Projeto de Pesquisa:

                            
"Brazil" a Geopolítica da Corrupção
 

           Bibliografia fichada         


 

GOFFMAN, Erving.
A Representação do Eu na Vida Cotidiana.
Petrópolis: Editora Vozes LTDA. 1975. 
 

Pg.25

 Cap.I

Representações
 
Crença no papel que o indivíduo está representando
Quando um individuo desempenha um papel, implicitamente solicita de seus observadores que levem a sério a impressão sustentada perante eles. Pede-lhes para acreditarem que o personagem que veem no momento possui os atributos que aparenta possuir... de um modo geral , as coisas são o que parecem ser... Será conveniente iniciar o estudo das representações invertendo a questão e examinando a própria crença do indivíduo na impressão de realidade que tenta dar àqueles entre os quais se encontra.
            Num dos extremos, encontramos o ator que pode estar inteiramente compenetrado de seu próprio número. Pode estar sinceramente convencido...
No outro extremo verificamos que o ator pode não estar completamente compenetrado de sua própria prática. Esta possibilidade é compreensível, pois ninguém está em melhor posição para observar o número da pessoa que o executa... 
Quando o indivíduo não crê em sua própria atuação e não se interessa em ultima analise pelo que seu público acredita, podemos chama-lo de cínico, reservando o termo “sincero” para os que acreditam na impressão criada por sua representação. Fique entendido que o cínico, com todo o seu descompromisso profissional, pode obter prazeres não profissionais da sua pantomina, experimentando uma espécie de jubilosa agressão espiritual pelo fato de poder brincar à vontade com alguma coisa que o público deve levar a sério.

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             Não queremos dizer com isto, por certo, que todos os atores cínicos estejam interessados em iludir sua plateia, tendo por finalidade o que se chama de “interesse pessoal” ou lucro privado. Um indivíduo cínico pode enganar o público que julga ser o próprio bem deste, ou pelo bem da comunidade, etc... os vendedores de calçados que vendem um sapato de nº diferente, mas que dá no pé da freguesa e dizem a ela que é do tamanho pedido, todos esses são profissionais cínicos, cujo público não lhes permitirá serem sinceros.

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            Indiquei dois extremos: um indivíduo pode estar convencido do seu ato ou ser cínico a respeito dele. Estes extremos são algo mais do que simplesmente as extremidades de um contínuo. Cada um dá ao indivíduo uma posição que tem suas próprias garantias e defesas, e por isso haverá a tendência, para quem viajou próximo a um desses polos, de completar a viagem. Começando com a falta de crença interior no papel de outrem, o indivíduo pode seguir o movimento natural descrito por Park:

 

Não é provavelmente um mero acidente histórico que a palavra “pessoa”, em sua acepção primeira, queira dizer mascara. Mas, antes, o reconhecimento de fato que todo homem está sempre e em todo o lugar, mais ou menos conscientemente representando um papel [...] É nesses papéis que nos conhecemos uns aos outros; é nesses papeis que nos conhecemos a nós mesmos 21.

Em certo sentido, e na medida em que esta mascara representa a concepção que formamos de nós mesmos – o papel que nos esforçamos por chegar a viver –, esta mascara é o nosso mais verdadeiro eu, aquilo que gostaríamos de ser. Ao final a concepção que temos de nosso papel torna-se a segunda natureza e parte integral de nossa personalidade. Entramos num mundo como indivíduos, adquirimos um caráter e nos tornamos pessoas 22.

 

             Isso pode ser ilustrado pela vida comunitária de Shetland. 23 (Estudo da Ilha de Shetland, N.R.) Nos últimos quatro ou cinco anos, o hotel de turismo da ilha pertencia a um casal de origem agrária, que o dirigia. Desde o início os proprietários foram obrigados a deixar de lado suas próprias ideias a respeito do modo como a vida deve ser levada, exibindo no hotel toda a sorte de serviços e comodidades de classe média. Ultimamente, porém, parece que os proprietários se tornaram menos cínicos a respeito da representação que encenavam. Eles próprios estão se transformando em pessoas da classe média, e cada vez mais enamorados dos atributos que seus clientes lhes impunham.

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            Conforme dissemos, o ciclo da descrença à crença pode ser seguido em sentido oposto, começando com a convicção ou aspiração insegura e terminando em cinismo. As profissões que o público considera com temor religioso frequentemente permitem .. não por causa de uma compreensão lenta de estarem iludindo seu público... mas porque podem se servir deste cinismo como meio de isolarem sua personalidade íntima do contato com o público...Assim, os estudantes de medicina...Durante os primeiros dois anos, os estudantes de descobrem que o interesse pela medicina deve ser abandonado para que possam dedicar todo o tempo à tarefa de aprender como passar nos exames. Nos dois anos seguintes, estão demasiados ocupados em aprender a conhecer as doenças para mostrar muito interesse pelas pessoas que estão doentes. Só depois que o curso medico terminou é que seus primitivos ideais a respeito do trabalho médico podem ser reafirmados...

... Outra mistura de cinismo e crença é indicada no estudo de Kroeber sobre o xamanismo:

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 Em seguida, há a velha questão da fraude. Provavelmente a maioria dos xamãs ou feiticeiros-médicos, pelo mundo afora, prestam socorro usando de prestidigitações do tratamento e principalmente nas demonstrações de poder. Esta escamoteação é muitas vezes deliberada... A atitude... parece inclinar-se para uma piedosa fraude... mesmo os curandeiros que sabem estra cometendo uma fraude, apesar disso acreditam também em seus poderes... nos de outros xamãs. Consultam-nos quando eles próprios ou seus filhos estão doentes.25

 FACHADA

            Venho usando o termo “representação” para me referir a toda atividade de um indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes algum a influência. Será conveniente denominar de fachada a parte do desempenho do indivíduo que funciona regularmente de forma geral e fixa com o fim de definir a situação para os que observam a representação. Fachada... é o equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou inconscientemente empregado pelo indivíduo durante sua representação. Para fins preliminares será conveniente distinguir e rotular aquelas que parecem ser as partes padronizadas da fachada.

            Primeiro, há o “cenário”, compreendendo a mobília, a decoração, a disposição física e outros elementos do pano de fundo que vão constituir o cenário e os suportes do palco para o desenrolar da ação humana executada diante, dentro ou acima dele. O cenário tende a permanecer na mesma posição, geograficamente falando, de modo que aqueles que usem determinado cenário como parte de sua representação não possam começar a atuação até que se tenham colocado no lugar adequado e devam terminar a representação ao deixa-lo. Somente em circunstâncias excepcionais o cenário acompanha os atores. Vemos isto num enterro, numa parada cívica e nos cortejos irreais como que se fazem reis e rainhas...

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            Se tomarmos o termo “cenário” como referente às partes cênicas de equipamento expressivo, podemos tomar o termo “fachada pessoal” como relativo aos outros itens de equipamento expressivo, aqueles que de modo mais íntimo identificamos com o próprio ator, e que naturalmente esperamos que o sigam onde quer que vá. Entre as partes da fachada pessoal podemos incluir os distintivos da função ou da categoria, vestuário, sexo, idade e características raciais, altura e aparência; atitude, padrões de linguagem, expressões faciais, gestos corporais e coisas semelhantes. Alguns desses veículos de transmissão de sinais, como as características raciais, são relativamente fixos e, dentro de um certo espaço de tempo, não variam para o indivíduo de uma situação para outra. Em contraposição, alguns desses veículos de sinais são relativamente móveis ou transitórios, como a expressão facial, e podem variar, numa representação, de um momento para o outro.

            Às vezes é conveniente dividir os estímulos que formam a fachada pessoal em “aparência” e “maneira”, de acordo com a função exercida pela informação que esses estímulos transmitem. Pode-se chamar de “aparência” aqueles estímulos que funcionam no momento para nos revelar o status social do ator. Tais estímulos nos informam também sobre o estado ritual temporário do indivíduo, isto é, se ele está empenhado numa atividade social formal, trabalho ou recreação informal... Chamaremos de “maneira” os estímulos que funcionam no momento para nos informar sobre o papel de interação que o ator espera desempenhar na situação que se aproxima. Assim, uma maneira arrogante, agressiva pode dar a impressão de que o ator espera ser a pessoa que iniciará a interação verbal e dirigirá o curso dela. Uma maneira humilde escusatória pode dar a impressão de que o autor espera seguir o comando de outros, ou pelo menos que pode ser levado a proceder assim.

            Frequentemente esperamos, é claro, uma compatibilidade confirmadora entre aparência e maneira. Esperamos que as diferenças de situações sociais entre os participantes sejam expressas de algum modo por diferenças congruentes nas indicações dadas de um papel de interação esperado. Este tipo de coerência de fachada pode ser ilustrado pela seguinte descrição da procissão de uma mandarim numa cidade chinesa.

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Vindo logo atrás... a luxuosa cadeira do mandarim, transportada por oito carregadores, enche o espaço vazio da rua. É o prefeito da cidade e praticamente o poder supremo nela. É um funcionário de aparência ideal, pois é grande e de aspecto corpulento, ao mesmo tempo que tem aquele olhar severo e inflexível, que se supõe indispensável em qualquer magistrado que espere manter seus súditos em ordem. Tem um aspecto austero e ameaçador, como se estivesse indo a um campo de execuções para mandar decapitar algum criminoso. Esse é o ar que os mandarins assumem quando aparecem em público. No curso de muitos anos de experiência, jamais vi algum, do mais alto ao mais inferior, com sorriso no rosto ou olhar de simpatia para o povo, enquanto era oficialmente carregado nas ruas.28  


Mas, evidentemente, aparência e maneira podem se contradizer uma à outra, como acontece quando um ator que parece ser de posição mais elevada que sua plateia age de maneira inesperadamente igualitária, íntima ou humilde...

            Além da esperada compatibilidade entre aparência e maneira, esperamos naturalmente certa coerência entre ambiente, aparência e maneira. Tal coerência representa um tipo ideal que nos fornece o meio de estimular nossa atenção e nosso interesse nas exceções... as exceções à esperada compatibilidade entre ambiente, aparência e maneira oferecem o sabor picante e o encanto de muitas carreiras e o apelo vendável de muitos artigos de revistas...
            A fim de explorar mais completamente as relações entre as várias partes da fachada social, será conveniente considerar aqui uma significativa característica da informação transmitida pela fachada, a saber, seu caráter abstrato e sua generalidade.
            Por mais especializada e singular que seja uma prática, sua fachada social, com algumas exceções, tenderá a reivindicar fatos que possam ser igualmente reivindicados e defendidos por outras práticas algo diferentes.

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Em vez de ter de manter um padrão diferente de expectativa e de trato dado em resposta a cada ator e representação ligeiramente diferentes, pode colocar a situação numa ampla categoria em torno da qual lhe é fácil mobilizar sua experiência anterior e seu pensamento estereotipado. Os observadores, então, só precisam estar familiarizados com um pequeno vocabulário de fachada, de fácil manejo portanto, e saber como responder a elas a fim de se orientarem numa grande variedade de situações...

            Há razões para se acreditar que a tendência de apresentar uma grande quantidade de números diferentes partindo de um pequeno número de fachadas é uma consequência natural da organização social...

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            Além do fato de práticas diferentes podem empregar a mesma fachada, deve-se observar que uma determinada fachada social tende a se tornar institucionalizada em termos das expectativas estereotipadas abstratas às quais dá lugar e tende a receber um sentido e uma estabilidade à parte das tarefas específicas que no momento são realizadas em seu nome. A fachada torna-se um “representação coletiva” e um fato, por direito próprio.  

            Quando um ator assume um papel social estabelecido, geralmente verifica que uma determinada fachada já foi estabelecida para esse papel. Quer a investidura no papel tenha sido primordialmente motivada pelo desejo de desempenhar a mencionada tarefa, quer pelo desejo de manter a fachada correspondente, o ator verificará que deve fazer ambas as coisas.

            Além disso, se o indivíduo assume um papel que não somente é novo para ele, mas também não está estabelecido na sociedade, ou se tenta modificar o conceito em que o papel é tido, provavelmente descobrirá a existência de várias fachadas bem estabelecidas entre as quais tem que escolher. Desse modo, quando é dada uma nova fachada a uma tarefa, raramente verificamos que a fachada dada é, ela própria, nova.

            Desde que as fachadas tendem a ser selecionadas e não criadas, podemos esperar que surjam dificuldades quando os que realizam uma dada tarefa são obrigados a selecionar para si, uma fachada adequada dentre muitas diferentes...

            Um exemplo interessante do dilema de escolha de uma fachada apropriada dentre várias não perfeitamente compatíveis pode ser encontrado hoje nas organizações médicas americanas, com respeito à tarefa de ministrar anestesia. Em alguns hospitais a anestesia ainda é feita por enfermeiras por trás da fachada que se permite que as

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enfermeiras tenham nos hospitais, sem levar em conta as tarefas que realizam – uma fachada que implica subordinação cerimoniosa aos médicos e baixo nível de salário. A fim de estabelecer a anestesiologia como especialidade para médicos formados, os profissionais interessados tiveram que defender intensamente a ideia de que administrar anestesia é uma tarefa bastante complexa e vital para justificar que seja dada aos que executam a recompensa cerimonial e financeira atribuída aos médicos. A diferença entre a fachada mantida por uma enfermeira e a mantida por um médico é grande; muitas coisas aceitáveis nas enfermeiras são infra dignitatem para os médicos. Alguns médicos acham que uma enfermeira está “abaixo da categoria” no que se refere à tarefa de aplicar anestesia, e que os médicos estão “acima da categoria”. Se houvesse uma condição social intermediária entre a enfermeira e o médico, uma solução mais fácil para o problema poderia talvez ser encontrada.

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            Dissemos que a fachada social pode ser dividida em partes tradicionais tais como cenário, aparência e maneira, e que (visto que diferentes práticas regulares podem ser apresentadas por trás da mesma fachada) não encontramos um ajustamento perfeito entre o caráter específico de uma atuação e o aspecto socializado geral em que nos aparece... Assim, um advogado pode conversar com um cliente num ambiente social que emprega somente para este fim (ou para um estudo), mas as roupas adequadas que usa em tais ocasiões, também as usará com igual adequação num jantar com colegas ou no teatro com a esposa. Igualmente, as gravuras penduradas na parede e o tapete no chão podem ser encontrados em residências. Sem dúvida, em ocasiões de grande cerimônia, o cenário, a maneira e a aparência podem ser únicos e específicos, usados somente para representações de um único tipo de prática, mas este uso exclusivo de equipamentos de sinais é a exceção e não a regra.

 REALIZAÇÃO DRAMÁTICA

             Em presença de outros, o indivíduo geralmente inclui em sua atividade sinais que acentuam e configuram de modo impressionante fatos confirmatórios que, sem isso, poderiam permanecer despercebidos ou obscuros. Pois se a atividade do indivíduo tem de tornar-se significativa para os outros, ele precisa mobiliza-la de modo tal que expresse, durante a interação, o que ele precisa transmitir. De fato pode-se exigir que o ator não somente expresse suas pretensas qualidades durante a interação, mas também o faça durante uma fração de segundo na interação... se um árbitro de

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 beisebol quer dar a impressão de que está seguro de seu julgamento, deve-se abster-se do momento de pensamento que lhe poderia dar a certeza de sua decisão. Têm que tomar uma decisão instantânea de modo que o público fique certo de que ele está seguro de seu julgamento.

            Note-se que no caso de alguns status sociais a dramatização não apresenta problemas, pois alguns dos números instrumentalmente essenciais para completar a tarefa central do status são, ao mesmo tempo, maravilhosamente adaptados, do ponto de vista da comunicação, como meios de transmitir vividamente as qualidades e atributos pretendidos pelo ator. Os papéis dos lutadores, cirurgiões, violinistas e policiais são exemplos disto. Estas atividades permitem uma autoexpressão tão dramática, que profissionais exemplares – reais ou falsos – tornam-se famosos e ocupam lugar de destaque nas fantasias comercialmente organizadas da nação.

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            De maneira semelhante, o proprietário de um estabelecimento de serviço pode achar difícil dramatizar o que está sendo feito realmente em favor dos clientes, porque estes não podem “ver” os custos gerais do serviço que lhes é prestado. Os donos de casas funerárias devem, por conseguinte, pedir muito pelo seu produto extremamente visível – uma caixa que foi transformada em esquife...

            O problema de dramatizar o próprio trabalho implica mais do que simplesmente tornar visíveis os custos invisíveis... Para fazer uma palestra no rádio que pareça genuinamente natural, espontânea e tranquila, o locutor pode ter que planejar seu “texto” com esmerado cuidado, ensaiando frase por frase, a fim de imitar o conteúdo , a linguagem , o ritmo e a fluência do falar cotidiano...

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            Se alterarmos nosso ponto de referência por um momento e nos voltarmos de uma determinada representação para os indivíduos que a representam podemos considerar um fato interessante sobre a sucessão das diferentes práticas para cuja execução qualquer grupo ou classe de indivíduos contribui. Quando se examina um grupo ou classe, vê-se que seus membros tendem a empenhar-se primordialmente em certas práticas, enfatizando menos as outras que executam. Assim, um profissional pode concordar em desempenhar um papel muito modesto na rua, numa loja ou em sua casa, mas na esfera social que abrange o exercício de sua competência profissional preocupar-se-á muito em dar uma demonstração de eficiência. Ao mobilizar seu comportamento para fazer uma demonstração, estará interessado não tanto no curso completo das diferentes práticas que executa, mas somente naquela da qual deriva sua reputação profissional. Foi com base nesse princípio (?!) que alguns autores escolheram distinguir grupos comuns com hábitos aristocráticos (seja qual for seu status social) daqueles com características de classe média. O comportamento aristocrático,
diz-se, é aquele que mobiliza todas as atividades secundárias da vida, situadas foras das particularidades sérias de outras classes, e injeta nessas atividades uma expressão de dignidade, poder e alta categoria.

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Por meio de importantes realizações o jovem nobre é educado para manter a dignidade de sua classe e tornar-se merecedor daquela superioridade sobre seus concidadãos, a que o mérito de seus antepassados o elevou, é pelo saber, pela diligência, paciência, espírito de sacrifício ou outra espécie de virtude?

 

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Como todas as suas palavras, todos os seus gestos, são objeto de atenção, ele aprende a levar em consideração habitualmente todas as circunstâncias do comportamento comum e estuda a fim de executar todos esses pequenos deveres com a mais exata propriedade. Como tem consciência do quanto é observado e de como os homens estão dispostos a favorecer todas as suas inclinações, age, nas ocasiões mais corriqueiras, com aquela liberdade e elevação que o pensamento desta condição naturalmente inspira. Seu ar, suas maneiras, sua conduta, tudo marca aquele sentido elegante e gracioso de sua própria superioridade, que os nascidos para posições inferiores dificilmente podem alcançar. Estes são os estratagemas pelos quais pretende tornar os homens mais facilmente submissos à sua autoridade e governar as inclinações deles a seu bel prazer. E nisto raramente se desilude. Estes estratagemas, sustentados pela posição e preeminência, são geralmente suficientes para governar o mundo.

 

           Se tais virtuoses realmente existem, proporcionam um grupo conveniente no qual é possível o estudo das técnicas pelas quais a atividade é transformada em espetáculo.

IDEALIZAÇÃO

         Indicamos, anteriormente, que a execução de uma prática apresenta, através de sua fachada, algumas exigências um tanto abstratas em relação à audiência... Isto constitui um dos modos pelos quais uma representação é “socializada”; moldada e modificada para se ajustar à compreensão e às expectativas da sociedade em que é apresentada...

            A noção de que uma representação apresenta uma concepção idealizada da situação é, sem dúvida, muito comum. A opinião de Cooley pode ser tomada como exemplo:

 

 

Se nunca tentássemos parecer um pouco melhores do que somos, como poderíamos melhorar ou “educar-nos de fora para dentro?” Este mesmo impulso de mostra ao mundo um aspecto melhor ou idealizado de


 

 

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nós mesmos encontra uma expressão organizada nas várias profissões e classes, cada uma das quais até certo ponto tem um linguajar convencional ou atitudes próprias, que seus membros adotam inconscientemente, na maior parte das vezes, mas que tem o efeito de uma conspiração para atuar sobre a credulidade do resto do mundo...

 

        Assim, quando o indivíduo se apresenta diante dos outros, seu desempenho tenderá a incorporar e exemplificar os valores oficialmente reconhecidos pela sociedade e até realmente mais do que o comportamento do indivíduo como um todo.


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 Cap.V

A comunicação Imprópria

             Quando duas equipes se encontram uma com a outra com objetivo de interação, os membros da cada uma tendem a sustentar como linha de ação que eles são o que afirmam ser; tendem a permanecer a caráter. A familiaridade dos bastidores é suprimida para que a inter-relação das poses não entre em colapso e todos os participantes encontrem na mesma equipe, por assim dizer, sem deixar de fora ninguém que represente para os outros. Cada participante da interação geralmente se esforça em conhecer e manter o seu lugar, sustentando qualquer equilíbrio de formalidades e informalidades, que tenha sido estabelecido para a interação chegando ao ponto mesmo de estender este tratamento a seus próprios companheiros de equipe. Ao mesmo tempo cada equipe tende a suprimir sua cândida opinião de si mesma e da outra equipe, projetando uma concepção de si e uma concepção da outra que é relativamente aceitável para esta. E, para assegurar que a comunicação seguirá pelos estreitos canais estabelecidos, cada equipe está preparada para ajudar a outra, tácita e discretamente, a manter a impressão que está tentando causar.

            Certamente, em momentos de grande crise, um novo conjunto de motivos pode se tornar inesperadamente eficiente e a distância social estabelecida entre as equipes pode abruptamente aumentar ou diminuir. Citaremos um exemplo do estudo sobre um hospital onde, numa de suas enfermarias, estava sendo feito um tratamento experimental em voluntários portadores de doenças metabólicas pouco conhecidas e nas quais pouca coisa podia ser feita. Em face das necessidades da pesquisa imposta aos pacientes e do sentimento geral de desalento sobre o prognóstico, a nítida linha de separação habitual entre médicos e pacientes foi atenuada. Os médicos respeitosamente consultavam os doentes por longo tempo a respeito de sintomas a ponte de eles se julgarem em parte associados à pesquisa. Contudo, de um modo geral, passada crise, o anterior consenso de trabalho foi restabelecido...

 Da mesma maneira, durante súbitos rompimentos de uma representação, e especialmente

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 nos momentos em que se descobre uma identificação equivocada, um personagem retratado pode momentaneamente desmoronar quando o ator que se acha por trás do personagem “se esquece de si” e deixa escapar uma exclamação não pertencente à peça. Assim a esposa de um general norte americano conta um incidente ocorrido quando ela e seu marido vestidos sem cerimônia davam um passeio juntos numa noite de verão, num jipe aberto do exército:

 

O próximo som que ouvimos foi o silvo dos freios, quando um jipe da polícia militar empurrou-nos para a margem da estrada. Os soldados desceram e se dirigiram ao nosso jipe.

“O senhor apanhou uma viatura oficial e leva uma senhora nele”, o mais violento dos soldados disse brusca e asperamente. “Deixe-me ver sua autorização”.

No exército, é claro, ninguém pensaria em dirigir uma viatura militar sem autorização, que diga quem permitiu o uso do jipe. O soldado estava sendo muito rigoroso e prosseguiu pedindo a carteira de motorista de Wayne, outro documento militar que deveria ter.

Evidentemente ele não tinha nenhum dos dois papéis. Mas tinha seu boné ultramarino de quatro estrelas no banco do lado dele. Atirou-o na cabeça, sem dizer uma palavra, mas firmemente enquanto os soldados da Polícia Militar desencavavam no seu jipe os formulários nos quais planejavam responsabilizar Wayne por todas as violações do manual. Apanharam os formulários, voltaram-se para nós e imediatamente “caíram duros”, Boquiabertos.

Quatro estrelas!

Antes que pudesse refletir, o primeiro soldado, que tinha feito toda a falação, deixou escapar. “Meu Deus!” e então, realmente assustado, bateu com a mão na boca, fez um vigoroso esforço para se recobrar tanto quanto possível de uma situação difícil, dizendo: “Não o reconheci, senhor”.

 

          Em nossa sociedade anglo-americana, observa-se que “Meu Deus!”, “Por Deus!” ou expressões faciais equivalentes servem muitas vezes como confissão do ator, de que momentaneamente se colocou numa posição na qual é evidente que nenhum personagem é capaz de se sustentar. Estas expressões representam uma forma extrema de comunicação imprópria, e no entanto tornaram-se tão convencionais que quase constituem um pedido encenado de perdão, baseado em que somos maus atores.

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            Estas crises, porém são excepcionais; o consenso funcional e a manutenção pública de posição é a regra. Mas,... há correntes de comunicação mais comuns e menos aparentes... transmitidas de maneira sub-reptícia...(que podem) ... contradizer e desacreditar a definição da situação oficialmente projetada pelos participantes. Quando se estuda um estabelecimento social, descobre-se quase sempre estes sentimentos discrepantes. Estes demonstram que, embora um ator possa agir como se sua resposta numa situação fosse imediata, impensada e espontânea, embora ele próprio talvez pense se isso o que acontece, ainda assim sempre haverá a possibilidade de surgirem situações nas quais transmitirá a uma ou duas pessoas presentes a compreensão de que o espetáculo que está executando é única e exclusivamente um espetáculo. A presença portanto da comunicação imprópria fornece um argumento para a conveniência de estudar as representações em termos de equipes e de rupturas potenciais da interação. É preciso repetir que não afirmamos que as comunicações sub-reptícias sejam o melhor reflexo da realidade verdadeira do que as comunicações oficiais, com as quais são incompatíveis. A questão consiste em que o ator está tipicamente envolvido em ambas e este envolvimento duplo deve ser cuidadosamente dirigido, para que as projeções oficiais não sejam desacreditadas. Entre as muitas formas de comunicação nas quais o ator se empenha, e que transmitem informação incompatível com a impressão oficialmente mantida durante a interação, consideraremos quatro tipos:  o tratamento dos ausentes, a conversa no palco, o conluio de equipes e as ações de reajustamento.

 O TRATAMENTO DOS AUSENTES

            Quando os membros de uma equipe vão para os bastidores, onde a plateia não pode vê-los nem ouvi-los, geralmente depreciam-na de uma forma incompatível com o tratamento que lhe é dispensado frente a frente. No comércio da prestação de serviços, por exemplo, os fregueses que são tratados respeitosamente durante a representação quase sempre são ridicularizados, comentados maliciosamente, caricaturados, amaldiçoados e criticados quando os atores estão nos bastidores. Aqui também podem se arquitetados planos para “tapeá-los”, empregar “ardis para levar vantagem” contra eles ou acalmá-los. Assim, na cozinha do Hotel Shetland os hóspedes

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 eram chamados por apelidos depreciativos; sua fala, tom de voz e mecanismo eram imitados com precisão motivando brincadeiras ou críticas; seus defeitos, fraquezas e status social eram discutidos com cuidado erudito e clínico; suas exigências dos mais insignificantes serviços despertavam gestos faciais grotescos, uma vez longe das vistas e dos ouvidos. Este desrespeito era amplamente compensado pelos hóspedes quando em seu próprio círculo, ocasião em que os empregados eram descritos como porcos preguiçosos, tipos primitivos que ali vegetavam, animais famintos por dinheiro. No entanto, quando falavam diretamente uns com os outros, empregados e hóspedes mostravam mútuo respeito e alguma afabilidade. Igualmente, há muito poucas relações de amizade nas quais não exista alguma ocasião em que as atitudes expressas sobre o amigo, na sua ausência, são grosseiramente incompatíveis com as expressas na presença dele.

            Às vezes, certamente, ocorre o inverso da depreciação, e os atores elogiam a plateia de um modo que não lhe seria permitido fazer na presença real dela. Mas a detração secreta parece ser muito mais comum que o elogio secreto, talvez porque sirva para manter a solidariedade da equipe demostrando mútua consideração às custas dos ausentes...