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Projet de Recherche: "Brazil" Géopolitique de la Corruption Bibliographie |
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SODRÉ, Nelson Wernwck.
As
Razões da Independência.
Rio de Janeiro:
Editora Civilização Brasileira S.A., 1965.
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Pag.11
No estudo sobre o tratado de
Methuen, destaca-se o Papel do Brasil, e do ouro brasileiro em
particular, como elemento impulsionador do desenvolvimento
capitalista
inglês, ao mesmo tempo que
se elucida, ao longo do tempo, o domínio inglês em Portugal e,
indiretamente, no Brasil
John Methuen passaria seis
anos junto à corte de D. Pedro
11.
Nela, não fez apenas a diplomacia habitual do tempo, em particular a
que faziam os seus compatriotas. Longe de conservar-se distante,
oficial e solene, na posição em que se achava investido, procurou
fazer relações, tornar-se conhecido, impor-se por qualidades
pessoais, independentes das que deveriam confundir-se na figura de
um representante inglês. Não se conservou distante, nem Pag.17 Mais discutido do que conhecido, - e quase sempre mal discutido, por ser visto isolado do quadro em que se gerou, - o Tratado de Methuen era simples, curto e claro. Ei-lo, na íntegra:
“Art. I°.
Sua Sagrada Majestade El Rey de Portugal promete tanto em Seu
próprio Nome, como no de Seus Sucessores, de admitir para sempre
d’aqui em diante no Reino de Portugal, os Panos de lã e mais
fabricas de lanifício de Inglaterra, como era costume até o tempo
que foram proibidos pelas Leis, não obstante qualquer condição em
contrario. Pag.18
Assim passou à história o tratado de Methuen, - e
começou a produzir seus efeitos. Desde a data em que foi firmado,
foi também combatido. Em Portugal, a gente do tempo não poupou os
que se haviam envolvido nas negociações. Suspeitas de suborno
foram divulgadas. Ao padre Sebastião de Magalhães, jesuíta e
confessor do rei, atribuía-se o recebimento de cinquenta mil
cruzados, como parte dos quais teria dotado suas sobrinhas. Ao
Secretário de Estado, Roque Monteiro Paim, acusava-se de ter
recebido presentes valiosos, em joias, que se destinariam às filhas,
e em moedas de ouro, que lhe caberiam. O signatário do tratado por
parte do governo português. o marquês de Alegrete, ficaria suspeito
em virtude de ter comprado, sendo pobre até então, o palácio em que
passou a residir. Nem o seu sogro, o duque de Cadaval, rico já nessa
época, escapou às acusações.
(1) A suspeita em relação ao confessor
real, padre Sebastião de Magalhães, conjuga-se de certo modo com o
depoimento contido em uma instrução do governo francês ao seu
representante em Lisboa.
(2)
1 Tais acusações estão relacionadas nas Memórias
Históricas de Jacó Frederico Torlades Pereira, compiladas d 1827
a 1836, e parecem provir de algum escrito do tempo, no dizer de João
Lúcio de Azevedo. Pag.19 Entre elas, a que lhe fez o representante português em Londres, D. Luis da Cunha. Herdeiro das ideias do conde da Ericeira, partidário das opiniões de Colbert, D. Luís da Cunha manifestou-se contrário às facilidades concedidas ao ingresso dos panos ingleses em Portugal, onde prejudicariam o desenvolvimento das indústrias nacionais correspondentes... Não acreditava que tais concessões fossem necessárias à obtenção de tratamento privilegiado, na Inglaterra, para os vinhos portugueses.
Pag.20
(5)
Scherer: Histoire du Commerce de Toutes les Nations, Paris,
1902. Pag.125
Assim, em agosto de 1807, o
governo de Lisboa recebia a nota franco-espanhola exigindo que
Portugal declarasse guerra à Grã-Bretanha, fechasse seus portos aos
navios ingleses, retirasse seu representante em Londres e
determinasse a retirada do representante britânico em Lisboa,
prendesse os súditos ingleses no país e lhes confiscasse os bens. O
recebimento dessa nota chegou aos ouvidos do representante britânico
junto à Corte portuguesa, visconde Strangford, que começou a tomar
as providências que o caso exigia. A situação era dificílima para a
Corte de Lisboa: desde que os cruzados britânicos haviam ajudado na
luta pela
Pag.126 expulsão dos árabes para o sul e na conquista do porto no Tejo, a aliança anglo-lusa firmara-se em sucessivos episódios, claro que sempre em detrimento dos interesses portugueses, mas as concessões preservavam os privilégios da classe feudal do reino, ajudando-a a manter a sua primazia social. A partir da Restauração, em 1640, aquela aliança se definia em clara subordinação portuguesa ao expansionismo comercial britânico, perfeitamente caracterizada no tratado de 1654, que Cromwell impusera pela forca: no instrumento diplomático então firmado, Portugal obrigara-se a só comprar navios na Inglaterra
“A Grã-Bretanha baseara
sobre a ruína das outras marinhas mercantes e a absorção das
colônias de outras frações o seu almejado monopólio do comércio
marítimo, esclarece Oliveira Lima. O comércio tornara-se aliás Para
ela a primeira necessidade da sua vida econômica e o objetivo
capital da sua atividade que de agrícola, como era no século XVIII,
se transformara em industrial, mercê da reconstituição das grandes
propriedades de luxo e do Pag.128
A dominação inglesa sobre a
economia de Portugal era absoluta e vinha de longe: “Como a
Inglaterra pouco Pag.129
relativamente consumia dos
produtos agrícolas do Reino, houve o saldo que seria pago em ouro do
Brasil e assim foi aquela nação progressivamente açambarcando todo o
tráfico com Portugal, para aí exportando seu trigo, sua
quinquilharia, munições, navios e até capitais, os quais, tomados em
Londres a 3 ou 3 1/2
por cento,
eram emprestados em Lisboa a juros de 10 por cento. O próprio
comércio interior passou em boa parte para as casas da feitoria
inglesa, com seus correspondentes nas várias províncias. O ouro que
saía não era somente para pagamento do excedente das exportações
inglesas sobre as importações portuguesas: carregavam-no também os
navios de guerra britânicos, por contrabando, pois que tal
exportação era legalmente defesa”. Era, assim, tremenda a ameaça que
o ímpeto napoleônico, com a nota de 1807 ao governo de Lisboa,
colocava ante a Inglaterra, a de perder essa exploração antiga e
rendosa, a da metrópole, exercida diretamente, e a de suas colônias,
exercida indiretamente. A situação impunha providências radicais, em
defesa dos interesses ingleses, profundamente ameaçados; se não se
salvasse a primazia sobre a metrópole, cedendo esta aos franceses, a
colônia teria de ser ocupada.
Pag.131 ... representante do mercantilismo inglês em expansão, na fase preparatória do imperialismo. A diplomacia do imperialismo, aliás, não teria que inovar: os métodos empregados pelos seus diplomatas têm sido os mesmos de Strangford. Vamos ver esses métodos na prática, ao longo dos acontecimentos. O ambiente da Côrte de Lisboa, nos fins de 1807, era de perplexidade, quando não de pânico, oscilando as orientações, na indecisão dominante, entre a pressão francesa e a pressão britânica. Cronistas e historiadores têm narrado em detalhes os episódios grotescos, tristes e amargos que tal ambiente gerou. Não cabem aqui, pois não pertencem à história. As forças francesas marchavam sobre Lisboa, e as informações diárias eram desalentadoras. No estuário do Tejo, a esquadra inglesa estava pronta a agir pela força. Nesse quadro tumultuoso e confuso é que Strangford desenvolveu a sua ação pertinaz, brutal por vezes, para preservar os interesses britânicos, sèriamente ameaçados, não só pelas tropas de Junot, que avançavam rapidamente, como pela indecisão joanina, que tardava em optar. Strangford defendia a decisão da fuga para o Brasil, oferecendo a proteção da esquadra britânica. D. João aceitava a solução, às vezes, e às vezes a rejeitava, o protelava sempre. As opiniões do ministro inglês, entretanto, tinham extraordinário peso. Antônio de Araújo informava a D. João, a certa altura: Strangford está muito bem disposto a nosso favor; convém muito mandar dizer à Inglaterra que se conserve aqui este ministro, porque se mandassem extraordinàriamente lord Fitzgerald seria terrível”. 11 Isto quer dizer, em suma, que a Grã-Bretanha tinha gente mais dura que Strangford, para tais emergências. A impressão causada em toda a Europa pela ação desenvolvida em Copenhague, com o bombardeio da 11 Tobias Monteiro: op. cit., p.9 Pag.132
cidade e a captura da
esquadra dinamarquesa, fora penosa. Temia-se, em Lisboa, que se
repetisse ali o feito. A ação de Strangford não se resumia,
entretanto, em defender a solução da retirada para o Brasil, que
permitiria à Inglaterra subtrair a frota lusa ao apresamento pelas
forças francesas, liberando-a de repetir a ação de Copenhague, e
agora contra aliado tradicional e secular. Era preciso fazer pagar a
ajuda, pressionar no sentido de extrair o máximo de concessões
daquele governo transido, apertado de todos os lados, sem saídas,
sem possibilidades de resolver sozinho a situação. Foi nesse sentido
que, dentro de seus métodos costumeiros, Strangford desenvolveu
extraordinária atividade: os lucros ingleses no episódio foram,
realmente, vultosos. Do lado luso, as possibilidades de resistência
eram mínimas, quando muito restavam as de protelação.
Strangford sugeria a Canning
“que se aproveitasse a situação de desespero de Portugal para obter
vantagens comerciais excepcionais para a Inglaterra” . Havia mesmo
elaborado um plano, “mediante o qual Portugal concederia à
Grã-Bretanha o ‘direito de estabelecer casas comerciais no Brasil,
de exportar tecidos de algodão para os domínios portugueses, estando
nele prevista, igualmente, a revisão do tratado de 1654 e da Carta
dos Privilégios Ingleses num sentido mais favorável à Inglaterra’ ”
.12 A Corte inglesa exigiu a entrega da ilha da Madeira, para servir
de base naval, compensando a perda dos portos lusos, o que foi
concedido às pressas. Em fins de setembro, finalmente, foram
delegados ao representante luso em Londres, Sousa Coutinho, para
negociar a convenção secreta que presidiria as relações entre
Inglaterra e Portugal, até assinatura de tratado efetivo. A
convenção foi firmada a 22 de outubro de 1807: é a origem dos
acordos de 1810, como se verá. Que continha esse documento, de que
natureza era, que necessitava ter o caráter secreto?
Preliminarmente, a convenção constatava a necessidade do governo
luso fechar os portos portugueses à navegação britânica, para evitar
a guerra com a França; mas o governo inglês reconhecia as
dificuldades que levavam àquela decisão e se dispunha a ajudar o
governo luso a transferir para o Brasil a sede da monarquia
portuguesa,
Pag.133
evitando que caíssem nas
mãos dos franceses tanto as possessões lusas como os navios de
guerra e mercantes e as forças militares de Portugal. No texto, era
concedido à Inglaterra o direito de ocupar a ilha da Madeira, em
troca do auxílio que prestaria à retirada do governo luso Para o
Brasil, sob garantia da esquadra britânica, levados Para a colônia,
também, ou enviados para a Inglaterra, os navios de guerra e
mercantes portugueses; uma vez estabelecido no Brasil o governo
luso, a Inglaterra se comprometia a não reconhecer como rei de
Portugal outro príncipe que não fosse o herdeiro legítimo da Casa de
Bragança mas seriam iniciadas, então, negociações para a assinatura
de um tratado de comércio e de assistência entre a Inglaterra e
Portugal. Cláusula adicional estipulava que, caso fossem fechados os
portos lusos aos navios ingleses, seria estabelecido na ilha de
Santa Catarina, ou em qualquer outro ponto da costa brasileira,
porto pelo qual as mercadorias inglesas poderiam ser importadas pelo
governo ou por comerciantes, transportadas por navios ingleses,
sujeitas às mesmas taxas que pagavam até aí nas alfândegas de
Portugal. Note-se a localização, em Santa Catarina — considerando a
precariedade dos ancoradouros de São Pedro do Rio Grande do Sul — do
porto que os ingleses pleiteavam, o que conseguiam, pois a condição
estava realizada para isso: o fechamento dos portos lusos aos navios
britânicos. £>e Santa Catarina, as mercadorias inglesas poderiam
chegar, sem maiores dificuldades, à área platina.
Tais concessões haviam sido
discutidas por Strangford em Lisboa, nos atropelos terríveis da
preparação da fuga: “Acêrca das concessões na América, que o tratado
secreto de outubro previra — diz João Lúcio de Azevedo — tinha dito
o ministro dos Estrangeiros, Antônio de Araújo de Azevedo, que, no
caso de partir o príncipe com a família real, todas as dúvidas
desapareciam: não seria de igual parecer Strangford, de quem se
conta que, à última hora, já embarcado o Regente, tinha ido à nau
Medusa,
onde o ministro se
encontrava, fazer as exigências seguintes: aberturas dos portos do
Brasil ao comércio; cessão de um deles particularmente aos ingleses;
tarifa especial nas alfândegas, notávelmente reduzidas, para a
Grã-Bretanha. Mais ou menos o que a convenção secreta, além do
prometido, implicava. Na falta de acordo, o almirante Sidney Smith
não deixaria sair do Tejo a esquadra portuguesa. O príncipe e a
Pag.134
família real ficavam
prisioneiros dos franceses. ”13 Portugal teve de ceder a tudo: “A
posse do Brasil, de cuja riqueza dependia a metrópole, era a
preocupação máxima da Coroa e dos seus conselheiros; tudo se deveria
envidar para pô-lo a salvo ou nele procurar abrigo. ”14 Assim, “a
assinatura da convenção secreta de Londres havia estabelecido a base
jurídica de que Canning tinha necessidade para impor a proteção
britânica à ameaçada dinastia dos Bragança.”15 Como, apesar da
convenção secreta, a Côrte bragantina ainda hesitasse em partir ,
Canning instruiu Strangford e o almirante Sidney Smith que
obtivessem a decisão da fuga, “empregando todos os meios, quer de
persuasão, quer de ameaça”16.
Terminou, assim, a longa e tormentosa fase da indecisão. Quase de súbito, e no maior atropelo, tomaram-se as providências para o embarque da Corte, quando as notícias da aproximação das tropas de Junot traziam alarma a toda a população. Foi um salve-se quem puder trágico, amargo, característico do nível de degradação a que chegara o reino de Portugal sob o governo bragantino e de uma classe feudal inepta e corrupta. O espetáculo teve cores dantescas. Strangford descreveu-o, em correspondência dirigida a Canning: “capital encontrava-se num estado de tristeza tão sombria que era terrível em excesso para ser descrito. Bandos de homem armados e desconhecidos eram vistos vagueando pelas ruas, no mais completo silêncio, sem qualquer finalidade legal ou aparente e tudo parecia indicar que a partida do príncipe, se não fosse realizada imediatamente, seria retardada por tumultos populares, até que se tornasse impraticável pela chegada do exército
13 J
oão Lúcio de A zevedo:
op. cit., p . 452. Pag.135
cito francês. ’17 Foi êsse
ambiente trágico, em que um povo era abandonado pelos seus
governantes, preocupados apenas em salvar-se que Strangford achou
oportuno para defender “para a Inglaterra o direito de estabelecer
com o Brasil relações de soberano e de vassalo e de exigir
obediência a ser paga como o preço da proteção.”18
Era mesmo
indescritível o ambiente da cidade. As poucas versões que restam —
parece que a historiografia oficial se esmerou em ocultar os traços
desses dias terríveis não deixam a menor dúvida a respeito: “Quando
o povo teve a confirmação das suas desconfianças de tanto dias e viu
os preparos de toda a dinastia, de toda a Corte, a fim de escapar
aos perigos a que o abandonavam, quem pôde fugiu para o interior,
temendo ser a cidade bombardeada pelos ingleses, ou saqueada pelos
franceses. Até da esquadra russa, entrada recentemente, havia medo,
por desconfiar-se dos seus desígnios. Os que ficaram, encheram as
nuas, a chorar, desabafando a dor em imprecações de queixas e
desespero. A turba rodeava o visconde do Rio Seco, quando em marcha
para Belém, acusando-o de traidor e instrumento do seu martírio,
pedindo-lhe contas do chefe que os queria deixar ao desamparo,
expostos a tantos males. Ele explicava os acontecimentos do melhor
modo e procurava justificar o príncipe, cuja a influência em tudo
aquilo contestava. Ninguém o queria ouvir. Levaram-no de roldão, até
ser salvo pela guarda posta às suas ordens, mas após garantir que
ficaria em Lisboa, para servir de quarteleiro a Junot. Nesse
terrível momento, chegou sua família ao cais; mandou-a então voltar
à casa, o que acalmou aquela gente e convenceu-a de ser verdade
quanto ele dizia, tornando-lhe possível a evasão.”19
Era, além de tudo, um saque organizado, talvez o único e significativo detalhe de organização, levando a Corte tudo o que tinha valor, até objetos miúdos. Num país em que não se pagava há três meses o soldo dos militares, em que estava em atraso o pagamento dos funcionários e mesmo os juros da dívida pública, a Corte atemorizada carregava mais de oitenta milhões de cruzados, em ouro e diamantes, levado a metade do dinheiro circulante no reino. Em suas memórias, a mulher de Junot afirma que D. João
Pag.136
quisera levar até a prata
das igrejas, dissuadido por Araújo, que lhe lembrou o péssimo efeito
que teria isso no espírito religioso da nação.20 O comandante
francês, que parecia sequioso de encontrar as riquezas que tão bem
conhecia, sofreu decepção desconsoladora: “Apesar dos repetidos
protestos de honestidade com que Junot acompanhava a remessa, de
Lisboa para a mulher, em Paris, de colares de pedras preciosas que
dizia não serem produto da pilhagem de guerra mas comprados com o
seu dinheiro, vê-se que não foi pequeno o seu desapontamento ao
encontrar vazios e bem vazios os cofres do Paço. “Quanto aos
diamantes Era uma Corte corrupta, expressão de uma classe dominante corrupta, envilecida na exploração colonial, despojada de sentimento patriótico, inteiramente aferrada apenas aos seus interesses, que colocava acima de tudo, pronta a sacrificar os de sua gente, os do povo que, abandonado à sua sorte, chorava ou se enfurecia nas ruas, enquanto as forças invasoras se adentravam no reino, prelibando seus chefes as delícias da conquista e do saque. Já o embarque da Corte definia com eloquência a situação: o Regente seguiu disfarçado para o cais, temeroso das turbas, dissuadido de despedir-se de seus vassalos pelos áulicos que conheciam o clima do povo e temiam suas manifestações. As tropas recusavam obedecer a ordem de embarque, começou a debandada e alguns regimentos dissolveram-se. D. João apareceu, em carruagem fechada, com o cocheiro sem a libré da Corte; trazia apenas um criado e não havia ninguém a recebê-lo no cais. Cabos da guarda de polícia lançaram
Pag.137
pranchas sobre a lama para que lhe fosse possível apear, e levaram-no a braços até à embarcação. O povo, segundo testemunhos fidedignos, afluía à beira do cais e apupava os fugitivos.
A confusão reinava por toda
a parte. Muita gente quis embarcar à força. Memórias de um militar
inglês, que presenciou o triste espetáculo, mencionam senhoras de
distinção que se afogaram ao entrarem pela água a dentro para
alcançarem os botes que as transportassem para os navios onde já não
havia mais lugar para os fugitivos. “Vagando tumultuàriamente pelas
praças, e ruas, e sem acreditar mesmo no que via, desafogava em
lágrimas e imprecações a opressão dolorosa, que lhe abafava na arca
do peito o coração inchado de suspirar: tudo para ele era horror;
tudo mágoa; tudo saudade, e aquele nobre caráter de sofrimento, em
que tanto tem realçado acima de outros povos, quase degenerava em
desesperação!”22 É como pinta Oliveira Lima o ambiente da capital,
no dia do embarque da Corte.
Em meio a esse desvario, com
a desolação popular de um lado e a covardia afanosa na fuga de
outro, surgiu um detalhe de sensatez e de coragem, o da rainha mãe,
a demente D. Maria I: “Pela primeira vez, após dezesseis anos de
reclusão, D . Maria respirou o ar livre das ruas, por onde rolava às
pressas o coche que a conduzia. Pareceu então voltar-lhe a luz da
inteligência. “Não corram tanto! acreditarão que estamos fugindo”.
Dir-se-ia adivinhar as razões daquela mudança. No cais, passaram-na
para uma cadeirinha, onde continuava a gritar, como era seu costume:
“Porque fugir sem ter combatido?” Foi preciso constrangê-la a
embarcar.”23 Essa demente forneceu, sem dúvida, a única nota de
lucidez e de virilidade, em todo o doloroso transe. Na manhã de 29
de novembro, sob escolta inglesa, em trinta e seis navios, com cerca
de quinze mil válidos, a Corte portuguesa abandonava o país.
Strangford acompanhou a frota até à altura da Madeira onde, a 5 de
dezembro, deixava a ilustre companhia, dirigindo-se à Inglaterra. Ia
prestar contas de seus serviços
Na véspera, Junot deixara
Sacavem, com uma vanguarda reduzida a quatorze homens e um exército
que, com os seus mil e duzentos soldados, restos da tropa de mais de
Pag.138 vinte e três mil com que se deslocara de Bayonne, parecia “sombrio rebutalho”, cujas possibilidades de combate eram mínimas. “Sem cavalaria, artilharia, munições, sapatos ou gêneros alimentícios, cambaleando de cansaço, a tropa parecia mais a evacuação de um hospital, do que um exército que marchava triunfalmente para a conquista de um reino . ”24 Qualquer tropilha aguerrida o teria detido e derrotado. Se o Regente quisesse mobilizar o seu povo, encontraria as fontes de resistência, que lhe permitiriam um instante de grandeza. Mas não podia: a infelicidade das classes dominantes decadentes está justamente em não poder apelar para o povo, preferindo, antes, receber a “ajuda” de estrangeiros e empreender o caminho da fuga. Que a classe dominante lusa não tinha o mínimo de condições de lutar pela pátria, que não dava valor, segundo o juízo acertado e exato da duquesa de Abrantes, a essa palavra, que lhe parecia vã, destituída de qualquer significação, provaria a sua atitude diante do invasor. “Um dos espetáculos mais tristes da invasão de Portugal — narra um historiador — foi a pusilanimidade da nobreza e a sua enternecida submissão ao conquistador. Numerosa deputação, quase toda composta de gente de alta estirpe, marchou para Bayonne, a fim de dar-lhe todas as mostras de fidelidade.”25 Segue-se a lista dos titulares, a nata da nobreza lusa, portando manifesto cujo servilismo faria corar o povo português, começando por chamá-lo “grande príncipe” e “poderoso gênio” . Essa gente, que impossibilitara a resistência, voltava-se, agora, e só agora, contra o Regente fugitivo, condenando-o, e chegando ao cúmulo de submeter-se à prova, a critério dos franceses, se “eram dignos de formar uma nação” . Outra deputação, assinada por todos os titulares e fidalgos que se achavam em Lisboa, promovida por Junot — só o marques de Minas recusou-se a essa ignomínia — afirmava acolher-se sob “a magnânima proteção do herói do mundo, do árbitro dos reis e dos povos” ; seriam felizes, confessavam, “se pudessem ser considerados dignos de ser contados no número dos seus fiéis vassalos”, e concluíam, de forma abjeta: “seja V. M. quem nos dê um príncipe da sua escolha.”
24
A lan
K .
M
anchester:
British
Preeminence in Brasil,
Chapei Hill, 1933, p. 67.
Serviriam a qualquer senhor,
pois. A manifestação da Universidade de Coimbra, de tão bajulatória,
seria qualificada pela duquesa de Abrantes de “obra prima de
adoração e humildade”. Mas o povo, este sim, sentiu vergonha. Logo
nos primeiros dias, apareceu morto um soldado francês, e a repulsa
encontrou meios variados de manifestar-se. Com a Corte foragida, o
país levantou-se, sem oficiais, sem chefes, sem armas, sem dinheiro.
Antes de encerrar-se aquele mesmo ano de 1808, com a cooperação das
forças inglesas, o país seria libertado. A classe dominante, mais
uma vez, provaria ser digna da Coroa que fugira: uma, esta, assinara
a torpe convenção secreta de Londres, para salvar-se; outra, aquela,
não trepidara em arriar a bandeira nacional.26 Ambas eram
compatíveis com acordos internacionais do tipo daqueles que haviam
firmado, desde 1654, e que firmariam, em 1810. Soberania e povo,
sinônimos sempre, para tal classe, não tinham significação alguma. O
exemplo frutificou, ao longo do tempo, como sabemos, mas a abjeção
não pertence ao povo, que paga os ônus de tais acordos de submissão.
A Conquista Inglêsa
27
j . M . P
ereira da S
ilva:
História da Fundação do
Império Brasileiro,
2.a ed., 6 vols., Rio, 1877, p - 86/87, I.
Pag.140 absoluta propriedade, valendo-se de outros autores: “No meio de tal desordem, a autoridade diluía-se e a quebra da unidade e coesão do governo produzia efeitos desastrosos sobre todos os aparelhos do Estado. Um dos mais nocivos era a improbidade dos seus servidores, matéria a respeito da qual é para notar a unanimidade de conceitos entre os historiadores mais escrupulosos. ( ...) Os juízes ‘vendiam descaradamente a justiça, a qual, como as graças e mercês, andava posta em almoeda, não havendo mais que dois meios de conseguir os empregos, dinheiro e valimento’. Em todas as escalas da vida pública, roubava-se ‘sem vergonha nem consciência e o governo olhava para tudo isto com a maior indiferença, nada lhe importando com a desonra de seus empregados’ . Ao interesse geral, substituiu o egoísmo e nesse afrouxamento de todo estímulo patriótico, governo e nação passaram a flutuar entre a influência das duas nações mais poderosas, a Inglaterra e a França, que se aproveitavam dessa deliquescência para impor as condições do seu apoio ou proteção e exigir tudo quanto convinha aos interesses de uma contra a outra.”28 Foi esse ambiente de corrupção que a Corte trasladou ao Brasil, ampliando consideràvelmente o da administração colonial, que primava em copiar o modelo metropolitano, nesse particular. Os acordos de comércio, entre outras consequências, tinham essa, a de fomentar a corrupção. O jornal luso publicado em Londres, O Português, comentaria que podia ser calculada em milhões de cruzados a diferença que se poderia obter de lucros com o restabelecimento de verdadeira reciprocidade, quando a figurada nos tratados era rematadamente falsa. “Mediante essa diferença — comenta Oliveira Lima — se poderia robustecer o erário público, vazio ao ponto acerbamente comentado pelo citado periódico, de oficiais da marinha real terem que mendigar por não receberem seus soldos, de funcionários civis buscarem na desonestidade o que lhes escasseava em adequada remuneração. Os abusos, porém, tinham se criado à sombra do regime e a sua extirpação radical significaria a morte do mesmo regime. A corrupção medrava escandalosa e tanto contribuía para aumentar as despesas, como contribuía o contrabando para diminuir as rendas. No velho reino, acoitavam-se nos palácios da fidalguia
28 T o b ia s M o n t e ir o
: o p . c i t . , p . 2 4 3 /2 4 4 , I .
Pag.141
ninhos de contrabandistas,
que eram os próprios criados da casa, por vezes partilhando os amos
dos seus ganhos ilícitos . Foi a prevaricação, que era a essência
mesma da administração portuguesa, que adulterou os fins da fundação
do Banco do Brasil nessa época, fazendo do estabelecimento uma
simples sucursal do tesouro para emissão das notas com que cobrir as
necessidades do erário, quando fora destinado a facilitar as
transações comerciais que a abertura dos portos devia alargar,
organizar o crédito bancário com a multiplicação dos escassos
capitais, e dar incremento à agricultura brasileira.”29
Oliveira Lima mostra bem
como a corrupção se alastrou, aqui, com o advento da Corte: “A
honestidade não era, como já houve ensejo de recordar, um traço
característico da sociedade brasileira em tempo d’El-Rei Dom João
VI. Indivíduos honestos, e no máximo grau, certamente se
encontravam, mas não com a desejável frequência. No Tesouro refere
Luccock ser tamanha a falta de escrúpulos que correntemente se
deduziam prêmios — uma vez chegou a forçada redução a 17% do total —
sobre as quantias pagas ou sacadas. Note-se que tais prêmios não
eram exigidos pelo fisco, mas extorquidos pelos empregados para
darem andamento a um expediente que se tornara sumamente moroso e
complicado sob essa comandita de funcionários infiéis. Verdade é
que, ao passo que as prodigalidades da ucharia se pagavam
pontualmente, esses funcionários da nação andavam com atraso de nove
a dozemeses nos seus salários, sendo muitos assim compelidos a
dependerem da fraude para a sua subsistência, para os fornecimentos
era preferido quem mais desse de luvas. Nos anos imediatamente
anteriores à partida da Corte para Lisboa, as coisas sob este
aspecto pioraram muito no dizer do mencionado negociante inglês.
Eram notórios os escândalos, frequentes as concussões, e a advocacia
administrativa pululava, trabalhando sem rebuço os agentes ou
corretores, que nos negócios em que o Estado tinha parte se
interpunham com o fim de receberem comissões. ”30
Tobias Monteiro confirma tudo isso: “A transplantação da família real não mudou a face das coisas e estendeu até aí os males que minavam a metrópole. O ministro da Áustria
29
O
liveira Lim
a :
op. cit., p.
432, n . »o Idem, p. 395/396, II.
Pag.142 tria, barão Sturmer, refere-se à ‘venalidade dos homens de posição’ . SaintHilaire, cuja simpatia pelo novo reino era tão franca, escreveu estas palavras de fogo: . .os exemplos de relaxamento de costumes dados pela Corte de Portugal, durante a sua permanência no Rio de Janeiro, e a venalidade que introduziu por toda parte concorreram ainda para a corrupção g e r a l . ‘A venalidade caracteriza o pessoal da justiça’. Silva Arêas, cronista epistolar dessa época, define-a nesta síntese: ".. .mais prevaricação, mais dilapidação e mais loucuras não é possível haver.”31 Uma das formas usuais da corrupção estava nos títulos. D. João multiplicou-os, prodigamente, concedendo-os a “plebeus enricados pelas suas ligações com o Estado”.
Oliveira Lima observa, a
esse respeito: “Os indivíduos enobrecidos, agraciados com hábitos e
comendas, entenderiam não lhes quadrar mais comerciar, sim viver das
suas rendas ou, melhor ainda, obter emprego do Estado.
Avolumar-se-ia desta forma o número de funcionários públicos, com
grande despeito e pronunciado rancor dos emigrantes burocratas do
reino, que tinham acompanhado a família real ou chegavam seduzidos
por essas colocações em que as fraudes multiplicavam os ganhos
lícitos, muito pouco remuneradores” .32 O historiador pernambucano
observa ainda que aos lusos de nascimento pertenciam os postos
superiores militares, o que não era apenas medida de segurança, mas
necessidade em distribuir postos aos válidos. Porque a tropa era mal
paga: “Os soldados faziam exercício somente uma vez por mês e, além
de andar sempre em atraso o pagamento dos soldos, eram tão mal
remunerados que precisavam, para se poderem manter e às famílias,
trabalhar noutros misteres, dividindo os seus lucros com os oficiais
os quais, a troco da espórtula, fechavam os olhos à vil
irregularidade de serem os soldados do rei ao mesmo tempo
sapateiros, pescadores, etc.” 33
Alguns desses agraciados, pensionistas dos cofres públicos além do mais, provocaram escândalo: um deles, Bento Maria Targini, feito barão e elevado a visconde de São Lourenço, tinha os seus feitos glosados em versos populares: “Quem furta pouco é ladrão,/Quem furta muito é barão,/Quem mais furta e esconde/Passa de barão a visconde
31 T obias M
onteiro: op.
cit.,
p . 245. Pag.143 conde” . Outros modificavam os dois versos finais e cantavam-nos assim: “Quem furta e não esconde/Passa de ladrão a visconde” .34 Marrocos reproduziu outros versos, a respeito de Targini: “Furta Azevedo no Paço,/Targini rouba no Eráno;/E o povo aflito carrega/Pesada cruz ao calvário”35 Francisco Rufino de Sousa Lobato, “cuja devoção ao príncipe não conhecia limites, por causa daquelas condescendências que talvez apenas reputasse uma forma de serviço manual”, no dizer malicioso de Tobias Monteiro, foi elevado a visconde, feito tenente-general e governador de Santa Cruz, despertando, como Targini, e por outros motivos, comentários que corriam a cidade.36 O ministro americano Sumter, observador agudo, referiu o problema: “Os europeus que com ele emigraram, dependem da sua munificência para uma subsistência que só lhes pode dar fornecida às custas dos brasileiros. Os válidos já são, ao que se diz, impopulares por este motivo e semelhante indisposição de que são alvo poderá vir afetar a família real” .37 Aqui cabe o juízo exato de Oliveira Lima: “A época de Dom João VI estava contudo destinada a ser na história brasileira, pelo que diz respeito à administração, uma era de muita corrupção e peculato, e quanto aos costumes privados uma era de muita depravação e frouxidão, alimentadas pela escravidão e pela licenciosidade. Seria preciso que soprasse o forte vento regenerador da Independência e dispersasse essas nuvens carrancudas, para se entrever uma nesga do firmamento azul” .38 Esse clima de corrupção facilitaria, naturalmente, as manobras inglesas, visando concessões as mais amplas. Strangford, em Lisboa, não escondera a Araújo os seus propósitos a tal respeito: “Strangford, refletindo a preocupação de Canning, nunca deixou de insistir com o Gabinete de Lisboa, sobre a urgência e a necessidade de ser aberto o Brasil à exploração comercial da Inglaterra. Com a petulância característica da mentalidade política inglesa daquela época, a entrega do mercado colonial era exigida
Pag.144
como uma ‘compensação’ pelo
fato de que, com a invasão francesa, a Inglaterra teve de perder os
bons negócios que vinha realizando na mãe-pátria. A insistência de
Strangford, repisando sempre a mesma tecla, repetindo com a maior
frequência a mesma reclamação, por um processo psicológico muito
conhecido, acabou por gerar no espírito do príncipe Regente e no dos
seus ministros a convicção de que Portugal, de fato, estava no dever
e na obrigação de ‘compensar’ a Inglaterra pelos prejuízos
decorrentes da cessação temporária do comércio anglo-luso”39
As diretrizes da política
inglesa sofriam mudança significativa, nessa época: já não
interessava a conquista e a ocupação, que fora o traço fundamental
da expansão peculiar ao capital comercial, que Espanha e Portugal
tanto haviam desenvolvido. A fase era, agora, de capitalismo mesmo,
e a posse territorial deixara de interessar, deixara de ser
essencial. Humphreys define, e com a habitual clareza britânica, o
problema: “As invasões do Rio da Prata constituíram, para a
Grã-Bretanha, alguma coisa mais do que um infeliz episódio da
tentativa da abertura da América Latina ao comércio britânico. Em
1807 e em 1808, expedições foram desejadas e outras foram planejadas
contra Buenos Aires e contra o México, mas seus objetivos eram a
emancipação e não a subjugação. Daí por diante, a Grã-
39 Caio de F reitas: op.
cit., p . 144, I . Pag.145 Claro que essa orientação era extraordinàriamente facilitada, quanto ao Brasil, colônia de Portugal, pelas relações tradicionais, e pelos compromissos recentes, entre a metrópole e a Inglaterra: aqui a forca era desnecessária, como instrumento. Tudo podia ser obtido por negociações, cujas bases estavam lançadas e que vinham sendo ajudadas pelas circunstâncias, inclusive a de estar a metrópole sob ocupação francesa e, portanto, não poder proporcionar lucros de comércio à Coroa, dela distante. O que restava, no fim de contas, era conseguir estabelecer, em relação ao Brasil, aquelas relações de soberano e de Vassalo e de exigir obediência a ser paga como preço da proteção, a que o ministro Strangford se referira, em sua correspondência com Canning, ainda em Lisboa.
Conquistada essa posição no
Brasil, partiria a Inglaterra para o lance seguinte: fazendo base
aqui', lançar-se à conquista do mercado platino, nas melhores
condições, e, conforme as circunstâncias, utilizando Portugal e o
Brasil para alcançar os seus desígnios. A ideia do porto em Santa
Catarina obedecia a esse intuito: a diplomacia britânica, como o
jogador de xadrez, cuidava sempre dos lances futuros.
Pag.151
As instruções trazidas por
Strangford eram minuciosas e claras. Tratava-se, para a Inglaterra,
segundo aquelas instruções, de manter os tratados anteriores, cuja
renovação específica devia ser mencionada em qualquer nôvo
instrumento diplomático. A Inglaterra pleiteava, agora, a
permanência ilimitada de uma esquadra britânica no litoral
brasileiro, conquanto desejasse que êsse prazo fôsse fixado e
prolongado por ajustes sucessivos. Era, em suma, a “admissão, não
somente dos específicos navios que compunham a esquadra, mas de
todos os navios de guerra de Sua Majestade Britânica, sem limitação
de número, em todos os portos dos domínios americanos de Sua Alteza
Real, com liberdade de se abastecerem e de sofrerem reparos” .49 Os
portos brasileiros seriam, assim, transformados em bases navais
britânicas.
Das instruções constava,
ainda, que não interessava à Inglaterra o retorno próximo da Corte a
Portugal, pois isso importaria em revisão dos acordos alcançados com
a transferência daquela Corte ao Brasil; nesse sentido, as
instruções eram concludentes: “Sua Majestade Britânica
Pag.152 cumprirá sua obrigação de não reconhecer o título de qualquer usurpador do trono português, mas não se encontra com disposição, no momento, de se comprometer sobre a sua restituição legal ao seu legítimo soberano” .50 A Corte joanina, assim, era constituída prisioneira dos ingleses, com a colônia por menagem. Como só poderia retornar com o apoio da esquadra britânica, e como só se poderia manter em Portugal, face ao povo e face aos inimigos externos, com a aliança inglesa, o aprisionamento não tinha limites. Pag. 185 A Confederação do Equador Para compreender com clareza o grave problema das rebeliões que abalaram o país recém autônomo... O que o diferencia ... do que é hoje, está no fato de que a preponderância econômica e demográfica pertencia ao norte e nordeste, e não ao centro-sul, onde a monarquia tinha sede.
... É difícil estabelecer comparações entre situações
históricas diversas, em que ocorrem fatos idênticos... O absolutismo encontrava, assim, fortes e generalizadas resistências, que se matizavam em gradações diversas, desde as que guardavam respeito ao Imperador, de tudo culpando o Gabinete, até aquelas que optavam por novo regime, o republicano. Para reduzir tais resistências, as possibilidades do governo central eram fracas: faltavam-lhe meios materiais e forças militares para enfrentar problemas que se denunciavam em diversas e distantes regiões.
Pag.189 ... Para isso, o governo de D. Pedro lançaria mão da tropa mercenária, enquanto empreendia negociações para obter empréstimo externo. A repressão, assim, seria financiada pelo estrangeiro... disputando a Inglaterra e a França um lugar nos oferecimentos,quer os materiais quer os da tropa. A Constituinte opusera fortes resistências à solução do empréstimo externo... Dissolvida a Constituinte, o obstáculo desaparecera. Brant fora enviado à Inglaterra para concretizar a medida. Conseguiu contratar o recebimento de parcela de um milhão de libras, a 20 de agosto de 1824. Foi com esse dinheiro que se montou a repressão no Brasil. E não só
Pag.190 Pag.192 separadamente e assentando os golpes na ação marítima, de um lado, e no apoio de elementos locais, os do latifúndio, de outro lado. Pag.206 ... A prorrogação, em 1827, por mais quinze anos, dos acordos de 1810 com a Inglaterra, abrira o mercado interno, com algumas áreas de consumo já ponderáveis, à expansão britânica, inutilizando as possibilidades de avanço do artesanato brasileiro, que lhe poderiam permitir adiante a passagem à manufatura. De sorte que as atividades produtivas resumiam-se à agricultura, àquelas que tinham como traços fundamentais a grande propriedade e o trabalho escravo, produzindo para exportar.
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