ZAMBONI, Silvio.
A Pesquisa em Arte.
Editora Autores Associados, Campinas, 1998.
(Coleção polêmicas do nosso tempo: 59)

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O Ponto de Partida

            As motivações que me levaram à conveniência de elaborar este trabalho advêm, em grande parte, das dificuldades que encontrei para caracterizar a pesquisa em arte, desde a época em que comecei a trabalhar na nascente área de artes no CNPq. Em 1984.

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            Pode-se afirmar que a história da humanidade confunde-se com a própria história do conhecimento humano, pois dependendo dos valores vigentes em épocas diversas, ele pode ser concebido segundo as contingências e os juízos da época que o gerou. Encarado e entendido segundo tal ou qual óptica, uma visada diacrônica sobre o conhecimento mostra diferentes rearranjamentos e composições se produzindo ao longo da história. Assim, o que é uno e distinto hoje não o era em épocas passadas e nada garante que o será no futuro...

            A divisão do conhecimento humano, principalmente no que diz respeito  aos aspectos explicativos, deu-se principalmente a partir de Descartes (1596-1690). Suas ideias e seu método influenciaram sobremaneira todo o modo de pensar ocidental, provocando uma ruptura com a maneira anterior de conceber o mundo.

            Descartes fez da razão o ponto de apoio para desenvolver a sua teoria, que é calcada na necessidade de um método. Ele parte de quatro conceitos básicos: Evidência, Divisão, Ordem e Enumeração, justificando que é mais funcional dispor de poucos preceitos, do que um grande número deles, tal como se estrutura a Lógica; e os enuncia, no seu Discurso sobre o Método. (*)

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            Esses quatro conceitos fundamentais conferem à teoria cartesiana, de forma clara, a sua feição... só é verdadeiro aquilo que é evidente, que é claro e distinto. O claro deve ser dividido, segmentado, separado para poder ser analisado. As questões complexas devem ser divididas em questões mais simples: tem-se que partir das parcelas para atingir o total. Tudo deve ser ordenado. A ordem como essência do método inicia a transformação radical sobre a natureza do pensamento: este já não pensa em coisas e sim em relações. Depois da evidência, da divisão e da ordenação o papel da enumeração tem a função de restabelecer a continuidade do pensamento que foi fragmentado.

(*) Descartes, Obras Escolhidas, São Paulo, 1962, p.53/54:
O primeiro (conceito fundamental) era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.
O segundo, o de dividir , cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las.
O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos maias simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último (o quarto), o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir”.

          O cartesianismo não pretendeu explicar todas as coisas, o próprio Descartes declara que, em questões de alma e do corpo, não tem ideia nenhuma. O cartesianismo é a razão, e explica o que pode ser enquadrado dentro de seus preceitos. O que está além ou aquém da razão não pode ser entendido porque foge da análise racional feita pela parte do cérebro destinada a tal fim. O que o racionalismo cartesiano

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procura é entender todas as coisas sempre segundo o mesmo critério, utilizando para tanto sempre o mesmo método. Tudo que é suscetível de conhecimento é passível de ser formulado em pensamento do tipo matemático.

            Esta é a fórmula inflexível do racionalismo cartesiano, que é um racionalismo radical e essencial pela univocidade absoluta de seus critérios de evidências, e não pelo seu ilimitado alcance, facilmente desmentido. O pensamento cartesiano é racionalista por conjugar rigorosamente a unidade da razão com a unidade do saber e com a unidade do método (Kujawski. 1969: p78).

            Obviamente não foi somente Descartes o único responsável pela mudança de rumos históricos do conhecimento universal. Ele talvez tenha sido o maior símbolo, por ter exposto com maior detalhamento e clareza a proposta metodológica do racionalismo, que permeia até hoje de forma marcante a busca do conhecimento no mundo ocidental. Outros também contribuíram... O empirismo de Bacon (1558 – 1627) fez também por contribuir para essa nova ordem de pensamento... tido como inventor do método experimental... Galileu (1564-1642) fundamental contribuição ao desenvolvimento do moderno método científico... Isaac Newton (1642 – 1727) combinou o método empírico e indutivo de Bacon ao método racional e dedutivo de Descartes, mostrando que tanto a interpretação de fenômenos sem sistematização, quanto a dedução sem uma base experimental não constituíam caminho a ser seguido para uma formulação teórica respeitável.

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            A estereotipada concepção de que o cérebro do cientista é somente racional e linear é bastante difundida, mas para fazer ciência é necessário utilizar as duas metades do cérebro. Da mesma maneira, não existe um cérebro padrão do artista que funcione somente pelo seu lado intuitivo. Quanto a esse aspecto, deve-se lembrar que os grandes artistas, ou seja, aqueles que conseguiram mudanças de paradigmas e que moveram o curso da arte, nem só de intuição viveram e trabalharam, pelo contrário, usaram o cérebro racionalmente e através da linguagem verbal emitiram seus manifestos e anunciaram suas teorias... o funcionamento dos dois hemisférios cerebrais é necessário tanto para as atividades artísticas como para as científicas... Por mais que sejam exercitadas as ligações neuronais de um ou outro hemisfério é sempre necessária a utilização das duas metades quer se faça arte, quer se faça ciência.

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1.PESQUISA E METODOLOGIA

            Pesquisa é a busca sistemática de soluções, com fim de descobrir ou estabelecer fatos ou princípios relativos a qualquer área de conhecimento humano. Por se atividade sistemática, requer sempre um método, que implica premeditação... normalmente ligada ao tipo lógico e racional de pensamento... premeditação, na vontade clara e determinada de se encontrar uma solução através da trajetória racional engendrada pela razão...

            Toda pesquisa necessita de um método para chegar a seus objetivos. Método é o

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caminho pelo qual esses são alcançados. Poderá haver vários caminhos diferentes, mas existirá sempre um mais adequado... Essa adequação não diz respeito somente a uma escolha no seu sentido lógico mais apurado, o adequado revela também o ponto de vista pessoal de quem escolhe (o que é adequado para um indivíduo, obrigatoriamente pode não ser para outro), e o paradigma em que o indivíduo está atuando, pois a escolha do caminho adequado está intimamente ligada ao conjunto de regras e das teorias em que se está atuando. O caminho da adequação em arte não é necessariamente o mais curto e mais imediato para se atingir um objetivo... o processo de trabalho, principalmente na pesquisa artística, é permeado por inúmeros fatores não racionais e não controlados pelo intelecto do artista, e portanto pode necessitar de caminhos menos diretos para que se dê a maturação necessária das soluções objetivadas pelo artista...

            Todo método está baseado de certa maneira num sentimento de ordem, sendo essa o arranjo de algo dentro de algum parâmetro. A ordem, na sua forma mais simples, é expressa basicamente através de sequências de sucessões. Bohn e Peat (1989) identificam vários tipos de ordens... o que mais interessa para... trabalhos relativos à Arte e à Ciência é o que eles denominam de ordem generativa.

Essa ordem não diz respeito aos aspectos superficiais do desenvolvimento e evolução numa sequência de sucessões, mas sim a uma ordem interna e mais profunda, a partir da qual emerge criativamente a forma manifesta das coisas. (negrito nosso)(op. Cit. P. 20)

            A ordem generativa, ou gerativa, está sempre muito ligada aos processos de trabalho em que a criatividade exerce papel importante, como é o caso das pesquisas em arte e em ciência...

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... é uma ordem (de eventos, fatos, elementos, etc.) cuja sequência vai num desenrolar simultâneo, gerativo e subsequente, onde a criatividade dita o rumo do desdobramento, pois ela é a mola fundamental. Não se trata de elementos simples postos em ordem de forma mecânica e superficial, a mente criadora se torna o principal instrumento de planificação dessa ordem.

            O método está sempre ligado a uma forma de ordem, implicando em organizar, traçar uma sequência a ser seguida, ordenar elementos para evitar erros... é uma questão racional, depende de escolha predeterminada e premeditada.

1.1  A Especulação (Desordem Experimental)

            A especulação, o fazer para ver o que vai dar, o acaso, podem até se constituir num método de descoberta sem, no entanto, tornarem-se instrumentos de pesquisa de alguma eficácia... o método da desordem experimental, deve ser encarado de duas formas: a) como uma forma totalmente ineficiente para buscar as soluções de problemas formulados pela pesquisa; b) com uma forma de achar soluções sem existir o problema, e nesse caso, sem problema, não haveria motivo para a pesquisa... a especulação pode ser um método de descoberta e de se encontrar soluções, mas não é um método de pesquisa... Por não considerar a especulação como método de pesquisa, não quero dizer que ela não tenha validade no processo global de produção artística.

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Quadro I: Diferenças entre Pesquisa e Especulação

Pesquisa

Especulação

- identifica a existência de um problema

- não identifica obrigatoriamente um problema

- premeditada e refletida

- não premeditada

- método organizativo

- desordem experimental

- busca soluções previamente desejadas

- pode encontrar soluções inesperadas

- segurança nos resultados

- acaso

- racionalidade e intuição

- mais intuição que racionalidade

- sempre existem hipóteses

- não há hipóteses

            Na pesquisa sempre se tem a identificação de um problema... o que a pesquisa se propõe é encontrar solução para situações problemáticas... Na especulação, normalmente, o problema não é identificado.

            Toda pesquisa é premeditada: antes da execução do trabalho existe um amadurecimento de ideias e uma definição de rumos. Na especulação não existe a obrigatoriedade de premeditação, pode-se iniciar um trabalho sem uma reflexão prévia, sem ideias claras...

            Na pesquisa, existe um método organizativo mais elaborado... que torna mais fácil... um projeto escrito e sistematizado. Na arte puramente intuitiva, calcada na especulação, expressar-se verbalmente sobre o trabalho que será realizado é muito difícil, senão impossível...

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2. A METODOLOGIA NA PESQUISA EM ARTES VISUAIS

            Colocadas as diferenciações entre pesquisa e especulação, é necessário... a organização de conceitos visando uma tentativa de formulação de um modelo metodológico específico para pesquisa em artes.

            Em ciência são inúmeros e incontáveis os estudos que versam sobre metodologia científica.., A medida que se caminha das áreas tidas como exatas para as ciências humanas e sociais, vai se tornando mais difícil a utilização de parâmetros quantificáveis... se adentrando em metodologias mais complexas com resultados menos exatos.

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            Em qualquer pesquisa, encarando-se a questão de uma forma abrangente, existem alguns passos que são comuns a praticamente todas, como:

- a definição do objeto a ser estudado;
- a identificação de um problema;
- a inserção da questão dentro de um quadro teórico;
- o levantamento das hipóteses
- a observação;
- o processo de trabalho;
- a interpretação e
- os resultados e as conclusões.

            Esses itens relacionados se superpõem... tanto na pesquisa em arte quanto na pesquisa em ciência... A primeira fase de qualquer pesquisa é a definição do objeto a ser estudado. É a fase preliminar, porém fundamental para o início de qualquer trabalho artístico que realmente seja um trabalho de pesquisa. É também anterior a qualquer contato material e instrumental do artista com a realização da obra. As operações que compõem essa fase da pesquisa são: a definição do problema, o referencial teórico e as hipóteses ou expectativas.

2.1.1 O problema

            Toda e qualquer pesquisa só existe em função de um problema... principal finção da pesquisa é dar respostas a problemas identificados como tal.

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... é comum aos pesquisadores encontrarem dificuldades para identificar um problema a partir do qual possam formular seus projetos de pesquisa... Para a escolha do problema eles perceberão também que estão sujeitos a regras de procedimento adotadas por uma comunidade acadêmica que age segundo certos paradigmas, e portanto a sua atuação deve se dar também de acordo com esses paradigmas. A identificação do problema de uma pesquisa está... sujeita aos valores contidos nos paradigmas adotados, e o problema deve ser buscado nesse universo, sem ferir nenhuma norma.

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            Se no caso da ciência é muito simples ao cidadão comum identificar problemas a serem resolvidos, na arte a questão assume um grau de complexidade e abstração muito maior. Os problemas em arte, normalmente, não são do senso comum, suas soluções não preenchem necessidades imediatas de ordem material...

            As grandes indagações que cabem à ciência resolver são pelo menos mais claras e reais, pertinentes a um materialismo palpável e sensível, como a fome, a dor, a moradia, o transporte, etc. As questões artísticas não se apesentam de forma tão clara; além das funções da arte serem totalmente diversas e não terem aplicabilidade (??!!) prática, o universo da arte exige para seu tratamento um grau intuitivo maior, e por isso é mais difícil de se formularem conceitos, atender necessidades e resolver problemas através de uma linguagem lógica.

            Dentro desse quadro, os problemas em arte são também mais difíceis de serem formulados verbalmente, mas no entanto a pesquisa acaba por exigir a identificação do problema... diferentemente dos resolvidos pela atividade da ciência, são de difícil identificação... devem ser descobertos ou mesmo criados (!!!) pelo artista pesquisador.

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            Depois de resolvidos, a exemplo dos resultados da pesquisa científica, também são devolvidos à sociedade; mas não em forma de soluções verbalizadas ou em dados numéricos, mas sim contidos nas obras de arte.

2.1.3. Hipóteses ou expectativas

            A definição do objeto de uma pesquisa está intimamente ligada a um quadro teórico. Todo artista ou cientista ao trabalhar em um paradigma, seja ele qual for, procura criar e responder um problema criativamente elaborado dentro de um referencial teórico. Mesmo porque o problema só existe dentro do quadro teórico em que se projeta a pesquisa, quer se tenha consciência desse fato ou não. Quando o artista trabalha em determinado paradigma, está sujeito a conjuntos de leis, normas ou teorias mais ou menos formalizadas... o grau de consciência dessa teoria, ou conjunto de teorias em que se enquadra seu trabalho é fundamental para a pesquisa em artes.

            Um dos vários fatores que distingue o artista pesquisador do artista intuitivo é exatamente a consciência dos parâmetros teóricos em que está atuando. Toda e qualquer atividade artística se realiza num contexto teórico e histórico, no qual a definição do objeto e a identificação do problema da pesquisa tem que ser inserido...

            Não se pretende dizer com isso que para o artista atuar como pesquisador, necessite antes de começar qualquer trabalho, efetuar a formalização expressa de tudo que leu, estudou e pensou, porque importante é a conscientização do processo, mais do que sua formalização.

            Em ciência, é norma consensual a formalização expressamente verbalizada das questões teóricas com relação ao objeto de pesquisa, dado que a própria academia é

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mais organizada e possui normas já consagradas de conduta em pesquisa, levando em conta o enquadramento da pesquisa em contexto mais amplo, da acumulação de conhecimento frente ao paradigma adotado.

            Em arte, deve-se considerar a não existência da duplicação de pesquisas, e desde que a pesquisa assume o caráter de obra de arte, torna-se impossível esta duplicação. Isso faz com que não seja tão relevante a formalização escrita da definição do objeto da pesquisa. Normalmente, quando isso é feito, é mais por questão de imposição acadêmica e/ou burocrática, do que por norma de trabalho, necessária e consagrada pelos artistas pesquisadores.