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SANTOS, Milton.
Pag.07 ...afirmar que um país é distorcido é, no mínimo, curioso. Com o geógrafo, Milton Santos sabia que a distorção do território ocorre nos mapas devido às diferentes projeções cartográficas que se podem empregar. Mas não era a isso que o professor da USP queria se referir...
O país distorcido é resultado de um
olhar
distorcido, fruto da assimilação acrítica de temas de pesquisa impostos de fora.
Fruto também da determinação do que se deve estudar/entender por agências de
fomento que não definem claramente seus objetivos, nem o que fazem com os
resultados que lhes são entregues, Pg. 35
A geografia como ciência auxiliar no
desenvolvimento de um país tem sido levada a sério no Brasil?(1) (1) Nessa entrevista, o jornalista Otávio Dias interroga Milton Santos sobre o interesse despertado pelo Atlas Geográfico Mundial (1994), publicado pela Folha em fascículos semanais aos domingos, o que resultou no aumento da procura Pelo jornal, indicando também um maior interesse público pelas transformações a geografia política do mundo contemporâneo
A partir de um estudo geográfico,
seria possível reestruturar política e economicamente o país? Pg.37
da União, Estados e municípios. Haveria
segmentação das atribuições. A União daria o quadro geral, mas cada região
levaria
em conta sua realidade.
Esse "quarto nível" teria de ter força
jurídica, produzir leis. Pg.39
Existe hoje uma nova ordem mundial? 5/9/1994 (2) A expressão Primeiro Mundo indicava os países desenvolvidos do chamado Modo capitalista durante os anos da Guerra Fria, para distingui-los dos que formavam o Segundo Mundo, os socialistas, e do Terceiro Mundo, que estavam excluídos desses dois grupos. Em um contexto internacional em que aqueles dois blocos desaparecem, a divisão regional em Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo perde o sentido. Apesar disso, emprega-se essa divisão regional do mundo com muita frequência. Entre os especialistas, organizam-se novas divisões regionais do mundo segundo critérios como, entre outros, a renda da População (países de renda elevada, renda média e renda baixa) ou o índice de desenvolvimento humano, que combina variáveis como renda, escolaridade e saúde da população para discriminar países.
o universal, que é independente de realizações práticas imediatas, é encontrado na busca de uma generalidade significativa e representa não apenas as quantidades do mundo, mas as qualidades e valores. Por isso é abrangente de tudo e de todos, a despeito de hierarquias. Quando o parâmetro é a universalidade, o pensamento começa e termina com o pensamento filosófico; quando, porém , trata-se de internacionalidade, internacionalismo ou globalismo, a centralidade vai à economia. O internacional e a modernidade sempre estiveram na raiz da nossa busca intelectual, ambos significando a Europa e, mais recentemente, também os Estados Unidos. O próprio ensino da filosofia, além de um passeio superficial sobre diversos continentes, apenas se aprofundava nos pensadores e nas ideias oriundas daquelas áreas geográficas constitutivas do que admitíamos com o internacional, deixando para trás tudo o mais, considerado como irrelevante. Esse caminhar acarretou pelo menos dois problemas. O primeiro, a partir da nossa construção via colonização, levava a limitar o pensamento na órbita de um a história que já havia sido feita por outros, como se a história nova fosse mera repetição ou herança obrigatória do passado alheio. O segundo problema vem de fato da mesma colonização, atribuindo ao ensino das ideias um certo caráter instrumental, na medida em que outras formas de pensar eram excluídas. No fundo, essa atitude acaba por produzir, perto ou longe, direta ou indiretamente, um a certa legitimação à instrumentalidade da economia na produção do pensamento social. As consequências dessa visão distorcida do mundo são, na realidade, devastadoras para as ciências humanas, na medida em que adotem pontos de partida redutores e, neutralizando o Pg.51 ímpeto da crítica e aceitando raciocínios estabelecidos em função de outras realidades, conduzam a fornecer exegeses e exemplos resignados... Tal atitude tem reflexos sobre a conformação do gosto e das escolhas, conduzindo, de forma talvez imperceptível, a reproduzir, com exemplos novos, formulações alheias, aceitas com o se fossem universais. Os mencionados desvios são limitadores na elaboração dos pensamentos brasileiro e latino-americano e em nossa própria visão de nós mesmos e do continente. É com o se todos quiséssemos ser europeus e agora um pouco mais, porque também querem os ser norte-americanos. Até mesmo a elegância no dizer é copiada... ...
Quem é levado a um a atividade intelectual verdadeiramente transnacional (não nos referimos à rotina de congressos
pré-concluídos nem às coletâneas de textos encomendados
sob medida)
descobre, de modo esporádico ou sistêmico, que
um grande número de formulações genuínas, provindas de
uma interpretação universal de situações específicas - continentais,
nacionais, locais acaba por ser avaliada em função
de outras formulações, igualmente emanadas de situações
específicas, ditas internacionais e tornadas cânones pelo simples efeito de autoridade. É com o se
o trabalho acadêmico devesse constituir uma permanente adjetivação, geralmente diminutiva ou depreciativa, do que na realidade é substantivo. Isso, aliás, é válido para todo tipo de trabalho intelectual, não apenas o acadêmico.
Pg.52
... será um enriquecimento para o m
u n d o da roda e um
passo a m ais n
o conhecimento de nós mesmos.
Ser
internacional não é ser universal, e para ser universal
não é necessário
situar-se nos centros do m u n d o . Inclusive
pode-se ser
universal ficando confinado à sua própria língua, isto é, sem ser
traduzido. Não se trata de dar as costas à realidade
do mundo , mas de pensá-la a partir do que somos,
enriquecendo-a universalmente com as nossas ideias; e aceitando
ser, desse modo, submetidos a um a
crítica universalista e não
propriamente européia ou norte-americana.
Pg.149 Os Deficientes Cívicos
... a sociedade será sempre tomada com o um referente, e, com o ela é sempre um processo e está sempre mudando... Pg.151 O projeto educacional atualmente em marcha é tributário dessas lógicas perversas. Para isso. sem dúvida, contribuem: a combinação atual entre a violência do dinheiro e a violência da informação, associadas na produção de uma visão embaralhada do mundo; a perplexidade diante do presente e do futuro; um impulso para ações imediatas que dispensam a reflexão, essa cegueira radical que reforça as tendências à aceitação de uma existência instrumentalizada... ...
...as novas propostas para a educação, as
quais
poderíamos resumir dizendo que resultam da ruptura do equilíbrio,
antes existente, entre uma formação para a vida plena,
com a busca do saber filosófico, e uma formação para o trabalho,
com a busca do saber prático.
Esse equilíbrio, agora rompido, constituía a garantia da
renovação das possibilidades de existência de indivíduos fortes
e de cidadãos íntegros, ao mesmo tempo que se preparavam as
pessoas para o mercado. Hoje, sob o pretexto de que é preciso
formar os estudantes para obter um lugar num mercado de
trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo o espaço
da escola, enquanto o saber filosófico é considerado com o
residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio
prazo, ameaça a democracia, a república, a cidadania e a individualidade.
Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um
simples processo de treinamento, a uma instrumentalização
das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao
sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e
organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade. Pg.152
O debate deve ser retomado pela raiz,
levando a educação a
reassumir aqueles princípios fundamentais com que a
civilização assegurou a sua evolução nos últimos séculos - os ideais
de universalidade, igualdade e progresso -, de modo que ela
possa contribuir para a construção de uma globalização mais
humana, em vez de aceitarmos que a globalização perversa,
tal com o agora se verifica, com prometa o processo de
formação das novas gerações.
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