|
Introdução
IX
...
representa o trabalho de pesquisa, de análise e de revisão realizado em
cinco anos, e algumas vezes interrompido, para reformulação de conceitos
e estudo de fundamentos teóricos referentes a fases controversas... uma
crítica rigorosa, sincera, multilateral...
Não pode
surpreender que uma fase de profundas alterações encontre reflexos em
todos os domínios, e que demande, inclusive, uma revisão histórica. Tal
revisão, que é menos ligada a acontecimentos e a figuras do que ao
processo, apreciado segundo métodos novos de interpretação, não deriva
de um interesse acadêmico, deriva da necessidade de conhecer os
antecedentes que, em seu desenvolvimento, levaram o País à situação em
que se encontra, vistos de um angulo objetivo...
Não é êste,
pois, um livro de mera especulação: deriva de uma posição política. “Não
ter uma posição política justa, disse alguém, é como não ter alma.” Não
a separo, pois, do trabalho que se vai ler; ela faz parte deste
trabalho, parte intrínseca: é a sua alma.
X
...
o texto deste trabalho pode e deve sofrer a mais ampla
discussão ... o seu mérito
maior estará na medida em que
despertar o interesse para essa discussão.
Pag.03
A
História é uma ciência social, seu objeto é o conhecimento do processo
de transformação da sociedade ao longo do tempo. Da sociedade, não dos
indivíduos: o fato isolado, o caso único, o episódio irrepetível, não
são suscetíveis de tratamento científico, — não pertencem ao domínio da
Historia. A base da vida em sociedade é a produção: para viver e preciso
produzir; para produzir é preciso trabalhar. Os homens trabalham juntos,
vivem juntos, — constituem a sociedade. “Não podem produzir, — comenta
um historiador, — sem associar-se de um certo modo, para atuar em comum
e estabelecer um intercâmbio de atividades. Para produzir, os homens
contraem determinados vínculos e relações sociais e só através deles
relacionam-se com a natureza e realizam a produção."
O grau de desenvolvimento dos instrumentos de produção indica o poder da
sociedade sobre a natureza, o seu grau de desenvolvimento. As épocas
econômicas distinguem-se não pelo que os homens produzem mas como
produzem, isto é, que instrumentos de produção empregam. Produzimos,
hoje, no Brasil, o milho e a mandioca e deles fazemos uso variado, sob
formas variadas; o indígena também produzia o milho e a mandioca, e dele
fazia uso variado, sob formas variadas. O que distingue os brasileiros
do nosso tempo dos indígenas do século XVI é a maneira diversa de
produzir o milho e a mandioca, — isto distingue essencialmente o
desenvolvimento da sociedade brasileira atual em relação à sociedade
indígena dos primeiros tempos da colonização.
As relações que se estabelecem na produção são relações sociais:
constituem objeto da História. Elas definem a sociedade sob três
aspectos:
— forma de
propriedade sobre os meios de produção, que e uma relação determinante;
Pag.04
— situação
social consequente, com a divisão da sociedade em classes;
— formas de distribuição da produção, estabelecendo os nexos entre a
produção e o consumo.
Consideradas
tais relações, a sociedade, ao longo do tempo, conheceu diversos
regimes de produção: a comunidade primitiva, o escravismo, o feudalismo,
o capitalismo e o socialismo. O estudo do processo histórico da
sociedade brasileira, objeto deste livro, mostra não só a vigência aqui,
da descoberta aos nossos dias, de cada uma daquelas formas, de cada um
daqueles regimes de produção, salvo o último, sucessivamente, como a sua
coexistência ao longo do tempo e ainda hoje, — é a contemporaneidade
do não coetâneo, um dos traços específicos do caso brasileiro, mas
não privativo desse caso. Coexistem, no Brasil, regimes de produção
diferentes, de tal sorte que geram antagonismos por vezes profundos
entre regiões do País. Quem percorre o nosso território do litoral
para o interior, marcha, no tempo, do presente para o passado,
conhece, sucessivamente, formas capitalistas de produção e formas
feudais ou semifeudais, e pode mesmo conhecer a comunidade primitiva
onde os indígenas conservam o tipo de sociedade peculiar, o mesmo que os
colonizadores encontraram no século XVI. O fato de que tais regimes já
não estejam nitidamente caracterizados, e o fato de que o escravismo, a
rigor, esteja extinto, não invalidam tais contrastes.
Regime de
comunidade primitiva foi aquele em que os europeus encontraram os
indígenas, no Brasil, no século XVI. Essa espécie de organização social
e sua incompatibilidade com o regime escravista instaurado pelos
colonizadores é que motiva a prolongada luta que leva ou à dizimação dos
indígenas ou à sua fuga para o interior. Os traços mais característicos
do regime de comunidade primitiva, — na sua generalidade, e não no que
se refere ao caso particular dos indígenas brasileiros, — foram:
— a propriedade em comum dos meios de produção;
— os instrumentos rudimentares de trabalho;
— a cooperação simples;
— a distribuição igualitária;
Pg.05
— a divisão
natural do trabalho por condições de sexo e idade;
— a organização gentílica da sociedade;
— a ausência de excedentes da produção.
A propriedade
em comum dos meios de produção carece, no caso, do sentido, que alguns
lhe atribuem, de forma socialista de produção: ela decorre da fraqueza
do indivíduo isolado, do rudimentarismo de seus instrumentos de
trabalho, e não de qualquer outro motivo, e não tem, assim, qualquer
semelhança com formas apresentadas no regime socialista de produção. Na
comunidade primitiva não há excedentes de produção, não há troca,
consequentemente. Não havendo troca, não há mercado, e não havendo
mercado não há mercadorias. Disso decorre a ausência de classes sociais.
Quando a comunidade primitiva, por fatores endógenos, entra em
deterioração, aparece nela a primeira divisão social do trabalho, o
pastoreio separa-se da agricultura. Este primeiro passo na divisão
social do trabalho faz aparecer excedentes na produção e a necessidade
de trocá-los. Surge, em consequência, a mercadoria e o mercado e começam
a definir-se e diferenciar-se classes sociais.
Pg.30
Duas classes ficam
perfeitamente delineadas: a dos senhores feudais e a dos servos. Os
escravos não constituem
classe social, os elementos ligados ao capital comercial e ao
capital mercantil constituem apenas um grupo, os elementos
ligados a atividades urbanas ou náuticas constituem camada
social sem condições para constituir base política que permitisse ao
grupo mercantil travar a luta contra os senhores feudais. Não aparecem,
na referida estrutura, os que produzem
mercadorias, no país, os operários; nem os que dominam aquelaprodução, os capitalistas. Onde não há trabalho assalariado,
não há burguesia, não há capitalismo. O grupo que detinha
o capital comercial, como o capital usurário, era relativamente
poderoso, exercia influência na Corte, mas não tinha raízes
no processo produtivo do próprio país, processo fundamentalmente agrário
e feudal, com um setor escravista. Os lucros
auferidos no comércio com outros países ou regiões não eram
aplicados na produção local, que não evoluía, não eram invertidos nas
manufaturas, e estas não evoluíam para se transformar em oficinas ou
fábricas. Tais lucros consumiam-se nas
guerras, particularmente as de concorrência, e no consumo
parasitário dos senhores feudais, inclusive o clero.
Os servos que viam afrouxar-se os laços que os prendiam
aos senhores e que não regressavam à terra não chegavam a
constituir, com isso, massa desprovida de meios de produção,
não se constituíam em assalariados, e a maioria retomava à
condição antiga. O grupo mercantil, assim, ficava desprovido
de base política, como ficou mencionado, a base que poderia,
em outras circunstâncias, surgir de operários, artesãos e camponeses
livres, para a luta contra os senhores feudais. Sem
raízes no processo local de produção e sem base política,
ficava ilhado e sua tendência era emigrar. Estava reduzido
a si mesmo, combatido por forças muito poderosas, sem condições para
enfrentá-las.
Os lucros auferidos pela Coroa e pelos mercadores, como
não eram fundados na produção do próprio Reino, tendiam
a acumular-se no estrangeiro, particularmente com os holandeses. Em mãos
destes é que, aplicados na produção própria,
uma vez que a Holanda dispunha de manufaturas importantes,
subverteria as bases da produção feudal. A transferência de
tais lucros é que faz com que Portugal tenda a perder a sua
Pg.31
destacada posição no quadro
mundial. Os lucros obtidos na
esfera da circulação evadiam-se com facilidade. Mas ainda
estes, em que o Reino teve o papel conhecido, foram alcançados com a associação a mercadores estrangeiros, particularmente
holandeses.
Esta é a sociedade lusa que vai enfrentar a empresa das
grandes navegações, das descobertas ultramarinas e, depois,
da colonização das zonas tropicais, quando o novo mercado
mundial surge. As mercadorias, agora, vão ser produzidas em
zonas as mais distanciadas, transportadas de umas a outras, e
largamente distribuídas. O esquema, no caso, apresentava-se
assim:
— zonas
produtoras;
— transporte;
— distribuição;
— zonas consumidoras.
Tratava-se, de acordo com aquele
esquema, de:
— dominar ou
apossar-se das zonas produtoras, seja pela
conquista, seja pela colonização;
— transportar as mercadorias (navegação);
— distribuir as mercadorias (circulação);
— criar mercados amplos de consumo.
Tudo isto mostra, com muita clareza, que
a empresa das
navegações de longo curso e das descobertas ultramarinas
nada tem daquele caráter de aventura com que é habitualmente
apresentada. É, muito ao contrário, empresa do frio
cálculo, da cuidadosa preparação, do método rigoroso. É uma tarefa comercial, a maior que o mercantilismo empreende,
“ara enfrentá-la, Portugal, como a Espanha, estava devidamente
preparado. Mas, ainda assim, foi incapaz de cumpri-la
em sua totalidade e de durar no seu cumprimento. A criação
do novo mercado mundial contribuiria para ampliar consideravelmente a
divisão do trabalho no campo: a Europa do século XV vai assistir, realmente, a especialização de zonas geográficas
inteiras e extensas, e distanciadas umas das outras. Para compreender com clareza o caráter daquela ampliação
Pg.32
é necessário ter em conta as características
que o ocidente
europeu apresentava, na época:
— a Europa
produzia, então, os gêneros indispensáveis à
subsistência de suas populações;
— os produtos da terra quase não eram objeto de troca.
A resposta que deve ser dada a tais
características, para
que elas não entravem a ampliação que vai ter lugar, e que
condiciona o alargamento do mercado mundial e a divisão
ampla do trabalho no campo, consistiria em:
— proporcionar ao
mercado europeu o que a Europa, por
condições ecológicas, não podia produzir;
— ampliar o mercado de consumo para os produtos da terra,
desenvolvendo a sua participação nas correntes de troca.
Esse mecanismo é que permite o
desenvolvimento do comércio de especiarias, abrindo perspectivas ao de
alimentícios
e ao de matérias-primas. Trata-se, em primeiro lugar, de
aproveitar as condições ecológicas das zonas ultramarinas conquistadas
para o comércio direto ou apossadas e colonizadas.
Ora, “os trópicos (e em menor escala os subtrópicos também)
fornecem, em virtude de seu período vegetativo prolongado
e em parte pràticamente sem interrupção, produtos agrícolas
muito valorizados, como condimentos e especiarias, numa
qualidade e quantidade que as zonas temperadas não podem
produzir”. Quando a etapa da especiaria fica superada, —
embora essa mercadoria especialíssima continue a figurar nas
trocas, — torna-se necessário subverter as condições de produção
nas zonas produtoras distantes para produzir em grande escala,
ao mesmo tempo que se subvertem as condições das zonas
consumidoras, para consumir em grande escala. Convém examinar a primeira
parte, antes.
As zonas distantes apresentavam, de início, condições
adversas, sob o modo de produção peculiar aos nativos das
zonas tropicais, para produzir em grande escala. A subversão,
no caso, é representada pela introdução do sistema de
plantage.
O primeiro produto, com antecedentes de
especiaria, que constitui a base do sistema de
plantage
é o
açúcar. Um geógrafo
eminente, a este propósito, define o problema da maneira
Pg.33
seguinte: “Verifica-se, portanto, no
caso da cana-de-açucar,
uma grande diferença entre a cultura das
plantages
e a
produção nativa, diferença concernente à forma de produzir e
à finalidade da produção. Haverá fundamental diferença se
o suco da cana-de-açúcar é consumido no próprio local, fresco,
engrossado, ou como açúcar mascavo bruto, como o fazem
ainda hòje os nativos do sul da Ásia, ou se o mesmo se destina
a ser levado ao mercado sob forma sólida e purificada, constituindo o
chamado ‘sal doce’. Este último é tão valioso e
durável que pode ser exportado para as áreas de consumo
longínquas. Mas, para a sua produção, são necessários, além dos
canaviais, uma fábrica especializada com diversas instalações mecanizadas e os correspondentes conhecimentos químicos e técnicos, sem falar no capital inicial. Tudo isto, entretanto,
está fora do alcance das possibilidades dos nativos.
Uma
plantage
não é um empreendimento puramente agrícola, mas
ainda industrial; não produz apenas produtos agrícolas, beneficia-os
tomando-os armazenáveis e aptos a serem exportados. E isto ela se vê obrigada a fazer porque não produz, como
no caso dos nativos, para o próprio consumo e sim para omercado externo e principalmente para o mercado da zona
temperada do hemisfério norte. Este, entretanto, fica muito
afastado dos centros de produção nos trópicos e o transporte
dos produtos tem de ser realizado através da zona tropical
quente e úmida, com todos os riscos de deterioração. Encontramos, assim,
uma segunda relação importante entre a
plantage
e o mundo tropical. Trata-se
não de uma relação climática ou da própria natureza dos trópicos, mas
de sua posição geográfica, de sua grande distância dos mercados das
latitudes mais altas. A dependência das
plantages
dêsses mercados distanciados
obriga-as a tomar os seus produtos exportáveis e duráveis, de modo que a
sua produção tem de ser
organizada para um objetivo completamente diverso daquele
dos nativos: elas têm de lançar mão da industrialização. No
ouso da cana-de-açúcar, esta industrialização atinge o seu
ponto máximo, pois se trata de transformar um suco fàcilmente
deteriorável num produto sólido e durável.” (...) "Para a maioria e as mais importantes regiões de
plantages
dos trópicos, o mercado de colocação dos
produtos é o mercado externo, o que explica a preferência para sua localização
Pg.34
nas ilhas (Java, Ceilão, Cuba) ou nas
regiões próximas à costa
nos continentes (estados sulinos dos Estados Unidos, regiões costeiras
do Atlântico e do Pacífico da América Central, nordeste do Brasil).”
Há, finalmente, uma consideração básica, a respeito da
divisão de trabalho que especializa agora toda a superfície
terrestre pràticamente, com a criação do mercado mundial.
É que as zonas consumidoras de produtos tropicais são produtoras de
manufaturas, quando aquela subversão é introduzida nas primeiras em que
a mudança se opera. Estão em
condições, portanto, de suprir as zonas tropicais dos utensílios e toda
espécie de mercadorias que estas ficam desobrigadas de produzir quando
se especializam. Sem a existência
de zonas manufatureiras, a divisão do trabalho no campo, na
fase do mercado mundial, teria sido impossível. É o aparecimento da
manufatura no ocidente europeu, e na fase das
grandes navegações e das descobertas ultramarinas e colonização
consequente, que possibilita os empreendimentos em
ultramar. Na medida em que a deterioração da manufatura
gera a indústria, a especialização se acentua, amplia-se e se
agrava. Vai cobrir também, nas áreas tropicais, alimentícios
e matérias-primas. Todos os gêneros fornecidos por tais áreas
passam a ser conhecidos como “gêneros tropicais" . E como as
zonas tropicais são objeto de colonização ou de dominação
pela forca, serão conhecidos também como “gêneros coloniais”.
A EMPRESA DAS NAVEGAÇÕES
A empresa das navegações, que possibilita as descobertas
de que decorre a colonização, tem suas bases no capital comercial cujo
aparecimento e desenvolvimento caracterizam o
declínio do feudalismo. Aquele capital, formado na esfera da
circulação, tem sua origem na troca de intermediários e na
exploração dos extremos, o produtor e o consumidor. A primeira e longa
etapa de sua formação está vinculada à mercadoria especialíssima que é a
especiaria, e apresenta uma
fase preliminar da divisão do trabalho no mercado mundial,
fazendo das zonas tropicais fornecedoras ao mercado europeu de
condimentos e alimentícios orientais.
Pg.35
Pelo seu reduzido volume e alto valor
unitário, como é sabido, as especiarias atendiam às limitações ligadas à
deficiência nas técnicas
de transporte, que se refletiam no alto frete da época, particularmente
à fraca tonelagem dos barcos. O mecanismo das
trocas, no que dizia respeito às especiarias, fundava-se também
num giro rápido, numa rápida transformação da mercadoria
cm dinheiro; o dispêndio de tempo ocorria no transporte. Fundava-se
ainda no fato de que entre o produtor e o consumidor não sofria nenhuma transformação: a especiaria era entregue
tal como fora recebida.
O açúcar foi a única especiaria que demandou, desde o
início, um beneficiamento primário, sem o qual não poderia
ser objeto de troca: a transformação em sólido para poderser transportado e resistir à deterioração.
Assim, só a posse da técnica de beneficiamento primário permitia a produção.
Não surpreende que o capital comercial, que tinha na distribuição do
açúcar uma de suas melhores fontes de renda,
alcançasse o apossamento daquela técnica para os seus detentores, — e é
por isso que determinados grupos começam pela
distribuição e acabam na produção, ao contrário do que costuma acontecer na
economia moderna. Detentores de capital
comercial, os venezianos apropriam-se daquela técnica e tornam-se
produtores de açúcar, nas áreas orientais do Mediterrâneo. Detentores de
capital comercial, os portugueses, no
século XV, apropriam-se daquela técnica e tomam-se produtores de açúcar,
nas áreas ecologicamente propícias das ilhas do Atlântico. Na apropriação da referida técnica e na própria
instalação da área produtora ocidental, tiveram os portugueses a ajuda do capital comercial holandês, que já estava vinculado
à distribuição de açúcar ao mercado consumidor europeu.
E
as manufaturas holandesas proporcionam os meios destinados à fabricação
dos equipamentos que constituem os engenhos. O avanço alcançado pelos
portugueses na produção
encontra, entretanto, um obstáculo difícil de superar, na metade do
século XV, quando o mercado atinge o seu limite de
consumo, daí resultando a política de retenção e de defesa e preços
adotada no reino manuelino.
A experiência das ilhas, porém, permitiria ao Reino os
incursos necessários a uma etapa posterior, a solução dos inúmeros problemas ligados à produção
e
à distribuição do açúcar,
Pg.36
cujo passado de especiaria
estava pràticamente extinto. Experiência e capital comercial juntam-se
para dar ao Reino as
condições indispensáveis a um segundo lance, o lance que se
tornaria exequível com as grandes navegações, as descobertas
em ultramar, a posse e a colonização de áreas fora do continente. Nos
fins do século XV, por outro lado, estava Portugal de posse das técnicas
de navegação que lhe permitiriam
dar o grande salto para o longo curso. A transferência de
capital comercial da área italiana para a área ibérica, e a
atração que esta exerceu sobre o capital comercial holandês,
foi acompanhada da transferência de recursos humanos, de
recursos técnicos, que forneceriam as bases sobre as quais a
navegação oceânica fundou a sua expansão. O fato de ter
sido um genovês, Cristóvão Colombo, o descobridor da América, em 1492, fornece um exemplo, entre muitos outros, da
gravitação para a península ibérica de toda a sorte de meios
materiais e humanos que, antes, se concentravam na península
italiana. Mas cinco anos antes, em 1487, já Bartolomeu Dias,
em viagem de importância indiscutível, dobrara o Cabo das
Tormentas. Amadureciam as condições concretas para a abertura de uma
nova fase na divisão do trabalho no mercado
mundial. Em 1494, pouco depois do descobrimento de Colombo, o Papa
regulava a repartição das áreas desconhecidas
entre Portugal e Espanha. E o problema do meridiano que
as definisse, discutido em Tordesilhas, giraria muito mais em torno da posse das Molucas, fonte de especiarias, isto é, das
mercadorias que eram objeto de troca e de procura, do que da posse de
terras americanas. Ao aproximar-se o fim do século, em 1497 e 1498, Vasco da Gama concretizou a ligação
direta com as fontes produtoras de especiarias no oriente.
O esquema antigo, quanto ao comércio de especiarias,
apresentava os seguintes elementos: suseranos orientais, intermediários
árabes (mouros), intermediários venezianos, distribuidores e
redistribuidores, consumidores, na fase em que provinham elas do Oriente
por via terrestre, até o fundo do
Mediterrâneo. Depois da abertura das rotas marítimas pelos
portuguêses, o esquema passou a apresentar-se da maneira eguinte: suseranos orientais, intermediários
portugueses, distribuidores e redistribuidores, consumidores. Estavam
excluídos os intermediários árabes, que continuariam disputando
Pg.37
com os lusos,
à mão armada, nas Índias, a preferência dos suseranos, e estava quebrado
o monopólio veneziano na distribuição. Lisboa, já empório do açúcar,
tomava-se empório das especiarias. O comércio das especiarias, área
importantíssima em que o capital comercial operava e de que se
alimentava, oferecia aspectos que convém frisar:
— era-lhe
indiferente o modo de produção de especiarias;
— vivia da exploração do valor, isto é, da diferença entre o preço de
compra no oriente, que forçava ser o
mais baixo, e do preço de venda no ocidente, que
forçava ser o mais alto, ganhando nessa diferença
que importava, assim, na exploração dos extremos,
peculiar ao capital comercial;
— a especiaria tinha um valor de uso, era consumida improdutivamente;
— a luta pela concorrência e disputa de fornecimentos em regime de
monopólio transformou, pouco a pouco,
a atividade comercial em atividade predatória: o preço
de compra desceu, e às vezes se anulou, mas
ocorreu um dispêndio muito grande derecursos para
alimentar a atividade predatória;
— pressupunha a produção local organizada, não estava interessado em
organizá-la;
— era desligado da produção;
— era desligado do consumo.
A conquista do comércio
oriental de especiarias não éUrna conquista de território, pois: os
navegadores não vão ocupar as áreas produtoras, nem interferir nelas. É
uma conquista que cedo se reveste de violência, porque disputa
privilégios, particularmente o do monopólio, imposto pela força na
maioria dos casos. Trata-se de substituir os antigos mercadores árabes,
que ali obtinham as mercadorias que levavam ao Ocidente, por mercadores
europeus, estabelecendo contato direto com as zonas produtoras e
eliminando os roteiros terrestres. Para a conquista do comércio há
necessidade de fundar estabelecimentos do tipo feitoria, é um princípio
de ocupação por pontos, a importância está em determinadas praças
orientais que coletam a produção regional. Essa coleta tem importância
enorme, sem ela não existiria comércio, há que
Pg.38
reunir o que
populações dispersas produzem. A produção, entretanto, é preexistente:
não se trata de criá-la, antecede a fase das grandes navegações. E há
uma população suficientemente densa para permitir a coleta da produção
dispersa. Trata-se de comerciar, pois, e não de produzir, nem de povoar,
nem de colonizar. À base da colonização, o comércio de especiarias teria
sido impossível, não teria existido. Os fretes são tão altos, em face
aos riscos da navegação, além dos riscos na conquista dos privilégios,
que só mercadoria do tipo das especiarias poderia enfrentá-los. Só a
preexistência da produção organizada permitia o desenvolvimento dêsse
comércio: montar a produção correspondia a um empreendimento de tais
proporções, tendo em vista as características locais, que o capital
comercial não estava em condições de concretizar, nem era de sua
natureza fazê-lo.
Pg.96
“Logo após a
chegada da primeira armada exploradora, D. Manuel arrendou o Brasil a um
grupo de capitalistas, cristãos-novos, ou judeus conversos, à frente dos
quais estava Fernão de Loronha ou Noronha. Se Femão de Loronha era
de nação,
não está bem averiguado,
no dizer de Lúcio de Azevedo. O que é fato é que era pessoa de prol em
Lisboa, cavaleiro da Casa Real, homem de boas contas nos cargos que já
havia desempenhado.” (Bemardino José de Sousa —
O pau-brasil na história
nacional — S.
Paulo — 1939 — pág. 107.)
(3 ) “Demais, existia o problema da mão-de-obra.
Transportá-la na quantidade necessária da Europa teria requerido uma
inversão demasiadamente grande, que provàvelmente tomaria antieconômica
toda aempresa. As condições de trabalho eram tais que somente pagando
salários bem mais elevados que os da Europa seria possível atrair
mão-de-obra dessa região. A possibilidade de reduzir os custos
retribuindo com terras o trabalho que o colono realizasse durante um
certo número de anos, não apresentava atrativos ou viabilidade, pois sem
grandes concentrações de capital as terras pràticamente não tinham valia
econômica. Por último, havia a considerar a escassez de oferta de
mão-de-obra que prevalecia em Portugal, particularmente nessa etapa de
magnífico florescimento da empresa das índias orientais.” (Celso Furtado
— op. cit. — pág. 21.)
(4 ) “O formidável ressurgimento da escravidão, adormecida como
instituição durante a Idade Média, deve-se principalmente ao
aparecimento da América como colossal reserva de matérias-primas. O
braço escravo foi, no nosso continente, colocado no trabalho para criar
uma corrente de mercadorias que se destinava aos mercados europeus. A
América, enriquecida por sua vez pelo trabalho escravo, criou mais
adiante o seu próprio mercado interno e se transformou em excelente
consumidora da produção europeia. Foi este um processo capitalista cuja
veracidade histórica é hoje aceita por historiadores e economistas, os
primeiros entre eles os da Inglaterra e dos Estados Unidos. A escravidão
americana foi o mais extraordinário motor que teve a acumulação do
capital comercial europeu e este, por sua vez, a pedra fundamental sobre
a qual se construiu o gigantesco capital industrial dos tempos
contemporâneos, — capital industrial que, necessitado como esteve cedo
de produtores e consumidores livres, atacou, desde o século XIX, a
instituição da escravidão como funesta aos seus propósitos.
Indiretamente, pois, a escravidão do índio e do negro tornou-se
indispensável para que, mediante um secular processo de acumulação
capitalista, a Europa ocidental pudesse ter indústrias modernas e os
Estados Unidos alcançassem, no século XIX, seu espetacular
desenvolvimento econômico.” (Sérgio Bagú — op. cit. — pág. 131.)
“Com o
desenvolvimento da produção capitalista durante o período manufatureiro,
a opinião pública europeia foi despojada dos últimos resquícios de
consciência e de pudor. Cada nação fazia uma glória cínica de toda
infâmia capaz de acelerar a acumulação de capital. Leia-se por exemplo
os ingênuos “Anais do Comércio”, do honesto
Pg.97
Anderson.
Êste bravo homem admira como traço de gênio da política inglesa
que, após a paz de Utrecht, a Inglaterra tenha arrancado à Espanha,
pelo tratado de Asiento, o privilégio de fazer, entre a África e a
América espanhola, o tráfico de negros que fazia, até então, apenas
entre a África e suas possessões das índias Ocidentais. A Inglaterra
obteve assim o fornecimento, até 1743, de quatro mil e oitocentos negros
por ano à América espanhola. Isto lhe serviu, ao mesmo tempo, para
cobrir com um véu artificial as proezas de seu contrabando. Foi o
tráfico negreiro que estabeleceu os fundamentos da grandeza de
Liverpool; para esta cidade ortodoxa o tráfico de carne humana
constituiu todo o método de acumulação primitiva. E até os nossos dias
as notabilidades de Liverpool cantavam as virtudes específicas do
comércio de escravos “que desenvolve o espírito de empresa até a paixão,
forma marinheiros incomparáveis e proporciona dinheiro enormemente”.
Liverpool empregava no tráfico: 15 navios, em 1730; 53, em 1751; 74, em
1760; 96, em 1770; e 132, em 1792.” (Karl Marx - op. cit. - Pag. 305,
IV.)
Pg.98
(6 ) “Parte
substancial dos capitais requeridos pela empresa açucareira viera dos
Países Baixos. Existem indícios abundantes de que os capitalistas
holandeses não se limitaram a financiar a refinação e comercialização do
produto. Tudo indica que capitais flamengos participaram no
financiamento das instalações produtivas no Brasil, bem como no da
importação da mão-de-obra escrava. O menos que se pode admitir é que uma
vez demonstrada a viabilidade da empresa e comprovada sua alta
rentabilidade, a tarefa de financiar-lhe a expansão não
haja
apresentado maiores dificuldades. Poderosos grupos financeiros
holandeses, interessados como estavam na expansão das vendas do produto
brasileiro, seguramente terão facilitado os recursos requeridos para a
expansão da capacidade produtiva.” (Celso Furtado — op. cit. pág. 20.)
(7 ) “A exploração econômica das terras americanas deveria parecer, no
século XVI, uma empresa completamente inviável. Por essa época, nenhum
produto agrícola era objeto de comércio em grande escala dentro da
Europa. O principal produto da terra — o trigo — dispunha de abundantes
fontes de abastecimento dentro do continente. Os fretes eram de tal
forma elevados — em razão da insegurança do transporte a grandes
distâncias — que somente os produtos manufaturados e as chamadas
especiarias do oriente podiam comportá-los. Demais, era fácil imaginar
os enormes custos que não teria de enfrentar uma empresa agrícola nas
distantes terras da América.” (Celso Furtado — op. cit. — pág. 16.)
|