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NOTA PRÉVIA À TERCEIRA EDIÇÃO
1. Interpretação da Gravura de Albrecht
Dürer que Ilustra a Capa desta Obra
Profundamente Enigmática
Já não se fazem mais maliciosos
como antigamente. Se O
Imbecil Coletivo fosse
publicado na década de 50, logo apareceria algum espertinho para dizer que o
autor, vaidosamente, imprimira na lombada seu próprio retrato. Como agora
ninguém, por mais irritado que estivesse com a obra e o autor, se lembrou de
fazer essa observação, faço-a eu mesmo, assumindo, com um misto de serenidade
búdica e indiferença olímpica, todas as suas porcas consequências. Sim,
leitores, o porquinho da lombada não é nem o prof. Leandro Konder, nem o prof.
Emir Sader, nem o dr. Muniz Sodré, muito menos qualquer dos outros seres do
mundo lítero-filosófico denunciados neste livro como
criadores, sacerdotes e portavozes de doutrinas imbecilizantes, os quais
poderiam imaginar que eu ali os tivesse retratado no intuito perverso de lhes
atribuir caluniosamente alguma qualidade porcina. Nada disto me passou jamais
pela cabeça. Bem ao contrário, o porquinho sou eu mesmo, inerme e atônito
ouvinte dos discursos do néscio doutor, como se vê na gravura de Albrecht
Dürer que ilustra a capa da obra, e da qual foi recortado o perfil que dá à
referida lombada o seu toque inconfundivelmente suíno.
Quanto ao outro porquinho e aos dois gansos, não tenho alternativa senão
concluir que são vocês mesmos, queridos leitores, condenados comigo a comer no
mesmo cocho e a ouvir o mesmo discurso.
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A função de
O Imbecil Coletivo
na coleção
é bastante explícita e foi declarada no
Prefácio: descrever, mediante exemplos, a extensão e a gravidade de um estado de
coisas – atual e brasileiro – do qual A Nova Era dera o alarma e cuja precisa
localização no conjunto da evolução das ideias no mundo fora diagnosticada em
O Jardim das Aflições.
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Temível porque
originalidade é singularidade, e a mente humana está mal equipada para perceber
as singularidades como tais: ou as expele logo do círculo de atenção, para
evitar o incômodo de adaptar-se a uma forma desconhecida, ou as apreende somente
pelas analogias parciais e de superfície que permitem assimilá-las erroneamente
a alguma classe de objetos conhecidos. Entre a rejeição silenciosa e o engano
loquaz, minha trilogia não tem muitas chances de ser bem compreendida.
Mas a
singularidade, nela, não está só no assunto. Está também nos postulados
filosóficos que a fundamentam e na forma literária que escolhi para
apresentá-la, ou antes, que sem escolha me foi imposta pela natureza do assunto
e pelas circunstâncias do momento.
A um exame mais
detalhado, revela a unidade da ideia subjacente, encarnada no símbolo que fiz
imprimir na capa: os monstros bíblicos Behemot e Leviatã, na gravura de William
Blake, o primeiro imperando pesadamente sobre o mundo, o maciço poder de sua
pança firmemente apoiado sobre as quatro
patas, o segundo agitando-se no fundo das águas, derrotado e temível no seu
rancor impotente.
Não usei a gravura de Blake por boniteza, mas para indicar que atribuo a esses
símbolos
exatamente o sentido que lhes atribuiu Blake. Detalhe importante, porque essa
interpretação
não é nenhuma alegoria poética, mas, como assinalou Kathleen Raine em
Blake and Tradition,
a aplicação rigorosa dos princípios do simbolismo cristão. Na Bíblia, Deus,
exibe Behemot a
Jó, dizendo: “Eis Behemot,
que criei contigo”
(Jó, 40:1). Aproveitando a ambiguidade do
original hebraico, Blake traduz o “contigo” por
from thee,
“de ti”, indicando a unidade de
essência entre o homem e o monstro: Behemot é a um tempo um poder macrocósmico e
uma
força latente na alma humana. Quanto a Leviatã, Deus pergunta:
“Porventura poderás puxá-lo
com o anzol e atar sua língua com uma corda?”
(Jó, 40:21),
tornando evidente que a força
da revolta está na língua, ao passo que o poder de Behemot, como se diz em
40:11, reside no
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ventre. Maior
clareza não poderia haver no contraste de um poder psíquico e de um poder
material: Behemot é o peso maciço da necessidade natural, Leviatã é a
infranatureza diabólica, invisível sob as águas – o mundo psíquico – que agita
com a língua.
O sentido que
Blake registra nessas figuras não é uma “interpretação”, na acepção negativa que
Susan Sontag dá a esta palavra: é, como deve ser toda boa leitura de texto
sacro, a tradução direta de um simbolismo universal. Para Blake, embora Behemot
represente o conjunto das forças obedientes a Deus, e Leviatã o espírito de
negação e rebelião, ambos são igualmente monstros, forças
cósmicas desproporcionalmente superiores ao homem, que movem combate uma à outra
no cenário do mundo, mas também dentro da alma humana. No entanto não é
ao homem, nem a Behemot, que cabe subjugar o Leviatã. Só o próprio Deus pode
fazê-lo. A iconografia cristã mostra Jesus como o pescador que puxa o Leviatã
para fora das águas, prendendo sua língua com um anzol. Quando, porém, o homem
se furta ao combate interior, renegando a ajuda do Cristo, então se desencadeia
a luta destrutiva entre a natureza e as forças rebeldes antinaturais, ou
infranaturais. A luta transfere-se da esfera espiritual e interior para o
cenário exterior da História. É assim que a gravura de Blake, inspirada na
narrativa bíblica, nos sugere com a força sintética de seu simbolismo uma
interpretação metafísica quanto à origem das guerras, revoluções e catástrofes:
elas refletem a demissão do homem ante o chamamento da vida interior.
Furtando-se ao combate espiritual que o amedronta, mas que poderia vencer com a
ajuda de Jesus Cristo, o homem se entrega a perigos de ordem material no cenário
sangrento da História. Ao fazê-lo, move-se da esfera da Providência e da Graça
para o âmbito da fatalidade e do destino, onde o apelo à ajuda divina já não
pode surtir efeito, pois aí já não se enfrentam a verdade e o erro, o certo e o
errado, mas apenas as forças cegas da necessidade implacável e da rebelião
impotente. No plano da História mais recente, isto é, no
ciclo que começa mais ou menos na época do Iluminismo,
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essas
duas forças assumem claramente o sentido do rígido conservadorismo e da
hübris
revolucionária. Ou, mais simples ainda, direita e
esquerda.
O drama inteiro aí descrito pode-se resumir iconograficamente no esquema em cruz
que coloquei depois em O
Jardim das Aflições,
mas que já está subentendido em
A Nova Era e a Revolução Cultural,
pois constitui a estrutura mesma do enfoque analítico pelo qual procuro aí
apreender a significação das duas correntes de ideias mencionadas no título: o
holismo neocapitalista de Fritjof Capra e o empreendimento gramsciano de
devastação cultural.
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