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Pg.25
Cap.I
Representações
Crença no papel
que
o indivíduo está representando
Quando
um individuo desempenha um papel, implicitamente solicita de seus
observadores
que levem a sério a impressão sustentada perante eles.
Pede-lhes para
acreditarem que o personagem que veem no momento possui os atributos
que
aparenta possuir... de um modo geral , as coisas são o que
parecem ser... Será
conveniente iniciar o estudo das representações
invertendo a questão e
examinando a própria crença do indivíduo na
impressão de realidade que tenta
dar àqueles entre os quais se encontra.
Num
dos extremos, encontramos o ator que pode estar inteiramente
compenetrado de
seu próprio número. Pode estar sinceramente convencido...
No
outro extremo verificamos que o ator pode não estar
completamente compenetrado
de sua própria prática. Esta possibilidade é
compreensível, pois ninguém está
em melhor posição para observar o número da pessoa
que o executa...
Quando o
indivíduo não crê em sua
própria atuação e não se interessa em
ultima analise pelo que seu público
acredita, podemos chama-lo de cínico,
reservando o termo “sincero” para os
que acreditam na impressão criada por sua
representação. Fique entendido que o
cínico, com todo o seu descompromisso profissional, pode obter
prazeres não
profissionais da sua pantomina, experimentando uma espécie de
jubilosa agressão
espiritual pelo fato de poder brincar à vontade com alguma coisa
que o público
deve levar a sério.
Pg.26
Não
queremos dizer com isto, por certo, que todos os atores cínicos
estejam
interessados em iludir sua plateia, tendo por finalidade o que se chama
de
“interesse pessoal” ou lucro privado. Um indivíduo
cínico pode enganar o
público que julga ser o próprio bem deste, ou pelo bem da
comunidade, etc... os
vendedores de calçados que vendem um sapato de nº
diferente, mas que dá no pé
da freguesa e dizem a ela que é do tamanho pedido, todos esses
são
profissionais cínicos, cujo público não lhes
permitirá serem sinceros.
Pg.27
...
Indiquei
dois extremos: um indivíduo pode estar
convencido do seu ato ou ser cínico a respeito dele. Estes
extremos são
algo mais do que simplesmente as extremidades de um contínuo.
Cada um dá ao
indivíduo uma posição que tem suas próprias
garantias e defesas, e por isso
haverá a tendência, para quem viajou próximo a um
desses polos, de completar a
viagem. Começando com a falta de crença interior no papel
de outrem, o
indivíduo pode seguir o movimento natural descrito por Park:
|
Não
é provavelmente um mero acidente
histórico que a palavra “pessoa”, em sua
acepção primeira, queira dizer
mascara. Mas, antes, o reconhecimento de fato que todo homem
está sempre e em
todo o lugar, mais ou menos conscientemente representando um papel
[...] É
nesses papéis que nos conhecemos uns aos outros; é nesses
papeis que nos
conhecemos a nós mesmos 21.
Em
certo sentido, e na medida em que
esta mascara representa a concepção que formamos de
nós mesmos – o papel que
nos esforçamos por chegar a viver –, esta mascara é
o nosso mais verdadeiro eu,
aquilo que gostaríamos de ser. Ao final a
concepção que temos de nosso papel
torna-se a segunda natureza e parte integral de nossa personalidade.
Entramos
num mundo como indivíduos, adquirimos um caráter e nos
tornamos pessoas 22. |
Isso
pode ser ilustrado pela vida comunitária de Shetland. 23 (Estudo
da Ilha de
Shetland, N.R.) Nos últimos quatro ou cinco anos, o hotel de
turismo da ilha
pertencia a um casal de origem agrária, que o dirigia. Desde
o início os
proprietários foram obrigados a deixar de lado suas
próprias ideias a respeito
do modo como a vida deve ser levada, exibindo no hotel toda a sorte de
serviços
e comodidades de classe média. Ultimamente, porém,
parece que os
proprietários se tornaram menos cínicos a respeito da
representação que
encenavam. Eles próprios estão se transformando em
pessoas da classe média, e
cada vez mais enamorados dos atributos que seus clientes lhes impunham.
Pg.28
...
Conforme
dissemos, o ciclo da descrença à crença pode ser
seguido em sentido oposto,
começando com a convicção ou
aspiração insegura e terminando em cinismo. As
profissões que o público considera com temor religioso
frequentemente permitem
.. não por causa de uma compreensão lenta de estarem
iludindo seu público...
mas porque podem se servir deste cinismo como meio de isolarem sua
personalidade íntima do contato com o público...Assim, os
estudantes de
medicina...Durante os primeiros dois anos, os estudantes de descobrem
que o
interesse pela medicina deve ser abandonado para que possam dedicar
todo o
tempo à tarefa de aprender como passar nos exames. Nos dois anos
seguintes,
estão demasiados ocupados em aprender a conhecer as
doenças para mostrar muito
interesse pelas pessoas que estão doentes. Só depois que
o curso medico
terminou é que seus primitivos ideais a respeito do trabalho
médico podem ser
reafirmados...
... Outra mistura de
cinismo e
crença é indicada no estudo de Kroeber sobre o xamanismo:
Pg.29
Em
seguida, há a velha questão da
fraude. Provavelmente a maioria dos xamãs ou
feiticeiros-médicos, pelo mundo
afora, prestam socorro usando de prestidigitações do
tratamento e
principalmente nas demonstrações de poder. Esta
escamoteação é muitas vezes
deliberada... A atitude... parece inclinar-se para uma piedosa
fraude... mesmo
os curandeiros que sabem estra cometendo uma fraude, apesar disso
acreditam
também em seus poderes... nos de outros xamãs.
Consultam-nos quando eles
próprios ou seus filhos estão doentes.25
FACHADA
Venho
usando o termo “representação” para me
referir a toda atividade de um indivíduo
que se passa num período caracterizado por sua presença
contínua diante de um
grupo particular de observadores e que tem sobre estes algum a
influência. Será
conveniente denominar de fachada a parte do desempenho do
indivíduo que
funciona regularmente de forma geral e fixa com o fim de definir a
situação
para os que observam a representação. Fachada...
é o equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou
inconscientemente
empregado pelo indivíduo durante sua representação.
Para fins preliminares
será conveniente distinguir e rotular
aquelas que parecem ser as partes
padronizadas da fachada.
Primeiro,
há o “cenário”, compreendendo a
mobília, a decoração, a disposição
física e
outros elementos do pano de fundo que vão constituir o
cenário e os suportes do
palco para o desenrolar da ação humana executada diante,
dentro ou acima dele.
O cenário tende a permanecer na mesma posição,
geograficamente falando, de modo
que aqueles que usem determinado cenário como parte
de sua
representação não possam começar a
atuação até que se tenham colocado no lugar
adequado e devam terminar a representação ao deixa-lo.
Somente em
circunstâncias excepcionais o cenário acompanha os atores.
Vemos isto num
enterro, numa parada cívica e nos cortejos irreais como que se
fazem reis e
rainhas...
Pg.30
...
Pg.31
Se
tomarmos o termo “cenário” como referente às
partes cênicas de equipamento
expressivo, podemos tomar o termo “fachada pessoal” como
relativo aos outros
itens de equipamento expressivo, aqueles que de modo mais íntimo
identificamos
com o próprio ator, e que naturalmente esperamos que o sigam
onde quer que vá.
Entre as partes da fachada pessoal podemos incluir os distintivos da
função ou
da categoria, vestuário, sexo, idade e características
raciais, altura e
aparência; atitude, padrões de linguagem,
expressões faciais, gestos corporais
e coisas semelhantes. Alguns desses veículos de
transmissão de sinais, como as
características raciais, são relativamente fixos e,
dentro de um certo espaço
de tempo, não variam para o indivíduo de uma
situação para outra. Em
contraposição, alguns desses veículos de sinais
são relativamente móveis ou
transitórios, como a expressão facial,
e podem variar, numa representação, de um momento para o
outro.
Às vezes é conveniente dividir os
estímulos
que formam a fachada pessoal em “aparência” e
“maneira”, de acordo com a
função exercida pela informação que esses
estímulos transmitem. Pode-se
chamar de “aparência” aqueles estímulos que
funcionam no momento para nos
revelar o status social do ator.
Tais estímulos nos informam também
sobre o estado ritual temporário do indivíduo, isto
é, se ele está empenhado
numa atividade social formal, trabalho ou recreação
informal... Chamaremos de “maneira”
os estímulos que funcionam no momento para nos informar sobre o
papel de
interação que o ator espera desempenhar na
situação que se aproxima. Assim,
uma maneira arrogante, agressiva pode dar a impressão de que o
ator espera ser
a pessoa que iniciará a interação verbal e
dirigirá o curso dela. Uma maneira
humilde escusatória pode dar a impressão de que o autor
espera seguir o comando
de outros, ou pelo menos que pode ser levado a proceder assim.
Frequentemente esperamos, é claro, uma compatibilidade confirmadora entre aparência
e maneira. Esperamos que as diferenças de
situações sociais entre os
participantes sejam expressas de algum modo por diferenças
congruentes nas indicações dadas de um papel de
interação
esperado. Este tipo de coerência
de fachada pode ser ilustrado pela seguinte
descrição da procissão de
uma mandarim numa cidade chinesa.
Pg.32
|
Vindo
logo atrás... a luxuosa cadeira do mandarim,
transportada por oito carregadores, enche o espaço vazio
da rua. É o prefeito da cidade e praticamente o poder
supremo nela. É um funcionário de aparência ideal, pois
é grande e de aspecto corpulento, ao mesmo tempo que tem
aquele olhar severo e inflexível, que se supõe
indispensável em qualquer magistrado que espere manter
seus súditos em ordem. Tem um aspecto austero e
ameaçador, como se estivesse indo a um campo de
execuções para mandar decapitar algum criminoso. Esse
é o ar que os mandarins assumem quando aparecem em
público. No curso de muitos anos de experiência,
jamais vi algum, do mais alto ao mais inferior, com
sorriso no rosto ou olhar de simpatia para o povo,
enquanto era oficialmente carregado nas ruas.28
|
Mas, evidentemente, aparência e
maneira podem se contradizer uma à outra, como acontece quando
um ator que
parece ser de posição mais elevada que sua plateia age de
maneira
inesperadamente igualitária, íntima ou humilde...
Além
da esperada compatibilidade entre aparência e maneira, esperamos
naturalmente
certa coerência entre ambiente, aparência e maneira. Tal
coerência representa
um tipo ideal que nos fornece o meio de estimular nossa
atenção e nosso
interesse nas exceções... as exceções
à esperada compatibilidade entre
ambiente, aparência e maneira oferecem o sabor picante e o
encanto de muitas
carreiras e o apelo vendável de muitos artigos de revistas...
A
fim de explorar mais completamente as relações entre as
várias partes da
fachada social, será conveniente considerar aqui uma
significativa
característica da informação transmitida pela
fachada, a saber, seu caráter
abstrato e sua generalidade.
Por
mais especializada e singular que seja uma prática, sua fachada
social, com
algumas exceções, tenderá a reivindicar fatos que
possam ser igualmente
reivindicados e defendidos por outras práticas algo diferentes.
Pg.33
Em
vez de ter de
manter um padrão diferente de expectativa e de trato dado em
resposta a cada
ator e representação ligeiramente diferentes, pode
colocar a situação numa
ampla categoria em torno da qual lhe é fácil mobilizar
sua experiência anterior
e seu pensamento estereotipado. Os observadores, então,
só precisam estar
familiarizados com um pequeno vocabulário de fachada, de
fácil manejo portanto,
e saber como responder a elas a fim de se orientarem numa grande
variedade de
situações...
Há razões para se acreditar que a
tendência de apresentar uma grande quantidade de números
diferentes partindo de
um pequeno número de fachadas é uma consequência
natural da organização social...
Pg.34
Além do fato de práticas diferentes
podem empregar a mesma fachada, deve-se observar que uma determinada
fachada
social tende a se tornar institucionalizada em termos das expectativas
estereotipadas abstratas às quais dá lugar e tende a
receber um sentido e uma
estabilidade à parte das tarefas específicas que no
momento são realizadas em
seu nome. A fachada torna-se um “representação
coletiva” e um fato, por
direito próprio.
Quando um ator assume um papel
social estabelecido, geralmente verifica que uma determinada fachada
já foi
estabelecida para esse papel. Quer a investidura no papel tenha sido
primordialmente motivada pelo desejo de desempenhar a mencionada
tarefa, quer
pelo desejo de manter a fachada correspondente, o ator
verificará que deve
fazer ambas as coisas.
Além disso, se o indivíduo assume um
papel que não somente é novo para ele, mas também
não está estabelecido na
sociedade, ou se tenta modificar o conceito em que o papel é
tido,
provavelmente descobrirá a existência de
várias fachadas bem estabelecidas entre as quais tem que
escolher. Desse modo,
quando é dada uma nova fachada a uma tarefa, raramente
verificamos que a
fachada dada é, ela própria, nova.
Desde que as fachadas tendem a ser
selecionadas e não criadas, podemos esperar que surjam
dificuldades quando os
que realizam uma dada tarefa são obrigados a selecionar para si,
uma fachada
adequada dentre muitas diferentes...
Um exemplo interessante do dilema de
escolha de uma fachada apropriada dentre várias não
perfeitamente compatíveis
pode ser encontrado hoje nas organizações médicas
americanas, com respeito à
tarefa de ministrar anestesia. Em alguns hospitais a anestesia ainda
é feita
por enfermeiras por trás da fachada que se permite que as
Pg.35
enfermeiras
tenham nos hospitais, sem levar em conta as tarefas que realizam
– uma fachada
que implica subordinação cerimoniosa aos médicos e
baixo nível de salário. A
fim de estabelecer a anestesiologia como especialidade para
médicos formados,
os profissionais interessados tiveram que defender intensamente a ideia
de que
administrar anestesia é uma tarefa bastante complexa e vital
para justificar
que seja dada aos que executam a recompensa cerimonial e financeira
atribuída
aos médicos. A diferença entre a
fachada mantida por uma enfermeira e a mantida por um médico
é grande; muitas
coisas aceitáveis nas enfermeiras são infra
dignitatem para os médicos. Alguns médicos acham
que uma enfermeira
está “abaixo da categoria” no que se refere à
tarefa de aplicar anestesia, e
que os médicos estão “acima da categoria”. Se
houvesse uma condição social
intermediária entre a enfermeira e o médico, uma
solução mais fácil para o
problema poderia talvez ser encontrada.
Pg.36
Dissemos que a fachada social pode
ser dividida em partes tradicionais tais como cenário,
aparência e maneira, e
que (visto que diferentes práticas regulares podem ser
apresentadas por trás da
mesma fachada) não encontramos um ajustamento perfeito entre o
caráter
específico de uma atuação e o aspecto socializado
geral em que nos aparece...
Assim, um advogado pode conversar com um cliente num ambiente social
que
emprega somente para este fim (ou para um estudo), mas as roupas
adequadas que
usa em tais ocasiões, também as usará com igual
adequação num jantar com
colegas ou no teatro com a esposa. Igualmente, as gravuras penduradas
na parede
e o tapete no chão podem ser encontrados em residências.
Sem dúvida, em
ocasiões de grande cerimônia, o cenário, a maneira
e a aparência podem ser
únicos e específicos, usados somente para
representações de um único tipo de
prática, mas este uso exclusivo de equipamentos de sinais
é a exceção e não
a regra.
REALIZAÇÃO
DRAMÁTICA
Em presença de outros, o indivíduo
geralmente inclui em sua atividade sinais que acentuam e configuram de
modo
impressionante fatos confirmatórios que, sem isso, poderiam
permanecer
despercebidos ou obscuros. Pois se a atividade do indivíduo tem
de tornar-se
significativa para os outros, ele precisa mobiliza-la de modo tal que
expresse,
durante a interação, o que ele
precisa transmitir. De fato pode-se exigir que o ator não
somente expresse
suas pretensas qualidades durante a interação, mas
também o faça durante
uma fração de segundo na interação...
se um árbitro de
Pg.37
beisebol
quer
dar a impressão de que está seguro de seu julgamento,
deve-se abster-se do
momento de pensamento que lhe poderia dar a certeza de sua
decisão. Têm que tomar uma decisão
instantânea de
modo que o público fique certo de que ele está
seguro de seu julgamento.
Note-se que no caso de alguns status sociais a
dramatização não
apresenta problemas, pois alguns dos números instrumentalmente
essenciais para
completar a tarefa central do status
são, ao mesmo tempo, maravilhosamente adaptados, do ponto de
vista da
comunicação, como meios de transmitir vividamente as
qualidades e atributos
pretendidos pelo ator. Os papéis dos lutadores,
cirurgiões, violinistas e
policiais são exemplos disto. Estas atividades permitem uma
autoexpressão tão dramática,
que profissionais exemplares – reais ou falsos – tornam-se
famosos e ocupam
lugar de destaque nas fantasias comercialmente organizadas da
nação.
Pg.38
...
De maneira semelhante, o
proprietário de um estabelecimento de serviço pode achar
difícil dramatizar o
que está sendo feito realmente em favor dos clientes, porque
estes não podem “ver”
os custos gerais do serviço que lhes é prestado. Os donos
de casas funerárias
devem, por conseguinte, pedir muito pelo seu produto extremamente
visível – uma
caixa que foi transformada em esquife...
O problema de dramatizar o próprio
trabalho implica mais do que simplesmente tornar visíveis os
custos
invisíveis... Para fazer uma palestra no rádio que
pareça genuinamente natural,
espontânea e tranquila, o locutor pode ter que planejar seu
“texto” com
esmerado cuidado, ensaiando frase por frase, a fim de imitar o
conteúdo , a
linguagem , o ritmo e a fluência do falar cotidiano...
Pg.39
...
Se alterarmos nosso ponto de
referência por um momento e nos voltarmos de uma determinada
representação para
os indivíduos que a representam podemos considerar um fato
interessante
sobre a sucessão das diferentes práticas para cuja
execução qualquer grupo ou
classe de indivíduos contribui. Quando se examina um grupo ou
classe, vê-se que
seus membros tendem a empenhar-se primordialmente em certas
práticas,
enfatizando menos as outras que executam. Assim, um profissional pode
concordar
em desempenhar um papel muito modesto na rua, numa loja ou em sua casa,
mas na
esfera social que abrange o exercício de sua competência
profissional
preocupar-se-á muito em dar uma demonstração de
eficiência. Ao mobilizar seu
comportamento para fazer uma demonstração, estará
interessado não tanto no
curso completo das diferentes práticas que executa, mas somente
naquela da qual
deriva sua reputação profissional. Foi com base nesse
princípio (?!)
que alguns autores escolheram distinguir grupos
comuns com hábitos aristocráticos (seja qual for seu
status social) daqueles
com características de classe média. O comportamento
aristocrático, diz-se, é aquele que mobiliza
todas as
atividades secundárias da vida, situadas foras das
particularidades sérias de
outras classes, e injeta nessas atividades uma expressão de
dignidade, poder e
alta categoria.
.
|
Por
meio de importantes realizações o jovem nobre é educado
para manter a dignidade de sua classe e tornar-se
merecedor daquela superioridade sobre seus concidadãos,
a que o mérito de seus antepassados o elevou, é pelo
saber, pela diligência, paciência, espírito de
sacrifício ou outra espécie de virtude? |
Pg.40
|
Como
todas as suas palavras, todos os seus gestos, são objeto de
atenção, ele
aprende a levar em consideração habitualmente todas as
circunstâncias do
comportamento comum e estuda a fim de executar todos esses pequenos
deveres com
a mais exata propriedade. Como tem consciência do quanto é
observado e de como
os homens estão dispostos a favorecer todas as suas
inclinações, age, nas
ocasiões mais corriqueiras, com aquela liberdade e
elevação que o pensamento
desta condição naturalmente inspira. Seu ar, suas
maneiras, sua conduta, tudo
marca aquele sentido elegante e gracioso de sua própria
superioridade, que os
nascidos para posições inferiores dificilmente podem
alcançar. Estes são os
estratagemas pelos quais pretende tornar os homens mais facilmente
submissos à
sua autoridade e governar as inclinações deles a seu bel
prazer. E nisto
raramente se desilude. Estes estratagemas, sustentados pela
posição e
preeminência, são geralmente suficientes para governar o
mundo. |
Se
tais virtuoses realmente existem,
proporcionam um grupo conveniente no qual é possível o
estudo das técnicas
pelas quais a atividade é transformada em espetáculo.
IDEALIZAÇÃO
Indicamos,
anteriormente, que a
execução de uma prática apresenta, através
de sua fachada, algumas exigências
um tanto abstratas em relação à audiência...
Isto constitui um dos modos
pelos quais uma representação é
“socializada”; moldada e modificada para
se ajustar à compreensão e às expectativas da
sociedade em que é apresentada...
A noção de que uma representação
apresenta uma concepção idealizada da
situação é, sem dúvida, muito comum. A
opinião de Cooley pode ser tomada como exemplo:
|
Se
nunca tentássemos parecer um pouco melhores do que somos, como
poderíamos
melhorar ou “educar-nos de fora para dentro?” Este mesmo
impulso de mostra ao
mundo um aspecto melhor ou idealizado de
|
Pg.41
|
nós
mesmos encontra uma expressão organizada
nas várias profissões e classes, cada uma das quais
até certo ponto tem um
linguajar convencional ou atitudes próprias, que seus membros
adotam
inconscientemente, na maior parte das vezes, mas que tem o efeito de
uma
conspiração para atuar sobre a credulidade do resto do
mundo... |
Assim, quando o
indivíduo se
apresenta diante dos outros, seu desempenho tenderá a incorporar
e exemplificar
os valores oficialmente reconhecidos pela sociedade e
até realmente mais
do que o comportamento do indivíduo como um todo.
.
Pg.156
Cap.V
A
comunicação Imprópria
Quando
duas equipes se encontram uma com a outra com objetivo de
interação, os membros
da cada uma tendem a sustentar como linha de ação que
eles são o que afirmam
ser; tendem a permanecer a caráter. A familiaridade dos
bastidores é suprimida
para que a inter-relação das poses não entre em
colapso e todos os
participantes encontrem na mesma equipe, por assim dizer, sem deixar de
fora
ninguém que represente para os outros. Cada participante da
interação
geralmente se esforça em conhecer e manter o seu lugar,
sustentando qualquer
equilíbrio de formalidades e informalidades, que tenha sido
estabelecido para a
interação chegando ao ponto mesmo de estender este
tratamento a seus próprios
companheiros de equipe. Ao mesmo tempo cada equipe tende a suprimir
sua cândida
opinião de si mesma e da outra equipe, projetando uma
concepção de si e uma
concepção da outra que é relativamente
aceitável para esta. E, para assegurar que a
comunicação seguirá
pelos estreitos canais estabelecidos, cada equipe está preparada
para ajudar a
outra, tácita e discretamente, a manter a impressão que
está tentando causar.
Certamente,
em momentos de
grande crise,
um novo conjunto de motivos pode se tornar inesperadamente eficiente e
a
distância social estabelecida entre as equipes pode abruptamente
aumentar ou
diminuir. Citaremos um exemplo do estudo sobre um hospital onde, numa
de suas
enfermarias, estava sendo feito um tratamento experimental em
voluntários
portadores de doenças metabólicas pouco conhecidas e nas
quais pouca coisa
podia ser feita. Em face das necessidades da pesquisa imposta aos
pacientes
e do sentimento geral de desalento sobre o prognóstico, a
nítida linha de
separação habitual entre médicos e pacientes foi
atenuada. Os médicos respeitosamente
consultavam os
doentes por longo tempo a respeito de sintomas a ponte de eles se
julgarem em
parte associados à pesquisa. Contudo, de um modo geral,
passada crise, o
anterior consenso de trabalho foi restabelecido...
Da
mesma maneira, durante súbitos rompimentos de uma
representação, e especialmente
Pg.157
nos
momentos em que se descobre
uma identificação equivocada, um
personagem retratado pode momentaneamente desmoronar quando
o ator que se acha por trás do personagem “se esquece de
si”
e deixa escapar uma exclamação não pertencente
à peça. Assim a esposa de
um general norte americano conta um incidente ocorrido quando ela e seu
marido
vestidos sem cerimônia davam um passeio juntos numa noite de
verão, num jipe
aberto do exército:
|
O
próximo som que ouvimos foi o silvo dos freios, quando um jipe
da polícia
militar empurrou-nos para a margem da estrada. Os soldados desceram e
se
dirigiram ao nosso jipe.
“O
senhor apanhou uma viatura oficial e leva uma senhora nele”, o
mais violento
dos soldados disse brusca e asperamente. “Deixe-me ver sua
autorização”.
No
exército, é claro, ninguém pensaria em dirigir uma
viatura militar sem
autorização, que diga quem permitiu o uso do jipe. O
soldado estava sendo muito
rigoroso e prosseguiu pedindo a carteira de motorista de Wayne, outro
documento
militar que deveria ter.
Evidentemente
ele não tinha nenhum dos dois papéis. Mas tinha seu
boné ultramarino de quatro
estrelas no banco do lado dele. Atirou-o na cabeça, sem dizer
uma palavra, mas
firmemente enquanto os soldados da Polícia Militar desencavavam
no seu jipe os
formulários nos quais planejavam responsabilizar Wayne por todas
as violações
do manual. Apanharam os formulários, voltaram-se para nós
e imediatamente
“caíram duros”, Boquiabertos.
Quatro
estrelas!
Antes
que pudesse refletir, o primeiro soldado, que tinha feito toda a
falação,
deixou escapar. “Meu Deus!” e então, realmente
assustado, bateu com a mão na
boca, fez um vigoroso esforço para se recobrar tanto quanto
possível de uma
situação difícil, dizendo: “Não o
reconheci, senhor”. |
Em
nossa sociedade anglo-americana, observa-se que “Meu
Deus!”, “Por Deus!” ou
expressões faciais equivalentes servem muitas vezes como
confissão do ator, de
que momentaneamente se colocou numa posição na qual
é evidente que nenhum
personagem é capaz de se sustentar. Estas
expressões representam uma forma extrema de
comunicação imprópria, e no entanto
tornaram-se tão convencionais que quase constituem um pedido
encenado de
perdão, baseado em que somos maus atores.
Pg.158
Estas
crises, porém são excepcionais; o
consenso funcional e a manutenção pública de
posição é a regra. Mas,... há
correntes de comunicação mais comuns e menos aparentes...
transmitidas de
maneira sub-reptícia...(que podem) ... contradizer e
desacreditar a definição
da situação oficialmente projetada pelos participantes.
Quando se estuda um
estabelecimento social, descobre-se quase sempre estes sentimentos
discrepantes. Estes demonstram que, embora um ator possa agir como se
sua
resposta numa situação fosse imediata, impensada e
espontânea, embora ele próprio talvez pense
se isso o
que acontece, ainda assim sempre haverá a possibilidade de
surgirem
situações nas quais transmitirá a uma ou duas
pessoas presentes a
compreensão de que o espetáculo que
está executando é única e
exclusivamente um espetáculo.
A presença portanto da comunicação
imprópria fornece um argumento para a
conveniência de estudar as representações em termos
de equipes e de rupturas
potenciais da interação. É preciso
repetir que não afirmamos que as comunicações
sub-reptícias sejam o melhor
reflexo da realidade verdadeira do que as comunicações
oficiais, com as quais
são incompatíveis. A questão consiste em que o
ator está tipicamente
envolvido em ambas e este envolvimento duplo deve ser cuidadosamente
dirigido,
para que as projeções oficiais não sejam
desacreditadas. Entre as muitas formas
de comunicação nas quais o ator se empenha, e que
transmitem informação
incompatível com a impressão oficialmente mantida durante
a interação,
consideraremos quatro tipos: o
tratamento dos ausentes, a conversa no
palco, o conluio de equipes e as ações de reajustamento.
O
TRATAMENTO DOS AUSENTES
Quando
os membros de uma equipe vão para os bastidores, onde a plateia
não pode vê-los
nem ouvi-los, geralmente depreciam-na de uma forma incompatível
com o
tratamento que lhe é dispensado frente a frente. No
comércio da prestação de
serviços, por exemplo, os fregueses que são tratados
respeitosamente durante a
representação quase sempre são ridicularizados,
comentados maliciosamente,
caricaturados, amaldiçoados e criticados quando os atores
estão nos bastidores.
Aqui também podem se arquitetados planos para
“tapeá-los”, empregar “ardis para
levar vantagem” contra eles ou acalmá-los. Assim, na
cozinha do Hotel Shetland
os hóspedes
Pg.159
eram
chamados por apelidos
depreciativos; sua fala, tom de voz e mecanismo eram imitados com
precisão
motivando brincadeiras ou críticas; seus defeitos, fraquezas e status social eram discutidos com
cuidado erudito e clínico; suas exigências dos mais
insignificantes serviços
despertavam gestos faciais grotescos, uma vez longe das vistas e dos
ouvidos.
Este desrespeito era amplamente compensado pelos hóspedes quando
em seu próprio
círculo, ocasião em que os empregados eram descritos como
porcos preguiçosos,
tipos primitivos que ali vegetavam, animais famintos por dinheiro. No
entanto,
quando falavam diretamente uns com os outros, empregados e
hóspedes mostravam
mútuo respeito e alguma afabilidade. Igualmente,
há
muito poucas relações de amizade nas quais não
exista alguma ocasião
em que as atitudes expressas sobre o amigo, na sua ausência,
são grosseiramente
incompatíveis com as expressas na presença dele.
Às
vezes, certamente, ocorre o inverso da depreciação, e os
atores elogiam a
plateia de um modo que não lhe seria permitido fazer na
presença real dela. Mas
a detração secreta parece ser muito mais comum que o
elogio secreto, talvez
porque sirva para manter a solidariedade da equipe demostrando
mútua
consideração às custas dos ausentes...
|