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Dialética era, na
Grécia antiga, a arte do diálogo. Aos poucos, passou a ser a arte de, no
diálogo, demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e
distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão.
Aristóteles considerava Zênon de Eleia (aprox. 490-430 a.C.) o fundador da
dialética. Outros consideram ser Sócrates o primeiro (469-399 a.C.). Numa
discussão sobre a função da filosofia (que estava sendo caracterizada como uma
atividade inútil), Sócrates desafiou os generais Lachés e Nícias a definirem o
que era a bravura e o político Caliclés a definir o que era a política e a
justiça, para demonstrar a eles que só a filosofia - por meio da dialética -
podia lhes proporcionar os instrumentos indispensáveis para entenderem a
essência daquilo que faziam e das atividades profissionais a que se dedicavam.
Na acepção moderna, entretanto, dialética significa outra coisa: é o modo de
pensarmos as contradições
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da realidade,
o modo de compreendermos a realidade como essencialmente contraditória e em
permanente transformação.
No sentido moderno da palavra, o pensador dialético mais radical da Grécia
antiga foi, sem dúvida, Heráclito de Efeso (aprox. 540-480 a.C.). Nos fragmentos
deixados por Heráclito, pode-se ler que tudo existe em constante mudança, que
o conflito é o pai e o rei de todas as coisas. Lê-se também que vida ou
morte, sono ou vigília, juventude ou velhice são realidades que se transformam
umas nas outras. O fragmento no. 91, em especial, tornou-se famoso: nele se lê
que um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio. Por quê? Porque da segunda
vez não será o mesmo homem e nem estará se banhando no mesmo rio (ambos terão
mudado).
Os gregos acharam essa concepção de Heráclito muito abstrata, muito unilateral.
Chamaram o filósofo de Heráclito, o Obscuro. Havia certa perplexidade
em relação ao problema do movimento, da mudança. O que
é que explicava que os seres se transformassem, que eles deixassem de ser aquilo
que eram e passassem a ser algo que antes não eram? Heráclito respondia a
essa pergunta de maneira muito perturbadora, negando a existência de qualquer
estabilidade no ser. Os gregos preferiram a resposta que era dada por um
outro pensador da mesma época: Parmênides.
Parmênides ensinava que a essência profunda do ser era imutável e dizia que o
movimento (a mudança) era um fenômeno de superfície. Essa linha de
pensamento
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- que
podemos chamar de metafísica - acabou prevalecendo sobre a dialética de
Heráclito. A metafísica não impediu que se desenvolvesse o
conhecimento científico dos aspectos mais estáveis da realidade (embora
dificultasse bastante o aprofundamento do conhecimento científico dos aspectos
mais dinâmicos e mais instáveis da realidade).
De maneira geral,
independentemente das intenções dos filósofos, a concepção metafísica
prevaleceu, ao longo da história, porque correspondia, nas sociedades divididas
em classes, aos interesses das classes dominantes,
sempre preocupadas em organizar duradouramente o que já está funcionando, sempre
interessadas em “amarrar” bem tanto os valores e conceitos como as instituições
existentes, para impedir que os homens cedam à tentação de querer mudar o regime
social vigente.
A concepção dialética foi reprimida historicamente: foi empurrada para posições
secundárias, condenada a exercer uma influência limitada. A metafísica se
tornou hegemônica. Mas a dialética não desapareceu.
Para sobreviver, precisou renunciar às suas expressões mais drásticas, precisou
conciliar com a metafísica, porém conseguiu manter espaços significativos nas
ideias de diversos filósofos de enorme importância...
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...Aristóteles observou que nós damos o mesmo nome de
movimento
a processos
muito diferentes, que vão desde o mero deslocamento
mecânico de um corpo no espaço, desde o mero aumento quantitativo de alguma
coisa, até a modificação qualitativa de um ser ou o nascimento de
um ser novo. Para explicar cada movimento,
precisamos verificar qual é a natureza dele.
Segundo Aristóteles, todas as coisas possuem determinadas potencialidades; os
movimentos das coisas são
potencialidades
que estão se
atualizando,
isto é, são
possibilidades que estão se transformando em realidades efetivas. Com seus
conceitos de ato
e
potência,
Aristóteles
conseguiu impedir que o movimento fosse
considerado apenas uma ilusão desprezível, um aspecto superficial da realidade;
graças a ele, os filósofos não abandonaram completamente o estudo do lado
dinâmico e mutável do real.
Nas sociedades feudais, entretanto, durante os séculos da Idade Média, a
dialética sofreu novas derrotas e ficou bastante enfraquecida.
No regime feudal, a vida social era estratificada, as
pessoas cresciam, viviam e morriam fazendo as mesmas coisas, pertencendo à
classe social em que tinham nascido; quase não aconteciam alterações
significativas. A ideologia dominante - a ideologia das classes
dominantes - era monopólio da Igreja,
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elaborada
dentro dos mosteiros por padres que levavam uma vida muito parada. Por isso,
a dialética foi sendo cada vez mais expulsa da filosofia. A própria palavra
dialética
se tornou uma
espécie de sinônimo de
lógica
(ou então passou a ser empregada, em
alguns casos, com o significado pejorativo de “lógica das aparências”).
... No regime feudal, a vida nas cidades sofreu um esvaziamento; e no campo
havia pouco comércio e poucas oportunidades para discutir organizadamente. O
número dos cidadãos que debatiam era reduzido e as ideias discutidas ficaram um
tanto desligadas da vida prática...
A dialética ficou sufocada. Para sobreviver, ela precisou lutar para assegurar à
filosofia um espaço próprio, que não ficasse diretamente dominado pelo
imperialismo da teologia
...
Averróis (1126-1198), apoiando-se em Aristóteles, afirmou que a versão
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filosófica da
Verdade não precisava coincidir, de maneira imediata e total, com sua versão
teológica. Abelardo (1079-1142) conseguiu discutir longamente sobre as
relações entre as categorias universais e as coisas singulares em termos de pura
lógica, mostrando assim, na prática, que existiam problemas importantes cuja
abordagem não precisava da teologia.
...Occam
sustentava que, exatamente porque Deus é todo-poderoso e porque a vontade de
Deus não pode ter limites, tudo no mundo é contingente, tudo poderia ser
diferente do que é (se Deus quisesse); por isso, a
teologia (que tratava de Deus) não devia interferir — segundo Occam — no estudo
das coisas contingentes do mundo empírico.
A chamada
“revolução comercial”, esboçada no século XIV deflagrou-se no século XV e suas
consequências marcaram profundamente o século XVI. Foi a época do
Renascimento e da descoberta da América. As artes e as
ciências se insurgiram contra os hábitos mentais da Idade Média: mostraram que o
universo era muito maior
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e mais
complicado do que os ideólogos medievais pensavam; e mostraram que o ser humano
era potencialmente muito mais livre do que eles imaginavam. O movimento voltou a
se impor à reflexão e ao debate, tornou-se outra vez um tem a fundamental. O
astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) descobriu que Ptolomeu tinha se
enganado, que a Terra nem era imóvel nem era o centro do universo, que ela
girava em torno do Sol. Galileu (1564-1642) e Descartes (1596-1650) descobriram
que a condição natural dos corpos era o movimento e não o estado de repouso.
A maneira
de conceber o ser humano também sofreu importantes alterações. Pico delia
Mirandola (1463-1494) sustentou que o fato de o homem ser “inacabado” e portanto
poder evoluir, lhe conferia uma dignidade especial e lhe dava até certa vantagem
em comparação com os deuses e anjos (que são eternos, perfeitos e por isso não
mudam). Giordano Bruno (1548-1600) exaltou o
homo faber,
quer dizer, o
homem capaz de dominar as forças naturais e de modificar criadoramente o mundo.
Com o Renascimento, a dialética pôde sair dos subterrâneos em que tinha sido
obrigada a viver durante vários séculos: deixou o seu refúgio e veio à luz do
dia. Conquistou posições que conseguiu manter nos séculos seguintes. O
caráter instável, dinâmico e contraditório da condição humana foi
corajosamente reconhecido por um pensador místico e conservador, como Pascal
(1623-1654). Outro filósofo conservador, o ita
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os pensadores do
século XVII viviam e pensavam, de certo modo, numa situação de
isolamento
em relação à
dinâmica social, em relação aos movimentos políticos da época. Os contatos que
eles mantinham eram com personalidades e não com organizações ou tendências que
pudessem refletir alguma coisa do que se passava nas
bases
da sociedade.
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Só na segunda
metade do século XVIII é que a situação dos filósofos começou a mudar. O
amadurecimento do processo histórico que desembocou na Revolução Francesa criou
condições que permitiram aos filósofos uma compreensão mais concreta da dinâmica
das transformações sociais. O movimento que refletiu esse
processo de preparação da Revolução Francesa no plano das ideias se chamou
iluminismo.
Os filósofos
iluministas
acompanharam de perto as reivindicações plebeias, as
articulações da burocracia, as manifestações políticas nas ruas, a rápida
mudança nos costumes; perceberam que o que restava do mundo feudal devia
desaparecer e pretenderam contribuir para que o mundo novo, que estava surgindo,
fosse um mundo racional.
Em
sua maioria, os
iluministas
se contentaram com uma visão mais ou menos
simplificada do processo de transformação social que viam realizar-se e
apoiavam: não procuraram refletir aprofundadamente sobre suas contradições
internas. Por isso, não trouxeram grandes contribuições para o avanço da
dialética. Há, porém, uma exceção; o maior dos filósofos
iluministas
é também o autor
de uma obra rica em observações de grande interesse para a concepção dialética
do mundo: Denis Diderot (1713-1784).
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Diderot
compreendeu que o indivíduo era condicionado por um movimento mais amplo, pelas
mudanças da sociedade em que vivia. “Sou como sou” - escreveu ele - “porque foi
preciso que eu me tornasse assim. Se mudarem o todo, necessariamente eu também
serei modificado.” E acrescentou: “O todo está sempre mudando”. No
Sonho de D ’Alembert,
imaginou
que D’Alembert, seu amigo, sonhando dizia coisas, tais como: “Todos os seres
circulam uns nos outros. Tudo é um fluxo perpétuo. O que é um ser? A soma de um
certo número de tendências. E a vida? A vida é uma sucessão de ações e reações.
Nascer, viver e passar é mudar de formas”. D’Alembert ficou chocado com a
“loucura” que Diderot tinha escrito e o texto, redigido em 1769, acabou só sendo
publicado em 1830.
No Suplemento a viagem de
Bougainville,
publicado em 1796, Diderot aconselhava
seus leitores: “Examinem todas as instituições políticas, civis e religiosas; ou
muito me engano ou vocês verão nelas o gênero humano subjugado, a cada século
mais submetido ao jugo de um punhado de meliantes”. E recomendava: “Desconfiem
de quem quer impor a ordem”.
Uma das obras mais famosas de Diderot é O
sobrinho de Rameau,
que
relata uma conversa entre o filósofo e um jovem vigarista, sobrinho de um músico
célebre. Diderot se coloca, habilmente, numa posição moderada, mas coloca na
boca do seu interlocutor uma argumentação brilhante, uma defesa altamente
perturbadora da vigarice, de modo que a moral vigente
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fica bastante
abalada em seus fundamentos, no fim do diálogo. Diderot assume os elementos
conservadores que sabe existirem no seu pensamento, mas permite ao jovem
vigarista que desenvolva seus pontos de vista com extraordinária desenvoltura;
o resultado é um confronto fascinante, que Hegel e Marx consideraram um
primor de dialética.
Ao lado de Diderot, quem deu a maior contribuição à dialética na segunda metade
do século XVIII foi Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Ao contrário dos
iluministas,
Rousseau não
tinha confiança na razão humana: preferia confiar mais na natureza. Segundo ele,
os homens nasciam livres, a natureza lhes dava a vida com liberdade, mas a
organização da sociedade lhes tolhia o exercício da liberdade natural. O
problema com que Rousseau se defrontava, então, era o de assegurar bases para um
contrato social
que
permitisse aos indivíduos terem na vida social uma liberdade capaz de compensar
o sacrifício da liberdade com que nasceram.
Observando a estrutura da sociedade do seu tempo e suas contradições, Rousseau
concluiu que os conflitos de interesses entre os indivíduos tinham se tornado
exagerados, que a propriedade estava muito mal distribuída, o poder
estava concentrado em poucas mãos...
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Rousseau sabia que as mudanças sociais profundas, realizadas por sujeitos
coletivos, não costumam ser tranquilas; sabia que as transformações necessárias
por ele apontadas deveriam ser um tanto tumultuadas
Mas achava
que “um pouco de agitação retém pera as almas; e o que faz avançar a humanidade
é menos a paz do que a liberdade”. Embora divergisse de Diderot em várias
coisas, ele concordava num ponto crucial: nenhum dos dois se deixava intimidar
pela “ideologia da ordem”, de conteúdo nitidamente conservador.
Por isso, se entende que no século XX um conservador radical - Maurice Barres -
tenha escrito que Diderot e Rousseau (duas “forças de desordem”) são
responsáveis por muitos dos males que nos afligem.
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II
O Trabalho
No final do
século XVIII e no começo do século XIX, os conflitos políticos já não eram mais
abafados nos corredores dos palácios e estouravam nas ruas. As lutas que
precederam e desencadearam a Revolução Francesa envolveram muita gente, entraram
na vida de milhões de pessoas; as guerras napoleônicas também mobilizaram as
massas populares e os homens do povo foram obrigados a pensar sobre questões
políticas que antes eram discutidas apenas por uma elite reduzida, mas que
naquele período estavam invadindo a esfera da vida cotidiana de quase todo
mundo.
Essa situação se refletiu na filosofia. Se refletiu até na filosofia que se
elaborava na longínqua cidade de Königsberg, na Prússia oriental (hoje a cidade
se chama Kaliningrado e fica na atual Rússia), onde nasceu, viveu, escreveu e
morreu aquele que provavelmente é o maior dos pensadores metafísicos modernos:
Pag.20
Immanuel Kant
(1724-1804). Pessoalmente, Kant viveu na mais rigorosa rotina; até seus passeios
tinham hora marcada (o poeta Heine conta que os vizinhos do filósofo acertavam
seus relógios quando ele saía de casa, às 15h30, para dar uma volta). Ao seu
redor, porém, as rotinas estavam sendo quebradas, a história da Europa estava
pondo a nu muitas contradições e Kant não pôde deixar de pensar sobre a
contradição, em geral.
Kant percebeu que a consciência humana não se limita a
registrar passivamente impressões provenientes do mundo exterior, que ela é
sempre a consciência de um ser que interfere ativamente na realidade; e
observou que isso complicava extraordinariamente o processo do conhecimento
humano. Sustentou que todas as filosofias até então vinham sendo ingênuas ou
dogmáticas, pois tentavam interpretar o que era a
realidade antes de ter resolvido uma questão prévia: o que é o
conhecimento?
O centro da filosofia, para Kant, não podia deixar de ser a reflexão
sobre a questão do conhecimento, a questão da exata natureza e dos limites do
conhecimento humano. Fixando sua atenção naquilo que ele chamou de “razão
pura”, o filósofo se convenceu, então, de que na própria “razão
pura” (anterior à experiência) existiam certas
contradições - as “antinomias” - que nunca
poderiam ser expulsas do pensamento humano por nenhuma lógica.
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Outro filósofo
alemão, de uma geração posterior, demonstrou que a contradição
não era apenas uma dimensão essencial na consciência do
sujeito do conhecimento, conforme Kant tinha concluído; era um
princípio básico que não podia ser suprimido nem da consciência do sujeito nem
da realidade objetiva. Esse novo pensador, que se chamava Georg Wilhelm
Friedrich Hegel (1770-1831), sustentava que a questão central da filosofia era a
questão do ser, mesmo, e não
a do conhecimento. Contra Kant, ele argumentou: Se eu pergunto
o que é o conhecimento,
já na palavra
é
está em jogo uma
certa concepção de ser; a questão do conhecimento, daquilo que o conhecimento
é,
só pode ser
concretam ente discutida a
partir da questão do ser”.
Hegel concordava com Kant num ponto essencial: no reconhecimento de que o
sujeito humano é essencialmente ativo e está sempre interferindo na realidade.
Na época da Revolução Francesa, entusiasmado com a tomada da Bastilha pelo
povo e com a derrubada de instituições antiquíssimas (que pareciam eternas),
Hegel - então com 19 anos - plantou uma “árvore da liberdade” em Tübingen, onde
morava, em homenagem à França. Naquele momento, o poder humano de intervir na
realidade lhe pareceu quase ilimitado; o sujeito humano lhe pareceu quase
onipotente.
Logo, porém, a vida se encarregou de jogar água fria no entusiasmo do filósofo.
A Revolução Francesa atravessou uma fase de terror, com a guilhotina cor
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tando inúmeras
cabeças, e depois veio a ser controlada por Napoleão Bonaparte (mas o próprio
Napoleão foi derrotado e a Europa se viu dominada pela
política ultraconservadora da Santa Aliança). Além disso, a Alemanha,
país onde o pensador vivia, era tão atrasada que nem sequer tinha conseguido
alcançar a sua unidade como nação: estava dividida em governos regionais, cada
um mais reacionário que o outro. Hegel descobriu, então, com amargura, que o
homem transforma ativamente a realidade, mas quem
impõe o ritmo e as condições dessa transformação ao sujeito é, em última
análise, a realidade objetiva.
Para avaliar de maneira realista as possibilidades do sujeito humano, Hegel
procurou estudar seus movimentos no plano objetivo — das atividades políticas e
econômicas. Dedicou-se à leitura e ao exame dos escritos de Adam Smith e dos
teóricos da economia política inglesa clássica. Lukács mostrou, em seu livro
sobre O jovem Hegel,
que
na base do pensamento de Hegel está não só uma reflexão aprofundada sobre a
Revolução Francesa, como também uma reflexão radical sobre a chamada
revolução industrial,
que vinha
se realizando na Inglaterra. Hegel percebe que o
trabalho
é a mola que
impulsiona o desenvolvimento humano; é no
trabalho
que o homem se
produz a si mesmo; o
trabalho
é o núcleo a partir do qual podem ser
compreendidas as formas complicadas da atividade criadora do sujeito humano. No
trabalho
se encontra tanto
a resistência do objeto (que nunca pode
Pag.25
Para expressar a
sua concepção da superação
dialética,
H egel usou a palavra alemã
aufheben,
um verbo que
significa suspender.
Mas
esse suspender
tem três
sentidos diferentes. O primeiro sentido é o de negar, anular, cancelar (como
ocorre, por exemplo, quando
suspendemos
um passeio por causa do mau tempo, ou
quando um estudante é
suspenso
das aulas e não pode comparecer à escola
durante algum tempo). O segundo sentido é o de erguer alguma coisa e mantê-la
erguida para protegê-la (como a gente vê, por exemplo, num poema de Manuel
Bandeira, quando o poeta fala do quarto onde morou há muitos anos e diz que ele
foi preservado porque ficou “intacto, suspenso no ar”). E o terceiro sentido é o
de elevar a qualidade, promover a passagem de alguma coisa para um plano
superior,
suspender
o nível. Pois
bem: Hegel emprega a palavra com os três sentidos diferentes ao mesmo tempo.
Para ele, a superação
dialética
é simultaneamente a negação de uma
determinada realidade, a conservação de algo de essencial que existe nessa
realidade negada e a elevação dela a um nível superior.
Pag.55
V
As Leis da Dialética
A grande
preocupação de Engels era defender o caráter
materialista
da dialética, tal
como Marx e ele a concebiam. Era preciso evitar que a dialética da história
humana fosse analisada como se não tivesse
absolutamente nada
a ver com a
natureza, como se o homem não tivesse uma dimensão irredutivelmente
natural
e
não tivesse começado sua trajetória na natureza. Uma certa dialética na natureza
(ou pelo menos uma pré-dialética) era, para Marx e para Engels, uma condição
prévia para que pudesse existir a dialética humana.
Pag.56
Engels
concentrou, então, sua atenção no exame dos princípios daquilo que ele chamou de
“dialética da natureza” e chegou à conclusão de que as leis gerais da dialética
(comuns tanto à história humana como à natureza) podiam ser reduzidas, no
essencial, a três:
1) lei da passagem da quantidade à qualidade (e vice-versa);
2) lei da interpenetração dos contrários;
3) lei da negação da negação.
A primeira lei se refere ao fato de que, ao mudarem, as coisas não mudam sempre
no mesmo ritmo; o processo de transformação por meio do qual elas existem passa
por períodos lentos (nos quais se sucedem pequenas alterações quantitativas) e
por períodos de aceleração (que precipitam alterações qualitativas, isto é,
“saltos”, modificações radicais). Engels dá o exemplo da água que vai
esquentando, até alcançar cem graus centígrados e ferver, quando se precipita a
sua passagem do estado líquido ao estado gasoso.
A segunda lei é aquela que nos lembra que tudo tem a ver com tudo, os diversos
aspectos da realidade se entrelaçam e, em diferentes níveis, dependem uns dos
outros, de modo que as coisas não podem ser compreendidas isoladamente, uma por
uma, sem levarmos em conta a conexão que cada uma delas mantém com coisas
diferentes. Conforme as conexões (quer dizer, conforme o
contexto
em que ela esteja
situada), prevalece, na coisa, um lado ou o outro da sua realidade
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(que é intrinsicamente contraditória).
Os dois lados se
opõem e, no entanto, constituem uma unidade (e por isso essa lei já foi também
chamada de unidade e luta
dos contrários).
A
terceira lei dá conta do fato de que o movimento geral da realidade
faz sentido,
quer dizer, não é
absurdo, não se esgota em contradições irracionais, ininteligíveis, nem se perde
na eterna repetição do conflito entre teses e antíteses, entre afirmações e
negações. A afirmação engendra necessariamente a sua negação, porém a negação
não prevalece como tal: tanto a afirmação como a negação são superadas e o que
acaba por prevalecer é uma síntese, é a
negação da negação.
Essas leis já se achavam em Hegel; Engels procurou resgatá-las do idealismo
hegeliano e dar-lhes um sentido claramente materialista. Expondo,
simplificadamente, algumas das noções básicas da dialética, Engels teve um
imenso êxito e exerceu uma influência notável no pensamento de várias gerações
de operários conscientes e militantes socialistas. A polêmica de Engels contra
Dühring se tornou um marco na história das ideias do movimento operário.
A experiência que foi sendo adquirida pelo movimento socialista ao longo do
século XX mostrou que as formulações de Engels - embora brilhantes e didáticas -
possuem certas limitações.
As leis da dialética não se deixam reduzir a três e essa redução, tal como
Engels a realizou, tem algo
Pag.58
de arbitrário. Os
princípios da dialética se prestam mal a qualquer codificação. Um código, por
definição, articula as leis, fixa as leis em artigos (artigo primeiro, artigo
segundo etc.). Como poderiam, porém, ser fixadas em artigos as leis de uma
filosofia da mudança, de uma concepção do mundo segundo a qual existe sempre
alguma coisa de novo sob o sol?
Outra limitação: os exemplos usados por Engels para esclarecer o funcionamento
das leis da dialética eram todos extraídos das ciências da natureza. Por quê?
Porque nas ciências exatas - dizia ele - as quantidades podem ser medidas e a
demonstração pode se tornar mais convincente. Esse procedimento, entretanto,
acabou sendo aproveitado por tendências políticas e ideológicas que, no interior
do movimento socialista, sabotaram o aprofundamento da dialética (por exemplo,
as tendências das quais Stálin foi o representante mais poderoso). Falaremos,
mais adiante, dos problemas que vieram a se manifestar, ao longo do século XX,
na história da dialética. Por ora, vamos nos limitar, aqui, a lembrar que a
dialética parte do reconhecimento do fato de que o processo de autocriação do
homem introduziu na realidade uma dimensão nova, cujos problemas exigem um
enfoque também novo. O terreno em que a dialética pode demonstrar decisivamente
aquilo
de que é capaz não é o terreno da análise dos fenômenos quantificáveis da
natureza e sim o da história humana, o da transformação da sociedade.
Pag.59
Evidentemente, o
que acaba de ser dito a respeito das limitações das formulações de Engels sobre
as leis da dialética não significa que as referidas leis sejam falsas e devam
ser esquecidas; significa apenas que elas devem ser utilizadas com as devidas
precauções. Engels era um pensador dialético de grandes méritos. Em sua obra
existem elementos que podemos invocar em favor da advertência que fizemos,
quanto à profunda diferença que existe entre a dialética na natureza e a
dialética na história humana.
No Anti-Dühring,
por
exemplo, Engels dá um caso de passagem da quantidade à qualidade ocorrido na
história (um caso observado por Napoleão Bonaparte). Napoleão analisou as lutas
entre a cavalaria francesa, bem organizada e disciplinada, e a cavalaria dos
mamelucos (que eram hábeis cavaleiros, dispunham de excelentes cavalos, mas eram
indisciplinados). E tinha dito: “Dois mamelucos derrotavam seguramente três
franceses; cem mamelucos enfrentavam, em igualdade de condições, cem franceses;
trezentos franceses venciam trezentos mamelucos; e mil franceses derrotavam,
inevitavelmente, 1500 mamelucos”.
Esse exemplo é de enorme utilidade para nós. Se o compararmos ao exemplo da água
que ferve aos cem graus e passa do estado líquido ao gasoso, perceberemos que
ambos são casos de passagem da quantidade à qualidade, porém são fenômenos de
naturezas muito diferentes. No caso da água, temos um fenômeno físico,
Pag.60
que não depende
da vontade humana. No caso do confronto das duas cavalarias, temos um processo
que depende da organização, isto é, depende de fatores subjetivos, de decisões e
escolhas. Um processo que comporta alternativas e depende de iniciativas.
Pag.61
VII
O SUJEITO E A HISTÓRIA
Depois da morte
de Marx (em 1883) e de Engels (em 1895), o desenvolvimento do pensamento
dialético não se interrompeu e prosseguiu seu acidentado caminho. No final do
século XIX, o socialista alemão Eduard Bernstein (1850-1932) passou a criticar
os escritos de Marx, sustentando que o capitalismo estava mais forte do que
nunca, que as previsões do
Manifesto comunista
(de 1848) tinham falhado, de modo que era
preciso subm eter a uma rigorosa revisão os princípios que Marx tinha defendido.
E a dialética, segundo o
revisionista
Bernstein, era “o elemento pérfido na
doutrina marxista, o obstáculo que impede qualquer apreciação lógica das
coisas”. Bernstein preconizou, então, um abandono da dialética, da herança
hegeliana do marxismo, e um retorno a Kant.
Na ocasião, as posições de Bernstein foram criticadas e recusadas pela direção
do principal partido
Pag.62
socialista do
começo do século XX: o Partido Social-Democrático Alemão. As posições que
venceram no debate foram as de Karl Kautsky (1854-1938). Mas Kautsky também não
era um autêntico dialético: ele confundia a dialética com o evolucionismo e às
vezes se mostrava muito mais um discípulo de Darwin do que um discípulo de Marx
(e tendia a considerar a história da humanidade uma mera parte da história
global da natureza).
A primeira geração de teóricos socialistas que veio depois da geração de Marx e
Engels não conseguiu assimilar a dialética. O próprio genro de Marx, o cubano
Paul Lafargue (1842-1911), publicou um livro intitulado O
determinismo econômico de Karl Marx,
que
contribuiu para o fortalecimento, na consciência dos socialistas, de uma versão
antidialética
da
concepção materialista da história.
Nas duas primeiras décadas do século XX, difundiu-se entre os socialistas a
ideia - falsa - de que, segundo Marx, os “fatores econômicos” provocavam, de
maneira mais ou menos automática, a evolução da sociedade (sem que os homens -
sujeitos do efetivo movimento da história - tivessem um espaço significativo
para tomarem suas iniciativas). Essa concepção facilitava a infiltração de
tendências políticas
oportunistas
no movimento socialista: quem não enxerga
nada que dependa da sua ação tende facilmente a instalar-se na passividade
(tende a contemplar a história, em vez de fazê-la).
Pag.64
Houve
revolucionários que reagiram contra a deformação da concepção marxista da
história. Rosa Luxemburgo (1871-1919) e Lênin (1870-1924) se destacaram na
revalorização da dialética. Invocando uma frase de Engels no
Anti-Dühring,
Rosa sustentou
que a história mundial se achava em face de um dilema: ou o socialismo vencia ou
o imperialismo arrastaria a humanidade (como na Roma antiga) à decadência, à
destruição, à barbárie. É possível que os termos do dilema tenham sido
exagerados por Rosa, por influência da situação, do momento em que ela escrevia
(Rosa estava presa, em 1915, e a Primeira Guerra Mundial tinha começado). De
qualquer maneira, o dilema ajudou os militantes socialistas a compreenderem que
a concepção marxista (dialética) da história não assegurava nenhum resultado
preestabelecido.
Lênin, por seu lado, desde 1902, no livro
Que fazer?,
empenhou-se
apaixonadamente, no plano da teoria política, em abrir espaços para a iniciativa
do sujeito revolucionário (e especialmente para a iniciativa da vanguarda do
proletariado). Em seus estudos da obra de Hegel, em 1914, Lênin atribuiu imensa
importância à herança hegeliana do marxismo e advertiu que, sem assimilar
plenamente os ensinamentos contidos na
Lógica
de Hegel, nenhum marxista poderia entender
inteiramente O capital
de
Marx.
Os estudos da obra de Hegel e as reflexões sobre o método dialético foram de
grande valia para Lênin em
Pag.65
sua análise do
imperialismo e na elaboração estratégica que o levou a liderar a tomada do poder
na Rússia, em 1917, pelos bolchevistas. O novo poder soviético despertou
entusiasmo em círculos revolucionários e progressistas do mundo inteiro: era uma
demonstração prática
das
possibilidades concretas
que
estavam ao alcance do sujeito humano disposto a transformar o mundo.
Importantes marxistas dos anos 1920 e 1930 encontraram nas ideias de Lênin e
sobretudo em suas realizações práticas, elementos que os impulsionaram em seus
esforços para levar adiante o desenvolvimento da dialética. Esboçou-se um
vigoroso movimento teórico que pretendia superar definitivamente as deformações
antidialéticas a que tinham sido submetidas certas concepções de Marx no começo
do nosso século. As tentativas de confundir o marxismo com o “materialismo
vulgar” ou com o “determinismo econômico” foram inteligentemente criticadas.
O húngaro Georg Lukács (1885-1971) advertiu: “Não é a predominância dos motivos
econômicos na explicação da história que distingue decisivamente o marxismo da
ciência burguesa: é o ponto de vista da totalidade”. Somente o ponto de vista da
totalidade, segundo Lukács, permite à dialética enxergar, por trás da aparência
das “coisas”, os processos
e
inter-relações
de que se
compõe a realidade. Somente o ponto de
Pag.66
vista
da totalidade permite que se veja no real um “jorrar ininterrupto de novidade
qualitativa”.
O italiano Antonio Gramsci (1891-1937) caracterizou o marxismo como um
“historicismo absoluto”. Para ele, o fatalismo determinista pode se tornar uma
força de resistência moral, pode ajudar o revolucionário a perseverar na luta,
pode ajudar a organização revolucionária a manter a sua coesão interna nos
períodos marcados por uma sucessão de graves derrotas. Nesse sentido, Gramsci se
dispõe até a fazer-lhe um “elogio fúnebre”, reconhecendo a função histórica do
determinismo, porém “enterrando-o com todas as honras”, pois se o determinismo
persistir dificultará sempre o desenvolvimento do espírito crítico e da
criatividade
entre os revolucionários.
O materialismo histórico de Marx e Engels é constatativo e não normativo: ele
reconhece que, nas condições de insuficiente desenvolvimento das forças
produtivas humanas e de divisão da sociedade em classes, a economia tem imposto,
em última análise, opções estreitas aos homens que fazem a história. Isso não
significa que a economia seja o sujeito da história, que a economia vai dominar
eternamente os movimentos do sujeito humano. Ao contrário: a dialética aponta na
direção de uma libertação mais efetiva do ser humano em relação ao cerceamento
de condições econômicas ainda desumanas.
Pag.68
O alemão W alter
Benjamin (1892-1940), aliás, lembrou que a história, tal como ela veio se
desenrolando até o presente, está impregnada de violência, de opressão, de
barbárie; e é exatamente por isso que a tarefa do teórico do materialismo
histórico não pode ser pensar uma espécie de prolongamento “natural” dessa
história, não pode ser promover a continuidade daquilo que essa história
produziu, limitando-se a transmitir seus produtos de mão em mão. Um espírito
dialético - escreveu Benjamin, através de uma sugestiva imagem — insiste em
“escovar a história a contrapelo”.
Infelizmente, os esforços de Lukács, Gramsci, Walter Benjamin e vários outros
intelectuais marxistas dos anos 1920 e 1930 foram contrariados por uma tendência
antidialética que avançou muito no interior do movimento comunista após a morte
de Lênin, em 1924. O principal representante dessa tendência antidialética foi
Josef Stálin (1879-1953), que assumiu a direção do PC da URSS e do Estado
soviético e exerceu uma enorme influência sobre o movimento comunista mundial.
Stálin era um político de grande talento, mas desprezava a teoria, não a levava
a sério: instrumentalizava o trabalho teórico, com espírito pragmático, cínico.
Em Marx, Engels e Lênin, a prática exigia um reexame da teoria e a teoria servia
para criticar a prática em profundidade, servia para questionar e corrigir a
prática. Em Stálin, isso mudou: a teoria perdeu sua capacidade
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de criticar a
prática e o trabalho teórico ficou reduzido a uma justificação permanente de
todas as medidas práticas decididas pela direção do partido comunista.
Stálin considerava Hegel uma expressão “sociológica” do atraso da Alemanha na
época da Revolução Francesa e de Napoleão. Ao contrário de Lênin, que estudava
Hegel, Stálin tinha uma antipatia imensa pelo patrimônio da herança hegeliana.
Em seu raciocínio, Stálin ignorava frequentemente as
mediações,
cuja importância
tinha sido sublinhada tanto por Hegel como por Marx. Stálin pensava da seguinte
maneira: Zinoviev, Kamenev, Trótsky, Bukhárin e outros têm opiniões “erradas” a
respeito de questões importantes; expondo suas opiniões, defendendo-as, eles
produzem efeitos daninhos,
objetivamente
tão nocivos como os efeitos que seriam
provocados pela ação de sabotadores, espiões, agentes contrarrevolucionários e
traidores; portanto,
objetivamente,
eles são sabotadores, espiões, traidores,
agentes inimigos - e precisam ser
objetivamente
tratados como tais.
Nas coisas
que Stálin dizia ou escrevia apareciam, volta e meia, o advérbio “objetivamente”
e o adjetivo “objetivo” (ou “objetiva”), precisamente porque ele não encarava
dialeticamente a questão do papel da subjetividade na história e tendia a
identificar (de modo positivista) “subjetivo” com “arbitrário” e “objetivo” com
“científico”. Para se ter uma ideia de como esse modo de pensar e de agir era
diferente do de Lênin, basta lembrarmos que Zinoviev, Kamenev,
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Trótsky e
Bukhárin divergiram de Lênin em questões importantíssimas e nem por isso Lênin
os liquidou. Tal como Engels, Stálin tinha talento para as simplificações
didáticas; faltava-lhe, entretanto, a sólida base cultural e teórica de Engels.
Stálin retomou de Engels o esquema das “três leis” da dialética, mas
“corrigiu-o”. Em seu trabalho
Sobre
o
materialismo dialético e
o
materialismo histórico
(1938), Stálin sustentou que o método
dialético não possuía propriamente três leis gerais e sim “quatro traços
fundamentais”, que eram: 1) a conexão universal e a interdependência dos
fenômenos; 2) o movimento, a transformação e o desenvolvimento; 3) a passagem de
um estado qualitativo a outro; 4) a luta dos contrários como fonte interna do
desenvolvimento. Para Stálin, a expressão negação da negação”, usada por Engels,
era muito hegeliana, muito abstrata: não correspondia claramente a um processo
que se realizava sempre “do simples ao complexo, do inferior ao superior”. Não
bastava que a síntese (a “negação da negação”) fosse qualitativamente distinta
tanto da afirmação (tese) como da negação (antítese): ela devia assumir um
conteúdo nitidamente positivo, para poder ser aproveitada propagandisticamente
na luta política. Nos esquemas de Stálin era assim mesmo: as categorias da
reflexão, do estudo e da investigação científica deveriam estar sempre
preparadas para ser postas a serviço da propaganda.
Pag.71
A
deformação antidialética do marxismo, característica dos tempos de Stálin,
influiu poderosamente na educação ideológica de pelo menos duas gerações de
comunistas, no mundo inteiro. Essa influência está longe de ter sido
suficientemente analisada em suas origens e suprimida em suas consequências.
Nikita Khruschov, quando era secretário-geral do PC da URSS, denunciou, em 1956,
o sistema do “culto à personalidade” e as “graves violações da legalidade
socialista”, mas não contribuiu em nada para a elaboração de uma interpretação
marxista das causas e da exata natureza dos fenômenos que abordava. Os métodos
de Stálin foram condenados em termos éticos e passaram a ser combatidos em
termos políticos pragmáticos. Como, porém, eles se baseiam numa crassa
subestimação da teoria, nunca poderão ser efetivamente superados enquanto não
for plenamente recuperada a seriedade do trabalho teórico; e essa seriedade só
estará comprovada no dia em que as deformações impostas à dialética marxista no
período de Stálin tiverem sido submetidas a uma análise científica e filosófica,
a uma investigação historiográfica profunda e convincente.
Pag.73
IX
O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE
As
deformações que se desenvolveram na época de Stálin não constituem a única fonte
de modos de pensar antidialéticos que se difundem entre os marxistas. Num mundo
tão dividido como este em que vivemos, a mera adesão aos princípios teóricos do
marxismo nunca pode, evidentemente, funcionar como vacina, imunizando as pessoas
contra os males decorrentes de concepções estreitas, unilaterais,
preconceituosas. O gênero humano está excessivamente fragmentado, é muito
difícil compreendê-lo como
totalidade concreta
(e é muito difícil tomá-lo como base para
uma abordagem verdadeiramente universal de certos problemas humanos gerais): os
marxistas - da mesma forma que os representantes de outras correntes de
pensamento - acabam, assim, muitas vezes, misturando interesses nacionais ou
conveniências particulares com a
universalidade do autêntico
ponto de vista marxista...
Pag.74
... O
indivíduo isolado, normalmente, não pode fazer história: suas forças são
muito limitadas. Por isso, o problema da organização capaz de levá-lo a
multiplicar
suas energias e ganhar eficácia é um problema crucial para todo revolucionário.
E preciso que a organização não se torne opaca para o indivíduo, que ele não se
sinta perdido dentro dela; é preciso que ela não o reduza a uma situação de
impotência contemplativa ou a um
ativismo cego.
Se não, o indivíduo fica impossibilitado
de atuar revolucionariamente e se sente
alienado
na atividade coletiva. A organização
deixa de ser o lugar onde suas forças se multiplicam e passa a ser um lugar onde
elas são neutralizadas ou instrumentalizadas por
outras
forças,
orientadas em função de
outros
objetivos.
Pag.77
... O
indivíduo, então, como
dizia Marx, é o ser social; e é tão intrinsecamente social que somente ao longo
da sua história em
sociedade
é que o homem, depois de muitos séculos,
chegou a se individualizar
(já
que, nas comunidades mais primitivas, os indivíduos não contavam e existiam
exclusivamente em função da coletividade a que pertenciam).
Mas a vida social, nos tempos atuais, já pressupõe a existência de indivíduos
que alcançaram um razoável grau de autonomia. Algumas comunidades alienadas
ainda conseguem, em determinadas circunstâncias, absorver e diluir grande número
de indivíduos (fanatizados) no interior delas; mas já avançou bastante nas
pessoas a consciência de que cada uma delas tem responsabilidades em relação às
outras (e à sociedade em geral), porém possui igualmente responsabilidades em
relação a si mesma.
A experiência vem ensinando a um número cada vez maior de indivíduos que há
problemas que dependem da pessoa e somente dela e cuja solução não pode ser
transferida para nenhuma organização social.
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Como escreveu o
marxista tcheco Karel Kosik em sua
Dialética do concreto:
“Cada indivíduo - pessoalmente e sem que
ninguém possa substituí-lo - tem de formar uma cultura e viver a sua vida”.
Essa compreensão que os indivíduos estão adquirindo cada vez mais concretamente
do seu valor intrínseco não enfraquece neles o reconhecimento da necessidade de
se associarem, mas cria importantes exigências, novas, quanto ao caráter das
associações.
Por um lado, há um número crescente de indivíduos com maior riqueza e
complexidade interior; e esses indivíduos experimentam uma necessidade mais
imperiosa de superar seus limites como indivíduos, uma necessidade mais
imperiosa de se completarem em alguma forma de existência
comunitária,
que os aproxime uns dos outros (sem prejuízo da individualidade deles). Por
outro lado, a “racionalização” utilitária do capitalismo e o espírito
exageradamente competitivo estimulado pelo
mercado
agravam muito as
contradições entre os homens, diminuem a importância das velhas formas
tradicionais de comunidade
(família, vizinhança antiga), criam situações de solidão, desenvolvem
frustrações, espalham muita agressividade e insegurança.
A falta de uma compreensão dialética desses problemas e a avidez dos indivíduos
pela comunidade
(por
formas de convivência mais profundas) levam as pessoas, com frequência, a
aderirem, apaixonadamente, a
sucedâneos
de formas de existência autenticamente
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comunitárias (quer dizer, levam-nas a se integrarem em
pseudocomunidades,
em
caricaturas de comunidades).
E o que
acontece, por exemplo, com algumas pessoas que passam a militar fanaticamente em
organizações de tipo fascista, que se tornam propagandistas em tempo integral de
seitas religiosas “salvacionistas”, que viram “formigas” num “formigueiro”
qualquer. E é também um fenômeno que se manifesta, com gravidade bem menor, no
caso de certos grupos de jovens que se irmanam na “curtição” de uma mesma
diversão ou de uma moda passageira intensamente vivida.
A falta da dialética e o anseio pela
comunidade,
combinados, podem igualmente influir - e
com frequência influem mesmo - no comportamento dos revolucionários. Antes de
poder transformar a sociedade na qual nasceu e atua, o revolucionário é em boa
parte formado por ela, de modo que seria ingenuidade supor que ele possa
permanecer completamente imune aos seus venenos. Muitas, muitíssimas vezes, as
ideias revolucionárias se combinam, na mesma pessoa, com sentimentos bastante
reacionários e com preconceitos surpreendentemente conservadores. Por isso, não
são raros os casos de revolucionários que tendem a transformar a organização em
que desenvolvem suas atividades políticas numa espécie de
ídolo sagrado,
que não pode ser
submetido a críticas profundas e que deve merecer todos os sacrifícios. Essa
atitude, alienada,
causa
graves prejuízos tanto aos indivíduos como
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à organização: os
revolucionários que “fetichizam” a organização em que atuam deixam de contribuir
para que ela se renove e acabam facilitando o agravamento de suas deformações.
Na medida em que não aprofundam suficientemente nem o espírito crítico nem a
luta permanente pela democratização de todas as relações humanas, esses
indivíduos mostram ser, em última análise, maus revolucionários.
Pag.81
X
SEMENTE DE DRAGÕES
Uma das
características essenciais da dialética é o espírito crítico e autocrítico.
Assim como examinam constantemente o mundo em que atuam, os dialéticos devem
estar sempre dispostos a rever as interpretações em que se baseiam para atuar.
Quando a filha de Marx pediu ao pai para responder a um questionário organizado
por ela e lhe perguntou qual era o lema que ele preferia, Marx respondeu:
“Duvidar de tudo”.
Para homens engajados num combate permanente, como os marxistas, é difícil
colocar em prática esse lema. Com frequência se manifesta entre os marxistas uma
tendência que os leva a substituir a
análise concreta das situações concretas
por um conjunto
de fórmulas especulativas, por um esquema geral no qual as coisas são
enquadradas forçadamente, precipitadamente. Essa
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tendência se
manifestava já em Hegel, que era idealista, e continuou a se manifestar entre os
marxistas.
Na medida em que se deixam influenciar pela tendência mencionada acima, os
revolucionários passam a querer transformar o mundo sem se preocuparem
suficientemente com a transformação deles mesmos. Com isso, perdem muito da
capacidade autocrítica e não conseguem se renovar tanto quanto é necessário.
Diversos críticos, hostis à dialética, têm aproveitado essas deficiências para
sustentar que o pensamento dialético despreza o rigor da análise e se presta a
“acrobacias” intelectuais. José Guilherme Merquior ainda foi mais longe e chamou
a dialética de “dama de costumes fáceis”. Os defensores da dialética não podem
se limitar a explicar para o Merquior o verdadeiro alcance dos princípios de
Hegel e de Marx; precisam saber
aplicar
esses princípios de maneira consequente, a
uma realidade que - conforme reconhecemos - está sempre mudando.
A dialética não dá “boa consciência” a ninguém. Sua função não é tornar
determinadas pessoas plenamente satisfeitas com elas mesmas. O método dialético
nos incita a revermos o passado à luz do que está acontecendo no presente; ele
questiona o presente em nome do futuro, o que está sendo em nome do que “ainda
não é” (Ernst Bloch). Um espírito agudamente dialético como o poeta Bertolt
Brecht disse uma vez: “O que é, exatamente por ser tal como é, não vai ficar
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tal como está”.
Essa consciência da inevitabilidade da mudança e da impossibilidade de
escamotear as contradições incomoda os beneficiários de interesses constituídos
e os dependentes de hábitos mentais ou de valores cristalizados.
A dialética intranquiliza os comodistas, assusta os preconceituosos, perturba
desagradavelmente os pragmáticos ou utilitários. Para os que assumem, consciente
ou inconscientemente, uma posição de compromisso com o modo de produção
capitalista, a dialética é “subversiva”, porque demonstra que o capitalismo está
sendo superado e incita a superá-lo. Para os revolucionários românticos de
ultraesquerda, a dialética é um elemento complicador utilizado por intelectuais
pedantes, um método que desmoraliza as fantasias irracionalistas, desmascara o
voluntarismo e exige que as mediações do real sejam respeitadas pela ação
revolucionária. Para os tecnocratas, que manipulam o comportamento humano (mesmo
em nome do socialismo), a dialética é a teimosa rebelião daquilo que eles chamam
de “fatores imponderáveis”: o resultado da insistência do ser humano em não ser
tratado como uma máquina.
É verdade que, em muitos casos, o que tem sido apresentado como dialética não
tem passado de mera instrumentalização de algumas ideias de Hegel ou de Marx,
mal assimiladas e ainda mais mal utilizadas. Mas a reação potencialmente mais
eficaz contra essa deformação é a que provém da autêntica dialética, que está
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sempre
alerta para enfrentar as imposturas cometidas em seu nome, com o espírito
rebelde que lhe é peculiar. A dialética - observa o filósofo brasileiro Gerd
Bornheim - “é fundamentalmente contestadora”.Ninguém conseguirá jamais
domesticá-la. Em sua inspiração mais profunda, ela existe tanto para fustigar o
conservadorismo dos conservadores como para sacudir o conservadorismo dos
próprios revolucionários. O método dialético não se presta para criar
cachorrinhos
amestrados. Ele é, como disse o argentino Carlos Astrada, “semente de dragões”.
Os dragões semeados pela dialética vão assustar muita gente pelo mundo afora,
talvez causem tumulto, mas não são baderneiros inconsequentes; a presença deles
na consciência das pessoas é necessária para que não seja esquecida a essência
do pensamento dialético, enunciada por Marx na décima primeira tese sobre
Feuerbach: “Os filósofos têm se limitado a
interpretar o
mundo; trata-se,
no entanto, de
transformá-lo.”
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