BOURDIEU, Pierre in Ortiz.
Sociologia
São Paulo: Ed. Ática, 1983.

 
 

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As estruturas constitutivas de um tipo particular de meio (as condições materiais de existência características de uma condição de classe), que podem ser apreendidas empiricamente sob a forma de regularidades associadas a um meio socialmente estruturado, produzem habitus, sistemas

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de disposições (20) duráveis, estruturas ... predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como principio gerador e estruturador das praticas e das representações que podem ser objetivamente "reguladas" e "regulares" sem ser o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente dos fins e o  domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas, sem ser o  produto da ação organizadora de um regente.

No mesmo momento em que elas aparecem como determinadas pelo futuro, isto e, pelos fins explícitos e explicitamente colocados de urn projeto ou plano, as praticas que 0 habitus produz (enquanto principio gerador de estratégias que permitem fazer face a situa90es imprevisíveis e sem cessar renovadas) sao determinadas pela antecipa9ao implícita de suas conseqiiencias, isto e, pelas condi90es passadas da produção de seu principio de produção de modo que elas tendem a reproduzir as estruturas objetivas das quais elas são, em ultima analise, o produto. Assim, por exemplo, na interação entre dois agentes ou grupos de agentes
dotados dos mesmos
habitus (sejam A e B), tudo se passa como se as ações de cada um deles (seja a1 para A) se organizassem em relação às reações que essas ações exigem de todo agente dotado do mesmo habitus. (seja b1, reação de B a  a1)...

... 0 habitus está no principio de encadeamento das "ações" que são objetivamente organizadas como estratégias sem ser de modo algum  produto de uma verdadeira intenção estratégica (0 que suporia, por exemplo, que elas fossem apreendidas como uma estratégia entre outras possíveis)...

... as praticas que o
habitus produz (enquanto principio gerador de estratégias que permitem fazer face a situações imprevisíveis e sem cessar renovadas) são determinadas pela antecipação implícita de suas consequências,

... 0 habitus está no principio de encadeamento das "ações" que são objetivamente organizadas como estratégias sem ser de modo algum o produto de uma verdadeira intenção estratégica ...

Se nao esta de modo algum excluído que as respostas do habitus se acompanhem de um cálculo estratégico tendendo a realizar sob o modo quase consciente a opera9ao que o habitus realiza num outro modo,
 

(20) 20 A palavra disposição parece particularmente apropriada para exprimir o que recobre o conceito de habitus (definido como sistema de disposições): com efeito, ele exprime, em primeiro lugar, o resultado de uma ação organizadora, apresentando então um sentido próximo ao de palavras tais como estrutura; designa, por outro lado, uma maneira de ser, um estado habitual (em particular do corpo) e, em particular, uma predisposição, uma tendência, uma propensão ou uma inclinação.
 

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a saber, um cálculo das probabilidades que suponham a transformação do efeito passado em futuro esperado, resta que elas se definem em primeiro lugar em relação a um campo de potencialidades objetivas, imediatamente inscritas no presente, coisas a fazer ou a não fazer, a dizer ou a não dizer, em relação a um a vir que, ao contrário do futuro como "possibilidade absoluta" (absoluto Möglichkeit), no sentido de Hegel ... se propõe com urgência e pretensão a existir exc1uindo a deliberação.
 

os agentes ajustam conscientemente suas aspirações a uma avaiia9iio exata de suas chances de sucesso, a maneira de urn jogador que arrumaria seu jogo em fun~iio de uma informa9iio perfeita sobre suas chances de ganho,

Invertendo completamente a tendencia do objetivismo, podemos, ao contrario, procurar ~nas regras da constru~iio cientifica das probabilidades ou das estrategias niio urn modele antropol6gico da pratica, mas a descri,iio negativa das
regras implicitas da
estatistica espontanea que elas encerram necessariamente, porque elas se constroem explicitamente contra essas regras implicitas (por exemplo, a propensiio a privilegiar as primeiras experiencias) . Diferentemente do calculo das probabilidades que a ciencia constr6i metodicamente, com base em experiencias controladas e a partir de dados estabelecidos segundo regras precisas, a avalia~iio subjetiva das chances de sucesso de uma a9iio determinada numa situa9iio determinada faz intervir todo urn corpo de sabedoria semiformal, ditados,
 


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lugares-comuns, preceitos eticos ("nao e para nos") e, mais profundamente, £fincipios inconscientes do ethos, disposi9iio geral e transponivel que, sendo 0 produto de urn aprendizado dominado por um tipo
determinado de regularidades objetivas, determina as condutas "razoaveis" ou "absurdas" (as loucuras) para qualquer agente submetido a
essas regularidades


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... Pelo fato de que a identidade das condições de existência tende a produzir sistemas de disposições semelhantes (pelo menos parcialmente), a homogeneidade (relativa) dos habitus que delas resulta esta no principio de uma harmonização objetiva das praticas e das obras, harmonização esta própria a lhes conferir a regularidade e a objetividade que definem sua "racionalidade" especifica e que as fazem ser vividas como evidentes ou necessárias, isto é, como imediatamente inteligíveis e previsíveis, por todos os agentes dotados do domínio pratico do sistema de esquemas de ação e interpretação objetivamente implicados na sua efetivação e por esses somente (quer dizer, por todos os membros do mesmo grupo ou da mesma classe, produtos de condições objetivas idênticas que estão destinadas a exercer simultaneamente um efeito de universalização e de particularização na medida em que elas só homogeneízam os membros de um grupo distinguindo-os de todos os

 

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