BLOFELD, John.
Taoísmo A busca da imortalidade.
Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1979.

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O amarelo e o branco
(A alquimia ióguica secreta)

            Para os não-iniciados, a expressão “o amarelo e o branco” não passa de um sinônimo poético de alquimia. E mesmo para os iniciados pode significar tanto a transmutação de metais em ouro como uma alquimia interna do tipo descrito em Ioga taoísta... O que se segue creio eu, é a primeira tentativa de divulgação de uma prática que muitos iogues taoístas consideram o cerne propriamente dito do cultivo do Caminho.

Nascidas do Tao e permeando o cosmos, há três maravilhosas energias: kung, ki e shen. São os poderes vitais com que o Tao sustém o universo, provocando o surgimento do ser em pleno vazio, a ascensão e o desvanecimento de milhões de entidades que constituem o reino das aparências. Em sua forma “cósmica” ou “original”, essas energias são puras e sagradas, a fonte veraz da luz e da vida, que engendra forças capazes de operar estupendas transformações. Só o sábio mais iluminado pode avaliar sua imaculada perfeição.

O homem, como tudo o mais, está imbuído de uma parcela desses três tesouros; mas, dado os efeitos das paixões e desejos desordenados, seu quinhão assumiu uma natureza mais grosseira,

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 e precisa ser depurado para volver à pureza original. Daí a importância dessa alquimia ióguica. Embora o objetivo seja igual ao que os budistas chamam “estado de iluminação”, o presente método é exclusivamente taoísta...

            Uma tentativa de descrição da extraordinária metamorfose resultante da prática bem-sucedida será vista no próximo capítulo; aqui, a preocupação se volta para os diversos estágios da ioga. E o primeiro passo deve ser a elucidação desses termos tão ambíguos, king, ki e shen.
 

 
Os três tesouros

 king (essência)
 

Forma rudimentar

Não exatamente idêntica, mas intimamente associada aos fluidos sexuais masculino e feminino, que O veiculam.

 

Forma Sutil,

Interior, dá à matéria sua forma tangível e sua substância

Forma cósmica (yang)

Pertinente ao cosmos, dá forma tangível ao que originalmente cria vácuo indiferenciado

ki (vitalidade)
 

Forma rudimentar

Não exatamente idêntica, mas intimamente associada ao ar que flui pelos pulmões, rins e pontos que o veiculam.

 

Forma Sutil,

Vitalidade indistinta (exceto devido à localização temporária) de sua contrapartida cósmica.

Forma cósmica (yang)

Vitalidade cósmica vista como , virtude do Tao de que todas as coisas estão imbuídas

 shen (espírito)
 

Forma rudimentar

Espírito ainda não depurado das impurezas dos sentidos e dos pensamentos errôneos.

 

Forma Sutil,

Espírito impoluto, livre da contaminação das paixões e do desejo sensual.

Forma cósmica (yang)

Espírito cósmico, vazio, puro, indiferençado.

 

 

 
(Cada um desses três termos costuma ser empregado ora em todos os seus sentidos simultaneamente, ora em um apenas; por exemplo, king pode significar o sêmen real, ki, o ar ou alento real, e shen às vezes aparece como mente.

 
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 Assim, quando necessário, selecione ou coloquei entre colchetes a tradução dos termos mais apropriada ao contexto; mas é preciso ter em mente que as distinções nem sempre são tão simples assim.)

 A base teórica da “alquimia”

            A versão da alquimia interna que aqui oferecemos raramente alude às partes do corpo como “fornalhas”, “caldeirões”, etc., como sucede em outras traduções, pois no presente caso a abordagem é antes espiritual que material – se semelhante dicotomia é admissível num contexto taoísta... Pode-se dizer apenas que nossa tradução é mais acessível a estudantes ocidentais, que carecem de experiência anterior na alquimia ióguica... uma analogia estreita entre as partes do corpo e  o aparato da alquimia externa é desnecessária,  comprova-se pela seguinte passagem de uma obra antiga:

             Seja o Tai hsu [o Grande Vazio] teu caldeirão; seja o Tai ki [Princípio Dinâmico da própria natureza] tua fornalha. Para ingrediente básico, toma a serenidade. Para reagente toma o wu wei, a não atividade. Para mercúrio, toma teus dons naturais [de king, ki e shen]. Para chumbo, toma tua força vital. Para água, toma contenção. Para fogo toma meditação”.