MORIN, Edgar.
Cultura de Massas no século XX 
Companhia Editora Forense, Rio de Janeiro, 1967.

 

Cap.1 Um Terceiro Problema

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 ... Em outras palavras, há, de um lado, uma “cultura” que define, e relação à natureza, as qualidades propriamente humanas do ser biológico chamado homem, e, de outro lado, culturas particulares segundo as épocas e as sociedades.

            Podemos adiantar que uma cultura possui um corpo complexo de normas, símbolos, mitos e imagens que penetram o indivíduo em sua intimidade, estruturam os instintos, orientam as emoções. Esta penetração se efetua segundo trocas mentais de projeção e de identificação polarizadas tanto nos símbolos, mitos e imagens da cultura como nas personalidades míticas ou reais que encarnam os valores (os ancestrais, os heróis, os deuses). Uma cultura fornece pontos de apoio imaginários à vida pratica e pontos de apoio práticos à vida imaginária; ela alimenta o ser semi-real, semi-imaginário, que cada um secreta no exterior de si e no qual se envolve (sua personalidade).

            Assim, a cultura nacional, desde a escola, nos imerge nas experiências mítico-vividas do passado, ligando-nos por relações de identificação polarizadas nos símbolos, mitos e imagens da cultura como nas personagens míticas ou reais que encarnam os valores (os ancestrais, os heróis, os deuses). Uma cultura fornece pontos de apoio imaginários à vida prática, pontos de apoio práticos à vida imaginária; ele alimenta  o ser semi-real, semi-imaginário que cada um secreta no exterior de si e no qual se envolve (sua personalidade).

            Assim, a cultura nacional, desde a escola, nos imerge nas experiências mítico-vividas do passado, ligando-nos por relações de identificação e projeção aos heróis da pátria (Vercingetórix, Jeanne D’Arc), os quais também se identificam com o grande corpo invisível, mas vivo, que através dos séculos de provações e vitórias, assume a figura materna (a Mãe Pátria, a quem devemos amor) e paterna (o Estado, a quem devemos obediência). A cultura religiosa se baseia na identificação com o deus que salva, e com a grande comunidade materno paternal que constitui a igreja. Mais sutilmente ou antes, de modo mais difuso, a cultura humanista procura um saber e uma sensibilidade, um sistema de atitudes afetivas e intelectuais, por meio do comércio das obras literárias, em que os heróis do teatro e do romance, nas efusões subjetivas dos poetas e das reflexões dos moralistas desempenham de modo atenuado, o papel de heróis, das antigas mitologias e de sábios das antigas sociedades.

            Como veremos, a cultura de massa é uma cultura; ela constitui um corpo de símbolos, mitos e imagens concernentes à vida prática e a vida imaginária, um sistema de projeções e identificações específicas. Ela se acrescenta à cultura nacional, à cultura humanista, à cultura religiosa, e entra em concorrência com estas culturas.

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             As sociedades modernas são policulturais. Focus culturais de naturezas diferentes encontram-se em atividade: a (ou as) religião, o Estado nacional, a tradição das humanidades afrontam ou conjugam suas morais, seus mitos, seus modelos dentro da escola e fora da escola. A essas diferentes culturas, é preciso acrescentar a cultura de massa. O mesmo indivíduo pode ser cristão na missa da manhã, francês diante do monumento aos mortos... ler France-Soir e Paris-Match.

            A cultura de massa integra e se integra ao mesmo tempo numa realidade policultural; faz-se conter, controlar, censurar (pelo Estado, pela Igreja) e, simultaneamente, tende a corroer, desagregar as outras culturas. A esse título, ela não é absolutamente autônoma: ela pode embeber-se de cultura nacional religiosa ou humanista e, por sua vez, ela embebe as culturas nacional, religiosa ou humanista e, por sua vez, ela embebe as culturas nacional, religiosa ou humanista. Embora não sendo a única cultura do século XX, é a corrente verdadeiramente maciça e nova deste século. Nascida nos Estados Unidos, já se aclimatou à Europa Ocidental. Alguns de seus elementos se espalharam por todo o Globo. Ela é cosmopolita por vocação e planetária por extensão. Ela nos coloca o problema da primeira cultura universal da história da humaidade.

 
            Crítica Intelectual ou
            Crítica aos intelectuais

             Antes de abordar de frente estes problemas, é preciso transpor a barreira intectual que lhe opõe a intelligenzia “cultivada”.

            Os cultos vivem numa concepção valorizante, diferenciada, aristocrática, da cultura. É por isso que o termo “cultura do século XX” lhes evoca imediatamente, não o mundo da televisão, do radio, do cinema, dos comics, da imprensa, das canções, do turismo, das férias, dos laze4res, mas Mondrian, Picasso, Stravinsky, Alban Berg, Musil, Proust, Joyce.

            Os intelectuais atiram a cultura de massa nos infernos infraculturais. Uma atitude “Humanista” deplora a invasão dos subprodutos culturais da indústria moderna, dos subprodutos industriais da cultura moderna. Uma atitude de direita tende

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 a considera-la como divertimento de idiotas, barbarismo plebeu. É a partir da vulgata marxista que se delineou uma crítica de “esquerda”, que considera a cultura de massa como barbitúrico (o novo ópio do povo) ou mistificação deliberada (o capitalismo desvia a massa de seus verdadeiros problemas). Mas, profundamente marxista, é a crítica da nova alienação da civilização burguesa: na falsa cultura a alienação do homem não se restringe apenas ao trabalho, mas atinge o consumo e os lazeres...

 ...por mais diferentes que sejam as origens dos desprezos humanistas, de direita e esquerda, a cultura de massa é considerada como mercadoria cultural ordinária, feita, ou, como se diz nos Estados Unidos: Kusch. Pondo entre parênteses qualquer juízo de valor, podemos diagnosticar uma resistência global da “classe intelectual” ou “cultivada”.

           Não são os intelectuais que fazem esta cultura; os primeiros autores de filmes eram estrangeiros, os jornais se desenvolveram longe das esferas gloriosas da criação literária; rádio e televisão foram o refúgio dos jornalistas ou comediantes fracassados. É certo que progressivamente os intelectuais foram atraídos, chamados, para as salas de redação, os estúdios de rádio, os escritórios dos produtores de filmes. Muitos encontram aí uma profissão. Mas estes intelectuais são empregados pela indústria cultural. Só realizam por acaso, ou após lutas extenuantes, os projetos que trazem em si. Em casos extremos, o autor é separado de sua obra; esta não é mais a sua obra. A criação é esmagada pela produção...

            A intelligentsia, literária é despojada pelo advento de um mundo cultural no qual a criação é deslocada. Protesta tanto mais contra a industrialização do espírito quanto participa parcialmente em pequena escala, desta industrialização.

            Não é só de uma espoliação que sofre a intelligentsia. É toda uma concepção de cultura, da arte, que é achincalhada pela intervenção das técnicas industriais, como pela determinação mercantil e a orientação consumidora da cultura de massa.

Ao mercenarismo sucede o mercenarismo. O capitalismo instala suas sucursais no coração da grande reserva cultural. A reação da intelligentsia é também uma reação contra o imperialismo do capital e o reino do lucro. 

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             Enfim, a orientação consumidora destrói a autonomia e a hierarquia estética próprias da cultura cultivada. “Na cultura de massa não há descontinuidade entre a arte e a vida”.(1) Clément GREENBERG, Avant-Garde et Culture de masse, em Maqss Culture, ref. cit., pg.196

            Nem retirada solitária, nem ritos cerimoniais, opõem a cultura de massa à vida cotidiana. Ela é consumida no decorrer das horas. Os valores artísticos não se diferenciam qualitativamente no seio do consumo corrente: os juke-box oferecem ao mesmo tempo Armstrong e Brenda Lee, Brassens e Dalila, as lengalengas e as melodias. Encontramos o mesmo ecletismo no rádio, na televisão e no cinema. Este universo não é governado, regulamentado pela polícia do gosto, a hierarquia do belo, a alfandega da crítica estética. As revistas, os jornais de crianças, os programas de rádio, e, salvo exceção, os filmes não são nada mais que governados pela crítica “cultivada” do que o consumo de legumes, detergentes ou máquinas de lavar. O produto industrial está estritamente determinado por seu caráter industrial de um lado, seu caráter de consumação diária de outro, sem poder emergir para a autonomia estética. Ele não é policiado, nem filtrado, nem estruturado pela arte, valor supremo da cultura dos cultos.

             Tudo parece opor a cultura dos cultos à cultura de massa: qualidade à quantidade, criação à produção, espiritualidade ao materialismo, estética à mercadoria, elegância à grosseria, saber à ignorância. Mas antes de nós perguntarmos se a cultura de massa é na realidade como a vê o culto, é preciso nos perguntarmos se os valores da “alta cultura” não são dogmáticos, formais, mitificados, se o “culto da arte” não esconde muitas vezes um comércio superficial com as obras.

            Tudo que é inovador sempre se opõe às normas dominantes da cultura. Essa observação que vale para a cultura de massa, não vale também para a cultura cultivada?
...

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             Foi a vanguarda da cultura que, primeiramente, amou e integrou Chaplin, Hammet, o jazz e a canção das ruas. Inversamente, desdenha-se com altivez a cultura de massa nos lugares onde reinam os esnobismos estéticos. As receitas literárias, os talentos afetados, as vulgaridades convencionais. Há um filistinismo dos “cultos” que realça a mesma estereotipia vulgar que os padrões desprezados da cultura de massa. E é justo no momento em que elas parecem opostas ao máximo que “alta cultura” e “cultura de massa” se reúnem, uma pelo seu aristocratismo vulgar, outra pela sua vulgaridade sedenta de standing... formula chave: “Um dos aspectos da cultura de massa é a crítica “kitschista” do Kitsch.

            Meu objetivo aqui não é exaltar a cultura de massa, mas diminuir a “cultura cultivada”... Qualquer que seja o fenômeno estudado, é preciso primeiramente que o observador se estude, pois o observador, ou perturba o fenômeno observado, ou nele se projeta de algum modo. Seja o que for que empreendamos no domínio das ciências humanas, o primeiro passo deve ser de autoanálise, autocrítica. Como intelectual atacando o problema da cultura, é, em primeiro lugar minha concepção de cultura que está em jogo. Como pessoa culta dirigindo-me à pessoas cultas, é exatamente essa “cultura” comum que devo primeiro colocar em questão. Há tais resistências psicológicas e sociológicas no interior do que podemos chamar em bloco... a classe intelectual, sua reação é a tal ponto garantida e homogênea que é para lá primeiramente que devemos levar a discórdia. O problema preliminar a ser circunscrito era o seguinte: em que medida estamos nós comprometidos com um sistema de defesa, às vezes

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 inconsciente, mas sempre incontestável, contra um processo que tende à destruição dos intelectuais que somos? 

           Isto nos leva a reexaminar e autocriticar nossa noção ética ou estética de cultura, e recomeçar a partir de uma cultura em imersão histórica e sociológica: a cultura de massa nos coloca problemas mal formalizados, mal emersos. O termo cultura de massa não pode ele mesmo designar essa cultura que emerge com fronteiras ainda fluídas, profundamente ligada as técnicas e à indústria, assim como a alma e a vida cotidiana. São os diferentes estratos das nossas sociedades e de nossa civilização que estão em jogo na nova cultura. Somos remetidos diretamente ao complexo global.

 Método

             Desde então, o método de acesso se delineia. Método autocrítico e método da totalidade. O método da totalidade engloba o método autocrítico porque tende, não só a encarar um fenômeno em suas interdependências, mas, também, a encarar o próprio observador no sistema de relações. O método autocrítico , desentulhando o moralismo altivo, e a agressividade frustrada, e o anti-Kitsch, desemboca naturalmente no método da totalidade. De uma só vez, podemos evitar o sociologismo abstrato, burocrático, do investigador interrompido em sua pesquisa, que se contenta em isolar este ou aquele setor sem tentar descobrir o que une os setores uns aos outros.

            É importante também, que o observador participe do objeto de sua observação; é preciso, num certo sentido, apreciar o cinema, gostar de introduzir uma moeda num juke-box, divertir-se nos caça níqueis, seguir as partidas esportiva, no radio, na televisão, cantarolar o ultimo sucesso. É preciso ser um pouco da multidão, dos bailes, dos basbaques, dos jogos coletivos. É preciso conhecer este mundo sem se sentir um estranho nele. É preciso gostar de flanar nos bulevares da cultura de massa. Talvez uma das tarefas do narodnik moderno, sempre preocupado “em atingir o povo”, seja assistir Dalida.

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            A objetividade a conseguir é a que integra o observado na observação. Não é o objetivismo que acredita alcançar o objeto, suprimindo o observado, quando não faz senão privilegiar um método de observação não relativista. A proposição de Claudel é verdadeira, se bem que seu contrário seja igualmente verdadeiro: “O homem conhece o mundo, não pelo que ele subtrai, mas pelo que ele lhe acrescenta de si mesmo”.

            O verdadeiro conhecimento dialetista(dialético?) sem cessar a relação observador-observado, “subtraindo” e “acrescentando”.

            Enfim, o método da totalidade deve ao mesmo tempo evitar o empirismo parcelado, que, isolando um campo da realidade, acaba por isolá-lo do real, e as grandes ideias abstratas que, como as vistas televisionadas de um satélite artificial, só mostram um amontoamento de nuvens acima dos continentes. É preciso seguir a cultura de massa, no seu perpétuo movimento da técnica à alma humana, da alma humana à técnica, lançadeira que percorre todo o processo social. Mas ao mesmo tempo, é preciso concebe-la como um dos cruzamentos desse complexo de cultura, de civilizações e de história que nós chamamos século XX. Não devemos expulsar de nosso estudo, mas sim centralizar os problemas fundamentais da sociedade e do homem, pois eles dominam nossos propósitos.


Cap.2 A Industria Cultural


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            As invenções técnicas foram necessárias para que a cultura industrial se tornasse possível: o cinematógrafo e o telegrafo sem fio, principalmente. Essas técnicas foram utilizadas com frequente surpresa de seus inventores: o cinematógrafo, aparelho destinado a registrar o movimento, foi absorvido pelo espetáculo, o sonho e o lazer; o T.S.F., primeiramente de uso utilitário, foi por sua vez absorvido pelo jogo, a música e o divertimento. O vento que assim as arrasta em direção à cultura é o vento do lucro capitalista. É para e pelo lucro que se desenvolvem as novas artes técnicas. Não há dúvida de que sem o impulso prodigioso do espírito capitalista, essas invenções não teriam conhecido um desenvolvimento tão radical e maciçamente orientado. Contudo, uma vez dado esse impulso, o movimento ultrapassa o capitalismo propriamente dito: nos começos do Estado Soviético, Lenine e Trotsky reconheceram a importância social do cinema. A indústria cultural se desenvolve em todos os regimes, tanto no quadro do Estado quanto da inciativa privada.

 Dois sistemas

             Nos sistemas ditos socialistas, o Estado é senhor absoluto, censor, diretor, produtor. A ideologia do Estado pode, portanto, desempenhar um papel capital.

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             ...mesmo nos Estados Unidos, a iniciativa privada nunca fica inteiramente entregue à sua própria evolução: o Estado é pelo menos, polícia.

            Do Estado-soberano cultural ao Estado-polícia há uma gama de situações intermediárias. Na França, por exemplo, o Estado só interfere na imprensa para dar autorização prévia mas tem sob sua proteção a agência nacional de informação (A.F.P.); no cinema ela autoriza e proíbe, subvenciona em parte.

O sistema privado é vivo, porque divertido. Quer adaptar sua cultura ao público. O sistema de Estado é afetado, forçado. Quer adaptar o público à sua cultura. É a alternativa entre a velha governanta deserotizada ... e a pin-up que entreabre os lábios.

            Sendo preciso colocar o problema em termos normativos, não existe a meu a ver, escolha a fazer entre o sistema de Estado e o sistema privado, mas a necessidade de instituir uma nova combinação.

            Enquanto se espera, é na concorrência, no seio de uma mesma nação, entre sistema privado e sistema de Estado (para o rádio, a televisão e o cinema) que os aspectos mais inquietantes de um e de outro tem os melhores oportunidades de se

 
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neutralizarem, e que seus aspectos mais interessantes (investimento cultural no sistema de Estado, consumo cultural imediato no sistema privado) podem se desenvolver. Isso, bem entendido, colocado abstratamente.

            Não examinarei neste ensaio o problema dos apêndices culturais da política de Estado, nem o sistema cultural dito

 
Cap.3 O Grande Público.

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             Mesmo fora da procura de lucro, todo o sistema industrial tende ao crescimento, e toda produção de massa destinada ao consumo tem sua própria lógica, que é a de máximo consumo.

            A indústria cultural não escapa a essa lei. Mas do que isso, nos seus setores os mais concentrados, os mais dinâmicos, ela tende ao público universal.

            Revistas como Life ou Paris-Match, grandes jornais ilustrados como o France-Soir, superproduções de Hollywood ou grandes produções cosmopolitas se dirigem efetivamente a todos e a ninguém, as diferentes idades, aos dois sexos, às diversas classes da sociedade, isto é, ao conjunto de um público nacional e, eventualmente, ao público mundial.

            A procura de um público variado implica na procura de variedade na informação ou no imaginário; e procura de um grande público implica na procura de um denominador comum.

            Um semanário como Paris-Match ou Life tende sistematicamente ao ecletismo; num mesmo número há espiritualidade e erotismo, religião, esportes, humor, política, jogos, viagens, exploração, arte, vida privada de vedetes ou princesas, etc... Os filmes-padrão tendem igualmente a oferecer amor, ação, humor, erotismo em doses variáveis; misturam os conteúdos viris (agressivos) e femininos (sentimentais), os temas juvenis e os temas adultos. A variedade, no seio de um jornal, de um filme, de um programa de rádio, visa a satisfazer todos os interesses e gostos de modo a obter o máximo de consumo.

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            Essa variedade é, ao mesmo tempo, uma variedade sistematizada, homogeneizada (a palavra é de Dwight Mac Donald), segundo normas comuns. O estilo simples, claro, direto do copy desk visa a tornar a mensagem transparente, a conferir-lhe uma inteligibilidade imediata. O copy desk dá um estilo homogeneizado – um estilo universal – a essa universalidade que oculta os mais diversos conteúdos. De modo ainda mais profundo, quando o diretor de um grande jornal ou produtor de um filme dizem “meu público”, eles se referem a uma imagem de homem médio, resultante de cifras de venda, visão em si mesma homogeneizada. Eles imputam gostos e desgostos a esse homem médio ideal; este pode compreender que Van Gogh tenha sido um pintor amaldiçoado, mas não que tenha sido homossexual; pode consumir Cocteau ou Dali, mas não Breton ou Péret. A homogeneização (pasteurização) visa a tornar euforicamente assimiláveis a um homem médio ideal os mais diferentes conteúdos.

            Sincretismo é a palavra mais apta para traduzir a tendência a homogeneizar sob um denominador comum a diversidade dos conteúdos.

            O cinema, depois do reinado de longa metragem, tende ao sincretismo. A maioria dos filmes sincretiza temas múltiplos no seio dos grandes gêneros: assim, num filme de aventura, haverá amor e comicidade, num filme de amor haverá aventura e comicidade e num filme cômico haverá amor e aventura.

... O radio tende ao sincretismo variando a série de canções e programas, mas o conjunto é homogeneizado no estilo da apresentação dito radiofônico. A grande imprensa e revista ilustrada tendem ao sincretismo se esforçando por satisfazer toda a gama de interesses, por meio de uma retórica permanente.

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...Tudo que na vida real se assemelha ao romanesco ou ao sonho é privilegiado. Mais do isso, a informação se reveste de elementos romanescos, frequentemente inventados, ou imaginados pelos jornalistas (amores de vedetes e de princesas). Inversamente, no setor imaginário, o realismo domina, isto é, as ações e intrigas romanescas que têm as aparências da realidade. A cultura de massa é animada por esse duplo movimento do imaginário arremedando o real e do real pegando as cores do imaginário. Essa dupla contaminação do real e do imaginário...esse prodigioso e supremo sincretismo se inscrevem na busca do máximo de consumo e dão à cultura de massa um de seus caracteres fundamentais.

O novo Público

            No começo do século XX, as barreiras das classes sociais, das idades, do nível de educação, delimitavam zonas respectivas de cultura. A imprensa de opinião se diferenciava grandemente da imprensa de informação, a imprensa burguesa da imprensa popular, a imprensa séria da imprensa fácil. A literatura popular era solidamente estruturada segundo os modelos melodramáticos ou rocambolescos. A literatura infantil era rosa ou verde, romances para crianças quietas ou para imaginações viajantes. O cinema nascente era um espetáculo estrangeiro.

            Essas barreiras não estão abolidas. Novas estratificações são formadas: uma imprensa feminina e uma imprensa infantil se desenvolvem depois de 50 anos e criam para si públicos específicos.

            Essas novas estratificações não devem mascarar o dinamismo fundamental da cultura de massas. A partir da década dos 30, primeiramente nos Estados Unidos e depois nos países ocidentais, emerge um novo tipo de imprensa, de rádio, de cinema, cujo caráter próprio é o de se dirigir a todos... tanto aos cultos como aos incultos, aos burgueses como aos populares, aos homens como às mulheres, aos jovens como aos adultos; o Paris-Soir tem em vista a universalidade e, de fato, a alcança. Ele não abarca

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todos os leitores, mas abrange leitores de todas as ordens, de todas as categorias. Depois há a transformação do Match de revista esportiva em revista para todos, do atual Paris-Match, que também busca a universalidade... A Radio-Cité cria um novo polo de atração, Nesse meio tempo o cinema passa de espetáculo estrangeiro a espetáculo de todos.

            A guerra, a ocupação, esgotam a cultura de massa, depois o movimento se recupera... com os filmes de vedetes e as grandes produções, pode-se constatar que o setor mais dinâmico, mais concentrado da indústria cultural é ao mesmo tempo aquele que efetivamente criou e ganhou “o grande público”, a “massa”, isto é, as camadas sociais, as idades e os sexos diferentes.

            Concorrentemente se desenvolve a imprensa infantil e a imprensa feminina... essas duas imprensas conquistam para a cultura de massas o mundo infantil e o mundo feminino... vista mais de perto, a imprensa feminina não se opões à masculina. A grande imprensa não é masculina ela masculina-feminina como veremos mais adiante. A imprensa feminina se especializa maciçamente nos conteúdos femininos diluídos ou circunscritos na imprensa masculina-feminina.

            A imprensa infantil, literalmente criada pela indústria cultural, e que floresce atualmente com Mickey, Tintin, Spirou, Os Flinstons, especializada em conteúdos infantis que por aí, na imprensa adulta, estão diluídos ou circunscritos (página das crianças, quadrinhos, jogos). Contudo, ela é ao mesmo tempo uma preparação pata imprensa do mundo adulto.

            A existência de uma imprensa infantil de massa é o sinal de que uma mesma estrutura industrial comanda a imprensa infantil e a imprensa adulta. Esses sinais de diferenciação são, portanto, também elementos de comunicação. Ao mesmo tempo, o fosso que separa o mundo infantil do mundo dos adultos está impregnada de conteúdos infantis (principalmente a invasão das histórias em quadrinhos) e multiplicou o emprego da imagem (fotos e desenhos), isto é, de uma linguagem imediatamente inteligível e

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atraente para a criança; ao mesmo tempo, a imprensa infantil tornou-se um instrumento de aprendizagem para a cultura de massa. Pode-se considerar que quatorze anos é a idade de acesso à cultura de massa adulta: é a idade em que já se vai ver filmes de todos os gêneros (exceto, evidentemente, os censurados), em que já se fica apaixonado pelas revistas, em que já se escuta os mesmos programas de rádio ou televisão que os adultos.

            Pode-se dizer que a cultura de massa, em seu setor infantil, leva precocemente a criança ao alcance do setor adulto, enquanto em seu setor adulto ela se coloca ao alcance da criança. Esta cultura cria uma criança com caracteres pré-adultos ou um adulto acriançado? A resposta a essa pergunta não é necessariamente alternativa. Horkhimer vai mais longe, longe demais, porém indica uma tendência: “O desenvolvimento deixou de existir. A criança é adulto desde que sabe andar e o adulto fica, em princípio estacionário”.

            Assim, uma homogeneização da produção se prolonga em homogeneização do consumo que tende a atenuar as barreiras entre as idades. Não há dúvida que essa tendência ainda não realizou todas as suas potencialidades, isto é, ainda não atingiu seus limites.

            Essa homogeneização das idades tende a se fixar numa nota dominante; a dominante juvenil... a temática da juventude é um dos elementos fundamentais da nova cultura. Não são apenas os jovens e os adultos jovens os grandes consumidores de jornais, revistas, discos, programas de rádio (a televisão, como veremos, é exceção), mas os temas da cultura de massa (inclusive a televisão) são também temas “jovens”.

            Embora a cultura de massa tenha desenvolvido uma imprensa feminina, não desenvolveu, salvo exceções isoladas, uma imprensa específica masculina. Algumas vezes a grande imprensa chega a ser, mesmo, mais feminina que masculina (se se pensa no lugar dado aos temas sentimentais). O cinema, por sua vez, conseguiu ultrapassar a alternativa, que caracteriza a época do mundo, entre filmes com características femininas, ternas, lacrimosas, dolorosas, e filmes com características viris, violentas,

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agressivas: ele produz filmes sincretizados, nos quais o conteúdo sentimental se mistura com o conteúdo violento.

            Há, portanto, uma tendência ao mixage de conteúdos de interesse femininos e masculinos, com uma ligeira dominante feminina no interior desse mixage e, fora dele, uma imprensa feminina especializada em economia doméstica, moda e assuntos amorosos.

            A cultura tradicional, a cultura humanista se detinham nas fronteiras das classes; o mundo camponês e operário, mesmo quando entrou no circuito da cultura primária, da alfabetização, ficou à margem das humanidades: O teatro era e continua a ser um privilégio de consumo burguês. A cultura camponesa ainda permanecia folclórica nas primeiras décadas do século XX. Da mesma maneira, a cultura operária se achava fechada nos subúrbios industriais ou então era elaborada no interior dos sindicatos ou partidos socialistas.

            Ora, o cinema foi o primeiro a reunir em seus circuitos os espectadores de todas as classes sociais urbanas e mesmo camponesas. As pesquisas nos Estados Unidos, Inglaterra e França nos indicam que a percentagem de frequência para as classes sociais é aproximadamente a mesma. Depois, os espetáculos esportivos, por sua vez, drenaram um público saído de todas as camadas da sociedade. A partir da década dos 30, o rádio irrigou rapidamente todo o campo social. A televisão tomou impulso tanto nos lares populares quanto nos ricos. Enfim, a grande imprensa de informação... as grandes revistas ilustradas... se difundiram, desigualmente... mas incontestavelmente em todas as bancas.

            As fronteiras culturais são abolidas no mercado comum das mass-media. Na verdade as estratificações são reconstituídas no interior da nova cultura. Os cinemas de arte e os cinemas de circuito popular diferenciam o público cinematográfico. Mas, essa diferenciação não é exatamente a mesma das classes sociais. Os programas e sucessos do cinema de arte nem sempre coincidem com os dos circuitos comuns, mas, muitas vezes são os mesmos.

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            Os ouvintes de radio se diferenciam pela escolha das estações e dos programas e essa diferenciação de gostos é também uma diferenciação social parcial. As revistas são difundidas muitas vezes segundo as estratificações sociais... os artigos podem ser apreciados de maneira diferente pelo operário ou pelo burguês nos mesmos jornais, mas Paris-Macth, France-Soir permanecem os grandes veículos comuns a todas as classes.

...pode-se adiantar que a cultura industrial é o único grande terreno de comunicação entre as classes sociais... já se pode perceber que a nova cultura se prolonga no sentido de uma homogeneização de costumes.

            Esse movimento é tanto mais importante quanto vai no sentido de uma evolução sociológica: a formação de uma gigantesca camada salarial, no ocidente industrial, para onde confluem, de um lado o antigo proletariado operário que tem acesso a um nível de vida consumidor e a seguros sociais, de outro lado, a antiga classe média que se escoa no assalariado moderno...

            Esse novo “assalariado” permanece heterogêneo: múltiplos compartimentos são mantidos ou construídos entre os diferentes status sociais: os funcionários públicos recusam a identificar-se com os operários, os operários permanecem com sua consciência de classe, a fábrica continua sendo o gueto da civilização industrial.

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 Prestígios, convenções, hierarquias, reivindicações diferenciam e dividem essa grande camada assalariada. Mas, o que a homogeneíza não é apenas o estatuto salarial (seguros sociais, aposentadoria, às vezes seguros de desempregos), é a identidade dos valores de consumo, e são esses valores comuns que veiculam as mass-media, é essa unidade que caracteriza a cultura de massa.

            Assim, a uma nova camada salarial em vias de homogeneização (essas duas tendências contraditórias se efetuando em diferentes níveis) corresponde a uma cultura, ela mesma em vias de homogeneização e de heterogeneização. Não quero dizer que as estratificações culturais correspondam às estratificações da nova camada, quero assinalar uma correspondência sociológica mais vasta e global. Esta cultura industrial seria, pois, em certo sentido, a cultura cujo meio de desenvolvimento seria o novo assalariado... segundo Leo Bogart: “Os Estados Unidos é hoje em dia um país de classe média, não apenas na sua renda, mas em seus valores”, pode-se supor que a nova cultura corresponde igualmente à preponderância (ou a progressão) dos valores de “classe média” no seio do novo assalariado... a nova cultura se inscreve no complexo sociológico constituído pela economia capitalista... Ela é – quando consideramos as classes da sociedade, quando consideramos os estatutos sociais no seio do novo assalariado – o lugar comum, o meio de comunicação entre esses diferentes estratos

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e as diferentes classes...

            Pode-se também, como Leo Bogart, adiantar que “o nivelamento das diferenças sociais faz parte da padronização dos gostos e interesses aos quais as mass-media dão uma expressão para a qual contribuem”. Abordamos aí, ainda uma vez, um problema de fundo. Fiquemos, porém, no momento, na verificação do caráter sincretizante e homogeneizante da cultura Industrial.
...

A tendência homogeneizante é ao mesmo tempo uma tendência cosmopolita, que tende a enfraquecer as diferenciações culturais nacionais em prol de uma cultura de grandes áreas transnacionais (USA). A cultura industrial, no seu setor mais concentrado, mais dinâmico, já está organizada de modo internacional. As grandes cadeias de imprensa... fornecem materiais que são adaptados para múltiplos idiomas... O cinema de Hollywood visa não apenas ao público americano, mas ao público mundial, e há mais de 10 anos as agências especializadas eliminam os temas suscetíveis de chocarem as plateias europeias, asiáticas ou africanas. Ao mesmo tempo se desenvolve um novo cinema estruturalmente cosmopolita, o cinema de coprodução, reunindo não apenas capitais, mas vedetes, autores, técnicos de diversos países.
...

            Todo filme subtitulado já é cosmopolita. Todo filme dublado é um estranho produto cosmopolitizado cuja língua foi retirada para ser substituída por outra. Ele não obedece às leis da tradução, como o livro, mas às leis da hibridação industrial.

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            A cultura industrial adapta temas folclóricos locais transformando-os em temas cosmopolitas, como o western, o jazz, os ritmos tropicais... Pegando esse impulso cosmopolita, ela favorece, por um lado, os sincretismos culturais (filmes de coprodução, transplantação para uma área de cultura de temas provenientes de uma outra área cultural) e, por outro lado, os temas “antropológicos”, isto é, adaptados a um denominador comum de humanidade.

            Esse cosmopolitismo se irradia a partir de um polo de desenvolvimento que domina todos os outros: os Estados Unidos. Foi lá que nasceu a cultura de massa. É lá que se encontra concentrado seu máximo de potência e energia mundializante.

            A cultura industrial se desenvolve no plano do mercado mundial. Daí sua formidável tendência ao sincretismo-ecletismo e à homogeneização, seu fluxo imaginário, lúdico, estético, atenta contra as barreiras locais, étnicas, sociais, nacionais, de idade, de sexo, educação; ela separa dos folclores e das tradições temas que ela universaliza, ela inventa temas imediatamente universais.

            Encontramos novamente o problema do denominador comum, do homem ao mesmo tempo “médio” e “universal”, esse modelo por um lado ideal, e abstrato, por outro, sincrético e múltiplo da cultura de massa.

 O homem médio

             Qual é esse homem universal? É o homem puro e simples, isto é, o grau de humanidade comum a todos os homens? Sim e não. Sim no sentido que se trata do homem imaginário, que em toda parte responde às imagens pela identificação ou projeção. Sim, se se trata do homem-criança que se encontra em todo homem, curioso, gostando do jogo, do divertimento, do mito do conto. Sim, se se trata do homem que em toda a parte dispõe de um tronco comum de razão perceptiva, de possibilidades, de decifração, de inteligência.

             Nesse sentido, o homem médio é uma espécie de anthropos universal.

             A linguagem adaptada a esse antrhopos é a audiovisual, linguagem de quatro instrumentos: imagem, som musical, palavra, escrita. Linguagem tanto mais acessível

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 na medida em que é envolvimento poli tônico de todas as linguagens. Linguagem, enfim, que se desenvolve tanto e mais sobre o tecido do imaginário e do jogo que sobre o tecido da vida pratica. Ora, as fronteiras que separam os reinos imaginários são sempre fluidas, diferentemente daquelas que separam os reinos da terra. Um homem pode mais facilmente participar das lendas de uma outra civilização do que se adaptar à vida desta civilização.

             Assim, é sobre esses fundamentos antropológicos que se apoia a tendência da cultura de massa à universalidade. Ela revela e desperta uma universalidade primeira.

             Ao mesmo tempo, porém, ela (a cultura de massa) cria uma nova universalidade a partir de elementos culturais particulares à civilização moderna e, singularmente, à  civilização norte-americana. É por isso que o homem universal não é apenas o homem comum a todos os homens. É o homem novo que desenvolve uma civilização nova que tende à universalidade.

            A tendência à universalidade se funde, portanto, não apenas sobre o anthropos elementar, mas sobre a corrente dominante da era planetária (cultura norte-americana).

 O consumo cultural

             Em certo sentido aplicam-se as palavras de Marx: “a produção cria o consumidor... A produção produz não só um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto”.

            De fato, a produção cultural cria o público de massa, o público universal. Ao mesmo tempo, porém, ela redescobre o que estava subjacente: um tronco humano comum ao público de massa.

            Em outro sentido, a produção cultural é determinada pelo próprio mercado. Por esse traço, igualmente, ela se diferencia fundamentalmente das outras culturas: estas utilizam também e cada vez mais, a mass-media (impresso, filme, programas de rádio ou televisão), mas se têm um caráter normativo: são impostas, pedagógica ou autoritariamente (na escola, no catecismo, na caserna) sob a forma de injunções 

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ou proibições. A Cultura de massa, o universo capitalista, não é imposta pelas instituições sócias, ela depende da indústria e do comércio, ela é proposta. Ela se sujeita aos tabus (da religião, do Estado, etc), mas não os cria; ela propõe modelos, mas não ordena nada. Passa sempre pela mediação do produto vendável e por isso mesmo toma emprestada certas características do produto vendável como a de se dobrar à lei do mercado, da oferta e da procura. Sua lei fundamental é a do mercado.

            Dai sua relativa elasticidade. A cultura de massa é o produto de um diálogo entre uma produção e um consumo. Esse diálogo é desigual. A priori, é um dialogo entre um prolixo e um mudo. A produção (o jornal, o filme, o programa de rádio) desenvolve as narrações, as histórias, expressa-se através de uma linguagem. O consumidor – o espectador – não responde, a não ser por sinais pavlovianos; o sim ou o não, o sucesso ou o fracasso. O consumidor não fala. Ele ouve, ele vê ou se recusa a ouvir ou a ver. Teoricamente, só se pode concluir que haja uma concorrência infinitamente fraca (10% no máximo) entre essa oferta e essa procura.

            No entanto, se nos colocamos do ponto de vista do tempo, podemos considerar   mesmo nos sistemas totalmente estatizados, a ida ao cinema, o ouvir o rádio ou televisão, a leitura dos jornais não são obrigatórias.

                A auto seleção é o principio mesmo de consumo, isto significa que o consumidor pode desligar seu rádio ou sua TV, não comprar jornal, deixar a sala de cinema. A influência da publicidade não é absoluta, porque as opinions-leaders guiam as escolhas de sua roda no escritório, na fábrica, na família ou entre amigos. Enfim, a frequência do efeito “boomerang” (no qual o público interpreta a mensagem ao inverso das intenções emitidas) nos mostra que o consumidor dificilmente assimila o que contraria seus próprios processos de projeção, identificação e intelecção. Isso não significa que ele tenha livre arbítrio. Mas há ação unilateral das mass-media sobre o público... os efeitos da mass-media sobre a opinião pública... os efeitos sobre o público não estão em consequência e em relação direta sobre com as intenções daquele que comunica nem com o conteúdo da comunicação. As predisposições do leitor ou do ouvinte estão profundamente engajadas na situação e podem bloquear ou modificar o efeito esperado, e até provocar um efeito “boomerang”. B.Berelson, Comunications and Public Opinions in The Process and Effets of Mass – Communication (ref. Cit. In Bibliografia).

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 que ao longo dos anos, os temas que desabrocham ou desfalecem, evoluem ou se estabilizam no cinema, na imprensa, no rádio ou na televisão, traduzem uma certa dialética da relação produção-consumo.

            Não se pode colocar a alternativa simplista: é a imprensa (ou o cinema, ou o rádio etc.) que faz o público, ou é o público que faz a imprensa?

            A cultura de massa é imposta do exterior ao público (e lhe fabrica pseudo-necessidades, pseudo-interesses) ou reflete as necessidades do público? É evidente que o verdadeiro problema é o da dialética entre o sistema de produção cultural e as necessidades culturais dos consumidores. Essa dialética é muito complexa pois, por um lado, o que chamamos de público é uma resultante econômica abstrata da lei da oferta e da procura (é o “público médio ideal” do qual falei) e, por outro lado, os constrangimentos, do Estado (censura) e as regras do sistema industrial capitalista pesam sobre o caráter mesmo desse dialógo.

            A cultura de massa é, portanto, o produto de uma dialética produção-consumo, no centro de uma dialética global que é a da sociedade em sua totalidade.

  
Cap.7 Os Campos Estéticos.

 
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Produzido industrialmente, distribuído no mercado de consumo, registrando-se principalmente no lazer moderno, a cultura de massa se apresenta sob diversas formas (informações, jogos, por exemplo), mas particularmente sob a forma de espetáculo.

É através dos espetáculos que seus conteúdos imaginários se manifestam. Em outras palavras, é por meio do estético que se estabelece a relação de consumo imaginário.

A participação estética se diferencia das participações práticas, técnicas, religiosas, etc., se bem que possa se justapor a elas (um automóvel pode ser ao mesmo tempo bonito e útil, pode-se admirar uma estátua e venera-la). Ela se desabrocha plenamente além das participações práticas.

 Existe, na relação estética, uma participação, ao mesmo tempo intensa e desligada, uma dupla consciência. O leitor do romance ou o espectador do filme, entra num universo imaginário que, de fato, passa a ter vida para ele, mas ao mesmo tempo, por maior que seja a participação, ele sabe que lê um romance, que vê um filme.

A relação estética reaplica os mesmos processos psicológicos da obra na magia ou na religião, onde o imaginário é percebido como tão real, até mesmo mais real do que o real. Mas, por outro lado, a relação estética destrói o fundamento da crença, porque o imaginário permanece conhecido como imaginário.

Por outras palavras, magia e religião reificam literalmente o imaginário: deuses, ritos, cultos, templos, túmulos, catedrais, os mais sólidos e mais duráveis de todos os

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 monumentos humanos, testemunham essa grandiosa reificação. Na estética, em compensação, a reificação nunca é acabada.

            Entre a criação romanesca de um lado e a evocação dos espíritos por um feiticeiro ou médium, de outro lado, os processos mentais são, até um certo grau, análogos. O romancista se projeta em seus heróis, como um espírito vodu que habita seus personagens, e inversamente, escreve sob seu ditado, como um médium possuído pelos espíritos (as personagens) que invocou. A criação literária é um fenômeno meio mediúnico, meio zar (para retomar a expressão etiopiana que corresponde a uma espécie de simulação sincera, a meio caminho entre espetáculo, jogo e magia) de onde nasce um sistema ectoplasmático projetado e objetivado em universo imaginário pelo romancista.

            Este universo imaginário adquire vida para o leitor se este é, por sua vez, possuído e médium, isto é, ele se projeta e se identifica com os personagens em situação, se ele vive neles e se eles vivem nele. Há um desdobramento do leitor (ou espectador) sobre os personagens, uma interiorização dos personagens dentro do leitor (espectador)... simultâneas e complementares, segundo transferências incessantes e variáveis. Essas transferências psíquicas que asseguram a participação estética nos universos imaginários, são ao mesmo tempo infra mágicas (eles não chegam aos fenômenos propriamente mágicos) e supra mágicas (correspondem a um estágio no qual a magia está superada).  É sobre eles que se inserem as participações e as considerações artísticas que concernem ao estilo da obra, sua originalidade, sua autenticidade, sua beleza, etc... Em outras palavras, eu não defino a estética como qualidade própria das obras de arte, mas como um tipo de relação humana muito mais ampla e fundamental.

            Assim, feita de modo estético, a troca entre o real e o imaginário   é, se bem que degradada (ou ainda que sublimada ou demasiado sutil), a mesma troca que entre o homem e o além, o homem e os espíritos ou os deuses, que se fazia por intermédio do feiticeiro ou do culto. A degradação – ou o supremo requinte – é precisamente essa passagem do mágico (ou religioso) para a estética.

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             No decorrer da evolução, a poesia se afastou da magia (encantamento e invocação), a literatura se afastou da mitologia; desde alguns séculos, a música, a escultura, a pintura, se afastaram por completo da religião; a finalidade cultural ou ritual das obras do passado se atrofiou ou desapareceu progressivamente para deixar emergir uma finalidade propriamente estética; assim nós removemos estátuas e quadros dos templos para museus, removendo de um só golpe as significações das anunciações e das crucificações. O mundo imaginário não é mais apenas consumido sob a forma de ritos, de cultos, de mitos religiosos, de festas sagradas nas quais os espíritos se encarnam, mas também sob a forma de espetáculos de relações estéticas. Às vezes até as significações imaginárias desaparecem assim, as danças modernas ressuscitam as danças arcaicas de possessão, mas os espíritos não estão nelas. Todo um setor das trocas entre o real e o imaginário, nas sociedades modernas, se efetua no modo estético, através das artes, dos espetáculos, dos romances, das obras ditas de imaginação. A cultura de massa é, sem dúvida, a primeira cultura da história mundial a ser plenamente estética. Isso significa que, apesar de seus mitos e seus engodos religiosos (como o culto das estrelas de cinema), é uma cultura estritamente profana.