OLIVEIRA Martins, J. P.
História de Portugal, Tomo II
Lisboa: Livraria Bertrand. 1882. 

 

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IV.

D. MIGUEL


A indiferença de D. João VI, o seu amor ao sossego, o seu ódio à rainha, faziam o desespero desta e do seu pupilo querido, o infante D. Miguel. Mãe e filho, como ideia e braço, capitaneavam o partido que à força queria
libertar o soberano, restaurar, com um absolutismo radical, o Portugal antigo e fiel, inimigo dos pedreiros-livres e entusiasta da religião e da monarquia. No paço, o marquês de Loulé influía poderosamente no ânimo do rei, aconselhando-lhe a moderação, desviando-o das aventuras radicais. Em fevereiro de 1824 o marquês apareceu assassinado em Salvaterra. A comédia da corte, burlesca apenas desde o tempo de D. Maria I, aparecia trágica; a anarquia, mansa até agora, embravecia; as nódoas de sangue, o estertor rouco dos moribundos, a pálida amarelidão dos cadáveres vinham dar cores novas ao quadro da sociedade. A revolução de 20, apesar do seu nome e do pomposo e atrevido das suas frases, fora inocente: nem uma gota de sangue tinha corrido. O assassinato do marquês de Loulé foi como o primeiro tiro perdido, de autor ignorado, que no meio do tumulto surdo da rua desencadeia a fúria, marcando a hora da vertigem e da matança. Não podia faltar esta derradeira

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e necessária conclusão ao longo drama da decomposição da sociedade portuguesa.
A devassa ordenada sobre o assassinato do marquês querem alguns que descobrisse a cumplicidade da ferina rainha e do seu brutal filho; e esses dão como imediata causa da
abrilada a necessidade de pôr pedra sobre o processo. O facto é que na noite de 30 de abril sublevaram-se as tropas. D. Miguel proclamou-se libertador do pai, demitiu o governo, prendendo em Belém o marquês de Palmela, chefe dos moderados. A cavalo, pelas ruas, durante essa primeira semana de maio em que se viu o rei, o infante, seguido por um bando de campinos armados de lanças, galopava triunfante. A sua coorte, recrutada nos carros das touradas e nas estrebarias do palácio, os seus amigos plebeus, o Sedvem, os Paiva Raposos, e outros, não o abandonavam jamais. As antigas arruaças estroinas de D. Afonso VI e do irmão de D. João V eram agora, nas mãos do moço infante, revoluções políticas. Plebeu nos modos, violento e bronco no espírito, fanático e valente, o infante democratizava a monarquia, e o seu povo adorava-o. Era corpulento e trigueiro, queimado pelo sol, e tinha uns grandes olhos negros peninsulares sobre a face rapada e sanguínea. Vestia-se à picadora, com um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas de cava, com tacões de prateleira e esporas de prata. Usava um boné azul, de prato largo, com viseira. Tinha inclinações grosseiras e rústicas. Ensinava a lavrar os moços do campo: tomava a rabiça do arado, chicoteava as mulas, e sulcava fundo a terra mais dura. Sufocava um forte cavalo de Alter, puxando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Levantava com a boca um saco de trigo de seis alqueires, e punha-o ao

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ombro com uma só mão. Galopava à desfilada com o José Veríssimo e o Sedvem, de Queluz a Lisboa, trazendo a vara entalada contra a sela, sob a perna.
Os soldados de cavalaria da escolta nunca podiam acompanhá-lo; ficavam para trás. Preferindo as touradas, os cavalos, a caça, as estrebarias, os arrieiros, os picadores, os frades bem grosseiros, as raparigas saloias de Queluz, tisnadas pelo sol e cheirando a erva, aos moles requintes do paço, aos entretenimentos da corte, ao luxo arrebicado e às damas e meninas preciosas da aristocracia – D. Miguel era o demagogo de antigas idades, perdido no meio de um século inimigo. Formado com todas as violências da alma portuguesa, inspirado pelo génio italiano da mãe, era o personagem destinado a imprimir a esta nação do extremo ocidente uma fisionomia semelhante ao Nápoles da outra península mediterrânea, tornando iguais, no fim, duas nações que, quase a par, tinham descido a estrada de uma decomposição fetidamente florida.

         D. Miguel em pessoa foi o alguazil da abrilada: ia às casas arrancar os pedreiros-livres ao seio das famílias, perseguia os fugitivos, a cavalo pelas ruas. O moderado Subserra, querido do rei e alma da situação anterior, conseguira embarcar e fugir: o infante largou à desfilada para a barra, para que S. Julião fizesse fogo sobre o paquete inglês. Corria os quartéis, falava às tropas: os pedreiros-livres queriam matar o rei e a família real! E diante desta explosão da loucura do infante, levantado e aclamado pelas ondas da plebe, pela tropa, pelos frades, Lisboa, pasmada e inerte, observava, consentindo o império do novo partido, que afinal rompia os diques, e transbordava, mandando no paço, no governo, no rei. No meio desta crise, própria
 

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do Cairo ou de Tunes, os embaixadores intervieram, como é costume fazer-se no Egito. O paço da Bemposta, onde o rei vivia, estava cercado; mas os embaixadores, seguindo o da França, cuja intervenção foi decidida e nobre, forçaram o bloqueio e chegaram junto ao rei. Quando D. Miguel entrou e viu Neuville ao lado de seu pai teve um ataque de fúria; mordia e rasgava as luvas, desesperado, com uma cólera quase infantil. O rei estava sobretudo aflito, porque, ignorando o destino do Subserra, julgava-o morto. Neuville sossegava-o. A intervenção dos diplomatas estrangeiros, com quem D. João VI conspirou contra a esposa e o filho, fez abortar a revolução. Dezasseis anos antes fugira para o Brasil: agora fugia, outra vez, para bordo de uma nau inglesa (maio 9) para ordenar daí o desterro do infante e a reabilitação do partido moderado. D. Miguel foi com efeito banido, e por dois anos andou enchendo a Europa da fama das suas tropelias. Expulso de Paris, acolheu-se a Viena, que era  então o baluarte do
direito-divino, com Metternich por sumo sacerdote. D. Miguel era porém um efeito, e não uma causa; a fúria do seu gênio era o desespero de uma sociedade perdida, a que as ideias novas encolerizavam, e a fome perseguia já de perto. A sucessão das miseráveis desgraças, que desde o princípio do século afligiam Portugal, afigurava-se como um castigo do céu contra as impiedades dos pedreiros-livres. Muita, senão a máxima parte da gente assim pensava, incluindo grande número dos homens de 20, convertidos das suas ilusões. Em junho (4) de 24 dissolvia-se a junta encarregada em 23, depois da
 
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Poeira, de preparar uma constituição, e convocavam-se as cortes de Lamego. No
dia seguinte aparecia um alvará anulando todos os decretos das cortes da revolução, por se lhes negar poder soberano ou legislativo. A revolução, perdida, era condenada: a reação imperava franca. Em 25 (agosto, 29) o Brasil separavas se. Reconhecida formalmente a independência, varriam-se as esperanças de readquirir a fonte dos proventos nacionais, e os comerciantes arruinados, a alfândega deserta, o tesouro vazio enchiam de desespero os cérebros de onde a história de três séculos varrera a lucidez. Só uma contrita confissão geral dos crimes liberais, só uma depuração da sociedade, só um terror absoluto, em nome de Deus e do Rei, podiam fazer voltar os bons tempos piedosos, e com eles o Brasil!

        Tal era o estado de espírito da máxima parte da nação; tal era o entusiasmo da plebe; tal era a loucura que encarnara em D. Miguel. Carlota Joaquina, megera horrenda e desdentada, criatura devassa e abominável em cujas veias corria toda a podridão do sangue bourbon, viciado por três séculos de casamentos contra a natureza, atiçava essa chama, como a hórrida feiticeira, no fundo do seu antro, para o lume da sua cozinha diabólica. Ficara, na ausência do infante, para lhe preparar a volta a ele, e ao pobre rei um morrer desgraçado, sem amigos, sem mulher, sem filhos, sem povo, sem nada! Queluz era o palácio querido dessa corte, onde reinava a devassidão plebeia. Entre o muito


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que a revolução destruiu depois, esqueceu deitar por terrao mesquinho arremedo do Trianon, que foi para nós uma bastilha de perdição e vergonha.
          D. João VI preferia a Bemposta, e sobretudo preferia viver longe da rainha, a quem tinha ódio e medo. Não a podia sofrer, nem aos lacaios seus instrumentos. Como aquele rei do Egito alexandrino que varria os seus paços com um chicote, ou como Afonso VI que fustigava com ele os que o aborreciam, D. João VI também correu de bengala em punho o seu paço, atrás da mulata Maria Leonor, criada da rainha, confessada de Fr. José do Pilar, para a castigar, à portuguesa, das piedosas intrigas que armara.

           Em Queluz a rainha, o seu frade, a sua mulata e toda a súcia davam largas ao furor, e conspiravam abertamente. Carlota Joaquina, ao chegar do Brasil, enganando-se com a omnipotência aparente das cortes, jurara a constituição, afetando uma exaltação jacobina que seduziu o ingênuo Borges Carneiro. Mostrando, porém, o tempo a impotência absoluta da revolução, a rainha sentiu que vivo ardor enlouquecia o povo atribulado por tantas e tão repetidas desgraças e vergonhas. Mudou pois de rumo; pôs-se atrás de todos os descontentes, a picá-los, a mordê-los, metendo no corpo do filho um vírus que rebentou num furúnculo, numa fúria – insensata, porque o seu curto juízo não dava para mais! plebeia e sanguinária, porque tais eram as inclinações do seu
temperamento.

          Malograda a abrilada, a rainha, a quem a reação roubara o filho querido e seu instrumento, vestiu-se de dó, retirou-se, lamentando a perda da monarquia. O seu luto era, porém extravagante e burlesco: aparecia, esfarrapada e suja, ...


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Em Lisboa, o governo, indeciso entre a revolução e o absolutismo, moderado ainda, mas inchado e com vertigens como o rei, deixava correr à solta o furor das conspirações. Tudo estava absolutamente podre, caindo a pedaços, esboroando-se numa gangrena. Contava-se de desembargadores do paço que chumbavam dados, marcavam cartas, passavam provisões falsas, eram assassinos, ladrões e cometiam estupros, sem deixarem de rezar o terço e comungar com toda a devoção. Na loja de bebidas de Marcos Filipe, onde se reuniam empregados públicos, sabia-se, por exemplo, que dos 17 da contadoria de Marialva só 3 ou 4 não eram ladrões. Não tinham conta as lojas onde se podia depositar dinheiro para obter empregos, porque, secada a fonte do Brasil, a nação devastada, sem agricultura, nem trabalho, esmolava em massa à porta das secretarias, como a plebe esmolava o seu caldo nas portarias dos conventos. No paço, os canais e empenhos vendiam tudo: mas nos tribunais era pior ainda. No Desembargo do Paço, na Mesa da Consciência e Ordem, no Conselho da Fazenda, vendiam-se até os despachos mais triviais, e as consultas favoreciam quem melhor pagava. A sociedade estava tão pervertida na moral como na inteligência: coisa de resto comum, e por via de regra constante. A polícia era uma malta de denunciadores por dinheiro; e sabia-se de um Pinet, de origem francesa, que dava graus maçónicos a quem os queria, à razão de meia moeda, para receber depois outro preço da polícia, denunciando os novos pedreiros livres. Um registro da Marinha classifica de um modo eloquente o pessoal da armada. O almirante nunca fora bom oficial, nem
 

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tinha força, nem saber. Dos quatro vice-almirantes, um estava incapaz por velho e trôpego, outro nulo por doença, o terceiro valia pouco ou nada, o quarto era ignorante e intrigante. Havia um chefe de divisão que passara de monsenhor da Patriarcal; havia bêbados conhecidos. Por isso a esquadra, que se pretendia dever ir submeter o Brasil rebelde, não partia, não partiu jamais.
        O padre José Agostinho, entusiasta de 20, era em 24 um dos mais bulhentos coriféus da reação. Homem superior, perdido pelo tempo, a sua vida e os seus costumes resumem os diversos aspetos da decomposição final da sociedade. Andava em
troças e orgias permanentes, de faca à cinta. A devassidão, a brutalidade, e o caos de ideias novas, naturalistas, amalgamadas com paixões velhas e opiniões antigas, fervia no seu cérebro e fazia dele um tipo. Fora liberal em 20, era miguelista agora. Todos os sanguinários de 24 tinham sido radicais. O célebre D. Gil, na Rua dos Condes, interrompera os atores aclamando versos liberais, num furor de ensurdecer. O Alpoim enchera a sala de S. Carlos com as suas odes radicais. O Paiva Raposo era lembrado pelos seus vivas à Constituição, no botequim do Marrare; e D. António da Silveira espojara-se rebolando de alegria, no Salão de S. Carlos, na noite de 17 de setembro. José Agostinho, em 24, transformado em energúmeno, vagueava pelas ruas, arrastando o hábito enodado das orgias, declamando e profetizando. Era o ídolo plebeu, e o primeiro apóstolo do miguelismo. Esta relaxação turbulenta, essa anarquia desenfreada a que o frade se convertera, era a lei geral.

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Não havia segurança, nem ordem, nem decência em Lisboa. Um grupo de trocistas armados de vergalhos introduziu-se uma noite no convento do Carmo; e à hora da disciplina invadiu o coro, desancando os frades, desalmadamente, às escuras. A frequência dos crimes crescia todos os dias, com o número dos vadios. Não os assustava a cadeia, onde tinham casa e comida. No próprio coração da capital, nas ruas do Loreto, da Atalaia, da Rosa, da Barroca, havia tendas e tabernas, que eram sabidos covis de malfeitores. No bairro de Andaluz havia assaltos: uma casa defendeu-se a tiro e um dos salteadores ficou morto. Os marujos desembarcavam para roubar. Cosia-se gente a facadas todas as noites. Havia botequins que eram, no saber de todos, covis de bandidos: o bilhar do Abade ao Passeio, o do Bosque, o da Rua dos Condes, o Maneta, no largo do Socorro, e o retiro do Cabeço de Bola, que estava sob a proteção decidida do escrivão do crime do bairro da Mouraria. Os soldados eram os mais assíduos; e de todas as tabernas, a mais terrível era uma da Rua do Loreto, porque nela se reuniam os soldados da guarda real de marinha, os artilheiros nacionais, os artífices engenheiros, de braço dado com os da polícia. A grande questão militar era então a falta de pagamento das fardetas: daí dependia a sorte das instituições!
        Os energúmenos exploravam esta falta do ministério; e viam-se, de braço dado, os frades e os soldados em colóquios íntimos, ouviam-se as catilinárias dos primeiros seduzindo os segundos. Era notado Fr. José da Rocha, Jerônimo conhecido pela frequência das suas bebedeiras, pela sua inclinação pelas súcias e pândegas. Saíam das
hortas e das tabernas, inflamados pelos sermões dos frades,

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bandos de homens de jaleco e de soldados de cacete, para deitar abaixo o governo, matar os pedreiros livres, pôr no trono o senhor infante. E atrás da turba, avinhada e ameaçadora, vinha o grupo do cego com a guitarra e o cão de guia, garoto amarelo e rouco, a cantar de um modo selvagem, com trejeitos lúbricos, cantigas obscenas como o Negro Melro, que provocavam gargalhadas dos frades, dos soldados, das colarejas de faca na liga, das meretrizes debruçadas das janelas. A plebe, reinando já, pedia que lhe dessem o seu príncipe.
        Apareciam pasquins nas esquinas, todos os dias, por toda a parte. Agora D. João VI corria risco de vida; os pedreiros-livres tinham-lhe jurado a morte. Logo, era o rei o traidor: « Portugueses alerta, que el-rei deserta!» Uns anunciavam a chegada próxima do infante, com um exército francês, um exército da fé, como o que Chateaubriand mandara à Espanha
libertar Fernando VII. Mas, como era grande o ódio aos franceses, autores da maçonaria e da liberdade, cuja invasão depredadora lembrava ainda, semelhante notícia irritava muita gente. Queria-se bastante à pessoa de D. João VI, e os energúmenos perdiam-se, desde que, para levantar o infante, deprimiam ou acusavam o rei: « Estou vendo isso, estou vendo! O mais velho (D. Pedro) está desafiando o pai no campo (no Brasil) com a espada na mão: que os brasileiros daqui a dois dias são capazes de o matar! Falta que o mais moço venha por aí, com algum exército francês insultar também o pai» . E o frade, para não ser batido, falava respeitosamente do rei, contando, porém, longas histórias da sua fraqueza, e terminando, ao ouvido, com amor: O menino não tarde por aí...»

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        Esta propaganda ativa lavrava, conquistando as baixas classes; o frade vivia com elas. As diversas ordens monásticas constituíam uma sociedade ao lado da outra – desde os agostinhos, que eram fidalgos, até os plebeus franciscanos. Todas as classes tinham os seus frades, e a propaganda era, assim, íntima, de igual para igual: força enorme que se aliava à de falarem em nome de Deus. Os liberais conspiravam, sim, e pregavam também; mas eram poucos, eram ímpios, tinham o sabor estrangeirado, francês, e pertenciam exclusivamente à grossa burguesia do comércio, muito em baixo desde que se perdera o Brasil. Essa desgraça que os arruinava, fazia-os liberais. O Cais do Sodré era o único ponto onde reinavam, e o café do grego o seu baluarte: aí dava as cartas o mercador Walsh – um inglês herege!
        De resto, por toda a parte, em todos os bairros, rebentavam os focos de agitação
miguelista. No botequim do José Maria, no largo de Belém, onde se reuniam os picadores da casa real, via-se o toureador Sedvem, já solto da abrilada, falando em nome da santa religião; via-se o Gourlade, dando vivas ao infante, e pedindo « forcas e mais forcas» . No café do Nicola, o procurador Paiva afirmava estar decidida a partida do rei para o Brasil, e a vinda de D. Miguel para governar o reino. A própria cadeia do Limoeiro, onde estavam os presos da abrilada, era um clube presidido pelo matemático José Acúrsio das Neves, sempre furioso contra a pedreirada, que lho havia de pagar! O carcereiro estava comprado, e havia dinheiro em abundância. O padre Braga jogava o voltarete, às noites, com o juiz-de-fora de Oeiras, que ia à cadeia visitá-lo e conspirar. O governo via e sabia tudo isso: mas nada podia fazer, porque era coisa nenhuma: era um inchaço, como o rei.
 

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        O povo, que em 1640 não chegara a convencer-se de que D. João IV fosse o verdadeiro D. Sebastião, o encoberto desejado, conforme lho pregava o padre António Vieira, continuava a esperar a vinda de um Messias. Era D. Miguel? Era; mas para muitos D. Miguel, bem no fundo, era D. Sebastião. Havia de voltar por mar, em manhã de névoa; e os fiéis iam todas as tardes às sessões do largo das Chagas, donde se avista a barra e o Bugio; e às vezes deitavam até ao Dafundo, até Cascais, para ver se alcançavam as Berlengas. Os políticos, com o seu espírito positivo e prático, receavam

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o desenvolvimento deste sonho amortecedor; e José Agostinho, esbaforido, não cessava de pregar que o sebastianista era mau pai, mau filho, mau cidadão – e por sobre tudo isso, um tolo refinado.
        A persistência deste sonho durante dois séculos e meio, através de tão diversas condições, apesar da sequência de meia dúzia de reis de uma dinastia nova e indígena, demonstra-nos a profundidade da impressão recebida pela imaginação nacional na catástrofe do fim do XV século. Demonstra-nos que a consciência de um acabar desgraçado, depois de uma existência irremediavelmente perdida, se não apagara, apesar do dinheiro do Brasil, da pompa de João V e do terramoto de Pombal. O sentimento da fidelidade e do amor fixara-se, por fim, nos novos reis; mas como lugar-tenentes apenas do verdadeiro soberano, que voltaria, decerto, com a fortuna perdida, e a coroa roubada nos areais adustos da África...
       Efetivamente o povo não se enganava. A longa história de quase três séculos fora a história de uma decomposição, semeada de incidentes, mas nunca interrompida, nem dominada. O Portugal restaurado era apenas a restauração de uma forma, e não a revivificação de um corpo. Contundido, miserável, roto, faminto, Portugal fora tombando, de baldão em baldão, até o fundo de um abismo de loucura vertiginosa, de abjeção torpe, onde agora se debatia arruinado de corpo e alma. Estonteado pela fé católica, entregara-se nos braços do diretor de morte – o jesuíta. Perdera o rei em África; logo depois os foros da
independência. O jesuíta voltou a dar-lhe um trono e uma autonomia, mas o povo não se iludiu; eram coisas aparentes, formais, vazias de alma, como convinha que fossem a esses coveiros das sociedades, discípulos negros

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de Loyola. Pagou-se com o Oriente a nova independência, e por um nada se perde o Brasil – que ficou para vazar sobre o reino uma chuva de ouro e diamantes. Apareceu então o beatério triunfante e magnífico, manto doirado nos ombros de um corpo roído, de uma nação que era o riso da Europa. Depois veio o terramoto, mas passou; e caiu-se logo mais fundo no abismo da devoção idiota e da corrupção mansa, até que a revolução francesa, agitando a Europa, e a separação do Brasil, secando o erário, fizeram erguer Portugal da sua sonolência e medir ao certo o cúmulo de miséria a que se chegara.
         Quatro homens de gênio que a nação gerara no decurso da sua ruína – o padre António Vieira e o
judeu António José, Bocage e José Agostinho – demonstraram sucessivamente, na extravagância estéril, na grossaria vulgar, no desbragamento e no requinte ridículo das suas obras, a influência perniciosa dessa educação de morte, que tomando conta da nação no XVI século, a entregara, no seguinte, às mãos da dinastia de Bragança, fiel discípulo que veio a exceder os mestres. A nação comovia-se agora, acordava o sentimento vago da miséria em que se afogava; queria subir, libertar-se, viver. Como? se estava decrépita e doida! Como as nações perdidas o fazem: debatendo-se nas crises do terror fanático, da loucura varrida, da abjeção repugnante; revolvendo a vasa imunda: despindo com franqueza os andrajos, para mostrar o corpo chagado, a reclamar vingança e pão. A ditadura de D. Miguel é, nesta Judeia da Europa ocidental, como a crise feroz de Jerusalém quando se debatia contra os romanos. A plebe

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desvairada exerce o papel de fúnebre juiz, e as suas loucuras e os seus crimes são a expiação dos crimes acumulados pelo tempo. Um dia o instinto popular protesta, e a onda da anarquia rebenta. Uma vez impele-a a miragem do futuro: assim acontecera em França. Outra vez arrebata-a a miragem do passado: assim acontecia em Portugal, que vivera três séculos de esperar a restauração do Quinto Império, católico e messiânico.
           Em março de 26 morreu D. João VI. A estulta incapacidade dos políticos demonstrou-se então cabalmente. O primogênito, que se levantara com o Brasil declarando-se imperador, desistiu da coroa portuguesa em favor da filha, D. Maria II, e outorgou ao reino uma carta constitucional. Sob o regime de uma monarquia temperada, a rainha, desposando o tio D. Miguel, continuaria a fruir em sossego o morgado de Portugal, segundo o sistema mesquinho em vigor desde 1640. Haveria paz e concórdia; evitar-se-ia o rebentar da procela que todos sentiam nos ares.
           D. Miguel voltou ao reino (1828, fevereiro), regente em nome da sobrinha, que devia esperar para as bodas, e jurou a nova constituição. Os
políticos, moderados e prudentes, aplaudiam tudo, confiando no êxito da sua combinação singular. Se acaso o regente, ao jurar, acreditou nela e no tálamo e na coroa que lhe ofereciam, um mês bastou para o forçar a desempenhar o papel que as circunstâncias lhe impunham. Se não era tão crente e tão forte como o partido que o elegia chefe, esse partido obrigou-o a mentir a todas as

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combinações dos hábeis, dissolvendo as cortes (março) e aclamando-se rei (junho)
        A tempestade rebentou logo. Todos os elementos que estudamos, até então comprimidos e refreados, se soltaram; e a onda da anarquia da plebe, o delírio da vingança, as perseguições, os exílios, as forcas invocadas com tanto amor – saíram à luz do dia, para punir os homens cuja impiedade arrastara o reino a tantas desgraças: os liberais, réus da perda do Brasil, os pedreiros-livres cujos pecados Deus fulminava com o dilúvio de desgraças que se despenhava sobre a nação.
Vae pastoribus qui disperdunt et dilacerant gregem pascuae meae!
         Esses pastores sem grei, esse grupo de homens desnacionalizados pela educação francesa que lhes ensinara os dogmas da novíssima idolatria da Liberdade e do Progresso, resistiram primeiro no Porto (1828, maio), mas foram esmagados. Depois acantonaram-se na Terceira, onde se lhes reuniu o ex-imperador do Brasil, ex-rei de Portugal, regente em nome da filha (1832, março)
– para reivindicar o trono, invocando uma legitimidade contestada, e os novos princípios que decididamente venciam na Europa com a revolução de julho e a monarquia de Orléans na França.
 

Começou então uma guerra de quatro anos, cujos fastos, presentes a todos, ainda não foram historiados condignamente. A circunstância, aparentemente singular, da vitória final do exército de D. Pedro, numericamente inferior de dezenas de milhares de homens, sem homogeneidade, formado de voluntários e de soldados de fortuna, mercenários contratados por toda a Europa, essa circunstância explica-se, sem ser necessário entrarmos na avaliação do mérito pessoal dos capitães. Por D. Pedro combatiam a França e a Hespanha

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liberais; por D. Pedro combatia, sobretudo, a fatalidade das crises que devoram rapidamente as forças sociais orgânicas, à maneira da febre que queima o sangue e mata. O ardor, o entusiasmo, a unanimidade da reação miguelista traduziam uma crise de desespero da sociedade: era um histerismo que, depois de entorpecer lentamente o corpo da nação, rebentava numa fúria, para logo a deixar prostrada e semimorta. Esse mesmo caráter, que dava momentaneamente a força, era a causa de muitas fraquezas, pervertendo o juízo, conturbando a lucidez, e pondo em seu lugar a doidice varrida com que se arrostava a terra, o mar e o mundo; com que se queria afundar a esquadra francesa no Tejo; com que se negava à Inglaterra a amnistia, condição por ela imposta ao reconhecimento do governo de D. Miguel.

O tempo que durou o cerco do Porto, um ano, bastou para que esse
débil  cáustico, aplicado ao enfermo devorado de febre, lhe abatesse o delírio, a ponto de um punhado de homens e alguns navios serem capazes de destruir a esquadra no Cabo de S. Vicente, e descerem através do Alentejo a Lisboa, ocupando-a sem disparar um tiro. Depois, as batalhas de Almoster e da Asseiceira, bravamente pelejadas, foram já um epílogo: o enfermo caíra no estado comatoso; estava por tudo, aceitava quem quer que quisesse impor-lhe o mando. A sociedade, extenuada pela derradeira crise, caía num torpor de indiferença, de que não chegou a acordar de todo ainda nos dias de hoje

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          Os pastores sem grei, os revolucionários liberais eram uma ressurreição de Pombal e vinham construir de novo, sobre as ruínas do regime antigo, da mesma forma que o ministro construíra sobre as ruínas do seu terramoto. Então e agora a sociedade era como um barro nas mãos do oleiro; e à antiga educação jesuíta, só agora por fim destruída, se devia a maleabilidade da matéria-prima sobre que Mouzinho da Silveira, novo Pombal, imprimia as formas do modelo estrangeiro que o guiava.
          O edifício levantou-se; mas a história dos tempos sucessivos veio mostrar uma diferença íntima e profunda. Pombal apoiara a sua reforma exótica na força existente e positiva da autoridade do rei, segundo o código do absolutismo, já formulado e recebido; Mouzinho apoiava-se na espada e no exército do duque de Bragança, mas esse apoio, por não ser jurídico, por traduzir apenas a força da ditadura triunfante, era transitório – como logo se viu, quando D. Pedro chegou a Lisboa e o insultaram; como desde o princípio se tinha percebido nas reclamações formais dos sectários a que veio a chamar-se
setembristas.
          
O novo sistema trazia por alicerces a vontade comum, a soberania do povo, segundo os dogmas da novíssima religião da França; mas quem diria ao certo qual era esse querer, em um povo abatido e morto, ignorante das fórmulas, adverso aos sistemas? Educado pelos jesuítas, não fora possível ao marquês de Pombal iniciá-lo no naturalismo mecanista e utilitário de onde saiu por toda a parte o liberalismo individualista. Sem prévia iniciação, davam-nos, pois, a liberdade, a soberania popular, e tantas outras coisas cujo valor ignorávamos, cujos merecimentos contestávamos em nome das nossas tradições.
 

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Por isso a construção levantada por Mouzinho da Silveira oscilou por vinte anos, sem alicerces, batida pelo vento das revoluções, desconjuntando-se no seio de uma anarquia, ameaçada a toda a hora de uma ruína iminente.A história contemporânea das revoluções a que deu lugar o estabelecimento do liberalismo entre nós não tem lugar neste livro; e o último episódio da nossa história será o rápido esboço da construção social planeada por Mouzinho, um hábil arquiteto, exercida pelo duque de Bragança, um valente mestre de obras. Guiar-nos-á nesta excursão um homem que assistiu à faina, e sabia vê-la com os melhores olhos: Alexandre Herculano.
 

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V.

A REVOLUÇÃO LIBERAL


          Se para todos os miguelistas ainda no gozo de um pedaço de juízo a reconquista do Brasil parecia já impossível, a esperança de restaurar a situação antiga formava, contudo, um dos artigos do programa do partido. Os homens de 20 eram, no dizer dele, os culpados da separação, que de facto 1820 não fez mais do que precipitar com as suas medidas impolíticas e temerárias. Quem separara o Brasil fora D. João VI. Desde 1808 que as rendas da casa de Bragança, da do Infantado, da das rainhas, de muitas casas particulares, além de uma valiosa consignação mensal, embarcavam em Lisboa com destino ao Rio. A situação relativa invertera-se: Portugal era a colônia, metrópole o Brasil, onde se acha o rei.

          Portugal, o velho conquistador das costas de África e Ásia, o colonizador da América, diz Herculano, tinha-se tornado, por sua vez, uma colônia do Brasil, onde um governo corrupto, os ministros de D. João VI, espécie de rei Renato com os chapéus gordurosos de Luís XI, desperdiçavam loucamente os impostos ou os roubavam, para se locupletarem ou para enriquecerem aventureiros sem mérito e fidalgos abastardados. Politicamente, éramos colonos ingleses. O nosso exército era inglês, com soldados, apenas, nascidos em Portugal.
        Um general inglês governava-nos por meio de uma Regência servil que se dizia representar em Portugal o rei, fugido no Rio de Janeiro.

        A abertura dos portos do Brasil aos navios de todas as nações, e os tratados de 1810, finalmente, eis aí os principais atos que de facto haviam dado ao Brasil a autonomia econômica, infalível precursora da autonomia política. As cortes de 1820 não fizeram mais do que precipitar a consumação de um facto realizado pela emigração e pelas medidas de D. João VI.

        Porém as cortes e todo o reino, observando a miséria em que se caía; porém os interessados partidários do velho regime, vendo secar-se a fonte do seu parasitismo, propunham-se unanimemente a fazer retrogradar a história. Os produtos agrícolas de Portugal davam apenas para o consumo de 2 ou 3 meses; todo o resto se comprava com ouro, que dantes vinha do Brasil. Agora, esgotado esse rio, como se havia de viver? Das indústrias nacionais? Não; porque Portugal não tecia uma polegada de algodão, e mandava a sua cortiça para a Inglaterra para a receber na forma de rolhas. De Inglaterra vinham o fato e o calçado; e o vinho do Porto – Brasil criado em casa pelo marquês de Pombal – baixara excessivamente desde que a paz de 1815 tornara acessíveis todas as adegas da Europa ao copo infatigável do inglês. A pipa do vinho generoso de embarque não valia mais de 10$00 réis, e 5 ou 6, apenas, o vinho comum.

        Era uma miséria universal, e uma certa, infalível mendicidade. De 1820 a 28, nos anos que precederam o rebentar da crise, havia ainda uma esperança positiva e universal: a expedição do Brasil, a esquadra que havia de sair para submeter os rebeldes.

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        Essa esquadra, porém, jamais levantava ferro, e o povo afirmava de todos os seus pastores que « não queriam senão comer» . Eis aqui, textual e rudemente expressa, a opinião colhida da boca de uma testemunha, intérprete do espírito popular: « Está tudo perdido; e as nações estrangeiras fazendo o negócio do Brasil. Arre! que isto não é governo. Acabe-se uma vez com isto, ou experimente-se se se pode ou não restaurar o Brasil. Deixem demorar o caso, que daqui a dois dias não hão de lá pôr o pé, e então morreremos aqui todos à fome» . Havia bons 6000 contos de papel moeda com ágio, e o orçamento de 29 dizia assim: – receita 6000, despesa 15000, faltam 9000 contos.  
        O motivo mais cruel da crise foi esta fome que todos previam. Os que  tinham, além de fome, opiniões apaixonadas, esperavam que D. Miguel exterminasse primeiro a
pedreirada, restabelecesse na sua pureza o antigo regime, para depois se conquistar – depois se conquistaria, sem dúvida alguma! – o Brasil. A pedreirada, porém, rebelou-se, pegando em armas; e como elegeu para chefe o instrumento da autonomia política do Brasil, o ex-imperador D. Pedro, claro está que a sua vitória implicava a negação formal de todas as esperanças. Era este um motivo mais para tornar impopular o partido dos ímpios, cujo chefe espoliara o pai e o reino.
        O Portugal histórico, a nação que vivera da Índia, depois do Brasil, ninho de mercadores e soldados, escritório de uma vasta fazenda ultramarina, acabava por uma vez, para todo o sempre. Por isso a estrutura interna da sociedade devia transformar-se, para poder passar a viver à lei da natureza, e não como até aí vivera: como uma Holanda. Mediram todo o alcance da revolução os seus sectários? É lícito supor que foram principalmente impelidos pelos argumentos doutrinários, pelas influências da nova escola do direito público – os que o não foram pelo simples motivo do interesse ou da defesa, decerto justa contra a tirania, mas insuficiente, por si só, para inspirar e dirigir uma revolução, imposta e não pedida por um povo que a desadorava.


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antes e depois de 1831-
4, a história do liberalismo é uma comédia de mau gosto; e nesta mesma época há apenas duas grandes e nobres figuras: Mouzinho e o filho de D. João VI. O
resto não vale a pena da menção. São financeiros e barões, viscondes, condes, marqueses, de fresca e mesmo velha data, comendadores, grã-cruzes, conselheiros: uma turba que grunhe, burburinha, fura, atropelando-se e acotovelando-se na obra de roer um magro osso chamado orçamento, e que grita aqui-d'el-rei! quando não pode tomar parte no regabofe» .

       Assim devia e tinha de ser, porque tal é a condição fatal de todas as ditaduras ou cesarismos, e este é o verdadeiro nome da revolução de 34. Quando um homem, ou um grupo, impõe a uma nação o regime, embora salutar, que ela não pede espontaneamente;

 

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        Os recursos ultramarinos tinham dado bastante para viver folgadamente uma existência de dissipação. O entusiasmo religioso, gradualmente pervertido, e o espírito aristocrático, que descera a mesma ladeira, tinham-se tornado em dois instrumentos aspiradores que sugavam todo o rendimento da terra; instrumentos agora carcomidos sobre um soldo já devastado. Os dízimos, criados no XII e no XIII século para as despesas do culto e caridade, eram, quinhentos anos depois, uma coisa secular. Guardavam-se ainda as aparências, e às ordens religiosas militares cabia ainda, com efeito, a melhor parte do produto do imposto: tinham a obrigação de manter o culto em toda a parte onde cobravam o dízimo. Desde que ele, porém, em grande parte, se distraía da sua primitiva aplicação, o baixo clero teve de vender os serviços religiosos, criando o pé de altar. A máxima parte das paróquias vivia neste regime, e o dízimo constituía a renda dos nobres e poderosos que se inscreviam na jerarquia eclesiástica. O rei cobrava um quinhão, apenas, sob forma de tributos ou de empréstimos extorquidos à Igreja. Além do dízimo, os foros ou direitos dominicais secavam os terrenos tradicionalmente pertencentes à coroa e possuídos por contratos enfitêuticos: tais censos atingiam nos realengos a quarta parte do rendimento bruto. – Entre a coroa, os fidalgos e morgados, a Igreja, as ordens militares e monásticas, distribuía-se, pois, a quase totalidade do rendimento líquido da nação: eram essas classes que, salariando uma população mendiga e decrescente, governavam de braço dado com a fidalguia burocrática.           As ordens militares desfrutavam os bens de 653 comendas, e nas secretarias havia um exército: quase 3000 empregados. Só o Erário contava 800. Os conventos eram 534, com doze mil frades e freiras, por metades, com a renda de quase mil contos em dinheiro, e milhares de moios de trigo, de cevada, de milho, de pipas de vinho e azeite, e legiões de porcos e carneiros, nuvens de

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          Sobre os encargos tradicionais assentavam os impostos locais do consumo, e os impostos gerais para as necessidades do Estado; porque as classes diretoras tinham perdido com o tempo a consciência de que eram depositárias, e não donas, desses bens que a história lhes confiara, quando lhes atribuiu o encargo de presidirem ao organismo social. Em volta de uma coroa, de facto dependente apesar de absoluta de direito, formigava uma nuvem de donatários e alcaides, comendadores e prelados que eram os verdadeiros reis, nas suas pequenas monarquias. O capitãomor, tipo que a imaginação popular conservou tradicionalmente, era com efeito um modelo. Reunindo na sua mão todos os poderes, tinha a autoridade de um cádi. Governava patriarcalmente em ambos os sexos, recrutando ao mesmo tempo as tropas de soldados e as das suas huris serranas.
        Mouzinho da Silveira não era militar, e por isso, no acampamento da Terceira, o furor com que amontoava decretos sobre decretos, reconstituindo a estrutura da sociedade, passava por uma singular extravagância de quem não era tido como senhor de todo o seu juizo. Estava ao lado de D. Pedro, como os filósofos gregos ao lado dos tiranos da Sicília. Essa extravagância, porém, lida e comentada no reino, abria os olhos a muitos, convertendo-os; aumentava a opinião de que se devia pôr de parte a ideia de recuperar o Brasil, porque o verdadeiro Brasil estava em casa, na terra a libertar, no trabalho a remir, na mão-morta a partilhar. Entre os diversos calmantes que apressavam a baixa da temperatura febril do reino
miguelista, os decretos de Mouzinho valeram tanto ou mais do que a influência da Europa: valeram mais, decerto, do que as batalhas do cerco do Porto. Eram granadas sem limite de alcance: rebentando, feriam a inteligência e o interesse, em vez de ferirem apenas o físico.

        Quando a vitória das armas consentiu que se implantasse o novo sistema, tornou-se facto indiscutível que o antigo jamais se restabeleceria. Não houve mais a temer uma restauração como fora a de 23, porque o estadista procedera de um modo prático e não abstrato, como se tinha feito em 1820.


Aboliram-se os dízimos eclesiásticos e os direitos feudais, libertando-se por tal forma a propriedade rural e o trabalho agrícola, a pequena indústria e o pequeno comércio de dois terços de impostos só em mínima parte cobrados pelo tesouro da nação. Separaram-se as funções judiciais das administrativas, organizando-se os tribunais e implantando-se o sistema administrativo francês. Tornaram-se os empregos públicos pessoais e vitalícios, suprimindo-se a hereditariedade. Libertou-se o ensino. Aboliram-se as milícias. Restringiram-se os morgados aos que rendiam mais de 200$000 réis. Decretou-se a desamortização e secularizou-se um certo número de conventos. Limitou-se a

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          Sisa aos bens de raiz, reduzindo-a a metade do que era. Aboliram-se vários monopólios, entre eles o da venda do vinho do Porto fora de Portugal.
         Por outro lado, fecharam-se violentamente os conventos de frades, proibiram-se os votos de freiras, chamando ao fundo da propriedade coletiva todos os bens das ordens religiosas.
          Era um terramoto como o do marquês de Pombal.

        Mais tarde, a sociedade, decididamente convertida ao utilitarismo, consumou-o abolindo de todo os morgados, o privilégio histórico da barra do Douro, e outros monopólios. já então Portugal estava lançado no caminho que factos de outra ordem concorriam a abrir-lhe.
            A anarquia histórica terminara por uma violenta explosão de todas as paixões antigas feita homem na pessoa de D. Miguel; e por uma destruição formal de todo o passado, por uma negação absoluta cujo apóstolo foi Mouzinho, cujo braço foi D. Pedro. Depois desta decisiva campanha em que a história foi vencida, os ecos dos combates prolongaram-se no tempo, como ribombar de trovão repercutindo-se pelas quebradas das montanhas. A anarquia, reinando em nome da reação e da revolução; a anarquia no governo e na plebe, a anarquia dos tumultos e das praças, nos atos e nas ideias, no radicalismo e na tirania, nas perseguições e nas reivindicações, na administração e na fazenda, na economia e nos costumes – foi gradualmente amansando. Obliteraram-se os ódios, varreram-se as tradições do duelo de quinze anos, e a sociedade, vestida à moderna, desquitada da história, renegando as tradições, apareceu outra
.
            Ponhamos aqui umas breves palavras, para concluir. A história da nossa vida contemporânea tem lugar noutra parte; mas ao despedirmo-nos do Portugal antigo, cuja vida de mais de sete séculos estudamos, seja-nos lícito parar, indagando a natureza do novo ser criado pela audácia e pela vontade dos autores da revolução de 1834.
             Lançadas no esquecimento as tradições antigas, destruída a estrutura social da velha nação jesuíta, que nova alma deu a revolução ao pais? A idolatria da liberdade e do progresso, em cujo nome os ideólogos o agitaram com sucessivas revoltas, só podia ser um culto para os homens educados pela Europa contemporânea. O povo, quando os seguia, era apenas arrastado por seduções, por influências, por ilusões – porque não havia, nem podia haver, nele consciência. A vida política da nação, debatendo-se entre as ambições e as ideias apaixonadas dos chefes de partido, foi por vinte anos uma desordem.
          Não concorria para esse resultado a ideologia liberal apenas, pois, com os seus processos condenáveis, com as suas tendências intolerantes, os nossos
doutrinários semeavam também a anarquia, ao mesmo tempo que procuravam consolidar a obra da revolução, chamando o país à vida prática do trabalho – mais definida expressão do progresso idolatrado do que as fórmulas vazias dos simpáticos reformadores radicais. Sem escrupulizarem nos meios, os

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estadistas audazes, que sentiam a tendência decisiva dos tempos modernos para o industrialismo, padeciam os vícios comuns a todos os partidos que não têm outro norte além da Utilidade. Corrompiam, atacavam intimamente a fibra mole de um povo entorpecido; e por esse meio eficaz, muito havia em Portugal, conseguiam conservar-se, sem conseguirem domar a ambição entusiasta, nem a cólera nobre, nem as ilusões tenazes dos caudilhos radicais.
          Deste conflito de opiniões e pessoas nasceu uma situação que todos vieram a reconhecer intolerável. Quando dizemos todos, referimo-nos aos políticos; porque, na sua grande massa, o povo, não compreendendo a nova religião, desadorava-a por ver que esse verbo novo não conseguia estabelecer uma paz e uma fortuna que agora, depois de 34, já pelo menos sabia desejar. A nova autoridade dizia fundar-se na vontade coletiva, porque o direito divino fora condenado; mas como tal autoridade não existia, por faltar ao povo a consciência da sua força e a inteligência para usar dela, o sistema traduzia-se apenas por uma sucessão de quimeras, um rosário de mentiras, à sombra das quais pululava um formigueiro de ingênuos crentes e de aventureiros atrevidos.

           Foram todos esses que, ao fim de vinte anos, se sentiram fatigados de batalhas e intrigas. Por um compromisso, finalmente sincero, levados pela habilidade de um homem superior, frio e sem escrúpulos, os partidos assinaram tréguas, e o povo impôs a essas tréguas o caráter de paz definitiva. Conhecera que, nesse tumulto de vinte anos em que todos, vozeando, queriam salvá-lo, só ele era o perdido. Impenetrável à religião da democracia por ignorância, e desadorando-a agora por ver a qualidade dos seus apóstolos, começava a venerar essoutra religião que a segunda metade do século punha nos altares da antiga: a Utilidade, isto é, o progresso da viação num país que nunca tivera estradas, o progresso das culturas, dos rendimentos, do bem-estar. Desquitou-se formalmente dos políticos; pôs ponto às revoluções deles; tapou os ouvidos às suas declarações posteriores; guardou a clavina de guerrilheiro ao canto da alcova, deixando-a enferrujar, e deitou-se a uma nova faina. Daí proveio um desenvolvimento rápido e considerável da riqueza nacional.
         A política ressentiu-se desta decisão formal do povo, e amansou. Fez-se melhor administradora; passou a cuidar mais das necessidades públicas do que dos interesses e das paixões das pessoas. Entretanto, os vícios antigos não podiam varrer-se tão depressa. No XVIII século, Portugal quase se tornara um comunismo monástico, em que as classes privilegiadas, fruindo todos os rendimentos, distribuíam comedorias à nação sob a forma de empregos e outras. O Brasil dava para tudo: o reino valia pouco. No cataclismo de 34, quando se confiscaram os bens das ordens e da coroa, houve uma larga seara a repartir; e por modos diferentes, essa massa de propriedade passou (como sucede sempre) das mãos do vencido para as do vencedor. Isto, porém, não podia influir na economia da nação, e a pobreza antiga continuou como dantes. O Tesouro,

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pedinte, gemia sob o peso das obrigações tradicionais, agravadas agora pelo exército de gente nova a que era necessário dar de comer. Sucessivas bancarrotas foram liquidando as situações criadas por tantos vícios.
           Depois da última, em 1851, veio uma causa nova juntar-se às anteriores. A construção de obras públicas, num país ignorante e pobre, tornou-se ao mesmo tempo uma aprendizagem cara, um campo a explorar por toda a casta de aventureiros estrangeiros, e um mercado rendoso para os bancos encarregados por nós de nos angariar dinheiro que não tínhamos para as obras que projetávamos. Da reunião das causas antigas e modernas proveio o desordenado acréscimo da dívida nacional e a voracidade correspondente do imposto
.
          A consequência mais profunda da revolução liberal foi a rutura da tradição, o acabamento definitivo do
sebastianismo: exprimindo por esta palavra simbólica todo o corpo de ideias, ambições e costumes históricos. Substituiu-se-lhe, porém, a consciência de uma nova pátria moral? Acordou-se o sentimento de um verdadeiro individualismo, fundado na religião (consinta-se-nos dizer assim) democrática? A personalidade tornou-se forte e consciente dos seus direitos? A inteligência apurou-se? Cresceu o saber? Pôde, com estes elementos, constituir-se o corpo homogêneo de uma nova nação real e viva?
         Afigura-se-nos que não; e oxalá isto seja apenas a ilusão de um espírito triste.
          A vazia agitação política, resultado necessário dos regimes parlamentares, parece condenar os pequenos países a uma esterilidade intelectual, porque absorve todas as capacidades desde que desabrocham. A direção moral que só a ciência pode dar desaparece, e os institutos e as academias vazam-se para encher os parlamentos e alimentar o jornalismo. Vê-se, pois, uma educação aparentemente mais extensa, mas de facto sem intensidade, nem vigor, condenada a uma decadência fatal. Não se sabe mais do que o praticamente indispensável, e por isso mesmo a craveira do saber necessário se fecha diariamente, chegando-se afinal a uma vulgaridade banal.
        Essa mesma agitação política, por natureza inimiga do caráter que amesquinha e deprime, vicia o temperamento das nações condenadas a sacrificarem à profissão todos os seus melhores homens. A corrupção, mais ou menos positiva, a sedução da vaidade, das prebendas, dos empregos, da influência, lança nos carateres uma semente de perversão que germina no corpo de uma sociedade desprovida de um escol de homens sábios, de carateres fortes, alheios às misérias comuns: fibra íntima, mola resistente, que ponha em cheque a influência deletéria da intriga.
         A limitada área das operações administrativas, a exiguidade relativa dos recursos do tesouro impedem, por seu turno, que se dote o país com a instrumentação necessária a um amplo desenvolvimento da riqueza e do saber,

 

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porque esses gastos-gerais das nações não são proporcionais ao seu tamanho, mas quase idênticos em todas elas. Assim, causas de ordem exterior vêm concorrer para agravar as causas de ordem íntima.
          Desde que o saber falta, os erros acumulam-se precipitando a ruína; desde que falta o caráter, a venalidade concorre para encarecer o custeio dos serviços; e ao mesmo tempo o reconhecimento da necessidade de progredir materialmente – e para esse não é mister caráter, nem saber – arrasta a empresas que, entregues a órgãos incapazes, podem ser cataclismos.
          Para além dessa já numerosa classe que governa e intriga, de um modo em que não é lícito ver nobreza nem elevação, burburinha um enxame de trabalhadores obscuros, lavrando pacientemente a terra e transformando os seus produtos, indiferentes a ideias que desconhecem, esquecidos de uma religião anacrônica, desconfiados ou descrentes dos homens, inspirados e movidos pelo propósito único de semear e colher os frutos do seu trabalho. São eles a matéria prima da sociedade, mas ninguém descobre nessa turba a fisionomia própria das nações. São uma população provincial que enriquece. Até hoje – não é ousadia afirmá-lo – nem eles por si próprios, nem, por eles, os que os mandam, souberam tornar essa matéria-prima, animá-la, dar-lhe a homogeneidade de forma e a vida própria dos organismos coletivos.
          Daí vem o caso, talvez único na Europa, de um povo que não só desconhece o patriotismo, que não só ignora o sentimento espontâneo de respeito e amor pelas suas tradições, pelas suas instituições, pelos seus homens superiores; que não só vive de copiar, literária e politicamente, a França, de um modo servil e indiscreto; que não só não possui uma alma social, mas se compraz em escarnecer de si próprio, com os nomes mais ridículos e o desdém mais burlesco.
          Quando uma nação se condena pela boca de seus próprios filhos, é difícil, senão impossível, descortinar o futuro de quem perdeu por tal forma a consciência da dignidade coletiva. Continua ainda a decomposição nacional, apenas interrompida de um modo aparente pelas ideias revolucionárias e pela restauração das forças econômicas fomentadas pelo utilitarismo universal?
          Ou presenciamos um fenômeno de obscura reconstituição, e sob a nossa indecisa fisionomia nacional, sob a nossa mudez patriótica, sob a desesperança que por toda a parte ri ou geme, crepitará latente e ignota a chama de um pensamento indefinido ainda?