SANTOS, Milton.
O País Distorcido
O Brasil a Globalização e a Cidadania

São Paulo: Publifolha. 2003. 

 

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 ...afirmar que um país é distorcido é, no mínimo, curioso. Com o geógrafo, Milton Santos sabia que a distorção do território ocorre nos mapas devido às diferentes projeções cartográficas que se podem empregar. Mas não era a isso que o professor da USP queria se referir... 

O país distorcido é resultado de um olhar distorcido, fruto da assimilação acrítica de temas de pesquisa impostos de fora. Fruto também da determinação do que se deve estudar/entender por agências de fomento que não definem claramente seus objetivos, nem o que fazem com os resultados que lhes são entregues,
 

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A geografia como ciência auxiliar no desenvolvimento de um país tem sido levada a sério no Brasil?(1)
Já foi. O primeiro a levar a sério foi o presidente Getúlio Vargas, que criou o IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Também os governos autoritários tinham com o cérebro um grande geógrafo e geopolítico - o general Golbery do Couto e Silva. Ele traçou em sua cabeça o que o Brasil ia ser com o território.

E traçou bem?
Bom, essa pergunta é uma casca de banana. Uma coisa é criar novos objetos, outra é o uso que se faz deles. Se você me perguntar se as novas estradas e hidrelétricas, os novos portos foram um trabalho importante dos últimos 30 anos, eu digo sim. Mas, se me perguntar se o uso que foi feito desse progresso material foi correto, digo não. Com esse equipamento extraordinário do território, poderíamos ter alcançado uma sociedade mais justa.

 (1) Nessa entrevista, o jornalista Otávio Dias interroga Milton Santos sobre o interesse despertado pelo Atlas Geográfico Mundial (1994), publicado pela Folha em fascículos semanais aos domingos, o que resultou no aumento da procura Pelo jornal, indicando também um maior interesse público pelas transformações a geografia política do mundo contemporâneo

 
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 A partir de um estudo geográfico, seria possível reestruturar política e economicamente o país?
Creio que não há outra forma de entender um país. A sociedade é algo, não vou dizer abstrato, mas ela não existe fora do território, e sim por suas relações com ele. A partir da geografia, podem os chegar a uma reconstrução do país como sociedade nacional.

O que impede esse tipo de pensamento no Brasil?
Caminham os para isso. A ideia de que a economia resolve os problemas é muito forte por aqui. Mas os economistas não têm noção do que é o espaço, só produzem teorias descoladas da realidade territorial. Por isso, suas soluções não têm resultados eficazes. A economia deve assumir seu papel subalterno.

A partir da cabeça de um geógrafo, como repensar o Brasil?
Começaria pela questão do emprego. É preciso reconhecer as formas atuais de trabalho no país. O que é trabalho no Brasil? Onde se dá? Como se dá? Por exemplo: na cidade de São Paulo, o trabalho se dá em grandes empresas que fornecem quase metade dos empregos, mas também se dá em empresas menores, cujo destino está relacionado com o território da cidade. É necessário facilitar a vida dessas empresas, de forma a ampliar a oferta de trabalho. Precisam os fazer um estudo expedito, mas sério. E sugerir relações m ais intensas entre comércio, indústria, transportes e distribuição, de modo que a economia urbana cresça.

0 que se poderia fazer no plano político?
Poderíamos tentar formas intermediárias de governo reunindo áreas entre o Estado e o município. No Estado de São Paulo, por exemplo, existem áreas caracterizadas por certo tipo de produção - cana, laranja ou outras - que têm identidade de interesses. Por que não organizar essas áreas politicam ente, criar distritos onde o território fosse identificado por interesses concretos? Não ideológicos, mas da vida real de todo dia. Teríamos, então, instrumentos de ação informados.

Essa forma intermediária teria poder executivo?
É o que algum as pessoas chamam de "quarto nível" – além

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da União, Estados e municípios. Haveria segmentação das atribuições. A União daria o quadro geral, mas cada região levaria em conta sua realidade. Esse "quarto nível" teria de ter força jurídica, produzir leis.

Haveria eleições nesse "quarto nível"?
Sim. A sociedade civil seria importante porque o exercício do voto seria com andado pelo cotidiano.

Isso não aumentaria ainda mais os gastos do Estado?
E o que é que tem , se esse aumento de custo também aumenta a produção? É muito grande o número de em pregos que resultam hoje apenas do fato de a gente conversar. Quando as pessoas vão para a rua dançar, comer, conversar, a economia cresce. Se eu fosse prefeito, me consagraria em aumentar o movimento de gente. Na sociedade de informação, a relação entre as pessoas cria riqueza...

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Existe hoje uma nova ordem mundial?
A nova ordem mundial é baseada no mercado global, na democracia de mercado e na informação. Agora, ela é frágil... não garante a ordem . Na verdade, cria desordem nos países, cria desordem urbana.

Que perspectivas traz a nova ordem?
O que busca hoje o mercado global? Ele não tem outra finalidade senão o próprio mercado. É um a fase em que o mundo vai sofrer. Mas nós vamos chegar a um outro tipo de mercado global, onde as realidades regionais e nacionais serão importantes. N esse momento, a globalização terá com o finalidade a humanidade.

Existe alternativa para um país em desenvolvimento, como o Brasil, senão integrar-se à globalização?
Há a lei da necessidade. Então você dança a música, mas ao mesmo tempo prepara outra música. A gente vai rapidamente virar a mesa. O Primeiro Mundo(2) é subordinado a regras, normas, é prisioneiro de esquemas. Nós não. Somo soltos, criativos.

 

 5/9/1994

 (2) A expressão Primeiro Mundo indicava os países desenvolvidos do chamado Modo capitalista durante os anos da Guerra Fria, para distingui-los dos que formavam o Segundo Mundo, os socialistas, e do Terceiro Mundo, que estavam excluídos desses dois grupos. Em um contexto internacional em que aqueles dois blocos desaparecem, a divisão regional em Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo perde o sentido. Apesar disso, emprega-se essa divisão regional do mundo com muita frequência. Entre os especialistas, organizam-se novas divisões regionais do mundo segundo critérios como, entre outros, a renda da População (países de renda elevada, renda média e renda baixa) ou o índice de desenvolvimento humano, que combina variáveis como renda, escolaridade e saúde da população para discriminar países.

 
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o universal, que é independente de realizações práticas imediatas, é encontrado na busca de uma generalidade significativa e representa não apenas as quantidades do mundo, mas as qualidades e valores. Por isso é abrangente de tudo e de todos, a despeito de hierarquias. Quando o parâmetro é a universalidade, o pensamento começa e termina com o pensamento filosófico; quando, porém , trata-se de internacionalidade, internacionalismo ou globalismo, a centralidade vai à economia. O internacional e a modernidade sempre estiveram na raiz da nossa busca intelectual, ambos significando a Europa e, mais recentemente, também os Estados Unidos.

 O próprio ensino da filosofia, além de um passeio superficial sobre diversos continentes, apenas se aprofundava nos pensadores e nas ideias oriundas daquelas áreas geográficas constitutivas do que admitíamos com o internacional, deixando para trás tudo o mais, considerado como irrelevante.

Esse caminhar acarretou pelo menos dois problemas. O primeiro, a partir da nossa construção via colonização, levava a limitar o pensamento na órbita de um a história que já havia sido feita por outros, como se a história nova fosse mera repetição ou herança obrigatória do passado alheio. O segundo problema vem de fato da mesma colonização, atribuindo ao ensino das ideias um certo caráter instrumental, na medida em que outras formas de pensar eram excluídas. No fundo, essa atitude acaba por produzir, perto ou longe, direta ou indiretamente, um a certa legitimação à instrumentalidade da economia na produção do pensamento social.

As consequências dessa visão distorcida do mundo são, na realidade, devastadoras para as ciências humanas, na medida em que adotem pontos de partida redutores e, neutralizando o  

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ímpeto da crítica e aceitando raciocínios estabelecidos em função de outras realidades, conduzam a fornecer exegeses e exemplos resignados... 

Tal atitude tem reflexos sobre a conformação do gosto e das escolhas, conduzindo, de forma talvez imperceptível, a reproduzir, com exemplos novos, formulações alheias, aceitas com o se fossem universais. Os mencionados desvios são limitadores na elaboração dos pensamentos brasileiro e latino-americano e em nossa própria visão de nós mesmos e do continente. É com o se todos quiséssemos ser europeus e agora um pouco mais, porque também querem os ser norte-americanos. Até mesmo a elegância no dizer é copiada...

... Quem é levado a um a atividade intelectual verdadeiramente transnacional (não nos referimos à rotina de congressos pré-concluídos nem às coletâneas de textos encomendados sob medida) descobre, de modo esporádico ou sistêmico, que um grande número de formulações genuínas, provindas de uma interpretação universal de situações específicas - continentais, nacionais, locais acaba por ser avaliada em função de outras formulações, igualmente emanadas de situações específicas, ditas internacionais e tornadas cânones pelo simples efeito de autoridade. É com o se o trabalho acadêmico devesse constituir uma permanente adjetivação, geralmente diminutiva ou depreciativa, do que na realidade é substantivo. Isso, aliás, é válido para todo tipo de trabalho intelectual, não apenas o acadêmico.

A questão central que nos ocorre, sobre a nossa interpretação de nós próprios, nesses chamados 500 anos de Brasil, é a seguinte: é possível opor um a história do Brasil a um a história europeia do Brasil, um pensamento brasileiro em lugar de um pensamento europeu ou norte-americano do Brasil, ainda que conduzido aqui pelos bravos brazilianists brasileiros? Não se trata de inventar de novo a roda, mas de dizer com o a fazem os funcionar em nosso canto do mundo; reconhecê-lo...

 

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... será um enriquecimento para o m u n d o da roda e um passo a m ais n o conhecimento de nós mesmos. Ser internacional não é ser universal, e para ser universal não é necessário situar-se nos centros do m u n d o . Inclusive pode-se ser universal ficando confinado à sua própria língua, isto é, sem ser traduzido. Não se trata de dar as costas à realidade  do mundo , mas de pensá-la a partir do que somos, enriquecendo-a universalmente com as nossas ideias; e aceitando ser, desse modo, submetidos a um a crítica universalista e não propriamente européia ou norte-americana.

2/5/1999

 

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Os Deficientes Cívicos 


Em tempos de globalização, a discussão sobre os objetivos da educação é fundamental para a definição do modelo de país em que viverão as próximas gerações...

...Em cada sociedade, a educação deve ser concebida para atender, ao mesmo tempo, ao interesse social e ao interesse dos indivíduos. É da com binação desses interesses que emergem os seus princípios fundamentais, e são estes que devem nortear a elaboração dos conteúdos do ensino, as práticas pedagógicas e a relação da escola com a com unidade e com o mundo... 

... a sociedade será sempre tomada com o um referente, e, com o ela é sempre um processo e está sempre mudando... 

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O projeto educacional atualmente em marcha é tributário dessas lógicas perversas. Para isso. sem dúvida, contribuem: a combinação atual entre a violência do dinheiro e a violência da informação, associadas na produção de uma visão embaralhada do mundo; a perplexidade diante do presente e do futuro; um impulso para ações imediatas que dispensam a reflexão, essa cegueira radical que reforça as tendências à aceitação de uma existência instrumentalizada...

...

...as novas propostas para a educação, as quais poderíamos resumir dizendo que resultam da ruptura do equilíbrio, antes existente, entre uma formação para a vida plena, com a busca do saber filosófico, e uma formação para o trabalho, com a busca do saber prático. Esse equilíbrio, agora rompido, constituía a garantia da renovação das possibilidades de existência de indivíduos fortes e de cidadãos íntegros, ao mesmo tempo que se preparavam as pessoas para o mercado. Hoje, sob o pretexto de que é preciso formar os estudantes para obter um lugar num mercado de trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo o espaço da escola, enquanto o saber filosófico é considerado com o residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio prazo, ameaça a democracia, a república, a cidadania e a individualidade. Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um simples processo de treinamento, a uma instrumentalização das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade.
 

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O debate deve ser retomado pela raiz, levando a educação a reassumir aqueles princípios fundamentais com que a civilização assegurou a sua evolução nos últimos séculos - os ideais de universalidade, igualdade e progresso -, de modo que ela possa contribuir para a construção de uma globalização mais humana, em vez de aceitarmos que a globalização perversa, tal com o agora se verifica, com prometa o processo de formação das novas gerações.

24/1/1999