LUHMANN,
Niklas.
Introdução
à Teoria dos Sistemas.
Petrópolis,
RJ: Vozes, 2009.
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Pag.343
Ganhar unidade mediante diferença, obter unidade como unidade de
uma diferença, parece ser um programa teórico paradoxal e efetivamente o é. O
diferente é o mesmo; e este é o nosso ponto de partida paradoxal. Mas a coisa
não para aí. Como dizem os lógicos, os paradoxos precisam ser desenvolvidos.
Eles devem ser dissolvidos mediante diferenciações posteriores, nas quais os
dois lados sejam demarcados, isto é identificados. O fato de que o paradoxo só
oscile sobre si mesmo e, consequentemente, não possa ser criativo, deve ser
resolvido mediante outro recurso; a saber, uma diferenciação. É possível voltar
a paradoxizar a diferença, quando se pergunta por sua unidade. Entretanto, isso
não deve ser feito, enquanto não se tenham obtido ganhos satisfatórios com a
diferenciação tomada como ponto de partida.
Mas, o fato de que não se deva fazer explícita que pode ser feito, sendo isto o
que se busca dizer em
Pg.344 No estágio avançado em que se encontra a literatura especializada e a pesquisa, tais decisões teóricas não são absolutamente novas. Certamente, ainda se encontra nos manuais da metodologia a ideia de que o uso da introdução dos paradoxos na construção de uma teoria seja algo que não é logicamente sério. Inclusive Kant defendeu a tese de que o surgimento das antinomias anunciava o fim da metafísica. No entanto, existe uma larga tradição, na teologia e na retórica (e também na tradição estética), de emprego racional dos paradoxos. Olhando para trás, avalia-se, por exemplo, na técnica das disputas (Questio) da Idade Média, que a resolução de uma questão disputada se desenvolvia mediante a proposição de um paradoxo: sua apresentação e solução se estabeleciam através da comunicação oral e requeriam a intervenção de uma instância com competência de decisão (autoridade) para dirimi-la. Talvez, como sociólogos, seja possível argumentar que a referida tradição se rompeu com o surgimento da imprensa (ver ONG, 1979). O paradoxo também se desenvolveu no século do ceticismo, o XVI, mas, devido ao início de uma ciência experimental matemática, ele foi relegado à retórica e à poesia, dividindo-se, assim, os campos do comportamento: a amizade e o amor, como produção de belas aparências diante do sério e, principalmente, do racional. A razão será abandonada às suas próprias dificuldades de fundamentação e, finalmente, às suas vítimas. (*) contradição ? (comentário nosso)
II Uma vez providos da informação sobre o uso dos paradoxos, retornamos à sociologia. Na diferença entre as duas perguntas (do que se trata o caso; e o que se esconde por detrás?), reside a razão de a sociologia ter estancado seu desenvolvimento, e não ter podido refletir sobre sua própria unidade. Mas, cabe indagar com que êxitos e com que custos essas duas perguntas foram, até o momento, trabalhadas, sem que se tenha podido reduzi-las a uma única (nisto consistindo, precisamente, o paradoxo). O fato de que, trabalhando-se com a referida diferença, tenham sido encontradas múltiplas soluções, indica a fertilidade da forma do desenvolvimento do paradoxo; embora isso não garanta que, algum dia, ou provavelmente agora, as possibilidades possam esgotar-se.
Pg.346
O conhecimento se formula, portanto, como ideologia: a razão do não saber reside no fato de que, se os capitalistas se dessem conta, eles mesmos saberiam da sua derrocada. Ou então, como nós preferiríamos expressá-lo: o paradoxo se apresentaria aos nossos olhos, no sentido de que sobrevivência e crescimento, quando deixados ao sabor das forças de mercado, levam à autodestruição. Marx formulou a ideia no contexto da então nova conceituação da dialética, preparada por Kant e Hegel. Ainda que atualmente não mais se aceite esse tipo de formulação, o programa teórico - bastante afim ao procedimento dos paradoxos - resulta impressionante. No entanto, os êxitos dessa crítica deixaram de lado a indagação de por que a crítica opera (quando se introduz esse tipo de interesse na pergunta, ele é criticado e qualificado de interesse "afirmativo"). O programa crítico da herança de Marx, frente principalmente, ao desenvolvimento da ordem econômica capitalista, leva a indagar se a distinção crescimento/destruição constitui a única diferença que se pode escolher para constatar e, ao mesmo tempo, não constatar, o paradoxo do sistema social - sendo que, nesse caso, seriam mais os problemas ecológicos, e não tanto os econômicos, que possibilitariam perceber a referida unidade entre crescimento e destruição. Pg.347
... Em nome da razão, expõem-se as insuficiências da sociedade.
Mas, para isso, é necessário esforçar-se em estabelecer um título tão elevado? É
justamente a ciência social inglesa que defende a afirmação trivial de que na
luta pela verdadeira teoria ocultam-se os interesses pessoais (BLOOR, 1976;
BARNS, 1977); sendo o mesmo válido para a pesquisa científica - e,
principalmente, para aqueles que pensam que mediante o experimental se está
protegido contra o vírus da ideologia? (ver, por exemplo, BRAMEL & FRIEND,
1981).
Pg.348 Pg.349
Como um terceiro exemplo, nós tomamos a supracitada pesquisa
empírica, que é desenvolvida com todos os meios artificiais, e representa a
medida do trabalho da investigação sociológica, além de fundamentar a pretensão
de cientificidade da disciplina. Aqui, o que voga e principalmente a análise
estatística dos dados que ela mesma seleciona para chegar a conhecimentos que só
por esse caminho podem ser alcançados - o descobrimento de estruturas latentes,
conforme o uso que lhe foi dado por Paul Lazrsfeld. Neste caso, os fatos estão
representados pelos estados brutos, como um mundo que está oculto em contextos
que se pertencem e só podem se tornar visíveis mediante a análise matemática.
Tal procedimento se denomina a si mesmo de empírico, com a ideia de que se pode
mostrar ambos os lados, comprovar com a realidade e descartar erros. Portanto, a
intenção é mostrar como um fato aquilo que está oculto; enquanto tem a pergunta
"do que se esconde por detrás". Até certo ponto,
a pergunta é respondida com discrepância velada, e essa forma de resultado cru
já não satisfaz atualmente. Assim, a pesquisa experimental busca atentar para
isso, segundo Michel Walzer (1983), e fazendo de um lado a investigação sobre a
justiça, conforme tipos de problemas e contextos locais (SCHMIDT, 1992), embora
renunciando, portanto, a buscar a unidade do sistema que produz tudo isso, e
que, como se dizia anteriormente, e o responsável. podem ser igualadas quanto a seus critérios, sobretudo devido à alta complexidade, à invisibilidade dos aspectos causais, às decisões carregadas de riscos inevitáveis, e ao trato com seres humanos que não podem contar consigo mesmos e que se opõem a qualquer abordagem científica e regulação crítica. Para obter um dever ético do cientista seria necessário o elo que possibilitasse conectar as intenções que se escondem por detrás, convertendo-as em propostas práticas ou próximas a isso.
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