LUHMANN, Niklas.
Introdução à Teoria dos Sistemas.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2009
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Ganhar unidade mediante diferença, obter unidade como unidade de uma diferença, parece ser um programa teórico paradoxal e efetivamente o é. O diferente é o mesmo; e este é o nosso ponto de partida paradoxal. Mas a coisa não para aí. Como dizem os lógicos, os paradoxos precisam ser desenvolvidos. Eles devem ser dissolvidos mediante diferenciações posteriores, nas quais os dois lados sejam demarcados, isto é identificados. O fato de que o paradoxo só oscile sobre si mesmo e, consequentemente, não possa ser criativo, deve ser resolvido mediante outro recurso; a saber, uma diferenciação. É possível voltar a paradoxizar a diferença, quando se pergunta por sua unidade. Entretanto, isso não deve ser feito, enquanto não se tenham obtido ganhos satisfatórios com a diferenciação tomada como ponto de partida. Mas, o fato de que não se deva fazer explícita que pode ser feito, sendo isto o que se busca dizer em
 

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relação ao paradoxo como formula de conexão de todas as observações e descrições. É apenas necessário poder fazê-lo, principalmente no caso de que a diferenciação utilizada não seja satisfatória, e deva ser modificada. Assim, paradoxo
(*) é uma fórmula funcional, um conceito pragmático para conectar e desconectar a pesquisa baseada numa teoria da operação. O paradoxo serve para injetar ânimo e fazer perder o medo de enfrentar uma mudança teórica mais profunda. A pergunta sobre a unidade de uma diferença só pode ser formulada mediante a interposição de outra diferença, que somente no momento de sua utilização deve tornar indivisível seu próprio paradoxo.
 

No estágio avançado em que se encontra a literatura especializada e a pesquisa, tais decisões teóricas não são absolutamente novas. Certamente, ainda se encontra nos manuais da metodologia a ideia de que o uso da introdução dos paradoxos na construção de uma teoria seja algo que não é logicamente sério. Inclusive Kant defendeu a tese de que o surgimento das antinomias anunciava o fim da metafísica. No entanto, existe uma larga tradição, na teologia e na retórica (e também na tradição estética), de emprego racional dos paradoxos. Olhando para trás, avalia-se, por exemplo, na técnica das disputas (Questio) da Idade Média, que a resolução de uma questão disputada se desenvolvia mediante a proposição de um paradoxo: sua apresentação e solução se estabeleciam através da comunicação oral e requeriam a intervenção de uma instância com competência de decisão (autoridade) para dirimi-la. Talvez, como sociólogos, seja possível argumentar que a referida tradição se rompeu com o surgimento da imprensa (ver ONG, 1979). O paradoxo também se desenvolveu no século do ceticismo, o XVI, mas, devido ao início de uma ciência experimental matemática, ele foi relegado à retórica e à poesia, dividindo-se, assim, os campos do comportamento: a amizade e o amor, como produção de belas aparências diante do sério e, principalmente, do racional. A razão será abandonada às suas próprias dificuldades de fundamentação e, finalmente, às suas vítimas.

(*) contradição ? (comentário nosso)


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II

Uma vez providos da informação sobre o uso dos paradoxos, retornamos à sociologia. Na diferença entre as duas perguntas (do que se trata o caso; e o que se esconde por detrás?), reside a razão de a sociologia ter estancado seu desenvolvimento, e não ter podido refletir sobre sua própria unidade. Mas, cabe indagar com que êxitos e com que custos essas duas perguntas foram, até o momento, trabalhadas, sem que se tenha podido reduzi-las a uma única (nisto consistindo, precisamente, o paradoxo). O fato de que, trabalhando-se com a referida diferença, tenham sido encontradas múltiplas soluções, indica a fertilidade da forma do desenvolvimento do paradoxo; embora isso não garanta que, algum dia, ou provavelmente agora, as possibilidades possam esgotar-se.

 

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O conhecimento se formula, portanto, como ideologia: a razão do não saber reside no fato de que, se os capitalistas se dessem conta, eles mesmos saberiam da sua derrocada. Ou então, como nós preferiríamos expressá-lo: o paradoxo se apresentaria aos nossos olhos, no sentido de que sobrevivência e crescimento, quando deixados ao sabor das forças de mercado, levam à autodestruição. Marx formulou a ideia no contexto da então nova conceituação da dialética, preparada por Kant e Hegel. Ainda que atualmente não mais se aceite esse tipo de formulação, o programa teórico - bastante afim ao procedimento dos paradoxos - resulta impressionante. No entanto, os êxitos dessa crítica deixaram de lado a indagação de por que a crítica opera (quando se introduz esse tipo de interesse na pergunta, ele é criticado e qualificado de interesse "afirmativo"). O programa crítico da herança de Marx, frente principalmente, ao desenvolvimento da ordem econômica capitalista, leva a indagar se a distinção crescimento/destruição constitui a única diferença que se pode escolher para constatar e, ao mesmo tempo, não constatar, o paradoxo do sistema social - sendo que, nesse caso, seriam mais os problemas ecológicos, e não tanto os econômicos, que possibilitariam perceber a referida unidade entre crescimento e destruição.

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... Em nome da razão, expõem-se as insuficiências da sociedade. Mas, para isso, é necessário esforçar-se em estabelecer um título tão elevado? É justamente a ciência social inglesa que defende a afirmação trivial de que na luta pela verdadeira teoria ocultam-se os interesses pessoais (BLOOR, 1976; BARNS, 1977); sendo o mesmo válido para a pesquisa científica - e, principalmente, para aqueles que pensam que mediante o experimental se está protegido contra o vírus da ideologia? (ver, por exemplo, BRAMEL & FRIEND, 1981).

O esgotamento dessa possibilidade teórica se manifesta claramente na dialética da ilustração (HORKHEIMER & ADORNO, 1981), já que a dialética no sentido moderno (Kant, Hegel, Marx), exige movimento, mediante negação (mesmo que se trate de uma crítica imanente), de que algo afirmável encontre seu ponto final no positivo. Mas, isso é especialmente difícil de reconhecer, por exemplo, na teoria da música de Adorno (que insiste em Schönberg), e no progressivamente difundido discurso ético (que só pode apresentar-se como ética), no qual já não se identificam os traços dialéticos; sem contar que também se pode ler na constante referência ao capitalismo ou à sociedade burguesa, que o contexto da teoria da sociedade perdeu a forma de apresentação.

Um conceito radicalmente distinto se encontra em Durkeim, sobretudo na dissertação sobre A divisão do trabalho social, de 1893, e também no estudo sobre o suicídio, de 1987. Os fatos mostram um aumento da anomia, no sentido de um deficiente apoio às normas sociais e às representações dos valores e, mais ainda, as formas de solidariedade moral (que já haviam sido estudadas por Adam Smith, sob a rubrica de compatibilidade moral entre economia moderna e divisão do trabalho). Durkheim considera que por trás de tudo isso se oculta uma forma de diferenciação da sociedade: a transição de uma sociedade segmentária para uma funcional. Esta mudança explica o desmoronamento do mecanismo automático de moralidade que invade a consciência do indivíduo, e também o fato de que para a reintegração da sociedade sejam necessárias outras formas de solidariedade orgânica, que significa chegar a um comum (consciência coletiva), a partir de representações muito diversas em cada um dos indivíduos. Com isso os

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diferentes setores do trabalho social podem nãoobter os mesmos benefícios, mas terão expectativas complementares sociais, ou seja garantidas moralmente.

Essa teoria recebeu, mais tarde,muitas formulações abstratas, Talcott Parsons, por exemplo, entende que haveria uma lei de evolução geral, mediante a qual a sociedade reagiria à crescente diferenciação - com a progressiva generalização da representação dos valores (isto é: aceitos em comum) - e a unidade do sistema também poderia ser reformulada. Nessa transferência , é principalmente notável o esclarecimento da diferença de planos, existente na base da exposição do problema. Enquanto Durkhein também encontra a oportunidade de elvar a demnda de solidariedade orgânica ao conectá-la com a moral; e enquanto Marx deixa em aberto se diante da revolução vindoura seria preciso aguardar ou tomar partido ativo para impulsioná-la, na sociologia de Parsons já não é factível a referida reintrodução do conhecimento na sociedade, como se ele consistisse numa finalidade do agir político. O que está oculto, assim permanece, e a situação social será apenas interpretada de outra forma: já não haverá mais possibilidade de tese II

... nos outros exemplos teóricos se tratava de que os fatos tivessem ignificação à luz da interpretação do que estava oculto.

Essa diferenciação se reflete na relação entre sociedade e resultados da pesquisa. As teorias de Marx e de Durkheim estavam inteiramente voltadas para o objeto sociedade. Já a pesquisa empírica pode ser iniciada sem nenhuma teoria da sociedade, como também pode finalizar seus projetos igualmente sem nenhuma teoria a respeito dela. A sondagem experimental representa - conforme o garante - investigação livre de ideologia. No entanto, ao menos em um sentido, escapam-lhe  as consequências político-sociais. Para ela é relativamente fácil descobrir, em nenhum procedimento teórico, as desigualdades da distribuição, segundo estratos sociais, sexo, raças, idade, geração... principalmente visando a melhores posições nos postos de trabalho, na educação, nos rendimentos, no acesso a direitos, e, portanto, nas oportunidades oferecidas pelo sistema de funções. A pesquisa empírica desmascara constantemente os mecanismos da distribuição desigual na sociedade, que contradizem a pretensão de igualdade obvia e aceita sem questionamentos. Esse contraste entre mundo sem dúvidas e dados inquestionáveis contém a pergunta "do que se esconde por detrás"...

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Como um terceiro exemplo, nós tomamos a supracitada pesquisa empírica, que é desenvolvida com todos os meios artificiais, e representa a medida do trabalho da investigação sociológica, além de fundamentar a pretensão de cientificidade da disciplina. Aqui, o que voga e principalmente a análise estatística dos dados que ela mesma seleciona para chegar a conhecimentos que só por esse caminho podem ser alcançados - o descobrimento de estruturas latentes, conforme o uso que lhe foi dado por Paul Lazrsfeld. Neste caso, os fatos estão representados pelos estados brutos, como um mundo que está oculto em contextos que se pertencem e só podem se tornar visíveis mediante a análise matemática. Tal procedimento se denomina a si mesmo de empírico, com a ideia de que se pode mostrar ambos os lados, comprovar com a realidade e descartar erros. Portanto, a intenção é mostrar como um fato aquilo que está oculto; enquanto tem a pergunta "do que se esconde por detrás". Até certo ponto, a pergunta é respondida com discrepância velada, e essa forma de resultado cru já não satisfaz atualmente. Assim, a pesquisa experimental busca atentar para isso, segundo Michel Walzer (1983), e fazendo de um lado a investigação sobre a justiça, conforme tipos de problemas e contextos locais (SCHMIDT, 1992), embora renunciando, portanto, a buscar a unidade do sistema que produz tudo isso, e que, como se dizia anteriormente, e o responsável.

De Marx a Durkheim, e mais além deles, tomava-se como imparcial o dever ético do cientista, que poderia ser aplicado para o bem da humanidade em níveis teóricos tão elevados como os aqui expostos. Atualmente, o fato de que se proclame uma ciência ética é algo que não é óbvio à primeira vista e, provavelmente, isso se deve ao desenvolvimento de certas teorias éticas muito diversas, que não


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podem ser igualadas quanto a seus critérios, sobretudo devido à alta complexidade, à invisibilidade dos aspectos causais, às decisões carregadas de riscos inevitáveis, e ao trato com seres humanos que não podem contar consigo mesmos e que se opõem a qualquer abordagem científica e regulação crítica. Para obter um dever ético do cientista seria necessário o elo que possibilitasse conectar as intenções que se escondem por detrás, convertendo-as em propostas práticas ou próximas a isso.