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Eu,
então
passo agora já a abordar o meu tema desta mesa que
é a reforma política... Na
verdade não
me
parece razoável, nem possível nem
desejável separar
a ética
privada, a ética da sociedade, da ética
política, da
ética pública, na verdade a ética
é do povo, a ética é da sociedade, e o que tem ocorrido
é exatamente essa separação
que tem
sido feita, tem sido imposta
por
malícia,
quer dizer, no
interesse de
grupos privilegiados
que querem manter
seus
privilégios,
querem obter
proveito pessoal
e agem
contrariamente
à ética...
O
que estamos nós vendo – e essa
campanha eleitoral (2010) mostra claramente isso –
é uma distorção tremenda no
princípio da representação
política democrática. O Povo brasileiro
está mal
representado por uma série de razões, ai eu
não excluo culpa de grande parte do
povo...
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...
o que se verifica – que é
absolutamente necessário mudar – é a
minha primeira proposta... uma mudança
do sistema eleitoral no sentido de introduzirmos o sistema de distritos
eleitorais que tem uma importância prática
excepcional. O que significa?
A
Constituição prevê a escolha dos
representantes pelo sistema
proporcional... vou
citar uma situação
concreta,
e
vocês perceberão como isso
é terrível,
como isso
é maléfico.
Ainda hoje os jornais estão noticiando
que, pela primeira pesquisa, pelo que se prevê, o candidato Tiririca
vai conseguir votos suficientes para eleger seis ou sete deputados...
que poderiam receber apenas cem votos, que poderiam não ter
nenhuma
qualificação ética,
política, intelectual, porque eles serão
“puxados”. O Tiririca
será uma puxador de legenda.
Isso acontece
com muitos compradores de
votos, são também puxadores
de
legenda. Eu poderia citar, outra
vez, o Paulo Maluf em
São Paulo, que
também exerce esse papel. Ele tem muito dinheiro, ele compra
muitos votos no
estado inteiro e, com isso, ele consegue uma
votação que puxa para sua legenda
vários outros candidatos...
Ele elege vários.
E qual
é
a virtude, qual é o efeito da votação
por
distritos? É que o candidato só pode receber
votos numa área pré-determinada,
numa área menor.
E pela minha longuíssima experiência, posso
dizer que, em todos os colégios eleitorais, existe uma
percentagem de votos
compráveis, mas se for necessário comprar votos
só num colégio eleitoral,
dificilmente ele se elege. Então, por isso é
fundamental o sistema de
distritos. O deputado só será votado num
distrito. Por exemplo, a própria
cidade de São Paulo e a cidade de Brasília
serão divididos em vários distritos,
e o candidato
precisará obter todos
os seus votos num só distrito para se eleger. Se ele quiser,
poderá comprar uns
tantos votos, comprar por dinheiro, por favor, por qualquer
razão, mas será
extremamente difícil comprar, num só distrito, a
totalidade dos votos de que
ele necessita para se eleger,
e ainda deixar sobrar para os
demais. Então tem que haver forçosamente uma
depuração, o
eleitor terá muito
mais possibilidade de saber da vida pregressa do candidato...
o que é
que ele já fez pelo povo?
Qual é o seu comportamento particular? Como
foi que ele obteve sua riqueza?
Vejam que atualmente é praticamente
impossível.
São tantos os candidatos ou candidato que recebe votos numa
área
muito extensa. Eu fiz essa
experiência... inclusive na Universidade de São
Paulo.. eu perguntei... “quem
se lembra em quem votou para deputado federal
nas ultimas eleições?”
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A
quase totalidade não se
lembrava, porque não existe um vínculo entre o
eleitor e o eleito,
não há
um vínculo entre o representante e o
representado...não há, na verdade, a
possibilidade de fazer o acompanhamento do seu desempenho.
Então, vejam: o
sistema distrital vai colocar a
necessidade de uma aproximação forçosa
entre o candidato e os eleitores... o
eleitor terá possibilidade – com mais facilidade
– de acompanhar o desempenho
do eleito, pois esse será o representante do seu distrito... no sistema atual
brasileiro, não há essa
possibilidade, não se tem idéia de onde o
candidato obteve os votos...
já é
muito difícil a boa escolha e é quase
impossível o controle posterior;
esse controle posterior, entre
outras coisas, abria, nos EEUU, uma
possibilidade muito importante – existente na
legislação eleitoral
estadunidense – que é o
eleitorado pedir de volta o mandato. A esse processo
dá-se o nome técnico de recall.
Recall
é chamar de volta. Então, se o
distrito votou no candidato, porque ele prometeu determinadas coisas,
porque
ele parecia ser bom, por que ia fazer tal coisa, mas depois ele fez ao
contrário e se mostra corrupto, os eleitores votam e, se a
maioria decidir, ele
perde o mandato. É o
eleitorado quem retira o mandato, pede de volta o
mandato, é
o recall,
chamar de
volta. E isto, no nosso sistema é impossível,
porque não se sabe quem votou nem
em que lugar ele foi votado – tudo é muito
disperso. Essa é uma das razões
porque não temos o
recall, embora
tenha sido proposto na constituinte.
...
a primeira
proposta é de que se introduza no Brasil o sistema
de distritos eleitorais
e, se vocês forem aos anais da constituinte, vão
verificar que houve várias
propostas de introdução do sistema distrital... entretanto, especialmente
para os corruptos,
para os compradores de voto,
não interessa o sistema distrital, porque eles
não querem ficar sob controle... porque
assim haverá a possibilidade
do controle ético do candidato e do eleito...
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...
quando se criou a primeira
constituição escrita – foi nos Estados
Unidos em 1787... por isso, foi
convocada a Convenção de Filadélfia,
na Filadélfia em 1787. A Constituição
é de
1787. Quando foi que a mulher pode votar para presidente nos estados
unidos?...
Ela só votou em 1920.
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...
havia uma diferença muito
grande entre os Estados do Norte e os Estados do Sul, os Estados do Sul
eram os
Estados das grandes plantações, das grandes
pastagens, e havia poucos
proprietários evidentemente, mas com uma
característica: a ampla utilização do
trabalho escravo: todo o sul era baseado no trabalho escravo... o
norte, o
norte desenvolveu mais uma atividade comercial... era o
começo da
industrialização. E por isso o norte era
firmemente contra escravidão, era
abolicionista. Essa diferenciação entre o norte e
o sul tem desdobramentos
fantásticos, porque o norte ficou com medo porque iriam
organizar-se em um só estado,
é
um só Estado.
Nesse momento já
havia a decisão de criar uma
Câmara dos Deputados. Os Estados com mais eleitores
terão mais representantes,
terão mais deputados; Estados com menos eleitores
terão menos deputados. Nesse
momento, alguém atenta para o fato de o
norte ser abolicionista,
e terem mais eleitores que o
sul... se
o norte aprovar uma lei
abolindo a escravidão,
como ficaria o
sul?
O sul não podia
aderir a isso. Então,
o que eles fizeram?
Esse é o dado essencial. Propuseram
a criação de uma segunda Câmara
Legislativa, O
Senado,
com o objetivo de
impedir a abolição da escravatura.
É escancarado isso, lendo a
documentação a gente não tem a
mínima dúvida. Eu trato disso no
meu livro
sobre a constituição na vida dos povos
fazendo referências e vocês
verificarão que realmente não há
dúvida.
O
Senado foi criado para manter a
escravidão negra. E,
vejam, depois da constituição liberal de 1787, a
escravidão durou ainda 80 anos, e foi necessário
uma guerra civil para que
acabasse a escravidão. E depois disto este modelo, este
padrão foi exportado,
foi adotado em muitos lugares, foi adotado inclusive, no Brasil.
E se nós
verificarmos hoje o que é o Senado brasileiro, se
nós verificarmos o que tem
sido dito pelos jornais a respeito da eleição dos
senadores, nós vamos ver que
é basicamente... há
exceções... é
basicamente o
reduto dos oligarcas, é
o lugar onde estão as grandes famílias, os
controladores da sociedade...
Pg.50
...
minha
segunda proposta é que nós devemos fazer uma
reforma política, estabelecendo
que o legislativo tenha uma
só Câmara
de Deputados, e esses deputados
seriam eleitos no sistema
distrital de votos,
em que o
eleitor saiba realmente em quem está votando e possa
controlar o desempenho,
possa, inclusive, tirar deles o mandato se eles agirem mal, porque, na
verdade,
não
há qualquer justificativa nem
teórica, nem jurídica, para
manutenção de duas câmaras.
...
Se vocês pegarem o jornal de
hoje, vão ler noticias minuciosas sobre a tremenda
corrupção do governo do
Tocantins ou no de Alagoas, e os ilustres senadores têm
grande participação na
manutenção desse sistema.
Daí
então a minha segunda proposta: a mudança da
constituição para estabelecer um
sistema unicameral
e não mais bicameral. Vejam
que um Estado tão grande como a China só tem uma
câmara, não tem
duas, eles tem diversidades
também, diversidade cultural inclusive. Os
Estados da Escandinávia têm uma Câmara
só, realmente não
há necessidade de
duas Câmaras que custam muito para o Brasil,
mas custam muito
também em
termos de compromisso com a ética na política.
E se nós
verificarmos
justificativas: não,
mas os senadores representam os Estados.
Na verdade eles
representam os seus próprios
interesses, os interesses da sua família, os interesses do
seu grupo econômico.
Eu
já vou chegando ao final, mas quero contar um fato. Um fato
que aconteceu há
dois anos, aqui no Brasil. Os jornais noticiaram, mas exatamente
não se chama
atenção para isso. Como vocês sabem
– muitos já devem saber – ainda
Pg.51
O
que aconteceu? Designado o Grupo Móvel foi para
lá, começou a fazer seu
trabalho, e, naturalmente, os latifundiários, os
fazendeiros, os oligarcas
ficaram indignados com isso e reagiram.
Qual
foi a reação? No Senado aqui em
Brasília, o senador Flecha de Lima do estado do
Pará organizou uma comissão, comissão
de quatro senadores...
o
Flecha Ribeiro... um dos membros. Outro membro, a Senadora
Kátia Abreu, que é
presidente da confederação Nacional de
Agricultura, é grande fazendeira também,
grande latifundiária... além desses, o terceiro
membro, Romeu Tuma. Romeu Tuma,
para quem não sabe, certamente a maioria não sabe, foi meu carcereiro
quando a ditadura me prendeu, ele era
o diretor do DOPS em São Paulo, e eu defendia direitos
humanos... direitos
políticos. Fui lá e o Dr. Romeu Tuma era o chefe
do DOPS. E o quarto membro é o
Jarbas Vasconcelos que atualmente (2010) é candidato ao
governo por Pernambuco
pelo PMDB e ligadíssimo à oligarquia
pernambucana. Então, esses quatro senadores,
o Flecha Ribeiro,
Romeu Tuma,
Jarbas
Vasconcelos e Kátia
Abreu foram
ao Estado do
Pará mandar
suspender a fiscalização.
E o argumento? Isso está atrapalhando
a economia do Brasil, porque o Brasil vai exportar essa cana. Mas a
dignidade
humana não conta? A dignidade do trabalhador escravizado
não conta? Onde é que
ficou a ética? Não ficou, simlesmente foi chutada.
...
o Senado serve para isso também... por essas
razões é que faço essa proposta de
estabelecer um sistema unicameral. E por último argumento
alguns dizem: não mas
é que os Estados estão representados... No
Senado os Estados é que estão
representados. A
gente pega aqui a Constituição no art.45, ela diz
isso
sobre os deputados. O numero de
deputados... o povo está representado pelos
deputados que elege, porque não são
necessários os senadores.
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E
há uma argumentação
absolutamente falsa: não, mas os senadores são
embaixadores de seus Estados.
Isto não tem nenhum sentido, o Estado só chama
Estado, mas não é o verdadeiro
Estado, é uma subdivisão política do
Estado brasileiro. No caso dos Estados
Unidos, eles chamaram embaixadores antes da
criação da Constituição,
antes da
constituição dos Estados Unidos, depois ficaram
senadores. Então, na verdade,
não há nenhuma justificativa quanto á
necessidade de os Estados sejam
representados... Eles são representados porque os deputados
são eleitos pelos
Estados, e cada deputado representa o eleitorado do seu Estado, os
interesses
do seu Estado, do povo do seu Estado... não há
esta justificativa para que se
mantenha o sistema bicameral...
As minhas
propostas
são essas, estabelecimento do
sistema de distritos eleitorais para que o eleitor conheça,
efetivamente, o
candidato, a fim de que se feche uma das possibilidades de compra de
votos e
para que o eleitorado possa depois acompanhar o desempenho e
caçar o mandato
daquele que agir mal.
E a segunda proposta é pelo estabelecimento de
um sistema unicameral no qual o povo brasileiro estará
representado... havendo
ética no sistema eleitoral, no sistema de escolha dos
representantes, o
povo brasileiro
será efetivamente representado,
será bem representado e haverá ética
na política, ética na sociedade
brasileira.