conhecido, e este conhecimento
continuou a agir não só em Javé como
também nos homens; e assim foram os homens
dos últimos séculos antes de Cristo que,
após um rápido contato com a Sofia preexistente
e compensando Javé e sua atitude, realizaram ao mesmo tempo
a anamnese da
Sabedoria.. Esta última aparece sob uma forma extremamente
personificada,
expressando com isto sua autonomia; apresenta-se aos homens como
auxiliadora
amorosa e defensora junto ao trono de Jesus e lhes mostra o semblante
luminoso,
bom, justo e amável de seu Deus.
624
Quando o paraíso,
planejado como algo perfeito, foi
comprometido pelas artimanhas de Satanás,
Javé expulsou
Adão e Eva, que
criara respectivamente como a imagem de
sua essência masculina e de sua
emanação feminina, para
o mundo das cascas,
o mundo intermediário situado fora do
paraíso.
Não se sabe o que em Eva representa a Sofia ou se esta se
refere a Lilith. Adão tem a prioridade sob todos os
aspectos. Eva foi extraída
do seu lado numa fase posterior. Por esta razão ela vem em
segundo lugar. Aludo
a esta particularidade que encontramos em Gênesis, por que o
reaparecimento da
Sofia no âmbito divino indica acontecimentos da
criação que estavam por vir.
Ela é a “artífice”: realiza o
pensamento de Deus, dando-lhe uma forma material,
o que é uma prerrogativa da essência feminina. Sua
coexistência com Javé indica
o hierógamos eterno, do qual foram gerados e nasceram os
mundos. Está prestes a
se operar uma grande mudança: Deus quer
renovar no ministério das núpcias celestes (como
faziam sempre os
principais deuses egípcios) e quer
tornar-se homem. Parece que Ele
se serve do modelo egípcio da
encarnação do
deus em faraó, modelo que, por sua vez, é uma
pura e simples imitação do
hierógamos pleromático eterno. Mas não
seria correto afirmar que este arquétipo
se repete como que mecanicamente. Até onde é
possível saber, tal coisa jamais
acontece, porque as situações
arquetípicas só se repetem quando submetidas a
estímulos especiais. O motivo propriamente dito da
encarnação deve ser
procurado na confrontação de Javé com
Jó. Voltaremos ainda mais demoradamente a
esta questão.
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