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Projet de Recherche: "Brazil" Géopolitique de la Corruption Bibliographie |
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SODRÉ, Nelson
Werneck.
História Militar do Brasil
São Paulo: Ed. Expressão Popular. 2010.
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Pag.07 UM CLÁSSICO
MAIS QUE Paulo Ribeiro da Cunha(1) Na virada do milênio, alguns acontecimentos se apresentam como pontos de partida para uma reflexão. Em 2009, muitos analistas comemoraram a vitória do capitalismo e o consequente esgotamento das formas de transição ao socialismo, tal como ele foi expresso no Leste europeu. No mesmo ano, pouco tempo depois daquelas precoces comemorações, entraria em colapso o modelo do neoliberalismo, que trouxe à luz alguns questionamentos, em especial, o de evitar referenciar reducionismos teóricos e analíticos como o do “fim da história”, tese que ganhou contornos de profecia; social e politicamente catastrófica para a humanidade, a experiência neoliberal seria a pá de cal naqueles analistas que sustentavam a leitura de uma preponderância da mão invisível do mercado associada à ideia do Estado mínimo. À história tem suas armadilhas. (1)
Professor de Teoria Política da FEC/Unesp - Marília.
Pag.09
Pag.14 A atual
agenda política - com a queda do neoliberalismo em 2009 -, em alguma
medida, não difere daquela em que ele esteve envolvido em 1964; aliás, o
neoliberalismo é denunciado por ele como farsa, quando esteve em voga
nos anos de 1990 em um de seus últimos livros (com o título, Farsa do
Neoliberalismo). Por essa razão, sua obra se apresenta como um
imperativo para repensar a nação, em que o papel do Estado ganha
centralidade e, com ele, a Pag.16 Contudo, esse
aspecto parece estar evoluindo no debate político no Brasil, havendo
inclusive um gradual consenso em qualificar o golpe de 1964 como
“civilmilitar” (e não somente golpe militar), em que pese, haja
manifestações condenáveis (muitas vindas de setores acadêmicos) que
procuram suavizar aquele período como “ditabranda”.
I O
aparecimento do mercado mundial, que o surto mercantil proporciona,
deriva da retomada do comércio entre à Europa e o Oriente, que a
expansão árabe reduzira ou impossibilitara, com o domínio do
Mediterrâneo.
... Portugal distinguiu-se, desde a sua autonomia, justamente por se ter antecipado no processo de unificação e, portanto, por ter gerado as condições em que o surto mercantil podia desenvolver-se. As lutas pela autonomia, como as lutas pela conquista territorial que, progressivamente, alijam os árabes e permitem ao novo reino uma base física mais ampla, são possíveis pelo estabelecimento, ainda cedo, da aliança entre a casa real e os grupos mercantis litorâneos, que viviam do abastecimento das frotas de cruzados e da troca entre a área do Mediterrâneo e a área do Mar do Norte. Em Portugal houve, assim, as condições, que só mais tarde surgiram em Pag.21 outros países, para que a atividade mercantil encontrasse garantias e perspectivas, concentrando-se no reino luso, por isso mesmo, os melhores recursos de que a Europa dispunha, no tempo, desde o material humano até as técnicas mais avançadas, oriundos de várias áreas do continente... ... A larga,
metódica e rendosa empresa do comércio ultramarino, -assim, que seria o
suporte da expansão navegadora de que resultaram as grandes descobertas
marítimas e a conquista de regiões até
Pg.22 então estranhas à produção e à troca, era uma empresa puramente mercantil, que se resumia em procurar as fontes de mercadorias e em transportar e distribuir essas mercadorias no mercado consumidor europeu. Para essa gigantesca empresa comercial, não se tratava de produzir - ela jamais se ocupou da produção - mas de trocar, tão somente de trocar. E os seus lucros, consequentemente, eram apenas aqueles obtidos na troca. Essa característica essencial do capital comercial explica como, na luta com a classe feudal, o grupo mercantil português acabará por ser derrotado, não tendo mesmo as condições para empreender sozinho a imensa tarefa que se apresenta quando se trata de preservar o domínio das áreas descobertas ou conquistadas em ultramar. A descoberta do Brasil, e a necessidade de preservá-lo da investida dos concorrentes, colocam um problema que o grupo mercantil português não estava em condições de resolver. Nessa nova terra, realmente, não havia produção organizada capaz de ser objeto de troca: o indígena produzia apenas para o seu consumo. Nem ela proporcionava produtos que fossem de interesse à troca cujo mercado consumidor era a Europa. Aqui, para preservar a posse era indispensável ocupar e, para ocupar, era necessário produzir. Ora, a empresa mercantil, responsável pela extraordinária façanha que fora a expansão navegadora ultramarina, não estava preparada para produzir, jamais se interessara pela produção... ... O progressivo debilitamento desse grupo mercantil vai exigir de Portugal, então, a associação, para à tarefa de preservar as suas conquistas ultramarinas, e o Brasil em particular, com outro país, suficientemente dotado de recursos para isso é passível de participação no comércio com os produtos da nova terra. Mas, para Pg.23 comerciar era
necessário produzir, e as condições do Brasil para se tornar área
produtora eram extremamente desfavoráveis.
Pg.24 Pg.25 manufatura desenvolvida permite a fabricação dos equipamentos que transformam o caldo de cana em açúcar, mercadoria sólida, suscetível de transporte e resguardada da deterioração, apta a ser consumida em regiões distantes da zona de produção... ... Como não interfere na área da produção, a Coroa delega os poderes administrativos e políticos. Fica ausente, assim, de sua área específica, aquela em que se exerce o chamado poder político, e a ordem privada absorverá a área em que aquele poder está ausente. O senhor de terras será, consequentemente, autoridade pública. Investido, inclusive, do poder militar, salvo no mar, para o que não tem possibilidades. Como o mar é a área da: circulação, e a circulação é monopólio da Coroa lusa, ela assegura as condições de escoamento das safras e garante a colônia contra as investidas oceânicas em grande escala... ... Da costa
para o mar alto, a defesa pertence à Coroa, que dispõe de poderio
marítimo, seu Pg.26 Quando aquela
aliança se rompe, será ele próprio, o antigo aliado, o inimigo, aquele
que se apresenta em força face à colônia e se apossa de grande parte
dela, a parte em que se estabeleceu a grande empresa produtora de
açúcar. Não delegava a Coroa aos donatários apenas poderes civis, tão
amplos que Varnhagen os chamou majestáticos, delegava ainda os Pg.78
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